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História

"Produtividade, segurança, saúde do operador e meio ambiente"

História de: Willian Gabriel Macedo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/02/2021

Sinopse

Infância. Faculdade de Engenharia Metalúrgica. Morando sozinho. Aulas práticas na CSN. Área de Metalmecânica e suas dificuldades. Uso de gás nos processos industriais. Entrada na White Martins. Buscando novos conhecimentos. Importância da empresa. Meio ambiente. Desenvolvimento e preparação dos gases. Diretoria de Inovação. Aprendizados.

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História completa

[Início da Parte 1]

 

P/1 - Isla Nakano

P/2 - Débora Querido

R - Willian Gabriel Macedo



P/1 – Primeiro, eu queria agradecer, em nome do Museu da Pessoa, da White Martins, por você ter vindo até aqui contar a sua história. 

R – Eu que agradeço.  

P/1 – Eu queria saber o seu nome completo, local, e data de nascimento.

R - Bem, meu nome é Willian Gabriel Macedo, eu nasci na cidade do Rio de Janeiro, em 7 de outubro de 1956 - quase 55 [anos]. (risos)

P/1 – E o nome dos seus pais?

R – É, meu pai era Antônio de Abreu Macedo e minha mãe era Vilma Porto Macedo. Meu pai já é falecido e minha mãe ainda é viva.

P/1 – E dos seus avós?

R – Bom, meus avós maternos, Antônio Elói Fernandes Porto e Ildegonda Pedroso Porto - um nome exótico -; e os avós paternos, João de Abreu Macedo e Conceição Macedo.

P/1 – E qual que é a origem dessa família?

R – Com esse sobrenome Abreu Macedo (risos) fica fácil, mais ou menos, identificar: são todos portugueses. Na verdade, minha família tem uma... Por parte de mãe, o meu avô materno era português, a minha avó materna era filha de português com índio, então a gente tem uma ascendência, não tão antiga, mas tem essa participação das tribos indígenas na família. Embora minhas feições não reproduzam fielmente essa ascendência, mas no sangue a gente tem. E por parte de pai, todos portugueses. Meu pai era português nascido na Ilha da Madeira - ele era ilhéu, não era do continente -, os pais dele também [são] de lá. Ele veio para o Brasil com 24 anos - ele nasceu em 1925, chegou aqui em 1949 - e como acontece com todo português que vem para o Brasil, tentaram captá-lo para torcida do Vasco da Gama, mas ele, como um português diferenciado, inovador, optou pelo Fluminense - que é meu time também. Então ele veio pra cá em 1949, aos 24 anos. Nessa época, quando você vinha, quando você imigrava para o Brasil, já vinha com um trabalho, uma posição definida, só assim você tinha liberação do seu visto de entrada. Ele veio trabalhar numa empresa sueca que tinha se estabelecido no Brasil; o meu pai era técnico mecânico e ele trabalhava com máquinas, máquinas de escrever, máquinas registradoras - isso, em 1949. Era uma pessoa muito habilidosa, muito inteligente. Embora não tivesse tido a oportunidade de ter uma graduação, Ensino Superior, mas é uma pessoa muito inteligente. E muito criativo também - acho que herdei um pouquinho dele essa criatividade, essa busca pelo novo, a necessidade de conhecer coisas novas, de modificar. Ao longo de toda a minha vida profissional, isso pautou a minha maneira de atuar profissionalmente e combinou com a posição que eu ocupo hoje. Acho que alguém mais enxergou isso também e concordou com essa minha queda pela inovação, pela criatividade e eu tive oportunidade agora de estar na posição que estou. Mas a minha história... Minha mãe era uma pessoa, é, ela é viva ainda, muito inteligente, adora música, toca piano muito bem - ela fez Escola Nacional de Música - e é uma pessoa também... Não é tão criativa quanto o meu pai era, mas é muito disciplinada; ela já tem uma outra qualidade que é a complementar àquela capacidade dele de inovar: ela é mais pé no chão. Por isso que eles deram certo, ficaram casados tantos anos. Eu tenho um irmão e uma irmã, somos três: minha irmã é Engenheira Civil; meu irmão se formou em Comunicação, mas não atua na área - tá afastado da área por problema de saúde e tal. Somos uma família unida. Meu pai, infelizmente, faleceu em 2001, em fevereiro de 2001, aos 75 anos - às vésperas de completar 76 -; ele teve um câncer, assim, uma doença que para nós foi uma situação muito complicada porque ele não tinha sintoma nenhum; e num período de 60 dias, ele simplesmente... Entre a aparição do primeiro sintoma e o falecimento dele foram 60 dias, então, foi um período muito difícil para a gente, até porque a doença foi uma surpresa, mas, enfim, somos uma família pequena, nós... Por parte do meu pai, os irmãos dele, ele tinha mais três irmãos, já todos falecidos - nenhum deles já mais vivos. Existem alguns, primeiros, que ainda estão em Portugal, outros vieram para o Brasil também - são poucas pessoas. E na família da minha mãe também, muitas pessoas faleceram, só algumas primas ainda mais próximas que ainda estão vivas, morando, vivendo no Brasil. Mas é isso, um pouquinho da minha história pregressa inicial, é isso aí.

P/1 – Eu fiquei curiosa: essa sua avó que era metade índia e metade portuguesa, você chegou a conviver com ela? Conta um pouquinho dela.

R – Muito. Ela era uma pessoa também... Era meu guia espiritual, uma pessoa, assim, muito - é difícil até de definir -, mas uma pessoa muita boa, com um coração imenso. Uma pessoa muito simples, mas muito preocupada com todas as pessoas da família. Ela era uma pessoa que trabalhava pro lar, mas era empreendedora. Nós morávamos juntos, nessa época da minha infância, meus pais e meus avós maternos moravam em uma casa muito grande. Lá pelas tantas ela resolveu empreender e criou uma pensão, uma pensão de alimentos. E eu sempre conversando com ela e tentando entender como funcionava aquele negócio - eu era criança, mas me interessava muito pelo negócio dela, procurava entender como era isso... Nós estamos falando de 1983, 84, faz um tempinho, né? (risos) Ela era uma pessoa que administrava sozinha o negócio; meu avô - não tinha nenhum tipo de gerência, ele era comerciário -, mas, não tinha nenhum tipo de participação. Ela comprava os ingredientes, ela cozinhava - não tinha cozinheiro, ela que cozinhava -, tinha uma pessoa pra fazer entrega pra ela das marmitinhas; na época, eram aquelas marmitinhas redondinhas. E ela estabelecia um tempo máximo de entrega dos alimentos, ela sempre falava: “A preocupação aqui é a satisfação do cliente”. Então isso é uma coisa que eu sempre ouvi desde a minha infância. (risos) “Precisamos  atender a necessidade do cliente, porque sem eles; se eles não estiverem satisfeitos, nós não mantemos o nosso negócio.” Então eu sempre tive essa vontade de aprender, eu ajudava muito ela. Ajudava fazer as marmitinhas e tudo mais, pra participar daquele processo. Eu estudava à tarde, aí fazia isso de manhã - e eu tinha uma relação muito próxima com ela. Talvez entre, dos três, acho que o mais próximo dela era eu - minha irmã era um ano mais nova do que eu, então estava sempre preocupada em brincar e tal... Como, antigamente, as crianças brincavam até muito tarde. Eu tenho um filho de dois anos e outro de dez; na verdade, eu tenho cinco filhos. Ainda não cheguei nessa parte da história, mas eu vou chegar lá. (risos) Pra você administrar isso na sua cabeça é difícil. Eu que vivi em uma época com uma bola que você fazia com meia - meia que você não usava mais - pra jogar futebol... Você fazia um jogo de botão com casca de coco, lixava até ele ficar todo polido e você jogava com fichinha de ônibus. Antigamente, tinha uma fichinha de ônibus: cada fichinha tinha um valor, cada fichinha correspondia a um valor e a um trecho, e você colecionava essas fichinhas - quando você não a utilizava ou não colocava de propósito pra juntar. (risos). E aí você colava uma fichinha na outra e fazia a preparação da borda até ela ficar do jeito pra usar como um botão. E a outra hipótese é através dos antigos relojoeiros: antigamente, existia isso os relógios [que] as tampinhas deles eram de vidro, e eles tinham sobras, aí você ia lá e pedia: “Você tem uma sobrinha de tampinha...”, esses eram os artilheiros do time,  (risos) os que faziam mais gols. Então a gente brincava com isso antigamente. Hoje, a criança tem uma quantidade muito grande de alternações. Sem falar que elas brincam com celulares, brincam com “notebook”, com jogos eletrônicos, coisas que a gente nem imaginava ver. É muito difícil você compatibilizar, utilizar as técnicas que utilizava antigamente. Eu tenho uma filha de 28 anos, casada, já formada, então as técnicas que eu utilizava com ela, eu não posso utilizar com os meus filhos de seis e de dez. Não funciona, nenhuma delas funcionam. As técnicas de convencimento de educação, eu tive que me reeducar, eu tive que inovar no meu relacionamento com os meus “clientes” (risos) menores, senão eu não conseguiria cativá-los. Mas, enfim, voltando ao tema da minha avó: meus irmãos não tinham muito interesse naquele negócio e eu realmente tinha; isso [foi] se refletindo mais tarde na minha vida profissional - embora eu tenha feito engenharia. Fiz engenharia porque gosto, adoro, fiz engenharia metalúrgica. Já na universidade, eu me apaixonei por soldagem, tema no qual eu especializei. E boa parte da minha vida profissional, eu diria, até setembro do ano passado, eu trabalhava exclusivamente ao longo, quase 30 anos, são 30 anos trabalhando com soldagem - me especializei muito, fiz curso no exterior, e tal. Eu por força da posição que eu ocupo agora, eu trabalho com várias outras áreas, estou aprendendo também a lidar e a entender as outras áreas de negócio também da organização. Mais enfim é isso.

P/1 – E além de participar desse processo de produção, você também comia as marmitas? (risos)

R – Essa é uma boa pergunta. Eu acho que esse é um dos fatores chaves de sucesso dela - foi ótima [a] pergunta. Ela dizia o seguinte para mim: “Olha, o segredo do sucesso desse negócio aqui é que os clientes vão comer a mesma comida que nós comemos. Não existe a refeição do cliente e a refeição das pessoas que moram na casa, todos nós vamos comer da mesma comida”. Então, a preocupação com a qualidade, o carinho que ela tinha, ela mesmo ficava horas no fogão cozinhando, ela colocava isso como sendo um diferencial. E realmente, ela tinha uma carteira de clientes cativos que não trocavam.... Ela era chamada de Dona Hilda - ela não gostava do nome dela, detestava o nome dela. “Meu nome é Hilda. Me chame de Hilda, por favor.” Então ninguém trocava a Dona Hilda. Ela tinha até dificuldades porque quando o número de clientes começou a cresceu muito, ela até chegou a recusar: “Olha, eu não pretendo aumentar meu negócio, meu negócio é só esse tamanho aqui. Eu não quero cozinhar industrialmente, quero cozinhar artesanalmente. Então, partindo disso, eu não posso atender mais do que tenho hoje. Se algum dia eu precisar, vou avisar; vocês deixem um telefone comigo e se eu precisar, ligo, mas hoje não posso atender”. Tinha tentação pela receita, a tentação pelo aumento da receita, mas ela tinha uma coisa bem firme; ela falava: “Todos vamos comer da mesma comida”, então qualidade era uma só.

P/1 – E qual era a sua comida favorita que a sua avó fazia?

R – Até hoje eu gosto muito de feijão com arroz, carne moída e purê de batata. (risos) Essa comidinha, aquela carne moída com uma azeitoninha, “hum”! Pra mim, se você fizer todo o dia, eu como - não no almoço e no jantar - em uma das duas refeições. Mas eu gostava muito da comida dela, a comida dela tinha um tempero fantástico. Eu fiquei até um pouco exigente depois que eu casei; tem que separar as coisas, porque não dá. Minha primeira esposa conheceu minha avó, conviveram juntas, aprendeu muita coisa com ela, mas é aquela coisa: quem é chefe de cozinha, sabe o que eu estou falando. Tem sempre um toque pessoal, coisas que a gente não consegue passar certinho: ela não media o que colocava - um punhado para mim pode ser diferente do seu punhado. Sabe outra coisa interessante também? Ela gostava muito de ensinar, tentou muito ensinar minha mãe, mas minha mãe não gostou não. Eu acho que ela tinha um certo bloqueio. Já o meu pai cozinhava muito bem, a sorte da minha mãe era essa, porque ele cozinhava bem e a mãe dele cozinhava bem. (risos) Então, ela não precisou aprender a cozinhar. De uma certa forma, nós sempre comemos bem. E outra coisa que eu aprendi muito com ela foi essa questão de gostar de ensinar. Na minha vida profissional, uma das coisas que mais me atrai é fazer palestras, cursos. Ontem fiquei até tarde estudando inglês com o meu filho de seis anos, depois de chegar do trabalho - quase oito horas da noite. Então eu gosto de ensinar - e, principalmente, meus filhos, que é mais prazeroso ainda. Faço isso até hoje. Como eu tive cinco [filhos], passei a vida toda estudando com criança, indo à festa de aniversário. Agora eu tive que recomeçar a ir nessas festinhas. Antigamente, até essas festinhas de criança era no “play”, mas agora não. No Rio, conheço todos, as melhores. Eu tive umas dificuldades fortes no primeiro casamento, eu viajava muito, ficava muito tempo longe e isso dificultava muito. Já com esses mais novos, eu também viajo muito, mas não fico tanto tempo longe. Isso foi um problema que eu, realmente, tive com os outros mais velhos - não é bem um problema, eu diria que não gerou sequelas. Na verdade, a sequela disso é que você perde o tempo de convivência com os seus filhos, você perde... E isso é uma perda irrecuperável, mas tudo tem aquela coisa: por outro lado, se eu tinha que viajar muito, isso obviamente contribuiu pra que eles pudessem ter mais conforto. A gente perde de um lado e ganha de outro; a vida é sempre assim, você não pode ganhar sempre. Então, com esse agora, eu consigo conciliar melhor. Essas viagens são intensas, mas são viagens de duração mais curta; consigo pelo menos dar um beijinho na hora de dormir, conversar um pouquinho, né? (risos)

P/1 – E você falou da bola de meia, dos botões; eu queria que você falasse um pouquinho da sua infância. Se a casa era grande, qual a sua brincadeira preferida? A sua infância foi brincada na rua?

R – A gente podia brincar na rua, naquela época - isso era perfeitamente possível. Apesar de morarmos em um bairro movimentado e tal, tinha um certo trânsito, mas ainda tinham muitos terrenos baldios que eram os melhores campos de “pelada” que tinham na cidade, aquele negócio devastado, vazio, aquela terrinha fofa. As mães não gostavam porque era um joelho ralado, cotovelo ralado, roupa rasgada - você chegava em casa, literalmente, com a roupa toda cheia de lama quando chovia, mas feliz da vida. E era também compreendido, porque também fazia parte do contexto - também, se você não fosse isso, que tipo de diversão você teria? Eu sempre gostei muito de futebol, mas nunca fui um grande jogador não, jogava - era “peladeiro” - aquele “feijão com arroz” ali mais para entrar pro time. Mas eu tinha uma paixão, tenho até hoje: meu time do coração é o fluminense, meu pai era tricolor também, tricolor doente - doente não: tricolor não é doente, é apaixonado. (risos) Então, ele frequentava estádio. A primeira vez que eu frequentei um estádio foi aqui no Rio de Janeiro, no Maracanã. Eu não tinha completado seis anos ainda, tinha de cinco pra seis anos, e eu fiquei, assim, maravilhado. Porque o Maracanã também é, assim, diferente de tudo. Agora, com essa obra aí, não sei como vai ficar, mas o Maracanã é um templo. Quando você entra ali, esquece a vida, você se transforma, é, [em] uma outra pessoa. Se pudesse me filmar no Maracanã e me comparar com essa entrevista, certamente você verá que são duas pessoas diferentes. (risos) E eu acho que todo mundo é assim quando entram no Maracanã, se foca no jogo e aquele espetáculo que a gente vê ali é um mosaico de personalidades. A gente vê ali essa disputa entre torcidas, então é um espetáculo pra quem nunca viu. Era um espetáculo fantástico quando você sai daquele túnel direto pra arquibancada, era um absurdo quando o estádio estava lotado. É fantástico. A gente arrastava meu pai, pedia pelo amor de Deus pra ir. E, meu pai trabalhava muito e ele não tirava férias, raramente, [de] sábado e domingo ele não trabalhava, e quando ele não trabalhava domingo, era: “Vamos ver futebol”. A gente sempre ia. Quando o jogo não era domingo, era sábado. Durante a semana não, porque era tarde e à noite e aquela coisa toda, e eu tinha escola, então não... Aquilo era uma paixão pra mim. E no dia a dia, eu gostava muito de jogar futebol, bola de gude - eu tinha a minha caixinha. Antigamente, se comprava bolinha de gude em uma papelaria - vendia docinho também -; a bolinha de gude, você escolhia uma de cada cor, comprava a bola de gude, ia pra casa, limpava aquela bola de gude e ficava esperando a hora que você ia pra rua, ia pra um chãozinho de terra jogar bola de gude. E os famosos - você deve ter ouvido falar, deve ter visto no museu talvez - os carrinhos de rolimã: a gente fabricava com sobras de caixotes de frutas e tal; isso rendia umas fraturaizinhas, alguns pontinhos no queixo, um cotovelo ralado. Mas, enfim, nessa época não tinha muita preocupação com segurança: a gente só queria brincar. Mas era possível brincar, você conseguia ir para a rua brincar sem risco - o risco era o da brincadeira. Fora isso, você podia frequentar as praças, escorrega, balança, mas isso aí é mais novo, quatro, cinco anos, depois foi: “Onde é que tem um lugarzinho pra a gente jogar um futebol?”, aí tem que achar um lugarzinho pra jogar um futebol - na escola, na hora do recreio, enfim. Isso me rendeu umas calças da escola rasgadas também, que um outro problema para administrar com meu pai, porque ele não admitia jogar futebol na escola: “Você joga futebol quando você estiver aqui”. E eu, por duas vezes, caí e rasguei a calça da escola, eu não queria contar isso pra ele de jeito nenhum, então quem era minha cúmplice? Minha avó, então ela dava um jeito de... Não sei se vocês conhecem essa expressão, “cerzir” e ficava perfeito. Ela fazia e falava: “Pelo amor de Deus, não joga mais bola na escola! Você vai rasgar de um jeito que eu não vou conseguir fazer mais”. Mas não tinha jeito aquilo, era um vício. Enfim, minha infância foi essa aí. Televisão, a gente raramente assistia porque a programação infantil, naquela época, era muito escassa, reduzida. Eu me lembro, assim, de um programa infantil, quando a TV Globo começou a operação dela, 1965, era um programa chamado “Uni Duni Tê”, educativo, com brincadeiras, e a gente gostava de ver. Mas aí tinha aquelas séries que a gente assistia: “Nacional Kid”. Bom, eu já falei minha idade, agora não adianta esconder mais - os programas denunciam. “Nacional Kid”, “Batman”, mas daquela época do Batman com aqueles carros Ford (risos) - nada de Batmóvel -, e outros seriados. “Capitão Furacão”, eu participei, fui ao programa, na época em que a Elizângela [Elizângela do Amaral Vergueiro], essa atriz da Globo - era, assim, o sonho de consumo de toda garotada, ela era a musa da garotada na época. (risos) Ela trabalhava no programa, ajudava o “Capitão Furacão” que era interpretado pelo Bongiancchini [Pietro Mário Pietro Mario Francesco Bongiancchini]. Existia um negócio chamado “Clube dos Grumetes”, [em que] você tinha uma carteirinha [e] ia lá no programa. Mas, também, televisão não tinha muita alternativa: a programação muito restrita e também, depois de uma certa hora, não tinha alternativa, era pra ir pra cama e ponto final. Antigamente, esse negócio de: “Peraí, pai. Peraí!”, não tinha esse papo. “Vai pra cama” é vai pra cama, não tinha negociação. Aí não assistia mais televisão à noite, e de dia não tinha. Meu filho de seis anos dorme meia noite e falo com ele: “Vamos dormir”. Ele fala: “Peraí pai”. (risos) Aí eu tenho que negociar com ele - você negocia mais dez minutos, mas no final ele sempre vence. E aí acaba indo dormir todo mundo tarde.

P/1 – E as comemorações, festas, de natal, aniversário? Tem muita lembrança?

R – Muitas, muitas. Os Natais eram maravilhosos, ótimos. Primeiro, que as festas de Natal e Ano Novo eram sempre na nossa casa e minha avó tinha uma mesa para doze pessoas, super antiga - era uma madeira toda entalhada, maciça -, e tinha um prolongamento para aumentar mais quatro lugares, virava uma mesa com dezesseis lugares. É um negócio, assim, inimaginável nos dias de hoje; você até vê mesa de dez lugares, doze lugares, mas você olha e pensa: “Onde vou botar isso?”. Tem que ter uma casa muito grande. Então, aquela preparação pra festa de Natal começava uma semana antes, tudo era literalmente preparado. A árvore de natal era um evento; no início de novembro, já começava a fazer a árvore de natal, [que] era imensa, enorme, toda ornamentada, toda diferente; o meu pai montava um presépio com peças enormes, com água corrente; tinha visitação na casa da minha avó, as pessoas iam visitar só pra ver o presépio - lógico, só curiosidade de ver o presépio, não era negócio. Meu pai era um cara muito criativo, como eu falei, muito habilidoso, consertava [e] fazia tudo. Ele gostava muito - família católica - da festa de Natal. Era a festa que ele mais gostava, então ele fazia aquilo com um prazer imenso. O capítulo da comida é um capítulo à parte. Em casa de português, sem festa, ninguém sai ileso; você tem que comer alguma coisa, não tem essa de só um cafezinho, tem sempre um complemento. Imagina o Natal, era uma coisa inimaginável: você saía dali sem conseguir respirar. São dias comendo, dia 24 e 25; terminava oficialmente no dia 25, mas aí nos dias 26 e 27 ainda tinha comida, porque era muita coisa, e o negócio ia até o “Réveillon”, Ano Novo. 31 e [dia] primeiro era outra festa igual, mas sempre passando em casa - a gente não gostava de viajar, ficava em casa. Toda [a] família vinha, era uma algazarra, uma confusão, muito barulho, mas todo mundo feliz. 

P/2 – Em que bairro você morava?

R – Tijuca, eu morava na Tijuca.

P/2 – E como era lá?

R – Naquela época, na Tijuca?

P/2 – É.

R – Muito boa, continua boa até hoje. Eu ainda moro na Tijuca - vou me mudar agora, vamos morar na Barra agora, em uma casa com mais espaço. Nós moramos em um apartamento confortável, mas casa é casa, para as crianças é melhor, eles vão ter mais espaço. Mas a Tijuca era, é, eu moro lá desde que eu nasci - só 50 anos -, eu gosto muito de lá. É um bairro residencial, tem um comércio pequeno... Não é pequeno, tem um shopping muito grande. O Shopping Barra, o comércio de rua foi sendo substituído pelos “shoppings”, mas você ainda encontra muitas lojas de rua, lojas onde você consegue encontrar boa parte do que precisa com preços até melhores; tem [também] muito consultório médico, muitos dentistas. É um bairro bom pra se morar. Ao longo dos últimos anos sofreu muito com essa questão da violência, como muitas cidades no Brasil inteiro. A Tijuca sofreu muito porque ela tem relevo, existem muitos morros em volta, então esse problema todo da questão das comunidades, tem a questão do tráfico dos entorpecentes, isso fez com que a gente tivesse muitos problemas com a violência. Mas eu diria que nesses últimos 12 meses melhorou muito com essa questão das unidades pacificadoras. Obviamente, a gente sabe que não vai acabar, mas a sensação de segurança que a gente tem hoje é indiscutivelmente melhor do que a gente tinha um ano atrás. Tiroteio, muitos assaltos a carros, tudo isso, a gente não tem mais. O bairro é ótimo, ainda tem muitas casas. Lógico que ainda tem a questão do aumento das populações, a especulação imobiliária: é um bairro central, próximo da Zona Sul, do centro da cidade, tem uma proximidade com o Alto da Boa Vista, Barra da Tijuca; então é um bairro que tem uma localização privilegiada. Mas qual é o problema da Tijuca? É que não tem praia. Então, o “Tijucano” ele ou vai à praia em Ipanema ou Leblon, ou ele vai pra Barra. Na minha infância, eu ia muito pra Ipanema e depois comecei a frequentar mais a Barra, com filho e tal. Mas isso também me fez desistir de ir à praia também. Você imagina aquela parafernália, cavalinho e não sei o que, roupinha pra trocar, potinho pra lavar o pé antes de entrar no carro; é toalhinha pra isso, toalhinha pra aquilo. Também tem aquela logística: você fica duas horas na praia e seis pra se aprontar, então praia agora é só se for viajar, mas, hoje eu já tenho essa coisa de saber que praia só viajando. Mas o bairro é ótimo.

P/1 – E da escola, você lembra da sua primeira escola, do seu primeiro dia de aula?

R – Eu me lembro de tudo, me lembro bem do Jardim de Infância. Bom, é um capítulo à parte, porque a terminologia que eu vou usar não é a terminologia de hoje: na minha época, era Jardim de Infância. Eu lembro bem do jardim da infância porque, antigamente, você não ia pra escola muito novo, ia pra escola quando você de cinco para seis anos; para o jardim de infância, na época. Você levava um, no máximo dois anos, e depois ia direto para o primário. Eu lembro bem que a roupa era um avental branco - era escola pública, né? Porque, antigamente, havia pouquíssimas escolas particulares e o ensino público era muito bom, de muito boa qualidade, não tinha problema nenhum com os ensinos de escolas públicas. E a gente usava um avental branco com o nomezinho gravado de vermelho, todo mundo identificado.Lembro que eu estudei em uma escola chamada Bárbara Ottoni, que fica na Rua Senador Furtado, lá na Tijuca mesmo - isso, no Jardim de Infância. No Primário, eu estudei no Benedito Otonni, era uma escola ao lado, parede com parede, e ali a gente usava aquele famoso uniformezinho branco escrito “aqui”, “EP” - escola pública - (risos) bordado em azul. Me lembro perfeitamente; lembro do nome das minhas professoras.

P/1 – Tem alguma que marcou você?

R – Sim, me lembro da professora do segundo ano, Maria Cecília: muito exigente, muito - segundo ano do Primário. Terceiro ano era a Maria de Lourdes: também muito exigente. Antigamente, as professoras eram muito exigentes. Raramente você encontrava como professora uma pessoa muito jovem, já tinha uma certa idade, porque as pessoas mais jovens começavam no jardim; no primário, eram pessoas [com] mais experiência. No jardim sim, a pessoa era mais nova. Agora, no primário, eram pessoas mais experientes. Então, eu me lembro, Luiza Campeiro era a primeira professora, Maria Cecília, a segunda, Rosa Malina, a terceira, e Maria de Lourdes, a do quarto ano - lembro o nome de todas elas. E eu não lembro como foi ontem, (risos) se me perguntar o que eu comi ontem eu não lembro... Me lembro que nessa época também..., Isso era muito interessante. A escola, antigamente, o primário, era muito interessante. Tinha toda uma formalidade, a professora entrava na sala e todo mundo levantava. Hoje em dia, a professora entra na sala e você nem percebe que ela já está lá. Antigamente, as coisas eram um pouquinho diferentes, tinha muita disciplina - é lógico que todos éramos crianças e as pessoas entendiam isso. A disciplina que eu me refiro é isso: antigamente, tinha uma hora de fazer bagunça, que era o horário de recreio, [e] durante a aula não tinha bagunça. Então a primeira coisa que você fazia quando entrava na escola, todo mundo perfilado no pátio da escola cantando o hino nacional [e] a diretora na parte superior, onde tinham as salas, as escadas pra subir, ela ficava da parte superior observando todas as crianças cantando o hino nacional. Se você virasse para o lado e falasse com o colega, era retirado da fila, tinha que subir a escadaria e ficar atrás da diretora, olhando pra parede. Isso é uma coisa que nos dias de hoje, se a gente fizesse isso, alguns corpos ficariam pelo caminho... (risos) Eu não acho que isso seria feito impunemente. Mas, antigamente, era a diretora “você aí”, “não sou eu não”, “você, você”,  aí tinha que subir e ficar de rosto pra parede enquanto o hino tocava - e ia uma anotação pra sua mãe falando que você não se comportou adequadamente durante a execução do hino nacional. Mas, sinceramente, eu não via muito problema nisso não, isso eram os métodos da época. Se você for ver nessa época assim, existiam métodos até mais rigorosos pra manter a disciplina, mas a humanidade evoluí, tem muitas formas de você fazer com que as pessoas tenham uma certa disciplina. Enfim, eu acho que naquela ocasião isso não tornava ninguém infeliz; você se acostumava com aquele estilo, tinha que se adequar e procurar viver os momentos de lazer que você tinha dos melhores jeitos possíveis. Na hora do recreio tinha roda, todo mundo brincava, jogava bola - dentro da sala não tinha isso. Eu sempre gostei muito de estudar; pra você ter uma ideia, eu estudava à tarde e acordava todo o dia seis e meia da manhã. Antes de tomar café, eu já queria fazer o dever de casa. Tinha uma quantidade grande de dever e eu queria sempre fazer o dever - e quem acordava essa hora comigo, com o meu barulho? Minha avó. Ela fazia um lanchinho: “Come primeiro, senão você não pode estudar”, aí minha mãe quando acordava já estava tudo resolvido. (risos) Dever de casa quase pronto e o menino lanchado, e aí ela corrigia e tal... Eu era muito disciplinado, mas isso eu sou até hoje, sou um cara muito disciplinado em tudo que eu faço - tento ser. Hoje, com um filho de seis e outro dez anos, você perde um pouco a disciplina. Eu sou um cara que adoro ser pontual, já não sou mais. Sou um cara muito gozado, a festa começa às sete, você chega às oito, eu não falo mais, tipo, a festa é às sete, eu falo: "Gente, seis horas todo mundo vai tomar banho", os caras só vão tomar banho às sete. Então, na hora que está começando a festa, os caras tão tomando banho, aí eu relaxo, porque se eu não relaxar eu vou enfartar, aí eu relaxo mesmo. “Ah, então, vamos chegara às oito”. Os caras das antigas são quem sempre falam: “Pô, esse cara mudou, hein?”. Não acabou, agora eu tô no bolo, mas gosto de ser pontual, gosto de cumprir com as minhas tarefas. Nunca repeti de ano; graças a Deus, sempre passei. Desde o primário; eu fui estudar depois em um colégio chamado Pedro II. Pedro II foi fundado em 2 de dezembro de 1837, então é um colégio mais do que centenário. Hoje em dia, a qualidade de ensino, como de todo ensino público, caiu muito, mas ainda é um colégio que você pode ter uma certa confiança. É uma pena que o ensino tenha caído, mas a minha filha  de 28 anos, ela estudou lá. Embora ela já tenha 28 anos, de lá pra cá, as coisas pioraram um pouquinho mais, mas essa é uma coisa que... O Pedro II era um colégio que criava uma identidade, é uma relação muito forte dos alunos com ele - era como um clube de futebol. Todo mundo adorava o Pedro II, até hoje tem encontros - o pessoal faz encontro do Pedro II, tem uma associação. Então, tem pessoas que estudaram no Pedro II que são ministros. Era um colégio muito tradicional, e até hoje ainda existem esses encontros. Eu fiz Ginásio, Científico e depois fiz vestibular na Universidade Federal Fluminense, uma universidade federal, eu entrei na universidade em 75 e tive a sorte de passar para o segundo semestre. Eu estudava inglês - estudava muito inglês -, fiz sete anos de inglês. Aí no primeiro semestre pensei: “Ah, vou fazer um dinheirinho extra aqui, porque eu vou ficar seis meses aqui”, senão vou ficar indo para a praia, ir a praia não dá, né? Comecei a dar aula particular, dava aula de matemática, de inglês e de física; fiz um dinheirinho aí nesses seis meses, mas depois acabou porque a faculdade era tempo integral. Foi ralação durante quase cinco anos, mas eu também tive a sorte de conseguir fazer o que eu queria fazer que era Engenharia Metalúrgica. Eu escolhi fazer, não foi por falta de opção. Eu queria fazer Engenharia Metalúrgica, tinha um certo fascínio pelos metais. Ah! Lembrei de um detalhe curioso: o fascínio pelos metais - faltou fazer um comentário sobre o jogo de botões artesanal. Você tinha botões de casca de coco, tampinha de relógio, fichinha de ônibus e para o goleiro, você conseguia sobras de chumbo: pegava uma caixinha e fundia o chumbo - a caixinha de fósforo era o molde - você derretia o chumbo e botava ali; o chumbo tomava a forma de uma caixinha e esse era o goleiro. Então eu já gostava de fundir metais com oito, nove anos, eu ficava pensando o seguinte: “Poxa, eu fiz essa coisa pequenininha. Imagina uma coisa enorme, imensa!”. Eu via o Bonde, eu achava que o Bonde era todo fundido em uma peça única; o avião: “Como se faz um avião?”. Eu ficava pensando naquilo e fui levando esse negócio na  minha cabeça, e decidi fazer Engenharia Metalúrgica: “Vou descobrir como esse negócio funciona” e acabei fazendo. Passei para metalúrgica e dentro da metalurgia, particularmente, porque a nossa universidade tinha uma ênfase muito grande em siderurgia, que é a fabricação do aço e tal, mas tinha uma cadeira muito interessante, que é soldagem, e ela era no último período. E, no último período, você pensava: “Não, já tô quase sendo engenheiro formado, ninguém reprova ninguém calma”. Só que o professor, esse professor de soldagem, ele era um carrasco. Vou explicar melhor - carrasco é uma expressão muito forte -: ele era um cara extremamente exigente e reprovava no último período; eu vi pessoas que tiveram que fazer o último período por causa de soldagem. Ele era engenheiro, era especializado em soldagem, tinha se especialização na França e tinha uma caldeiraria, o negócio dele, e fascinava o que ele explicava, porque além do conhecimento teórico, ele tinha o senso pratico da aplicação. Eu me apaixonei por esse tema por causa desse cara. Ele fez com que a gente, eu e alguns outros colegas, se apaixonassem; outros não, tinha gente que estava doido pra ver o cara por trás, acabar logo o período pra a gente se livrar logo dessa mala e pegar logo o diploma, mas eu gostei do negócio. Tive que estudar muito pra passar e o trabalho final do curso era um trabalho de soldagem de tubos. Estudamos muito pra fazer aquele trabalho - foi um trabalho em grupo -, tivemos uma nota boa, não foi máxima porque ele sempre encontrava um problema. E aí me apaixonei pela soldagem: “Eu tenho que trabalhar com isso”. E aí os fatos foram se sucedendo e eu fui trilhando o meu caminho da soldagem. No meu primeiro emprego, eu saí do caminho da soldagem, em 1980, perdão dezembro de 79. A gente estava em uma recessão, o Brasil, econômica nessa época, aí eu lembro que terminei a faculdade em dezembro e falei: “Gente, eu tenho que trabalhar agora, o que eu vou fazer?”. E eu datilografei um currículo, currículo de faculdade. O que tem no currículo de um cara que fez faculdade? Nome, endereço, telefone, participei do seminário tal, palestra tal... Não tem muita coisa para escrever ali, é um currículo de duas páginas. E aí eu me lembro que eu fiz mais de cem currículos, fui ao correio e mandei. Eu mandei o meu currículo pro Brasil inteiro. Eu busquei nas páginas amarelas listas de empresas que trabalhavam com metalurgia no Brasil inteiro, mandei meu currículo pra vários lugares - aqui no Rio não, eu fui entregar pessoalmente. No Rio, eu fiz questão de entregar, entrava no ônibus e ia lá diretamente entregar. O seguimento de indústria mais forte no Rio era a construção naval; eu lembro que peguei um ônibus fui para Niterói, existiam vários estaleiros em Niterói, lembro que era Janeiro, verão, eu saltando de ônibus, indo de um em um, e em alguns lugares não deixavam eu nem passar da porta: “Ah, não temos vaga”, “Não? Mas eu só queria...”, “Não temos vaga”. Botava a pastinha e ia procurar. E aí, aqui no Rio, no Caju, um era o Ishikawajima, de origem japonesa, e o outro era o Estaleiro Caneco. E o Caneco me chamou pra fazer uma prova, prova de seleção, foram seis candidatos e uma única vaga: a melhor prova foi a minha. E aí, quando eu estava prestes a entrar, “adesões suspensas”. E eu: “Gente, eu tenho que trabalhar nesse lugar! Eu tenho que trabalhar aqui”, e eu ia lá, batia na porta e tentava falar com as pessoas, não conseguia. Até que em Setembro eles me ligaram, no dia 8 de setembro de 1980, e eu fiquei lá exato sete anos. E no dia 8 de setembro de 87, eu entrei na White Martins, exato sete anos depois.

P/1 – Vamos fazer uma pausa rapidinha... 

[Pausa]

P/1 – Bem, nós paramos na parte que você entrou na White Martins, mas eu vou querer voltar.

R – Vamos voltar, vamos voltar! (risos)

P/1 – Na escola, você começou a gostar de matemática [e] física; qual matéria começou a te chamar mais atenção? Ou foi mais essa coisa mesmo de saber "de onde vem o ônibus, o bonde"? 

R – Um pouquinho das duas coisas. Mais novinho, eu gostava de matemática, de ciência e sempre gostei muito de português - adoro português, gosto de escrever bem. Gosto de falar bem, gosto de me atualizar. Estou lendo essa nova ortografia; é uma coisa impensável para quem faz engenharia (risos), mas eu gosto de me atualizar. Desde muito cedo, eu sempre gostei de matemática e ciências, e depois mais de línguas, gosto muito de inglês. Línguas entre aspas porque alemão eu acho uma língua muito difícil, mas eu estudei latim no Pedro II. O latim era obrigatório, mas, a língua que eu mais gosto é o inglês. Fiz Cultura Inglesa. Sempre usei muito o inglês, a minha profissão me obriga muito a usar o inglês. A minha vida na White, [e] no próprio Estaleiro, eu tinha que conversar e me reunir com os armadores. A maioria eram normalmente estrangeiros, então a língua era inglês - isso fez com que eu me interessasse mais e me ajudou muito a ter fluência. Mas sempre gostei muito de matemática e ciências, e também eu tinha essa curiosidade de saber como funcionam as coisas. Um trem, por exemplo, como o trem se movimenta, o bonde, eletricidade - eu queria entender como as coisas funcionavam e sempre fui muito curioso. Então, era um pouquinho das duas coisas, a vontade de entender o funcionamento das coisas e o gosto pela matemática e também por ciências.

P/1 – E a relação disso tudo com o seu pai que era tão criativo?

R – É, na verdade, eu não estudava muito com o meu pai, [ele] trabalhava muito. Eu estudava muito sozinho e com a minha mãe. Minha mãe gostava de estudar comigo e eu com ela; meu pai não, ele era [para] as coisas mais práticas. Ele tinha o negócio dele, como eu falei no início da conversa, veio trabalhar em uma empresa sueca, mas logo, logo, saiu. Ele queria ter o negócio dele, aí montou a oficina dele de reparo, equipamentos, máquinas de escrever, máquinas registradoras, ponteiro de relógio de ponto - ele consertava esses mecanismos, adorava consertar essas coisas. E aí, depois, ele passou a fabricar um negócio que hoje em dia é coisa de museu: são as fitas pra máquinas de escrever. Coitado, se ele fosse hoje vivo e dependesse dessas coisas pra viver, ele não conseguiria certamente sobreviver com isso, mas ele educou três filhos com isso, ganhou a vida dele com isso, consertando coisas e fazendo fitas pra máquina de escrever. E eu me interessava muito por isso, às vezes eu ia pra oficina dele, aos domingos, tentar entender como ele fabricava a fita, como ele bobinava a fita - eu gostava de todas essas coisas. E ele ficava muito feliz com isso, porque ele percebia que de alguma forma ele contribuía pra ajudar. O estudo ficava mais com a minha mãe e ele mais com a parte prática, mas eu sempre tive muita curiosidade de saber como as coisas funcionavam. Eu não tenho a mesma habilidade que ele tem, porque meu pai era muito habilidoso, ele não chamava ninguém pra consertar as coisas dentro de casa; pra você ter uma ideia, até sofá ele forrava: comprava o tecido, botava e ficava perfeito. Ele pintava a casa, fazia serviço de bombeiro, serviço de eletricista, até televisão ele consertava. E ele estudava, comprava livros pra aprender, mas mais do que isso, ele tinha habilidade. Não adianta você ter só o conhecimento pra fazer as coisas, você tem que ter habilidade também. Eu não tenho a mesma habilidade que ele tinha pra fazer essas coisas. Eu confesso [que] sou criativo, curioso, mas a habilidade dele é difícil, nunca conheci alguém com tanta habilidade diversificada. Ele costurava, botava a roupa na máquina de costura e costurava, ele consertava a máquina de costura, cozinhava muito bem, era uma pessoa assim muito “eclética” do ponto de vista de habilidades manuais, ele pra mim foi um exemplo. Era uma pessoa muito dura, muito rígida, minha relação às vezes com ele era muito difícil na infância. Tem uma passagem, assim, dele muito interessante: ele tinha um carro - ele comprou um carro há muito tempo -, e o carro dele era um fusca 0km, aquele fusca 1500, aquele motor mais possante - na época, esse carro era um fenômeno pra classe média. Ele cuidava muito bem do carro, usava pouco. Quando entrei na faculdade pensei: “Opa, vou tirar a carteira de motorista - já de olho naquele carro - vou pegar esse carro aí”. E aí ele chegou: “Ah, você quer tirar carteira de motorista?”, “Quero!”. Perfeitamente foi lá, pagou pra mim a carteira de motorista - eu não trabalhava e tal, só estudava. Fui lá, peguei a carteira de motorista. No dia em que eu peguei minha carteira de motorista, eu cheguei e: “Pai, então, agora [que] eu peguei a carteira de motorista, queria usar seu carro nos finais de semana”, “Opa, quer usar meus carros finais de semana?”, “Quero, quero”, “Você pode pagar a gasolina do meu carro?”, “Não”, “Pode pagar a manutenção do carro?”, “Também não”, “Então você não pode ter carro, nem emprestado. Quando você estiver trabalhando e tiver como pagar todas essas despesas, você vai ter o seu carro”. Eu fiquei revoltadíssimo, mas sabe de uma coisa? Ele não estava errado não, eu hoje vejo no cotidiano tantos exemplos de pessoas que não valorizam as coisas que têm ou fazem mau uso das coisas que têm ou que recebem. É lógico [que] eu não sou contra quem dá carro para os filhos: é obvio que ele era muito pessoa muito simplória, muito humilde, do século passado, mas ele tinha lá os princípios dele, o que ele julgava correto. Ele tinha lá os conceitos dele, mas eu também não recrimino quem faz. Só que eu acho que quando as coisas vêm fácil, você não valoriza. Isso para mim é muito claro, eu diria até na relação cliente e fornecedor: quando a gente recebe as coisas com muita facilidade, a gente não valoriza. Isso foi um ensinamento que eu tive com ele. Isolando essa questão de que eu não podia usar o carro, que foi uma coisa que depois eu resolvi de outra maneira: minha namorada tinha carro e eu acabei resolvendo de outro jeito. (risos) Mas bem mais tarde entendi na simplicidade dele, na maneira humilde dele, que ele enxergava as coisas, dura, né? É lógico que hoje a gente e procura adaptar um pouquinho as coisas, não com tanta rigidez, mas a gente procura transmitir, porque eu acho que a essência é boa, essa essência que ele transmitiu. Eu valorizo tudo que eu tenho e tento transmitir isso pros meninos. Os mais novos são sempre mais difíceis, por mais que a gente tente explicar, o apelo, a pressão externa, é sempre maior. Seu filho vai pra escola, aí o coleguinha tem um Nintendo Wii 3, o não sei o que lá 5, e o não sei o que lá 4.8, e o cara tá com a versão 4.7: “Mas pô, pai, a versão 4.7 não dá pai! Não usa mais isso”, “Meu filho, isso tem seis meses”, “Mas pai, não dá”, “Peraí, tem que ser 4.8? Depois saí a 4.9”. Então a pressão externa que a gente tem do lado de fora é muito grande. É um desafio para criar um filho, você tem que passar a essência, explicar a dificuldade, administrar. É difícil porque a gente tende a querer facilidade: “Pô, fiz um sacrifício pra tirar a carteira e agora vou andar de ônibus”, não dá, né? Mas, enfim, acho que a mensagem era boa.

P/1 – Bem, e na adolescência: você saía com os amigos? O que era de se fazer na época, os lugares para sair, passear?

R – Ah, antigamente, o melhor para frequentar era festinha de 15 anos. Todo sábado tinha uma festinha de 15 anos e o legal dessas festas era você entrar em festas nas quais não tinha sido convidado.

P/1 – (risos)

R – Então, tinha toda aquela logística de você entrar em uma festa, ser o penetra - era "top" de linha. Então, você andava pelo bairro sábado à noite, todo mundo saía, com a melhor roupinha e: “Pô, onde é que tem uma festa de 15 anos pra a gente ir?”. Tinham as festas em que você conhecia os amigos e essa eram fáceis. Agora, o desafio era ir nas festas de quem você não conhecia, então você tinha que preparar todo um enredo, porque essas festas normalmente eram em prédios. Você tinha que dar um jeito de alguém do prédio chamar você pra entrar na festa, então ficava na porta esperando alguém entrar, chegar. E uma das peças técnicas que a gente usava nessa época era quando uma pessoa chegava, você começava conversar - e uma conversa totalmente desconexa - e ia entrando junto. Aí, normalmente, o porteiro do prédio achava que estava todo mundo junto e a pessoa que tinha sido convidada se anunciava, e você tava ali como acompanhante - e entrava. Então, essa era uma das táticas que nós usávamos. E, normalmente, como eram pessoas da sua idade, certamente, em algum momento faziam isso também, elas se solidarizavam com você naquele movimento de penetrar na festa, se engajavam no processo e todo mundo penetrava. É lógico que não podia colocar cinco, seis de uma vez só, ia dividindo: “Agora entro eu, depois você vai com o outro”, e no final todo mundo entrava. E o objetivo... Essas festinhas de 15 anos eram uma boatezinha; como é que funcionava o negócio? Na sala de estar você tinha lá um estroboscópio com luzinha, um sonsinho, uma picape lá com um punhado de LPs [disco de vinil] - anos 70, isso -, aí tinha todo tipo de música, tinha Blues, Rock. E o Rock, naquela época, era Rock mesmo, então você tinha Jethro Tull, Pink Floyd, coisas do gênero, Led Zeppelin - era coisa boa. E tinha também as musiquinhas melosas. Ou você dançava separado ou você dançava coladinho. Musiquinha melosa todo mundo dançava coladinho, todo mundo esperava essa hora. Aí, como é que funcionava o negócio? Todo mundo encostadinho na parede, todo mundo paquerando, olhando e você olhava:  “Aquela ali é legal e tal, vou chegar junto”. E aí tinham umas técnicas: você olhava e tal, se ela olhasse também, já estava dando a oportunidade de pelo menos conversar, tinha sempre a amiga do amigo que você pedia para apresentar e tal; pô, aquele amigo e tal... Hoje já chega todo mundo ficando - o negócio aconteceu antes, a festa é só um evento. Antigamente, você suava pra conseguir alguém, namorar, então era um dificuldade. Não tinha essa coisa de hoje todo mundo com carro; acabou a festa, você ia para casa a pé ou de ônibus. Então como é que você ia fazer? Namora no muro. Beijar era uma coisa, um espetáculo: “Beijei alguém hoje, ganhei meu dia. Ganhei meu sábado, vou pra casa feliz da vida”. Normalmente, numa ruazinha mais escura - não tinha assalto naquela época, não tinha esse problema -, os muros das casas lotados de gente. Aí o pessoal procurava espalhar e tal, porque os donos das casas podiam chegar e: “Pô, sai daí e tal. Essa pouca vergonha aqui na minha casa”, e beijando, só beijando. Mas era uma conquista, você valorizava. Normalmente, esses namoros duravam mais; hoje é beija aqui, beija ali, disputa quem beija mais. Você escolhia uma e ficava em umas quatro ou cinco festas, depois trocava; era natural, todo mundo troca: ela troca, você troca. Durava uns seis meses, mas tinha uma certa ética no negócio, uma certa regra. Hoje não tem regra, hoje é muito fácil, não tem problema nenhum, não tem nada. Você não tem que tramar pra ir na festa, você não tem que armar um esquema pra chegar na pessoa. A conquista dava mais prazer, era mais elaborada, todo mundo valorizava, tanto a menina quanto o cara. Mas, era legal, muito legal, era festinha de 15 anos ou então festinha em clube. Aí, quando tinha festinha em clube, você comprava o ingresso e entrava, mas era sem graça, tinha que dar um jeito de entrar de penetra. (risos) Isso era uma questão até de filosofia. Às vezes você até tinha o dinheiro, o ingresso era muito barato, mas e o gostinho de entrar sem pagar, isso é impagável. Porque depois todo mundo conversava sobre isso, tipo: “Cara, você pagou?”, “Paguei”, “Ah, cara, que falta de imaginação. A gente tinha um esquema aqui, pulava o muro do colégio do lado, você caía aqui dentro do clube e já entrava no salão”, não tinha confusão.

P/1 – Agora, eu queria que você me contasse como foi entrar na faculdade? 

R – Bem, entrar na faculdade era tão difícil como é agora, né?

P/1 – Você estudou bastante?

 R – Eu estudei bastante, terminei o Científico - fiz até o segundo Científico. O terceiro ano, você fazia um cursinho. Isso, naquela época, era praxe, porque era muita coisa, era um negócio muito maçante, as provas eram muito longas e complexas, tinha o Baiense, o Impacto; e você tinha que se preparar mesmo de forma diferenciada - era um negócio maçante. E eu fiz o Baiense na época; pra você ter ideia, na turma, tinham 120 alunos [em] cada turma, eram salas imensas. Imagina o nível de atenção que você tinha que ter com 120 pessoas? Era um auditório, praticamente. Epra você copiar, ou seja, o nível de aprendizado na aula era baixo, porque você imagina o seguinte: 120 pessoas falando “Professor, eu não entendi”. Você copiava e estuda depois, aí vira à noite, sábado e domingo, tinha que estudar muito. E quando eu fiz, tinha geografia, história, literatura - uma quantidade enorme de livros -, física, química, matemática. Era muita prova, que não era fácil não, era muito difícil, mas estamos falando de 74, tinha menos gente - menos gente, menos vaga. Então, as relações candidato-vaga eram apertadíssimas. confesso que medicina era muito mais difícil - não sei como está hoje, mas era muito difícil -, principalmente porque todo mundo queria passar para faculdade do governo, ninguém queria passar para faculdade paga. Então a disputa era ferrenha, você tinha UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro e UFF (Universidade Federal Fluminense), só. Então eram poucas vagas e muita gente. Foi um ano muito difícil, muito duro, [com] muito sacrifício. Muitas festas que você deixava de ir, mas tinha que ser feito. E também, teu pai tava pagando, porque o cursinho de vestibular era pago. Antigamente, as pessoas se preocupavam com isso, hoje as pessoas não se preocupam muito não, mas antigamente a gente se preocupava com isso: “Meu pai tá pagando, tá investindo e tudo, com muita dificuldade, muita luta”, e dinheiro não sobrava. Então você se sentia na obrigação de corresponder a todo aquele investimento. E outra coisa: além do seu pai estar investindo, ele não deixava você trabalhar. Então é diferente de uma pessoa que estuda e trabalha. Quando você só estuda, a responsabilidade aumenta mais ainda, sob esse aumento psicológico - isso com as pessoas que se preocupam, né? Porque tem gente que, ah... E eu me preocupava muito. Ainda tinha mais dois irmãos. Era muita dificuldade, muita luta, então tinha que me sacrificar em prol da causa que mais do que nobre, mais do que justa. Até porque você não deixava de ter diversão, mas não era aquela coisa sai sexta e volta domingo à noite, era um dia. Era até iniciativa própria, ninguém falava: “Ah, você só vai sair tal dia”, não, era iniciativa própria.

P/1 – E sua entrada na faculdade?

P/1 – Entrando na faculdade, aí era outro mundo. Quando você está em um colégio; até o vestibular chega a ser um colégio: você tem uma rotina, uma forma de se relacionar com o professor, com a matéria, uma forma totalmente diferente. Então, aquele primeiro período da faculdade foi muito difícil, no sentido de você tentar se adaptar a uma realidade nova de relação com quem está te ensinando. Na universidade, o cara vai lá bota a matéria no quadro, a bibliografia - “Anota aí." -, quatro ou cinco livros. Você não tem dever de casa, não tem a sua mãe falando: “Faz o dever de casa aí”, é contigo. Você administra o seu tempo, administra o seu estudo. “Ah, vem cá, fulaninho estudou a lição...”, não tem isso. Então isso demanda maturidade, e eu acho que esse [é] o pior período, é o primeiro, porque é justamente a transição entre um regime que você era cobrado diariamente por um regime que você não é cobrado.  Ou o cara te massacrava de cobrança ou ignora a sua existência. Então até você se achar, até você achar a sua dose de remédio, ou você morre da doença ou você morre de overdose. Não foi fácil não. Algumas notas baixas, rolaram alguns sustos até encontrar a maneira de estudar diferente. Porque antes, normalmente, o que cai na prova é o que está no livro ou o que está no quadro. Agora não, na faculdade, o cara te ensina a pensar, então você tem que aprender a raciocinar, as situações, principalmente engenharia, que vão aparecer ali não necessariamente foram contempladas na aula e nem no livro. Só que você tem que ter aprendido a maneira de encadear o teu raciocínio e chegar a uma conclusão. Eu até diria que isso não é só na engenharia, isso serve para tudo. Embora eu não tenha feito outras cadeiras, imagino que essa forma é universal. Engenharia não tem decoreba: você pode decorar uma fórmula, mas aí o cara na prova pede para você deduzir a fórmula. Não adianta decorar, o cara quer saber como você chegou nessa fórmula. Então, foi realmente um baque essa mudança, foi uma mudança muito forte, mas a gente se adapta.

P/1 – E aí você entrou em engenharia depois ou você escolheu a metalurgia [antes]?

R – Não, já entrei em engenharia metalúrgica, entrei pra UFF que era a minha segunda opção, era primeira opção. Porque eu tinha colocado na primeira opção "segundo semestre", e só a UFF tinha segundo semestre. Porque eu queria uns seis meses pra ganhar um dinheirinho, e: “Se eu passar pro segundo semestre, eu vou ter um tempo pra ganhar um dinheirinho, namorar mais um pouquinho, ir em umas festas”, e deu tudo certo. Fazia meu curso de inglês à noite - a Cultura Inglesa era à noite -, das sete às nove da noite, eu tinha que planejar e planejei muito bem. (risos) E aí entrei pra metalurgia direto, o básico eu fiz em Niterói, e o ciclo profissional de metalurgia eu fiz em Volta Redonda. Isso foi outra mudança na minha vida. A história profissional de metalurgia era em Volta Redonda - hoje é tudo em Volta Redonda, desde o básico até o profissional. E aí eu tive que morar sozinho. Foi a primeira experiência que eu tive morando sozinho, em uma república.

P/1 – E como foi essa coisa de morar sozinho?

R – Olha, foi um processo muito estranho. (risos) Primeiro, porque eu nunca fui de lavar roupa, fazer comida - eu só entrava na cozinha pra pegar comida, beber água ou um refrigerante, cerveja; só ia na cozinha pra isso. De repente, eu e mais quatro colegas dentro da casa, e aí? O que a gente vai fazer? Ficava lá de segunda até sexta, sábado de manhã, voltava pro Rio - uns até ficavam lá, eu voltava. Sábado, a aula acabava seis da tarde, eu ia pra rodoviária, pegava o ônibus, porque eu tinha que namorar - namorava uma menina aqui. Aí, no domingo, quatro horas da manhã, eu já estava na rodoviária pra voltar. Fiz isso todos os finais de semana por dois anos, não fiquei nenhum em Volta Redonda. E aí, nós estipulamos o seguinte: café da manhã na padaria, um café com leite, um pão com manteiga; tá resolvido o problema. E almoço? Almoço tinha uma pensão em frente a universidade. Então beleza, almoço tá resolvido. E o jantar? Vamos na pensão. Aí depois a gente se reuniu e falamos: “O negócio é o seguinte, [vamos] botar uma empregada aqui”. Onde já se viu cinco caras dentro de uma casa e ninguém sabia cozinhar, ninguém sabia lavar roupa, fazer cama. “Mas espera aí, não tenho tempo pra isso não.” Eu tinha que ir correndo pra faculdade, e tinha gente que levava uma bolsa de roupa suja pra casa. Tinha que ter uma empregada. Aí conseguimos uma senhora, Dona Isabel, muito boazinha - ela morava em uma cidade chamada Pinheiral. Aí deixava o almoço pronto. A gente que saía correndo da faculdade e ia almoçar, aquela comidinha da Dona Isabel, aquela comidinha caseira. Voltava pra faculdade e quando a gente chegava, a louça toda limpa e o jantarzinho pronto, perfeito, [com a] roupinha lavada. Só que pra pagar a Dona Isabel tinha que ter uma fonte de recurso: teve que convencer o papai a fazer um vaquinha. Falava com a mãe: “Pô, vai querer que a gente traga uma bolsa de roupa suja pra cá?”, aí a mãe já virou uma aliada. Roupa da semana inteira pra lavar no domingo, não né? Dividido por cinco, ficou barato. Dona Isabel foi campeã e quase recebeu plaquinha de homenagem na universidade, quase foi escolhida para paraninfo da turma - e ela merecia. Ficou com a gente dois anos, resolveu nosso problema de logística. Mas também o problema qual era; a gente estudava das oito às seis, chegava em casa [e] estudava mais, então não tinha tempo pra parar pra cozinhar e outras coisas. E na faculdade, não dava tempo pra fazer mais nada, tinha muita matéria. O nível de dificuldade era elevadíssimo e não tinha como: ou a gente estudava ou a gente fazia o trabalho doméstico. Dez, onze horas, todo mundo cansado, ninguém aguentava mais, então alguém tinha que fazer esse trabalho difícil. Então, Dona Isabel.

P/1 – Você chegou a fazer algum estágio na faculdade?

R – Isso era outro problema. Como eu falei para vocês, a gente tinha aula das oito da manhã até às seis, então a gente fazia nas férias, em julho. E a gente tinha uma vantagem que todo dia nós tínhamos aulas práticas, trabalhos práticos a serem realizados na CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) - ficava em frente a faculdade. Então nós passamos dois anos dentro da Companhia Siderúrgica Nacional. Isso, para nós, foi muito importante, eu diria pra você que vale até mais do que um estágio, porque era todo santo dia. Tinha um período, um horário, que tinha uma aula prática que era dentro da usina e outro, e nas férias a gente escolhia alguém que pudesse trabalhar com estagiário de um mês, então você imagina a dificuldade. Eu fiz em uma empresa chamada Hime Metalúrgica - que até já fechou -, ela fabricava vasilhames para a indústria de alimentos, indústria de acondicionamento óleos e eu fiz estágio na linha de manutenção, era um processo de soldagem das latas. E eu falei: “é aqui que eu quero ficar”, fiquei na linha de manutenção junto com os mecânicos de manutenção, ficava o dia inteiro em pé, não sentava, mas era uma muito legal. Um mês só, ninguém morre por causa disso. Em janeiro e fevereiro, a gente dava um jeitinho, verão e tal, praia, namorada. E aí, tinha que depois ficar aquele tempo todo na faculdade, não dá. Agora, julho não tinha jeito.

P/1 – E as suas aulas práticas na CSN, como eram? Seria legal se você também pudesse falar um pouquinho da CSN, na época.

R – Ah, sim. Era outra empresa, na época. Eu não sei hoje qual é a relação, mas, na época, 10% dos habitantes de Volta Redonda trabalhavam na CSN. Se não me falha a memória, na época eram cerca de 20 mil habitantes trabalhando na CSN. A cidade tinha 200 mil, era um efetivo bastante razoável. Era um mundo - até hoje é muito grande. Foi uma escola espetacular sob todos os aspectos. A gente lidava com pessoal de produção. Os processos de fabricação do aço, naquela época, eram um pouquinho diferentes, mais poluidores. Eu me lembro que quando nós saíamos da usina e voltávamos pra casa no final do dia, nós estávamos, literalmente, cobertos de poeira preta, pó preto, mesmo no rosto. Isso, no ar, no ambiente. Estava no ar, a cidade tinha um índice de poluição altíssimo. Aqueles fornos imensos soltando aquela fumaça absurda - Siemens-Martin -, e a gente ali dentro tinha contato direto com isso. Nas áreas mais quentes, área de recozimento de placas, lingotamento, aciaria, fundição; o coqueria, que eu acho que era o lugar mais insalubre que tinha dentro da usina, porque você estava ali trabalhando o coque, que é basicamente carbono. Então, carvão e aquele troço no ar, poeira no ar, calor insuportável. A gente via as pessoas que trabalhavam ali; apesar de trabalharem com equipamentos de proteção, elas tinham a pele realmente curtida porque o calor era muito intenso. E aquilo ali era pra separar os homens dos meninos mesmo, ali você ia saber quem vai seguir adiante e quem não vai. “Aqui a gente vai separar os homens dos meninos, quem vai seguir adiante com metalurgia, o mundo é isso aqui e quem não quer, a hora é essa”. Mas ali na faculdade, nós éramos muito poucos, as turmas eram muito pequenas. O número de engenheiros metalúrgicos que se formava no Brasil era muito pequeno: as turmas tinham 20 alunos. Havia uma demanda no mercado grande - depois teve uma recessão e tal e foi um outro problema. Mas, enfim, o trabalho é insalubre, não existe conforto pra quem trabalha em siderurgia, a não ser quem fica na sala de controle, mas ninguém fica o tempo todo na sala de controle. Você tem que ter contato com as áreas quentes, e aí é um desconforto - tem que gostar muito daquilo.

P/1 – E você, nessa época, foi, acompanhou o desenvolvimento industrial brasileiro? Fala um pouco para a gente desse desenvolvimento na sua área, como as coisas foram mudando na metalurgia, siderurgia.

R – É, quando eu saí da faculdade, o Brasil - isso foi em 1980, praticamente dezembro de 79; em [que] comecei a ter mais ligação com a parte profissional, em 1980. Naquela ocasião; eu sempre falo isso: a Petrobras teve um papel e continua tendo muito forte e importante na industrialização, e na melhoria do parque industrial do Brasil. O primeiro grande movimento do qual eu fiz parte, claro, porque, óbvio, a Petrobras vem de muito tempo atrás, mas o primeiro movimento no qual eu me inseri foi a construção das primeiras plataformas de exploração de petróleo aqui no Brasil, na década de 80. Então, a soldagem no Brasil, ela era considerada um processo de fabricação comum como a usinagem. Tinha o cara que mexe com soldagem; não tinha o cara especializado, era assim: “Aquele cara ali mexe com soldagem”, então você escutava muito isso nas indústrias, eram pessoas que não tinham conhecimento técnico, não tinham conhecimento acadêmico teórico, eles não conheciam a ciência da soldagem, eles tinham um conhecimento prático, mas isso não era suficiente pra você dar um salto de qualidade. A gente tinha, precisava construir no Brasil um conhecimento sobre essa matéria que nos permitisse atingir outro patamar. Para que a gente, para que o Brasil, pudesse se inserir em um contexto de competitividade e não ser apenas um replicador. Um nível de informação pra que a gente pudesse atingir outro patamar. E, nesse contexto, a Petrobras teve uma participação fantástica, ela foi uma mola propulsora do desenvolvimento da soldagem no Brasil. Isso é indiscutível. Quem negar isso, não conhece a história da soldagem no Brasil. Então, a Petrobras, com essa iniciativa de construir as plataformas, com as normas de construção e montagem que ela publicou, com as exigências que ela fez de qualidade, ela fez com que o parque industrial do Brasil, realmente, mudasse de patamar. E hoje, você percebe que existe um segundo movimento. Agora, com a renovação da frota da Transpetro, com esse novo ciclo de exploração de em águas profundas, exploração de petróleo em águas profundas - que é uma tecnologia que a Petrobras que desenvolveu -, você necessita novamente de construir equipamentos, barcos de apoio, navios sonda, as próprias plataformas de prospecção, os dutos, ou seja, uma série, uma infinidade de equipamentos que demandam um conhecimento tecnológico para projeto e construção muito grande. E, principalmente, a construção - o projeto nem tanto, porque muitos desses projetos vêm de fora, outros já são feitos aqui. A Petrobras têm projetos - inclusive, ela mesmo faz. Mas, enfim, a parte da execução dos projetos, a construção e montagem, requer uma expertise, uma tecnologia muito grande e a Petrobras, mais uma vez, em outro momento da nossa história, da história da industrialização do Brasil, ela está se fazendo presente. Ela está sendo, novamente, a mola propulsora para que a gente novamente alcance um patamar de competitividade em nível mundial, que nos coloque, por exemplo, no mesmo patamar que a Coréia do Sul - tem hoje em construção naval, a Coréia do Sul hoje é o número um em construção naval -, o país mais adiantado. Japão é o segundo - já foi o primeiro -; para vocês terem ideia, na década de 70, o Brasil era segundo e o Japão era o primeiro. Hoje, o Brasil saiu do “ranking”, porque nós tivemos um hiato de praticamente 20 anos na construção naval do Brasil, sem encomendas, praticamente. Houve um sucateamento dos estaleiros, um hiato tecnológico, um hiato de pedidos em carteira e isso fez com que os profissionais envelhecessem, se aposentassem. E aqueles profissionais, os novos entrantes, não optassem por essa carreira de Engenharia Naval, porque não tinha emprego. Quer dizer, você entrar na universidade e escolher um negócio que depois você sabe que vai ter dificuldade para se colocar no mercado. Então, muitas poucas pessoas se dispuseram a estudar, se graduar em Engenharia Naval, e esse hiato fez com que o Brasil simplesmente saísse do “ranking”. Hoje, o Brasil já está... A China, hoje, é um outro pólo de construção naval que vai ficar em primeiro lugar. Ela, no final [do] ano passado, em volume de pedidos em carteiras, já ficou em primeiro lugar - em tecnologia, não. Em tecnologia, a número um é a Coreia e o Japão - muito próximo ali. Mas nós estamos novamente no “ranking”, entramos novamente no jogo. Ainda temos um caminho longo a percorrer, porque essa curva de aprendizado, esse hiato de 20 anos, nos prejudicou muito nessa curva de aprendizado. Nós, infelizmente, perdemos um tempo precioso nesse processo. Estamos agora tentando acelerar essa curva de aprendizado, para que a gente possa retomar uma posição de destaque, mas isso também depende muito da capacidade dos nossos empreendedores de enxergarem que essa questão do subsídio, os fundos de marinha mercante e outros fundos aí que o governo possa dar, não são única fonte. Eles têm que buscar outros caminhos, é importante que a gente não conte apenas com recursos advindos de incentivo governamental, porque senão a gente vai ficar aquela história do cachorro correndo atrás do rabo; a gente não consegue encontrar o caminho certo pra ser competitivo: “Ah, eu não sou competitivo porque eu não tenho subsídio”, “Ah, eu não tenho subsídio porque não sou competitivo”. É uma analogia ao biscoito Tostines: “É fresquinho porque vende mais, ou vende mais porque é fresquinho?”. Então, para termos oportunidade, credibilidade para buscarmos mais subsídio e alcançarmos outros patamares, precisamos buscar um certo índice de competitividade através dos nossos próprios esforços. E eu, de coração, espero que a gente consiga aproveitar esse momento. Eu acho que estamos em um caminho bom, mas ainda vejo alguns problemas, obstáculos, que precisam ser transpostos para que a gente possa dizer: “Agora eu acho que o caminho está pavimentado”, mas nós temos que buscar o caminho certo e não sair mais de lá. O mais difícil é você se manter na posição, esse é um outro grande desafio que a gente vai ter. Mas, então, todo esse movimento que nós estamos, começou nos anos 80; aí teve esse ato que tem tudo a ver com a Petrobras. Não só com a Petrobras, mas também com outros. No caso, o Brasil, a Petrobras é o grande alavancador. Em relação aos outros seguimentos, eu diria para você que a indústria automotiva também teve um avanço fantástico. Aquela questão lá dos anos 90, com a da abertura, a famosa história das carroças que a gente ouviu daquela figura incomparável daquele nosso presidente, foi uma coisa importante que ele... Foi uma contribuição daquele nosso presidente para que, realmente, nós pudéssemos ter outros parâmetros de comparação e falar: “Olha, esse é o patamar que a gente quer chegar, esse aqui é o nível que a gente quer de conforto para nossa população. É pra que a gente possa ter mais pessoas inseridas nesse mercado, nesse contexto, atrair outras pessoas que estão em classes menos favorecidas para que tenham novas oportunidades”. Houve uma evolução muito significativa: hoje nós não temos Fusca, Chevette e Corcel pra comprar - houve uma melhora significativa nesse ponto, muitas empresas estão chegando no Brasil, já estão montando fábricas no Brasil. Isso quer dizer que não há só o mercado interno nosso, mas também podemos expandir para a América do Sul - é uma hipótese viável. Mas, enfim, eu acho que estamos no caminho certo mesmo. Houve uma evolução muito grande. E uma questão é, no início desse processo, a gente [tinha] uma preocupação muito grande, [que] era [com a] qualidade. O foco é qualidade e as pessoas não se preocupavam muito - e com qual o custo. Hoje em dia, você tem que unir as duas coisas. Não adianta você ter um produto de excepcional qualidade, nem todo mundo compra Rolex, nem todo mundo compra Jaguar. Tem gente que compra Rolex e compra Jaguar, mas nem todo mundo compra. Você tem que ter adequação ao uso, ter uma qualidade compatível e um custo também competitivo senão você também tá fora do mercado. Se você não conseguir unir essas duas pontas, não vai sobreviver. O exemplo melhor é o exemplo nosso: quando a gente vai comprar qualquer coisa, um bem qualquer, a gente normalmente quer o melhor produto com menor preço, a gente não entra no detalhe. Por exemplo, quando você vai comprar uma televisão de Led [light-emitting diode] você escolhe algumas marcas; você olha essas três opções aqui, aí você olha e: “Pô, mas ali eu vi mais barato”, você não quer saber qual a estrutura de custo que o cara tem, se o cara entrega na sua casa em meia hora, se ele entrega no final de semana, se [a] assistência técnica dele demora um dia para ir na sua casa ou se demora dez. Eu diria pra vocês que poucas pessoas se preocupam com isso, o que as pessoas realmente se preocupam é com o preço - essa é uma grande tendência. Não que eu considere certo. Eu, particularmente, não uso o preço como único atributo: eu procuro estabelecer um índice de fatura. Nem sempre, mas na maioria dos casos a opção pelo menor preço vai invariavelmente te dar problema; [só que] a grande maioria das [pessoas] não pensa assim e compra por preço. Então, você, quando faz essa opção, não entra na estrutura do cara que tá te oferecendo para tentar entender porque ele tem aquele preço diferenciado. E o mundo é assim, a grande maioria as empresas é assim, as pessoas são assim. As empresas são assim, os clientes são assim. Então, você precisa buscar ter o melhor serviço, o melhor produto, mas com um custo mais competitivo. E, hoje em dia, esse passou ser um fator diferencial também, o custo. A qualidade, hoje em dia, não entra mais em discussão; ninguém vai perguntar pra você assim: “Mas esse teu preço aqui? E se você me entregar um produto sem qualidade?”, isso não existe, ninguém que comprar produto sem qualidade, qualidade não tá em discussão. Eu quero discutir com você quanto vai custar a tua qualidade. Aí você tem que olhar pra dentro. Você não vai discutir isso com o seu cliente, tem que olhar para dentro e dizer: “Gente, eu preciso entregar o produto de melhor qualidade com o menor custo, custe o que custar”, isso é competitividade. E eu acho que nesse sentido, pelas andanças que a gente faz pelo mercado, pelas conversas que a gente tem, hoje, as empresas estão começando a entender isso melhor, a indústria hoje entende isso melhor. E essa guerra velada que existe nos bastidores é um guerra sadia, que vai levar a um equilíbrio. Você não pode ir só pelo o preço e só pela produtividade, tem que buscar um equilíbrio; e nesse equilíbrio está a oportunidade para quem vende alguma coisa. Se você conseguir no teu portfólio de produtos de ofertas encontrar alguma coisa que vai de encontro a esse equilíbrio, você vai ocupar uma posição de destaque no mercado, vai ser percebido não como fornecedor, mas como um parceiro. Através do teu serviço, do teu produto, você interfere na cadeia produtiva do cliente, interfere positivamente, mas se ele te percebe como um parceiro, alguém que realmente pode contribuir, ele vai estar do seu lado; mesmo que você não tenha o melhor preço, porque ele tem que perceber que você não está oferecendo a ele preço você está oferecendo custo. “O que eu pretendo é entrar na sua cadeia de valor, te oferecer um produto que mesmo sendo um pouco mais caro que o do concorrente, no final vai te dar um custo de produção menor”. É como você comprar um vestido: você compra em uma loja - não vou citar nomes aqui que não é o caso, mas vocês sabem -, pode comprar um vestidinho aqui ou ali; se você compra aqui, você pode lavar, lavar, lavar, e ele vai continuar bonito; se você compra ali, você lava duas vezes e acabou o vestidinho. Você vai ter que comprar uns dez para ter a frequência de uso que teria comprando naquela outra loja, mas é a mesma coisa, a essência é a mesma.

 

P/1 – Willian, você falou um pouco do papel da Petrobras no desenvolvimento industrial brasileiro. Eu queria [que] você falasse quais foram os divisores de água na área de metalurgia, aqueles que mudaram o curso da história.

R – Eu vou falar assim, da área que estou mais diretamente ligado: é a área de metalmecânica - uma área que eu tenho mais conhecimento de histórico. Embora na parte de metalurgia, que você mencionou, talvez você esteja se referindo mais a fabricação de metais ou a fabricação de bens e utensílios. Qual é mais o teu direcionamento?

P/1 – Nos dois mesmo, pensando no processo de produção como um todo.

R – Nos dois? Ah, sim, nos dois. Hoje, eu acho que um grande divisor de águas pra toda indústria de maneira geral tem sido essa preocupação com a questão do meio ambiente. Então, todas essas empresas que produzem, que constroem equipamentos que são utilizados na produção, elas, ao longo dos últimos anos, têm tido uma preocupação realmente muito grande de você produzir um sacrifício menor pro indivíduo, ou seja, as condições de segurança, saúde, higiene para os operadores têm sido uma preocupação; e, além disso, obviamente, que, consequentemente, o meio ambiente. Então, os processos de combustão, eles têm, ao longo dos últimos anos, dedicado; quer dizer, as pessoas que trabalham com processos de combustão têm dedicado um tempo importante no sentido de desenvolver tecnologias que poluam menos o ambiente e que, ao mesmo tempo, aumentem a produtividade. Na verdade, o grande divisor de águas é a motivação: as motivações têm sido a produtividade e as melhorias das condições de trabalho, ambientais e para os operadores. Então, por conta disso, é possível você unir essas duas necessidades e desenvolver tecnologias que, por exemplo, aumentem a eficiência das reações de combustão dos fornos. Os fornos são os grandes elementos utilizados na indústria siderúrgica, quanto na indústria de transformação de bens de capitais, transformação de metais. Então, essa eficiência das reações de aquecimento de combustão, essas tecnologias que têm sido desenvolvidas no sentido de você otimizar a operação dos fornos, elas têm sido um divisor de águas importante. Isso na parte de produção de metais, na parte de utilização já desses metais com matéria prima para fabricação de componentes. Eu diria pra você que a grande motivação tem sido ainda a produtividade, mas não aquela produtividade com o foco só em fazer mais rápido - isso não necessariamente significa que você esteja fazendo melhor. Você precisa fazer mais rápido e com mais eficiência, ou seja, os índices de reparo, o retrabalho, são drenos importantes de custo que têm sido motivadores de novas tecnologias. Então, na área, por exemplo, da soldagem; pra vocês terem ideia: o último processo de soldagem a ar que foi inventado, foi na década de 60. O processo inventado. Agora, o que se fez de lá pra cá, é a partir dos processos a ar que foram inventados, aquelas plataformas de tecnologia. Você desenvolver aplicações e trabalhar no refinamento dessas tecnologias pra que elas possam permitir o alcance desses objetivos. Então, uma outra preocupação, um outro elemento que surgiu e que tem sido motivador também dessas mudanças tecnológicas, como a automação - que é o que eu to querendo dizer: a automação é uma questão que tem tido um problema mundial, que é a falta de soldadores. Então, hoje, o mundo todo sofre desse problema, existem muitas poucas pessoas que se interessam pela arte de soldar; por quê? Porque hoje em dia o processo de soldagem é um processo quente, desconfortável, não é agradável, não é uma coisa, assim, prazerosa. Então, muita pouca gente. Hoje em dia, a garotada [faz] soldagem virtual. Soldagem no quente, ali, vivendo, não querem não. Então, esse não é um problema do Brasil só não, esse é um problema mundial - os Estados Unidos tá passando pelo mesmo problema. Os Estados Unidos têm hoje aí, vai ter nos próximos dois anos, um déficit de quase 500 mil soldadores. Ou seja, a indústria precisaria ter 500 mil soldadores a mais do que ela tem hoje pra continuar no nível de operação, de evolução que ela tem lá nos Estados Unidos. Nós aqui estamos passando pelo mesmo problema; obviamente, não com o mesmo número de pessoas, porque nosso mercado, ele é um mercado, do ponto de vista de tamanho, cerca de oito vezes menor que o mercado dos Estados Unidos, [o] mercado de metal mecânica. Mas, enfim, o problema é o mesmo. Os grandes estaleiros, as grandes construtoras, passam por esse problema agora. Você não tem soldador, e isso te remete a uma necessidade de evolução tecnológica no que diz respeito à execução, ou seja, a robotização, mecanização. Então, hoje, os sistemas robotizados, mecanizados, eles têm tido uma penetração, uma aceitação no mercado muito maior por necessidade, por necessidade de suprir a deficiência. A ausência de uma mão de obra que você não encontra no mercado, [e] quando encontra é a peso de ouro. E a questão também da repetibilidade, aí é aquela história que eu falei, não adianta fazer mais rápido, ou simplesmente substituir o homem pela máquina. É importante você ter repetibilidade e consistência na tua qualidade pra que você não tenha retrabalhos - e, evidentemente, um aumento considerável nos teus custos. Então, esses divisores de águas têm sido: as questões ambientais, as questões de segurança e saúde de meio ambiente, a deficiência, o déficit de mão de obra, não só deficiência, déficit de mão de obra e o aumento da produtividade, o aumento da repetibilidade nos processos, esses têm sido os grandes divisores de água que têm feito com que as tecnologias novas tenham emergido. Então, por exemplo, na área de metalmecânica, de que tecnologia nós estamos falando? Nós estamos falando, por exemplo, de uma soldagem com duplo arame, que é um processo relativamente novo, é uma derivação de um processo, que nasceu lá nos anos 60, numa versão muito mais simples [e] rústica. E esse, o duplo arame, já é uma sofisticação tecnológica que utiliza a mesma plataforma de conhecimento de um processo de 1960, mas com uma gama de aplicações, produtividade e qualidade insuperáveis - eles são processos que tão vindo pra ficar. Como eu falei ainda pouco, os robôs, a utilização de robôs em soldagem, e movimentação de cargas também, não só pra soldar, pra movimentar cargas também. Porque é um outro processo também que pro operador ele é repetitivo, causa doenças ocupacionais, algumas síndromes de movimento no braço. Então, os robôs tão vindo também pra proporcionar esse... A pessoa, ao invés de fazer a operação propriamente dita, ela vai operar o robô. Ele se transforma de operário, artesão, num operador. E vira um operador, ele vai operar o robô. Então, aquela parte que é complicada, penosa, que é difícil [e] não é prazerosa, é desconfortável: o robô, em muitas situações, vai fazer. Isso não significa dizer: “Ah, então, Willian, você tá dizendo o seguinte: em pouco tempo só vai ter robô?”. Não, isso nunca vai acontecer. O robô, ele não substituí o homem. Em toda a sua essência, ele não substituí. Por mais que você coloque sistemas e, hoje em dia, existem milhões de tipos de sistemas sensoriais em que você procura reproduzir a visão humana, que você procura reproduzir o movimento, não vai conseguir reproduzir a inteligência. A capacidade de reação diante de um... A velocidade de reação diante de um problema em que você tem que processar a informação muito rápido, pelo menos, por enquanto, pode ser que a mais a frente a inteligência artificial seja uma realidade e a gente consiga fazer tudo, mas hoje isso não dá pra ser feito, você não pode prescindir a mão de obra. É como eu falei, o mote da substituição não é pra você: “Ah, não eu não quero mais pagar um cidadão”. O mote tem sido: esse é um trabalho que é exaustivo, ele é penoso, e esse cidadão aqui, durante a repetição, o esforço repetitivo, ele vai desenvolver um problema médico, vai ter um problema médico e vai faltar o trabalho, ele vai ter absenteísmo, vai ter problema médico, a produtividade dele vai cair. Mesmo ele estando aqui no ambiente, ele vai produzir menos, porque é humanamente impossível manter uma performance num ambiente tão agressivo o tempo todo nos padrões que se exige hoje, de repetibilidade, de custo baixo, de retrabalho pequeno. Então essa... Como eu falei, aquele equilíbrio entre custo, produtividade e - agora, entrando um terceiro componente, que é - o meio ambiente, que é uma preocupação. Embora muita gente ache, “Ah, isso não pegou”, é um engano. Essa preocupação está cada dia mais ganhando corpo e não é um negócio que simplesmente você consiga impingir através da lei: “Não, a partir de agora eu vou baixar uma lei”. A lei, é óbvio que ela dá ordenação ao sistema, tá certo? Você tem que ter lei. Só que o fato de você ter a lei, não significa que isso vai fazer com que as coisas se modifiquem. A percepção de que aquilo não é custo, aquela mudança, aquilo é um investimento que vai fazer com que você alcance um outro patamar de competitividade, é, que vai fazer com que você mude de atitude. Foi o que fez os países do Norte da Europa mudarem, foi o que fez o Japão mudar, a Coreia do Sul mudar: essa preocupação em você compatibilizar essas pontas. Produtividade, segurança, saúde do operador e meio ambiente - envolver tudo isso num contexto só e você ser mais competitivo. Não se pode olhar pra investimento em equipamento de segurança como custo. Se você continuar olhando para isso como custo, vai sair do mercado. Mais a frente, vai sair do mercado. Por quê? Senão pela tua... Pela rejeição que o teu produto vai ter, por você não fazer parte de um grupo de empresas seletamente inserida num contexto de preocupação com meio ambiente, mas [também] pela falta de mão de obra. Você não vai ter mão de obra, não vai conseguir achar mão de obra pra trabalhar daquele jeito, porque o padrão no mercado tá mudando. Acabou o tempo em que você ia lá, via o operador - isso que a gente vê na rua. É muito comum você ver na rua um cara que tá fazendo uma estrutura nova para um posto de gasolina, por exemplo, o cara soldando sem máscara, o cara solda assim. E aquele cara, em alguns anos, ele vai tá cego se continuar fazendo aquilo, indiscutivelmente. Só que [é] a ignorância dele também, né, a falta de conscientização. As pessoas que trabalham com ele, que contrataram pra fazer aquele serviço, essa conscientização precisa acontecer, porque a mão de obra tá escassa. Senão por um motivo, pelo outro. Pela mão de obra, de alguma maneira, o mercado vai ter que se adaptar, vai ter que se adaptar a essas novas tecnologias. 

 P/1 – E agora, Willian, eu queria que você - pra gente é um pouco difícil, é um pouco abstrato de entender, pra gente pensar não só falando de soldagem, mas pensar quando a gente fala de gás. Pensar no gás tanto fazendo parte do desenvolvimento dessa indústria, como nas utilizações do gás sendo desenvolvidas ao mesmo tempo - os dois lados. Se puder falar um pouquinho pra gente.

R – Você fala como que o gás se insere no contexto do desenvolvimento?

P/1 – Exatamente. Tanto como para ajudar a desenvolver, como pra o jeito como hoje o gás é utilizado, ter sido desenvolvido com todas essas mudanças, também, na indústria.

R – O gás; praticamente, todos os processos industriais e medicinais também utilizam gás, então eu costumo falar de um exemplo assim de um processo bem clássico que [é] um pouquinho menos abstrato. Pras pessoas que não são da área industrial, é mais fácil de entender. Você pensa no seguinte: quando você está dentro de uma UTI [Unidade de Terapia Intensiva] de hospital e você precisa [de] uma ventilação forçada pra respirar; normalmente, o que os hospitais fazem? Utilizam o ar comprimido, e coloca lá um filtrozinho e tal. Coloca aquilo ali pra respiração, o ar seco, o ar não poluído e que você tá utilizando. Só que qual é [a] garantia que você tem? Porque o compressor trabalha com o ar do ambiente. Esse é um exemplo bem clássico que é assim de fácil digestão, porque é um negócio do nosso dia a dia. Pra você ver como que uma tecnologia ou uma inovação podem fazer a diferença numa aplicação corriqueira, e esse [é] o contexto que eu tô tentando colocar pra vocês aqui. Então, você imagina o seguinte: você tá respirando, lá na UTI, no leito de um hospital, aquele que tá sendo comprimido, ele é pego na atmosfera, comprimido, aí passa por um filtrozinho pra tirar algumas partículas e o paciente respira; mas esse ar, ele tá no ambiente onde você tem vários contaminantes. Esse ar que o compressor puxa, ele não necessariamente tá isento de fungos, bactérias, micro-organismos. Ele tá... É o ar do ambiente que você tá respirando. Então, um colaborador nosso teve uma ideia de fazer o seguinte - pensou o seguinte -: "Olha só, o que o paciente precisa é ar, certo? E hoje, o que tá pegando é o ar do ambiente que passa no compressor. Que vocês acham da gente pegar o nosso nitrogênio líquido, o nosso oxigênio líquido - que são altamente puros, porque tão no estado líquido - misturar os dois no misturador e esse ar super seco, super puro, esse sim vai ser direcionado pro leito. Então, você vai misturar o oxigênio, o nitrogênio na proporção que você tem no ar atmosférico, 79% de nitrogênio, 20%, vamos dizer, bem resumidamente, de oxigênio, e o restante são outros gases, argônio e tal, mas é basicamente nitrogênio e oxigênio o ar que a gente respira. O ar que nós estamos respirando aqui é esse ar, só que o paciente tá numa condição especial, ele é um paciente, ele tá enfermo, precisa de cuidados especiais. Ele tá num respirador artificial, precisa ter o mínimo contato com [a] contaminância externa, para [que] ele possa sair o mais rápido possível daquela condição. E essa foi uma solução que é o ar estéreo medicinal que a gente vende hoje. Nós estamos utilizando o oxigênio e o nitrogênio, que você já conhece, que é o oxigênio e o nitrogênio que é fornecido pra indústria, só que esse é um oxigênio, nitrogênio misturado pra produzir o ar medicinal estéreo. Então, esse é um exemplo assim, que eu saí totalmente do ramo da indústria, que eu entendi a tua preocupação. A indústria sempre é muito abstrata, requer um conhecimento técnico mais aprofundado, mas esse eu considero um exemplo muito interessante e muito próximo da gente, qualquer um de nós. Deus queira que não, poderia estar numa situação dessa aí, precisando desse ar ou algum parente nosso, e é uma preocupação que a gente precisa ter. Esse, hoje, é um produto que a gente vende muito no mercado. Tem uma aceitação imensa; obviamente, você já imagina o porquê: pela capacidade de você, a partir de um produto que você já tem, inovar na forma de levar até o cliente - o cliente, no caso, ali, é o paciente. E esse é um exemplo de como o gás se insere no contexto de forma não abstrata, como você me pediu. Agora, de forma abstrata, o gás, os processos industriais, todos eles precisam de gás. Vou usar um outro exemplo que não é nem tanto abstrato. Esse é um outro exemplo mais interessante ou tão interessante quanto medicinal, mas é um exemplo importante pra você entender como os gases se inserem no contexto da nossa vida no dia a dia. Embalagem de alimentos, os alimentos, eles quando iam pras prateleiras dos mercados e outros, mercearias, enfim, pontos de venda, eles normalmente estavam acondicionados de forma inadequada em pacotes com ar dentro. Você fechou o pacote - às vezes nem pacote -, coloca ali exposto ao tempo, eles tão, por exemplo, o oxigênio é um elemento que oxida. Se você pegar um suco de fruta, por exemplo, dentro de casa, você fez um suco de laranja, "sshhhh", espremeu a laranjinha, colocou o copinho lá em cima da mesa. Não tomou aquele suco de laranja naquele momento, vai tomar uma hora depois: o que acontece com o gosto dele? Não é mais o mesmo. Ele teve contato com o oxigênio e se oxidou, o sabor muda completamente. A gente fala assim: esse suco tá passado - é o que a gente fala. Então, nós desenvolvemos o que a gente chama de atmosfera modificadas, são misturas de gases pra você expulsar o ar do ambiente em que o alimento tá contido, e o alimento fica em contato com aquela atmosfera modificada e isso faz com que a vida útil dele se prolongue - ele pode ficar mais tempo na prateleira, pode ficar mais tempo acondicionado sem se danificar, sem você utilizar conservantes, produtos químicos. Não é conservante, nem produto químico: é o gás - ele tá ali só pra expulsar o oxigênio que em contato com aquele alimento... Por exemplo, uma verdura que fica exposta muito tempo, ela começa a escurecer. São coisas que a gente vive no dia a dia, são exemplos que tão ali na nossa... Nada abstrato. Então, é um outro exemplo de como os gases se inserem no contexto, então esse do medicinal, esse dos alimentos. E aí, agora não tem jeito, eu vou ter que falar dos abstratos, (risos) aqueles mais complicadinhos. Então, por exemplo, no caso da fabricação do aço, você usa gases pra refinar a fabricação do aço, [e] tem diversas fases. Desde da elaboração até a fusão, até o refino. Então você vai misturando componentes, vai fundindo, vai injetando gás pra oxidar certos elementos que tão ali, retirar esses elementos, pra que você vá chegando, convergindo para uma composição química, que é a final dele. Então essas diversas etapas, por exemplo, da elaboração, fusão e refino do aço, elas todas utilizam gás com o objetivo de você ir reconfigurando ou reformatando a composição química, porque os gases reagem a certos alimentos. Aquele banho fundido, e transformam aquilo ali em escória. Aquela escória, por diferença de densidade, ela vem pra cima e é retirada. E aí você vai só com metal puro, vai refinando e refinando até que tem uma composição final desejável pra aquele material que você... Essa é a composição que me interessa, porque esse vai ser um aço que vai trabalhar numa condição "X". Por exemplo, o instrumento cirúrgico, você usa normalmente o aço inoxidável, aquele aço [qu não pode oxidar - ele não pode, como se diz na linguagem popular, enferrujar - por razões óbvias: como é que você vai [ter] um instrumento cirúrgico, de dentista, de médico, [com] o negócio enferrujado? Não dá. Então, você tem que fabricar a partir de um aço que não oxide, ou que não se deteriore, porque - essa é uma questão bem abstrata. O aço inoxidável, na verdade, pra se proteger, ele se oxida, mas é um óxido que não causa nenhum tipo de problema: você nem percebe, não vê. Agora, a gente percebe sim quando você vê, por exemplo, um portão de um prédio, uma grade de um prédio. Aí quando você olha aquele tubinho que tá no chão, preso no chão, você não percebe ali uma corrosão - ele vai perdendo material. Aquilo é um processo corrosivo, destrutivo. Ele não protege nada, consome o aço. Ele se corroí e acaba [com] aquele tipo de oxidação [que] é nociva. Aquele aço, você jamais poderia utilizar pra trabalhar numa plataforma de petróleo, porque você tá no mar, num ambiente... Quem mora perto da praia sabe disso, como sofre com seus aparelhos de ar-condicionado, com suas geladeiras, com seus fogões, que duram muito menos - é a corrosão. O ambiente marinho, certo, o sal também corroí, ajuda a corroer. Então, o gás, ele se insere no contexto nessa fase inicial do processo de produção. E depois que você produziu o aço, você precisa agora trabalhá-lo. Como é que eu transformo uma placa de aço num navio? Eu tenho que transformar uma placa de aço num navio. Então, eu comprei a placa de aço na usina e agora eu vou construir o navio. Eu vou ter que cortar aquelas placas de aço em diversos segmentos, pedaços e montar um grande quebra-cabeça, que é o navio - eu tô dando o exemplo de um navio; poderia ser uma tubulação, poderia ser qualquer outra coisa. Um navio, eu acho que é um exemplo mais didático. Pra que você tenha noção do quebra-cabeça: ele é construído em bloquinhos, é como se fosse um lego; você vai montando aos poucos, cada bloquinho, vai colocando, montando e edificando, e construindo o navio. Onde é que o gás entra nessa história? Depois de ter entrado lá atrás no processo de fabricação do aço, pra você produzir e refinar, agora você tem que cortar [e] não consegue cortar sem o gás. “Ah, mas eu posso usar uma serra?”, “Pode”, só que você vai cortar uma placa de uma polegada de espessura de aço com serra mecânica - não é uma coisa prática. Então você vai usar um processo que, graças a Deus, usa gás. (risos) Aí você já vai ter o oxigênio combinado com gás combustível, que pode ser o acetileno, o GLP [Gás Liquefeito de Petróleo], o gás natural, [e] o propano - a mistura desses dois gases vai te permitir cortar o aço em tiras, em bloquinhos, pra você montar o quebra-cabeças. Bom, agora que eu cortei as pecinhas, tô com as pecinhas todas espalhadas aqui. eu preciso soldar, preciso unir essas partes, pra montar o meu bloquinho: vou precisar de gás de novo. Tem vários processos, tem alguns processos que não utilizam gás, mas são processos, é, basicamente é um processo que ele é todo revestido, improdutivo, caro, sujeito a muitos reparos e que demanda uma habilidade extrema do operador. então você já viu que é um processo que a gente tem que fugir dele nos dias de hoje. Já foi muito usado no passado. Hoje, a gente tem que fugir dele, porque demanda habilidade [e é] pouco produtivo, tem índice de reparo alto - é tudo a gente não quer. Mas ele tem o seu espaço ainda, continua sendo usado, lógico, tem situações em que ele ajuda. Mas ele não pode ser o seu principal processo, ele tem que ser usado onde você não tem alternativa com outros processos. Bom, então, estamos falando dos que usam gás, e aí mais uma vez entra o gás em cena. Eu, pra soldar essas placas, vou utilizar processos que usam gás, mas qual é a participação do gás na solda agora? Que história é essa, o que ele faz aí? É muito interessante esse processo. Quando você vai soldar, tem sempre uma fonte de calor que você funde alguma coisa, funde uma região, pra que depois ela se solidifique e una aquelas duas partes. Então, você vai soldar essa chapa com essa chapa aqui, vou soldar as duas. Aí você vem aqui e vai fundindo as duas, forma o que a gente chama de uma poça de fusão - ela solidifica muito rápido. Quando ela solidifica, as peças tão unidas. “Tá, então, pra que se precisa de gás pra isso? Basta uma fonte de calor, fundir, deixar que ela solidifique e acabou.” É, só que tem um detalhe: se você deixar aquela poça de fusão, aquele banho de metal líquido exposto ao ar atmosférico, o ar contamina e fragiliza aquele metal. E aí você vai ver que o teu navio, em algum momento, vai quebrar, afundar, se partir - vai ter uma fratura catastrófica, [e] ninguém quer isso. Então o gás ele entra como proteção. Você injeta o gás durante a soldagem pra impedir que os gases atmosféricos - basicamente, o oxigênio e o nitrogênio - interfiram e penetrem no banho de metal fundido. Aquilo funciona como uma cortina protetora. Você injeta ele direto; enquanto você tá percorrendo a junta que vai soldar, tá injetando gás, o tempo todo. Enquanto o ar estiver aberto, o gás tá lá. Quando você interrompe o ar, o gás, automaticamente, também se interrompe. Eu sei que essa é uma forma um pouquinho mais complicada de explicar, mas não tem outra maneira de explicar pra vocês. 

P/1 – Tá ótimo. Muito bom.

R - Eu procurei ser assim o mais simples possível e fazer analogias com outras coisas, pra que pudesse ficar claro. Não sei se eu respondi a tua questão. É eu dei alguns exemplos bem diversos. Tem outros exemplos também diversos na indústria dos remédios, que você também utiliza gás pra produzir, pra separar, pra sintetizar medicamentos. É uma infinidade de aplicações. Na indústria do papel, você também utiliza gás. Nos processos industriais. Na indústria do petróleo, quando você tem aqueles tanques de armazenamento de óleos de derivados de petróleo, você tem que inertizar o tanque, inertizar e afastar o oxigênio pra ele não ter contato, porque aquilo é altamente combustível; então, o risco de explosão, de incêndio é grande - é um processo chamado "blanketing", em que você expulsa o oxigênio através da injeção de nitrogênio. Por exemplo, o nitrogênio não gera combustão, só o oxigênio gera. Então uma das maneiras de você, por exemplo, apagar um fogo, se atear fogo a uma peça qualquer, é, vocês já devem ter visto isso, uma maneira de você apagar o fogo é abafar, coloca alguma coisa em cima. O que você tá fazendo? Você tá impedindo o oxigênio de entrar em contato com o fogo. A chama, ela é alimentada pelo oxigênio. Quando o oxigênio acaba, a chama apaga. Então, por isso que você envolve uma pessoa que tá com fogo numa veste e tal, você vem ali e faz assim (barulho de batidinhas no corpo), envolve. Você impediu o oxigênio de ter contato, a chama não é mais alimentada - ela se extingue. Quando você direciona, por exemplo, o extintor de CO2 pra base do fogo, você tá injetando CO2, que não é oxigênio, impedindo que a chama continue a ser alimentada pelo oxigênio - você tá empurrando o oxigênio dali. O processo é esse. Então, o oxigênio, a gente precisa dele pra respirar, mas pra outras coisas, ele não é tão bom. 

P/1 – Agora, vamos voltar pra a White Martins. Então, conta um pouquinho pra gente das primeiras impressões. Como que era a White na época?

R – A empresa mudou muito. Na época que eu entrei, a White tinha 12 mil funcionários. Isso foi em 1987. A empresa, ela tinha muitas linhas de produtos diferenciadas. Obviamente, que o momento do país era outro, as técnicas de produção e alguns níveis de automação eram diferentes, era mais intensivo de mão de obra. Enfim, era uma empresa muito reconhecida no mercado. Eu era, antes de trabalhar na White, cliente da White Martins. Então a gente sempre teve muita admiração pela empresa, pela seriedade da empresa, pela maneira como ela lidava com os clientes e muita curiosidade para saber como era aquela operação. Alguns clientes têm essa curiosidade, outros não, mas eu, particularmente, tinha muita curiosidade. E eu entrei na White Martins pra suprir uma lacuna: existia uma vaga. Foi um processo muito interessante. Eu não sabia, desconhecia essa vaga, e na empresa que eu trabalhava anteriormente, uma pessoa de RH [Recursos Humanos] ligou pra mim - da empresa anterior - dizendo: “Willian, eu recebi aqui de um amigo uma solicitação pedindo pra que você indicasse uma pessoa pra trabalhar numa empresa”. Falei: “Qual é o nome da pessoa?”, não me disseram o nome e tal. “É uma pessoa especializada em soldagem. Posso dar teu telefone pra essa pessoa ligar pra você?". Falei: “Pode, tudo bem”, e aí a pessoa ligou pra mim. Aí era de uma agência, dizendo o seguinte: “Olha, na verdade, eu queria era conversar com você. (risos) Foi uma maneira que eu encontrei para chegar até você. A gente tem um processo aqui e o seu nome foi indicado pra participar de um processo”, “Mas quem indicou meu nome?", "Ah, não posso falar e tal”, aquela história toda. “Você pode mandar o currículo?” Falei: “Tudo bem, mando”, aí mandei o currículo e fui chamado pra entrevista. Havia uma vaga naquela época, na engenharia, pra uma pessoa que tivesse conhecimento em processos de soldagem. Esse profissional não tinha na White Martins. A White Martins, naquela ocasião, ela fabricava equipamentos consumíveis pra solda e faltava a ela um profissional que tivesse a vivência do processo na outra ponta, na ponta do usuário, conhecimento do usuário, para que ela pudesse melhorar o processo de, o projeto dos equipamentos, da performance dos produtos, pra que eles pudessem se encaixar melhor nas necessidades dos clientes. E aí eu vim, participei do processo. Acabou que fui selecionado e acabei entrando na empresa. Isso foi em setembro de 1987. Então, entrei como especialista. E quando entrei, no início, foi um pouco difícil, porque eu não tinha experiência de comercialização, a minha experiência era de usuário, eu era um especialista em soldagem, embora eu não tivesse trabalhando com comercialização, diretamente. Eu trabalhava na engenharia, mas numa empresa como essa aqui. Como já dizia uma pessoa que trabalhou aqui na empresa, um diretor antigo: “Nada acontece até que você venda alguma coisa”. Então, a gente tinha que vender alguma coisa. Você não fazia engenharia pelo prazer da engenharia, o objetivo era você comercializar alguma coisa, porque era isso que a empresa esperava de todos nós - mesmo que você não estivesse diretamente relacionado com o ato de vender. Mas eu comecei a me envolver e comecei, por conta daquela história que eu te contei lá, desde [a] infância, da curiosidade pra saber como é que o negócio funciona, eu não me contentava só em suportar o pessoal da engenharia e dizer: “Olha, o equipamento tem que ser assim [e] assim, com essas características”. Não, eu quero saber o que vai acontecer no final se aquele cara na ponta que eu era até um mês atrás vai perceber isso e vai comprar. E aí eu comecei a interagir com as pessoas de venda. Eu sempre procurei visitar muito cliente, apesar de ser da engenharia. Visitar cliente, conversar com pessoal de vendas. E, naquela época, a estrutura era muito diferente: nós tínhamos vendedores e eram pessoas que não tinham muito conhecimento técnico. E aí eu me aproveitei do fato de ter muito conhecimento técnico, e falei: “Olha, eu vou com você, mas vou pra te ajudar”. (risos) E os caras gostavam de mim, porque eu ajudava, no final, o cara a vender. Eu ia lá e fazia um trabalho de convencimento técnico, até porque eu tinha participado do projeto e do desenvolvimento do produto; e aquilo me dava uma satisfação muito grande, perceber que aquele trabalho que eu tinha feito lá no, de "backup", lá atrás, se materializava numa venda. Aquilo me dava muita satisfação, porque numa empresa dessa, você não pode... Eu, pelo menos, sempre fui assim, sempre tive esse tipo de raciocínio: você não pode imaginar que o teu trabalho, ele está limitado a geografia da tua mesa de trabalho, ao teu computador, a tua estação de trabalho; aqui, na verdade, você tá inserido num contexto de resultado e o resultado é a venda. "Nada acontece até que se venda alguma coisa", essa frase nunca saiu da minha cabeça. E ela é super atual: se você não vende, se você não tem cliente, pra que a gente existe? Qual é a razão da nossa existência? São os nossos clientes. E eles só serão nossos clientes na medida em que eles estiverem satisfeitos. Então, essa necessidade de ver o trabalho que eu fazia se materializar numa venda, pra mim sempre foi combustível. Um combustível muito forte, como hidrogênio pra foguete. Então, eu sempre trabalhei assim. Mesmo sendo um cara muito técnico e com uma formação acadêmica muito forte, muito especializada, eu não me satisfazia em ficar só trabalhando no laboratório, na engenharia, no suporte técnico; eu queria ver a venda acontecer. E aí eu, ao longo de toda essa minha trajetória, fui... Esse meu interesse foi sendo percebido. Eu até hoje guardo um bilhete que recebi da minha promoção que eu tive na White. O meu chefe, naquela época, isso foi em 1989; eu recebi a primeira promoção e o meu chefe naquela época escreveu um bilhete pra mim, explicando porque ele estava me promovendo. Eu guardei esse bilhete. Ele já faleceu, num acidente de carro - é o Hélio Guimarães, o nome dele. É uma pessoa que eu gostava muito, aprendi muito com ele - como aprendi com diversas outras pessoas e continuo aprendendo. Mas o Hélio, ele teve uma participação no meu início da carreira na White, muito forte. E aprendi alguns valores com ele, alguns princípios, algumas, digamos assim, metodologias de trabalho. Ele foi muito importante na minha formação aqui - reconheço isso e serei eternamente grato a ele. E não é pelo bilhete em si, o bilhete é uma lembrança de um momento, um carinho que ele fez. Foi uma, como se fosse um carinho, ele gostava muito de mim; a gente tinha uma relação muito boa. Embora fosse uma relação só profissional, não havia relação social, mas no profissional era muito boa. E aquilo pra mim foi um gesto de carinho que ele fez em dar uma explicação e um incentivo através do bilhete. Aquilo pra mim é um documento histórico, e eu tenho guardado comigo até hoje. Essa minha primeira promoção, ele já me colocou como gerente de produto, ou seja, eu já comecei a ter uma participação um pouco mais comercial do que eu tinha até então. Eu não era só um especialista agora, era um gerente de produto, eu era responsável por uma linha de produtos e pelo crescimento das vendas, também, daquela linha de produtos. E essa foi a minha primeira, o meu primeiro contato, a minha entradinha na área comercial. Embora eu não fosse um cara comercial só, eu tinha que ter, utilizar o meu conhecimento técnico em prol da venda; e fui continuando naquele caminho até que a White Martins, em 1992, ela saiu essa área de negócio, comercialização de equipamentos. Ela resolveu sair dessa linha de negócio e se concentrar só em gases. E aí eu voltei pra área de tecnologia, mas pra área de tecnologia de aplicação de gases - e isso foi em 1992. E aí, dentro da área de tecnologia de aplicação de gases, eu fui sempre com esse mesmo, digamos, raciocínio, essa mesma forma de atuar, trabalhando no desenvolvimento, na tecnologia, nas inovações, sempre procurando criatividade, coisas novas, pensar fora do quadrado, mas sempre com o pensamento do que o mercado precisa. Porque eu já tinha sido cliente e eu sentia falta disso, dos meus interlocutores fornecedores. Eu não conseguia, talvez, pela época, pelo momento. Eu comentei isso antes com vocês: a soldagem, ela começou a ter um avanço no Brasil, do ponto de vista de conhecimento a partir da década de 80. Realmente, existiam muitas poucas pessoas que se especializaram em soldagem no Brasil - como até hoje tem poucas. Não têm muitas não, mas bem mais que naquela época. Mas, enfim, pelo fato de haver essa falta de conhecimento mais aprofundado do mercado, você não tinha muito interlocutores, então era difícil você externar o que você estava querendo e a pessoa do lado não realizava, não entendia. E eu enxerguei nessa minha posição na White a oportunidade de preencher aquela lacuna que eu percebi no mercado no passado: "Eu vou ser esse cara, vou visitar os clientes e vou levar essa palavra da tecnologia pra poder ajudar a empresa a crescer em suas vendas e entregar valor pro acionista, que é o que a gente tem que fazer". É a nossa missão aqui, é essa: entregar valor pro acionista. Então, eu fui construindo uma carreira. Aí voltei a ser especialista, aí passei a gerente de aplicações, gerente de tecnologia, e agora, no passado, diretor [de] inovação e tecnologia - ao longo de todo esse período trabalhando com gases, mas nunca deixei de conhecer os equipamentos e de me inteirar. Porque o trabalho que a gente faz, você não pode entrar... O nosso posicionamento no mercado, a gente não se posiciona como vendedores de gás: nós não somos vendedores de gás, nós estamos levando pro mercado uma solução de engenharia, a solução de engenharia [que] utiliza o gás, mas não é só isso. Então, tem a parte do conhecimento técnico do processo, a parte da formação da mão de obra, conhecimento dos equipamentos que vão utilizar aquele gás. Isso eu procurei desenvolver dentro do nosso grupo aqui na empresa. As pessoas que me sucederam naquela minha posição, que nós contratamos - nós montamos um centro tecnológico e aí eu fui contratando pessoas como eu, com a posição que eu tinha assumido em 87. E eu procurava nessas pessoas essa mesma avidez por conhecimento. Isso, pra mim, era fundamental, essa necessidade de buscar o novo, de não se conformar com as soluções que a gente tinha, procurar sempre alguma coisa nova, viajar, olhar lá fora, ouvir o cliente; e a gente foi formando uma equipe. E essa equipe, hoje, é uma equipe vencedora, é um grupo muito bom. Esse mesmo espírito que a gente tinha dentro da soldagem, a gente tá levando pras outras áreas, que tem também profissionais muito bons, mas a gente tá procurando dar pra essas outras áreas, que são as áreas de Química e Petroquímica; Bebidas e Alimentos; Metalurgia e Vidros; área de metalmecânica, que é a soldagem; e, agora, mais recentemente, Águas e Efluentes, que a partir de semana passada também tá comigo agora, tecnologia de aplicações e águas e efluentes. A gente tá procurando que o espírito seja o mesmo. O grupo todo tem que ter esse espírito; cada um na sua especialização, mas o mesmo espírito. Aquele espírito de não se conformar com que a gente tem, de tá sempre procurando estar à frente e desenvolvendo aplicações novas pros gases que a gente tem. "Que aplicação nova eu posso desenvolver?" Tudo bem, isso, hoje, a gente já sabe, tudo isso aqui eu já sei, isso aqui eu já posso usar; que mais? Onde mais eu posso utilizar? Uma das aplicações mais recentes que não são obviamente desenvolvimentos da White Martins, mas aplicação de gás pro mercado é a preservação de células-tronco. Você coloca aqueles, aquelas células-tronco armazenadas em nitrogênio líquido, acondicionadas em nitrogênio líquido, pra que você possa manter aquilo ali livre da deterioração [e] ação de bactérias. Não é uma invenção da White, mas é uma aplicação nova pro gás... Os gases são esses aí, a gente não vai descobrir gases novos. O que a gente faz é o seguinte: a gente mistura. O que a gente desenvolve muito: eu misturo um gás com outro, mudo a composição, descubro uma aplicação nova pra aquela mistura nova - isso a gente faz muito. Mas os gases que tão aí, a não ser que eu queira modificar a tabela periódica dos elementos, eu não vou conseguir fazer isso. Os gases são esses que tão aí: hélio, argônio, nitrogênio, oxigênio - são esses aí. Mas eu tenho que descobrir maneiras novas de utilizá-los, esse é o nosso desafio. Respondi a tua pergunta? (risos)

P/1 – Respondeu. (risos) Eu queria que você falasse a importância da White ser uma empresa que tem um Centro de Tecnologia aqui...

R – Isso, aqui. Isso é um diferencial, esse é um capítulo importante. De todas as empresas de gases, estamos falando aí dos nossos concorrentes, que na sua grande maioria são empresas de capital estrangeiro, a White não é uma exceção. A controladora da White é a Praxair, que é uma empresa americana, a única empresa que tem um centro de tecnologia no Brasil é a White Martins, então isso faz uma enorme diferença no contato com os nossos clientes. A possibilidade de você trazer o cliente pra dentro do teu centro tecnológico e mostrar pra ele em escala o que ele vai ver dentro da indústria dele, é um tremendo diferencial. Essa vantagem competitiva que a gente tem é, pelo menos, por enquanto, porque a decisão de colocar alguma coisa aqui é uma questão apenas de investimento, tá certo? Qualquer outra empresa pode fazer isso a qualquer momento, mas o fato é que nós fizemos primeiro, tá certo? Então, é como dizia a minha avó: "Antiguidade é posto". (risos) Como nós estamos a mais tempo estabelecidos aqui, a gente procura, obviamente, na medida do possível, maximizar essa vantagem competitiva em benefício dos nossos clientes e dos nossos negócios, obviamente. Se a gente tá beneficiando, os clientes, automaticamente; estamos beneficiando o nosso negócio. Se eles estão satisfeitos, a gente também está satisfeito e estamos lucrando com isso. Então o fato de termos aqui o centro e termos uma equipe dedicada lá, isso facilita muito o nosso trabalho de penetração, de retenção, de conquista, de prototipação de soluções - facilita muito. É lógico que esse centro, ele não é pra todas as aplicações. Existem algumas aplicações que não estão inseridas no contexto desse centro. Aí, o que nós fazemos? Nós estamos buscando parcerias, e temos isso estabelecido com universidades, com outros institutos de pesquisa, pra que a gente possa ter da mesma forma que nós temos aqui, fisicamente, em outro local um ambiente em que a gente possa levar clientes, discutir com os clientes. Se não fisicamente aqui onde nós estamos, mas em outro lugar - é um ambiente também. Isso é perfeitamente normal, você estabelecer parcerias e acordos de cooperação. É, inclusive, salutar, porque você insere as universidades que tem a expertise, que tem o talento nesse contexto. Isso é bom para o desenvolvimento do país. A gente não pode ter a pretensão de imaginar que nós vamos ter todo o conhecimento dentro de casa, isso é uma tolice, certo? Você não tem e não precisa ter todo o conhecimento dentro de casa; o que você precisa fazer é buscar esse conhecimento aonde ele está, estabelecer parcerias, acordos de cooperação tecnológica - obviamente, muito bem administrado. Esses acordos, eles têm que ter uma lista de acordos muito bem definida, cronograma de execução muito bem definido, o processo de ideação pra que você chegue a ter a escolha de um determinado projeto, ele tem que ser muito conduzido pra você trabalhar com coisas que, realmente, vão ter aplicação no mercado. Afinal de contas, a White Martins não é um centro de pesquisa, é uma empresa comercial que utiliza pesquisa e desenvolvimento pra benefício de seus negócios. Nós não fazemos a ciência pelo puro e belo prazer de fazer ciência, a gente trabalha no desenvolvimento de aplicações pra fazer negócios. Então a ciência pura, ela fica a critério e a cargo das universidades. O que nós queremos é aplicar, ciência aplicada, é isso que nos interessa - e existe um espaço enorme pra trabalhar isso dentro das universidades, enorme e inexplorado, muitas vezes, no Brasil. Eu acho que a gente tem feito um trabalho, esse trabalho não é fácil porque você tem que levar uma cultura pra dentro do ambiente da universidade, uma cultura de responsabilidade com prazos, com resultados, com cronogramas físicos, com cronograma financeiro, que você tem que aprovar um "budget" pra aquele projeto, isso não pode mudar toda hora, você tem um compromisso, então esse trabalho de adequação, de adaptação do corpo docente da universidade a esse modelo, o trabalho que tem que ser bem conduzido, você não pode deixar nem... É aquela história do equilíbrio: se você olhar pra cá, resultado; se você olhar pra lá, prazo. Então, você tem que procurar um equilíbrio, procurar construir os teus resultados, mesmo que parciais, em prazos aceitáveis, senão você vai ficar trinta e cinco anos com um projeto e não vai acabar nunca. Tem que ter início, meio e fim. Então a gente, a importância desse centro tecnológico, não só pelo que ele faz, mas pelo que ele gere, porque essa gestão dos acordos é feita pelo nosso grupo. O nosso grupo é que faz a gestão desses acordos com as universidades e com esses centros de pesquisa. Então, as pessoas do nosso grupo têm que "tá" preparadas não só pra desenvolver, mas para fazer a gestão também. Nós não temos pesquisadores isolados, essas pessoas, elas pesquisam, mas elas todas estão inseridas dentro do contexto do negócio. Todos visitam clientes, todas têm que visitar clientes. “Ah, não, meu negócio é só aqui no laboratório”, não existe isso. Até porque a gente leva o cliente dentro do laboratório. Então não existe a pesquisa pura, a pesquisa é aplicada, pra nós, [no] nosso contexto. É lógico que em determinados momentos, você vai precisar ou vai prescindir de um desenvolvimento, de uma habilidade, ou de um conhecimento de uma determinada fase do projeto que pressupõe uma pesquisa mais aprofundada e tal, isso se tiver que ser feito, vai ser feito pra desenvolver uma habilidade, mas essa não é a nossa atividade fim, isso é o meio, é diferente.

[Fim da parte 1]

[Início da Parte 2]

 

P/1 – Débora Querido

P/2 - Monique Lordelo

R - Willian Gabriel Macedo



P/1 – Retomando Willian, gostaria de perguntar, então, um pouquinho como que; a gente estava conversando dessa aplicação de gases no nosso cotidiano, você deu vários exemplos. Como que a gente pode pensar no teu trabalho, que foi por muito tempo - mais de uma década, na verdade - na gerência de tecnologia. Como que a gente pode pensar essa tecnologia no sentido de maior desenvolvimento desses gases para aplicação no nosso dia a dia? 

R – Entendi. Bom, como eu já havia comentado anteriormente [que] é muito difícil você desenvolver um gás novo. O gás em si, único, sozinho, é pouco provável que você consiga desenvolver alguma [coisa] diferente de oxigênio, nitrogênio, os gases do ar, argônio, hélio - que não é exatamente gás do ar, tem outro processo de produção, mas, enfim, o que a gente faz, basicamente. Esse processo de tecnologia numa empresa de gases, ele tem como objetivo principal descobrir aplicações novas para os gases já existentes ou então promover a mistura desses gases pra que você, aí sim, encontre uma aplicação específica no seu cotidiano, no dia a dia, nas diversas áreas de atuação na indústria, na medicina. Então, basicamente, esse trabalho, é um trabalho de desenvolvimento de aplicações. As tecnologias são tecnologias de aplicações. Em algumas ocasiões, pra que você possa viabilizar uma tecnologia que você concebeu de aplicação, você precisa de um equipamento. Esse equipamento, ele pode ser desenvolvido por nós, o projeto dele, mas, normalmente, ele não é produzido por nós. A gente pode trabalhar no projeto, mas a fabricação do equipamento, a construção do equipamento é normalmente feita pelo parceiro. Mas, de qualquer maneira, o nosso grupo de tecnologia, ele tem que entender a interação entre o equipamento e o gás no sentido de fazer com que o conjunto atue de forma harmônica em prol da aplicação. Então, o conhecimento que a gente tem que desenvolver internamente no grupo de tecnologia, ele não tá restrito ao conhecimento do gás, mas sim também da interação do gás com o meio onde ele vai percorrer, onde ele vai flutuar os equipamentos, as tubulações, as instalações centralizadas, os sistemas de fornecimento; ou seja, é uma cadeia pra quem tá de fora relativamente simples, mas pra quem tá dentro, ela tem um certo grau de complexidade. E esse grupo de tecnologia precisa ter esse entendimento da interação entre as diversas pontas do processo pra que ele, normalmente, flua e a gente consiga aplicar de forma efetiva e eficiente pros nossos clientes.

P/1 – Que você lembre, aconteceu alguma vez, assim, algum problema repentino desses equipamentos, algum desafio nesse sentido?

R – Equipamento sempre tem problema, sistema fundamental do equipamento: “Nós vamos dar problema”. (risos). Então, em algum momento, você vai ter um problema porque os equipamentos, eles são compostos de partes mecânicas, elétricas, eletrônicas e essas partes sofrem desgaste, se deterioram com o tempo. Embora você tenha manutenções preventivas, o que acontece é que imprevistos sempre acontecem, então já tivemos casos de misturadores que interromperam o funcionamento durante a operação do cliente, isso demandou aquelas visitas na madrugada para você fazer com que a coisa volte a funcionar. A operação não pode parar, lógico. Tem um "backup", o cliente não para, mas você precisa fazer com que o equipamento retome sua atividade normal o mais rápido possível pra que você não fique trabalhando só com "backup". Essa preocupação, certamente, em hospitais, ela é muito maior. A gente tem uma preocupação muito grande com isso também, principalmente com a área hospitalar, que é uma área onde você não pode ter falhas, você tem que ter todo um plano de contingência. Mas, na área industrial, até pela criticidade do equipamento, pela robustez, pelo trabalho pesado, esses problemas podem acontecer. Mas a gente... O bom da empresa é que a gente, a White, tem um serviço de atendimento ao cliente muito bem estruturado. Então, a qualquer hora do dia ou da noite, você pode ligar e vai ter sempre alguém atendendo sua ligação e tentando resolver o seu problema o mais rápido possível. Eu não me refiro só aos problemas eventuais de um equipamento, mas um problema do próprio cliente. O cliente teve um consumo acima do esperado, acima do previsto, e precisou de uma carga adicional de produto, num horário, assim, não muito usual e não comercial - a gente tá sempre pronto a atender, a gente trabalha toda a logística integrada no sentido de no menor espaço de tempo possível resolver esses problemas. Então, os problemas não se restringem só a equipamentos, se restringem também a imprevistos, consumos excessivos, totalmente fora do padrão. Indústria de bebidas é um caso típico, ainda existem épocas do ano: a sazonalidade do consumo em função do verão. Eventos tipo Copa do Mundo, eventos em que existem um consumo maior de bebidas, normalmente, as fábricas, elas ficam operando no limite e precisam de produtos, quantidades adicionais de produtos extras em horários, assim: “Ah, eu não consegui prever e tal”, você tem que ir lá e não pode parar. Então, eu acho que a gente consegue... Lógico, o que tá por trás disso, as pessoas, os usuários, eles não fazem ideia do que tá por trás disso, as movimentações, participação em grandes prêmios. Eu, particularmente, tive a oportunidade de trabalhar em grandes estandes, oficinas que a gente monta em Grande Prêmio de Moto Velocidade; já trabalhamos em Fórmula 1. Então, durante o período de treino [do] Moto Velocidade, em que as motos, as pessoas sofrem quedas e as motos, você tem fraturas dos componentes das motos, o sujeito chega dentro do estante com a peça fraturada, tem que soldar agora, tem que resolver agora, e aí você tem que ir na hora encontrar uma solução pra ele, fazer bem feito pra que ele volte a operar rapidamente, porque o Grande Prêmio não espera. Então, a gente passa muito por esse tipo de situação. É interessante depois que acaba, porque o momento ali é um pouco estressante, desgastante, mas é uma "cachacinha" boa. (risos) Eu acho que a gente gosta dessa adrenalina. Vale a pena depois que passa todo o estresse - é muita história, por isso a gente tá aqui agora contando algumas delas. 

P/1 – Willian, fala pra gente um pouquinho: e aí, como que foi sair dessa gerência e ir pra inovação? Como conscientizar as pessoas dessa ideia de inovação, nesse ambiente que tem tantas coisas repentinas, tão dinâmico?

R – Essa pergunta é interessante e oportuna, porque vai permitir a gente falar um pouquinho sobre algumas diferenças que as pessoas às vezes não percebem. A minha formação, ela, como eu falei pra vocês anteriormente, foi toda forjada na área de metal mecânica, soldagem. Eu sou um cara que me especializei nessa área, mas, é, uma das minhas características também é esse inconformismo com a situação atual. A gente tá sempre querendo pensar em alguma forma diferente de fazer as coisas, estimular as pessoas que trabalham com a gente a exercitar criatividade, a pensar fora do quadrado. E eu acho que essa característica que eu tenho, ela me ajudou no momento em que as pessoas procuraram alguém pra ocupar esse cargo nessa diretoria de inovação. E eu me recordo que quando eu recebi o convite, eu, uma das preocupações que eu tive naquele momento, primeiro, foi entender qual era o objetivo da empresa, com aquela criação da diretoria. Depois que eu entendi o objetivo, tive uma preocupação que era fazer uma pequena modificação no nome da diretoria, porque o nome, inicialmente, seria Diretoria de Inovação. E pelo meu histórico dentro da organização, uma pessoa sempre ligada com tecnologia, eu tenho já cinco patentes no meu nome. Então as pessoas sempre me viam muito: “Ah, Willian é aquele cara que desenvolve tudo e tal”, então havia muita. Eu tinha um pouco de receio das pessoas ligarem o meu nome nessa nova diretoria somente a tecnologia, e inovação não é somente tecnologia. Tecnologia é uma das vertentes da inovação, então o trabalho, o desafio que a gente tem é buscar a inovação nas suas mais variadas formas. Então o primeiro passo foi mudar o nome da diretoria: "Vamos adequar esse negócio aqui pra não haver nenhum tipo de interpretação equivocada por parte do corpo funcional sobre qual é a missão que a gente tem". Então esse foi o primeiro ponto. Falando sobre o desafio em si: o primeiro grande desafio que a gente tinha era mostrar pra organização, e nós trabalhamos muito e estamos, continuamos trabalhando muito com o grupo da Cristina Fernandes, que é a Gerente de Sustentabilidade e Comunicação; é passarmos uma mensagem pro corpo funcional de que, desmistificar a inovação como, daquele viés tecnológico que ela normalmente tem. Então, vamos fazer com que as pessoas pensem de forma inovadora sem necessariamente se autopolirem ou acharem: "Essa minha ideia é muito fraca", "Não, essa minha ideia não", "Não vou nem dar essa ideia”. Porque a expectativa da organização é alguma coisa "top" de linha, "Hi Tech". E a gente fez um trabalho muito forte nesse sentido, foi o primeiro grande desafio, massificar dentro da organização a ideia de que toda pessoa é capaz de pensar de forma inovadora, [que] é uma questão de disciplina, de vontade, de dedicação, de foco, de você propiciar o ambiente favorável pra que ela exercite a criatividade. Não adianta também você estabelecer uma meta de, tenha dez ideias inovadoras por ano; não é por aí - isso vai ser uma consequência, certo? Mas, primeiro, você precisa dar ferramentas pra que essa pessoa se sinta à vontade pra pensar de forma inovadora, pra dedicar um tempinho do trabalho dela. Normalmente, o trabalho, ele nos suga, nos prende, e nos leva pra um turbilhão de pensamentos comuns, ou seja, eu preciso fazer o que faço sempre, dessa forma, porque se eu fizer diferente, eu posso ter problema. Então a gente tá tentando incentivar aquele espírito de empreendedor em cada pessoa, em cada funcionário nosso. E tem uma frase que eu li, muito interessante, nessas minhas, nesses meus estudos sobre inovação - que agora eu voltei a estudar, tem que estudar tudo de novo -; então, essa é interessante, [que é] sobre o empreendedor corporativo, uma definição sobre o empreendedor corporativo: é aquele cara que todo dia sai de casa disposto a ser demitido, é o cara que questiona o status atual das coisas, que quer fazer alguma coisa diferente, que quer arriscar. Então é importante você despertar nas pessoas esse interesse por essa pitadinha de adrenalina, vamos arriscar um pouquinho. É lógico que pra isso, a alta administração, também, ela tem que admitir um certo grau de risco nas iniciativas que virão, porque se isso só estiver na cabeça dos funcionários menos graduados, nada vai acontecer. Então a gente começou todo um trabalho de doutrinação pra cultura da inovação pela alta administração também, convidamos a alta administração a participar de alguns treinamentos onde a gente trouxe consultorias externas pra falar sobre as metodologias de inovação, essa questão do risco de você permitir que as pessoas arrisquem um pouquinho mais e coloquem ideias que a princípio podem parecer um pouco absurdas, mas que depois de uma análise, eventualmente, mais profunda, podem te levar a uma mudança de patamar importante no negócio. Então, esse é um desafio grande que a gente tá tendo. Eu, particularmente, como era uma pessoa muito voltada pra um segmento; agora trabalho com vários outros segmentos, trabalho com química e petroquímica, bebidas e alimentos, com a área de combustão e, mais recentemente, agora, a área de tratamento de efluentes, água - é uma outra área que veio também pra nossa diretoria sobre essa ótica de buscar desenvolvimento de aplicações, tecnologias e inovação. Esse trabalho de inovação é, ele não se restringe, como eu falei, só as aplicações. Então, hoje. a gente trabalha o conceito de inovação em RH, em finanças, em controladoria, em todos os setores da organização, em todo segmento da organização, segurança, saúde e meio ambiente, sustentabilidade, ou seja, nós estamos trabalhando juntamente com todos os níveis da organização e todos os setores pra que a gente possa ter, dentro de pouquíssimo tempo, uma empresa, uma organização realmente voltada pra inovação. O que eu acho que essa deve ser uma preocupação que a gente deve ter pros próximos anos. Como é que esse negócio vai ser de gás industrial vai ser daqui a 30 anos? Eu não sei. Será que os modelos de negócio que a gente tem hoje se aplicarão daqui a 30 anos? “Ah, mas a gente não vai ta mais aqui”, mas outras pessoas estarão, certo? E elas terão que cuidar da organização. Então a gente tem que pensar, a gente não pode pensar só no universo de dois, três, quatro, cinco anos, a gente tem que pensar num universo mais longo, na longevidade da organização, do negócio. E eu tenho dúvida se o negócio deverá ser conduzido da forma como a gente conduz hoje, não sei - isso tá em aberto na minha cabeça.

P/1 – [Falha no microfone]

R – Existe sim na área de bebidas e alimentos, que é um segmento só - existe. Eu até comentei isso, se não me falha a memória, no início da nossa conversa aqui, um caso que é o caso do acondicionamento de alimentos. Os alimentos. eles são, normalmente; eram, no passado, eles não eram acondicionados em invólucros herméticos, eles eram colocados sobre prateleiras. Então você via lá os verdinhos na prateleira, as frutas; e esse contato com o ar atmosférico, ele oxida o alimento e a vida útil dele em prateleira cai muito. Então, uma das aplicações que foram desenvolvidas no segmento de alimentos foram as embalagens que são, elas são, dentro dessas embalagens, você coloca um certo volume de gás, mistura de gases pra deslocar o oxigênio de dentro da embalagem com isso, pra você alimentar a vida útil do alimento em prateleira. Existem outras aplicações pra congelamento. Por exemplo, hoje você tem carne de hambúrguer, carne de nuggets, existem aplicações em que você utiliza gases pra fazer a refrigeração, o congelamento desses alimentos, pra que você possa ter uma vida útil maior, a questão de carbonatação de bebidas, a questão de você dentro da, do invólucro da bebida - o invólucro não, o recipiente da bebida - você deslocar o ar que fica naquela parte superior ali da garrafinha pra que você não tenha oxidação da bebida. Então existem um sem número de... A gente poderia ficar conversando aqui durante muito tempo pra falar sobre essas possibilidades, são todos desenvolvimentos que a gente vem trabalhando. E é como eu falei, isso não pode parar. Você tem que sempre pensar numa forma diferente de fazer ou numa aplicação nova. Por exemplo, agora é a questão de criação de salmão; então, o tratamento da água adequado pra você criar o salmão. E, com isso, depois, todo aquele ciclo de criação e depois a utilização do salmão como alimento pra que você tenha um diferencial no sabor. Existem muitas influências do ambiente onde o alimento é inserido na qualidade dele, final. Então esse é um outro exemplo que a gente pode dar também.

P/1 – Pensando nessa linha, como a gente veio conversando dos usos dos gases, das inovações que a White, é, proporcionou. Pra você, o que significa a White completar 100 anos?

R – Olha, essa é uma pergunta difícil. (risos) A gente não consegue... Na realidade, eu acho; fazendo uma analogia com a nossa vida, porque eu vou falar por mim: eu estou na companhia já há 24 anos - não parece que passaram 24 anos pra mim. Isso é, mais ou menos, como a gente se sente no nosso processo de envelhecimento pessoal como seres humanos. Você, quando você olha no espelho todo dia - você, todo, dia olha no espelho -, não percebe que - os homens menos, as mulheres mais, as mulheres percebem mais (risos) porque têm um olhar mais aguçado, mas, normalmente, os homens não percebem como o tempo passa... E você, na realidade, não se dá conta de que o tempo foi passando; e se você tiver saúde e disposição - é difícil você perceber... É lógico, pra algumas atividades há diferença entre ter, por exemplo, 40, 30 ou 25 anos. É lógico, na medida em que o tempo vai passando, você vai envelhecendo, mais essas diferenças ficam claras e perceptíveis. Mas falando especificamente da White, a gente... Primeiro, a gente sente orgulho de estar numa empresa dessas, poucas são as empresas que completam com esse nível de abrangência, de participação no mercado, que completam 100 anos. Se você for procurar e pesquisar no Brasil, você encontra poucas; não são muitas [as] empresas centenárias e com resultados, assim, espetaculares como a gente vem fazendo aí ao longo dos últimos anos - é difícil encontrar. Primeiro, é motivo de muito orgulho, de muita satisfação, fazer parte desse processo, e pra gente que tá há mais tempo, talvez mais ainda, porque você viu diversas fases da organização. Quando eu entrei - já comentei isso antes aqui - na empresa, nós éramos 12 mil funcionários e todos os processos de evolução tecnológica, na forma de você administrar, de você enxergar o negócio, na forma de você abordar o mercado, fizeram com que a gente fosse adequando essa quantidade de pessoas a uma realidade cada vez mais diferente do ponto de vista de exigência de competitividade, de custos. E hoje nós somos aí cinco mil, em torno de cinco mil funcionários com um patamar de vendas infinitamente superior ao que era 25 anos atrás, com um efetivo bem maior. Então, participar de todo esse processo, de todas essas mudanças, ter tido a oportunidade e o privilégio de passar por tudo isso, ver como a organização, ela mudou e pra melhor, evoluiu - é muito gratificante. E não parece que ela tem 100 anos, parece uma menina. (risos) Porque a gente tem a obrigação de lipoaspirar, de fazer, de cuidar muito bem dela pra que ela esteja sempre em forma. Essa é uma missão de todos nós: manter essa empresa uma gatinha ao longo dos seus, uma jovem centenária, uma gatinha de 100 anos. A gente tem que fazer isso, tá preocupado com isso. 

P/1 – Pra você, qual que foi a maior lição que você considera que teve, que aprendeu nesses 24 anos?

R – Aprendi muitas.

P/1 – A maior. (Risos)

R – Vamos escolher aí. Eu acho que um legado, assim, importantíssimo que vivenciei e consegui tirar ao longo desses vinte e quatro anos, aqui na organização, é a importância do trabalho em equipe - ninguém vence sozinho. Isso é numa empresa como essa, em que você tem muitas áreas interligadas e que o resultado, lá no final, depende desse bom relacionamento, dessa interligação, dessa interdependência em diversos setores da organização. Essa é uma lição de vida pessoal. Acho que a gente tem que levar isso pra nossa vida também. É óbvio que dependendo da atividade que você desempenha, umas em maior grau, outras em menor grau, mas você sempre depende de alguém pra fazer bem o seu trabalho e pra chegar a um resultado final. Eu acho que essa é uma - se não a maior - das maiores lições. Provavelmente, pensando aqui, agora, talvez seja a maior lição: trabalho em equipe. Esse é um fator fundamental pra que a gente possa vencer nesse mercado tão competitivo. E outra coisa que eu acho importante também, é você, é o respeito pelo próximo. Isso até [é] uma questão de, logicamente, de educação, de princípios de cada ser humano, mas você ter essa habilidade, essa percepção de que você, independente da posição hierárquica que a pessoa ocupe na organização, é possível que você respeite o profissional, respeite o ser humano, as limitações que ele tem, as dificuldades dele, possa tentar entender essas dificuldades e tirar o melhor possível, o máximo possível das boas características que o profissional tem e ajudá-lo a melhorar aquelas que você considera que existam oportunidade de melhoria, ou seja, dar o “feedback” e essa oportunidade [de] a pessoa de crescer junto com você. Porque se a gente entender isso - tudo faz parte do trabalho em equipe. Se você tá dentro de um time e percebe que tem uma ou outra peça que precisa de ajuda, você tem que ir lá ajudar. Você não pode: “Ah, isso é problema dele, vou fazer minha parte”. Se você fizer só a sua parte, o resultado não aparece. Você precisa interagir, respeitar as pessoas e, obviamente, as pessoas também precisam te respeitar - o respeito tem que ser mútuo. Então, esse respeito e o trabalho em equipe, eu acho que são... Eu aprendi muito dentro da organização com isso, foram várias pessoas com as quais eu interagi, não só chefes, mas subordinados também. E como a gente aprende na nossa vida pessoal, aprende com filhos também. A gente acha que só aprende com pai e mãe, [mas] aprende com filho também. Então eu tive a oportunidade e o privilégio de aprender bastante sobre esses dois temas, que eu te falei, nessa organização.  

P/1 – E agora, pensando nessa entrevista, que você achou da entrevista? Que você achou dessa ideia da White?

R – Achei ótima. Só achei que eu falei demais. (risos) Eu gostei muito, foi uma oportunidade, assim, única da gente fazer um “flashback”, primeiro, da vida pessoal - é legal falar sobre a vida pessoal também e poder compartilhar com outras pessoas com as quais a gente não tem, assim, muita intimidade no dia a dia, mas, é legal conversar sobre o teu passado, tuas origens e poder estabelecer uma ponte entre o que você é como pessoa e o que você é como profissional. E é importante também, legal, imaginar que isso vai ficar arquivado pra quem quer que seja no futuro. Em 50 anos, poder olhar pra você, pro que você falou, pros valores que você tinha naquela época, [e] quem sabe, aproveitar alguma coisa desses valores. Valores são coisas que a gente tem que preservar, os valores são atemporais. Você não pode: “Ah, hoje eu sou bom, amanhã tem que ser ruim”, não existe isso. Então, as coisas boas, elas têm que ser preservadas. Se a gente pudesse preservar criogenicamente usando um “gasinho”, seria melhor ainda, (risos) mas ainda não encontramos uma forma de fazer isso. Quem sabe através da inovação a gente consiga congelar valores pro futuro, porque eu acho que esse, hoje, é um problema que a gente tem na humanidade: é uma dificuldade muito grande que as pessoas têm de preservar alguns valores, de cultivar também alguns valores. Como eu falei lá no início, quando a gente estava falando sobre parte pessoal, eu tenho cinco filhos - como eu falei pra vocês, são quatro homens e uma moça; então, três do primeiro bloco, do primeiro casamento, e dois do segundo, com idades assim: 28, 25, 17, dez e seis. Então é, as conversas são muito diferentes, são muito diferentes. Se não pela idade, também pelo [o] que a humanidade é hoje, mas algumas coisas não podem mudar os valores. Você tem que, através dos tempos, tentar preservar aquilo e passar mesmo pra essa garotada, essa juventude, essas crianças, que: “Olha, vocês não podem abrir mão disso aqui”. Isso aqui é um valor, um bem inestimável, que vai acompanhar vocês no sucesso pro resto da vida. Se vocês abdicarem disso aqui, dificilmente serão pessoas vencedoras. Você pode, eventualmente, vencer financeiramente, mas, certamente, vai ser uma pessoa infeliz, porque vai ter poucos amigos - se tiver algum. Os seus amigos serão amigos, são seu patrimônio, e não amigos pessoais. Mas eu acho que essa entrevista foi importante porque a gente pôde verbalizar essas coisas e deixar guardadinho aqui numa caixinha, num arquivo para, quem sabe, alguém, mais tarde, se julgar que é oportuno, conveniente, aproveitar um pouquinho. 

P/1 – Pra White, também.

R - Com certeza, pra White também. Pra vida pessoal, pra vida profissional também. Foi muito interessante, eu gostei muito do estilo informal, dos entrevistadores, da equipe toda - meu amigo Ricardo, não posso esquecer dele. Foi muito legal, uma oportunidade realmente muito boa. Espero que os outros colegas tenham a mesma opinião, e tenho certeza que terão. 

P/1 – Obrigada pela participação.

R – Eu que agradeço a oportunidade. É sempre um prazer. Uma boa sorte pra vocês e um bom trabalho.

[Fim da Parte 2]

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