Busca avançada



Criar

História

Processo administrativo por trás da celulose

História de: João Felipe Carsalade
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Infância. Intercâmbio. Faculdade de Administração. Oportunidade na Aracruz. Instalação da fábrica A. Assumindo a logística. Operacional da fábrica A. Área comercial. Departamento de comunicação. Clientes no Brasil e no mundo. Construção da fábrica B. Base florestal. Ampliação da celulose. Madeira lyptus. Pista de pouso da Aracruz. Projeto Veracel. Globalização. Mercado Chinês.

Tags

História completa

P/1 - Maria Aparecida Mota

P/2 - Edvaldo Melo

R - João Felipe Carsalade



P/1 – Boa tarde João Felipe, muito obrigada por estar aqui dando essa entrevista pro projeto Memória Aracruz. Eu quero começar primeiro com um bloco de questões sobre você, seus pais e seus avós. Então, primeira pergunta: Nome completo, local e data de nascimento.

 

R – João Felipe Carsalade, nascido no Rio de Janeiro, no dia 14 de setembro de 1954. 

 

P/1 – Nome dos seus pais e o nome dos seus avós?

 

R – Bom, pelo lado paterno, meu avô chamava-se Bráulio Carsalade e minha avó Maria Auxiliadora Carsalade. Pelo lado materno, Mario Mendonça Carneiro da Cunha e Carmem Mendonça. 

 

P/1 – E qual era a atividade profissional dos seus pais e seus avós?

 

R – Meu pai é advogado e um dos sócios de uma empresa de administração de imóveis, imobiliária, até bastante conhecida no Rio de Janeiro. Meus avós por parte de pai, era... Trabalhava em empresa de mineração, quer dizer, mina de Morro Velho. Foi presidente da mina de Morro Velho durante muitos anos. Por parte de mãe, era comerciante e dono de banco, dono de empresas de automóveis, e distribuidora de peças, ou seja, era um empresário bastante conhecido na época, no Rio de Janeiro.

 

P/1 – Qual é a origem do nome Carsalade?

 

R – Francesa, da parte do sul da França. Meu avô paterno veio pro Brasil muito pequeno, na região de... Hoje é conhecida [como] Carcassonne - a região mais conhecida. Ele é de Carcassonne. 

 

P/1 – Tem irmãos?

 

R – Bastante, faço parte de uma família de... São uns 10 irmãos entre homens e mulheres, todos vivos. Eu sou o terceiro de cima pra baixo, são sete homens e três mulheres.

 

P/1 – Na sua infância, ela foi passada onde? A gente queria que você falasse um pouco da rua e do bairro onde você morava quando era pequeno.

 

R – Bom, eu nasci, como eu te falei, no Rio de Janeiro. Até os 15 anos, morei no Leblon. Minha vida toda foi desenvolvida no Leblon. Eu diria que meus avós maternos foram os primeiros, acho, a se mudar pro Leblon, na época que ainda a praça Antero de Quental era um areal. Quer dizer, eu nasci lá, morei minha vida inteira, estudei lá, e aí, aos 15 anos, foi a primeira vez que eu saí do país e fui estudar fora, nos Estados Unidos, onde eu fiquei dois anos - porque eu fiz o curso colegial na época, o "high school". 

 

P/1 – Mas eu queria que você falasse um pouco desse lugar onde você morava no Leblon. Sua família era grande, você tinha tantos irmãos, como é que era esse cotidiano?

 

R – Como toda família grande, é muito interessante e disputado. Quer dizer, a gente veio... A diferença de idade entre nós, eu diria que hoje o mais velho tem 51 anos de idade e o mais novo 35, então uma diferença grande. Nós morávamos num apartamento na Ataulfo de Paiva, um apartamento para os moldes de hoje, bastante grande. Não podia ser diferente. E, foi bastante, que eu diria que foi bastante intensa numa época do Rio de Janeiro, que eu acho que ninguém vai mais ter, quer dizer, era época que a gente podia andar a noite, de dia, de madrugada sem o menor problema. Morava a um quarteirão da praia. As duas babás que tinham em casa, os maridos eram salva vidas, então a gente vivia naquele posto 10, ali no Leblon, que hoje é Carlos Góes. Hoje eu acho que não é mais posto 10. Então foi, quer dizer, o Leblon, pra a gente, terminava na Antero de Quental, que não é verdade hoje. Então foi bastante interessante, quer dizer, e de novo, com muitos irmãos, a coisa é sempre agitada. Fomos uma família, quer dizer, meus irmãos todos, muito ligados ao esporte, então, desde muito cedo, nós fazíamos natação no Flamengo e aquilo ali foi quase um modo de vida durante muito tempo. Então não tinha tempo. Quer dizer, com uma família grande dessa, não tinha muito tempo pra pensar. Logo, no início, eu estudei numa escola internacional, que hoje em dia não existe mais - era uma escola pra filhos de diplomata no Rio de Janeiro, chamava-se Melson School, ali na... Hoje chama Vinicius de Moraes, mas na Prudente Moraes, esquina com a Monte Negro, e eu fiquei lá até o terceiro ano primário... O quarto ano primário. Depois fui estudar no Colégio Santo Agostinho, no Leblon, e ali fiz até o primeiro colegial. Aí, depois, foi quando eu fui pros Estados Unidos. 

 

P/1 – Como é que foi essa decisão de fazer "high school" nos Estados Unidos.

 

R – Bom, a gente, naquela época, não decidia, porque decidiam por nós. Quer dizer, surgiu uma oportunidade, minha família conhecia algumas pessoas. Quer dizer, meu irmão mais velho já tinha ido passar uma temporada lá, e surgiu essa oportunidade e eu fui morar numa família que eu nunca tinha visto na minha vida, em Ohio; (Tliro?), Ohio. E no início, é lógico, você tirar de uma família grande no Rio de Janeiro e sair assim, quer dizer, foi a primeira vez que eu sai sozinho. Quer dizer, naquela época, a comunicação não era uma coisa tão disponível como você tem hoje. Então, eu saí com 15 anos de idade e foi um choque no início. Depois foi acostumando, quer dizer, foi uma experiência, pra mim, fundamental. Muda, e principalmente, se comparar com as pessoas, com seus amigos na época, quer dizer, isso não era uma coisa tão comum. E isso então deu uma outra perspectiva - eu acho que isso me deu uma outra perspectiva -, não só da questão da língua, mas de uma outra visão. 

 

P/1 – Ficou quanto tempo lá?

 

R – Eu fiquei quase um ano e meio, foi, mais ou menos. E até uma das coisas marcantes na época é que... Hoje em dia a gente não pensa mais nisso, mas naquela época... Quer dizer, eu saí daqui em janeiro, e o primeiro contato que eu tive com a minha família, meus pais aqui, por telefone, foi no meu primeiro aniversário em setembro. Então, hoje em dia, todo mundo tem celular, fala-se em e-mails, essa coisa toda. Então, realmente, naquela época, era uma coisa, até uma coisa bastante incomum. Os telefones [eram] caros, ligações difíceis e tal. Não que eu seja tão velho assim também, mas.... Mas eu acho que foi uma experiência dura no início, mas bastante valiosa, tanto é que eu acho que isso serviu até de modelo, em termos de criar uma certa independência. E no primeiro momento que eu tive oportunidade, meus filhos foram também para um programa desse. 

 

P/1 – E a; desculpe. E havia na sua família algum incentivo pra que você seguisse alguma determinada profissão?

 

R – Não, absolutamente, e até fica difícil. Quer dizer, numa família de dez, você já imaginou? E direcionar todo mundo pra um lado, fica meio complicado. Quer dizer, em absoluto, pelo contrário, meu pai era uma pessoa que é extremamente discreta e jamais tentou influenciar. A única coisa que realmente - isso são coisas que a gente não esquece, nunca - apesar de a gente ter uma certa condição social boa, ele disse que o único, a única coisa que a gente sempre teve e nunca se criou dificuldade foi por educação. Quer dizer, foi uma coisa que ele dizia que isso aí ninguém tira de você. Fora isso, não tínhamos nenhuma moleza não, era... Eu comecei, quer dizer, logo que eu voltei dos Estados Unidos, eu trabalhava e nunca deixei de trabalhar, nunca questionou e perguntou o porquê, e pelo contrário, aceitava as coisas como vinham e pronto. Tanto é que a... Hoje somos; dos 10, somos todos formados, alguns nos Estados Unidos. Cada um com sua vida e totalmente independentes do negócio dele em si. Quer dizer, eu acho que ele teve; dos 10, um irmão meu foi trabalhar com ele.

 

P/1 – E a decisão da faculdade, a área, como você escolheu e onde é que você fez?

 

R – Eu; na época, era muito mais fácil você dizer o que você não queria do que você queria, era mais fácil saber isso. E eu tinha certeza, quer dizer, as minhas aptidões não estavam ligadas às áreas exatas, ou a medicina, esse tipo de coisa. E, nessa época, ainda era relativamente incipiente, mas já se existia os cursos de administração de empresa e eu já tinha um interesse - até pelo fato de ter estado fora -, algum interesse na área internacional, que... Quer dizer, sem dúvida era uma coisa que poderia ter um espaço em termos de futuro. Associado a isso, eu voltei, quer dizer, como todo mundo termina os estudos nos Estados Unidos, você termina no meio do ano. Quando eu voltei, tive a oportunidade de fazer um vestibular aqui na Universidade Candido Mendes - na época, chamava-se Faculdade; Universidade do Rio de Janeiro, alguma coisa assim, mas na Candido Mendes. E eu fiz o vestibular e passei. Acabei que eu entrei nessa atividade, nesse curso, aí fui levando, fui... Mas eu acho que, no final, apesar da gente; na época, todo mundo fazia... Aquela preocupação de toda mãe de fazer teste vocacional, e tinha... Eu me lembro que o famoso teste vocacional na PUC, que você ia lá, fazia aquele negócio, fazia os desenhos e tal. Eu nunca acreditei muito naquilo, mas o fato é que um dos caminhos que se deu foram esse e acabou dando certo.

 

P/1 – Fala um pouquinho sobre esse tempo da faculdade. Seus colegas, quais eram as atividades de lazer, se elas haviam.

 

R – Não, tinha. Era um... Foi um tempo bastante interessante, porque eu tinha um grupo grande. Quer dizer, fora os amigos que a gente tinha dentro da universidade, da faculdade, a gente tinha os amigos que, de fora, quer dizer, da vida inteira. Então foi uma época boa, bastante movimentada e, ao mesmo tempo, nesse período, eu já comecei a trabalhar. Eu fazia estágio lá na empresa do meu pai, nos primeiros dois anos, depois... E aí, na segunda metade, quer dizer, eu estava faltando um ano pra me formar; através de uns contatos com um tio meu, eu acabei conseguindo um estágio na KM, no grupo do Antunes, e fiquei fazendo um estágio. E surgiu uma oportunidade de fazer um estágio de três ou quatro meses no Amapá, onde era a mineração de manganês da KM. E aí fui, fiquei três meses. Então esse foi um ano meio conturbado, complicado, porque eu tinha prova de faculdade, essa coisa toda. Mas foi, quer dizer, um período muito interessante. Eu acho que todo mundo aproveita e eu aproveitei bastante também, apesar de a realidade nossa aqui foi um pouco diferente porque eu estava trabalhando realmente. E sem querer, existia sempre uma vontade de meu pai que a gente, um de nós fosse tocar o negócio que era dele. Meu irmão mais velho não se interessou, quer dizer, apesar de ter se formado em economia, acabou indo pra uma outra área, uma outra coisa - não se interessou. E eu fazia esse estágio lá e trabalhava. Quer dizer, no fundo, pra mim não era muito estágio. E nesse processo; e aí que entra um pouco, vai começar a entrar um pouco a história da Aracruz. Quer dizer, nesse processo de ida desse período na KM, no Amapá, eu conheci várias pessoas que trabalhavam lá, tal, e mantive contato com algumas durante o período. Terminei o estágio, voltei pra empresa do meu pai e uns três ou quatro meses depois, quer dizer, uma dessas pessoas que eu conheci lá, me ligou dizendo que estava vindo pro Rio de Janeiro, que ele ia me encontrar e tal, pra a gente conversar. Aí fomos nos encontrar, ele me contou que estava começando a trabalhar numa empresa que estava sendo formada e tal e... Ainda muito nova, uma empresa de celulose. Eu não tinha a menor ideia do que se tratava, e que... Eu falei: “Bom, interessante”. Aí tivemos mais uns dois ou três contatos. Uns três meses depois, ele estava trabalhando, ele me liga e fala: “Olha, eu tenho uma oportunidade aqui e _______ ainda não tinha formado ainda, se você tiver interesse tal, vamos conversar.” E foi como eu vim, quer dizer, sem a menor pretensão, foi como eu entrei em contato com a Aracruz. E, nessa época, era pra trabalhar na área administrativa. Estava na fase inicial do projeto Aracruz, e a gente então, quer dizer, era muito mais na parte [de] suporte administrativo, criar todas as normas administrativas, começar a preparar pra receber os técnicos que vinham de fora e tal, e aí foi que eu comecei. No início, meu pai ainda me pega: “Não, você vai pra um negócio desse? Você acha que não tem mais futuro por aqui?”. Eu falei: Não custa nada tentar e ver e tal”. E fui. 

 

P/1 – Isso foi mais ou menos em que época?

 

R – Isso foi em, no início de 1976, meados de 76. Tanto é que eu comecei na empresa, se não me engano, se não me falha a memória, em novembro, dezembro de 76. 

 

P/1 – E você ficava aqui no Rio, naquele escritório da Lapa ou lá?

 

R – Não, a empresa era na Lapa, quer dizer, e eu... Jamais passaria pela minha cabeça, naquela época, ter que mudar pra outro lugar, não tinha a menor intenção. Até, no início, eu estava levando aquilo tudo mais na farra, como uma oportunidade de sair de um caminho que de uma forma ou outra está sendo traçado e tal, mas nunca imaginei... Quer dizer, inclusive, a função era aqui, de receber e o que tinha sido medido, que a empresa sempre seria, manteria o seu escritório central aqui no Rio de Janeiro. E aí eu fui, quer dizer, eu fiquei. Depois de uns seis meses que eu estava aqui no escritório da Lapa, na Augusto Severo, começou então o processo de chegada de alguns técnicos estrangeiros e outros já contratados que iriam operar a indústria. Então, esse processo, precisava de uma certa... Apesar de muitos deles já estarem no projeto, começaria então a mudança o do escritório operacional já pra fábrica. Se construiu os escritórios temporários, essa coisa toda, então as pessoas da operação já estavam se mudando pra lá, pra já estarem mais próximos. E, nesse período, houve uma necessidade então de alguém pra ajudar no processo de mudança dessas pessoas. Então você tinha que começar a ver casas e infraestrutura. E, nessa época, a empresa contava com um escritório em Vitória. Então, essa pessoa que me convidou, porque eu trabalhava junto, falou: “Olha, você não quer ir pra Vitória? Quer dizer, não pra morar, mas você vai fazer essa ponte enquanto nós estamos nesse processo de mudança e tal”. E eu falei: “Não, não tem problema nenhum”. Daí eu fui, fiquei baseado no escritório. Ia na segunda-feira, voltava na sexta-feira e tal. Aí começamos esse processo de olhar. Levantamento de casas, alugar casas e estabelecer uma pequena infraestrutura lá pra turma vim, receber e tal. Isso demorou uns outros seis meses, nesse processo. Quando terminou isso tudo, aí, quer dizer, chegou a fase de mudança pra fábrica - já estava mais próximo da partida da fábrica e tal. Aí criou-se uma necessidade nova, que seria de instalar a parte administrativa no escritório, no canteiro de obras. Toda a parte de recursos humanos, toda a parte de serviços gerais e toda essa parte de apoio teria que ser estabelecida. E aí é que veio mais essa nova: “Você estaria disposto a ir pra lá?”. Eu falei: “Olha, desde que não seja uma coisa definitiva, eu vou”. Mas de novo, não estava nos meus planos, e principalmente naquela época. Quer dizer, se a gente fosse olhar... Eu não gosto até de falar daquela época, eu estou me sentindo um velho falando esse negócio e não sou velho, é que eu comecei muito novo. Mas o fato é que naquela época, quer dizer, você não tinha nem estrada asfaltada. Nós estávamos a 60 km de Vitória, dos quais você tinha aí 20 asfaltados, os outros 40 eram terra, barro, lama, então era uma coisa completamente inusitada. Não só de Vitória pra lá, como do bairro residencial pra fábrica. Então eu achei que era interessante o desafio, quer dizer, era uma outra oportunidade, e de novo, nós estamos falando... Eu tinha 23 anos de idade, essa época não... Apesar de ter sido nascido e criado no Rio de Janeiro, quer dizer, eu via aquilo como uma oportunidade e fui. Você passa a conviver com uma realidade completamente diferente da minha realidade. Aí volto, família grande, com relacionamento enorme e, de repente, você está jogado num mundo totalmente diferente, e onde uma cobrança grande, quer dizer, você tinha sempre; o dia a dia era meio estressante, pra fazer com que as coisas acontecessem.

 

P/1 – Quais eram exatamente as suas atribuições lá no canteiro?

 

R – Nós temos... Como eu te dizia, era a área administrativa da empresa, então a gente tinha que estruturar toda a parte de serviços gerais. E, naquela época, você tinha dificuldade; até uma cópia era uma coisa difícil. Você ia estabelecer todos os controles de custo nessa área e toda a parte de infraestrutura do escritório, [para] funcionar, pra que as coisas funcionassem, telefonia e toda essa coisa. Só que, quer dizer, por ironias do destino, eu fiquei relativamente pouco tempo nessa área. Nessa época, tinha a empresa... Na implantação, ela contratou um grupo de estrangeiros que vinham de uma empresa sueca e que cuidavam de partes essenciais: de suprimentos, de operação, produção. E uma dessas pessoas que veio, que eram umas pessoas, um português que veio da área de, chama Henrique Lucas, que eu tenho uma admiração toda especial até hoje. Está bem velhinho, mas eu volta e meia converso com ele no telefone. Era responsável por toda a área de suprimento e logística. E suprimento e logística, naquelas condições, era uma coisa complicada. Quer dizer, você tinha caminhões vindo, e isso já estava chegando próximo da partida da fábrica - e até no início da partida. E ele havia contratado uma outra pessoa, um outro português para a área de logística, que tomava conta de toda a parte de transportes de matéria prima, de pessoal, de tudo pra dentro da fábrica. Essa pessoa veio a falecer num desastre de automóvel vindo pra Vitória e eu fui procurado pelo Henrique Lucas, [que] falou: “Olha, você quer? Eu gostaria que você assumisse a parte de logística da fábrica”. Até, num primeiro momento, pra mim foi um choque, eu falei: “Eu não conheço nada disso, nunca tive envolvido com isso". E ele falou: “Olha, não tem problema, porque você vai dar conta, eu te conheço. Eu vou estar por trás e vou te ajudar então”. E aí eu dei uma primeira mudança, que aí eu caí numa área de... Totalmente nova pra mim. Eu lidava com toda essa parte de transportes e é uma área muito sensível pelo ponto de vista ético. Existia, quer dizer, é um setor onde existia muita corrupção, muita. Envolvia muito dinheiro e essa coisa toda. Então, pra mim, era um desafio muito grande, uma responsabilidade muito grande. E eu fiquei, quer dizer, nessa função. E aí a fábrica partiu e eu fui agregando outras coisas. Quer dizer, a gente, a rapaziada tinha responsabilidade sobre a parte de matéria-prima pra produção, que não fosse madeira, mas toda a parte de químicos que eram comprados fora. Então o processo já deixou de ser simplesmente compra, mas passou a ser mais um, administrar um contrato logístico, que no fundo era o que se fazia. Não podia se deixar faltar matéria prima na fábrica. E aí, a partir daí, fomos nos envolvendo também com a parte de logística e distribuição dos produtos acabados, embarques e comecei a ter um contato aí muito grande com a área comercial da empresa, que estava muito incipiente. Começou os primeiros contatos. 

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho a essa parte da logística, em especialmente os seus contatos com... Essas firmas estrangeiras, havia muitos estrangeiros no canteiro?

 

R – Muitos, muitos.

 

P/1 – Você tinha contato com (Iacopoiri?)

 

R – Tinha.

 

P/1 – Como é que ele era?

 

R – O velho... O que do velho?

 

P/1 – O velho.

 

R – Não, naquela época não tinha contato. Quer dizer, eu conhecia. O Iaco era uma pessoa, quer dizer, ele era uma, já era uma pessoa muito conhecida de projeto, mas nunca tive contato com ele direto. Vim a ter alguns contatos muito depois, muitos anos depois. E a.... Quer dizer, apesar dele... Ele não era uma pessoa que estava lá no dia a dia, de jeito nenhum. Quer dizer, ele era o dono de uma empresa de engenharia que fazia o projeto. Então o que a gente tinha, assim, era não só a turma de engenheiros da (Iacopéreo?), como de, na parte de projeto. E a turma que já veio, um ano antes para operação, que acompanhou o projeto. Quer dizer, então o meu contato era muito maior com a equipe de estrangeiros que vieram para a operação do que propriamente com o projeto. 

 

P/1 – E no projeto, as empreiteiras brasileiras, você lembra?

 

R – Olha, eu lembro vagamente. A Araújo, tinha a Araújo, eu lembro, mas não era parte do meu dia a dia - eu não tinha muito contato, quer dizer, a minha atividade ________ de novo, era muito mais ligada à questão operacional do que qualquer outra coisa. 

 

P/1 – E naquela ocasião mesmo, quando não tinha sido dada a partida [para] a fábrica “A”, vocês já pensavam na construção de um porto?

 

R – Bom, o porto estava sendo construído concomitantemente, quer dizer, isso foi uma das visões estratégicas responsáveis pelo projeto, pela empresa, seu Lorence, ______. A questão fundamental foi conseguida... Um projeto com um modelo exportador. Então ele se apoiava num tripé, que era produto mais [da] logística florestal, quer dizer, uma base florestal próxima da indústria com raio médio baixo e a ponta de escoamento muito próxima. Então, no início, você tinha uma distância média das florestas pras fábricas de trinta quilômetros, e a distância de um porto de um quilômetro ao outro. Isso, no fundo, era uma situação única no mundo, quer dizer, tanto é que a Aracruz começou como um projeto único, até pelo tamanho. Na época, as fábricas, a capacidade era de 200, 250 mil toneladas - partiu-se para um projeto de 400 mil toneladas, que na época era um desafio muito grande. Então todo o conceito do projeto, como um projeto integrado de exportação, ou seja, floresta, fábrica e porto, estava existente. Quer dizer, o porto, eu acompanhei o final da construção do porto e ele ficou pronto junto com a fábrica, até um pouco antes.

 

P/2 – Eu queria que o senhor falasse um pouquinho sobre essa questão operacional ainda, as dificuldades de se trabalhar na construção da fábrica, como, um problema de estrada e o que foi feito pra superar tudo isso. 

 

R – Não, eu acho que foi bastante interessante. Quer dizer, eu acho que essa é a parte folclórica até que as pessoas gostam, mas muito interessante porque você às vezes não sabia. Quer dizer, você saía do bairro residencial e não sabia se chegava na fábrica. Tinha épocas de chuva que você... Quer dizer, não foi nem uma nem duas vezes que a gente era responsável também pela parte de transporte de funcionários, com ônibus e tal, e não se conseguia atravessar. Então vinha alguém da área florestal, que já estava lá a mais tempo e tal e a gente vinha pelo meio da floresta tentando chegar à fábrica, então era sempre uma aventura. Você chegava todo enlameado, as vezes nem conseguia chegar no bairro do coqueiral, quer dizer, quantas e quantas foram as vezes que eu dormi numa estrada porque o carro atolava e não tinha como tirar e você ficar. Então foi um período interessante. Até mesmo no início da operação... Quer dizer, não foi uma ou duas vezes que a gente era acordado no meio da madrugada, que um caminhão trazendo ou soda, ou alguma coisa - não soda, [era] mais ácido sulfúrico, enxofre, o que fosse. Se atolava ou derrapava, caía na estrada, você tinha que ir lá ajudar a tirar e tal. Então foi um período que... Quer dizer, hoje a gente olhando, é um período bastante folclórico, mas na época era complicado, era bastante complicado porque você tinha uma empresa, uma indústria, diria, modelo no mundo naquela época, e a infraestrutura não era modelo no mundo, pelo contrário. Mas isso são coisas que se passaram e que foram superadas. Quer dizer, com foco bastante concentrado no negócio, mas tinha sempre uma parte folclórica da coisa, né? 

 

P/1 – Quais eram então os seus maiores desafios nessa época?

 

R – Bom, o meu maior desafio, pra começar, foi assumir uma área com um número de pessoas bastante grande, com uma responsabilidade enorme. Não só a responsabilidade por si só, mas como a pressão que vinha por parte da equipe de operação, que sempre usava o modelo terrorista que: “A fábrica vai parar, porque a fábrica vai parar!”. Então, você imagina uma pessoa com 23 anos de idade, com muito pouco experiência e sempre muito responsável - porque sempre fui -, quer dizer, isso era uma tensão. A tensão que eu trazia talvez não fosse uma tensão dos outros, mas a minha era enorme. Um senso de autocrítica muito grande, quer dizer, o medo de deixar as coisas não acontecerem. Agora, é lógico que hoje eu vendo isso, teria encarado de outra forma, mas na época era realidade. E não posso negar, essa pessoa que me levou pra essa área, eu sempre tive o apoio total, e devo muito do que eu sou hoje, até na forma de pensar: é ele. Uma pessoa muito séria, muito transparente, muito honesta, muito dedicada. E eu acho que esse foi... Quer dizer, eu acho [que] se eu tiver algum predicado que posso dizer sobre mim, acho que eu fui muito dedicado esse tempo todo, e acreditei sempre que as oportunidades aconteceriam. 

 

P/1 – E tem alguma lembrança mais marcante da inauguração ou dos primeiros meses de funcionamento da fábrica?

 

R – Eu tenho uma que foi interessante. Como eu te disse, a minha responsabilidade, ela cessava na parte de logística e de produto acabado. E eu me lembro que tinha uns dois ou três meses que a gente começou a fábrica, eu recebo um telefonema da pessoa que, na época, era responsável pela parte operacional das exportações ligando, dizendo que: “Olha, nós fizemos uma venda e vai aparecer um navio aí no porto”. Seria o primeiro navio do porto, e eu perguntando: “Bom, o que é que eu tenho que fazer?”. Ele falou: “Olha... Não, você vai lá que...”. E eu nunca tinha operado, não tinha a menor ideia, não é? E o... dois dias depois chegou o navio. E chegou o navio... Quer dizer, o suporte que a gente teve daqui do Rio foi muito pequeno, e acabou que a gente teve que agarrar o touro pela unha e fez o embarque. E aquilo que, no início, foi um grandessíssimo problema pra mim, quer dizer, no fundo, acabou-se transformando em oportunidade, porque a partir dali... Quer dizer, eu assumi a responsabilidade sobre aquilo e continuei fazendo. Então aquilo passou a ser uma responsabilidade, que teoricamente não era nossa, mas eu via aquilo como oportunidade. Seis meses depois, eu conhecia de porto como ninguém. E fazíamos todas as exportações e... Então eu já achei isso um episódio extremamente interessante, porque um belo dia, chega do nada e para um navio no porto, e que você tem que carregar esse navio, entender como que faz, o fluxo todo. Mas não foi nada, nenhum bicho de sete cabeças não. 

 

P/1 – E depois dessa área que você era responsável, que outro percurso você fez dentro da Aracruz?

 

R – Bom, aí... Nesse mesmo período que eu comecei a me envolver com a parte de logística, quer dizer, acabou que tinha que, se metia também na parte de venda na parte de mercado doméstico, porque era um volume razoavelmente bom. E apesar do contato ser feito por uma pessoa do Rio de Janeiro, acabava que como a gente era responsável pela logística da coisa [de] entregar o produto, eu acabei me envolvendo direto. Quer dizer, acabei me envolvendo e chegou um ponto que praticamente a parte comercial doou... O mercado doméstico era feito por nós lá, quer dizer, o Rio de Janeiro fazia contato, acertava o valor e tal, mas acabava que o contato com o cliente era nosso pra saber como entrega, quando entrega. E isso me deu um “link” pra área comercial que, no fundo, era o que eu sempre quis. Eu acho que eu tinha, a área que eu tinha aptidão. E sem dúvida, uma coisa que eu não comentei antes, mas eu achei que fazia uma grande diferença, era a questão da língua também. Pelo fato de eu falar inglês fluentemente e, nessa época, não era uma coisa comum, essas oportunidades que foram aparecendo, foram aparecendo por isso também. Quando eu fui pra fábrica, é porque eu consegui comunicar com as pessoas, conseguia lidar com as pessoas na língua deles. Na área comercial, a mesma coisa. Então isso foi levando e já [em] 79, se não me engano, foi em 1979, a empresa contratou um diretor comercial, um novo, um sueco, Klaus Hall, e aí eu acho que se deu a grande mudança, até no enfoque da empresa, na exposição da empresa ao mercado internacional. E os contatos foram se estreitando, até conosco, e surgiu uma oportunidade de vim trabalhar com ele. Quer dizer, até foi uma época que já estava ficando meio complicado pra mim morando lá, porque eu já estava casado - minha mulher também é do Rio, criada no Rio - e aquele ambiente já estava um pouco complicado. Então a gente estava avaliando alternativas, e surgiu essa oportunidade. Foi quando eu vim pro Rio de Janeiro, no final do ano de 79, mais ou menos, e aí entrei pra área comercial, e aqui, quer dizer, na área comercial, eu fiz de tudo no Rio de Janeiro. 

 

P/1 – Eu queria que você falasse um pouco sobre uma decisão que deve ter sido tomada no início provavelmente, não sei, entre 78 e 79, de implantação de um departamento de comunicação, para o qual, inclusive, foi chamado [o] Nahum Sirotsky. Você tem alguma...?

 

R – Não, a gente... Eu não tinha o menor contato com isso, quer dizer, a minha realidade era outra, uma realidade operacional. Essa parte de comunicação era aqui no Rio de Janeiro, eu tinha nenhum contato. Apesar do núcleo no Rio de Janeiro ser pequeno, ser uma área financeira. Então eu não tive contato nenhum, quer dizer, eu não me recordo de nada nessa área. Quer dizer, a minha história no Rio de Janeiro, de volta, ela recomeça na segunda metade de 79, que aí é onde eu tinha o contato com as pessoas aqui da área comercial. 

 

P/1 – Eu queria aproveitar: vocês voltam para aquela questão do... _____ administrativo da empresa, o senhor falou com a facilidade da língua estrangeira. O canteiro era um campo onde existiam várias pessoas de várias nacionalidades e pessoas da região do Espírito Santo, houve assim algum caso pitoresco que o senhor lembre por problema assim de linguagem?

 

R – Não, não acho, acho que... Não me lembro. Quer dizer, o que eu me lembro, uma coisa pitoresca e tinha a ver com a equipe de... Você tinha muitos... Quer dizer, na época, você tinha muitos suecos, engenheiros suecos e finlandeses vindo e ia compor essa coisa toda, com a questão cultural um pouco diferente da nossa. E eu me lembro [de] uma época, andando pelo bairro, num fim de semana desses, e... quer dizer, as casas do bairro... O bairro foi todo construído naquele modelo de bairro americano, sem muro, só jardins e tal. Ia passando pela rua, uma daquelas ruas, não sei que dia que era, eu me deparo com um finlandês daquele, totalmente nu, tomando sol, tomando sol no jardim dele - o que pra ele era extremamente natural, no meio da rua... Quer dizer, não era uma rua movimentada, e até explicar que aquilo ali não era uma coisa normal, você imagina, apesar do lugar que era, o barulho que se criou. Mas na cabeça deles era extremamente normal. Então eu acho que nessa parte de língua não se tinha, não que eu me lembre, quer dizer, talvez as pessoas que tivessem diretamente em projeto, operações, podem ter alguma história mais interessante pra contar. 

 

P/1 – Então desde, mais ou menos, o início dos anos 80, você já estava na área comercial?

 

R – Sim.

 

P/1 – Como responsável por essa área?

 

R – Não, eu entre... Quer dizer, a área comercial, no fundo, ela estava sendo recriada. Como eu te falei, veio o Klaus Hall pro Brasil com uma visão completamente diferente, uma pessoa extremamente experiente, com uma bagagem muito grande, começou a reconduzir e montar uma estratégia comercial para a empresa, e consolidar o nome da empresa a nível internacional. Então, nessa época, foi quando ele me chamou também, quer dizer, me convidou pra vir pro Rio de Janeiro, por indicação até do Henrique Lucas, que falou com ele. E então, no início, eu vim aqui, comecei a trabalhar e, junto com um gerente de, comercial, que se chamava Afonso da Costa Marques, o Português, e comecei a trabalhar basicamente suportando ele no mercado doméstico. E esse foi o meu início. Depois de pouco tempo, eu já estava com controle total sobre as vendas no mercado doméstico, com todas as responsabilidades que tinham, a gente cuidava da parte logística - aí eu passei a incorporar os dois. Quer dizer, aquilo que eu fazia lá, juntando a parte de vendas. E começava a ajudar o Afonso em tudo aquilo que aparecia de oportunidade pra eu olhar, em parte de exportação. E aí... Eu sou meio ruim de data, assim, eu não sei o período, mas eu sei que ficamos algum tempo, até que o Afonso da Costa Marques saiu. Nessa época, o Klaus já me passou uma responsabilidade também, embaixo de um outro gerente comercial que entrou, que chamava César Tomé, pra ficar também olhando a parte de vendas pra América latina. E daí foi um passo, quer dizer, começou do mercado doméstico, depois a América Latina. Nesse ínterim, teve um... Achamos uma pessoa responsável por toda a parte de faturamento, ou seja, as vendas, na época... Quer dizer, fatura computadorizada, essas coisas não existiam ainda: você fazia a fatura a mão; fazia os cálculos todos de diferença de peso, essas coisas, a mão. E nós tínhamos uma pessoa, que era o gerente de exportação que fazia isso. E um belo dia o Klaus, com esse novo gerente, chegou e disse: “Olha, nós estamos pensando em dispensar essa pessoa, e nós gostaríamos que você, durante um período, enquanto a gente não contrata um outro, que vai ser um período curto, passasse a fazer essas faturas na parte de exportação, até...”. Eu achei ok. Quer dizer, um trabalho meio burocrático, mas vai ser pouco tempo. Esse pouco tempo levou oito meses de muita reclamação, porque além do meu dia a dia... Quer dizer, cada vez que saía um navio, você tinha que fazer fatura, fazer cálculos, essa coisa toda, e então foi um... Eu diria que foi um aprendizado doloroso, chato, burocrático, que não faz o meu estilo, mas que acabou que me agregou muito valor, que eu comecei a coisa pelo outro lado. E eu acho que isso foi a grande diferença e a grande vantagem que eu tive em estar desde o início na Aracruz, porque sempre foi tudo novo, e eu sempre vim com o novo. E nesse processo, o Klaus, que é uma pessoa brilhante, com uma capacidade e uma visão estratégica enorme, ele servia pra nos dar o balizamento, em termos de seriedade, de condução das coisas, de transparência. Então foi um período que, apesar de ser difícil, mas era um período extremamente interessante porque se aprendia muito, tudo era novo e não tinha de quem copiar. Então isso foi no lado das vendas, isso foi no lado da estratégia, do negócio, isso foi no lado dos controles, isso foi no lado da informação. Na época, o Klaus falou: “A primeira pessoa aqui...”, quer dizer, na Aracruz, mas, no nosso setor, que tinha uma visão de longo prazo e de marketing, de conhecimento, de números de dados. Então, projetar cenários de mercado baseados nessas informações, que nos abriu e diferenciou de todo mundo. Quer dizer, com esse conhecimento que se tinha, podia se traçar uma política extremamente consistente com o que se pensava e com a realidade do mercado. Então, a Aracruz sempre teve, e eu reputo isso ao Klaus Hall, às vezes as pessoas falam em sorte; eu não acredito em sorte, sorte não existe. Quer dizer, o que existe foi uma decisão acertada de se trazer uma pessoa extremamente competente, com um nome, que nos ensinou a trabalhar. Quer dizer, a partir daí, foi desenvolver em cima disso. Então hoje eu diria... se eu... Tenho que agradecer algumas pessoas, lógico que eu tenho que agradecer muitas pessoas, mas duas pessoas em particular eu acho que me ensinaram muita coisa, que uma foi o Henrique Lucas e a outra foi o Klaus Hall, principalmente pelo lado, de novo, na seriedade na condução das coisas, da transparência do relacionamento. Ou seja, eu acho que a Aracruz acertou em cheio. E hoje a gente é o que é, quer dizer, em cima do trabalho dessas pessoas. 

 

P/1 – Luiz Felipe, você pode falar um pouco sobre esses clientes no Brasil e os [países] latinos americanos? Quem eram?

 

R – Bom, primeiro, é João Felipe.

 

P/1 – Desculpe.

 

R – Segundo, a gente... A base de cliente nossa, quer dizer, era mais ampla do que é hoje, até por conta da consolidação que houve. E no mercado interno... Quer dizer, a gente tinha cliente como, na época, a Companhia Industrial [de Papel] Pirahy - hoje é _________. Nós tínhamos MD Nicolaus, que hoje tem outro dono. Nós tínhamos o grupo, na época... Hoje é o grupo Ripasa, mas o seu Abrahão Zarzur, que é uma figura folclórica no nosso setor, e empreendedor de primeira linha... Quer dizer, tinha uma série de clientes e hoje, que hoje estão alguns aí - parte de grupos maiores, outros desapareceram. E na América Latina, os clientes, basicamente, não foram muitos, mas tentou-se se desenvolver alguns clientes que até hoje são clientes nossos na área de papel e sanitários, na área... Especialmente na área de papéis e sanitários, mas também na área de imprimir, escrever alguma coisa no mercado da Venezuela, Peru, Colômbia, Argentina. E diga-se de passagem, até a primeira exportação que a empresa fez foi pra Argentina. O primeiro negócio de exportação, foi feito pra Argentina, pra uma empresa que está lá até hoje, chama-se Wetsel, que na época pertencia ao grupo BAT - que é Souza Cruz hoje -; é o outro grupo, que é o... Então os clientes não eram grandes. Quer dizer, independente disso, exigia bastante viagem, foi aí que a gente começou, naquela época, [a] viajar muito pra esses lugares meio esquisitos. Aí sim tem histórias pra se contar e, principalmente... Quer dizer, uma pessoa como eu, na época, estava com o quê? 24, 25 anos e saía... As conexões não eram aquelas conexões, assim, que a gente tem hoje, então tinham experiências muito engraçadas. Eu acho que eu lembro de uma que ficou marcada, porque, isso faz já muito tempo, a gente tinha dois clientes na Colômbia, e a Colômbia, desde essa época, já era foco dessa questão de guerrilha. Quer dizer, é exatamente o que é hoje, em proporção talvez um pouco menor. E nós estávamos saindo de; nós tínhamos um cliente em Medellín e um cliente em Cali, e a partir dali, depois, eu ia seguir pra Venezuela, Cali, Bogotá, e eu ia pra Venezuela. Então terminamos as visitas nossas em Medellín e fomos pro aeroporto e nosso, a gente estava junto, eu estava com outra agente, despachou a bagagem, então chegamos em Cali, tal. Estamos esperando a bagagem, o carrossel parou, não veio bagagem nenhuma, aí eu falei: “Bom, temos um problema”. Aí olhou-se, o agente tinha despachado as nossas malas para um lugar chamado Pereira. Pereira é ainda nas montanhas da Colômbia, entre Cali e Bogotá. E é uma área que, naquela época, era o centro, sempre foi, até acho que é hoje, não sei, não faz parte da minha especialidade, mas era o centro da, do refino de cocaína da Colômbia inteira, e eu falei: “Bom, não tem outra hipótese, temos que ir lá pegar a mala”. A gente ligou para o aeroporto: “Não, está aqui tal, na casa do administrador”, “Então, temos que ir pra cá”. Eles falaram: “Ninguém viaja a noite aqui na Colômbia”. Mas eu falei: “Não, não tem jeito, tem que ir”, “Não, ninguém viaja pelas montanhas”. Aí o nosso agente, conseguindo conversar, entramos num impala daqueles 1950 e poucos e toca. Fizemos uma viagem de 6 horas subindo morro, descendo morro, e num território de guerrilheiro pra ir buscar a mala e voltar. Quer dizer, a coisa levou a viajem inteira... Levou a noite inteira. Chegamos lá, fomos na casa do administrador do aeroporto, pegamos as malas, botamos no carro e voltamos apavorados de que no meio do caminho fôssemos pegos. Quer dizer, acabou que não aconteceu nada. Mas, nessas viagens, eu tenho histórias engraçadas. Quer dizer, na época, também tinha uma de Medellín. Medellín fica numa cratera e os voos, naquela época, eram visuais. Então, como se tratava de uma cratera no alto da montanha, o aeroporto ficava constantemente fechado. Então teve umas duas ou três vezes que eu fiquei uns quatro ou cinco dias, aguardando no aeroporto, o avião poder posar pra eu ir embora. Quer dizer, aí você, sem conseguir [se] comunicar e... Então tem muita história, quer dizer, nesses anos todos, tem muitas histórias. Depois aí, viagens pra África, Ásia, algumas coisas bem folclóricas.

 

P/1 – Em que momento, circunstância se decidiu pela construção da fábrica “B”?

 

R – Bom, aí eu tenho que puxar pela memória. Bom, a primeira coisa que se fez, quer dizer, antes da fábrica “B”, houve um processo de, que a gente chama de desgargalamento da fábrica “A”, aumentando a produção. E aí a fábrica que saiu de 400 mil, ela passou para um nível de 500 mil. Logo a seguir então veio a questão de se discutir uma nova planta, uma fábrica nova: que foi fábrica “B”. Agora, as datas eu já não tenho mais na cabeça. Eu não sei se foi em 94.

 

P/1 – Foi inaugurada em 91.

 

R – 91, né?

 

P/1 – É.

 

R – Então é isso, 91. O dilema, na época, era a questão da base florestal, que uma fábrica dessas você tem que ter base florestal. E aí se partiu, quer dizer, existia um espaço no mercado, foi feita a avaliação. O ganho de escala nos daria uma maior competitividade no nível de custo, você diluía custo fixo na mesma unidade, tal, e se partiu. Mas a época que uma das coisas que me chamou atenção, que eu me lembro hoje, é que existia uma certa limitação com relação à disponibilidade de madeira em função de algumas secas prolongadas que se teve, que impactou no crescimento, na produtividade da floresta e tal. Mas isso depois também foi superado, foi... E aí quem talvez, quem tenha muita história pra contar, [no] caso, o Aguiar, que estava diretamente envolvido na parte de projeto - do processo do projeto e tal. Mas aí não; quer dizer, a fábrica “B”, não tenho tantas recordações assim, coisas mais marcantes, não sei o porquê - aí entrou já na rotina. Mas eu me lembro que foi um salto muito grande, a gente passou para um milhão e 25 mil toneladas de produção, que é um marco, um volume bastante expressivo. E foi a fase que a gente começou discutindo também com alguns nossos clientes de longo prazo, quer dizer, a possibilidade de se desenvolver relacionamentos de mais longo prazo, que absorvesse essa nova capacidade. Isso começou-se pelo ano de 89, 90, e a fábrica partiu então em 91, março, não foi? 

 

P/1 – 91.

 

R – Março, é. E de novo, foi mais um marco na história. 

 

P/1 – Então você pode dizer que nos anos 90 havia assim uma tendência do mercado pra a celulose branca se ampliando?

 

R – É o que eu diria. E aí eu sou obrigado, com prazer, a voltar a falar sobre o Klaus Hall. Quer dizer, eu acho que o Klaus Hall foi a grande, eu diria que a grande mudança. Você tem no setor, no segmento de celulose de eucalipto... Você teve o período antes e pós Klaus Hall. Eu acho que através da Aracruz, através do Klaus Hall, que ele tinha, quer dizer, a gente conseguiu mudar o conceito sobre a fibra. Ou seja, se buscou entender melhor do que simplesmente se colocar essa fibra num mercado como um produto qualquer, como se fazia antes, sem tentar entender que tipo de valor que esse novo produto poderia agregar e como. Então você tinha um preço. O nível de preço seu era baixo, era uma "commodity", que era um (filer?), uma celulose que se vendia. Com a entrada do Klaus Hall, com a percepção dele com relação ao produto... Quer dizer, a primeira coisa que a gente buscou fazer foi, através de orientação dele, conhecer o nosso produto melhor, conhecer quais seriam os valores que esse produto poderia agregar e em diversos segmentos de produto. E a partir daí, então, definiu uma estratégia de premiá-lo mesmo. Então, no fundo... Quer dizer, o que a gente buscou foi tentar agregar valor a determinadas famílias de produtos, onde o eucalipto claramente conseguia se diferenciar. Acho que essa foi a grande virada. Quer dizer, essa foi a grande diferença que a Aracruz fez no mercado e, lógico, fez através de uma visão estratégica do Klaus Hall. Foi a partir da Aracruz que se tentou segmentar o uso do eucalipto, valorizar como uma fibra de escolha. E a partir do, [desse] momento que você começa a criar uma demanda por esse produto. E aí foi um período interessante, porque começou a se desenvolver, criar uma demanda pelo produto; e como contrapartida, a oferta estava limitada. Então, você conseguiu agregar valor ao produto e a empresa, então, o preço subiu. E aí... Daí, com isso, se... Quer dizer, se agregou mais capacidade via linha “B”, mas o conceito já estava. Então esse foi o grande marco, essa foi a linha divisória no eucalipto. E eu, com maior orgulho, quer dizer, posso dizer que participei desse processo e participei sobre a direção do Klaus Hall, que até hoje é uma pessoa que tem uma visão extraordinária. E isso ajudou não só a Aracruz, mas ao eucalipto. A partir dali, o eucalipto passou a ser um fibra de escolha, uma fibra diferenciada dos seus concorrentes, e isso não teve preço e não tem preço até hoje. 

 

P/1 – E o que você pode falar pra gente sobre essa diversificação da linha da Aracruz com produtos de madeira, madeira lyptus?

 

R – Olha, a... Quer dizer, se a gente for falar do lyptus como parte do nosso negócio, é lógico que é uma parcela muito pequena. Na época, começou a se discutir a questão da criação de uma linha de produtos baseado na grande vantagem competitiva que a Aracruz tem, que o eucalipto tem, que é uma madeira de alto rendimento, crescimento rápido, de qualidade, pra outros produtos que não celulose e, ao mesmo tempo, fosse contracíclicos, ou seja, pra você começar a tentar dar uma certa estabilidade no encaminho da empresa, no faturamento da empresa. Então a ideia foi, quer dizer, tentar desenvolver e transformar o eucalipto de uma madeira comum, para uma madeira nobre. Mas é claro que a escala que se estava vendo... Quer dizer, a escala era muito diferente. A ideia inicial era se começar com um projeto quase que piloto, e a partir daí, desenvolvendo o mercado. E aí, a medida que esses mercados fossem sendo desenvolvidos, você ia crescendo. Continua como parte da estratégia da empresa, só que se descolou um pouco, porque com o advento da fábrica “C”, quer dizer, o nosso negócio ficou claramente muito mais direcionado a questão da celulose. Apesar de tudo, continuar com a questão da madeira... Quer dizer, hoje os móveis que estão aqui são todos feitos de lyptus. Hoje nós estamos conversando... Demorou... Nos custou mais do que a gente esperava e, aos poucos, a gente estava introduzindo a nível internacional, como uma madeira nobre. Só que a velocidade é bem diferente da velocidade da celulose. 

 

P/1 – E a aquisição da Rio Céu(?)?

 

R – Bom, a Rio Céu(?)...

 

P/1 – O que você pode contar?

 

R – A Rio Céu é uma questão... Quer dizer, quando a gente começou a fazer uma análise estratégica a mais tempo, está claro... Ficou claro que o mundo tem mudado muito, quer dizer, o nível de informação. Hoje é muito mais rápido, as comunicações são muito mais rápidas, os conhecimentos são muito mais rápidos e, consequentemente... Quer dizer, a escala começou a se tornar cada vez mais importante. Então o que a gente começou a ver nos últimos, eu diria sete ou oito anos, foi um processo de consolidação por parte dos nossos clientes, de uma forma mais acelerada, e isso como uma forma de agregar valor ao acionista. E na visão nossa, visão estratégica, é que a gente não poderia jamais não acompanhar esse crescimento sob pena de ficar muito menor que o seu fornecedor, e o seu poder de barganha começar a ficar extremamente limitado. E então todas as oportunidades que a gente teve de crescer, a gente tem que aproveitar. Um projeto desse como Rio Céu(?), que hoje é a unidade de Guariba, foi um deles. Quer dizer, essa é uma oportunidade que você tem que aproveitar quando ela aparece. Foi a forma da gente agregar capacidade de uma forma já que é diferente de um projeto novo, que você já agrega capacidade e agrega fluxo de caixa também que é importante. Ao mesmo tempo, quer dizer, a gente viu muito como uma movimentação estratégica nossa, ou seja, ela serviu pra não só agregar volume, mas, ao mesmo tempo, nos proteger contra a concorrência. Então eu diria que foi um _____ muito mais estratégico do que propriamente dito de adicionar a capacidade, mas eles, no final, depois, se confundem. Então hoje, quer dizer, num curto espaço de tempo, a empresa conseguiu agregar 400 mil toneladas de celulose, que a gente passa a controlar e que, no fundo, dependendo das condições de mercado, atrapalhavam a gente. E, ao mesmo, tempo nos deu uma outra, nos criou uma outra fronteira em termos de crescimento, que é a fronteira do sul do país, onde a gente acredita que existe um potencial bastante grande em termos de disponibilidade de área pra plantio de eucalipto, em termos climáticos também, que nos dá uma, um bom rendimento. Então a empresa, quer dizer, se posicionou estrategicamente, não só com o advento da Rio Céu, mas também com o projeto da Veracel (BA). Então, com isso, a gente, mais ou menos, consolidou a nossa posição como maior fornecedor e detentor das melhores oportunidades de crescimento, via novas capacidades. Então a Rio Céu, pra nós, foi um marco muito importante, até porque mostrou que a empresa é ágil, a empresa se posicionou de uma forma extremamente rápida e consciente, entendendo qual era o seu destino estratégico, e agregando então mais essa capacidade. E nós estamos muitos satisfeitos com a aquisição. Eu acredito que os acionistas ficaram muitos satisfeitos também, e de novo, era uma oportunidade. Aquilo que a gente sempre diz: “O cavalo passou selado na frente: ou pula em cima, ou perdeu a oportunidade”. A gente pulou em cima e foi feliz.

 

P/1 – Você, periodicamente, necessariamente, tem que ir a Barra do Riacho?

 

R – Sem dúvida.

 

P/1 – Eu queria que você dissesse um pouco pra gente como é que... As principais diferenças que você vê hoje, daquilo que você via nos chamados “Tempos Heróicos”.

 

R – Ah não, é brutal. Começa pela questão da comunicação. Quer dizer, hoje em dia todo mundo tem um celular [para] todo mundo falar. Naquela época, você conseguia uma linha telefônica, conseguia comunicação [e] as ligações caíam, era bastante complicado. A outra coisa é a questão viária, hoje você está conectado com qualquer... Vitória, você vai a Vitória em 40 minutos, 50 minutos, estradas asfaltadas, pelo caminho que você quiser. Então a qualidade da infraestrutura, a diferença é brutal. Tanto é que hoje você tem uma grande parte dos nossos funcionários que moram em Vitória [que] vão e voltam todo o dia. E, naquela época, era impraticável, era totalmente impraticável. Então, quer dizer, as mudanças são enormes. A própria fábrica em si... Quer dizer, hoje, quando a gente olha, é o maior complexo de celulose do mundo. É uma coisa bastante grande e uma fábrica que... Quer dizer, principalmente pra nós que estamos [a] mais tempo, dá orgulho de ver aquilo, não? A forma de como ela é cuidada, as pessoas que estão envolvidas, quer dizer, realmente dá orgulho em ver, em saber que você participou de uma forma ou outra da construção daquilo. Então, de novo, as diferenças são marcantes. O próprio bairro hoje está muito mais aberto, não é mais um bairro da empresa, e não dá pra comparar. E a gente tem até aeroporto hoje. Temos uma pista nova, e essa pista também é um folclore muito grande, quer dizer, quem tiver assistindo isso, eu acho que a gente... O projeto da pista de pouso na Aracruz, eu acho que ele já participou de uns 15 anos em nossos orçamentos. Quer dizer, a gente sempre colocava o projeto da pista, porque a gente sabia que alguma coisa no orçamento teria que ser cortada, e sempre, fatalmente, acabava sendo. O boi de piranha era a pista do aeroporto. Isso foi verdadeiro até um ano e meio, dois anos atrás, ae______ último. Agora a gente conseguiu uma pista e tal, que, bem, no futuro vai facilitar. Hoje facilita muito as idas e vindas, né? E eu acho que o mais interessante disso tudo, de assistir, nesse período todo, foi a transformação de uma empresa-fábrica num negócio de celulose. Quer dizer, eu acho que isso é muito interessante. A fábrica se concentrou e cresceu em cima da indústria no Espírito Santo, e hoje a gente já ampliou essas fronteiras, quer dizer, já deixou de se caracterizar como uma empresa, uma fábrica do Espírito Santo. Hoje é uma empresa com operações industriais no Espírito Santo, na Bahia, no Rio Grande do Sul, e quem sabe [em] outros lugares amanhã? Então eu acho que esse processo todo foi um processo bastante interessante, e mais do que isso, foi um processo muito consciente. Eu diria que eu sou suspeito de novo a falar, mas eu diria que a Aracruz, ela sempre teve uma visão estratégica privilegiada. E isso em função das pessoas que trabalham nela, desde o acionista aos executivos, aos funcionários, quer dizer, todo mundo teve sempre um empenho muito grande, uma visão estratégica bastante moderna, eu diria. Então, às vezes a gente até pensa olhar pra trás e ver como se construiu em relativamente tão pouco tempo.

 

P/1 – Agora, eu queria que você falasse um pouco sobre o projeto Veracel.

 

R – Veracel é um projeto bastante interessante, é uma nova fase na nossa vida. Eu diria que, no início, [foi] um projeto extremamente discutido. Nós que somos parte do "management" da companhia, tínhamos já olhado pra essa região, já olhando pra esse projeto muito mais tempo atrás, até como uma possibilidade de uma nova fronteira e, fundamentalmente, porque a disponibilidade de área pra plantio, as condições de sol e as condições climáticas eram ideais. Então os crescimentos, a produtividade da floresta lá, quer dizer, batiam as nossas florestas no Espírito Santo; mesmo áreas no sul da Bahia que a gente tem. Então a gente via sempre aquilo como uma nova fronteira. No início, fizemos uma pequena tentativa, não houve o apoio dos acionistas, e na segunda investida, quer dizer, onde surgiu uma oportunidade de se entrar, a gente concretizou isso. E aí eu acho que, às vezes, a gente, quer dizer, está satisfeito por um lado, mas eu acho que é um marco também em termos de mudança de conceito. Pela primeira vez, nós estamos trabalhando com um sócio num projeto. E isso, apesar de ser uma, não ser muito fácil, principalmente pra estrutura Aracruz, que está muito acostumada a ser bastante objetiva, focada e fazer aquilo que tem que ser feito, e pronto. Quer dizer, isso, quando você tem um sócio, a questão é diferente, as questões são muito mais negociadas, são muito mais discutidas e, às vezes, você nem sempre vai seguir aquele caminho que você acha que é o melhor, mas vai seguir o caminho que é possível. E isso é importante, porque isso coloca uma nova realidade na cabeça das pessoas hoje e os que tomarão conta dessa empresa no futuro, que é a habilidade de se conviver com diferenças e a negociar. Isso tem um valor e eu acho que o Projeto Veracel, pra nós, tem essa oportunidade também. Estamos tendo que mudar um pouco a nossa cabeça, mudando um pouco, sendo mais abertos a negociação e a discussões mais amplas sobre determinados itens que hoje a gente tem plena consciência que a gente domina. Isso é bom, porque a unanimidade nunca é boa em lugar nenhum, e isso serve pra gente rever conceitos que no futuro vão ser muito importantes. Porque, de repente, a gente pode sair, mudar o modelo, e essa empresa pode se transformar numa coisa muito maior através de modelos, de parcerias em diversas outras unidades e negócios, que seja. Então o processo educacional da Veracel reputa como uma coisa bastante importante pra uma mudança no modelo de gestão da nossa companhia, e está sendo interessante. Quer dizer, não poderia dizer, nesse momento, que está sendo gratificante, porque tem horas que você fica doido, mas eu acho que, no final das contas, é uma coisa muito interessante, está sendo muito interessante. Veracel é nova fronteira. Uma fábrica única no mundo hoje, quer dizer, teoricamente, terá e será mais eficiente do que a atual unidade que a gente tem no Espírito Santo e no Rio Grande do Sul também. E eu acho que é um projeto que vai ter um sucesso muito grande - a gente está bastante otimista. 

 

P/1 – A imprensa especializada aponta a Veracel como o projeto de maior envergadura hoje em dia no Brasil para os próximos 3 anos. Quais são as previsões ou quais são as expectativas em relação a Veracel?

 

R – Olha, eu acho que não tem dúvida. Eu acho que, quer dizer, pra gente falar em termos de projeto... O projeto nessa área é um projeto altamente capital intensivo, os investimentos são muitos altos, então, às vezes, a gente faz as comparações. Eu me lembro que na época que a gente estava discutindo... Se discutia muito aqui no Rio de Janeiro a questão da, dos investimentos da Volkswagen numa fábrica de caminhões em Resende, quer dizer, ninguém falava do projeto linha “B” ou linha “C” da Aracruz. Então estava se falando num projeto de 250 milhões de dólares com aporte de diversas pessoas, quando se falava num projeto na Aracruz de um bilhão de dólares. Então, isso é uma realidade altamente de capital intensivo, mas os custos, os retornos estão todos calculados em cima desses investimentos. Quer dizer, a nossa expectativa é que aquilo, de novo, seja uma nova fronteira, que possa ser expandida. O próprio 'layout' da fábrica no site, já se projetou espaço pra outras duas linhas. Se serão construídas e quando, é uma interrogação, mas o espaço está lá. Da mesma forma que o projeto da Aracruz em Barra do Riacho, também já foi projetado com essa alternativa. Tanto é que hoje nós temos outras duas linhas, começamos com 400 mil, hoje estamos com dois milhões de tonelada - dois milhões e alguma coisa, no site. Então Veracel, pra gente, é uma nova fronteira, é uma nova oportunidade, uma fábrica extremamente competitiva; e o tempo vai dizer com qual rapidez que ela vai crescer. 

 

P/2 – Seu João Felipe, eu queria perguntar pro senhor, como o senhor enxerga a... Em relação a Aracruz, o movimento de globalização, de formação de blocos econômicos, e como isso pode afetar a Aracruz no seu mercado externo? 

 

R – Eu acho que, pra gente fazer uma análise dessas de blocos econômicos, eu prefiro olhar, quer dizer, dar um passo um pouco atrás. Eu acho que o mundo, de novo, como eu falei no início, mudou muito. Essa questão de fronteiras, elas deixaram, quer dizer, na minha opinião, elas deixaram de existir. Você vê, o dinheiro hoje... No fundo, a mola da movimentação é capital. O capital hoje dá volta ao mundo duas vezes em milésimos de segundos, quer dizer, isso muda totalmente a perspectiva. O que é importante é você ter produtos ou serviços onde tem a capacidade de competir e que, ao mesmo tempo, agregue algum tipo de valor a um determinado consumidor. E eu acho que é essa que é a grande diferença que a gente tem aqui no Brasil. Eu acho que a gente tem um produto onde nós somos altamente competitivos em termos de custo, quer dizer, o setor de celulose é um desses setores que o Brasil é privilegiado, não só pela questão climática, mas até por norral e por tradição, hoje. Então, e produzimos um produto que os consumidores não têm condição de produzir em outros lugares. Hoje, o nosso grande defensor vai ser o próprio cliente nosso. Então, de novo, o que a gente tem que estar é preparado pra ser competitivo em qualquer circunstância, quer dizer, custo é fundamental, eficiência. Se você consegue entregar isso, independente do bloco que for, você vai estar garantido. Quer dizer, eu não visualizo hoje os Estados Unidos sem consumir celulose de eucalipto. Também não vejo os Estados Unidos investindo em eucalipto, até porque [é] uma questão climática. Do mesmo jeito que eu não vejo o bloco europeu fazendo isso. Então, quer dizer, as oportunidades pra nós estão aí. De novo, eu acho que a gente tem que estar sempre olhando pra dentro: o que eu posso fazer melhor pra me manter competitivo? Enquanto eu for mais eficiente que a concorrência, a minha sobrevivência está garantida. Então eu acho que tem linhas, tem produtos, tem serviços que realmente vão sofrer, têm que se readequar e até... Eu diria [que] até como política de governo, que seja redirecionar alguns incentivos a setores que realmente tenham competitividade. Não adianta, hoje, a gente querer ter... Aí eu não quero dar nenhum depoimento político, mas não adianta nada a gente querer ter um setor de computador extremamente bem desenvolvidos, quando você tem capacidades em volta do mundo muito melhores, a um custo mais baixo que o teu. E massa crítica, né? Então eu acho que a gente tem que continuar focando naquilo, que a gente consegue. Quer dizer, eu não acredito que todo mundo é bom em tudo. Eu acho que o mundo moderno, o conceito é esse exatamente, quer dizer, você faz aquilo que é bom. Aquilo que não consegue, você tem gente melhor. Ou copia, ou compra.

 

P/1 – E como é que o diretor da área comercial da Aracruz vê o mercado chinês? 

 

R – Eu não estou olhando... Mas eu não vejo como diretor comercial, quer dizer, eu... Até hoje, porque em função das mudanças, que acabou, que cada um de nós acabou absorvendo uma série de outras tarefas, que não só uma específica. No meu caso, especificamente hoje, eu tenho a parte de comunicação, a parte de meio ambiente, a parte jurídica. Mas eu prefiro analisar a questão de China como uma questão como uma pessoa outra qualquer. Quer dizer, eu acho que é uma realidade. Hoje em dia, o mundo se desenvolve em cima de consumo e mercados consumidores. Pra consumo, você precisa ter renda, e a China, como uma Índia, são mercados que você não... No futuro, serão os grandes consumidores do mundo. Então, isso por si só deveria gerar um interesse direto e indireto, uma atenção muito especial. Quando a gente entra no nosso negócio, especificamente, o potencial, ele cresce muito, porque a China tem certas limitações climáticas e de solo. Quer dizer, então, de novo, a capacidade deles produzirem celulose do tipo que nós produzimos, com a competência que nós produzimos, com o custo que a gente produz, é difícil - podem chegar lá na frente. Pelo outro lado, é um mercado consumidor vastíssimo. As pessoas tendem a falar um bilhão, um bilhão e 200 milhões de habitantes; eu nem olho a questão do 1 bilhão e 200, porque lógico... Quer dizer, nesses um bilhão e 200, hoje, o grupo que consome é pequeno. Mas se você tentar estratificar dentro desses um bilhão e 200, você vai começar a chegar a conclusão que hoje tem uma população de em torno de 250, 300 milhões de chineses, com uma capacidade, com uma renda per capta anual de cerca de 5 mil dólares, com uma diferença, com carências de demanda que não foram atendidas ainda. Não é como você estar no mercado mais desenvolvido, onde a pessoa está comprando o seu primeiro aparelho de televisão, seu primeiro rádio. Quer dizer, a China, tudo é primeiro pra todo mundo. Então, quando você olha um mercado de 250, 30 milhões de habitantes consumindo, é o maior mercado, consumo maior que muito país decente nesse mundo, quer dizer... Então não tenha dúvida que o caminho passa por lá. O caminho de desenvolvimento passa por lá. E isso tem sido, quer dizer, acelerado em função do projeto político que se estabeleceu de abertura. Quer dizer, abertura no sentido de investimentos e geração de produção, de demanda, essa coisa toda, como uma única forma de você dar sustentabilidade àquela população que, apesar de estar, ainda existe um crescimento vegetativo, que um bilhão e pouco é muita gente. Então a China, não tenho dúvida que é o mercado do futuro. A Ásia como um todo. Quer dizer, ela é uma população altamente educada, investimentos em educação sempre foram feitos, tanto o modelo socialista como outros modelos. Você pega países como Coreia que investiu maciçamente, vem investindo maciçamente em educação, então... Quer dizer, eles estão, eu diria que se for comparar com a América latina, eles estão na frente porque você tem uma população economicamente ativa educada, preparada em alguns níveis. Então o potencial é enorme em nós querermos estar lá. Nós queremos estar lá, e vamos estar com certeza. Já estamos. 

 

P/1 – Muto bem João Felipe, agora a gente está começando a caminhar pras questões finais. 

 

R – ____

 

P/1 – ____

 

P/2 – Seu João Felipe, você poderia explicar pra gente, ou descrever, como era a Aracruz? Superou diversas crises internacionais como a da Rússia, da Argentina, o próprio Brasil; e como isso tem influenciado o mercado de celulose? ___________

 

[Fim do depoimento]

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+