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Profissão de herança

História de: Nilton Francisco de Deus
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/05/2021

Sinopse

Infância no Jardim Silvia Maria. Brincadeiras na rua. Escola. Amizades. Primeiro emprego efetivo. Namoro. Paternidade. Trabalho de taxista. Transformação do bairro. Campeonato de truco. Trabalhos sociais da Braskem.

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História completa

P/1 – Nilton, queríamos agradecer muito a sua presença e a sua participação. Em primeiro lugar, gostaria que você falasse seu nome, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome completo é Nilton Francisco de Deus, nasci em São Caetano do Sul, São Paulo mesmo, em 7 de Dezembro de 1971.

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

 

R – São falecidos. Francisco de Deus Neto e dona Adélia Aparecida Moreira de Deus.

 

P/1 – E qual era a atividade deles?

 

R – O meu pai era taxista, eu herdei dele, hoje eu também sou taxista, e a minha mãe era professora. 

 

P/1 – E você lembra dos seus avós?

 

R – Eu lembro dos meus avós paternos porque os maternos faleceram quando eu era menor que a minha filha, eu tinha mais ou menos a idade dela [cinco anos]. Não tenho lembrança nenhuma dos maternos, só dos paternos. 

 

P/2 – Lembra o nome deles?

 

R – Dos paternos; seu João de Deus e dona Maria Doca, e dos maternos; Seu Antônio e a minha avó Dona Antônia.

 

P/1 – E de onde eles vieram?

 

R – Os paternos eram cearenses, meu pai também era cearense. Do lado da minha mãe eles eram do interior de São Paulo, como minha mãe também era, da região do Vale do Paraíba. 

 

P/1 – E como é que eles vieram parar aqui? Como é que foi?

 

R – Olha, eu sei que meu pai veio fugido do meu avô, ele trabalhava na roça e, aos dezessete anos, pegou seus panos, pôs numa bolsa e veio embora para São Paulo, com uma mão na frente e a outra atrás, atrás de trabalho e de se aventurar. E a minha mãe veio já formada e tudo, depois se casou com o meu pai, eles se conheceram através de amigos do meu tio e de um amigo deles. Foram apresentados na época de jovens, namoraram etc. e tal. Quando casou, meu pai trouxe a minha mãe pra cá. 

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Eu tenho duas irmãs, eu sou o mais velho. Tenho uma de trinta e oito, que mora no interior, em Cerquilho, e tenho uma de vinte e nove, a Nilza, que vai fazer trinta e mora aqui, na rua de trás. São casadas também. 

 

P/1 – E voltando para a sua infância, qual que é a primeira lembrança que você tem de quando era pequeno? Do que você brincava?

 

R – Nossa! Na época, esse lugar aqui não tinha esse monte de casa, hoje não se acha quase nenhum terreno para comprar aqui. Isso aqui era, quando o meu pai e a minha compraram, meia dúzia de casa. E a gente brincava de tudo, até no riozinho, que hoje se você pôr o pé dentro cai o dedo, cai o pé, eu nadei. Eu andava de bicicleta, jogava bola, pião, fubeca, pipa, carrinho de rolimã... Tudo o que essa molecada de hoje não faz a gente fazia. Brincava-se mesmo na minha época. 

 

P/2 – O que é fubeca?

 

R – Fubeca é bolinha de gude (risos).

 

P/1 – Nilton, por que seus pais escolherem comprar terreno aqui, como que foi essa passagem, você morava em São Caetano?

 

R – Na verdade, eu nasci em São Caetano porque meus pais moravam na Vila Califórnia, que é divisa de São Paulo com São Caetano. Nasci em São Caetano e em 1973, quando esse polo partiu, de 1971 para 1972, meu pai e a minha mãe compraram o terreno onde eu moro até hoje. Começaram a construir de 1973 para 1974, claro que eu não me lembro, eu tinha dois pra três anos de idade. Construíram isso aqui, onde a gente está [sala de estar] era o quarto, um banheiro e a cozinha, só. E começaram a construir e a viver, era tudo cercado com bambu. Tinha pé de abacate, pé de jambo, pé de amora, dois poços artesianos, um lá no fundo e outro na frente, porque aqui tem muita água. Tinha muita coisa natural, pé de banana, pé de cana, mas com o tempo passando foi-se criando casas, pavimentando etc. Isso aqui era tudo terra, não tinha ônibus, não tinha nada aqui. Para meu pai trabalhar ele tinha que ir até o Parque São Rafael andando quase vinte minutos a pé para poder pegar o ônibus, porque aqui não passava ônibus, não passava nada. Quando chovia muito o rio transbordava, meu pai já atravessou a nado, na década de setenta, começo de oitenta. Passou por um monte de bocado.

 

P/1 – E voltando às brincadeiras, com quem vocês brincavam? Com os vizinhos, seus familiares?

 

R – Vizinhos, porque aqui nós nunca tivemos parentes. Era eu, meu pai, minha mãe e minha irmã que era bebê quando viemos pra cá. Claro que eu não me lembro, mas depois eu comecei a crescer e de seis anos em diante eu tenho lembrança. Eu brincava com as vizinhanças, os mais antigos, com trinta e cinco, quarenta anos de bairro pra mais. Brincava com a molecada vizinha, um na casa do outro e na rua e tal. Brincava desse jeito. 

 

P/2 – E tinha alguma brincadeira que era a preferida?

 

R – Não, não. Brincava, na medida do possível, no que dava vontade no dia; brincava de bicicleta quando tinha, brincava de bola, pião, bolinha de gude, que é a fubeca, soltava pipa e ia diversificando, era o que dava para fazer.

 

P/1 – E você lembra de alguma história especial, algum caso da sua infância, alguma molecagem que vocês fizeram? 

 

R – Tem uma coisa até meio cômica... A gente era moleque, tipo dez, doze anos, disso para menos, nós estávamos nadando no riozinho ali embaixo. E a molecada deixava o shortão e ia nu. Aí, uns marmanjos que vieram do outro lado, do Parque São Rafael, cataram todas as nossas roupas e deixaram a gente lá, não podíamos sair. Eles ficaram do outro lado dando risada. Esperaram escurecer, a gente já chorando, pedindo pelo amor de Deus. Aí, vieram, devolveram as nossas roupas, nos vestimos e viemos embora. Isso meio que fica na memória. De vez em quando a gente se encontra, tenho muitos amigos, já mudaram, e faz um flashback, lembra dessas coisas... Briga de moleque, essas coisas que sempre marcam, coisa que rolava na época porque não existia violência igual hoje, era tranquilo. Mas isso foi tranquilo, não sai da memória porque foi engraçado, cômico. Acho que a gente ficou umas quatro horas lá, esperando os caras devolverem nossas roupas. 

 

P/2 – E, Nilton, como é que era ir para escola, a lembrança da primeira professora? 

 

R – Eu lembro. Eu estudei aqui, no colégio do bairro. Na primeira série, só na segunda que não porque nós mudamos um ano e ficamos morando perto do Parque das Nações, voltamos porque não deu certo, meu pai, na época, tinha um bar lá. A terceira e a quarta série também fiz aqui, estudar aqui foi muito bom. Da quinta à oitava eu fui para outra escola, aqui no Ana Maria, em Santo André, bem próximo. Aí, no colegial voltei novamente e me formei aqui também. Sempre estudei aí, só um período fora, mas os extremos; do Primário ao Médio, me formei nesse colégio, Josefina. Inclusive, minha mãe deu aula lá por muito tempo, até ela falecer. 

 

P/2 – E como é que era ter uma mãe professora?

 

R – Ah, era meio diferente, na época de pivetinho, molequinho, todo mundo falava “é o filho da professora”, molecada, bobagem. Mas era legal, meio que normal, só era ruim quando ela vinha dar aula pra mim. 

 

P/2 – Ah, ela chegou a te dar aula?

 

R – De vez em quando dava porque tinha negócio de mudança de professor. Quando um professor faltava reunia duas classes, se eu caísse na classe da minha mãe e fizesse alguma coisa lá, depois ela vinha em casa e pagava o pau. Mas era legal. 

 

P/2 – E como você ia para o colégio? 

 

R – Ia a pé, ia e voltava porque daqui para lá dá uns dez minutos, nem isso. Ia bagunçando e voltava bagunçando com a molecada. Era legal. 

 

P/1 – Nilton, e essa história de que nos tempos que a sua mãe dava aula a escola era muito mais animada, tinha muito mais coisa que acontecia...

 

R – Com o passar do tempo essas festas que existiam foram perdendo a magia. Era Festa Junina, festa de Dia das Crianças, até Dia do Professor era comemorado, um monte de coisa. E, na época, a comunidade era mais unida, mais interligada, era muito legal. E outra, não tinha opção, era a escola e tudo era a escola, e quando tinha festa, Nossa Senhora! Era um acontecimento. Então, era muito legal, era divertido pra caramba, tinha gincana, um monte de coisa. Hoje, nem aula à noite mais tem aí! O negócio tá meio... Bem diferente do que foi, acho que antigamente era bem melhor. 

 

P/1 – E vocês tinham uniforme?

 

R – Na época usava-se avental. A molecada usava avental, não sei dizer o nome, mas com botão, gola, bolso com o logotipo da escola. Interessante. Hoje em dia eu vejo a molecadinha, eles vão de camiseta, usam até uma camiseta vermelha nesse colégio aqui, mas isso aí não faz muito tempo não. Começou acho que há uns três ou quatro anos, mas antes disso não se usava nada, ia de qualquer roupa. Mas na minha época era com avental, a gente não gostava muito não, mas tinha que usar.

 

P/1 – Que atividades, qual que era a sua matéria preferida?

 

R – Vou ser sincero, estudar nunca foi o meu forte não. Mas eu me dava melhor, sei lá, em Matemática, acho que Exatas, eu tinha certa facilidade e eu escrevia razoavelmente bem. Português, redação, eu sempre ia bem. Acho que essas duas aí. 

 

P/2 – E, Nilton, você jogava bola? Já era corinthiano?

 

R – Não, na verdade eu brincava de bola na rua e eu nunca fui bom de bola, não, sempre fui pernetão (risos). Eu tinha uns amigos que jogavam muito bem, tal. Teve cara, amigo meu, que já foi até profissional. Mas eu sempre fui perneta; meu negócio mais era bicicleta. Sempre gostei de bicicleta, mas jogava porque a maioria jogava, eu ia lá e era sempre um dos últimos a ser escolhido porque eu sempre fui ruim de bola. Mas do Corinthians quem me ensinou a gostar foi meu pai, mas não sou fanaticão, não. Jamais vou brigar por causa disso, mas eu gosto de acompanhar.

 

P/1 – Seu pai chegou a te levar num jogo?

 

R – Não, meu pai, não. Mas eu fui por intermédio dele, a primeira vez que eu fui no estádio eu fui foi com um amigo dele que na época me levou. A primeira vez que eu fui, se eu não estou enganado, eu tinha uns doze anos, foi logo no Morumbi, um estádio gigantesco, fiquei abismado. E nem fui para ver o Corinthians, fui para ver, acho que, São Paulo e outro time lá, que eu não vou me lembrar. Eu achei legal porque foi a primeira vez que eu fui, mas depois de grande eu fui muitas e muitas vezes, sempre para ver o Corinthians, Já levei meu filho, a minha filha ainda não foi, mas pretendo levar, levei minha mulher quando a gente ainda namorava, minhas irmãs... Já fui várias vezes. 

 

P/1 – Onde você andava de bicicleta?

 

R – Eu ia para todo lado; de bicicleta a gente ia para todo lado. Tinha uma molecada aí, a gente fez um grupinho de oito, dez moleques na época, e a gente tinha uma organização, um padrão, tinha até caixa de ferramenta, peças usadas que davam para aproveitar a gente guardava, coisa e tal. Um ajuda a arrumar a bicicleta do outro e a gente andava muito! Todo domingo a gente ia para São Bernardo numa pista que existia lá de skate andar e tal. Ia para Santo André, ia para todo lado, onde você imaginar. A gente saía de manhã, vou falar para você, voltava no fim da tarde já, andando de bicicleta por aí. 

 

P/1 – E, além da bicicleta, o que mais vocês faziam? 

 

R – Então, depois que começou de doze para catorze anos, já cresce um pouquinho mais, aí já começa a ir atrás de uma menininha ali, bailinho. Na época existia muita festinha na casa de um ou de outro. A molecada falava: “Hoje tem festa, aniversário de Fulano”, bailinho na casa de sicrano e não sei o quê. E gente fazia isso para se unir, para se reunir e tal. Ia sempre nas quermesses, sempre teve a quermesse na igreja do Sônia, nem existia essa igreja aqui de cima ainda [Rua Carmem Miranda], existia só a do Sônia Maria lá embaixo. Quando tinha quermesse, Nossa Senhora, era isso que o bairro tinha, não oferecia muita coisa não.

 

P/1 – E como eram as quermesses?

 

R – Ah, tinha lá um ou outro que ia cantar lá, era tipo uma seresta, moda de viola, essas coisas, ou de vez em quando rolava um disquinho ali, tinha um festivalzinho na época de passinho de música. Valia um disco ou um prêmio qualquer e tinha bingo e tinha tudo o que uma quermesse mais antiga tem. Era legal porque era o lugar que ia toda a comunidade dos dois bairros, todo mundo ia, e vinha até gente de outros bairros, era animado, era o que a gente gostava de fazer, o nosso lazer era mais ou menos esse aí. 

 

P/1 – E esses bailinhos como que eram, assim?

 

R – Os bailinhos eram legais porque, como a gente era jovem e tal, ficava de olho nas menininhas. Quando dava, dava, quando não dava, voltava chupando o dedo. Mas ia lá mais para se divertir mesmo, tomar um quentãozinho, um negocinho, uma coisinha. Na época nem cerveja a gente bebia praticamente, era mais para se reunir mesmo, coisa de adolescente, essa fase de criança para adolescente.

 

P/1 – E já na fase de adolescente para adulto, como foi o seu primeiro emprego, você lembra?

 

R – Na verdade eu trabalho desde os sete anos de idade, quando o meu pai tinha bar lá no Parque das Nações. Desde os sete anos eu trabalho, vamos dizer assim. Estudava sempre de manhã e trabalhava sempre à tarde, sempre. E o meu primeiro emprego mesmo, primeiro de verdade, eu fiz Senai, com catorze anos entrei no Senai, em São Bernardo, pela Volkswagen, a montadora. E com dezesseis para dezessete eu já me formei mecânico e trabalhei como mecânico de manutenção por dezessete anos. Até o fim de 2003 eu fui mecânico, trabalhei como mecânico de manutenção. Depois, houve uma demissão em massa lá, eu me afastei e depois de três meses comecei a trabalhar como táxi, janeiro de 2004 e é onde eu estou até então, vai fazer nove anos já nessa profissão nova.

 

P/1 – Teve alguma influência do seu pai nessa escolha?

 

R – Na verdade teve, foi obra do destino porque ele faleceu, morreu atropelado aqui, duas quadras abaixo daqui [Rua Carmem Miranda, Altura 1500], um caminhão pegou ele e, infelizmente, o levou. Foi atropelado por um cara em fuga em um caminhão roubado. E eu trabalhava na Volks na época, meu pai morreu em 2001, dia onze de Janeiro de 2001 e ficou parado o ponto, o carro, tudo. Na época eu ainda trabalhava na Volks, ficamos pagando as taxas que tinha etc. Quando aconteceu esse negócio do pacote, eu falei com as minhas irmãs, elas não se interessavam porque as duas são professoras, todas as mulheres da minha família, minha esposa, minha mãe, minhas irmãs são todas professoras. Eu falei com as duas, as duas não se interessavam, eu comprei a parte delas, negociamos, dividimos por três partes, peguei a parte delas do carro, o carro do meu pai ficou como inventário, o ponto ficou com a gente porque nós continuamos pagando certinho na Prefeitura as taxas e comecei a trabalhar, “vamos ver o que dá”, “Se não der, eu volto para fábrica, vou procurar emprego novamente”. Mas foi indo devagar, devagar e, graças a Deus, vai fazer nove anos que eu estou no novo emprego. 

 

P/1 – E, Nilton, como você aprendeu a dirigir? 

 

R – Ah, eu dirijo desde moleque, com doze anos eu já dirigia. Com doze anos eu já dirigia moto, o meu negócio sempre foi moto. Eu já andei muito mais de moto do que de carro, eu sempre gostei de moto, de bicicleta de moleque e depois moto, que é uma consequência, duas rodas, lado a lado. E, eu sempre dirigi escondido do meu pai. Ele não sabia, quem me ensinou foi um primo meu, na época, ele já era molecão, dezoito, dezenove anos e me ensinava. Ele tinha uma motoca velha lá, ele me ensinava e eu aprendi, desde os doze anos eu dirijo. 

 

P/1 – Voltando um pouquinho para sua adolescência, o campeonato de truco, queria que você comentasse.

 

R – O truco não é antigo, não. Quer dizer, a Liga já existe há muito tempo, há trinta anos que eu saiba, vinte e oito a trinta anos, é muito antiga. Agora a gente aqui do bairro, o time que eu participo é desde 2002, faz dez anos só. Eu tenho quarenta, então comecei a participar, realmente, com trinta anos. É bem legal, é interessante, bem organizado, tem um site, tem regras, paga-se taxa, joga-se aqui e lá, na casa do adversário e em casa. Tem rodada, tem tabela, é extremamente organizado, é muito legal. Para mim é uma higiene mental sensacional, você está ali e esquece de tudo, é muito legal porque você esquece dos problemas, esquece do dia a dia. É mais higiene mental, só que, aí, entra o lado de você querer ganhar, fica interessante, é uma competição, mas é bem sadia, é bem legal.

 

P/1 – E começa em que...

 

R – Costuma ser do mês de fevereiro até setembro, outubro, o campeonato principal. De outubro a dezembro, tem uma copinha, do lado de lá, que é Santo André, eles jogam entre eles e o lado nosso, que é os dois de cá, de Mauá, Sônia e Sílvia, com o time de Ribeirão e com o time da Zona Leste, Parque São Rafael, São Mateus, eles têm times também. Então, de outubro a dezembro, rola um minicampeonato que se chama copinha, que também vale troféu, um pouco menor e tal, menos empolgação, vamos dizer, mas é para não ficar sem fazer nada, mais quatro meses sem jogar. Então, eles fazem esses torneiozinhos, é legal. 

 

P/1 – E quem organiza esses campeonatos? 

 

R – Tem uma Liga. É uma Liga que a cada dois anos muda a linha de frente, a organização. Não é uma pessoa que organiza, são quatro, cinco elementos de cada time, assim, vamos supor, eu do meu time, você do seu, ele do dele... São quatro, cinco elementos que tomam frente e fazem acontecer. E está tudo especificado, regrado, todo mundo sabe, tem o site etc.

 

P/1 – E vocês apostam? 

 

R – Não, não existe aposta. Não, dinheiro nada, não tem nada de aposta. A aposta é conseguir fazer o maior número de pontos possível para se classificar entre os oito e os oito vão fazer os mata-matas, que são as quartas, semifinais e finais. E, vale o troféu menor do quarto lugar, é desse tamanho [tamanho de um troféu comum] e o maior é do tamanho da minha esposa, tipo um metro e meio, até mais. É bem legal, muito bonito. No final, na finalíssima, tem uma festa, tem refrigerante, cerveja, churrasco, que, por sinal, vai rolar amanhã. Dia vinte e três de setembro: amanhã é a final e meu time vai disputar o terceiro lugar, infelizmente nós perdemos, na semana passada (risos).

 

P/2 – E, Nilton, conta umas histórias, assim, marcantes desse seu tempo de truco, que aconteceram na mesa, umas histórias engraçadas. 

 

R – Ah, acontece um monte de coisa! Na hora da empolgação ali você perde até a noção. O negócio é vibrante. Como um jogo de futebol, mas de vez em quando, quando acaba uma partida ou você faz uma jogada extraordinária, consegue ganhar três pontos de uma vez, ou seis, nossa, parece que foi um gol, porque tem torcida e tal. E o pessoal sabe o que tá acontecendo porque as regras não são tão difíceis, é empolgante. E tem um time ou outro que já são meio que rivais, assim, falando coisa do bem, não coisa do mal, “ah, nós vamos jogar com Fulano, então desses aí, pelo amor de Deus, a gente não quer perder”. Cria-se uma rivalidade, mas uma rivalidade sadia. É legal, só gente do bem, não existe briga, se existir o time pode ser até excluído. É uma coisa muito bem organizada e muito bem pensada, legal. 

 

P/2 – E como que você conheceu o Fábio Dalava?

 

R – Fábio Dalava? A gente é amigo do bairro. Éramos muito apegados na época de criança, pivetão... Até dias de hoje. E uma amizade que eu tenho desde que comecei a entender as coisas mesmo, sete, oito anos de idade até hoje, tem amigos meus que estão nesse time comigo que eu conheço há vinte e cinco anos pelo menos... Há trinta anos. Um é padrinho de casamento do outro, as esposas são amigas, os filhos são amigos, um frequenta a casa do outro, viaja junto, passeia junto. O pessoal mais antigo – eu não posso falar da rapaziada de hoje porque eu não convivo com eles, eu sou mais veterano, convivo com o pessoal mais antigo – presa muito esse negócio de amizade e o Fábio eu conheço há pelo menos vinte e cinco anos, a gente é muito amigo, já saiu muito junto na época de solteiro. Eu não sou padrinho de casamento dele, mas fui ao casamento dele, ele foi no meu. A gente se conhece há muito tempo. Ele é um exemplo, mas tem outros que eu conheço há trinta anos, um é padrinho de casamento do outro, um frequenta a casa do outro, as esposas são muito amigas, inclusive a dele também é amiga da minha irmã. Tem um vínculo de amizade muito grande da época de criança. Criança, não de adolescente, de criança. A gente foi crescendo, virou adolescente, virou adulto, casou, e continua amigo, é legal. Nos dias de hoje – não que não exista, acho que existe – é mais complexo, o mundo antes era mais simples, o mundo hoje é muito complicado.

 

P/1 – Voltando para o seu trabalho. Você é taxista e deve ter muita história: pessoas inusitadas ou diferentes. 

 

R – É, aqui é mais periferia, na verdade é periferia. E, a cada dez corridas que eu faço, sete são paras as empresas, inclusive a Braskem, que eu sou prestador de serviços deles também. A Oxiteno, aqui também, do polo, mais uns contratinhos ou outros que a gente faz. Inusitado? Inusitado já aconteceu de mulher pegar o táxi comigo e mandar seguir aquele ônibus porque o marido está lá e ela quer saber se realmente ele vai trabalhar. Lá vou eu seguir o ônibus (risos), já aconteceu. Mas na periferia usa-se muito pouco esse serviço porque não é tão barato e é mais em uma necessidade mesmo, ir num médico, perdendo hora de serviço. Aqui, infelizmente, não rola dinheiro, vamo dizer assim, como rola em centro, em São Paulo, em shopping, próximo ao aeroporto etc. Aqui, graças a Deus, tem as empresas que pagam meu salário e se não fosse isso, como taxista não dá para viver, a verdade é essa. Ainda bem que tem as empresas, as pessoas jurídicas, essas sim usam com certa frequência e dá para viver, dá para sobreviver, graças a Deus.

 

P/2 – E as distâncias são curtas, longas?

 

R – Não, a gente faz corrida tanto no bairro, de dois, três, cinco quilômetros, como para o litoral, interior, São Paulo. Nessa minha profissão você não pode ter preguiça e nem medo de ir para lugares porque senão você está na profissão errada. E outra, tem que gostar de dirigir. Eu, graças a Deus, gosto, desde pequeno, doze anos, igual falei. Sempre gostei de dirigir. Agora, o que mata hoje é o trânsito, mas fazer o quê? Cidade grande, quando sai por aí pega esse trânsito, mas você aprende a conviver. Mas a gente vai para todo lugar; onde aparece, vai. Na verdade, vamos ser sinceros, quanto mais longe melhor e eu não tenho preguiça, não. Se chamar eu tô indo, se eu puder, tamo aí.

 

P/2 – Lembra de alguma história que foi longe? Uma corrida bem longa?

 

R – Ah, já teve corridas bem longas, do cara não saber ir e eu menos ainda e a pessoa marca x hora e sai meia hora depois, quarenta minutos, uma hora e já sai com pressa e eu não ir e ele também não sabe... E sei lá, né? “Vamo, vamo, a rota é mais ou menos essa” e vamo que vamo e a pessoa vai meio que te pressionando e eu não posso criar asas, sair voando, né? Se perde, para para pedir informação e a pessoa informa errado. Já aconteceu de eu ir para o aeroporto, que eu tô careca de ir, e a pessoa descer do lado de lá do aeroporto porque estava tudo travado, com mala na mão, correndo para atravessar a passarela a pé para não perder voo. Já aconteceu de eu ir e fica três, quatro horas esperando e a pessoa já veio embora faz tempo. Nossa! Então, é uma profissão em que acontece várias coisas, né? Mas, no final dá tudo certo, entendeu?

 

P/2 – E teve alguma situação mais de perigo, assim?

 

R – Olha, comigo não, graças a Deus. Vai fazer nove anos agora, em janeiro para ser mais exato, dia 26 de janeiro foi o primeiro dia que eu comecei a trabalhar com táxi. Comigo não mas o meu falecido pai já quase mataram uma vez, arrebentaram ele todo, ele ficou internado alguns dias, quebraram quatro costelas dele, quebraram todo ele, a boca, deixaram ele todo ferrado, uma vez, um ano e meio antes dele morrer, em 1999. O seu João que é um amigo, que também presta serviços como eu, já pulou do carro em movimento, porque marginal pegou ele e anunciou assalto, deram vacilo lá e ele se soltou e pulou do carro em movimento. Infelizmente já aconteceram casos, vários, e a gente ouve falar, infelizmente, com certa frequência. Uma profissão meio de risco, porque eu tô no meu ponto e chega uma pessoa lá, eu não sei se é anjo, se é demônio, Deus que me perdoe falar. Mas eu vivo disso e eu peço sempre proteção a Deus, toda vez que eu saio de casa e toda vez que eu chego eu agradeço, entendeu? Agora, se eu por um acaso tiver uma desconfiança e tal, eu tenho meia dúzia de desculpa, pelo menos, na ponta da língua, tá, mas não é sempre, infelizmente não é sempre. A única coisa que eu passei um apuro, vamos dizer assim, foi um dia que roubaram a lotérica, que é cinquenta metros do meu ponto, dois caras lá roubaram a lotérica e eu não sabia de nada. Estava no meu ponto, aí, chegou e tomou o táxi comigo e eles tinham acabado de roubar a lotérica e, aí, em dois minutos veio um feeling em mim, que eles começaram com um papinho meio furado e tal e eu já me liguei que eles não eram gente de bem, com uma sacola na mão toda enrolada, tal, não sei o quê, pediram para eu levar eles no Shopping Aricanduva. Falei: “Beleza”. Aí, um deles falou: “Pô, você não usa cinto?”. “Usar eu uso.” Porque eu não pus o cinto, eu sempre uso mas eu não pus porque eu já me, sabe? “Mas a polícia não embaça, não, de você sem cinto?” “Não, taxista a polícia não liga, não.” Mas eu já me liguei. Aí, na sequência, um amigo me ligou, que estava no ponto, me falando que eu estava com dois vagabundos que tinham acabado de assaltar a lotérica lá e tal. Eu desconversei, lá, pá. Resumindo: eles viram que eu já sabia e ficou um clima meio tenso. Eu vou falar pra você que eu fui tenso. No caminho, eu passei por uma delegacia perto de São Mateus, pensei em jogar o carro lá pra dentro mas falei “não”, porque, né, e se não for, sei lá. Passa um monte de coisa na cabeça. Levei eles, deixei, me pagaram, me deram até dois reais a mais, deu trinta e três reais a corrida e me deram trinta e cinco. Aí, desceram e falaram: “Pode ficar tranquilo que a gente não atrasa do lado de ninguém, não”. Falei: “Vai com Deus, aí, cara” e dei a meia volta, tremendo, o coração na boca, tal mas deu tudo certo. Foi o único apuro que eu passei até hoje, graças a Deus, mas não me relaram um dedo, nem nada, entendeu? Fui conversando, tal, não me fizeram nada; foi a única coisa que aconteceu de mais sinistro comigo e espero que seja só isso, se Deus quiser.

 

P/1 – E, Nilton, nesses nove anos atendendo o pessoal do ponto, teve algum período que teve mais movimento, um período que foi mais fraco?

 

R – Teve, vixi, teve. Eu comecei em janeiro de 2004 e, aí, em maio, graças a Deus, houve uma parada só da Oxiteno, que é a empresa que eu mais trabalho, que é a que eu estou mais próximo e acho que isso ajuda, é bem do lado aqui, em Maio ela teve uma parada e foi um ritmo meio que frenético, assim, e vamos dizer que eu fui meio que bem apresentado, ali, para poder exercer a função. E, dali pra cá, começou só a ascender, vamos dizer assim, o movimento, tal, o faturamento, o meu dia a dia. Aí, manteve-se uma média razoável, até que 2008 teve a crise nos bancos lá da América, tal, e cai aqui, né? E 2009 foi meu pior ano até agora, que a crise começou em 2008 e em 2009 pra mim, que trabalho por conta, que sou autônomo e prestador de serviço, foi péssimo, um horror. 2009 foi horroroso, eu, graças a Deus, tinha uma gordurinha pra queimar, uma poupancinha e tal e eu precisei mexer em três meses consecutivos, minha mulher sabe, não me deixa mentir, em junho, julho e agosto eu precisei tirar dinheiro de uma economia minha pra poder arcar com o meu dia a dia, porque foi tão ruim que não deu pra pagar as contas cotidianas do mês; 2009 foi péssimo. E esse ano, 2012, a gente se iludiu, pensou que ia dar um boom pra gente que presta serviço devido a um monte de obra que tem pra todo lado, viaduto, aeroporto que está expandindo por causa da Copa, por causa da Olimpíada, por causa disso, por causa daquilo... Infelizmente, 2012 não está muito bom não e a gente e pensou que ia ser melhor. Não está igual 2009, graças a Deus, mas também vou falar pra você que 2012 está sendo o meu segundo ano mais fraco aí. Tá meio sinistro 2012 mas vai melhorar, se Deus quiser. Agora, ano bom pra mim foi tipo 2008, que foi antes da crise, estava ótimo, 2008 foi muito bom. A crise estourou em 2008, né? Mas não pegou a gente porque ela estourou em setembro pra outubro, se eu não estou enganado, né? E, aí, não pegou a gente aqui; pegou em 2009, janeiro, fevereiro, começou pá pá pá e caiu. Mas 2008 foi o meu melhor ano, entendeu? O meu melhor ano até então trabalhando de táxi. 

 

P/2 – E, como você conheceu a sua esposa?

 

R – Ah, minha esposa? Nos conhecemos quando nós éramos adolescentes ainda; eu tinha dezenove e ela tinha catorze. E, aí, a gente teve o primeiro contato de namoradinho, beijinho, abracinho, essas coisas de adolescente crescendo, indo para fase adulta. Depois, nos distanciamos uns cinco anos, né? Por obra do destino, foi uma coisinha assim que rolou, coisa de adolescente, tal, uma voltinha de moto e pega na escolinha, que ela estava na escolinha na época de auxiliar de professora. E, aí, paquerava, vamos dizer assim. Aí, depois, por obra do destino, eu trabalhava à noite, trabalhava no fim de semana e ela não podia sair de casa porque o pai não deixava, etc. e tal, nos distanciamos. Depois de cinco pra seis anos, nos aproximamos novamente, ela já tinha dezenove e eu já tinha vinte e quatro, estamos juntos até hoje. Namoramos dez anos, que ela ficou me enrolando dez anos, entendeu? Depois, noivamos e depois casamos, já temos seis anos e meio de casados. 

 

P/1 – Qual o nome dela?

 

R – Ângela. 

 

P/1 – E os seus filhos?

 

R – Eu tenho, fora a Tamires, que ela vai fazer cinco, do meu casamento com a Ângela, eu sou pai antes do casamento que eu antes de namorar com ela, eu tive um relacionamento e veio o meu filho mais velho, eu tenho um filho de dezesseis anos, mas antes do casamento, né? Eu nunca vivi com a mãe dele nem nada porque não aconteceu, não era pra acontecer mas o filho é meu, assumi desde que engravidou, sempre ajudei, sempre está comigo, viaja comigo, passeia comigo, vou vê-lo, ele vem me ver. Temos um contato, na medida do possível, mais próximo possível. Agora nem tanto, porque ele já está adolescente, já tem os amiguinhos, já sai para os lugares. Mas, desde então, que eu fiquei sabendo que ia ser pai, sempre compareci e amo demais o meu moleque, também como amo a minha garotinha, não há diferença de amor, é cinquenta e cinquenta, entendeu?

 

P/1 – Como foi para você ser pai, assim?

 

R – Olha, ser pai, Nossa Senhora, ser pai é... Na verdade eu era meio despirocado, antes de ser pai eu era meio, não tinha muita responsabilidade, não, na verdade. Não ligava muito pra vida, não estava nem aí. Não tinha responsabilidade, a verdade é essa. Depois que eu fui pai comecei a gradativamente a... Caramba, a criaturinha depende de mim porque foi Deus que mandou pra mim, então, alguma coisa, né? Aí, você começa a ver a vida de outras maneiras, né? Quando você é pai e mãe, o ser humano, né, quando põe uma pessoinha no mundo. O ser humano que eu digo que tem um pouco de responsabilidade, que tem amor, né? Porque tem pai e mãe que não parece pai e mãe, né? Mas, a melhor coisa que me aconteceu na vida foi eu ser pai, não existe coisa melhor, não, tanto dele quanto dela. Não existe coisa melhor, não, é muito bom, foi o que me pôs na linha, entendeu?

 

P/2 – E qual o seu lazer hoje?

 

R – Olha, eu trabalho de segunda à sexta, né, não tem horário, nem de levantar e nem de dormir porque eu não tenho agenda, quem faz a minha agenda é a minha necessidade. E de sábado e domingo é mais tranquilo, raramente aparece serviço, só quando existe algo marcado, uma viagem para alguém ou para o aeroporto, algum evento extra nas empresas, principalmente, que a gente tem a escalada, essas coisas, a gente trabalha. Do contrário, a gente é mais tranquilo no fim de semana. A gente sai de vez em quando, vai numa festa ou num amigo, de vez em quando eu vou ver a minha irmã no interior, a gente vai comer fora quando é possível, vai almoçar ou jantar na casa de parentes, ou alguém vem aqui. Mas o meu lazer, mesmo, igual eu falei agora há pouco, a minha higiene mental é jogar o truco. Eu já joguei bola, nunca fui bom mas eu já joguei, depois que ela nasceu eu parei, mas eu jogava bola duas vezes por semana, corria atrás da bola na verdade. Parei por relaxo, me acomodei e não faço mais nada fisicamente, preciso criar vergonha na cara e fazer, né? Mas o meu lazer maior mesmo, o que eu uso para minha higiene mental, é jogar o truco com os amigos porque a maioria é tudo amigo, se encontram, toma uma cervejinha porque eu também sou filho de Deus, trabalho é trabalho, lógico, jamais tomo para trabalhar. Agora, de sábado e domingo eu tomo a minha cervejinha, sim, e, aí, não trabalho porque se me ligarem e eu estiver já jogando o meu baralhinho e tomando a minha cervejinha, eu não vou trabalhar mesmo, entendeu? Porque eu acho que todo mundo tem o direito de se divertir. Agora, se há um serviço marcado, coisa e tal, a coisa já muda de figura, né? A gente fica tranquilo, tal. Mas o meu lazer é esse; eu gosto muito de passear, quando dá a gente vai para praia. É difícil, né? Porque o autônomo não pode ficar se dando ao luxo de passear, porque depende disso e tem que ter uma graninha sobrando e etc, mas a gente gosta de passear e na medida do possível a gente vai, vai para o interior, vai num acampamento, que a gente desde solteiro gosta de acampar com a barraquinha num camping, tal, vai para praia. Faz o que a gente gosta de fazer na medida do possível, quando dá, é passear ou ficar tranquilo.

 

P/1 – E agora, Nilton, antes da gente entrar numa parte mais final da entrevista, você falou pra gente “ah, aqui não é muito seguro”, você falou da questão da violência, comentou que aqui antes era supertranquilo. Como que você vê essas coisas, o que mudou, antes as ruas eram mais tranquilas? 

 

R – É, infelizmente, não é só aqui, né? É só você ligar o noticiário, abrir um jornal, que você vê que é em todo lugar, área nobre, condomínio de luxo, hoje é assaltado, é invadido, etc. E aqui é uma área mais periférica, então você, vamos dizer, está mais próximo ainda aqui, tá entendendo? Eu cresci aqui, eu nasci praticamente aqui. Eu até meus dezesseis, dezoito anos de idade, a gente ficava até duas, três horas da manhã na rua, um ou outro tinha um carrinho e tal, ligava um sonzinho ali com a molecada, a meninada conversando, ouvindo música, tomando um negocinho, uma cervejinha, um vinho, alguma coisa. Em noites de tempo agradável quantas e quantas noites a gente ficava até duas, três, quatro horas da manhã conversando, esse mesmo pessoal que eu falei para vocês que a gente cresceu junto. Mas quantas vezes! Dezenas de vezes! E, hoje, infelizmente, você está lavando o carro na sua garagem, Deus o livre e guarde, é perigoso você ser rendido. Então, acabou-se isso; infelizmente acabou e não é só aqui, é todo lugar. Eu acho que no desenvolvimento, tal, não sei o quê, a segurança pública infelizmente... É complicado. Então hoje acabou-se isso, na minha época existia, hoje em dia não. Eu fui roubado já aqui, pô. Roubaram a minha moto quatro horas da tarde, no lugar, naquele estabelecimento que me indicaram para você vir; fui roubado ali, quatro horas da tarde, entendeu? Então, infelizmente, hoje a gente está meio abandonado, vamos dizer assim. Tem que orar muito aí, pedir muita proteção a Deus porque tá meio esquisito. 

 

P/1 – Como que é a relação do polo com aqui, com a região? Teve algum momento que teve algum projeto, alguma interação?

 

R – Olha, eles pelo o que eu vejo, que eu sou um pouco próximo porque eu presto serviço e tal, eles fazem uns trabalhos bacanas com a comunidade, que a gente vê com a molecada: a escolinha de Futebol; eles emprestam o clube pra molecada fazer uma natação, uma ginástica; tem trabalhos para terceira idade; eles têm coral, que inclui instrumento musical, tudo, vamos dizer assim, fazem apresentações; de vez em quando ministram cursos de culinária, de pintura. Eu vejo sempre o pessoal participando das coisas, vejo que vira e mexe tem eventos esportivos que eles organizam, aí dão agasalhos e a molecada, para tirar um pouco da rua, trabalho social. Vira e mexe eu vejo fazer aí e eu acho bacana, eu acho legal. Vira e mexe estão na Sociedade Amigos do Bairro, já fizeram trabalho na Escola de Samba com o pessoal um pouco mais carente, assim, o pessoal que não tem, vamo dizer assim, a oportunidade de estar participando de um clube, de uma coisa ou outra, eles dão, na medida do possível. Fazem um trabalho social legal, eu acho. E a gente que é do bairro, eu principalmente que estou sempre rodando pra cima e pra baixo, eu vejo, né? Eu mesmo já tive oportunidade de buscar brinquedos para eles poderem distribuir para o pessoal de renda mais baixa, entendeu? Então, eles sempre estão fazendo, eu acho muito bacana. 

 

P/1 – E, Nilton, a gente está encaminhando agora para a uma parte final da entrevista. Eu queria saber, para você qual o significado de morar aqui, em Silvia Maria? 

 

R – Nossa, meu, vou falar pra você, aqui é como se eu tivesse nascido aqui porque eu tinha três anos de idade, eu acho, nem isso, quando o meu pai e minha mãe compraram e eu moro aqui desde então, faz trinta e sete anos, vai para trinta e oito anos que eu moro aqui. E eu vi isso aqui na terra, pô! Igual eu falei, o riozinho aqui era limpo, tinha peixe pequeno assim, ó, entendeu? Hoje, infelizmente, é um esgotão. Então, a gente pega um carinho pelo lugar, as amizades que você faz, as lembranças boas que você tem, o lugar é de gente humilde, como eu sou humilde, de gente pobre mas gente do bem, pra caramba, tá entendendo? Eu gosto muito daqui, é o que eu falo para minha esposa, para minha família, para os meus amigos: se um dia eu sair daqui, da onde eu estou hoje, é pra ir embora bem pra longe. Longe que eu falo é pelo menos cento e cinquenta, duzentos quilômetros mais afastado, pra um lugar bem mais tranquilo, mais sossegado, interior. Porque pra mim sair daqui pra ir pra um lugar mais próximo, aqui da região, não, pra quê? Aqui eu conheço muita gente, eu sei mais ou menos onde eu piso, quem é quem, vamos dizer assim. A gente tem muita gente que a gente conhece, tem muito conhecimento, muita gente sabe quem a gente é, tá entendendo? E você pega um carinho muito especial pelo lugar, eu gosto muito daqui, muito mesmo. Tenho muito carinho por esse lugar aqui. 

 

P/1 – E quais são os seus maiores aprendizados, na vida, assim?

 

R – Ah, meu, aprendizado é o seguinte: você sempre respeitar o próximo, você sempre ser humilde, você sempre querer o bem, você sempre poder ajudar. Se você não puder ajudar não atrapalhe, não é verdade? Sei lá, criar os filhos com dignidade, ensinar a trabalhar, ensinar a ser correto na vida, procurar dar um conforto, procurar dar um estudo pra poder, quando crescer, se sustentar, sobreviver na vida honestamente, dignamente. É ir na trilha do bem, sabe, é o que eu aprendi, o que eu meu pai me ensinou, minha mãe, meu pai, minha família. Eu procuro passar para os meus filhos, né? Graças a Deus, casei com a minha esposa que tem a mesma mentalidade que eu. Procurar ser amigo. Eu, graças a Deus, eu pelo menos acho que não me lembro de eu fazer inimizade com alguém. De repente alguém não gosta do meu jeito, sei lá, mas ninguém agrada todo mundo, nem papai do céu agradou, quem sou pra agradar, não é verdade? Eu procuro ser parceiro, ser sincero, ser justo, sei lá. Procuro, entendeu? Se não gosta do meu jeito, infelizmente, eu não posso fazer nada, não é? Eu sou desse jeito. Sou um pouco sincero, assim, sabe? Não fico bajulando, eu falo o que tem que ser falado e acabou. E é isso. 

 

P/2 – E sobre essa ideia da gente fazer essa exposição, aqui do Silvia Maria, do Sônia Maria e de Capuava, qual a sua opinião?

 

R – A hora que vocês me ligaram e me explicaram… Foi você, né?

 

P/1 – Foi, foi.

 

R – Me pegou que eu estava tranquilo, que eu podia falar, porque de repente eu não podia falar e, aí, talvez vocês nem estariam aqui. Eu achei interessante eu falar porque talvez seja útil, aí, não sei. Como eu sou, vamos dizer assim, veterano de bairro e tal, andei muito pra dentro dessas empresas aí, pulei muito muro aí atrás de balão, dei muita carreira em guarda, caí de bicicleta, só por marra mesmo, só coisa de moleque, né? Eu vi isso aqui explodir pra caramba, entendeu? E eu acho legal a atitude da empresa de vocês, é uma coisa que pode, sei lá, pra essa geração mais nova, que não viu o que eu vi, para o meu filho, para ela quando crescer mais e entender. Eu acho interessante, é um trabalho legal, bacana. 

 

P/2 – E como foi pra você contar a sua história?

 

R – É, então, sei lá, eu acho que é, vamos dizer, “gratificante” porque eu cresci no bairro, faço parte do bairro, conheço bastante gente, bastante gente me conhece. Eu acho legal, talvez não tenha falado coisa tão... Talvez tenha deixado de falar coisa, assim, relevante, não sei. Mas acho que o que eu vi é aproveitável, pra mim foi gratificante.

 

P/1 – Muito obrigada!

 

P/2 – Obrigada.

 

R – Nada! De nada.

 

P/1 – É isso.

 

R – Da hora, beleza (risos).

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