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História

Professor dedicado, pianista apaixonado

História de: Francisco Carlos Jorge Jaschkowitz Breslaver (Charles Franz)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/07/2009

Sinopse

Quando falou sobre sua trajetória, em 2008, o pianista Charles Franz tinha 82 anos e tantas lembranças para registrar que sua entrevista teve de ser dividida em duas partes. Em ambas, sobressai das histórias, desde a infância, na Alemanha, às passagens pelo Uruguai, pela Argentina e pelo Brasil, a profunda paixão que ele sempre nutriu pela música. Foi em Buenos Aires, depois de muito se apresentar em bares, que ele desenvolveu o revolucionário método de ensino que seria eternizado com o seu nome e que permitiria aos leigos aprender a tocar piano logo nas primeiras aulas. Para Charles, ser professor da arte que tanto amava era mais do que uma profissão; tratava-se de uma “tarefa humana”, que o deixava feliz ao poder tirar dos alunos mais do que boa música, sorrisos.

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História completa

Meu nome de nascimento é Francisco Carlos Jorge Jaschkowitz Breslaver, mas, na realidade, sou conhecido pelo nome Charles Franz, que é um pouco mais fácil, mais curtinho. Eu nasci em 8 de novembro de 1925 na Alemanha, na cidade de Breslau, que é uma antiga cidade universitária, onde Kurt Masur fez o Doctor Honoris Causa. Uma cidade no leste da Alemanha, que tem a própria orquestra sinfônica, ou seja, é uma cidade bastante interessante.

Naquela época, não era como hoje, que vivemos praticamente rodeados de música, da mídia. O rádio estava em seu começo, e, quando escutei música pela primeira vez, fiquei absolutamente estarrecido, ou seja, a música foi desde muito cedo, estou falando dos dois anos, certo? Fui muito receptivo à música, e aos quatro anos já dei minha primeira atuação com a flor em um fraque, ante 300 pessoas.

Na idade dos 12 anos, eu imigrei da Alemanha ao Uruguai primeiro e logo à Argentina. Primeiramente, porque meu pai tinha sangue judeu, não era judeu completo, mas tinha sangue judeu, e também minha mãe tinha algo de sangue judeu. Então, já havia razão mais do que suficiente. Ou seja, meu pai fugiu da Alemanha em 1935 e foi a Viena. Já se via nos países que rodeavam a Alemanha que alguma coisa havia de nuvens pretas e que alguma coisa ia acontecer. Então, minha mãe conseguiu se divorciar de meu pai para conseguir levar-me à América do Sul porque não queria, como ela falava, que eu fosse alguma vez carne de canhão. Naturalmente, nessa época, eu escutava mais que uma vez na rua os discursos de Hitler.

Eu tinha 12 anos. E aos três dias que já havia chegado a Montevidéu, ganhei um contrato de sete meses para cantar na emissora mais importante da época que se chamava Rádio Espectador de Montevidéu. Eu tive esse contrato de sete meses na Rádio Espectador como criança cantora. E me acompanhava, não eu mesmo, se não me acompanhava por casualidade, o diretor da rádio. Ou seja, durou sete meses e, quando passaram esses sete meses, fui fazer uma procura com a minha mãe para ver se pegava outro contrato. E, nesse momento, o vi nesse momento em que eu caí nessa rádio, estava o grande diretor, regente de orquestra mundialmente famoso, Erich Kleiber, um grande compositor ancião, não tão ancião como eu, mas ancião, Fabini, o pianista, Osvaldo. Teve vários, e que me escutaram cantar. Então, perguntaram à minha mãe: “Ele só canta?” “Não”, dizia a minha mãe, “ele também toca piano”. “Também toca piano?” Então, me fizeram tocar piano e o veredito foi determinante: “Senhora, pelo amor de Deus, essa criança tem talento, talvez até gênio, mas você tem que tirá-lo absolutamente da música popular, tem que levá-lo completamente para a música clássica. Nós o levamos para o melhor professor que há no Uruguai.” Era Misha Jessel. Que era a maldade total.

Maldade. Para explicar bem: nessa época, se andava em bonde. Eu não chorava depois da aula, eu já chorava quando ia à aula, já adiantado. Ele não batia em mim, não. Não, não batia. Ele batia com palavras, mortificava. Então, eu chorava por adiantado. E, uma vez, saí da aula e batendo os braços, falei: “Quando eu for grande”, e nunca fui muito grande, como músico é outra coisa, mas, enfim, nunca fui muito grande de estatura, e falei: “Quando eu for grande, eu vou ensinar de outra maneira!”

Ele me faziam estudar três horas por dia, mas tenho que dizer, para crédito dele, me converteu em pianista, porque mais tarde fui um pianista um pouco diferente dos pianistas habituais clássicos. Porque desde muito cedo desenvolvi uma especialidade que no total, ainda hoje, existem apenas, em todo o mundo, três ou quatro concertistas que dominam. Ou seja, essa especialidade chama-se a arte da improvisação nos estilos dos grandes compositores, ou seja, você sabe que cada compositor, Bach, Beethoven, Mozart, cada um tem uma linguagem diferente, uma linguagem musical. Então, hoje, e em toda a minha vida, quando tive muitos concertos, logo na Argentina, dava 20 concertos cada ano.

Quando já fui em minha carreira, depois de professor, as pessoas que estudavam comigo não queriam ser grandes pianistas. Da mesma maneira como os esportes, a cultura esportiva não é apenas para formar atletas, e música, eu considero até hoje que é muito importante, mas muito importante mesmo para a nossa sociedade, que exista o diletante amador, aquela pessoa que não quer ser um grande pianista, mas que quer tocar para seu prazer pessoal.

O Sistema Charles Franz é exatamente para aquelas pessoas que não querem ser concertistas, que querem tocar música porque querem fazer algo muito bom para si mesmo. Quem quer ser concertista tem que ter os dedos, tem que ter solfejo, o que comigo, com o meu sistema, não precisa. O método consiste em algo que tem vários nomes. Um seria a neurolinguística, ou seja, a neurolinguística tem a ver com a possibilidade de ter uma, que as duas mãos toquem juntas. Tem a ver com reflexos condicionados, ou seja, a diferença máxima é que meu sistema funciona sem solfejo. Solfejo são aquelas notas que separam dentro da música. As pessoas veem uma clave de Sol, uma clave de Fá e acham que isso é a música. Pois não é, a música não é um bicho de sete cabeças. Por culpa do solfejo, que meu sistema não tem, milhares de pessoas não estudam música. Então, eu inventei, fui o criador e patenteei, tive minhas patentes. Isso que faço há 40 anos foi inventado por mim em momentos de situações extremas.

Em Buenos Aires, era o primeiro, queria ser o primeiro em Nova York (risos). Na realidade, em mim, no profundo de meu coraçãozinho, sempre havia um desejo, sim. Eu sou o maior, mas em Buenos Aires. Eu queria ser o primeiro em Nova York. Então, não faltou gente que se associava comigo para fazer o Charles Franz Studios de New York, exatamente em Manhattan. Ou seja, se disse bem, o que não se faz em Nova York não se faz em nenhuma parte. E, bom, foi muito bem, foi muito lindo! E nessa época eu não tinha um visa comercial, eu não tinha o que chamavam de Green Card, então, teria que viajar a cada três meses a Buenos Aires, que era minha nacionalidade de referência. E nessa época fiz 35 viagens de ida e volta.

Eu estava muito, muito ligado à minha mãe, e minha mãe certamente não aguentava Nova York, porque Nova York é triste no inverno, não triste igual ao do europeu, mas para a minha mãe era. Então, tinha que escolher, há momentos na vida em que você tem que escolher. Voltei para Buenos Aires. Bom, eu era amigo, eu fui ao congresso, um dos oito congressos de musicoterapia que entrei, do qual fiz parte, em um deles eu conheci e me fiz, na realidade, talvez é o melhor amigo de minha vida, que foi o Rolando Toro, o criador da Biodanza. Ele aterrissou no Brasil e simplesmente insistiu que o Brasil era um país muito interessante, coisa que acredito até hoje. Em 1983 cheguei ao Brasil, ou seja, já estou há tanto tempo que deveria falar melhor esse idioma!

E o que me pagavam e continuam me pagando hoje, por quase 83 anos, estou com muitos poucos horários livres, ou seja, sou como um médico que querem, quase todos os horários tomados. Então, essa gente me paga com dinheiro, sim, mas muito mais do que com o dinheiro, me pagam com seus sorrisos, com sua felicidade. E, na realidade, a minha profissão hoje é essa, não é simplesmente musical, é uma tarefa humana. Eu, em toda a minha vida, me interesso muito que as pessoas venham para as suas aulas não como: “Ai, que ódio, que ódio, que droga é a aula de piano!” Não. A aula de piano é uma festa!

E isso foi durante 40 anos agora minha profissão, mas eu diria algo mais: mais que minha profissão, era a minha paixão. Ainda hoje, a essa idade respeitável de 82 anos, quase todos os dias, escrevo novos arranjos, ou seja, faço. E quão é importante, quais eles são os arranjos. Eu não conto com pessoas que tenham ouvidos fabulosos, eu não acredito nos ouvidos fabulosos, mas acredito no bom gosto. Então, até hoje, eu funciono, na minha profissão, com um não sei o quê de bom gosto, de acordes um pouco requintados, porque todos somos um pouco requintados. Ou seja, todos temos gosto por ir de vez em quando a um restaurante fino, nos vestir agradavelmente. Nem todos os dias usamos gravatas, mas uma vez por semana estamos de gravata.

Minha vida foi sempre de um homem intimamente feliz, de um homem intimamente em paz. As pessoas gostam muito de drama, as pessoas felizes não chamam tanto a atenção. A pessoa que grita, que chora, chama muito mais atenção. E eu tenho que falar de uma vida em que meu pai terminou sua vida num campo de concentração. Eu tive muitos momentos de altos e de baixos em minha vida. Eu sobrevivi. Não sei explicar com palavras, mas estou muito bem comigo mesmo.

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