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História

Procura-se mulheres na computação

História de: Camila Achutti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/07/2021

Sinopse

Relação próxima com a avó. Paixão pelos estudos desde cedo. Sonho de trabalhar na Nasa. Entrando em uma universidade pública e momentos marcantes. Blog pioneiro sobre mulheres na computação. Intercâmbio no Google. Prêmio internacional. Empreendedorismo e a criação da Mastertech. Influência para outras mulheres na computação.

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História completa

P1 - Genivaldo Cavalcanti Filho

P2 - Grazielle Pellicel

R - Camila Achutti


P1 – Boa tarde, Camila.

R – Boa tarde, Genivaldo. Tudo bem?

P1 – Tudo, e com você?

R – (risos) Também, tudo certo. Meio frio, né, mas está tudo certo.

P1 – É, está frio mesmo. Eu vou começar, então, pela pergunta básica: qual é seu nome completo, o local e a data de nascimento?

R – Camila Fernandez Achutti. Nasci em São Paulo (SP), no dia 21 de dezembro de 1991. 

P1 – Qual o nome dos seus pais?

R – Roberto Rocha Achutti e Mariangela Gonçalves Fernandes Achutti.

P1 – Qual a ocupação dos seus pais?

R – Minha mãe foi professora, secretária e depois virou mãe. Teve gêmeas - (risos) não tinha o que fazer - e virou mãe em tempo integral. E meu pai sempre trabalhou com TI, com Tecnologia da Informação.

P1 – A sua família é de São Paulo mesmo, seus pais? Ou a família deles? Ou eles vieram de outro estado ou cidade?

R – Meu pai é do sul do país, de Santa Maria (RS). E minha mãe já é de São Paulo.

P1 – E você se lembra como era a casa onde você passou a infância? Casa ou apartamento, onde você passou boa parte da sua infância?

R – Lembro. Eu… A gente morava no Jaçanã, na zona norte [de São Paulo]. Tinha uma feira na porta, então meus pais tinham uma intenção bem forte de fazer que a gente comesse bem de tudo, assim, bem variado. Então, eu lembro que todo final de semana chegava alguma coisa nova para experimentar, de comida, assim, ali no Jaçanã. Era um prédio de escada, assim, que a gente morava praticamente sozinho - tinha a ver com o trabalho do meu pai. - E aí, depois, a gente foi morar em Guarulhos (SP), que era perto do Jaçanã, mas já não era [na cidade de] São Paulo. E aí acho que foi onde eu passei minha infância maior, assim. Eu fiquei, morei em Guarulhos dos cinco aos vinte anos, praticamente, aos dezoito, dezenove anos. Assim que eu entrei na faculdade, morei mais um ano em Guarulhos, depois já mudei pra perto da faculdade. Mas aí, em Guarulhos, minha vida ficou boa, assim, né? A gente morava num apartamento bom, né, de classe média, e a gente foi estudar num colégio muito legal. Acho que foi lá que eu comecei a me envolver mais com [matérias de] exatas, com ciências, experimentações. E acho que foi ali que eu decidi, vai, que eu ia virar cientista. (risos)

P1 – A gente já vai chegar lá nessa parte dos estudos, mas eu vou perguntar mais algumas coisas sobre a sua infância.

R – Aham.

P1 – O que você mais gostava de fazer quando você era criança?

R – Eu tenho uma irmã gêmea que, por sorte, também é minha melhor amiga, então era muito tranquilo. A nossa infância sempre foi muito autossuficiente, assim, então eu e a Carol, a gente meio que se bastava, sabe? Então, a gente tinha amigas, tal, mas pra gente era todo dia dormir com a melhor amiga, sabe, em casa. Nós, no geral, brincamos muito juntas, assim. Eu lembro de duas brincadeiras que eram recorrentes: Carolina me dando aula - a Carol, hoje, é professora (risos) - e a gente dançava muito, assim. Então, ficava inventando história, dançando e brincando. A gente sempre foi bem do mundo da fantasia, assim, sabe? Inventava umas novelas e interpretava essas novelas. E quando a gente não estava inventando, aí era a escolinha. A minha irmã cresceu me dando aula. Ela deve… O meu português não é tão bom quanto ela me ensinou. Até hoje ela deve se frustrar com isso, mas ela me deu bastante aula de Português. Gostava de dar aula. Eu sempre fui muito de jogo, assim. Não de videogame, mas quebra-cabeça, jogo de montar. Sempre gostei. E depois - mais velha um pouco, vai -, infância ainda, né, mas antes da adolescência, sempre teve computador em casa, porque o meu pai era programador e sempre… Ele nunca trancou o computador. Nunca foi, tipo: “Ah, o trabalho do meu pai”. Era um computador. Então, eu também gostava de ficar digitando, assim, e brincando com o computador. Isso faz parte do meu inconsciente: lidar com o computador desde muito cedo.

P1 – Você tinha, quando você era criança, algum sonho, de quando você crescesse, ser determinada coisa?

R – Engraçado isso, né? Eu, quando era criança, sempre quis, assim, morar sozinha. É engraçado, pra mim o ápice da vida adulta era você morar sozinha e ser independente. Enquanto guria, isso não é um sonho tão comum, assim. A minha irmã não falava, acho, tanto isso. Eu sempre quis morar sozinha, ser independente, ser importante. Acho que não era um tom de necessidade, mas na minha cabeça ser autossuficiente, morar sozinha, ter minha casa. Significava alguma coisa, sabe? E desde muito pequena eu sempre fantasiei isso, assim, como um sonho mesmo, de mandar na minha própria vida [e] ser independente. Desde muito pequena, eu sempre falei que ia morar sozinha e minha mãe fala: “Pô, não achei que ia ser tão cedo que você ia voltar...”. Eu saí muito cedo de casa, sem um motivo aparente, assim. Meus pais, enfim, eram ótimos. Mas, isso, acho que teve uma consequência. Sempre sonhei em morar sozinha.

P1 – A relação com os seus avós. Você conheceu seus avós, teve contato com eles?

R – Tive… Morei com a minha avó até os nove anos e ela faleceu. Infartou e faleceu. Acho que foi o primeiro grande contato, assim, com a morte. Era uma… Ela morava comigo e dormia no mesmo quarto. Dividia quarto comigo e com a minha irmã. Então, era um apartamento - tanto no Jaçanã, quanto em Guarulhos - de dois quartos. Meus pais ficavam em um e eu, a Carol (irmã gêmea) e minha avó, no outro. Então, foi uma… A gente era muito apegada, e aí ela faleceu quando a gente tinha uns nove, dez anos... Já não me lembro bem. Mas era, assim, uma relação muito boa. A gente vivia jogando Paciência, brincando… Tipo, ela, de fato, viveu essa infância com a gente, sabe, Genivaldo? Acho que a grande pauta, assim, quando eu me lembro da minha avó, [é que ela] era uma mulher muito vaidosa. Sempre foi. E que sofreu muito, separou muito cedo, numa época em que isso não era comum, né? Então, ela falava com muito pesar dessa época da vida dela. E acho que isso me deu uma sensação… Talvez eu arraste marcas dessa mulher que quer ser independente, que não quer depender de ninguém, porque, ao fazer isso, talvez tenha sofrido. Eu vejo marcas da minha vó, dessa necessidade de ser independente, da minha avó materna. Meu avô, né, eles tiveram minha mãe. Meu avô, eu passei a… Convivia mais esporadicamente, assim. Não convivia muito com ele. Depois, a nossa relação melhorou, a gente passou a conviver mais, principalmente depois da morte da minha avó. Eles não se encontravam. E os meus avós paternos eram ótimos, minha avó era superforte, também. Minhas duas avós eram muito fortes, assim. Vieram do sul, né, tanto meu avô [paterno], quanto a minha avó [paterna]. E minha avó ficou [como] tecelã até o último dia da vida dela, sustentando a casa, fingindo que meu avô que pagava as contas, porque fez uma série de negócios malsucedidos. Então, para ela ser feliz, sabe, ela fingia que estava tudo bem, que era meu avô que sustentava a casa, mas a minha avó que resolvia, fazendo lã. Então, virava toneladas de lã. Mandavam pra ela e ela fiava, cardava, tingia. Vinha gente do Brasil inteiro, assim, estilistas do Brasil inteiro na casa da minha avó. Minha avó era meio bruxa, sabe? E eu achava aquilo o máximo. E o meu avô foi corretor de seguros [por] muito tempo, tinha escritório e tal. Acho que o fato da relação com meus avós na infância, meus avós paternos, não era a melhor do mundo. Não convivíamos tanto quanto eu convivia com a minha avó [materna]. Mas depois de adolescente, eles ficaram muito próximos da gente. E quando eu estava quase… Fui morar fora. Quando eles faleceram, a gente estava no ápice, talvez, da nossa convivência. Eu estava morando fora e pra mim foi um baque, assim, saber que a minha avó [paterna] tinha falecido. Foi uma das coisas que me fez voltar pro Brasil, acompanhar, ficar um pouco mais próxima da minha família. Acho que caiu uma ficha de que, sabe, as pessoas não são imortais e talvez eu devesse aproveitar um pouco enquanto eles estavam vivos. Meu avô [paterno], pouquíssimo tempo depois, também faleceu. Enfim, acho que a relação com os meus avós foi tortuosa na infância, mas depois a gente foi se entendendo. Então, na minha adolescência, acho que eu tirei várias… Consegui identificar vários aprendizados que eu tirei deles.

P1 – Indo pro seu histórico escolar: qual é a primeira lembrança que você tem de escola? 

R – Cara, eu amava a escola. Amava, assim. As pessoas não gostavam e eu sempre amei. Tanto que o meu castigo… Uma lembrança que eu tenho é que se… A ameaça da minha mãe era: “Você não vai pra escola amanhã, se você não fizer isso”. Noventa por cento das crianças ia falar: “Ótimo! Então…”, e eu amava a escola. Sempre amei a escola. Uma das lembranças que eu tenho mais clara e talvez… Não sei se ela é a mais clara ou se eu tô ancorada na última pergunta, mas a minha avó contava muita história. Lembra que eu falei desse lance da fantasia? Então, desde muito pequena, minha avó sempre contou muita história. E eu, desde muito pequena, assim: Jardim II, Pré, quando sobrava tempo na sala, a minha professora falava assim: “Camila, você tem alguma história que você quer contar?”. Eu sempre gostei de contar história. E ela sentava as crianças e eu contava as histórias que minha avó tinha me contado. Então, acho que a primeira lembrança, assim, mais clara que eu tenho da escola, deve ser do Jardim II, Pré, eu sentada contando as histórias que minha avó tinha contado, tipo, na noite anterior, pros meus colegas sentados em roda, assim, no final da aula. Acho que é a lembrança mais antiga que eu tenho da escola. E depois tiveram várias. Mas eu gostava, era um ambiente que nunca me oprimiu. Eu sempre gostei muito de estudar, me dava bem com os professores. Era uma pessoa tímida, então não era uma pessoa de super amigos. Não era uma garota popular, mas isso também não me incomodava. Eu estava ali mais pra estudar e amava aquele ambiente, assim, [de] poder descobrir as coisas. Sempre gostei de estudar.

P1 – Que tipo de história a sua avó contava pra você? Você lembra de alguma? Tem ainda na memória? 

R – Cara, eu não lembro claramente as histórias, mas eu lembro que tinham dois personagens que eram recorrentes, que era o “Pimenta” e a “Mônica”. Que depois os meus pais, depois de muito mais velha, assim, eu lembrando da minha avó, eles: “Não, você sabe que o Pimenta e a Mônica existiam, né? Eram amigos de infância da sua mãe e meu”. Então, meio que eram histórias reais, aparentemente, e eu não sabia. Mas esses personagens eram recorrentes, que era o Pimenta e a Mônica: era um casal, que a Mônica era muito poderosa, inteligente, e o Pimenta era todo estabanado, errava, pagava uns micos e a Mônica sempre o salvava, assim. Então, eu lembro dessa característica. Depois, digerindo tudo isso, acho que tem um pouco de similaridade dessa mulher forte, da necessidade da minha avó criar, né, essa mulher forte, que decidia e que conseguiu, apesar de tudo, ter um relacionamento e tal. Mas eu não lembro exatamente das histórias. Envolviam episódios desses dois mesmos, personagens, que depois de mais velha eu descobri que eram reais. (risos)

P1 – E você se lembra de alguma, algum professor que te marcou ou alguma matéria que você gostava muito de estudar, no ensino fundamental?

R – Eu acho que eu escrevia bem pra média, tal, mas eu sempre fui das [matérias de] Exatas. Eu amava Matemática, Física. Então, eu sempre fui das Exatas. Acho que apesar de me dar bem nas outras matérias, não era um negócio… Acho que os professores que mais me marcaram foram professores de Matemática e Física, assim. Um, o professor Davi, eu lembro claramente, ele sempre apostou muito, sempre incentivou muito e falava de Matemática. E o professor Turner, que eu lembro que foi o primeiro que começou a me chamar de “Achutti”. Depois, ficou comum as pessoas me chamarem de “Achutti”, porque era Camila e Carol. E depois, quando eu, né, muito cedo, fui sentar numas mesas meio importantes, as pessoas, acho que na tentativa… De verem que eu era uma guria muito jovem, começaram a me chamar de “Achutti”. E ele foi o primeiro, no colégio ainda, [que] me chamava de “Achutti”. E ele me colocava pra fazer muitos exercícios. Então: “A Achutti tem alguma opinião sobre isso? A Achutti faria como?”. E isso me marcou. Porque, ao invés de eu odiar aquilo - e acho que qualquer criança ou adolescente ia ficar puto, né, de tipo: “Pô, o professor fica me chamando e tal” -, eu sempre… Isso sempre me motivou. Então, eu estudava antes a matéria, para dar uma de inteligente na aula, sabe? Então, acho que o professor Davi e o professor Turner… A tia Vilma, que era essa professora que me deixava contar história, que era do Pré, também tenho uma lembrança forte, assim, dela. A professora Leni, que depois faleceu de câncer. Eu me lembro de ter sofrido, assim, com isso, que também foi do primário, e era uma professora muito… Era uma professora, né, de… Como é que chama quando dá várias matérias? Polivalente. Ainda era uma professora polivalente, mas eu lembro que ela enfatizava muito Ciências, Matemática, e eu achava o máximo, então me marcou bastante.

P1 – Você estudava perto de onde você morava, ou longe? Como você ia pra escola?

R – Bem perto de nós, assim. Minha mãe, né, criou a gente, parou de trabalhar pra criar a gente, porque eram duas, né? (risos) Ela levava e buscava a gente, sempre. Então, nas minhas lembranças, a minha mãe sempre estava me esperando, e sempre levava a gente de carro. Na infância, isso era ótimo, então, né? Ia, buscava, voltava. Tenho algumas lembranças da minha avó, pequenininha, levando a gente também, às vezes, pra escola. E aí, com ela a gente podia parar no tiozinho que vendia doce, ela sempre… E era, tipo, a gente sabia, sabe quando você pisca? Ela falava: “Ah, deixa que eu as levo hoje, Mariangela!”. E aí a gente parava no tiozinho que vendia bala e ela deixava a gente encher o bolso, antes de entrar na sala. Mas sempre fui de carro, assim. Mais velha, depois, comecei a voltar a pé algumas vezes, mas a minha avó ou a minha mãe… Minha avó, quando mais cedo, até uns nove, dez, e minha mãe sempre levou e buscou a gente.

P1 – E na sua passagem para o ensino médio - você já estava chegando na adolescência -, o que mudou pra você? Tanto nos seus hábitos fora, quer dizer, amigos, atividades que você fazia fora, quanto também nos estudos.

R – No ensino médio, acho que foi onde eu bati o martelo. E eu lembro de um episódio, assim, que obviamente não marca ninguém, mas não sei porquê me marcou, que eu na… Eu sempre tive, assim, no meu inconsciente, que eu queria ser cientista, que nem eu te falei, mas eu achei que queria fazer Medicina. Porque, sei lá, meu colégio era super… Né? Então as carreiras que eram boas eram Medicina, Direito ou Engenharia. E eu: “Meu, Direito esquece. Não sei falar, não sei escrever. Vou me lascar, não dá”. E Engenharia não tinha passado pela minha cabeça, então eu falava que eu ia fazer Medicina. Passei o fundamental inteiro falando que eu ia fazer Medicina, que era o jeito mais próximo de ser cientista, sabe? Eu não enxergava na Engenharia uma possibilidade de ser cientista. E aí eu lembro que, na virada pro colegial, no meu colégio tinham eletivas, então você podia escolher um pouco mais as matérias que você ia fazer, sabe? E tinha uma eletiva de Mecatrônica. E eu falei: “Ah, é essa aqui que eu vou fazer. Vou fazer essa aqui”. E aí… “Espera aí. Dá pra ser cientista sem ser médica, sem precisar mexer com corpo e sangue!”. Eu sempre desmaiei vendo sangue, então isso era um problema pra mim. Eu tipo: “Meu, como é que eu vou ser cientista, se eu desmaio vendo sangue?”. E aí, pra mim, caiu uma ficha, tipo: “Ah, é isso”. Então, foi uma virada que foi junto com o colegial e eu passei o colegial inteiro falando já que eu ia fazer ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), que eu ia fazer Engenharia e que ia ser… Ia fazer, tipo, estudar no ITA, enfim. Então, isso foi um grande marco. E acho que o segundo marco foi que eu li um livro do Dan Brown. Na minha época, eu devia ter, sei lá, uns quinze anos, né, tinha acabado… Acho que já tinha passado a festa dos quinze anos. Aos quinze anos, eu li um livro do Dan Brown, que chamava “Ponto de Impacto”, que é um livro médio, tá? - Eu o reli esses dias e eu falei assim: “É um livro médio”. - Mas, pra mim, com quinze anos, aquele livro virou a minha Bíblia. Tipo, eu li duas, três vezes em sequência. E acho que, na época, não tinha essa clareza, mas depois, foi o primeiro livro que tinha uma cientista mulher, que trabalhava na Nasa, [agência espacial dos Estados Unidos]. E eu criei na minha cabeça que eu ia ser aquela cientista. Tanto que eu passei a minha graduação inteira estudando pra trabalhar na Nasa. - Depois eu posso contar isso. - Mas alguma coisa colou na minha cabeça, falei: “Vou fazer Engenharia e eu vou trabalhar na Nasa, porque vou ser ela”. E aquilo direcionou os meus estudos, tanto do ensino médio, quanto da graduação depois; que eu ia trabalhar na Nasa, tinha plena convicção disso. Porque eu ia ser a guria do "Ponto de Impacto". Então, acho que essas duas coisas meio que mudaram a minha vida no ensino médio: a eletiva de Mecatrônica do colégio e esse livro do Dan Brown, chamado "Ponto de Impacto", que tinha uma cientista que trabalhava na Nasa e que tinha feito Engenharia, que era muito importante, mandava nas pessoas e salvava o planeta. E era tudo o que eu queria, sabe? E aí eu criei, né, fiz o ensino médio pra ser ela. (risos)

P1 – Com relação ao que você fazia além de estudar: nesse período, o que você gostava de fazer? Com os amigos ou... Enfim.

R – Cara, eu não saía muito, viu, Genivaldo? Eu sempre fui uma pessoa mais dos livros, meio antissocial, assim, sabe? Eu gostava muito de jogar vôlei, então ia jogar com a galera. Então, a minha vida era meio em torno de: ou eu estava jogando vôlei, ou eu estava estudando. E isso não foi um trauma, assim, pra mim, né? Pras pessoas, quando eu vejo, sei lá, meu marido mesmo, as experiências de ensino médio, de viagens com os colegas, isso nunca foi um trauma pra mim, porque eu tinha uma melhor amiga que morava comigo, então eu e a Carol, a gente meio que se bastava no lance da amizade, conversava muito. E eu amava estudar. Então, pra mim era estudo, estudo e estudo. Três, quatro vezes na semana, eu jogava vôlei com a galera e era do time da escola, saía pra jogar, e levava isso a sério. Sempre, né, fui alta, então o esporte… Sempre gostei de esporte. Mas eu não tenho grandes lembranças, assim, de festas de arromba, sabe, de amigos… Eu sempre fui mais do estudo, meio “Caxias”. Não bebia, sabe? Não pode beber no ensino médio, mas, né? Não ia pra churrasco, assim. Não tenho grandes lembranças de festa. Não fui pra viagem de formatura, também não foi um “big deal” (grande coisa) pra mim. Nunca fui pra acampamento, não era de dormir muito em casa de amigas. Nem eu, nem a Carol. Porque acho que, como a gente morava junto, eu passei meu ensino médio estudando, Genivaldo, quase vinte e quatro horas. E quando não estava estudando, estava jogando vôlei. E foi uma adolescência… Falando assim, parece uma adolescência meio “boring” (sem graça), né, tipo: “Ai, eu não saía”. Nunca foi um trauma pra mim. Sempre equilibrei bem, assim, isso.

P1 – Você tinha falado agora há pouco da sua festa de quinze anos. Você teve [uma] festa de quinze anos? Como foi?

R – Boa, Genivaldo. Eu fui contrariada, completamente. Porque eu tenho uma irmã gêmea, Carolina, já falei sobre ela, que é, assim: - eu não diria que nós somos opostas, hoje acho que a gente é muito parecida. Mas, - no colégio, pensa que a Carol era a menina mais bonita - e a gente é gêmea, muito parecida, mas na época, minha leitura dos fatos era assim -, amiga de todo o mundo, super popular. Ela queria ser atriz, ela fazia teatro… Sabe, minha irmã era muito descolada no colégio. E eu era “nerd”, a irmã “nerd” quietinha, sabe, que não fala muito e tudo bem. Não foi um trauma pra mim, sabe, Genivaldo? E minha irmã... Eu sempre quis: “Ah, eu quero viajar, fazer intercâmbio, falar inglês, porque inglês é importante para a minha carreira”. E a Carol, tipo: “Não, eu quero uma festa de quinze anos”. E aí eu lembro exatamente dessa conversa, Genivaldo. Minha mãe sentada comigo e falando assim: “Camila, eu não vou poder pagar, tipo, eu posso te dar o seu dinheiro para você viajar sozinha e tal É seu sonho, até posso, mas você nunca mais vai fazer quinze anos. E você vai destruir o sonho da sua irmã. Por que você não faz a festa com a sua irmã, ela vai ficar muito chateada se vocês não fizerem juntas, e depois você vai viajar? E a gente vê. Você pode ir viajar a qualquer momento”. E lembro que eu, tipo, fiz uma conta meio de mais, assim: “Ah, tá bom, vai. Então, está bom”. E eu fiquei meio injuriada, meio puta da cara: “Puta, vestido, prova de vestido, tem que entrar e dançar com alguém na frente de todo o mundo!”. Fiquei meio mal, assim, sabe? Pra mim, não era o meu ambiente confortável. "Eu tenho que entrar no meio de um monte de gente, dançar uma valsa, apagar uma vela. Nada a ver!" Pra mim não tinha nada a ver aquilo, comigo. Mas, na festa, eu lembro que acho que curti mais do que a minha irmã. Eu lembro da gente conversando sobre isso. Ela tinha tanto o sonho daquilo ser perfeito e eu fui tão tipo: “Mano…”, que no final acabei aproveitando e foi super legal, não me arrependo zero de ter feito. Mas eu fui injuriada fazer a festa, assim. Achava um desperdício. Achava “uó”, sabe, entrar naquele vestido. E depois acho que eu aceitei, assim. Hoje, se eu tiver uma filha, talvez eu fale pra ela: “Ó, filha, você nunca mais vai fazer quinze anos”. (risos) Se eu puder dar uma festa pra ela, talvez eu faça isso. (risos)

P1 – No fim do seu ensino médio, você já tinha a ideia exatamente do que você queria fazer no curso superior?

R – Tinha plena convicção, Genivaldo. E eu tinha plena… Eu cresci com os meus pais de um jeito… De novo: não foi traumatizante. Falando assim, parece. Já conversando com outras pessoas, muitas pessoas falaram: “Nossa, podia ter dado errado”. Meus pais cresceram falando que a gente tinha que passar em faculdade pública, porque eles não tinham como pagar duas faculdades e, se a gente não conseguisse passar as duas numa faculdade pública, a gente ia colocá-los numa situação difícil, porque eles iam poder pagar pra uma e não para a outra. Então eles iam fazer de tudo pra gente poder passar numa faculdade pública. E quando eu falo de “tudo” é: no terceiro colegial, eu só estudei. Tipo, a minha mãe fazia tudo, eu não fiz nada na minha casa, e era tipo um plano familiar, sabe? “Vamos estudar, para passar numa faculdade pública.” E a gente estudava umas… Sem zoar, eu estudava umas doze horas por dia, Genivaldo, assim. E eu sempre gostei. Como eu estava falando pra você, não foi um grande trauma. Minha irmã sofreu mais, um pouco. Não foi um grande trauma pra mim, mas, eu sabia que ia fazer computação. Eu não sabia ainda que ia fazer Engenharia da Computação, Ciência da Computação, mas eu sabia que eu ia fazer computação. Na época, já estava muito claro pra mim e eu fiz, eu prestei - assim, de final de outubro a dezembro - todos os vestibulares que dava, no final de semana. Então, eu prestei Minas Gerais, Pernambuco, Ceará, tudo, assim, que tinha. E as que eu queria mesmo eram a Unicamp e a USP, né? Minha mãe queria mais USP, porque não era para eu sair de casa. Mas o meu sonho era sair de casa, como eu disse pra você, morar sozinha e tal. Então, meu sonho era ir para a Unicamp. E aí prestei todos os vestibulares do planeta, viajando e com estrutura familiar, que minha mãe pagava hotel: a gente ia fazer vestibular, não sei o quê. Foi um plano familiar, assim, um investimento, sabe? Eu e minha irmã. E sempre muito certa do que eu ia fazer e minha irmã também, escolhendo e tal. Então, eu sempre… Não foi um trauma escolher o que eu ia fazer da vida. O trauma veio - “trauma”, né? -, o maior desgaste veio, talvez, em decidir quais das carreiras eu seguiria, sabe? Então, eu fui muito para Engenharia da Computação, e só na USP eu prestei Ciências da Computação. E foi o que eu acabei fazendo, né? Então, não fiz Engenharia, que era, né, o plano familiar. Fiz Ciências da Computação, mas para mim estava muito claro que eu ia trabalhar com tecnologia.

P1 – E você se lembra quando você foi fazer sua matrícula, no seu primeiro dia de aula na USP? Como você se sentiu? Pensando: “É isso, está acontecendo”. 

R – Lembro, Genivaldo. E tem uma história engraçada, porque foi dia 8 de março de 2010 que eu fui fazer minha matrícula. E eu não passei na primeira chamada da USP, porque eu estava tão nervosa no vestibular, que eu passei em todas, assim, tipo: primeiro lugar, segundo lugar. Fui muito bem no vestibular. Era uma parada… Eu estudei a vida toda e fazia bem [as] provas, então eu fui bem no vestibular, assim, sabe? E a única… As duas que eu queria: na Unicamp, eu não passei, e na USP, eu passei na terceira chamada. Tive um colapso nervoso na hora da prova e, tipo, não fui bem. E aí passei só na terceira chamada. Então, eu estava fazendo Ufscar, estava em outro lugar já, matriculada, e eu lembro até hoje que tocou meu telefone e minha mãe falou assim: “Filha, tô indo te buscar. Saiu seu nome na lista da USP”. E eu lembro que eu falei assim: “Mãe, mas eu tô gostando da Ufscar. Eu quero ficar, eu acho. Como assim está vindo me buscar?”. E ela: “Não, não tem opção. Você vai voltar”. E eu lembro que na época eu fiquei meio: “Não, como assim? Tá… Não, mas eu estava gostando! E os meus amigos?”. Então, eu já tinha feito a matrícula na Ufscar e tinha começado essa vida, sabe? Estava morando sozinha, tinha os meus amigos. Então, no fundo, o plano tinha dado certo, sabe? Mas aí minha mãe me ligou e falou assim: “Você passou na USP, você vai voltar”. E eu: “Ah, então tá. Então beleza, vou voltar”. E eu lembro que, nesse mesmo dia, no dia 8 de março de 2010, que era Dia da Mulher, eu tive que ir para a USP. E aí eu fui, cheguei na secretaria, fiz a matrícula, meio tipo: “Caraca!”, e tá. Mas, no final das contas, era esse o plano. “Pô, conseguimos. Eu e minha irmã passamos na USP [e] meus pais não vão ter que pagar faculdade, deu certo o plano familiar!” E eu lembro que estava meio emocionada e a moça da secretaria falou assim: “Você sabe que você perdeu três semanas de aula, né? Não sei como você vai passar nas primeiras disciplinas. Se eu fosse você, entrava em sala de aula agora”. E eu lembrei: “Ah, tá bom! Aham!”. E aí: “Em qual sala está a minha turma?” E eu lembro que entrei numa aula de Introdução ao Algoritmo, de um professor mais velho, assim, que estava dando aula bem baixinho, numa penumbra. Eu lembro que eu entrei meio assim, sentei no fundo da sala, fiquei ouvindo-o falar e não entendi nada. Nada. Porque, apesar de sempre ter falado de computação, meu pai ser de computação, eu não aprendi a programar. Eu não fiz técnico. Assim, eu não sabia muito do que era aquilo. Eu já tinha lido livros, principalmente, mas eu não sabia programar. Eu não sabia o que aquilo significava. Eu cheguei e falei assim: “Eu não entendi nada. Nada. Meu Deus, ferrou, não vou conseguir acompanhar”. Eu lembro que caiu uma ficha e isso direcionou toda a minha vida dali pra frente, porque eu pensei assim: “Eu preciso arrumar uma amiga pra me emprestar o caderno. Eu preciso descolar alguém”. E aí, eu fui olhar em volta ali e não tinha nenhuma menina: “Nossa, será que eu tô na sala certa?”, não tinha nenhuma menina. E eu: “Nossa!”. E aí, na minha cabeça, né, cabeça machista estrutural, falei: “Se eu sou a única menina…”. Eu lembro exatamente dessa sensação, de falar assim: “Se eu sou a única menina, eu vou ficar sentada aqui e alguém vai vir falar comigo, né? Os meninos não vão vir falar comigo? Claro que vão!”. E saiu todo o mundo, Genivaldo. O professor saiu e pagou a luz, eu estava no canto da sala, assim, tipo: “Meu Deus! O que eu vou fazer com isso? Tipo, eu não entendi nada, eu não tenho amiga… Eu vou desistir!”. E eu lembro que eu saí chorando da sala, tipo: “A outra (Ufscar) era melhor, estava com mais amigos [e] entendendo tudo”. Saí, assim, arrasada. Cheguei em casa e falei: “Mãe, eu acho que eu tenho que voltar, acho que foi um erro. Não, não vai dar, eu não estou entendendo nada”. E eu lembro que minha mãe falou assim: “Filha, é o seu primeiro dia. Você passou, tipo, uma aula da faculdade. Calma. Faz… Vai uma semana inteira e a gente vai sentar pra conversar no final da semana. Se você quiser ir embora, eu vou te apoiar. Está tudo bem, calma. Mas não dá pra você achar que a regra é um dia”. E eu: “Ah, não, está bom. Então está. Vou [nas aulas por] uma semana. Já destruí minha vida, né? - já estava [como] aquelas [pessoas] ‘dramáticas’ - Não, já me ferrei, vou ter que estudar um ano pra passar no vestibular e tal”. E aí eu lembro, Genivaldo, do ato de eu sentar debaixo… O computador, em casa, ficava embaixo da escada. Era uma escada caracol, assim e tinha um computador, "desktop" (computador de mesa), que era do meu pai. E aí eu sentei no computador e eu lembro que eu parei e digitei no Google: “Mulheres na computação”. E aí veio, assim, um mundo se abriu na minha frente, porque eu nunca tinha questionado o fato de ser mulher e querer ir para a Engenharia, de querer ir pra Tecnologia, mas quando eu digitei “Mulheres na computação” no Google, quase não veio coisa em português. Muita coisa em inglês falando o quanto era importante diversidade na tecnologia, o quanto a gente tinha números muito baixos de mulheres criando tecnologia, o quanto era importante a gente ter representatividade. E aí, eu, tipo: “Então, calma! Não é só comigo. Isso não é um problema só meu. Isso… Calma, tem mais coisa pra acontecer aqui!”. E aquilo me deu uma força muito maluca, porque eu encontrei uma foto da primeira turma do instituto que eu estava, do IME (Instituto de Matemática e Estatística da USP). E tinha uns 75% de mulheres. E eu falei assim: “Gente, eu tenho que descobrir”, e aquilo me movimentou. Como eu sempre gostei de estudar: “Cara, eu preciso descobrir o que aconteceu! Como é que pode, quarenta anos depois, eu estar sozinha? O que aconteceu? O que esse…”. Aí eu comecei a traduzir os textos e comecei um "blog" chamado “Mulheres na Computação”. E aí, nesse "blog", acho que foi o que me deu clareza e me colocou onde eu tô hoje. Acho que aquele ato foi importante pra mim, porque me colocou na postura que eu tenho hoje, assim: que, se eu não fizesse nada, ninguém ia fazer nada. E numa época em que ninguém falava disso no Brasil. Então, o "blog" não era bom. (risos) Eu não escrevia bem. Ele não era bom, mas ele era o único. Ninguém mais falava disso. E aí as pessoas começaram a falar de diversidade, a receber metas. As empresas gringas começaram a receber metas de fora, pro Brasil. E não tinha ninguém pra falar e eles faziam a mesma coisa que eu, digitavam: “Mulheres na computação”. E eu, com 18 anos, recebia ligação da IBM, do Google, tentando vir pro Brasil, tipo: “Oi, a gente viu seu 'blog'...”. E eu: “Ah, claro, vou tentar entrar em contato”, “Não, a gente pode organizar uma…”. Só que era eu, com dezoito anos, tendo programado um "blog" ruim, assim. Eu meio que me escondia atrás do plural e as pessoas mandavam "e-mail' assim: “Ai, a gente queria convidar as mulheres da computação pra um evento”. E eu: “Claro, vou ver as fichas delas”. Não existia, sabe? Eu comecei a pesquisar e aquilo me deu uma força. Comecei a estudar muito sobre a educação de tecnologia. Enfim, virei empreendedora naquela época. Não tinha esse nome bonito, não era moda, né? Você ia para a balada e falava que você programava, que você sabia fazer aplicativos e "sites", as pessoas corriam de você em 2010, né? Não era descolado ser empreendedor. E aí, depois, eu vivi essa transição, assim, das pessoas fugirem de você na balada e ____ falar: “Ai, eu tenho uma ideia ótima, você não quer ser minha sócia? Você programa, né? Nossa, você é de tecnologia, você vai ser rica”. Eu vivi essa transição do que era "nerd" chato e ser descolada: “Nossa, você sabe programar, você fala sobre isso”. Então, enfim, esses últimos onze anos foram muito malucos no que diz respeito a essa transformação, né, do que é a tecnologia para a sociedade. E foi engraçado estar na dianteira disso, né? Sentando em mesas que eu nem acho que eu mereço. Discutindo com o "board" (conselho de administração) da IBM como que a gente vai trazer diversidade para o time do Brasil, tipo: “Aham”. Eu tinha vinte anos, não sabia o que estava fazendo. Eu tinha lido muito, estudava muito, mas não sabia o que eu estava fazendo. Mas foi muito importante pra mim toda essa construção, sabe, Genivaldo, logo no início da faculdade.

P1 – E você, ao longo da faculdade, além dessa questão de você ter tomado consciência do quão pouco as mulheres estão na área de tecnologia, conseguiu se entender… Você disse que, no início, ficou super perdida. Você conseguiu ir se entendendo, se achando na faculdade?

R – Super, Genivaldo. Assim, durou… Minha mãe brinca, fala: “Graças a Deus que eu pedi uma semana, hein?” Mas podia ter sido menos. Porque, no dia seguinte, já fui diferente, sabe? Não sei se eu fui aberta a isso, mas eu já fui diferente pra faculdade. E aí a faculdade virou minha vida, assim. Eu vivi quatro anos super… Eu morava, praticamente, na faculdade. Então, desde atlética… Comecei a jogar vôlei, basquete, pela faculdade. Eu vivi a USP, assim. Fui do Núcleo de Empreendedorismo da USP, estudava vinte e quatro horas, né? Descobri alguns dos meus melhores amigos. Então, assim, eu me encaixei completamente, sabe? O lance da matemática e do raciocínio lógico, de programar, pra mim tudo fez muito sentido e eu me encontrei relativamente rápido, assim. E aqueles primeiros quatro anos, vai, dos dezoito aos vinte, 21, foram, assim, super intensos. Eu vivi a faculdade, cada segundo da faculdade. Tomava café, almoçava e jantava no bandejão, ia jogar, tomava banho no clube, voltava só pra dormir em casa e estudava muito. E era uma ótima aluna, assim. Me formei no período ideal. Fui fazendo Iniciação Científica, né, porque o plano da Nasa ainda existia nessa época. Então, na minha cabeça, eu tinha que ficar a melhor aluna, pra Nasa me notar. E aí eu tinha que fazer Iniciação Científica com missão espacial, e fui fazer Iniciação Científica no Instituto Nacional de Pesquisa Espacial, no Inpe. Então, eu vivi a faculdade intensamente, Genivaldo. Me encontrei super, assim.

P1 – Você tinha dito que, nesse período, durante a faculdade, você tinha saído de casa. Você tinha ido morar sozinha, né?

R – Na faculdade, não, Genivaldo. Na faculdade, eu morei com meus pais a vida inteira. Aí, quando eu saí da faculdade… Eu saí com vinte anos da faculdade, né, muito cedo. Eu hoje olho e falo: “Meu Deus, muito cedo”. Eu saí da faculdade pra ir morar fora, fui trabalhar, fazer um estágio no Google, na Califórnia, [Estados Unidos]. E aí lá morei sozinha. Quando eu voltei pro Brasil, já não dava mais pra morar com meus pais, Genivaldo. Eu já tinha sentido o gosto da liberdade e era tudo aquilo que eu imaginava, sabe? Meus pais são ótimos, maravilhosos, e eles até hoje devem ter um trauma disso, mas quando eu voltei pro Brasil, eu já sabia o que era, sabe? E aí, muito rápido, eu saí com 21 anos de casa. Voltei pro Brasil e já fui morar sozinha.

P1 – E como surgiu essa oportunidade de trabalhar no Google?

R – Cara, essa história… Eu falo bastante disso, porque nunca me achei capaz, tá, Genivaldo. Apesar de hoje eu ter mais clareza de que era uma boa aluna e tal, eu sempre fui muito… Durante a graduação inteira, minha grande preocupação era ir bem nas disciplinas, era terminar o mestrado e eu ia trabalhar na Nasa [no final]. Então, eu nunca olhei pra outras oportunidades, nunca pensei em fazer estágio fora. Tocou meu telefone. Tocou meu telefone e era o (Bryan Zamp?), lembro até hoje - era um recrutador do Google -, falando assim: “Olha, você foi indicada por um professor da faculdade e a gente queria te trazer pra cá para você viver uma experiência. Você não quer fazer as provas? A gente acompanha seu "blog", gosta muito do seu trabalho no "blog". A gente acha suas notas ótimas e queria te convidar para vir trabalhar aqui”. E eu tipo: “O quê? Não, não vou passar”. Lembro até hoje que eu falei assim pra ele: “Não, eu não sou… Eu não vou passar. Não vou passar”. E ele falou assim: “Bom, então eu vou pedir demissão. Vou pedir demissão, então, Camila”. Falei: “O que você está falando? Você pirou? Quem é você? Isso é um trote!”. Daí ele falou assim: “Camila, você é a melhor aluna da turma. Se você não passar na prova, eu não tenho quem recrutar no Brasil”. E eu lembro que aquilo… “Hã? Espera aí, então quer dizer que talvez eu seja boa?” Sabe, pra mim, foi… E ele falou assim: “Camila, faz a prova. Se inscreve no processo, faz a prova e vê no que vai dar? Se der errado, tudo bem”. E ele é americano, né, o Bryan. E eu lembro até hoje que no meio da briga [do] “Eu não vou passar”, ele: “A gente pode trocar pra inglês?”. E eu: “Gente, isso aqui é muito maluco, assim, tipo, espera aí, eu vou discutir com um recrutador, que eu acho que é mentira, em inglês. E eu ‘male-male’ sei falar inglês. Tipo, fiz inglês a vida toda, mas nunca tinha feito um intercâmbio”. E ele: “Não, a gente pode conversar? Vamos trocar para o inglês?”. E aí eu comecei... Meio que eu caí no processo seletivo e tinham várias etapas, muitas etapas. E eu lembro que não contei pra ninguém. Eu fiquei quieta. Fiz as provas. Porque eu tinha tanta dúvida de que eu ia passar, que eu não contei pra ninguém. Não contei. Então, eu fiz todas as provas e quando tive que contar pros meus pais e pro namorado da época, né, que é ex [namorado], eu tive que contar que eu ia embora, já. Eu, tipo: “Então, pessoal. Eu não contei pra vocês, porque achei que não ia passar. Só que agora, tipo, daqui duas semanas, eu vou embora do Brasil”. E aí, obviamente, isso foi um BO com o namorado da época. Meus pais [estavam] felizes porque, puta oportunidade. Eu lembro até hoje que meu pai falou assim… Minha mãe falou: “Mas isso é bom? Trabalhar no Google é bom?”. E meu pai falou assim: “Mariangela…”. - Eu lembro até hoje que ele falou assim: “Mariangela…”. - Porque minha mãe falou assim: “O que você vai fazer no Google? Você vai ficar dando as respostas pras pessoas? O que é que você vai fazer?”. E aí eu lembro que tipo: “Mano, como é que eu vou explicar, né?”. Porque eu ia programar o Google, o que é programar, enfim, e aí eu lembro até hoje que meu pai falou assim: “Mariangela, imagina - olha a abstração! - que sua filha tivesse feito Engenharia Mecânica. É, tipo, ela ir trabalhar na Ferrari, Mariangela. É bom. Confia em mim que é bom. Deixa ela ir”. E aí eu fui, entrei num avião. Até chegar lá, Genivaldo, eu achei que eles iam me mandar embora. Tipo: “Ah, houve um erro e você não passou, querida". Tipo, "você não merece estar aqui”, sabe? Então, é muito louco como eu já estudava muito sobre Síndrome da Impostora, já tinha estudado muito sobre diversidade, mas eu mesma, quando tive que aplicar pra mim, quase morri. Quase morri. Tipo: “Não vou conseguir, é mentira. Eu vou ser a pior! Eu sou um fracasso!”. E aí, pra mim, foi muito importante do ponto de vista pessoal. Sou extremamente grata a essa oportunidade, porque acho que foi mais do que, obviamente, uma chance, ali, externa, né, pô: passou no processo seletivo do Google, muito cedo eu fui morar fora… Foi pessoal, sabe, Genivaldo? “Cara, talvez eu saiba o que eu esteja falando, sabe? Talvez eu saiba do que tô falando”. E aí eu voltei… Meio que logo de primeira, eu saquei que a minha vida não estava lá, sabe? O que é muito louco, porque eu fui pra lá achando que eu era uma menina que não merecia estar ali. Deu alguns meses, eu, tipo: “Acho que eu quero voltar pro Brasil e abrir uma empresa. Acho que eu preciso abrir uma escola no Brasil”. E aí eu me vi, tipo, voltando pro Brasil, não querendo ficar lá. Minha mãe já tinha acostumado com a ideia: “Não, fica! Vai ser ótimo pra você”. Mas, enfim, eu logo, rápido, vi que eu não queria ficar lá, que eu queria voltar e empreender no Brasil, fazer alguma coisa no Brasil e cuidar da minha família. Acho que todo esse episódio da minha avó paterna… Enfim, eu logo vi que eu queria voltar pro Brasil. E, por coincidência ou não, não sei, quando eu voltei, tinha uma revista que chamava "Info Exame", que era técnica, uma revista de tecnologia. E eu não… Até hoje eu não sei por que, tá? Não sei o porquê. Não sei até hoje. Mas eles me convidaram, me ligaram e falaram: “Ah, a gente ficou sabendo, indicaram você na USP. O blog 'Mulheres na Computação', você está no Google. A gente queria fazer uma matéria especial com você para o Dia das Mulheres. De março, pra edição de março. Você topa?”. Eu, tipo: “Está bom, topo, tudo bem”. Resumo da ópera, Genivaldo: a matéria virou matéria de capa e na capa da revista tinha a minha cara. Com 21 anos. E eu lembro que eu, voltando… Lembro até hoje que eu voltei pro Brasil meio sem saber, eles foram tirar uma foto lá, mas não sabia direito. E lembro que eu voltei pro Brasil meio: “Cara, o que eu vou fazer?”. Arrumei um emprego contra turno, então trabalhava remoto do Brasil pros Estados Unidos, numa época em que não era moda. Então, pra minha mãe, era meio: “Voltou pro Brasil e trabalha de casa? Não sei, isso aí está estranho”. Pros meus pais era meio tipo: “Não sei o que está acontecendo”. E eu lembro até hoje que chegou na porta da minha casa a revista, com a minha cara na revista. E eu lembro: “O quê?”. E era, tipo, foi uma das grandes matérias de diversidade e tecnologia, assim. E estava [escrito] “Tecnologia é coisa de mulher” na capa e a minha cara. E eu, tipo: “O quê?”. Uma foto de corpo inteiro e eu: “O que é isso?”. E aí meio que as pessoas começaram a me reconhecer por isso, assim, sabe? Tipo: “Ah, você é a menina da Info, nossa!”. E aí muita coisa foi acontecendo. Quando eu vi o que o "blog" era pequeno, assim, do ponto de vista, né, de ser muito local, era muito pra faculdade, eu me vi dando palestra, sendo convidada para dar palestra no Brasil. E aí muita coisa aconteceu e eu: “Tá, eu preciso começar a trabalhar com educação”. E aí fui trabalhar na Fiap (Faculdade de Informática e Administração Paulista), que era uma faculdade de tecnologia aqui de São Paulo, e aí a coisa meio que desenrolou. Fiquei lá [por] um tempo, aprendi muito: conheci meu primeiro sócio, abrimos uma empresa. E aí, quando eu vi, 2015, eu era sócia de uma empresa de desenvolvimento, com dezoito funcionários, tendo que pagar folha de pagamento. E, tipo: “O quê?”. Muito cedo, assim, com 23 anos. Então, acho que muita coisa aconteceu muito rápido. Acho que só hoje, com mais maturidade, eu consigo olhar pra trás e falar: “Caraca, meu!”. Talvez tudo isso tenha começado lá no "blog", mas essa passagem pelos Estados Unidos, obviamente, foi um catalisador de tudo isso. Eu ter voltado pro Brasil e ter tido esse reconhecimento nacional, né? Eu lembro até hoje que a jornalista… Eu mandei mensagem pra jornalista e falei: “Espera aí, você não me falou que eu ia ser capa. Como que você põe minha cara na capa da revista? Você é pirada? - Paula Rothman, lembro até hoje. - Você pirou?”. Daí ela: “Não, é porque ficou muito legal. A gente… Eu achei que eu tinha te avisado e não sei quê”. E eu falei: “Não, eu tô muito gata, mas é muito insano você abrir, assim, a porta e ver uma revista com a sua cara, sem você saber”. E eu lembro até hoje que ela falou assim: “Camila, você vai marcar uma geração. Só duas mulheres saíram na capa da Info Exame: a Dilma, com as urnas eletrônicas, e a Sabrina Sato, sendo uma potência do "marketing” digital. Você é a primeira mulher técnica que saiu na capa dessa revista. Você vai marcar uma geração”. E eu, tipo, pra mim, aquilo, Gerivaldo, foi um marco. Foi num intervalo, assim, de seis meses, que eu fui e voltei do Google, saiu a revista, eu comecei a empreender e minha vida virou de ponta cabeça, sabe? Então, acho que só hoje eu tenho maturidade para olhar pra trás e digerir tudo aquilo, sabe? (risos)

P1 – E foi em 2015 também que você conquistou o prêmio, o “Women of Vision”, né? Em 2015.

R – Tudo junto, Genivaldo. Que doideira! Você me lembrou desse, ainda. Que doido!

P1 – E como é que isso aconteceu? Você recebeu um contato? Foi… Que você falou que foi tudo ao mesmo tempo, mais ou menos, né?

R – Foi. Então, na gringa tem uma conferência que chama “Grace Hopper Conference”, que é do instituto mais famoso de diversidade e tecnologia do mundo, que [se] chama Anita Borg Institute. Lá nos Estados Unidos ele era muito forte. Todas as mulheres de TI conheciam o Anita Borg Institute. Todas eram associadas, doavam para o instituto. É muito forte nos Estados Unidos. E essa conferência é uma conferência de vinte mil mulheres. É um evento enorme, que acontece nos Estados Unidos. E eu, desde muito antes, desde o início do "blog", ouvi falar desse evento e era um dos meus sonhos, né? “Cara, um dia eu vou pro Anita Borg. Um dia eu vou pra 'Grace Hopper Conference'”. E aí, lá no Google, tinha um programa de bolsas para você poder ir com tudo pago. E aí eu fui. Tipo: “Mano, como assim?”. Na época, eu estava nos Estados Unidos. Aí eu fui pra "Grace Hopper Conference", e lá eles falaram assim: “Ano que vem vai ter um prêmio”. Isso em 2014… Então, eu fui na edição de 2014 pelo Google, com bolsa [deles], tudo pago. E eu falei: “Cara!”. Aquilo era uma enormidade, assim. Sabe quando você se sente… E é muito louco, porque é uma sensação muito… Você normalmente está sozinha nas salas de aula, nas mesas de programação, nos times. E você sempre começa a achar que você é diferente. Quando você chega na "Grace Hopper Conference", você fala assim: “Cara, eu encontrei meu bando. Essa é minha galera!”. Porque são todas mulheres, meninas, muito parecidas com você, indo ouvir e falar de um jeito parecido com você. E aí você fala: “Cara, essa é minha galera!”. E eu fiquei enlouquecida, foi transformador pra mim, sabe? E eu falei: “Cara, é isso!”. E eles anunciaram um prêmio, eu lembro até hoje, no "keynote" de encerramento eles anunciaram um prêmio, falando que eles iam fazer uma edição de um prêmio que era famoso deles, que [se] chamava “Women of Vision”, que eles fariam uma edição para jovens talentos, porque normalmente eles premiavam executivas de sucesso. E ia ser a primeira vez, em 2015, que eles iam premiar uma "student" (aluna), alguém que fosse abaixo de 25 anos e que estivesse estudando. E aí lembro que eu falei, tipo: “Meu, bom, o ‘não’ eu já tenho, certo?”. Preenchi o cadastro e tinha que mandar um vídeo. Fizemos o vídeo e mandei. Meio, tipo: “Ah, eu tenho aqui uma trajetória”. Eu tinha trazido pro Brasil um evento chamado “Technovation Challenge” e tal. Tinha um "track record" (trajetória), já, mas nada que eu achei que era: “Oh, meu Deus!”. E aí fiz o vídeo e tal, me ligaram [e] falaram: “Ó, você tá entre as finalistas. A gente vai pagar sua viagem com mais dois acompanhantes, pra você vir pra final”. E eu: “Quê? Como assim?”. Aí eu fui com a minha mãe e com a minha madrinha. Fui pra Santa Mônica (Califórnia, Estados Unidos), o prêmio era lá. E sabe quando você, até o finalmente, fala assim: “De novo?”. Eu entrei no avião e falei: “Mentira. Isso aí… Vai chegar lá e minha passagem não existe. Vai chegar lá e o avião vai cair, sei lá. Não é possível que isso está acontecendo comigo”. E aí eu cheguei lá e era voto popular. Então, tinha uma audiência muito grande, muitas mulheres, assim. Mulheres que eu só tinha ouvido falar. Assim, a Marissa Mayer, do Yahoo. Mulheres muito importantes na audiência. E aí a gente tinha que gravar um vídeo em inglês e era voto popular. Então, cada um tinha lá um voto e a galera da audiência ia escolher. E eu lembro até hoje que a gente tinha que fazer um discurso e tal, mas eu lembro que estava até… Eu lembro até hoje, porque eu tinha tanta certeza de que não ia ganhar, porque a outra guria era muito melhor do que eu, e eu ficava me duvidando, né? Enfim. Era uma americana e eu fiquei assim: “Ah, todo o mundo vai votar na americana. Pô, vão votar na brasileira, que nem sabe falar inglês direito? Até parece!”. E eu lembro que tirei o sapato - estava debaixo da mesa - e eu falei: “Mano, que mico, não acredito que eu arrastei minha mãe e minha madrinha”. E do nada, a guria, tipo: “Camila Fernandez, Camila Fernandez Achutti from Brazil!”. E daí eu, tipo,… E eu fui subir no palco, saí andando, dei uns três passos e eu estava sem sapato! Esqueci que eu estava sem. E eu saí, dei uns dois, três passos, tinha muita gente atrás e eu: “Meu Deus, meu sapato!”. Aí voltei, pus o sapato, subi, assim, em discurso e gravou aquilo. Aí a galera gravou aquilo, Genivaldo, e saiu em todas as revistas. Quando eu voltei, estava, tipo, saiu na [Revista] "Exame", na "Veja", saiu nota em tudo que é lugar: “Primeira vez que uma latina ganha um prêmio do ‘Anita Borg Institute’!”. Tinha “release” em todos os lugares. E aí, de novo, foi mais um marco assim. Caraca, tudo no mesmo ano! Tudo de 2014 pra 2015. E aí, eu acho que quando assentou um pouco, eu falei: “Cara, é isso! Eu preciso pensar o que vou fazer”. E aí foi quando a gente decidiu abrir a empresa, começar. Depois veio a [Revista] "Forbes" também… Umas coisas sem noção, assim, tipo: “Ai, a 'Forbes'… A gente acha que você precisa entrar para uma lista”, chamava “Thirty Under Thirty” (“30 Under 30”), de pessoas que estão mudando… Pessoas abaixo de trinta anos que estão mudando suas áreas de trabalho. E aí me elegeram para tecnologia. Só que ninguém me… Eu sou meio burra, assim, pra essas coisas. Não tenho muita dimensão dessas coisas. E aí ela: “Ah, ó, você tem que vir fazer a entrevista e aí a gente já grava”, e eu lembro que eu fui de calça “jeans” rasgada, tênis. Tipo, ela: “Ah, você sabia que você ia tirar foto hoje, né, pra revista?”. E aí, de novo, dá-lhe Camila, com a mesma cara lavada, na meleca na revista, de corpo inteiro, burra, sem se arrumar. Tipo, nunca foi um “big deal” pra mim, eu nunca vi muita dimensão dessas coisas, sabe? Mas hoje, olhando pra trás, eu vejo o tamanho que isso deu, o impacto que isso deu na minha vida, Genivaldo. Eu nunca me validei individualmente. Então, essas validações externas talvez tenham me dado, sei lá, a autoestima que eu precisava, sabe, pra ter coragem de fazer algumas coisas que eu, com certeza, não teria feito.

P2 – Camila, muitas mulheres já apareceram pra você e falaram: “Ó, você é uma inspiração pra mim”? Você tem alguma história assim?

R – Tenho, Grazi. Tenho! Assim, na época do “blog”, eu recebia muito “e-mail”, tipo, pedindo endereço pra mandar convite de formatura: “Você foi minha melhor amiga durante a graduação inteira”. Então, algumas histórias. Mas acho que tem duas muito fortes assim, pra mim. Uma, chegou um presente, me ligaram: “Olha, chegou um presente aqui na casa - eu estava na casa dos meus pais, ainda - dos seus pais e tal”, e uma leitora do blog… Até hoje eu não sei. O símbolo do “blog” era um pinguim, que eu fiz no Paint, porque eu não tinha essas habilidades e eu pus um colar no pinguim, do [sistema operacional] Linux. E aí meio que isso virou o símbolo do "blog". E aí uma guria fez o pinguim em 3D. E falou assim: “Ó, isso aqui vai ser tipo o seu objeto de poder. E esse pinguim ainda vai viajar muito”. Ela [se] chamava Grace, a pinguim. E ela, [a menina], me deu. Chegou na minha casa e ela não assinou, só falou assim: “Cara, toda vez que você duvidar de você, olha para esse pinguim, porque você está mudando a vida de muita gente e não sei o quê”. Eu lembro que isso, pra mim, foi muito tipo: “Meu Deus, olha que doido! Uma parada que eu fiz no meu quarto está voltando, sabe, em coisas concretas! Está mudando a vida das pessoas!”. Então, isso, pra mim, foi um marco. Devia ter um, dois anos de “blog”. E o segundo foi de uma guria chamada Soraia, que eu fui dar uma palestra em Natal. Isso, em 2015. E eu lembro que tinha uma guria me esperando no aeroporto, tipo: “Oi, tudo bem? Eu vim te esperar aqui no aeroporto, porque eu queria te mostrar uma coisa”. E eu: "Hã?". E aí ela levou... Ela fazia poesia com código, Grazi. E eram poesias concretas, assim, com linguagem de programação, em várias folhas. E ela falou assim: “Eu queria te mostrar isso, antes de você chegar no evento. Precisava falar com você, eu estava muito ansiosa. E eu queria que você visse. O que você acha?”. Daí eu falei assim: “Cara, isso é lindo! Isso é maravilhoso! A gente tem que… Você tem que começar… Vamos postar no ‘blog’, vamos dar vazão pra esse trabalho. É lindo de morrer, eu amei!”, e tal. E daí, ela falou assim: “Ai, eu sabia que você ia ser a única que ia me apoiar, porque todos os meus professores falam que eu tô destruindo o código, que não é pra isso que código serve”. E aí eu lembro que isso me marcou muito, assim, sabe, Grazi, de ter transformado o “blog” num espaço onde as mulheres sentiam que elas podiam falar da forma que elas quisessem sobre tecnologia [e] programação. E meio que foi aí que o “blog” virou um lance meio colaborativo. E hoje ele está… Ele é menos sobre escrever - faz anos que a gente não publica -, mas ele é sobre uma comunidade, um movimento de mulheres podendo ser quem elas quiserem em tecnologia e não tentando se homogeneizar e parecer com todo o mundo, sabe? Então, essas duas histórias sempre me marcaram muito. E com alguma frequência, assim, eu recebo algumas alunas: “Ai, eu tô aqui porque eu sigo você no Instagram e não sei quê”. Então, acho que essas pequenas demonstrações todo dia vão movendo a gente, mas acho que essas duas são as mais marcantes, assim. E foi muito cedo. Foi muito… Eu era muito jovem, assim, sabe? Então, pra mim, foi: “Nossa, eu preciso continuar”, sabe? Foi um gás pra mim.

P2 – E como é que surgiu essa comunidade [de mulheres no “blog”]?

R – Ela foi... O “blog” foi meio que criando novas caras, sabe, Grazi? Antes, só eu escrevia e publicava pra outras pessoas verem. Aí as pessoas começaram a se juntar, leitores e leitoras regulares. E aí, elas mandavam textos e a coisa foi meio que diluindo, até o momento em que a gente entendeu que era uma rede, que a gente se apoiava, se convidava [e] se ajudava. E hoje, debaixo da Mastertech, né, da escola, a gente tem o Nísia (rede de pessoas) e trabalha muito com fomento, com educação de meninas. É menos sobre produção de conteúdo, sabe? Acho que “blogs” também passaram por uma revolução aí. A gente usa bem mais redes sociais hoje, então paramos de escrever no “blog”. E hoje a gente é mais sobre uma comunidade, sobre tentar dar vazão pra voz dessas mulheres, tentar fomentar o interesse das meninas em Stem (conhecimentos de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática unidos para um desafio proposto), do que qualquer outra coisa, sabe? Acho que foi uma renovação. O “blog” foi se renovando, até virar uma comunidade.

P1 – Camila, como surgiu a ideia de você criar a Mastertech?

R – A gente tinha uma “software house”; eu, a gente fazia “software”, ganhava dinheiro com isso. E aí a gente começou a perceber que a gente deveria criar uma… Eu sempre quis ter uma escola. Então, a gente precisava criar uma estratégia de longo-prazo e que fosse mais enxuta do que a média. Foi assim que surgiu o primeiro curso, chamado “Imersão em Tecnologias Emergentes”, da Mastertech. Só que ele era um projeto da “software house”: [se] chamava “Ponte Vinte e Um”, na época. E aí a gente fez um primeiro curso que chamava “Mastertech”. E olha que doido, né, eu sempre tive muita clareza que um dia eu ia ter uma escola. E aí o jornal da TV Globo veio fazer uma matéria com a gente, na segunda semana do curso. E eles colocaram a gente como o primeiro “boot camp” do Brasil. “Boot camp” era um termo, né, que a gente nem tinha se ligado, mas que, na gringa, estava fazendo sucesso: eram cursos rápidos, de dias inteiros, onde você aprendia alguma coisa técnica, né, principalmente programação. E eles deram o nome de “boot camp” pra isso. E eles: “Ó, vocês são o primeiro ‘boot camp’ do Brasil”. E a gente: “Claro que é! Aham, super! Isso!” (sarcasmo), “Qual é o nome da escola?”. A gente: “Mastertech”, "Qual é a próxima turma? E o ‘site’?”. E a gente: “Hahaha, claro, o ‘site’, óbvio! Amanhã a gente manda tudo por ‘e-mail’ pra vocês”. (sarcasmo) E eu lembro que a gente meio que virou a noite fazendo, porque a gente não achou que o curso e a mídia iam vir tão rápido, né? Quando a gente viu, a Mastertech estava no jornal da TV Globo; e aí começou. E aí, a gente começou a investir, começou a perceber que a gente queria parar de fazer “software” terceirizado, de ser consultoria, e queria ‘fincar o pé’ na escola. E essa foi a transição. Então, de 2016 até 2018, a gente foi fazendo essa transição, e a partir de 2018 a gente virou só escola. Acho que foi uma ideia que era muito óbvia pra mim, que sempre fez parte do meu cotidiano [e], ao mesmo tempo, ela não foi extremamente planejada, sabe? Ela aconteceu. Quando a gente viu, começou a ter mídia [e] respaldo das empresas. E hoje a gente atende muitas empresas - principalmente empresas -, fazendo formações técnicas. E a gente conseguiu virar só escola, né? Abriu mão do pilar de consultoria e virou uma escola.

P1 – E nesse meio tempo, você foi, vocês foram criando uma escola. E quais você acha que são os pontos altos dessa trajetória da Mastertech, pra cá? Coisas que marcaram você.

R – Acho que a gente… 'Show'! Acho que na trajetória da Mastertech, Genivaldo, tem dois momentos importantes: o primeiro foi quando a gente saiu de um espaço de “coworking” e teve as nossas salas de aula. Pra mim, isso foi um marco, tipo: “A Mastertech tem casa, agora. Tem sala de aula, cadeira [e] ativo”. (risos) Isso foi em 2018, também. Então, acho que o ano de 2018 foi um marco: quando a gente decidiu que ia ser escola, que ia ter sala de aula, formar professor e ter aluno. Isso foi um marco. E, em 2019, a gente foi eleita a melhor “startup” de educação do Brasil. E também foi um marco, assim. Tipo, pra gente foi uma chancela externa, de novo. Mas acho que mais do que isso, foi talvez a chancela que faltava para a gente poder entrar nas empresas, sabe? Até 2019, a gente era muito “B2C” (“Business to Consumer”), [empresa que faz contato direto com o consumidor], que a gente fala. Então, era para alunos [e] pessoas físicas. E em 2019 pra frente, a gente ‘fincou o pé’ com as empresas. Então, a gente passou a atender grandes corporações, fazendo grandes movimentos de formação, sabe? Formando duzentas, trezentas pessoas, mil pessoas por empresa. Aí eu acho que foi um grande marco pra gente, até agora. E acho que está por vir mais um, que são as nossas plataformas. A gente está lançando plataformas que, de alguma forma, prometem dar uma escala pra Mastertech, que hoje ainda é muito síncrona, né? Então, a gente ainda dá muita aula, mas aulas por Zoom (programa de reuniões virtuais), aulas direto pra grupos de pessoas. E a gente está investindo bastante agora em conseguir desconstruir um pouco essa metodologia, pra gente conseguir ocupar todos esses espaços. Então, acho que vai vir um próximo grande marco aí no final de 2021, início de 2022. 

P1 – Como a pandemia afetou o trabalho de vocês na Mastertech?

R – Eu acho que afetou, Genivaldo… Tá, foi um baque pra gente, óbvio, mas a gente já era muito digital. Então, pra gente, o que afetou foi o fato das pessoas… Na hora da crise, a primeira verba que foi cortada foi desenvolvimento pessoal, investir na própria carreira e na carreira dos colaboradores. Então, isso, obviamente, prejudicou o nosso faturamento e um pouco a nossa operação. Mas do ponto de vista de conseguir entregar o nosso trabalho, acho que a gente descobriu formas melhores. Acho que a gente sai mais forte, sabe? O fato da gente conseguir criar presença através dessa conexão: "Como é que eu crio experiências engajadoras?". Então, acho que, no final, o que sobrou da pandemia foi uma metodologia, uma prática pedagógica, um envolvimento ainda maior. Então, no negativo, o faturamento. A gente esperava crescer mais, a gente esperava, né, ter conseguido avançar muito mais em alguns assuntos, o que foi inviável. Mas a gente, ao mesmo tempo, conseguiu melhorar muito a nossa prática didática, a nossa cultura. Então, acho que no fundo a gente saiu, vai, meio que no zero a zero. Com prós e contras. A gente conseguiu equilibrar, Genivaldo.

P1 – Nessas formações que vocês fazem, ligadas às empresas, você tem notado um aumento de mulheres, da presença de mulheres na área de tecnologia? Ou você acha que isso ainda está muito tímido? 

R – Muito tímido, Genivaldo. A presença de mulheres, hoje, em tecnologia, é qualitativa e não quantitativa, né? O que isso quer dizer? Do ponto de vista de argumentos qualitativos para isso acontecer, acho que a gente amadureceu muito, tá? As empresas já pautam e falam disso. As mulheres têm voz. Em grande parte, a gente já sabe reconhecer quando a gente está sendo passada pra trás. As empresas [também] têm feito programas exclusivos. Então, qualitativamente melhorou muito, certo? Muito. Mas quantitativamente, a gente ainda tem uma baixíssima participação feminina. Quando eu olho, assim, por exemplo, quando vou olhar… Eu entrei sozinha, em 2010, na USP, em Ciências da Computação. Aí você fala assim: “Ah, em 2019 deve ter se formado uma galera!”. Uma menina, de novo. Então, do ponto de vista de quantidade, a gente não conseguiu avançar. A gente tem visto programas grandes, né: o {reprograma}, a própria Mastertech, PrograMaria, a Rede Mulher Empreendedora. Tem uma série de iniciativas que vêm fomentando, mas ainda é muito tímido, Genivaldo. Muito tímido. Então, acho que a gente está bem nessa transição, onde a gente entendeu o porquê que eu preciso lutar por isso. E por que isso é uma questão econômica, tá, por que eu preciso lutar por diversidade. Ainda assim, a gente tem uma dificuldade grande de conseguir ter volume. Eu ainda tenho dez, quinze, vinte por cento de mulheres nos cursos de Stem, que a gente chama, né, que é ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Ainda é muito baixo esse número, para eu conseguir nutrir "pipeline" e ter grandes exemplos, né, brasileiros, de grandes executivas e líderes de tecnologia. Então, ainda é muito tímido.

P1 – Você acha que isso se deve à questão desse estereótipo, de que o lugar da tecnologia ainda é um lugar masculino? Você acha que as mulheres talvez não se sintam confortáveis para entrar nesse mercado?

R – Eu acho que tem uma construção de gênero forte, Genivaldo. A gente, por muito tempo, né, arraigou o estereótipo, tanto de tecnologia, quanto o estereótipo do que é ser mulher, né? E aí eles não conversam muito. Então, quando você fala que você vai criar aplicativos e que vai ter que empreender, trabalhar muito, que você vai ter que ralar e vai viver pra isso, pra conseguir tirar o negócio do papel, isso não é aderente com o que se espera socialmente de uma mulher. Tomar risco, viajar muito. O estereótipo da construção de gênero brasileira de uma mulher não é isso, né? E, ao mesmo tempo, tecnologia também não é. Quando você fala: “Pensa alguém que trabalha com tecnologia”, você pensa numa pessoa muito inteligente, que manja muito de matemática, talvez seja antissocial, que não goste de pessoas. Então, esses dois estereótipos são muito fortes, ainda, muito arraigados na sociedade. O que a gente vem tentando fazer é desconstruir, né? O feminismo tentando desconstruir o que é esse “ser mulher” no Brasil. A gente tentando desconstruir o que é esse “fazer tecnologia”, a importância de todo o mundo ser um profissional de tecnologia. Hoje a gente tem falado muito de “pensamento computacional”. A própria base nacional comum, curricular, fala da importância de qualquer indivíduo ter pensamento computacional. De qualquer indivíduo saber pensar como uma máquina. Conseguir escrever programas, conseguir ser relevante pro mundo digital. Então, eu acho que esses dois estereótipos não se permitem conviver. No entanto, eu, Camila, sou meio “Poliana” (positiva) e acredito que a gente está numa trajetória boa. Se a gente continuar enfatizando essa desconstrução, tanto do que é ser mulher, tanto do que é fazer tecnologia, eu acho que no médio prazo… No curto prazo, não, mas no médio prazo a gente vai conseguir ter resultados qualitativos muito bons.

P1 – Passando um pouco… Voltando um pouco para as suas questões pessoais, como a pandemia afetou você pessoalmente?

R – Olha, assim, pra mim foi… Eu sou muito grata por não ter perdido ninguém. Minha família ficou sã e salva, eu pude trabalhar de casa, tendo... Eu até fiz um… Logo no início da pandemia, pra mim foi muito forte as pessoas… Muitos colegas empreendedores e empreendedoras vieram para mim e falaram: “Nossa, o trabalho remoto é maravilhoso! O trabalho remoto é a salvação. Eu vou economizar!”. E eu lembro até hoje que eu fiz um "post" no LinkedIn, que muita gente veio falar, que foi sobre, tipo: cara, o trabalho remoto é confortável para uma parcela da população. Eu, que tenho um quarto dedicado pra isso, uma internet dedicada pra isso, que tenho vários dispositivos, telas separadas, pra mim é superconfortável trabalhar de casa. Mas é muito míope, né, eu fazer pela minha experiência pessoal, neutralizar a das outras pessoas. Não é fácil trabalhar de casa, né? Então, acho que, pra mim, eu fiquei mais consciente do meu papel social como empreendedora, durante a pandemia. Acho que esse foi o grande baque, assim, olhando pra trás. Acho que eu me responsabilizei um pouco mais politicamente enquanto figura pública, de ter que me posicionar, tomar partido, né, e reconhecer o empreender enquanto ato político. Então, acho que durante a pandemia isso ficou muito claro. Acho que sempre foi claro pra mim, mas durante a pandemia eu tive que exercer isso. Tive que ser intencional, sabe? Isso ficou muito claro pra mim. Acho que essa foi a grande transformação, tirando uns quilinhos a mais, né? Depois não entrei em nenhuma calça "jeans", só andava de pijama. Acho que a minha consciência política se criou. A Camila consciente do papel de empreendedora, que talvez ela exerça pro resto da vida, ficou muito consciente.

P1 – E no meio dessa correria toda, de uma série de coisas que foram acontecendo - como você disse, foi tudo muito rápido -, você se casou. Onde que você arranjou tempo pra isso? (risos) Mas, enfim, queria que você comentasse um pouco. 

R – Boa. Eu casei com um dos meus primeiros namorados da faculdade. Na verdade, eu o namorei na faculdade e ele não me namorava ainda. Sabe aquela relação, tipo, eu era a caloura e ele… Eu o namorava, já, mas ele não me namorava, não. Enfim, a gente, na época da faculdade, teve um relacionamento e meio que isso ficou guardado, assim, sabe? Porque durante a faculdade, enfim, um monte de coisa aconteceu, ele foi fazer intercâmbio, eu fui viajar, fui morar fora. Eu tinha muito essa necessidade de me encontrar independente, enfim. Namorei outras pessoas, acho que cada um foi descobrir o mundo, sabe, mas aquilo sempre esteve em algum lugar. E aí, quando eu voltei pro Brasil… A viagem pros Estados Unidos, a gente acabou voltando a conversar por causa da minha ida pros Estados Unidos. E aí depois eu voltei pro Brasil e a gente já voltou, assim, tipo: “Ah, é isso. Então a gente vai ficar junto pra sempre. E agora voltamos”. E, obviamente, não foi tão tranquilo assim, né, porque eu queria muito empreender e sempre viajei muito. Então, não foi muito fácil. Eu morava sozinha, então eu tinha a minha vida. Então, o início foi tortuoso, mas desde 2014… A gente se conheceu em 2011, mas desde 2014 a gente voltou e aí já logo, muito rápido - pra variar, né -, foi morar junto. Já casamos, tudo junto. Enfim, a gente é 'parecidão', assim, os dois tranquilos e acho que, enfim: é fácil falar quando você está casada, mas acho que a gente se encontrou enquanto alma, sabe? De os dois permitirem a individualidade, reconhecerem a necessidade, valorizarem o trabalho e a vida individual de cada um. Então, tem dado certo. Faz sete anos que a gente está junto em definitivo, agora, né? Mas faz pelo menos mais uns dez que a gente se conhece. E, enfim, desde 2016 a gente já está junto, casado e morando junto.

P1 – E qual o nome dele?

R – Marcos. E a mãe dele… Aliás, esse é um fato importante - Dona Mônica, se estiver ouvindo -: a mãe dele era programadora de Cobol, você acredita? Então, é um homem de mulheres na tecnologia. Eu falo pra ele que me achou por causa da mãe dele, eu acho. Mas é muita coincidência minha sogra ser programadora de Cobol! Eu acho isso maravilhoso. Amo essa história! Então, antes de saber que eu existi na vida dela, ela já era uma mulher poderosa de tecnologia. (risos)  

P1 – Bom, Camila, então voltando pra parte final da sua entrevista: o que você acha mais importante pra você, hoje, na sua vida?

R – Acho que, de uns tempos pra cá, tempo de qualidade, em que eu consiga de fato estar presente, sabe? Eu, nos últimos anos, acho que por vezes acabei querendo viver muitas coisas ao mesmo tempo, achando que esse estereótipo de produtividade era ser jovem, fazer um milhão de coisas e estar sempre ocupada. Eu não só naturalizei, como endeusei esse modelo de vida, sabe? Da empreendedora ocupada, bem-sucedida, que não tem tempo pra nada e que fica sem responder as pessoas? Então, acho que hoje, se você fizesse essa pergunta, sei lá, há um ano, dois, talvez ela fosse diferente. Mas acho que hoje eu tenho valorizado mais tempo de qualidade, poder me dedicar pras coisas que importam. Poder estar com a minha família, com o meu marido, nutrindo relações de fato, sabe, assim? Aproveitando o tempo que eu tenho de vida. Então, acho que, de uns tempos pra cá, eu parei de me vangloriar tanto, sabe? Eu era aquela pessoa que tirava foto três da manhã no escritório e falava assim: “Ai, vamos dizer que foi sorte”. Eu sempre fui essa pessoa que ovacionava esse modelo de produtividade americano, sabe? Eu hoje olho e não sei se é por aí. Acho que a gente se equivocou um pouco nessa criação de uma sociedade do cansaço, sabe? Onde estar cansado, estar atolado é bonito. É bem-sucedido. Não sei se é por aí. Então, hoje eu tenho valorizado muito o meu tempo.

P1 – E, atualmente, quais são seus sonhos?

R – Boa. Eu acho que, pessoalmente… Olha, eu… Se a Camila de vinte anos ouvisse isso, ela ia 'rodar a baiana'. Porque eu tenho, assim, do ponto de vista pessoal - não sei se é uma questão biológica, não sei -, mas eu tenho me imaginado mãe, sabe? Acho que depois de ter estudado muito educação, de ter visto uma criançada, assim, sabe, de ter ensinado muita gente, eu tenho vontade, hoje, de ser mãe. Então, acho que na vida pessoal isso é um sonho que eu ainda gostaria de realizar. Acho que não é a curto prazo, médio prazo, talvez. Mas tenho muita vontade de ser mãe. E do ponto de vista profissional, eu me vejo fazendo a Mastertech não necessariamente escalar, ficando rica, milionária, mas conseguindo atender mais pessoas, sabe? Eu acho que o que a gente criou aqui é muito mágico, a nossa cultura é muito legal, o nosso jeito de ver tecnologia é muito legal e eu queria que tivesse com mais pessoas, sabe? Eu queria que mais pessoas pudessem fazer cursos da Mastertech, que mais pessoas pudessem mudar a vida delas com educação de tecnologia. Então a gente tem investido muito, para poder fazer esse sonho se tornar realidade com as plataformas. Mas eu tenho muita vontade de conseguir chegar em mais pessoas, com um novo jeito de fazer educação de tecnologia, sabe? Fazendo elas se apropriarem disso, fazendo elas aprenderem em todo lugar. Eu queria muito ver um… Viver tempos em que a tecnologia não ameaçasse as pessoas, não fosse mais um parâmetro de desigualdade e sim a grande transformação da vida delas. Eu vi isso acontecer muito, mas acho que ainda é pouco pro que daria pra fazer.

P1 – Tem alguma coisa, alguma pergunta que eu não fiz, alguma coisa que você gostaria de falar?

R – Eu acho que, assim: toda vez que eu me proponho a falar, dar entrevista, contar um pouco de história, eu acho que é muito… Eu sempre me pego num dilema, sabe? Do tipo: quando eu conto a minha história, talvez isso acabe cobrando de outras tantas mulheres que elas consigam, ou que elas persigam um caminho de sucesso. Eu tenho muito medo de impor, sabe, percursos, ou dar receitas mágicas, assim. Acho que talvez, depois de ter lido muitos livros de negócios e ter visto que as receitas mágicas não funcionam, eu tenho muito medo de, às vezes, soar como receita mágica, sabe? De soar meio categórica, meio profeta, assim. Eu tenho medo disso, porque isso é o oposto do que eu gostaria, do que acredito que a gente tem que ter. Ao mesmo tempo, quando a gente vê pessoas que pensam parecido com a gente, isso faz a gente pertencer, né? Então, eu costumo dizer que faço o que faço e que tomo algumas decisões na minha vida porque eu, de fato, acredito que a gente não está nem perto do potencial que a tecnologia daria pra gente de resolver os problemas que a gente deveria estar preocupado, sabe? Cara, tem fome, desgraça, miséria, feminicídio, tem tanto problema, que a tecnologia nem chegou perto de começar a resolver, sabe? Então, não sei, toda vez que eu falo, me pego nesse dilema de: “Será que eu estou conseguindo levar a conversa para esse lado?”. De fazer as pessoas perceberem que é na individualidade delas… Fazer as mulheres, principalmente, perceberem que é na individualidade delas, na vivência delas, que elas vão conseguir fazer um futuro diferente. E que elas não deveriam aceitar esse futuro tecnológico macabro, às vezes sombrio, de que vão roubar meu emprego e que a vida vai ser horrível. E que elas podem vir para esse lado, sabe? Tentar construir um futuro com tecnologia. Parece meio romântico, mas acho que a gente não está nem perto de ter o impacto que a tecnologia pode trazer pra nossa vida, sabe? Apesar dele já ser enorme. Mas, talvez na energia certa, no foco certo, sabe? Como é que a gente pode resolver os grandes problemas do mundo? Pra isso a gente vai precisar ter representatividade, e não uma receita mágica. Porque nunca ninguém fez isso. Então, acho que não é necessariamente uma pergunta, mas é uma preocupação que nos últimos anos, vem andando comigo, assim: como é que a gente faz as pessoas não acharem que é uma receita e sim elas se apropriarem dessa conversa tecnológica, desse conhecimento tecnológico? Para que elas possam ajudar a construir esse mundo melhor, desejável, que não sofre dessas mazelas grandes, sabe? Como fome, feminicídio, violência, racismo, preconceito. Então, enfim, espero que eu não tenha soado profética, [com] receita mágica e que a gente tenha conseguido inspirar um pouco representação, coragem para ocupar esse espaço e criar e resolver os próprios problemas, que são os problemas de muitas mulheres que talvez não estejam sendo representadas, que são os problemas de muitas minorias que não estão sendo representadas. Então, espero que eu não tenha caído na própria armadilha mental que eu mesma crio pra mim. (risos)

P1 – E a última pergunta: o que você achou, como foi pra você contar sua história pra gente?

R – Eu lembro até hoje que eu fiz uma sessão de "coach" nos Estados Unidos quando eu estava voltando, e lembro que falei assim: “Ah, eu desisti de ficar nos Estados Unidos”. E eu lembro que ela (a "coach") falou assim pra mim: “Camila, a forma como você conta sua própria história influencia que história é essa, assim”. Sabe, pra mim aquilo foi um… Eu salvei essa frase, sabe? E acho que hoje, aqui, a gente conseguiu dar outras… Tipo: transformar essa história, sabe? Porque as palavras importam, as perguntas importam. A sequência das perguntas, o fato da gente misturar profissional e pessoal e não fazer uma grande distinção disso, faz com que a gente tenha, talvez, algumas realizações de o quanto alguns fatos importaram pros outros, né? Faz a gente entender a nossa história. Então, toda vez que tem alguém experiente aí do outro lado, conversando, trocando, né, pra mim é sempre uma experiência legal. Então foi, acho, construir mais um pouquinho da minha história, que já tinha sido escrita, mas ressignifica, né, quando você conta.

P1 – Então agradeço muito pela entrevista, Camila, em nome do Museu da Pessoa e também do projeto do Mercado Livre. Foi ótima a entrevista, muitíssimo obrigado.

R – Obrigada vocês, gente, pela oportunidade.


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