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História

Professora das lendas amazônicas

História de: Paula de Souza Viana
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2008

Sinopse

Nascida em Maués, no Amazonas, uma região conhecida pela produção de guaraná, Paula de Souza Viana conta como acabou optando por seguir a profissão da mãe. Como professora, estimulada a pensar em métodos não tradicionais de ensino, ela resolveu educar as crianças por meio das lendas amazônicas. Uma delas, explicada em detalhes em seu depoimento, é a do Anselmo, meio boto, meio homem, que, vez ou outra, aparece nas festas da localidade de terno, calça branca e chapéu para encantar as moças. Paula não sabe se acredita, mas passa a história adiante para que essa cultura amazônica nunca acabe.

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História completa

Meu nome é Paula de Souza Viana, eu moro aqui em Maués. Nasci aqui mesmo em Maués. A data do meu aniversário é 31 de março de 1978. Os meus pais nasceram aqui na Vera Cruz, logo em frente à cidade, na Ilha de Vera Cruz, hoje falada. Antes falava-se o interior de Vera Cruz, mas hoje é conhecida como a Ilha de Vera Cruz. Eles nasceram na Vera Cruz e, aí, a gente veio para cá. A minha mãe é professora, se formou professora, e a nossa cultura também é professora. Eu tive oito irmãos. Cinco são professores.

 

O meu primeiro papel na educação como professora seria logo com educação infantil, os pequeninos mesmo, as crianças de quatro anos. Eu comecei aí nessa área da educação infantil, de quatro a seis anos. E, desde lá, eu acho que cada pessoa se revela numa área. A gente vai se desenvolvendo, vai se revelando e eu continuei nessa área por, acho, que seis anos. Continuei nessa área da educação infantil. Foi numa época que a gente começava a falar em construtivismo. Em Maués, estava se deixando o ensino tradicional de lado e estava se entrando no construtivismo, na teoria construtivista. Então, para mim, foi algo novo porque, quando eu estudei, quando eu estudava o ensino fundamental, que naquela época, na minha época de infância, era o primário, o ensino era totalmente tradicional, desde professores até conteúdo. Para mim, foi algo muito novo e dificultoso, porque a gente só sabia trabalhar com o método antigo.

 

Os jovens sabem contar a lenda do guaraná porque todo ano tem a festa do guaraná e todo ano é passado aquilo. Mas as outras lendas, como a lenda do porantim, a lenda da tucandeira, que é uma lenda da região, daqui da Região Norte, também bem conhecida pela Região Norte. A gente trabalha sobre isso, a gente tenta desvendar a cultura, colocar a cultura para que essas crianças, para que os adolescentes possam estar interagindo com a cultura da nossa sociedade, da nossa cidade, ou melhor, para que eles possam estar sempre expandindo essa cultura.

 

A gente trabalha com as crianças desde os três, quatro anos, contando histórias, fazendo colagem do guaraná e descobrindo outras lendas. Tem um dia para contar, cada dia da semana tem um dia para contar uma lenda. Você pode contar duas vezes na semana ou quantas você quiser, o processo de trabalho é você que escolhe para contar lendas e tudo mais. Então, o que eu achei muito interessante contar foi uma lenda bem típica de Maués. É a lenda do boto. Eu me interessei muito porque, quando eu estava fazendo o normal superior, nós tivemos uma disciplina que era para a gente também falar sobre um tema na sala de aula que pudesse abranger tanto a nossa cultura quanto o aluno poder estar aprendendo algum conteúdo, tanto de matemática, quanto de português. Ele já ia conhecer a história da cidade, ia conhecer na geografia o espaço onde se passou.

 

Eu achei muito interessante que, quando eu estudei no normal superior, essa disciplina, eu mandei fazer umas cartas bem grandes do boto, do Anselmo, umas cartas muito lindas que eu mandei um artista pintar, um artista bem conhecido de Maués, que é o Alcinês Pimentel. Ele pintou umas cartas bem grandes do Anselmo, a ponta da maresia e a canoa. Então, esse mesmo papel que eu fiz no normal superior eu levei para a sala de aula. As crianças puderam conhecer e elas se maravilharam com o cartaz que eu tinha apresentado e elas não conseguiam entender aquilo. Antes, quando elas só haviam visto ainda o cartaz, elas não conseguiam entender.

 

Então, depois eu fui e contei a história do Anselmo, que falava assim: que o Anselmo, na sua infância, ele era um menino cheio de mistérios. Ele era isso, ele era um curandeiro também, ele sabia curar picadas de cobras, sabia mexer. Falavam os antigos que ele amansava os animais, que ele fazia adivinhações. Que, se ele quisesse colocar fogo só pelo pensamento num local, ele fazia. E ele foi crescendo nisso. Com isso, ele foi se tornando conhecido das pessoas por ele ter esse lado dele, esse lado típico dele, esse lado. Uma coisa que já nasceu com ele. Mas isso foi comprovado pelas pessoas que, inclusive, minha mãe... Não. Minha mãe não. A minha avó teve o prazer de conhecer o Anselmo.

 

A lenda dele, a parte mais importante foi que ele vinha da Vera Cruz, e quando chegou bem em frente da ponta da maresia, ele vinha de canoa de lá, ele sempre usava um chapéu, roupa de pescador, aquela roupa que o pecador usa: chapéu, camisa de mangas compridas, calça comprida. Ele vinha de lá e, quando chegou bem em frente da ponta da maresia, dizem que ele caiu, foi encantado por uma cobra grande, e as pessoas dizem que ele virou uma cobra grande que metade do corpo é de homem e metade é que nem a sereia, metade é peixe. É uma lenda mesmo daqui da cidade, e foram encontrados dele apenas a canoa, o remo, o chapéu foram encontrados. Nunca mais encontraram o corpo dele. Ele só vinha em sonhos, ou como dizem os antigos, ele só aparecia para as pessoas, as pessoas tinham uma visão, e aparecia na ponta da maresia.

 

E dizem também as pessoas do interior, ou então nossos antigos falavam, que, quando era tempo de festa, o Anselmo subia de terno branco, de calça branca e chapéu branco. Ele subia para dançar com as mulheres nas festas do interior. Quando aparecia nas festas aquele homem todo bonito, que dizem que ele era muito lindo, aparecia aquele homem de terno, calça branca e chapéu, aí todo mundo sabia que era o Anselmo que ia encantar as mulheres, as mulheres se apaixonavam por ele. Hoje ainda existe em forma de lenda. As pessoas dizem que ele aparece na ponta da maresia também, e tem gente que tem medo de ir na ponta da maresia de madrugada ou então ao meio-dia, seis horas. Ninguém vai quase. As pessoas que acreditam na lenda, as pessoas que acreditam nisso, elas não vão porque têm medo do Anselmo, se aparecer para elas.

 

Foi uma lenda que foi contada por nossos avós, por nossos pais, não sei se eu acredito na lenda, mas eu conto a lenda. Eu fico expandindo essa cultura. Eu sei que é uma lenda, eu sei diferenciar lenda da realidade. Eu tenho que também passar isso para que a nossa cultura nunca morra, nunca acabe.

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