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História

Privilégio por participar da Petrobras

História de: Maurício França Rubem
Autor:
Publicado em: 18/12/2014

Sinopse

Maurício conta sobre sua infância em Parati, o concurso para entrar na Petrobrás, sua vida no sindicalismo, a faculdade de direito, episódios sobre seu casamento e filhos. Discorre sobre as greves que participou e coordenou, seu atual emprego na PETROS, seus sonhos para o futuro.

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História completa

Sou Maurício França Rubem. Nasci em Nova Iguaçu, no Estado do Rio de Janeiro, em 15 de junho de 1957.

FAMÍLIA

O nome do meu pai é Rui Rubem, e o da minha mãe, Terezinha França Rubem. Todos os dois eram oficiais de Justiça. O meu pai é falecido. A minha mãe pediu exoneração do Estado. Não exerce mais atividade de oficial de Justiça.

Meu avó materno, José Dias Chaves França, e avó materna, Dulcina Chaves França. Meus avós paternos, deixa eu ver se eu lembro. Jesuíno de Castro Rubem e Emília Rubem. O meu avô materno era comerciante. O meu avô paterno era escrivão. Era tabelião. Todo mundo era de nacionalidade brasileira. Meu bisavô é que me parece que era francês.

Não conheço a origem do meu sobrenome. Conversando com algumas pessoas, o Rubem parece que de origem judia.

INFÂNCIA

A minha infância foi toda em Parati. Uma infância típica de quem vive numa cidade do interior e que não se comunicava com o resto do mundo. Uma cidade histórica praiana na beira da Serra do Mar. Uma infância bem boa. Muita praia, muito futebol. Bem divertida.

PARATI

E a gente não tinha comunicação com o Estado do Rio na época da minha infância. Nós só nos comunicávamos por estrada com o Estado de São Paulo. E uma estrada muito ruim, que era uma serra. Quando chovia não passava nada. Então a comunicação era feita por mar com o Estado do Rio. Apesar de Parati ser do Estado do Rio, a nossa comunicação era pelo mar. Existiam os barcos, que transportavam principalmente banana, que era um produto da terra, e cachaça para o Estado do Rio. E tinha um barco que levava passageiros, que um dia vinha a Mangaratiba, no dia seguinte voltava para Parati. Bem isolado. Só no início da década de 70 é que foi feita a hoje Rio-Santos. As pessoas vinham ao Rio freqüentemente, pegava o barco, ia até Mangaratiba. Em Mangaratiba pegava o trem para o Rio de Janeiro. Ou pegava o ônibus para Guaratinguetá, na Via Dutra, e pegava um ônibus para o Rio de Janeiro.

Fiz algumas dessas viagens com meu pai. Era uma aventura, porque a gente pegava a barca cedo e chegava no Rio de Janeiro à noitinha. Esse barco de passageiro não tinha praticamente nada, nem uma lanchonete. Ele fazia uma parada em Angra dos Reis e num dos bairros de Parati para pegar mais passageiros, e ali é que tinha uns vendedores, a gente tomava, bebia alguma coisa ou comia alguma coisa. Era uma viagem segura. Em alguns momentos dava um pouquinho de medo por conta do mar estar revolto. Mas era seguro, porque a baía não tinha... Baía de Guanabara e baía de Angra dos Reis. Então mar aberto mesmo pegava pouco.

FAMÍLIA

Meu pai sempre foi oficial de Justiça, indicado. A minha mãe só mais tarde, a gente já mais quase adolescente, é que começou a trabalhar como oficial de Justiça concursada. Antes ela não exercia nenhuma profissão. Eu tenho dois irmãos mais novos do que eu.

Era uma vida boa, apesar de alguns problemas familiares. A gente tinha um problema sério com o alcoolismo do meu pai. Separação. Eu no momento estava com minha mãe, meus avós, e ele estava junto. Depois brigaram. É um pouco nesse negócio. Mas uma vida boa, em termos de qualidade de vida de infância.

Minha família estava estabelecida em Parati desde muito tempo. Desde os meus bisavós paternos. Maternos já eram aqui do Rio de Janeiro. Minha avó e meu avô eram daqui do Rio de Janeiro. Maternos. Paternos lá.

IMAGENS DA PETROBRAS

Eu sempre fui uma pessoa que gostei muito de ler. Desde pequeno conhecia a história da Petrobras, como ela foi criada, o movimento “O petróleo é Nosso”. Eu gostava muito de história, de ler muito. Eu sabia da história da Petrobras. Mas de interação com as atividades da Petrobras, em Parati não existia. Existia em Angra dos Reis, o terminal lá de Angra dos Reis. Mas a gente não tinha a dimensão disso. Eu sabia que tinha alguma coisa da Petrobras em Angra dos Reis. Mas Parati, nada. Nem imaginava o que era. Petrobras para mim era só história.

EDUCAÇÃO

A educação era uma questão muito importante para meus pais. Tanto que eu saí de Parati para poder estudar. Nós não tínhamos muita opção em Parati. Nós tínhamos um colégio particular, que era particular conveniado com a prefeitura. Então não era um colégio da prefeitura, era um colégio construído por um grande professor lá, mas que a gente não pagava porque era conveniado com a prefeitura. E depois de fazer o primário e o ginásio - o primário tinha uma escola da prefeitura, o ginásio era esse convênio. E depois do ginásio ou fazia o curso normal ou fazia o curso técnico de contabilidade. Como o comércio de Parati era muito pequeno para fazer contabilidade, ele já estava... já tinha contadores muitos em Parati, e normal não era o que eu queria.... não era a minha praia, eu fiz pressão para estudar fora. Eu saí de Parati para estudar em Barra Mansa, num primeiro momento, seis meses. E depois em Volta Redonda, onde eu fiz o curso técnico de química. Aí não foi uma coisa fácil, porque minha mãe não queria deixar eu sair. Mas também ela entendia que ficar em Parati seria uma... não tinha muita perspectiva de futuro.

INFÂNCIA

Eu sempre tive poucos amigos, mas eram amigos. Não tinha muita coisa de turma, mas quando era amizade, era amizade mesmo. Então isso gerava até um pouco de problema na infância, porque a turminha me pegava de vez em quando, porque eu estava meio metido.

Tínhamos atividade de infância. De infância é basicamente jogar bola e nadar na praia, passar o dia pescando, coisas que hoje não tem mais como fazer. Meus filhos, hoje eu fico olhando, só dentro do apartamento, no play, ou atividades em shopping e tal.

Parati era maravilhoso, paraíso. Eu saí de Parati para estudar.

EDUCAÇÃO

Eu fui estudar em Barra Mansa. Eu morei seis meses em Barra Mansa. Depois morei mais quatro anos em Volta Redonda, que é uma cidade perto. Fui morar com tios, fazendo curso técnico de química. Primeiro o curso básico em Barra Mansa. Colégio Baldomero Barbara, e depois também - aí já naquela coisa do curso profissionalizante - eu fui fazer o curso técnico de química no colégio Volta Redonda.

Não tinha ainda a perspectiva de trabalhar na Petrobras. Eu tinha a perspectiva de trabalhar ou na Petrobras, ou no Banco do Brasil, ou na Companhia Siderúrgica Nacional, naquelas grandes empresas que eram, todo o garoto recém-saído do colégio queria, vislumbrava trabalhar. Companhia Vale do Rio Doce, grandes estatais, Caixa Econômica Federal. Mas a minha opção, quando eu optei por química, que eu sempre gostei de química, negócio de experiência, essas coisas, eu já vislumbrava trabalhar aí, por conta da cidade, trabalhar na Companhia Siderúrgica Nacional. Em Volta Redonda tudo girava em função da Companhia Siderúrgica Nacional.

TRABALHO

Quando eu terminei o curso técnico de química eu tinha assim, na época, um pouco do final ainda do milagre econômico, nós tínhamos bastante opção. Quando eu terminei o curso eu fiz vários concursos para estágio. E tinha ainda algumas empresas que já tinham convênio com o colégio, e que você poderia optar. Eu lembro que já tinha a própria CSN, a própria Companhia Siderúrgica Nacional. Quem se destacasse no curso, automaticamente tinha já o emprego garantido na Companhia Siderúrgica Nacional por conta do convênio com o colégio. E eu me destaquei numa das matérias, eu tinha a possibilidade de trabalhar na CSN. Na Fábrica de Papel Piraí, em Barra do Piraí. Eu fiz concurso para a então subsidiária da Petrobras que é a Petroflex, a antiga fábrica de borracha. Eu fiz concurso, passei. Mas também fiz concurso para estágio na Petrobras e passei. Então dentre estas opções eu optei pela Petrobras. E durante o meu estágio - porque não era ainda um emprego, era um estágio -, durante o meu estágio aí abriu o concurso para a Petrobras. Então aí eu fiz o concurso. Passei, interrompi o meu estágio e passei a ser empregado da Petrobras.

 

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

No primeiro momento, não, eu sempre na área de química. Era analista, na época analista estagiário. Você tinha um período de um ano em que você tinha a tal da experiência. Teu contrato poderia ser rescindido a depender de uma avaliação no final de um ano. Então nesse primeiro momento analista estagiário. Aí passei pela fase de estágio e passei a ser analista químico, que era a antiga denominação. Hoje é técnico de química. Foi feita uma reformulação no quadro. Isso sempre na Refinaria Duque de Caxias. Desde que eu entrei há 26 anos atrás na Petrobras, sempre no mesmo lugar.

INGRESSO NA EMPRESA

Eu lembro do concurso. Eu morava em Volta Redonda e vinha ao Rio passar a semana entregando currículo, vendo onde tinha concurso. Eu morei logo de início com meus tios, que moravam em São João de Meriti, aqui na Baixada Fluminense, e tinha esse concurso da Petrobras para estágio, e eu fiquei assim: “Pôxa, é agora.” A Petrobras é a maior empresa do Brasil. Esforcei muito. E me lembro que eu pegava um ônibus de São João para Caxias e pegava um ônibus de Caxias para a refinaria, que era uma aventura. E minha primeira inscrição, tanto para fazer o estágio, eu digo que era prova de estágio - que era o estágio convênio com o Senai, Sesi, essas coisas - foi mais difícil que a prova para a própria Petrobras. A minha avaliação foi essa. E a prova foi dentro da própria refinaria, no refeitório da refinaria, e era muita gente. Eram dois mil no estágio, para 40 vagas, e para o concurso era um pouco mais. Eram cerca de quatro mil para 40 vagas. Então aquilo para mim foi muito gratificante. Eu achava que não passaria. Porque eu estudei em um colégio particular, colégio privado em Volta Redonda. Apesar do curso ser muito bom, mas a gente tinha aqui a Escola Técnica Federal de Química, aqui no Rio de Janeiro, que despejava assim os técnicos. De cada dez técnicos da Refinaria Duque de Caxias, nove eram da Escola Técnica Federal de Química. Então eu achava que eu não iria ter condição de concorrer. Eu achava que não ia conseguir passar. Tanto para o estágio quanto para o concurso. Mas aí fiz bem, fui bem colocado.

Lembro da prova como se fosse hoje, lá no refeitório. Um pouco é que aquilo, meio que, eu não digo caipirão, porque eu nunca fui caipirão, mas assim do interior, bastante na defensiva, no meu canto, porque aqui tudo do Rio aqui era, pessoal da escola técnica “Nós já passamos” e eu vou fazer minha prova. Achava que ia ficar lá em último lugar. Mas não. O meu colégio era muito bom. Depois eu fui perceber que o meu colégio de técnico era um dos que tinham o maior conceito no Estado do Rio. Mas eu não tinha esta dimensão. E passei, eu e mais um colega que estava no colégio Volta Redonda. Quando eu entrei já tinha uma turma anterior que também tinha uns dois do colégio Volta Redonda. Aí eu comecei a ter a dimensão do meu curso. Mas na prova para Petrobras eu lembro que eu fiquei assim muito assustado. Na prova de estágio não, porque estágio, se eu não arrumasse aqui, eu já tinha estágio garantido na CSN e até a mesma promessa de emprego. Tinha estágio na Papel Piraí. Já tinha passado no concurso para a Petroflex. Então eu tinha um leque de opções para estágio. Agora, quando foi para fazer para emprego, aí eu fiquei meio apavorado assim. Eu tinha 19 anos quando eu fiz este concurso.

Não lembro de nenhuma questão específica. Eu lembro isso que eu estou te falando. A prova para o concurso foi mais fácil do que a prova para o estágio.

Eu estava nervoso. Alguns não, até porque eu vi muitos colegas que tinham uma situação bastante diferenciada da minha, porque eu estudava fora com dificuldade. Minha mãe é que sustentava o meu curso fora. Não só a mim, mas o meu irmão também, um ano mais novo do que eu. Ele foi estudar em São José dos Campos também, numa escola pública. Então era uma dificuldade, porque o salário do meu pai era para uma outra coisa. Então a minha mãe é que segurava a barra para mandar todo mês um dinheiro para gente poder viver. E os meus tios tinham uma vida boa, mas não sobrava para mim. Então no concurso eu pensei um pouco nisso, na dificuldade. Eu estudei num colégio do interior, a gente achava que não era um bom colégio. Depois eu fui para estudar num colégio de curso técnico privado, que também achava, comparando com a Escola Técnica Federal de Química, que a gente não ia ter muito sucesso. Então eu estava muito angustiado, muito nervoso. Já a turma não. E na época emprego não era difícil. A gente tinha final do... Era o finalzinho do milagre econômico. Tinha trabalho. A gente não tinha muita dificuldade.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

No estágio eu não fiquei dentro da Refinaria Duque de Caxias. Apesar de estar vinculado à Refinaria Duque de Caxias, mas fora da refinaria tinha a fábrica de lubrificantes, a Lubrax. Então o meu estágio foi sendo feito ali, os três primeiros meses. Aí veio a prova, aí eu fiz concurso para a refinaria e passei. Aí eu fui trabalhar dentro da refinaria, aí dentro do laboratório da refinaria. E eu trabalhei, eu estava no período probatório. Porque você fazia três meses de curso teórico e depois mais um mês de prática. Ou seja, aí você se incorporava ao grupamento de trabalho, seja em turno, seja no administrativo. Em turno, naqueles onde não pára, contínuo. A gente chama de turno ininterrupto de revezamento. E durante o meu curso eu fiquei em terceiro lugar. Então quem ficasse até os três primeiros lugares tinha a opção de escolher se ia trabalhar no horário administrativo ou se ia trabalhar em turno. E na minha cabeça para mim ficava: “Não, trabalhar em turno eu não vou. Quem trabalha de noite é formiga. E menos eu.” Mas no meu ano de estágio, logo assim no primeiro momento do estágio, eu perdi o meu pai. Aí eu quis trazer todo mundo para o Rio de Janeiro. Aí eu tive que optar para o turno, porque o salário era maior. Aí eu fui obrigado a trabalhar em turno por conta dessa condição e não saí mais. Aí trabalhei 17 anos em turno de revezamento, que é uma vida bastante difícil. Você tem um calendário.

PROCEDIMENTOS DE TRABALHO

Bom, em 1976, quando eu comecei, 77. 76 eu entrei para Petrobras, em 77 eu já comecei a trabalhar em turno. Na época eram quatro grupos de turno se revezando. Três trabalhando e um de folga. Eram turnos de oito horas. Então uma turma pegava à meia-noite, largava às oito horas da manhã. A outra turma pegava às oito horas da manhã, largava às 16. E a outra, a última, das 16 às 24. E ficava uma turma de folga. Então a gente só tinha um final de semana a cada 45 dias mais ou menos. Nos outros finais de semana a gente estava sempre trabalhando. Aí então a vida social era muito difícil. Quando todo mundo estava passeando no final de semana a gente estava trabalhando. E isso às vezes ficava com muito problema de saúde e muito problema psicológico. Tem colega nosso que não agüenta trabalhar em turno.

SEGURANÇA DO TRABALHO

Eu tenho uma pequena perda auditiva no ouvido direito, que a gente desconfia que seja do trabalho, sim. Eles dizem que não. O médico diz que não. Mas a gente fazia muitas análises embaixo de fornos, e aí tinha que usar abafador. Aquilo incomodava, às vezes você tirava. E aí no tirar você ficava exposto ao ruído acima de 90 decibéis, que aí afetava. E às vezes nem o próprio protetor auricular dava conta. E você, jovem, não queria saber da conseqüência.

Nós temos problemas, nós temos problemas quanto a segurança no trabalho. E uma das coisas que me levaram ao movimento sindical foi às vezes as condições. Apesar de que, para a época a Petrobras é muito diferente das outras empresas, pelo que a gente constatava. As condições de trabalho eram superiores a todas as empresas que a gente conhecia.

PROCEDIMENTOS DE TRABALHO

O turno não é sem folga. A gente trabalhava assim, deixa eu ver se eu lembro todo o ciclo completo. A gente ficava num final de semana de folga. Então segunda-feira a gente pegava às 16h. A gente tinha saído de folga na sexta-feira de manhã, às 8h. Então ficava um período do que a gente chamava de folgão, que era a alegria nossa, alegria de vida. A gente queria fazer tudo que a gente não fazia nos outros três finais de semana. Então voltava às 16h na segunda-feira, trabalhava quatro dias seguidos de 16h à meia noite. Na quinta-feira a gente largava à meia-noite e pegava no sábado à zero hora. Então a gente ficava um período de 24 horas em casa. Isso a gente chamava a tal da dobradinha, que era um suplício, porque a gente saía à meia-noite, ia dormir tarde, às vezes não conseguia dormir, você tinha que passar o dia pelo menos descansando para pegar à noite. A gente trabalhava sábado de meia-noite às 8h da manhã, domingo de meia-noite às 8h da manhã, e segunda-feira de meia-noite às 8h da manhã. Aí saía uma folga, aí passava terça de folga, quarta. Aí pegava na quinta-feira às 8h da manhã. Aí seguia sete dias direto. Aí era quinta, sexta, sábado, domingo, segunda, terça. Aí a gente saía para folga numa quarta-feira. Aí pegava às 15h horas na sexta-feira e trabalhava esse final de semana todo, sempre às 15h. Aí trocava, na semana seguinte a gente pegava à meia-noite. Aí eram quatro dias. Aí a gente marcava. Todo mundo que trabalhava em turno era assim.

Eu trabalhava num apoio à produção, porque o laboratório... Mas não só eu como o contingente; eram cerca de 250 trabalhadores por turno. Apoio à produção é tudo aquilo que não está  envolvido diretamente no refino do petróleo. O pessoal da segurança, no caso de uma emergência, esse é apoio à produção. Laboratório, o pessoal de manutenção. Deu um problema numa bomba, ou um eletricista. Isso é chamado apoio à produção. Quem trabalha na produção direto é quem trabalha com as unidades de destilação, refinação, são várias unidades que tem na produção. Então por isso que a gente chamava apoio à produção.

Qual é o apoio à produção? Os operadores operavam as unidades, dessas saíam alguns produtos, e a gente analisava esses produtos para ver se estavam dentro das especificações com que deveriam sair. A nossa função era essa: ver onde estava o desvio. Aí comunicava com a produção: “Olha, tem que fazer um ajuste aqui, porque o produto não está com uma boa qualidade.” Então essa é a nossa função no laboratório. Por isso é que é apoio à produção, não envolvido diretamente na produção. Controle de qualidade. O meu setor era chamado SECQ, Setor de Controle de Qualidade.

RELAÇÕES DE TRABALHO

O local de trabalho são duas vertentes. Um ambiente muito bom. Rapaziada muito legal. Até porque a gente precisava ser solidário. Isso juntava a gente, porque a gente criava uma amizade muito grande entre nós. Porque, como a gente vivia um pouco à margem da vida social, nós tínhamos que fazer a nossa vida social. Então a gente casava muito cedo. Entrava para a Petrobras, e tinha condição de montar família, então quase todo mundo era casado. Então a gente tinha atividades em grupo com casais. Por conta de que a gente tinha os finais de semana nossos sempre com ocupação. Então nas folgas de meio de semana a gente procurava sair juntos, um passeio. Esse era o ambiente. Agora, a condição do trabalho era uma condição bastante insalubre. Por conta da própria condição de trabalho. A gente trabalhava com muito produto químico. Então tinha alguns cuidados que tinham que ser tomados. Mas era uma condição insalubre. Tanto que a gente recebe um adicional de periculosidade. O trabalho, além de ser periculoso, é um trabalho insalubre. A gente tinha que ter alguns cuidados no manuseio de produtos químicos, o que é inerente à atividade de analista químico. Tem apoio da área médica, no turno tem até hoje. Sempre técnicos de enfermagem. E instruções, isso tem que fazer, porque senão a gente estava arriscado a sofrer algum tipo de acidente.

 

ATIVIDADE SINDICAL

Sim, aí a gente começa aquela nossa vida. Vê uma coisa errada que questiona, aí o teu colega vê que você é uma pessoa que observa e questiona. Aí já te elege para Comissão Interna de Prevenção de Acidentes, Cipa. Aí você já passa a ser referência. Aí, sendo referência, você já começa a fazer os embates com a chefia, com gerentes. Você passa a ser o alvo, canalizar as insatisfações. E por ser ou articulado, ou por ser combativo você começa a se destacar, e aí foi que iniciou minha vida sindical.

Cipa, e a gente chamava lá de Grupos de Trabalho. A gente contava, quando tinha alguns problemas, a gente: “Bom, tem problema com determinado local que a gente acha que está inseguro.” A gente montava os grupos, e eu sempre era indicado para fazer parte desse grupo. Que era uma coisa de iniciativa nossa, à margem do oficialismo. O oficialismo era a Cipa. E eu era um dos mentores desse grupo. Já que a gente não consegue resolver, nós íamos tentar resolver nós mesmos. A gente criava grupo de trabalho para ou fazer...

Olha, por incrível que pareça, a primeira mobilização minha não foi uma coisa assim muito... vamos dizer... Eu me lembro que a primeira grande mobilização que eu, primeira grande não, a primeira coisa que chamou a atenção foi que eu comecei a mobilizar o pessoal porque a gente ia trabalhar, no calor no Rio de Janeiro, a gente ia trabalhar de calça comprida, camisa e tal. E depois a gente vestia o macacão, no caso dos operadores, e nós a roupa apropriada, ou o jaleco que a gente chama. Então eu observei que a gente pegava um ônibus, e o ônibus levava quase a gente dentro do setor, da unidade. Então eu comecei a reivindicar que a gente pudesse ir de bermuda.

Algumas instalações na Reduc tinham ar-condicionado. A nossa particularmente, lá na refinaria, nós tínhamos um problema com o ar-refrigerado. Essa depois foi uma das brigas que eu também - porque a gente trabalhava com altas temperaturas e além de não ter o ar-refrigerado ainda tinha os aparelhos com alta temperatura. Mas essa iniciativa não foi por conta do local, não. É que no trajeto a gente queria ir à vontade. Aí eles não deixaram. E eu sabia que tinha algumas empresas, como a Companhia Estadual do Gás, que os operadores trabalhavam em turno e iam de bermuda e de sandália.

Mas eu não consegui que os funcionários pudessem entrar de short. Estas primeiras reivindicações não deram em nada. Mas deram na mobilização, a partir daí foi a referência.

Então essa foi a primeira iniciativa que eu tomei no sentido de organizar o pessoal para reivindicar alguma coisa. Reivindicar em grupo. Porque eu reivindicava às vezes individualmente coisas que eu achava que estavam erradas.

SEGURANÇA DO TRABALHO

Andar de sandália não podia, porque é proibido mesmo por norma de segurança. Você precisa andar de sapato de couro fechado nas unidades. Por conta de, solado de borracha, você precisa ter por conta de deslizar. Tem sempre um óleo. E tem sempre uma pá, alguma coisa que pode trazer uma contusão.

Depois a partir disso aí foi problema com o ar-condicionado. A gente trabalhava com aparelhos que - tinha que fazer análise com aparelhos que chegavam a 150 graus. Nós tínhamos uma tal de sala de fulgor. No fulgor você elevava a temperatura do produto e passava uma pequena chama para ele dar um flash, que é o ponto que a partir dali o combustível ou o produto entra em ignição. E tinha produtos que chegavam a 350 graus, como o asfalto. Então aquilo tudo eram quatro aquecedores, então quando você fazia dois fulgores de asfalto, você imagina a temperatura, e não tinha ar-condicionado para isto.

A gente usava uma máscara, no caso de espirrar o produto, ou ter água. Porque às vezes você aquece, o produto tem água, então é como se caísse óleo. Água no óleo de quem está fritando. A gente usava o jaleco de pano mesmo. De brim. Eu tenho inclusive uma, com um ano de Petrobras eu sofri um acidente por causa deste fulgor. Eu tenho uma mancha aqui na mão. Fiquei um mês afastado. Porque você fazia a análise e depois tinha que lavar essa cuba, era uma cuba de ferro. E tinha um local apropriado para despejar este material quente. Porque se você deixasse esfriar, o asfalto endurecia e aí você ia gastar rios de detergente. A gente usava nafta. Então a gente aproveitava que estava quente ainda e despejava, e ali era mais fácil fazer. Nesse que eu fui despejar, algum colega deve ter colocado um produto mais leve. Então, quando eu despejei o produto quente, veio um fogaréu, eu me assustei, porque quando eu puxei a cuba ainda tinha um resíduo. Não era asfalto. A minha sorte é que não era asfalto. Era parafina. Então a parafina bateu aqui. Ela endureceu.

É, a gente não podia usar luva. Nessa análise a gente não usava luva. Porque a luva tira um pouco a percepção. Então, na hora de despejar. Quer dizer, na verdade eu fiz um procedimento correto, mas alguém jogou um produto mais leve. Então um produto mais quente em cima de um produto mais leve, aí levou à ignição do produto mais leve.

ATIVIDADE SINDICAL

Eu demorei a chegar na Cipa. Aí, antes de passar na Cipa eu, não sei se vocês se lembram, mas tinha um, a gente importava um, ainda importa muito essas coisas do estrangeiro. Então aqui tinha um tal do CCQ. Não sei se vocês chegaram a ouvir falar. Círculo de Controle da Qualidade. No Japão, foi o causador do crescimento econômico do Japão. Então eu fui indicado para fazer parte do Círculo de Controle da Qualidade. Que aí também via um pouco dessa área de segurança. E Cipa foi bem depois. Porque eu não, eu gostava que, eu não queria eu só, eu sempre trabalhei em conjunto. Além de ser referência, mas eu nunca gostava de ser aquela coisa de uma pessoa só ser a referência, era fácil de anular. Era fácil. Eu vou transferir. Então eu sempre procurava fazer com que todo mundo. Porque você pode ficar na Cipa direto. Então quando me chamavam para Cipa: “Não, mas acho que você é que tem que ir. Eu vou ficar aqui nessa área de grupo de trabalho.” Eu sempre trabalhei nesse sentido. Mas eu cheguei a ser da Cipa dois mandatos. Eu fui quase que concomitante entre Cipa e movimento sindical.

MILITÂNCIA

Eu já tinha, quando eu fui para Petrobras eu já tinha uma formação, eu não diria que era de militância, porque eu não tinha tempo para fazer militância. Eu sempre, desde que aprendi a me virar, desde os dez anos eu trabalho. Então sempre tinha uma atividade. E quando eu fui morar em Volta Redonda eu me virava também. Não era carteira assinada, mas eu era cobrador de casa de saúde. Então todo mês, isso não era registrado, mas era um dinheirinho que eu... Então eu não tinha tempo para militância. Então eu tinha tempo, eu só tinha formação teórica adquirida na Igreja. Eu morava nos fundos da Diocese de Volta Redonda cujo bispo era dom Valdir Calheiros, que era um dos históricos, dos progressistas da Igreja Católica, e que tinha as CEBs, as Comunidades Eclesiais de Base. É que nós tínhamos três bispos progressistas no Estado do Rio.

O ano? Mil, novecentos... final da década de setenta. Não, início da década de 70. 70, 75 foi quando eu morei em Volta Redonda, esse período. Barra Mansa e Volta Redonda. Eu morei quatro anos nos fundos da diocese, e nós tínhamos as CEBs. E aos domingos e sábados eu freqüentava. Aí estava no início da teologia da libertação, frei Betto, Leonardo Boff, estas coisas toda. Eu conheci o Leonardo Boff.

Mas com os bispos progressistas, não precisava nem Leonardo Boff lá. Era dom Valdir Calheiros em Volta Redonda, dom Adriano Hipólito em Nova Iguaçu, que chegou a ser seqüestrado. Não sei se você se lembra desta história. E em Duque de Caxias depois, por uma outra causa, eu vim a ter contato com dom Mauro Morelli. Que era um triunvirato da igreja progressista aqui no Rio de Janeiro.

SINDIPETRO DUQUE DE CAXIAS

GREVE DE 83

Então eu já tinha um acúmulo sobre esta questão, uma formação boa neste aspecto, mas que eu procurei esconder quando eu entrei para a Petrobras. Porque ainda estava na ditadura militar, tinha sempre aquela referência, mãe e pai. “Cuidado, que tinha uns colegas.” Bom... Então eu sempre procurei me resguardar. Mas já tinha uma história. Foi na época da revolução da Nicarágua, aquela coisa toda. Eu acompanhava isto, gostava muito disso. E a primeira grande... acompanhava as coisas assim. CUT, formação da CUT, Lula, Jair Meneguelli, tudo. Mas quieto no meu canto. Aí em 1983 estourou uma greve de petroleiros em Paulínia, na Refinaria de Paulínia, e Mataripe na Bahia. Que foi ali greve de metalúrgico, criação de CUT, e essas duas refinarias estavam em greve por conta de um decreto do então general ditador Figueiredo, que apontava a privatização da Petrobras. E essas duas refinarias entraram em greve, foram cerca de 300 demissões, distribuídas. E eu me lembro que tinha uma assembléia lá na Refinaria Duque de Caxias. E nesse dia eu não me segurei e peguei no microfone pela primeira vez, e defendi a entrada da refinaria na greve também. E fui derrotado, porque a direção do sindicato não queria nada, era alinhada com a direção da Petrobras. E eu fui fragosamente derrotado. Mas aí, daí para frente eu voltei a me afastar, mas aí comecei a virar referência. Então eu fui convidado para ser diretor de um determinado período. Não fui. Logo em seguida teve eleição, eu não quis me candidatar. Em 86 também, fui convidado novamente. Aí ajudei na eleição desta mesma chapa. Ganhamos a eleição.

A liderança era basicamente, aí já uma liderança do Partido dos Trabalhadores, que era minoria. E muitos do Partidão, do PCB, que era a base da chapa. E eu já simpatizante do Partido dos Trabalhadores. Eu não entrei nesta chapa, mas ajudei a vitória da chapa. Isso em 1986. Depois o nosso grupo, eu estou dizendo o nosso grupo, mas eu ainda não tinha atividade política, eu era simpatizante do PT. Só vim a me filiar mais tarde. Rachou com o Partidão. Nós criamos depois um grupo, e em 1988, aí eu ajudei, fui um dos fundadores de um grupo intitulado de oposição à direção do sindicato chamado Transparência Sindical. O nome é por conta da, a gente achava que era tudo muito obscuro e tal. Então a gente queria transparência. Até por conta de uma greve em 88 de 11 dias que a greve terminou assim de uma maneira até hoje mal explicada. A gente criou este grupo em 88.

GREVE

1988

Em 88 foi a primeira grande greve. Em 86 nós tínhamos feito uma greve de dois dias, uma greve geral convocada na Reduc. Aí em 86 teve uma greve de dois dias. Nós fizemos. Nós, que eu estou dizendo, a refinaria como um todo. Mas no meu setor, eu era um dos poucos que fizeram a greve. E em 88 teve uma greve grande. Aí já tinha CUT e já tinha um movimento na base dos sindicatos petroleiros de oposições cutistas. Aí eu comecei também a me ligar aos companheiros da CUT. Em 88 estourou esta greve. Em novembro de 88. Era uma greve de 11 dias. E eu tive uma participação muito intensa nessa greve. Foi a greve em que a gente não precisava entrar nos ônibus para chamar o pessoal para descer. Foi uma greve espontânea. Foi uma combinação entre o que aconteceu na CSN, não sei se vocês se lembram, que o Exército, tinha uma greve lá também pelo turno de seis horas, que era uma luta nossa também. Então nesse dia que o Exército ocupou a CSN, que os metalúrgicos estavam em greve e ocorreu o assassinato de três companheiros lá; com uma decisão do Tribunal Superior do Trabalho que tinha dado um reajuste para gente de 4%. Quando para o Banco do Brasil umas duas semanas antes tinha dado um reajuste maior que 50%. Aí aquilo juntou a fome com a vontade de comer. Então a gente foi para o início da Washington Luís aqui, da avenida. Nós parávamos os ônibus ali para evitar que chegassem os ônibus até a refinaria. E começamos a chamar o pessoal para descer. E foi uma greve assim como que espontânea. O pessoal muito revoltado. E a partir dali o sindicato perdeu o controle da greve. Nós já começávamos a dar, a ganhar as assembléias, como dizia. Quer dizer, as propostas eram basicamente as nossas. E aí nós passamos a ser referência. Foi por isso que logo em seguida nós, no finalzinho de 88, que nós criamos a Transparência Sindical, aí com um grupo mesmo de grevistas e pessoas que estavam à frente da greve. Esta greve durou 11 dias. Foi quase uma greve nacional.

Em 88 era Sarney. Final do governo Sarney. Então foi uma greve muito... E a gente ficava assim. Porque a história dizia que, a história lá na refinaria, que a gente não podia fazer greve, que era a segurança nacional. Na época inclusive Duque de Caxias era, não elegia o prefeito porque era área de segurança nacional por conta da refinaria. E militares ocuparam a refinaria. Já na greve de 86, de dois dias, o Exército tinha ocupado a refinaria. Então tinha assim: “Olha, vai acontecer isto e tal.” Mas dizia que não ficava mais de dois dias de greve porque a pancada comia. E essa greve durou, e paramos a produção. Foi a primeira vez que nós paramos a produção na refinaria. Que eu lembre, depois de 64 foi a primeira vez que nós paramos.

A greve durou por conta do momento político que se vivia. E a gente estava numa campanha salarial, e nossas campanhas salariais geralmente desaguavam no Tribunal Superior do Trabalho, por conta do impasse. Então nesse dia que o TST julgou, e julgou de uma maneira para nós absurda, porque a nossa referência eram sempre as empresas estatais. O Banco do Brasil ele tinha julgado de uma outra maneira. Era uma reposição alta. E para nós só 4%. E no dia exatamente que o Exército tinha entrado em Volta Redonda. Então isto gerou uma comoção muito grande. Aí a greve foi, e foi a primeira vez que nós paramos a produção. Porque até então greve de dois dias a gente não parava a produção. O pessoal do administrativo não ia, parcela dele, porque a gente não conseguia nunca uma greve de 100%. Mas uma boa parcela do administrativo não ia. E os dois turnos não entravam. Ficava um turno lá dentro. Então este turno tocava a produção direto. Ficava mais de 24 horas lá dentro.

 

É. Para essa greve pequena, era não deixar. Porque no passado a gente tinha essa coisa de parar a produção, e retomar é sempre um problema e um risco. O parar a produção e o retomar a produção são sempre um risco. E em 88 nós paramos a produção. A maioria das unidades foram paradas. É bom que a gente escutava, a gente tinha os nossos informantes. E na greve de 88 foi assim: “Agora a gente vai conquistar porque os aviões não estão, a maioria deles indo para o Galeão.” Porque a refinaria enviava querosene de aviação para o Galeão. E a gente escutava o operador, com um esquema de rádio, o operador do Galeão pedindo combustível. E eu da refinaria: “Não tem mais combustível.” E aí os aviões já começavam a fazer rotas alternativas para procurar combustível. E aí teve uma jogada lá com o governo federal, mais as lideranças do sindicato. Parte, porque a gente já tinha parte dos sindicatos filiados à CUT e partes filiadas a... Não tinha filiação à outra central, à nova. Só o nosso sindicato é que depois, no finalzinho de 88, ele se filiou à CGT. Era na época, depois, do nosso ministro do trabalho, o Magri. Então em 88 nós chegamos a parar em vários lugares do país. A produção em algumas a gente não conseguiu parar. Algumas refinarias nós não conseguimos parar. E a Reduc começou a ser referência também, que nós conseguimos parar a produção. E basicamente foi um trabalho da oposição, chamada oposição, que depois se tornou oficial com a criação da Transparência Sindical.

Durante a greve eu ficava lá direto. Direto. Minha companheira ficava doida, porque a gente ia de manhã para parar o turno que estava chegando, ficava lá, acampava, colocava barraca, sanduíche de mortadela, pão para... E de tarde, para também esperar o grupo que estava chegando. Porque a gente montava plantão lá. A gente ficava no convencimento. Sempre um vazava e entrava. A maioria ficava do lado de fora. Então era direto, enquanto durasse a greve. E dali ia paras assembléias em Caxias, de noite. Todo dia a gente fazia assembléia. “A greve continua.” E aí chegou um limite porque aí já estava...

Não era chamado de piquete, chamava de convencimento. Então a greve de 88 foi isso. Foi a primeira grande greve no sistema Petrobras após 64. Antes de 64 já tinha tido greve.

O ganho dessa greve foi a nossa organização em fazer a greve. Ali a gente começou a emparedar as direções sindicais alinhadas com a direção da Petrobras e com o governo. Alinhado no sentido de fazer as negociações que não interessavam à gente, aos trabalhadores. Então aí com essa greve nós passamos a... A partir dali, hoje todos os sindicatos de petroleiros ligados à Petrobras são filiados à CUT. Muito por conta dessa... Em 88 já tinha, metade era filiado, metade não.

Vamos dizer, nós tínhamos as direções sindicais chamadas progressistas, que eram vinculadas à Central Única dos Trabalhadores, e tinha os dirigentes sindicais antigos. Pelegos. Essa é a palavra. Pelegos. Para nós eram pelegos. Que eram alinhados à direção da empresa. E ao governo também.

Essa greve de 88, aí na negociação a gente tinha um compromisso, estava colocando a direção da Petrobras e o governo na parede. Estava começando a faltar combustível. E houve uma negociação entre o general na época do SNI, esqueço o nome dele. O SNI que estava negociando. O Ministério das Minas e Energia. E dois interlocutores do sindicato, dois dirigentes de sindicatos que não da CUT, tiraram uma proposta lá e divulgaram esta proposta. E essa proposta atendia aos trabalhadores. E teve um único problema na nossa assembléia, porque ele tentou manobrar a assembléia. O gerente sindical chegou a apanhar lá. Isso eram muitos dias de greve. E tinha naquela época, em 88, ainda tinha uma pressão muito grande da família. Greve, ditadura. Então a pressão da família e a base começava a pressionar. “Vamos parar com a greve, tal.” Ameaça de demissão. Exército dentro das refinarias. Aquilo ajudou, e um certo desgaste. Aí tinha uma proposta melhor do que a gente tinha antes do início da greve. Então acabou isso levando a que algumas unidades saíssem da greve. E aquilo, aí é cascata. Vamos ficar sozinhos. Então na greve de 88 houve uma manobra no sentido de buscar uma proposta que não era, não nos interessava. A gente já tinha tido uma proposta melhor, mas que os sindicatos ligados a essas direções, nas suas assembléias, onde eles tinham o controle, aprovaram o final da greve. Lá em Caxias o dirigente sindical estava no muro do sindicato comandando a assembléia, e numa manobra dele lá um colega nosso não gostou e deu um tapa nele. Aí a partir dali a greve começou... Porque a direção sindical, que tem a representação, está encaminhando a greve, você começa a perder enquanto oposição, a legitimidade. As ameaças. “Não, porque se continuar a greve, aí vem julgamento do tribunal. E aí pode demitir.” E aí começa o convencimento contrário à continuidade da greve.

ATIVIDADE SINDICAL

Não, eu sempre fui aquela referência de organização. Depois eu passei a ser a referência de interlocução. O pessoal sempre me indicava. “Ó, tem que negociar com o superintendente da Reduc.” Eu era o interlocutor. Eu não era considerado radical, então o pessoal sempre me indicava para fazer, buscar uma solução, uma proposta. Aí já na oposição a gente tinha acesso direto à alta gerência.

Olha, eu vou te dizer que eu tive vários momentos com altas personalidades, inclusive com o presidente da república. Mas aí já na Federação Única dos Petroleiros. Foi em 94, na greve de 94 e na greve de 95. Mas a gente já tinha tido greves anteriores, com o Collor. A gente fez uma greve quando o Collor demitiu em todo o país. A gente fez uma greve grande de 20 dias. Mas eu não era a direção. Eu era a oposição ainda. Nós só viemos a ganhar, nós perdemos... Porque nós organizamos um grupo chamado Transparência Sindical no final de 88. E disputamos a eleição em abril de 89 e perdemos a eleição. E mantivemos a oposição. Era considerada pelos petroleiros em nível nacional a oposição mais organizada do país. Porque nós tínhamos toda semana um boletim de oposição, nós tínhamos finanças próprias, porque cada companheiro que fazia parte tirava um percentual do seu salário para a oposição. Nós tínhamos articulação com os sindicatos ligados à CUT que nos apoiavam. Então em 89 nós perdemos a eleição. Mas na prática nós tínhamos a condução da categoria. E só viemos ganhar a eleição três anos depois, em 92. Aí já éramos direção mesmo de fato. Só foi outorgado pela categoria formalmente.

GREVE

1989

Depois de 88 nós tivemos uma greve. Aí vem um pouco da história. Aí é particular mesmo da nossa história na Refinaria de Duque de Caxias. Nós, depois desta greve de 88, nós ganhamos uma certa projeção. Nós, que eu estou dizendo, o pessoal que acreditava na oposição ao sindicato. Nós perdemos a eleição em 89 por conta de umas manobras lá. A gente sabia que ia perder. Eu particularmente sabia que ia perder a eleição. Aquela coisa de CUT ainda em nós. Era uma oposição cutista. Antigamente as oposições cutistas escondiam um pouco o que era, que tinha o apoio da CUT, porque a CUT era vermelhinha, barbudinha, comunista e tal. E nós não, nós optamos por fazer uma oposição assumidamente cutista. E isso também criou uma admiração pelos sindicatos cutistas. Nosso primeiro boletim, é uma pena, senão eu tinha resgatado isto. Nosso primeiro boletim foi “O que é a CUT e porque somos cutistas.” O primeiro boletim nosso de oposição. Então a partir dali nós nos credenciamos, nós éramos referência. Apesar de ter perdido a eleição em abril de 89. Bom, em abril de 89, voltando um pouco, em 88 nós um pouco consolidamos uma vitória, uma antiga reivindicação dos trabalhadores petroleiros, que não era só de trabalhadores da Petrobras, mas principalmente de petroleiros, que era um turno de seis horas. A gente trabalhava em quatro turnos de oito horas, e a Constituição foi mudada em 88 e garantiu lá que no turno ininterrupto de revezamento a jornada era de seis horas, salvo acordo coletivo. Porque a gente reivindicava jornada de seis horas, que para nós turno de revezamento era muito estressante oito horas. E tinha uma refinaria no país, que era a Refinaria de Cubatão, que trabalhava seis horas. Só que a gente queria um turno reduzido, mas com mais folga. Então precisaria de mais uma turma. Em vez de cinco turmas, seis turmas, onde quatro trabalhariam e duas ficariam de folga. E essa luta desaguou na Constituição, foi uma vitória muito grande para nós petroleiros, para petroquímicos, para metalúrgicos que trabalham em rodízio. Mas a Petrobras não implantava o turno de seis horas. Ou queria implantar nos moldes de Cubatão, que eram cinco turmas. E o turno de seis horas com cinco turmas você tinha uma jornada reduzida diária mas tinha menos folga. Então as refinarias que eram longe do domicílio do trabalhador, você perdia muito tempo entre a ida e a volta. Eles preferiam trabalhar, ou perder um pouco mais do dia, mas ter mais tempo de folga. Isso gerou uma série de discussões no movimento sindical. Mas a Petrobras não implantava o turno de seis horas nos moldes que a gente queria. E em São José dos Campos estourou uma greve de 21 dias, uma greve muito forte, porque lá eles tinham uma discussão muito mais avançada sobre o turno de seis horas. O pessoal assimilou bem. Eu lembro que eu fui lá, porque nós éramos oposição, eu cheguei: “Nós precisamos ir lá em São José dos Campos”. Por acaso eu estou indo hoje para São José dos Campos, amanhã lá no sindicato, vou fazer uma palestra no sindicato. Eu lembro que eu fui, mais alguns companheiros da oposição de Duque de Caxias, para solidarizar com a greve, levar o apoio da oposição e dos trabalhadores de Caxias à greve. E no dia que nós chegamos lá era o dia justamente da assembléia que estava terminando a greve. O pessoal num baixo astral. Vinte e um dias de greve. Tinha tido mais de duas dezenas de demissões. E a greve acabou negociando o retorno do pessoal. E tinha uma discussão sobre turno de seis horas. Isso foi em abril de 89. E a liderança do nosso sindicato, quando estourou esta greve, dizia que os camaradas lá, os companheiros de São José dos Campos, que eram malucos, porque não existia essa coisa de turno de seis horas com seis grupos, que a jornada tinha que ser seis horas, mas com cinco grupos. Eu sei que, independente desta discussão, a Reduc acabou indo para uma greve em outubro de 89. Uma greve que durou... foi a maior greve do sistema Petrobras, ela durou 52 dias. Na nossa avaliação era uma greve também pelo turno de seis horas. A gente queria ver implantado o turno de seis horas. O sindicato um pouco que puxou a greve, mas já não tinha muita credibilidade na base, a direção do sindicato. A nossa avaliação é que a direção do sindicato pretendia iniciar uma greve com pouca duração de tempo e depois levar a decisão para o Tribunal Regional do Trabalho. Só que nós tínhamos o controle da assembléia enquanto oposição, e nós... mas também tinha uma parcela da categoria, que não nos via com bons olhos. Tanto que nós tínhamos perdido a eleição, por ser da CUT. E nós decidimos que nós não íamos forçar a barra para a greve, ou seja, alimentar a greve, porque a gente sabia que era uma greve que já tinha tido a experiência em São José dos Campos. E São José dos Campos já era um sindicato ligado à CUT. Nós já tínhamos uma experiência. Sabíamos que dificilmente a Petrobras ia ceder nas nossas reivindicações, turno de seis grupos por seis horas. Tinha uma pressão do empresariado que já tinha feito uma pressão na Constituição para não aprovar o turno de seis horas. A gente sabia que a correlação de forças ia ser muito grande, ainda mais numa refinaria só. E que a gente ia levar pancada. E que nós não íamos fazer intervenção nas assembléias. Diferentemente, nós escolhemos algumas lideranças que não eram lideranças sindicais, mas tinham credibilidade e respeito pela base, e criamos uma comissão de base, com gente de nossa confiança, com credibilidade. Só que aí esses companheiros nossos acabaram sendo muito radicais para o nosso gosto. Porque achavam que aquilo é um direito, e direito é direito, não se negocia. E a greve foi se alimentando por si só. Eu sei que se passaram primeiro 15 dias. Já tinha uma dezena de demissões. Passaram 30 dias, já tinha duas dezenas de demissões. E a gente querendo buscar uma alternativa, porque a gente já tinha experiência, nós já éramos um pouco experientes nessa coisa, por tentar organizar. Queríamos negociar com a comissão. “Não, direito é direito, não se negocia.” Bom, eu sei que chegou a 52 dias de greve, 33 demissões. Teve 33 demissões. A greve era só na Reduc. Mas nós não ficamos na linha de frente porque nós sabíamos que a correlação de força não era... e tínhamos o apoio dos sindicatos ligados à CUT, que sabia que isto ia ser um problemão.

 

Essa greve era só na Reduc. Os outros sindicatos já tinham feito acordos com turno de oito horas com cinco grupos. Cubatão historicamente trabalhava. E a Reduc entrou para esta greve. Isto foi 89. Foram 52 dias de greve. A maior greve do sistema Petrobras. Depois nós retornamos com os demitidos. Um anos depois nós conseguimos negociar, aí a nível nacional, conseguimos negociar o retorno desse pessoal.

SINDIPETRO DUQUE DE CAXIAS

Aí, a partir da greve de 89 nós nos consolidamos enquanto oposição. Aí dirigimos a categoria mesmo. A direção do sindicato não existia mais. Só existia formalmente. E ficamos na oposição durante três anos. De 89 a 92, como Transparência Sindical. Aí era uma organização. Tinha boletim, política própria de finanças. Aí apoio dos sindicatos cutistas. Aí ganhamos a eleição de 1992. Nesse primeiro mandato eu fiquei como Secretário do Sindicato. A gente chamava de triunvirato. Era o presidente, o secretário e o tesoureiro. Eu nesse primeiro momento eu fiquei como secretário. A gente tinha uma discussão.

Era o Sindipetro Duque de Caxias. Tinha uma discussão - um grupo grande da operação, considerada, em termos, a elite da refinaria, queria que eu que fosse o presidente. Mas o nosso presidente era um negro, não tinha... era torneiro mecânico. Tinha um questionamento sobre se ele era a melhor pessoa. Eu disse: “Não, ele é a melhor pessoa para ser a nossa liderança.” Ele era, junto comigo, as duas maiores lideranças da oposição, o Nilson Viana Cesário. Ele ficou como presidente do sindicato até bem pouco tempo. Ficou com o quarto mandato. Depois, em 96, eu passei a ser adversário político dele. Cada um foi para um lado. Mas eu reafirmava a liderança. Então ficamos no sindicato de 92 - nesse primeiro mandato -, de 92 a 95.

 

FEDERAÇÃO ÚNICA DOS PETROLEIROS

Em 94, num congresso da aí já Federação Única dos Petroleiros - que a gente tinha o Comando Nacional dos Petroleiros no final da década de 80, que era a representação dos sindicatos ligados à CUT e dos outros sindicatos que não eram ligados à central. Então a gente tinha o Comando Nacional dos Petroleiros. Era um grupo de pessoas que eram indicadas para negociar com a Petrobras o acordo coletivo e outras coisas. Aí, em 94, com o primeiro Congresso da Federação Única dos Petroleiros - tinha tido um em 93, em que a gente criou a federação, mas aí era uma federação provisória de 11 pessoas. E o nosso grupo político da oposição ainda não era ligado a nenhuma tendência na CUT. Nós éramos cutistas, mas não éramos ligados à tendência. E nesse congresso, lá em Cubatão, da chamada FUC-P, o embrião da federação, chamada Federação Única Cutista, porque só tinha sindicato cutista, dos petroleiros. Nessa época ainda tinham dois ou três sindicatos que não eram ligados à CUT. E nessa direção nós elegemos, fizemos uma chapa própria, que era eleição proporcional, fizemos uma chapa própria e elegemos esse presidente do nosso sindicato, o Nilson Viana Cesário, para ser da FUC-P, que era um pouco a extensão do comando. E eu recebi muita pressão, porque eu, já aí nessa época de 93, já me alinhava politicamente com o que a gente chama no movimento sindical cutista da Articulação Sindical.

FUC-P, que é a federação provisória. A Federação Única Cutista Petroleira. Em janeiro de 94 foi feita uma plenária estatuinte, então aí se criou a Federação Única dos Petroleiros, já com estatuto próprio, tal. E em junho de 94 teve o primeiro congresso para eleger a primeira direção da federação. Então, em 1993, nesse congresso nós elegemos esse companheiro nosso da direção. Era o presidente do sindicato para federação provisória. E em 94 eu fui também, aí sim já na Articulação Sindical, eleito pelo grupamento dos vários sindicatos que tinham majoritariamente na direção a Articulação Sindical, que é a maior tendência dentro da CUT. Na época era o Jair Meneguelli o presidente da CUT. E eu fui eleito para a Federação Única dos Petroleiros. Entrei ali na chapa, eu entrei na linha de corte. Na linha de corte quer dizer um votinho a mais, um votinho a menos, eu dançava. Eu entrei mais para compor. Não era do meu interesse, nem do interesse do sindicato naquele momento porque a gente estava nova aí na direção sindical. Nós assumimos o sindicato em abril de 92, e o congresso da federação que me elegeu pela primeira vez foi em junho de 94.

Então eu fui eleito em 94, que eram chapas proporcionais pela chapa da Articulação Sindical. E o meu cargo - depois você elegia uma direção de 11, e você distribuía isto, essa direção. Eu fiquei com a secretaria, responsável pela Secretaria de Assuntos Jurídicos e Institucionais. Mais por conta do meu curso de direito, o pessoal: “Ah, tem um bacharel aqui, vamos colocar ele para ser responsável pela Secretaria de Assuntos Jurídicos Institucional.” Isso em 94.

EDUCAÇÃO

Eu fiz a Universidade na UERJ em 81, 84. No início da década de 80, trabalhando na Petrobras em turno. Tinha que pegar um trem lá na Baixada para chegar ali na Mangueira. Aí é um outro pedaço da minha vida que eu gosto de contar. Eu fico, hoje eu estou na direção da... Eu estava até contando para o motorista. Eu fico meio constrangido porque ele passa agora lá, eu moro na Zona Norte. Aí tenho de ir de paletó e gravata, eu não vou hoje de paletó, que sexta-feira é liberado. Tanto na Petrobras quanto na Fundação. Mas tem que ir de paletó e gravata, sou diretor hoje administrativo da Petros. Aí tem um motorista que vem me buscar, e aquilo me deixa muito constrangido. Quem...

Quem, poxa - eu lembrando que para fazer faculdade eu pegava um trem lá em Belford Roxo para Mangueira, para depois sair correndo para pegar um ônibus para... chegava em casa, vinha direto do trabalho. Eu conto uma passagem, que sexta-feira, quando pegava à meia-noite a rapaziada da faculdade, ficava discutindo ali na sexta-feira para onde iriam. Aí tinha aquele famoso bar ali na 28 de Setembro, o Petisco da Vila. Outros iam para não sei aonde, para o Elite, ali no Campo de Santana, tal. “E você, Maurício, vai para onde?” Eu falei: “Eu vou trabalhar.” Aí: “Como, que negócio é esse de trabalhar?” Eu já tinha uma idade mais avançada em relação à turma, e eu era na época o 2% que morava de Vila Isabel para baixo. Só eu e um rapaz que morava na Pavuna que fazia, o resto era tudo aqui Ipanema. Ipanema, Leblon, Copacabana. Eu me lembro que depois eu comprei um carrinho. Mas voltando. Aí eu falava assim: “Eu vou trabalhar.” “Mas como é que é isso?” A gente saía dez e meia, e eu ficava esperando o ônibus que passava ali perto da UERJ para me levar para trabalhar na refinaria, pegava à meia-noite. E o pessoal não acreditava. “O que que é isso? Trabalhar à meia-noite?” “Alguém tem que trabalhar, né? Enquanto vocês vão gastar a gasolina no final da noite aqui, eu tenho que produzir a gasolina para vocês lá, para vocês poderem se divertir.” Então eu estava falando. Aí eu estava cantando, antes, a musiquinha do Martinho da Vila: “Felicidade, passei no vestibular. Mas a faculdade...” Aí tem o finalzinho, que dizia: “E vocês ainda dizem que eu sou um burguês muito privilegiado. Burguês são vocês, eu não passo de um pobre-coitado. Quem quiser ser como eu vai ter que sofrer um bocado.” Eu lembrava do trem que eu pegava lá atrás. Mas aí - foi por conta da eleição de Lula também, essas coisas todas que a gente, até hoje, nossos companheiros aí, dirigentes da Petrobras.

IMAGEM DA PETROBRAS

Nós temos hoje vários sindicalistas que são dirigentes da Petrobras. O próprio Dutra foi um ex-dirigente sindical lá de Sergipe. Ele era presidente do sindicato dos chamados metalurgistas. Porque lá a Petrobras tinha uma subsidiária chamada Petromisa, que era responsável pela produção de potássio na mina de Sergipe. Depois o Collor extinguiu a Petromisa e a Interbrás, que eram duas subsidiárias. O Dutra era na época o presidente do sindicato. Então ele era uma liderança sindical e hoje ele é presidente da Petrobras.

E o Lula também, né? O Lula também. Mas eu estou dizendo especificamente na Petrobras. A militância do Lula no sindicato é 78, início da década de 80. Do Dutra é final da década de 80, início da década de 90, junto comigo e com vários outros. E em volta do Dutra, do presidente, nós temos vários dirigentes sindicais petroleiros, que foram meus contemporâneos.

ATIVIDADE SINDICAL

O que me motivou é que mais cedo ou mais tarde eu pressentia que meu negócio era atividade sindical, atividade política. Então a faculdade de direito me daria essa visão mais ampla da organização sociopolítica do país, de legislação, para me... Além de ser uma coisa que eu gostava, e o meu pai sempre, por ser da área, ser oficial de Justiça, sempre quis que eu fosse advogado. Mas eu fiz a faculdade mesmo com essa... nunca pensei em advogar. Não penso inclusive em advogar. Tanto que eu fiz o curso e não fiz a minha inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil. Foi mais para ter conhecimento. Então esse foi o motivo. Então, retomando a história do movimento sindical, em 94 eu estava como secretário do sindicato e ao mesmo tempo responsável na direção da federação, responsável pela Secretaria de Assuntos Jurídicos e Institucionais. E peguei uma barra assim muito grande logo. Porque em 94, final do governo Itamar, nós fizemos uma greve. Não me lembro exatamente, eu tinha uma pauta de reivindicação extensa, mas exatamente o ponto principal era por reposição. Mas tinha algumas outras coisas, como a reintegração dos demitidos das greves do Collor, 90, 92. Isso tudo tem uma série de greves aí que eu vou pular. Eu não estava na direção do sindicato. Mas em 94 aí eu estava dirigindo na prática o sindicato como presidente, porque o presidente do sindicato estava licenciado. Ele foi se candidatar a deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores, e eu era o responsável pelo sindicato em 94, na campanha reivindicatória, que é setembro. E na federação. E nós enfrentamos uma greve, de 8 dias. Sei que ela começou lá pelo dia 23, que eu não estou bem lembrado. 23 ou 24 de setembro. E entrou pela eleição. E a gente sabia que Fernando Henrique estava eleito. Essa é a historinha que eu digo inclusive que eu vou fazer um livro sobre essas histórias da minha vida na Federação dos Petroleiros.

GREVE

1994

E tem passagens assim que eu não sei se uma hora dá para contar, porque essa greve, já estava no finalzinho dela. A gente sabia que Fernando Henrique estava eleito. No domingo da eleição, Fernando Henrique eleito, a greve já ia terminar mesmo. Precisamos ter uma saída negociada da greve. Porque senão a gente vai ser... a base vai comer o nosso fígado. E o Vicentinho, que era o presidente da CUT na época, nós ligamos para o Vicentinho: “Vicentinho, você tem trânsito com o Itamar.” Eu era um diretor, ainda não tinha muito prestígio na FUP. “E precisamos fazer uma saída negociada da greve.” Aí o Vicentinho ligou para o presidente Itamar Franco, e a nossa sorte é que pegou o Itamar Franco em Juiz de Fora. E o Itamar: “Não, recebo vocês.” Isso num sábado. No domingo ele iria nos receber. Isso era domingo de eleição, Fernando Henrique eleito. A gente não tinha muita coisa o que fazer. E eu, não estava programado de eu ir para essa reunião. Foi com o presidente. Iam as maiores lideranças. Na época o coordenador da FUP era o Antônio Carlos Spis, que hoje é presidente de CUT São Paulo. Ia uma outra liderança de uma outra tendência que a gente chama, que a FUP é formada por diretores de várias tendências sindicais. Na época era da Convergência Socialista essa liderança aí, porque fazia parte da outra, ela liderava uma outra parcela que a gente chamava de oposição na federação. E ia o Vicentinho. Aí o Spis: “Maurício, a gente precisa de condução e de alguém que possa nos levar aà Juiz de Fora.” Aí aquilo me bateu: “Ah, eu posso levá-los. E o meu sindicato aluga um carro para levá-los.” “Ah, é?” “É.” Se fosse para escolher eu não iria. Então eu fui mais como motorista. De manhã passei, peguei o Spis e o Geraldo Oliveira, Geraldão, uma liderança da Convergência. Hoje ele está no Partido dos Trabalhadores e na Articulação, que é uma outra história. Mas era uma liderança. Eu o admirava muito, apesar dele ser meu adversário político, eu admirava, adorava quando eles faziam os debates lá conosco. E ele era muito pesado. Ainda é pesado. Mais de 100 quilos. E peguei o Geraldão, o Spis, peguei o Vicentinho. Passei no aeroporto para pegar o Vicentinho, que vinha de São Paulo. E eles saíram muito cedo. Era sete horas. E eu: “Vou armar um esquema.” Porque o Vicentinho, nós éramos cutistas e nós, o nosso sindicato ainda não era filiado à CUT. Nós só viemos nos filiar à CUT mais tarde. Apesar da oposição ser cutista, a gente não conseguia, porque tinha uma oposição: “Não, que precisa fazer debate e tal.” Era mais para atrapalhar os nossos planos. É a oportunidade de levar o Vicentinho. Aí estava em greve. Eu sabia que na porta da refinaria o pessoal nosso estava feito, a nossa greve aqui estava muito boa. A passagem da Washington Luis é bem em frente à refinaria. Então para ir para Juiz de Fora... Aí eu falei: “Eu vou levar o Spis, que é o coordenador, e o Vicentinho para a assembléia da Reduc. Aí eu vou. Vai ser agora.” E o Spis: “Não, não passa lá que a gente vai perder tempo, a gente marcou com o Itamar 11 horas.” Eu falei: “Ah, que nada.” Na hora que passou lá eu entrei. O Spis reclamou. Eu falei: “Ah, eu vou perder esta oportunidade?” Aí o Vicentinho fez um discurso lá. Foi aplaudido. Muito legal. Foi dez a entrada. “Vocês me desculpem agora, mas a assembléia continua aqui com o companheiro da direção, mas eu vou acompanhar as lideranças nessa reunião com o Itamar.” E fui embora. Eu lembro que era um Fiatzinho Uno com ar-condicionado. Então não desenvolvia muito na serra de Petrópolis. E eu já conhecia aquilo, e o Vicentinho só ficava assim olhando pro velocímetro. “Menino, você conhece isso aqui bem?” “Conheço, comandante, pode ficar aí sossegado. Se quiser tirar um cochilo.” E ali foi a primeira vez que eu estive com o Vicentinho. Conhecia assim, mas conversar com o Vicentinho, era o presidente da CUT. E passei a ter uma admiração muito grande pelo Vicentinho. Tem um mirante, quem conhece a... tem um mirante. Eu falei: “Vicentinho, aqui. Olha o Rio de Janeiro lá embaixo.” Aí estava um dia muito bonito.  “Dá para parar?” Eu falei: “Não pode parar aqui, mas ali na frente eu sei que dá para parar.” Aí parei. Ele parou, olhou o Rio de Janeiro lá embaixo. Aí aquilo me marcou profundamente. Ele pega o celular, liga para a esposa dele que estava grávida. “Como é que está? Tudo bem? Olha, eu estou aqui com uma paisagem maravilhosa, um dia eu vou trazer você aqui. Te amo muito. Como é que está? Está passando bem? Não se preocupe não. Mas um dia eu trago você no Rio de Janeiro. Você vai conhecer.” Aquilo me marcou muito. A sensibilidade do Vicentinho. A mulher dele estava grávida. E fomos embora para Juiz de Fora e fomos para um hotel. Depois isto também virou notícia de jornal. Uma reunião com o Ministério do Itamar e mais o presidente Itamar. Então estava na mesa num hotel, na cabeceira o Itamar, no outro lado o ministro Ciro Gomes, na época ministro da Fazenda. O ministro Delcídio Gomez, que era, estava ocupando interinamente o Ministério da Minas e Energia, por conta de que tinha tido eleição também proporcional, e o antigo ministro tinha saído para se candidatar a deputado federal. Tinha o ministro do Trabalho, o ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho, Marcelo Pimentel, na época ministro do Trabalho do Itamar. E tinha mais um ministro da Casa Civil, eu não lembro o nome dele. Me falha aqui a memória. Mas era daquela turma do pão de queijo lá do Itamar. E era o Itamar, do lado esquerdo dele o Ciro Gomes e do lado direito dele o Vicentinho, e assim eu acho que na ordem hierárquica de ministros vinha o Marcelo Pimentel. E aí na ordem hierárquica aqui nossa vinha o Spis. Do outro lado o ministro das Minas e Energia. Aí o Geraldão. Do outro lado o outro ministro. E eu. E tinha um companheiro nosso, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Juiz de Fora, que aproveitou. Queria conhecer o Vicentinho também, e a gente colocou ele na mesa. Depois de muita conversa acalorada, truculência do então ministro Ciro Gomes, que aí Fernando Henrique eleito e tal. Mas o Itamar gerenciou bem, e a gente chegou a um acordo. Depois foi feita a divulgação desse acordo, que se chamava protocolo de intenção, assinado entre a Federação dos Petroleiros e o governo federal. Isso não foi assinado pelo presidente, mas tinha os pontos, cinco pontos do acordo - e quatro efetivamente foram cumpridos -, que é a reintegração de alguns dirigentes sindicais de 89 a 92 do Collor, uma pendência de pagamento de hora extra. Tinha mais uma outra reivindicação e tinha uma reivindicação específica econômica que remetia para a Petrobras. Para a Petrobras negociar, que naquele momento tinha Plano Real, estava implantando o Plano Real. Então tinha que ver como é que era. A gente reivindicava perdas do próprio plano, quando mudou a URV, essas coisas todas. Bom, e ao final da reunião o presidente Itamar convida o Vicentinho e a nós para um almoço. Aí o Vicentinho, porque isso cria um constrangimento, dirigente sindical, está com greve. Depois você tem que passar pelas assembléias, aquele acordo. A gente foi... No hotel mesmo a gente já passou fax para todo o país. Um acordo para chamar as assembléias, para ver se era aquilo, a indicação nossa. Fizemos uma reunião entre nós três ali, depois consultamos a direção da FUP. “Olha, a nossa posição é de concordar com o acordo e indicar o final da greve.” Apesar de que a gente sabia que a greve já estava terminando. Então era uma saída ali muito negociada. Aí o presidente Itamar pergunta ao Vicentinho: “Convido vocês para um almoço agora.” Aí o Vicentinho pergunta ao Spis: “Spis, o que você acha? O presidente está convidando...” Aí o Spis pergunta ao Geraldão. “Maurício, o presidente está... o que que você acha?” “Ah, para vocês decidirem.” E eu não podia perguntar para o outro porque o outro estava ali. “Ah, o que vocês decidirem está bem decidido.” Aí o Geraldo para o Spis: “Ah, o que você decidir está bem decidido.” E o Spis: “Ah, o que você decidir está bem decidido.” E nós acabamos indo para o almoço. Ficava num restaurante, e o Itamar ia pela rua, naquela época muito popular; elegeu seu sucessor. Foi uma trajetória demorada. E entramos no restaurante. Aquela mesa de comida mineira, uma comida sensacional. E teve um brinde. Vamos brindar pelo acordo. Aí todo mundo levanta sua taçazinha de chope e crá, crá, crá, crá. Aí no dia seguinte o Jornal do Brasil estampa, que dizer, para amenizar estampou a foto do Geraldão. A liderança da Convergência Socialista.

Aí deu um rebuliço danado, porque os oportunistas pegaram aquilo: “É, ó, foram tomar chope com o presidente.” Eu lembro que depois a gente teve uma plenária. A Convergência enquadrou o Geraldão. E o Geraldão foi fazer uma autocrítica na plenária. Aí ele está lá, fez um belo de um discurso. “Eu convido aqui o meu companheiro Maurício para também fazer a autocrítica. O companheiro Spis por termos aceitado aquele convite. O acordo foi bom. Foi o melhor que nós tínhamos para fazer mesmo. A greve foi boa. Mas o chopinho não tinha que ter existido.” Aí eu: “Ah, vou fazer a autocrítica.” Subi na tribuna, peguei o microfone e falei assim: “Eu faço uma autocrítica aqui não por ter ido, mas por não ter tomado mais chope. Porque estava muito boa a comida, e eu não podia tomar porque eu estava dirigindo o carro que ia trazer de volta o Vicentinho. Então me arrependi de não ter tomado mais chope.” Aí a plenária quá, quá, quá, quá, quá. Eu vou fazer autocrítica? Então essa foi uma passagem muito interessante, com alguns pormenores que a gente - eu e o Spis já estamos, já até contratamos um jornalista para tentar desenhar aí um livro. E depois dessa greve, aí nós fomos para negociar com a Petrobras; a Petrobras não queria mais negociação. Porque aí, Fernando Henrique eleito, não quer negociar. Aí nós ameaçamos uma greve no dia 10 de novembro de 1994. A gente orientou todas as bases que ficassem dentro das unidades a partir das 18h horas se a Petrobras não avançasse na negociação. Isso uma semana antes a gente tinha orientado. E aí foi um rebuliço. O governo foi e nos chamou. Aí nós fizemos uma reunião com o Ministério do Trabalho, com vários ministros, com o presidente da Petrobras.

Naquele momento ainda estava, o Fernando Henrique ainda não tinha tomado posse. Os mesmos ministros com que nós tínhamos feito o acordo em Juiz de Fora. Basicamente os mesmos ministros. Porque Fernando Henrique só tomou posse em janeiro de 95. Então era o Ciro Gomes, era Marcelo Pimentel.

Ainda era - ah o presidente da Petrobras, João Mendes Rennó. E aí nós definimos um eixo de acordo, e que os ministros: “Bom, agora vocês vão para o Ministério das Minas e Energia e finalizem o acordo diretamente com o ministro e com a Petrobras.” E nós fomos. A reunião tinha começado no Ministério do Trabalho umas 8h e terminou às 4h da tarde. Cinco horas a gente estava negociando com o Ministério das Minas e Energia. E tem umas passagens assim muito hilárias, porque a gente começou a negociar numa sala, e o ministro vinha. O coordenador da FUP e o Spis num micro fechando o acordo. “Isso aqui, aceito, não aceito.” E o ministro saía da sala toda hora e ia para sala dele, reservada lá no gabinete dele. E cada ida que ele ia e voltava tinha sempre uma dificuldade. Aquilo foi me impacientando. Eu e o Geraldão, sempre eu e o Geraldão nessas coisas. E mais alguns diretores. Nem todos, porque era, a maioria estava na sede da FUP. Lá em Brasília tinha uma subsede para fazer contato com os sindicatos. Nós não estávamos em greve, mas já estava ameaçando. Isso foi um dia antes do dia 10. Foi no dia 9. E se não acertasse nós íamos iniciar um processo de mobilização. E coisa que o Itamar não queria ver. Estava saindo, tinha eleito. Era rebuliço no final de mandato dele. Ele queria sair por cima. E nós ficamos negociando, negociando. Aí deu dez horas. Aí teve uma hora que o ministro entrou na sala e voltou. Aí eu perdi a paciência com ele. Gritei com ele lá. Eu estou falando desse ministro, é Delcídio Gomez. Eu falei assim: “Está pensando que eu sou moleque? Eu posso ter cara de moleque.” O pessoal sempre diz que eu tenho uma cara, não reflito os meus 45 anos. Isso lá, dez anos atrás era. “Eu posso ter cara de moleque, mas eu não sou moleque. Eu sou pai de dois filhos. Você não vai ficar me enrolando aqui.” Aí criou-se o impasse. E nós entramos na sala dele para saber o que que tanto ele ia lá dentro. Aí nós descobrimos que havia dois dirigentes da Petrobras assessorando ele, que nós não sabíamos. Aí também aconteceu um fato gozado - a gente estava com uma fome, que a gente não tinha almoçado e nem jantado. E tinha um saquinho com uns pastéis, e aí o Geraldo: “Ah, esses caras estão enrolando a gente aqui. Eu estou com fome.” Passou a mão no pastel do ministro. E ele ficou sem pastel. Aí ele me ofereceu um, eu não quis. E esse ministro, aí chegou lá meia-noite, formatou. E eu era, toda hora o Spis: “Olha, isso aqui não vai sair. Manda tocar a greve. Já orienta o pessoal.” Mas naquela de forçar a barra, porque a gente sabia que a greve ia ainda demorar um pouco para sair, até a gente construir. Aí eu pegava o telefone, eu fazia o contato com a federação, mas de gaiatice. Porque a gente sabia, a gente montou um esqueminha lá para assustar os ministros. “Olha, pode deflagrar aí o plano X.Y.Z. porque aqui não vai sair acordo nenhum.” Aí o ministro: “Não, calma aí que a gente vai...” Aí teve uma hora, um momento que eu liguei, e por acaso aí peguei um contato com a: “Alô, alô, é da Polícia Federal?” “Estão grampeando a gente aqui!”. Então pegamos esse furo deles lá. Eu sei que deu uma hora da manhã, a gente fechou o acordo. Aí, era um acordo assim, excelente. A gente recebia três salários escalonados a cada novembro, dezembro, janeiro, como pagamento de perda do Plano Bresser, mais algumas coisas. Aí a gente olhava o acordo: “Pô, isso está muito bom, isso vai fazer um sucesso na base, tal.” Aí o ministro Delcídio disse: “Olha, agora eu tenho que levar o acordo para o presidente. Eu vou dar um pulo no Palácio do Planalto para pegar o OK dele, para ver se é isso mesmo. Apesar de que pelo telefone a gente tem consultado.” Aí ele foi e voltou: “Olha, tudo OK. Está assinado.” Ele assinou, o ministro assinou, o coordenador da FUP assinou. E tinha um espaço para o ministro Marcelo Pimentel assinar. Isso dia 10. Fomos para a federação, passamos o acordo para todo o país, para os sindicatos. E de manhã cedinho - o Spis era muito rígido, muito disciplinado, ele acordava muito cedo. E eu passei a ser um pouco o braço direito do Spis para essas questões. Até porque eu era o secretário responsável por essa área jurídica e institucional. Então a assessoria jurídica era subordinada à minha secretaria. Que nós chegamos às sete e meia no Ministério do Trabalho. Estamos na frente do Marcelo Pimentel. Colocamos o acordo para assinar, e o ministro, como diz: “Afasta de mim este cálice.” Porque os jornais já estavam rodando, repercutindo o acordo. E nós lembramos que tinha um título no jornal “O Globo” que dizia assim: “Petroleiros colocam em risco o Plano Real.” Por conta do acordo que a gente tinha assinado. E aí o já governo eleito Fernando Henrique já tinha enquadrado todo mundo. Disse: “Não tem acordo.” Aí o ministro Marcelo Pimentel não quis assinar. Mas o ministro das Minas e Energia assinou. “Opa, para nós o acordo está valendo.” Aí criou uma polêmica. Não foi cumprido. Aí, em 24 de novembro nós entramos numa greve já por conta desse imbroglio. Aí ficamos três dias em greve, e a Petrobras ingressou no Tribunal Superior do Trabalho com dissídio coletivo. E a gente sabia que a greve estava boa, mas ainda não era uma greve... fazer greve no final de ano no Brasil, já véspera de Natal, o pessoal está pensando mais como é que ele vai fazer a ceia dele do que em greve. No Carnaval, final de ano.

Aí a greve estava boa. A gente sustentou e teve, aí tem todo um vasto campo de pesquisas aí para estudioso. Porque foi a primeira vez que o Tribunal Superior do Trabalho fixou a tal da, eu esqueço o nome, é tanta coisa. Mas uma determinação judicial que a gente tinha que manter 30% do efetivo dentro das unidades. Que era um absurdo para gente, porque 30%... Não é como se fosse uma fábrica de sapatos, onde tirando 30% do efetivo você garante 30% da produção. Não era isso. Se você tirar 30% do efetivo de uma plataforma você não consegue operar uma plataforma, uma unidade. E era um absurdo. E a gente não cumpria. E em todo o país as procuradorias foram para cima da gente ameaçando prender, ameaçando não sei o quê. Mas durante a negociação ficaram dois dirigentes aqui no Rio de Janeiro tentando buscar uma negociação com a Petrobras. E nós lá no Tribunal Superior do Trabalho, nós pedimos um recesso, porque tinha uma conversa aqui. E daqui saiu uma proposta de acordo. E aí retomou-se a audiência. Eu me lembro que o ministro, qual era o ministro da época? Ajuricaba, eu não sei o primeiro nome dele, o presidente do TST está doido para bater o martelo e enquadrar a gente. E quando apareceu o acordo ele não pôde também fazer nada, porque era uma audiência de conciliação, e os dirigentes da Petrobras estavam lá em Brasília. Não estavam sabendo disso aí. Então falaram: “Tem que parar essa audiência porque está tendo um acordo lá.” E acabei de receber um fax com uma proposta de acordo que era para o pessoal da Petrobras saber se era aquilo mesmo. E eles não queriam ver o acordo. Queriam também que decidisse. Então não tinha uma sintonia entre o negociador da Petrobras em Brasília e o que estava aqui. O de Brasília queria que decidisse logo, e o daqui queria que fizesse um acordo. Acabamos fazendo um acordo. Um acordo também que previa 12% de reajuste, chamado de interníveis. Eu sei que a Petrobras acabou não cumprindo também o acordo. E aquilo foi se acumulando. Assina acordo e descumpre. E a categoria já estava ficando impaciente. E aí entra o governo Fernando Henrique, em janeiro de 1995. E essa mesma pendência nossa, a gente depois viu que em algumas outras categorias aconteceu a mesma coisa. Eletricitários, ferroviários. Assinava acordo e não cumpria. E tinha algumas bases que entraram em primeiro de janeiro querendo greve. E a gente sabia que fazer uma greve só de petroleiros com o governo Fernando Henrique eleito, primeiro turno, com uma base de sustentação no Congresso fabulosa, com o Judiciário ao seu lado, a gente ia se ferrar. Aí nós controlamos a categoria, parte, principalmente na Bahia, que queria fazer greve de qualquer maneira. Eu falei: “Olha, precisamos criar umas condições com outras  categorias para fazer uma grande greve  para resolver o problema dos acordos.” Aí nós fomos construindo, construindo. No dia 3 de maio nós saímos para uma greve com cerca de 200 mil trabalhadores, envolvendo petroleiros, eletricitários, ferroviários, pessoal de telecomunicações. Mas nós tínhamos consciência de que só nós íamos sustentar uma greve. Porque os outros iam... e aí não deu outra. Começou a greve, três dias depois só nós estávamos em greve. E a greve foi assim uma greve, parou tudo. Tudo, tudo. Mas era uma greve mais de revolta pelos não-cumprimentos do que propriamente uma greve reivindicatória. O pessoal estava muito... E essa greve foi a maior greve dos petroleiros. Foi uma greve histórica. Vocês acompanharam aí a Globo colocando pintinho morrendo numa estufa porque não tinha gás para alimentar. Criança morrendo em hospital porque não tinha luz. Jogou a sociedade contra a gente. E a gente sabia que tinha derivado. A gente monitorava. Depois até teve um estudo do Tribunal de Contas da União que a queda na produção de derivados não foi suficiente para criar o que tinham dito que nós criamos, porque a Petrobras importou muito derivados. E essa greve foi muito marcante. Foram 30 dias de greve. Tivemos 80 e poucos demitidos.

O resultado foi nada. O resultado foi zero. O resultado só não foi zero porque nós conseguimos ainda arrancar dos parlamentares - aí houve toda uma mobilização, os parlamentares, para uma greve negociada. Porque a proposta, aí eu teria aqui n horas para contar relatos da greve.

Durante os 30 dias de greve eu fiquei praticamente todos os 30 dias - eu e mais os outros dez diretores da FUP - em Brasília. Eu ainda era aquele diretor ainda não muito destacado, mas eu já era o braço direito do coordenador, vamos dizer. Porque é colegiado, não tem um presidente, tem um colegiado. Mas o coordenador é sempre o coordenador. E a minha secretaria era muito importante, porque eu é que ficava lidando com essa coisa de Tribunal Superior do Trabalho, negocia com o procurador geral do Trabalho, faz acordo, não faz acordo. Então a greve para mim foi muito vivida. E por essa minha vivência no contato com o ministro e tal, eu passei a ser referência. Então as negociações se processaram. Quando a gente fazia um grupo, porque não podia levar os 11, eu pelo menos, eu estava sempre com o Spis pela Articulação Sindical. E aí dividia. Tinha gente do Partido Comunista do Brasil ligado à Corrente Sindical Classista. Aí já não mais a Convergência Socialista. Mas o pessoal do P.S.T.U., porque a Convergência foi expulsa do PT. Mas me marcou muito a greve em dois momentos.

FAMÍLIA

Um momento assim muito forte foi logo nas duas primeiras semanas - eu recebi um telefonema de casa e a minha companheira falou: “Ah,” meu filho muito novo, tinha quatro anos. “Se você quiser ver o seu filho vivo, venha para cá porque ele pegou uma pneumonia e um problema no rim, hepatite.” E eu peguei o primeiro avião, vim para cá no final de semana. E tinha algumas coisas para fazer aqui no Rio, porque eu era dirigente sindical em Caxias. E era um problema, mas não era tão grave. Ela forçou a barra para eu vir para cá.

Aí, poxa, me assustou muito aquilo. Mas já estava sob controle, porque já tinha mobilizado todo mundo. Mas aquilo me marcou muito. Mas eu retornei logo no domingo. Só tive tempo de ir para a refinaria. Passei uma madrugada com o pessoal que estava fazendo greve. O dirigente sindical nacional não podia deixar de ir na sua base. Fiquei em casa pouco tempo, voltei.

Essa é uma outra faceta, porque dirigente sindical, se você fizer uma pesquisa, mais de 70% já está no segundo ou terceiro casamento. E eu sou um dos poucos que estão há 20 anos casados. Quer dizer, o pessoal não consegue.

E ainda mais por uma outra particularidade, que minha mulher, minha companheira, é desde que nós nos casamos, ela é evangélica. Ela é evangélica atuante. E aí como é que é isso? Dirigente sindical, marxista, e com... Isso tudo é negociado, né? Tudo é negociado. Diálogo, democracia. Entende. Não gosta. Mas ela já é habituada por conta da minha vida antes do  movimento sindical, do turno de revezamento. Ela aprendeu muito a ficar bastante independente de mim no sentido de não depender de pagar conta, essas coisas. Ficou tudo com ela. Ela dirige, ela cuida da minha conta, ela... Eu até brinco com o pessoal: “Hoje ela me deixou sair com um cheque para pagar. Ela disse que eu posso gastar só R$30.” Ela tomou conta da casa, inclusive de muita parcela da formação dos nossos dois filhos.

Eu viajava muito, mas eu fico muito aqui. Eu dou sorte porque a federação é aqui no Rio de Janeiro. A sede da federação é no Rio de Janeiro. Diferente de outras pessoas. O companheiro Spis ficava muito fora. Só que ele não tinha filho. Ele teve um problema com o filho dele. Ele perdeu o filho dele logo pequeno. Mas aí a mulher, ele ficava 45 dias fora. Quer dizer, eu nunca ficava isso.

GREVE de 1994

Na greve de 30 dias eu fiquei 30 dias praticamente fora. E voltei depois numa outra oportunidade aqui, que eu cheguei sexta-feira para uma negociação aqui na Petrobras. Não podia dizer que estava negociando. Até aconteceu um fato, que os dirigentes da Petrobras me chamaram. E o Spis não podia vir porque ele era monitorado pela imprensa. Então tinha um esquema lá de que se o Spis marcasse uma passagem, a imprensa sabia para onde ele iria. Aí teve Polícia Federal. A gente sabia que estava sendo monitorado pela Polícia Federal. E eu vim para não chamar tanta atenção. E foi uma madrugada. A gente chegou aqui no Galeão,  foi direto para um apart-hotel onde ficavam os dirigentes da Petrobras. Depois vazou. O ministro descobriu que a Petrobras tinha nos chamado. Demitiu o gerente de Recursos Humanos. Esse gerente, no dia seguinte, três dias depois esse gerente de Recursos Humanos veio a falecer por conta da pressão do ministro, que não tinha que ter recebido a gente. E eu aproveitei a oportunidade, fui dormir esse dia em casa.

FAMÍLIA

A minha mulher é professora. Quer dizer, a formação dela é de professora. Só que ela passa num concurso, não é chamada. Ela resolveu, e o meu salário não estava dando. Agora recentemente ela fez concurso para merendeira do município e está há quatro meses como merendeira do município. Está gostando. Aí, até, agora a gente deu uma conversada sobre se seria conveniente ela continuar, porque agora eu estou com um salário razoável. Ela entrou porque o meu salário não dava. Está enrolando dívida. Tirei meu moleque do colégio particular, coloquei num público. Aí ela falou: “Olha, não tem jeito. Vou ter que trabalhar e a primeira coisa que aparecer eu vou pegar.” Então, mas ela não trabalhava. Esse período todo de 20 anos de casado; quando nós nos casamos ela parou de trabalhar. Porque a minha vida de turno, se ela trabalha ia acontecer aquele problema. Eu chegava de manhã, e ela estava saindo. Ou ela chegava de tarde e de noite, e ela estava indo para o trabalho. Então ela optou por não trabalhar. E aí deu para levar bem essa convivência principalmente porque meu sindicato em Caxias era próximo. Na federação, aí que eu viajei mais, aí já foi mais um problema.

GREVE de 1994

Então esse foi um fato, essa doença do meu moleque durante a greve. E um outro fato me marcou muito profundamente. Foi numa madrugada que eu estava de plantão. Já estávamos no 25º dia de greve, uma greve muito forte, e o pessoal de todo o país disposto mesmo a não fazer nada. Cruzar os braços.  E começou a pressão. Aí começa a pressão da família, começa a pressão de tudo. Demissão, já tinha tido várias demissões. E eu estava de plantão numa madrugada, e num determinado momento a gente recebia telefonema de tudo quanto é lugar do país. Eu lembro que recebi um telefonema de um companheiro da base de Urucu, que é um campo de petróleo no meio da mata. É um local maravilhoso, aquilo ali, um programa ecológico da Petrobras muito responsável, muito interessante, referência internacional. Eu tive o prazer de conhecer dois anos atrás. E aí ele pelo telefone: “E aí seu pelego, ó, agora a greve é para sangrar, hein?” Sangrar significava: “Não vai produzir nada até esses caras...” “E vê se não pelega não, hein, porque nós estamos de olho em vocês aí.” E eu: “Não, a greve continua, o movimento está forte e tal.” E era o meu plantão. Duas horas depois eu recebo um outro telefonema, dessa vez de uma plataforma na Bacia de Campos. Porque os caras tinham um telefone direto com a federação. E o rapaz que estava do outro lado da linha chorando: “Pelo amor de Deus, pára essa greve. Eu não agüento mais a pressão aqui da chefia, eu não agüento mais a pressão em casa. Nós vamos ser demitidos. Não vai adiantar nada.” Aí, quer dizer, no intervalo de menos de três horas, uma posição extremada e a outra, quer dizer, de um extremo e aí uma posição num outro extremo. Aí eu relatei isso na reunião que a gente sempre fazia de manhã, uma reunião de manhã e outra reunião à tarde de avaliação. E a greve continua. Então só no 33º dia, aí a gente consegue um grupo de parlamentares que redige um documento. Várias lideranças do governo assinam, no sentido de se comprometer a ir à Petrobras, a rever as demissões e buscar algumas saídas alternativas. Aí Inocêncio de Oliveira, uma turma grande de lideranças parlamentares do governo assinam. A gente: “Bom, está dada aqui a senha para a gente parar a greve.” E paramos a greve, numa pressão muito grande, tanto da sociedade, por conta do “Jornal Nacional”. O nosso maior terror era o “Jornal Nacional”. O que que eles vão dizer agora? E aí colocavam a gente de bujão nas costas, em filas enormes. A gente não podia sair em Brasília. Quando descobriam a gente, aí xingavam a gente. Terrorismo danado. Então essa greve me marcou muito. Eu tenho assim histórias durante a greve, quando falaram que todos os dirigentes  sindicais estavam demitidos. Aí a família já liga. “Hã, eu vi aqui no jornal que vão demitir, e vocês insistem na greve. Minha mãe...” Minha mulher já estava acostumada. Ela já estava preparada para o que desse dessa história.

CENTRAL SINDICAL

Então a greve de 95 foi meu segundo ano à frente da federação. Não tinha ainda completado um ano de Federação. Eu ainda fiquei, porque o mandato da federação são dois anos. Então eu fiquei de 94 a 96. Depois continuei de 96 a 98. E nesses quatro anos, nesses dois mandatos, à frente da Secretaria de Assuntos Jurídicos, de Assuntos Institucionais e Jurídicos. Depois o companheiro Spis foi eleito para direção nacional da CUT. Eu fiquei substituindo ele um pouco na coordenação e fui eleito no congresso, aí sim para a Coordenação da Federação dos Petroleiros, em 1998. Em 2000 eu renovei o mandato também, e terminei o meu mandato à frente da federação em junho de 2002. Nesse período à frente da FUP eu também fui eleito para ser diretor da Confederação Nacional do Ramo Químico da CUT, que é o ramo que engloba os petroleiros. Aí tem uma  série de categorias: petroquímico, químico, plástico, vidro, papel, sabão, vela. E eu era responsável na confederação pela Secretaria de Petróleo, Petroquímica e Energia. Mas eu não assumi porque estava à frente da federação meu suplente. Saindo da FUP, agora em junho de 2002 eu assumi então a Secretaria de Petróleo, Petroquímica e Energia da confederação e fiquei até recentemente, quando fui indicado pela Petrobras - mas também com o apoio da representação dos trabalhadores - para a direção do Fundo de Pensão da Fundação Petrobras de Seguridade Social, que cuida da aposentadoria dos hoje aposentados e dos futuros aposentados da Petrobras.

PETROS

Tem um mês que eu estou à frente dessa diretoria da Petros. E tenho encontrado muitos problemas. Para variar, problemas assim desde de antes da criação da fundação. Porque antes o ministério e a Petrobras eram responsáveis pelas aposentadorias do pessoal da Petrobras. Com a criação da fundação, a responsabilidade passou a ser da patrocinadora, no caso da Petrobras, e são contribuições dos empregados e da patrocinadora, hoje paritárias. E a função nossa é cuidar do patrimônio dessas...

A patrocinadora é a empresa, a Petrobras, que é a maior. A Petros hoje tem mais algumas patrocinadoras, cerca de 27, mais a Petrobras. Mas a Petrobras é 90%. E o meu novo desafio é esse agora.

MILITÂNCIA

Eu continuo dirigente sindical do meu sindicato, menos atuante agora, que aí estou com uma outra responsabilidade. Me descompatibilizei. Pedi licença do meu sindicato e estou licenciado do meu sindicato. Da federação porque eu fiquei na suplência da federação. E da confederação também. Então eu sou licenciado destas três entidades sindicais: do meu sindicato, da federação, que eu era suplente, e da confederação, onde eu era titular, e assumiu meu suplente agora. Porque agora eu tenho uma nova função.

Meu dia-a-dia hoje melhorou, porque agora eu tenho mais finais de semana. No movimento sindical a gente tem sempre uma plenária, uma reunião no final de semana. Eu, apesar de ser filiado ao Partido dos Trabalhadores, mas eu não tenho mais vida partidária intensa, de reuniões. Porque eu optei pelo movimento sindical, e quando eu fazia as duas coisas, você não faz bem nem uma coisa e nem outra, na minha avaliação.

PETROS

Então agora nesse período aí eu estou vendo que eu vou ficar mais liberado, pelo menos nos finais de semana. Mas em tese. Porque eu estou com uma tarefa - nós estamos com um problema, um impasse lá na fundação. Porque foi criado um plano pela patrocinadora e eu estava à frente da federação, organizei uma resistência a este plano e agora eu fui indicado para resolver este problema. Então amanhã, hoje eu estou viajando, amanhã eu já tenho uma reunião com o Sindicato dos Petroleiros de São José dos Campos.

É. Bom, é como se: “Ó, você criou um impasse lá, agora ajuda a sair do impasse.” Então eu estou com essa tarefa de buscar interlocução agora com os sindicatos, com a representação dos aposentados, com a Associação de Aposentados. Ontem nós já fizemos uma reunião da nossa diretoria atual com todas as associações de aposentados do país, que são muito grandes. Hoje você tem na Petrobras mais aposentados do que trabalhadores na ativa. São 55 mil aposentados e 34 mil trabalhadores na ativa.

GESTÃO EMPRESARIAL

A Petrobras reduziu muito o quadro na década de 90. Nós chegamos a ter 62 mil trabalhadores em 1989, quando foi necessário contratar para compor a quinta turma no turno de revezamento. Porque diminuiu a jornada de trabalho, então criou-se uma turma. Então chegou a ter 62 mil trabalhadores em 1989, que foi o pico. E hoje nós estamos com 32 mil na holding, quer dizer, na Petrobras-mãe. E com as subsidiárias, 35, chegando a 35 mil.

PETROS

E hoje na fundação tem a seguinte situação. Quer dizer, você tem 55 mil aposentados que já contribuíram e agora estão desfrutando, e tem 32 mil na ativa, e a gente sabe que tem um desequilíbrio aí que a gente precisa consertar. Porque hoje sai mais dinheiro do que entra na fundação. É, e esse é um dos problemas hoje que eu tenho que enfrentar, porque hoje a Petros tem mais... sai mais do que entra dinheiro na fundação. Então a gente tem que acertar isso.

Dá, dá para acertar, porque foram feitas projeções atuariais que saem aos pouquinhos. Tem o patrimônio, 18 bilhões. A Petros tem um patrimônio de 18 bilhões. Para quem tinha um orçamento de 40 mil na FUP para gerenciar, agora são 18 bilhões.

MILITÂNCIA

É, não tenha dúvida de que isso é fruto muito do que nós começamos a fazer em 1983 com a criação do Partido dos Trabalhadores e com a luta do movimento sindical. A criação da CUT e a criação do PT. E de lá para cá foi só aprendizado. E para mim hoje é a consolidação dessa trajetória de luta. Quer dizer, eu tenho muita consciência de que eu só cheguei onde cheguei, hoje, principalmente na direção da fundação, por conta da eleição de Lula. Um pouco a minha indicação passa pela eleição de Lula. Então, é como se, me destacando na minha atuação no movimento sindical, me levando à federação, à coordenação da federação. Sendo referência. Não deixa de ser uma trajetória sindical, mas com outro perfil, que agora é mais administrativo no sentido de compor interesses entre a patrocinadora, que foi quem me indicou. Eu que sempre lutei contra a patrocinadora por melhores condições, hoje eu estou representando a patrocinadora na gestão da Petros. Quer dizer, representando porque eles que me indicaram, a direção da Petrobras me indicou. Porque eu tive o apoio da representação dos trabalhadores também. A minha eleição foi por unanimidade.

PETROS

Meu cargo na Petros é indicado pela patrocinadora, mas é referendado, quer dizer, é aprovado pelo Conselho Deliberativo. São três representantes dos trabalhadores e três representantes da patrocinadora, ou seja, da Petrobras. Então esses representantes da Petrobras me indicaram, indicaram o meu nome, e os representantes dos trabalhadores concordaram. Então houve uma indicação unânime.

MILITÂNCIA

Acho que o governo Lula vai trazer muitas mudanças. Primeiro na própria organização sindical. Quer dizer, a história, a origem da luta dos metalúrgicos do ABC é por liberdade de organização sindical. Hoje tem uma legislação que engessa o movimento sindical. Não tem liberdade de organização sindical. Hoje só pode ter um sindicato por base territorial, no caso o município. Você não tem uma legislação que dê garantias da atividade sindical. Então isso vai ser uma mudança. Uma das propostas do governo Lula é mudar toda a legislação sobre a organização sindical. O trabalhador pudesse se filiar a quem ele acha que deve se filiar. Porque você tem hoje na Petrobras muito mais trabalhadores terceirizados do que próprios empregados da Petrobras, que pela estrutura sindical não podem se filiar a um sindicato dos petroleiros. Na prática até a gente já representa em algum município. Foi uma luta grande para ter esse reconhecimento.

Principalmente nas cooperativas o problema é seriíssimo. Esse deve ser uma mudança grande. O Lula... houve como que um desvirtuamento da questão do trabalho cooperativo, ou seja, da cooperativa, da idéia de cooperativismo. Eu acho que isso vai desmanchar. Quer dizer, a utilização das cooperativas como uma maneira de contratação de mão-de-obra indireta, isso tende a acabar. No aspecto das relações sindicais também. Quer dizer, vai haver mais diálogo, mais transparência. Já se está tendo na Petrobras.

As mudanças já começaram. Acabamos de receber uma proposta de reintegração dos demitidos da greve de 95, que estavam assim se arrastando. Não é por coincidência. E acredito, tem pouco tempo, não tem nem três meses, mas na área de segurança também.

SEGURANÇA DO TRABALHO

A gente tem problemas graves na Petrobras. Isso vai ser mais bem discutido, com muito mais atenção. Com muito mais transparência. A maior luta no momento dos trabalhadores da Petrobras eu diria que é por esta questão de segurança. Pode não ser a que chama mais a atenção quanto a... tem um aspecto, não tem um aspecto econômico mais envolvido. Mas por conta dos acidentes que acontecem e nem são divulgados. E não tem apelo para todo mundo. Quer dizer, a questão da segurança só é sentida quando acontece. Mas a gente tem tido uma, eu chamo de tragédia. Os números que têm acontecido de acidentes na Petrobras com morte. Dois a cada mês. Isso não pode.

P36

Os acidentes acontecem em todas as unidades da Petrobras. Seja nas unidades de refino e muito mais ligados às atividades de terceiros. Desse grupo, você pega, 80% de mortes são trabalhadores terceirizados. São aqueles trabalhadores sem condições às vezes mínimas para o trabalho, porque as próprias contratadas não dão. E por ser uma indústria periculosa, como é a indústria de petróleo, isso se não for bem organizado, muito bem gerenciado, fatalmente vai trazer problema. Então para mim esse é o quadro para o movimento sindical. É lógico que se você perguntar isso para base, vai dizer: “Não, eu quero reposição do salário. Eu quero um plano de cargos e salários.” Agora, para o movimento sindical eu acho que esse vai ser o tom que vai ser dado daqui para frente na questão da segurança. E os acidentes na Baía de Guanabara. Meio ambiente. O afundamento da P36 com as 11 mortes.

Eu era coordenador. E sobrevoei a plataforma dois dias antes dela afundar, a P36. Amanhã faz dois anos que ela afundou. Hoje vai ter uma atividade aí. Eu lembro bem do dia. O dia do afundamento dela foi numa terça-feira, no dia 15 de março de 2001. E eu estava em Brasília numa audiência lá por conta do afundamento. Nós estávamos lá. Os deputados tinham convocado. Tinha uma comissão especial da Câmara acompanhando isto. E eu estava acabando de dar uma entrevista para uma rádio, mais especificamente para o Paulo Henrique Amorim, na Rádio Bandeirantes. E me marcou porque, quando a plataforma explodiu e ela ficou adernada, o então diretor-geral da ANP, David Zylbersztajn, deu uma declaração no rádio. A gente estava ao vivo, e eu escutando ele. Eu estava dando uma entrevista, e o David Zylbersztajn também. E o David Zylbersztajn declarou para o Paulo Henrique Amorim no mesmo programa de rádio que não havia risco do afundamento da plataforma. E eu tinha conversado com técnicos da Petrobras no dia seguinte à explosão. Fizemos uma reunião aqui na sede da Petrobras. O gerente-geral dessa área. E a pergunta que eu fiz: “Há o risco de afundar a plataforma?” E ele falou: “Há o risco de afundar a plataforma. Do jeito que ela está inclinada a gente vai ter muito trabalho para voltar com ela à posição normal. Mas ainda estamos trabalhando.” Eles contrataram equipes na Noruega, estrangeiras, para vir aqui, mas acabou acontecendo. E o Paulo Henrique Amorim, na hora exata do afundamento eu estava dando essa entrevista. Afundou, eu soube porque o celular tocou, o pessoal: “Ó, acabou de afundar.” E o Paulo Henrique Amorim me ligou imediatamente: “Pô, acabou de afundar a plataforma?” “Acabou de afundar.” E aí eu lembrei da entrevista no rádio. “Pois é, infelizmente, Paulo Henrique, você, eu vou te dizer que ela afundou, e você se lembra, há uma semana atrás você entrevistou o diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo e ele disse que não havia risco de afundar.” Aí eu aproveitei e dei uma tacada, que mostra que ele não tem conhecimento nenhum da indústria de petróleo. A gente tinha uma briga com a Agência Nacional de Petróleo. Então me marcou muito também. No dia que ela afundou, na mesma hora tocou o celular e eu estava dando esta entrevista. Mas eu já sabia, porque eu tinha sobrevoado a plataforma no sábado. Até foi outra coisa que marcou também porque eu estava saindo do helicóptero e estava eu e mais um diretor da FUP que me substituiu na coordenação. Daqui a pouco o helicóptero voltou e eu vi assim os pilotos do helicóptero se mexerem, um brigar com o outro. Falei: “Está acontecendo alguma coisa.” E o piloto virou para trás e falou assim: “Olha, estamos numa emergência. Podem colocar o colete salva-vidas e tal.” Eu falei: “Caramba.” Aí eu sei que ele conseguiu levar o helicóptero até a base. Quando nós saímos do helicóptero, o helicóptero de branco estava negro porque estourou o retentor da hélice e sujou de óleo todo o helicóptero. Teve o risco de cair. Aí depois nós pegamos um outro helicóptero e fomos para a P36 e ficamos uma hora sobrevoando lá.

E eu, quando sobrevoei, eu comentei com um colega: “Não vai ter jeito mais.” Ela já estava muito inclinada. A gente já via que o mar já estava tomando conta. No período que nós estávamos lá sobrevoando a gente via que o mar ia tomando conta dos locais. Apesar deles injetarem nitrogênio. Eles chegaram a desincliná-la alguns graus, mas a gente, os técnicos já diziam: “A água já está tomando conta de tudo, não vai ter jeito.”

Ontem eu estava comentando. Nós fechamos o acordo. Eu até não estava programado para ir, mas atrasou e eles me chamaram lá. Porque as viúvas dos companheiros nossos, porque eu estava à frente da federação. Então eu tive muito contato, muito embate com a Petrobras sobre isso. E uma das coisas de mudança do relacionamento foi esse. Ontem a gente fechou um acordo, nós não, as viúvas fecharam um acordo com a Petrobras pela indenização das mortes por dano material e dano moral. Coisa que a direção passada disse que ia fazer e não fez. E deixou para a Justiça. E a gente teve como compromisso moral fechar o acordo. Das 11 viúvas, só uma não fez, preferiu continuar na Justiça, achou que os valores eram... Mas os valores que foram feitos à base do acordo, muito melhor do que se fosse feito na Justiça.

AVALIAÇÃO

Eu não mudaria nada. Muito feliz toda a minha trajetória. Sempre tive muito sucesso. Eu acho que não mudaria. Sempre fiz aquilo que eu gosto. Tem uma coisa que eu mudaria sim, é que eu tenho uma frustração na vida. Eu sou um fã de música popular brasileira e eu nunca consegui aprender a tocar violão. Sempre eu começava, parava. E eu sou, o meu pai gostava muito de... eu acompanhava. Parati não sei se vocês conhecem, mas lá é famosa pelos casarões, e eu lembro que eu era molequinho e eu acompanhava ele para fazer serenata, seresta, estas coisas. E eu gosto de Ataulfo Alves, Noel Rosa, isto tudo. E tocando violão é sempre bom, né? Então eu fico na roda só cantando, sem poder tocar o violão. Se eu pudesse voltar e aprender. É óbvio que eu posso aprender, mas é muito difícil.

O problema não é tempo. Meu filho está aprendendo a tocar violão. Só que eu peço para ele tocar Noel Rosa, ele só quer saber de tocar só música da igreja. Só música evangélica, porque ele também é evangélico. Violão é uma paixão minha.

LAZER

Meu lazer hoje é mais tomar uma cervejinha e conversar com os amigos do que... Conversar sobre vida sindical. Esse é um problema que a gente tem. Mas o meu lazer é ler. Eu leio muito. Gosto muito de ler. Gosto de cinema, mas faz muito tempo que não vou. Hoje basicamente é tomar uma cervejinha com os amigos no final da tarde e início da noite. E no final de semana é estar com a família. Uma coisa que eu não gosto de fazer, mas tem que fazer hoje, é levar a filha a shopping. Detesto shopping. E a molecada adora.

INFÂNCIA

Futebol era a minha paixão na infância. Para mim é, enquanto para os meus irmãos era pipa, bola de gude, peão, eu só bola. Bola e nadar. Mas recentemente eu tive um problema no joelho jogando bola e estou proibido de jogar bola. Então nem essa coisa eu posso fazer mais. No movimento sindical eu não fazia, porque eu não tinha tempo. Geralmente é um dia marcado que o pessoal joga bola. O pessoal marcava, eu uma vez, eu não ia. Falava: “Você está riscado, não vou guardar tua vaga aqui.” E agora eu não posso, apesar de ter final de semana, eu não posso porque eu estou com problema no joelho.

Sou Flamengo. Eu sou sempre alinhado com o povão.

COSTUMES

Sou ateu entre aspas, né? Eu tenho uma formação toda católica, fui coroinha lá em Parati, ajudei a celebrar missa. Fiz primeira comunhão. Vesti de anjinho em procissão. Depois estive envolvido nas Comunidades Eclesiais de Base. Hoje eu sou ateu, mas não...

Eu não sou praticante. Eu sou católico. Tenho, adoro a Teologia da Libertação. Mas também parei de ler nesta área. Fiquei só com o movimento sindical. Mas essa coisa é mesmo. O pessoal pergunta: “Como é que é isso? Você tem uma formação da Teologia da Libertação, igreja progressista, Leonardo Boff, frei Betto, bispo da Nicarágua que foi para o poder na revolução da Nicarágua.” Eu lia muito sobre a participação da Igreja lá na revolução sandinista. E atual... Ah, isto é negociável. De vez em quando eu vou num culto lá na Igreja Maranata, acompanho ela. Ela gosta. Nada de envolver.

SONHO

O maior sonho é que eu ajude, como outros companheiros nossos, a que o Lula faça um bom... saia consagrado e mude este país ao final destes quatro anos. Meu maior sonho é esse. Eu não tenho sonho pessoal não. Meu sonho é mais coletivo.

ENTREVISTA

Quando eu vi esse projeto, quando o Bargas me apresentou esse projeto, que já tinha sido implantado no Sindicato dos Metalúrgicos, a parceria das empresas montadoras, Ford, eu falei: “Nós temos que fazer isto urgente aqui nos petroleiros, antes que eu saia da federação. E foi uma conversa do Sindicato dos Petroleiros de São Paulo, que conheciam os metalúrgicos, procuraram a Petrobras, me pediram para ajudar, porque eu tinha um bom conhecimento, trânsito aqui na Petrobras. Então eu vou à frente da federação e ajudei a consolidar esse programa. Quando eu vi pela primeira vez, o Bargas me mostrou, eu falei: “Não, vamos fazer isto. E vamos aproveitar que o Lula vai ganhar a eleição e vai calhar com os 50 anos da Petrobras”. Então vocês estão a calhar para a gente terminar este trabalho.

Olha, é gostoso falar destas coisas. Quando eu também, porque na primeira vez eu já tive duas pesquisadoras, uma da Universidade de Pernambuco fazendo um trabalho sobre a greve. Então vivi muito. Não assim com luzes, mas com entrevista. E uma aqui da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também falando sobre greve. Então eu, falando dessas coisas, para mim já é um pouco... já é rotineiro. Mas essa coisa de imagem, só na televisão mesmo. E eu aparecia na televisão só quando a categoria estava em evidência. Aí sempre uma tragédia. Acidente na Bahia de Guanabara em 2000. Acidente no rio Paraná, na refinaria. E aí, 2001, acidente na P36. A greve de 95. Só aparecia. Então me tornei conhecido pela televisão, mas só por problemas, mas não por outra coisa boa.

CULTURA PETROBRAS

A Petrobras para mim é parte significativa da minha vida. Entrei para Petrobras com 19 anos e estou há 26 anos. A minha carreira, tanto no movimento sindical, quer na vida profissional, quer dizer, o que eu tenho. Tenho muito pouco de patrimônio. Um apartamento de 50 metros quadrados, uma vida que tem uma certa garantia de emprego, eu agradeço à Petrobras. A minha vida está ligada à Petrobras. Mesmo me opondo em determinado período à direção da Petrobras, a minha vida está ligada à Petrobras. Como fosse o meu primeiro emprego. Apesar de o meu primeiro emprego com carteira assinada ter sido em uma indústria metalúrgica lá em Volta Redonda, aí eu fiquei três meses e depois eu entrei para a Petrobras como se fosse o meu primeiro emprego. E para muitos dos meus colegas é primeiro emprego. Hoje da minha turma que entrou, eu tive por acaso com parcela dela anteontem, que eles sempre fazem um churrasco na segunda quarta-feira do mês e eu dou sempre uma passadinha. Mas da minha turma, só eu que estou na Petrobras na ativa. Todo mundo se aposentou. Eu sou hoje o mais antigo funcionário lá do meu setor na Petrobras. Esse ano, em outubro eu faço 27 anos de Petrobras.

E Petrobras é, depois do governo Fernando Henrique, mas a Petrobras para gente era vestir camisa. Você tinha orgulho de pegar aquele macacão com aquele símbolo hexagonal. Depois aí vêm alguns problemas, mudança do logotipo. Tentaram mudar o nome da Petrobras. Os embates do movimento sindical. Hoje não tem aquela coisa que a gente tinha no passado. Quem entrava na Petrobras sabia que queria entrar e se aposentar na Petrobras. Hoje tem gente que quer entrar na Petrobras só para pegar experiência e sair. Mas a Petrobras ainda é a empresa que todo mundo quer trabalhar. Petrobras é, quando eu coloco aquele capacete. Até bem recentemente, mesmo no movimento sindical, eu colocava minha roupa da Petrobras para ir às assembléias. Porque aquele símbolo é muito, é uma emoção para a gente. A história da Petrobras é emocionante. A criação da Petrobras envolveu desde pensamento ideológico à direita, quer dizer, os militares, até o Partido Comunista do Brasil e passando aí pelos profissionais liberais. A história da Petrobras é fantástica. E eu agradeço, sou privilegiado por participar desta história da Petrobras, porque também faço parte da história da Petrobras. Apesar de estar no movimento sindical, mas eu também faço parte da história da Petrobras. 

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