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História de: Maria Lídia Rodrigues Figueira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/08/2014

Sinopse

Natural de Portugal, Maria Lídia nos conta o quão arteira foi na infância, sempre muito paparicada pelos pais. Ao final dos estudos, passou a aprender crochê, tricô e outras habilidades manuais. Aos 22 anos, imigrou com a família para o Brasil. Maria conta como foi difícil a adaptação aqui. Mas sempre que precisava de algum remédio para melhorar a saúde corria à Farmácia Santa Catarina, que originou a EMS, onde, aos 30 anos, começou  trabalhar como auxiliar de embalagens. Maria narra como era o cotidiano na fábrica, como eram as máquinas, a rotinha e os percursos feitos para chegar, sempre sem qualquer atraso. Aposentou-se quando completou 27 anos de trabalho como Supervisora e chegou a conhecer Hortolândia. Maria Lídia conta emocionada como era seu relacionamento com a família Sanchez e o quanto sentiu ao deixar de trabalhar mas ainda luta e escolhe, quando pode, os remédios da EMS porque sabe como eles são feitos!


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História completa

Eu ia lá direto [na Farmácia Santa Catarina], imagina só (risos). Como eu já falei, meu pai ficava ruim da garganta e do ouvido, aí ia lá e o Emiliano receitava, dava uma injeção. A farmácia tinha uns quatro ou cinco funcionários, a irmã dele trabalhava na caixa. Aí tinha até um funcionário que trabalhava aqui que também trabalhava lá. E quando a mãe dele ficou doente eu fiquei uns 15 dias trabalhando na farmácia, eu já trabalhava com ele, né? Aí eu fui pra farmácia pra ficar na caixa porque a irmã dele tinha que olhar a mãe, tudo. A farmácia era grandona. A maioria do povo só ia lá naquela farmácia porque naquela época tinha pouca farmácia, e todo mundo já conhecia o Emiliano. Até hoje, se você falar pras pessoas mais antigas: “Você lembra da farmácia do Emiliano?”. Todo mundo lembra.

 

[Festa de inauguração da fábrica de São Bernardo doCampo] Primeiro teve uma missa, depois fizeram uma carreata, veio todo mundo, veio até o padre. Aí chegou aqui. Isso aqui fora agora tem cerca, mas antes era de madeira. E aí teve uma festa, foi o dia inteiro festa, churrasco, tudo. ele tinha comprado que era uma fábrica de biscoitos, era uma partezinha pequena. Aí aqui em volta era tudo terra. Aí foi aumentando, foi aumentando.

 

Comecei a trabalhar como Auxiliar de Embalagem, depois já fui pegando as manhas porque até hoje eu sou assim, quando quero uma coisa, eu quero. Eu nunca falo negativo, eu sempre falo positivo. Eu queria aprender a trabalhar na máquina da pomada e quando as meninas iam ao banheiro, eu corria e sentava lá. De vez em quando saíam umas tortas lá, aí elas chegavam lá e brigavam comigo. E eu falava: “Mas eu quero aprender, mas eu quero aprender”. Tanto que eu aprendi e depois fui ser Operadora de Máquina. Aí quando as meninas iam ao banheiro eu já ia pra máquina não ficar parada eu ia nelas, já ia nos comprimidos, ia naquelas que enchiam, não sei se ainda fazem Anecrom. Enchia timerozol. Depois quando eu comecei a ser Operadora de Máquina já ia direto na máquina.

Quando eu comecei, os bancos lá eram muito altos, mas naquela época eu tinha as pernas boas, então eu subia no banco que era uma rapidez. Era assim, quando a gente chegava já tinha que pegar o banco porque não tinha banco pra todo mundo. Tinha mais ou menos umas 50 pessoas lá. Eu comecei a montar as caixinhas. Às vezes ,a gente embalava, que nem pomada, às vezes embalava 25 mil, mas não era só eu. Era assim: ficavam três meninas em cima montando as caixinhas, depois iam descendo as esteiras pras meninas irem pegando e embalando. No começo, nós tínhamos que montar a caixinha, depois que a gente já tinha prática nas caixinhas a gente começava a embalar. Quando tinha pouco serviço, o Emiliano não gostava de mandar as pessoas embora, né? Aí a máquina que era de dobrar bula, em vez de ser a máquina, tinha uma máquina velha lá, a gente que dobrava tudo na mão. A gente ficava o dia inteiro dobrando aquela bula. E tinha que ficar quietinha, não podia conversar, mas quando o chefe saía nós cantávamos um pouco, contava umas piadas.

 

Tinha um produto que se chamava C Cálcio, que era aqueles envelopes que agora é que nem Energil. Era tudo nos tubinhos, mas era naquele envelope de alumínio. Aí a gente tinha que ver se não tinha reforma, reforma é quando está quebrado, se o envelope estava aberto. Tinha caixinha que iam dez embalagens, tinha caixa que iam 20. Na caixinha já estava escrito e as caixinhas já vinham todas carimbadas, com preço. Antigamente vinha o preço e a data de validade da caixinha. Era isso que a gente fazia. Fazia pomada, fazia vários comprimidos, fazia comprimido pra tudo, né?

 

A caixinha do C Cálcio era branca com laranja, amarelo e escrito com a letra C Cálcio. Tinha uma pomada chamada Frixopel, a caixinha não era bem vermelha, é um bordô assim, mais ou menos. Neotricin, a caixinha era verde e branca. Tinha uma pomadinha oftalmo que também era verde, era uma que a caixinha era verde e branca e uma que era azul, conforme o produto. E tinha o Alecrom, que é que nem o Epocler agora, que era uma caixinha verde, branca e no meio tinha dois frasquinhos daquele lá e a bula.

 

Dobrar a bula era ruim porque a hora não passava de jeito nenhum. Embalado a gente ó... Quando eu vim pra cá [pra São Bernardo], nós fazíamos uma pomada que chamava Tridimicin. A caixinha era branca com as listras amarelas e uma vermelinha. Tinha dias, quando vendia muito, eu enchia 36 mil bisnagas, enchia e embalava, por dia, saíam da minha sala.

 

E quando eu trabalhava em Santo André podia estar sol, podia estar chuva, nós íamos a pé e eu nunca perdi uma hora. A gente tinha que estar dentro da seção cinco minutos antes. O chefe via o cartão das outras meninas pelo meu cartão porque o meu cartão nunca tinha falta, nunca tinha atraso de chegada, de entrada, nunca, nunca. E eu ia e voltava a pé.

 

Na máquina, a gente sentava naqueles bancos grandes, com a bacia com água pra por as borrachinhas pra ficar molinhas, que eram as tampinhas. E a máquina ia rodando, uma punha os vidros, uma ficava no controle da máquina pra encher o líquido e duas ficavam pra colocar as tampinhas porque uma só não vencia, né? E na máquina da pomada era assim: tinha a caixa que vem as bisnagas e a gente punha a caixa desse lado, com as bisnagas vazias. A máquina ia rodando assim. Com essa mão, nós pegávamos a bisnaga vazia, com essa a gente pegava a vazia e punha na máquina. E aí quando a máquina já ia passando com a bisnaga cheia, nós pegávamos com essa mão e púnhamos dentro da caixa. A gente fazia três coisas com as duas mãos (risos). Aí a gente punha com essa e com essa aqui já tirava cheia e já colocava dentro da caixinha. E aí quando mudava o produto tinha que lavar o funil, que era onde colocava as pomadas, lavava tudo. Primeiro, lavava com sabão, detergente, e depois lavava com álcool. E a gente tinha que usar luva, tinha que usar negócio nos ouvidos, usava touca. No começo era avental, depois já era com o uniforme completo. Quando mudava de produto, tinha que fazer toda essa manutenção na máquina. Aí tinha um aparelhinho que a gente punha a data e a validade, a gente tirava da máquina e a gente mesmo que punha.

 

Quando eu saí daqui [de São Bernardo por conta da aposentadoria], ainda tinha a Seção de Comprimidos, tinha a Seção de Líquidos. A primeira que foi pra lá [para Hortolândia] foi a Seção de Pomadas, a seção que eu trabalhava.

 

Nós [a Tereza e eu] fomos as primeiras funcionárias, nós pintávamos os bancos que nós sentávamos. Como eu já falei, quando não tinha serviço, ele [o Emiliano] não gostava de mandar embora, então a gente tinha que fazer o que tinha pra fazer, pintava. Naquele tempo, a parede não era azulejo, a gente pintava as paredes, os bancos, lavava o chão, tudo. Banheiro, o pátio, a calçada, que até um dia eu estava varrendo a calçada e falaram assim pra mim: “Tão pequenininha já é margarida” (risos). A gente fazia de tudo, tudo o que tinha pra fazer, a gente fazia e nunca reclamava.

Antigamente, as coisas eram mais difíceis, não é como agora que é tudo moderno. Quando era lá em Santo André, carregava os caminhões, só tinha o motorista, não tinha ajudante. Nós pegávamos aquelas caixas. Ó, nós pegávamos a caixa, púnhamos aqui no ombro e ia carregando, ia três, quatro até atingir o caminhão. Quando os motoristas chegavam lá falavam: “Ô, vocês não vão vir ajudar?”. A gente ajudava os motoristas até carregar caminhão. Era muito bom assim.

 

Eu mesma tomo bastante comprimido daqui da EMS. Às vezes, me dão outro, eu falo: “Não quero esse não, eu quero o EMS”. Aí tinha uns farmacêuticos que me conhecem: “Ah, só porque você trabalhou na EMS você quer desse?” “Não, é porque esse daqui eu sei que é bom!” (risos).


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