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Primeiro transhomem operado no Brasil

História de: João W Nery
Autor: João W Nery
Publicado em: 12/10/2014

Sinopse

João W. Nery, psicólogo, sexólogo, escritor, transhomem e ativista dos direitos humanos publicou sua autobiografia “Erro de Pessoa: João ou Joana?” em 1984, pela Ed. Record, graças ao empenho pessoal de Ruth e Antonio Houaiss, que fez a orelha, finalizando com as seguintes palavras: “Leiam e humanizem-se.” Em 2011, publicou o segundo livro, “Viagem Solitária, Memórias de um Transexual Trinta Anos Depois”, uma releitura do livro anterior e a sua continuação, com a grande revelação: João torna-se pai, ainda que não biológico. O autor nasceu em 1950 no Rio de Janeiro, com um corpo feminino, embora tenha sempre se identificado com o gênero masculino. Ao perder o diploma de psicólogo, por causa da mudança de identidade, teve várias atividades para sobreviver. A recente conquista do espaço pelas transidentidades permite uma reflexão sobre o drama vivido por indivíduos que não se enquadram nos papéis de gênero impostos pela sociedade e suas convenções.

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História completa

Introdução - Breve histórico

 

Nasci no Rio de Janeiro em 1950 e vivi até os 27 anos com um corpo de anatomia feminina. Formei-me em Psicologia com especialização em Sexualidade e Gênero. Fui mestrando em Psicologia Educacional, lecionei em três universidades, além de ter mantido um consultório de psicoterapia, ainda com uma identidade social feminina. Fiz a mamoplastia masculinizadora e a pan histerectomia, durante a ditadura militar, em 1977, vinte anos antes das cirurgias serem legalizadas. Aos 37 anos, assumi a paternidade da gravidez da minha mulher e aos 13 anos conto para o meu filho minha história, o que nos aproximou mais. Hoje ele está com 26 anos, com nível superior de escolaridade, trabalha e é casado com uma mulher. Fatos que desmistificam que pais transexuais não podem ter filhos saudáveis.

 

A mídia me considera o primeiro homem transexual operado no Brasil. Na época, por falta de uma legislação própria para a condição transexual e por minha iniciativa, tirei uma nova documentação para poder me articular socialmente. Como consequência, perdi todos os meus direitos anteriores, inclusive o meu currículo escolar e profissional, tornando-me um analfabeto. Passei então a exercer várias profissões para poder sobreviver: pedreiro, vendedor, cortador de confecção de roupas, massagista de shiatsu, entre outras.

 

Escrevi dois livros autobiográficos: "Erro de Pessoa - Joana ou João" (1984, Editora Record) e "Viagem Solitária - Memórias de um Transexual 30 anos depois" (2011, Editora Leya) . O segundo é uma atualização e continuação da minha história. A primeira publicação, devo à ajuda de Ruth e Antônio Houaiss - ele me presenteou com o texto da orelha do livro, concluindo-o com uma sábia frase: “Leiam e humanizem-se”. No segundo, tive a ajuda para a publicação de Mary e Zuenir Ventura e a trajetória do livro segue até os 61 aos de idade. O livro Viagem Solitária foi agraciado com dois prêmios de Literatura: o Prêmio Astra – da Associação de Travestis e Transexuais do RJ (2011) e o da 10ª Parada Gay de São Paulo (2012).

 

Em 2011, recebi o prêmio Arco Iris de Direitos Humanos na categoria “Visibilidade Trans", dado pela 16ª Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro. Atualmente, está sendo roteirizado para um longa metragem de ficção. Saindo do armário fui obrigado a exercer o anonimato por mais de três décadas. Como a sociedade hoje está mais preparada para essa discussão, para dar maior credibilidade à publicação do meu segundo livro, resolvi me tornar visível e aceitar os convites da mídia. Dei depoimentos para programas de TV (De frente com Gabi, Superpop, Programa do Jô, Altas Horas, A Liga, Balanço Final, Provocações, Canal Fiocruz, Tabu Brasil da Nat Geo), entre outros, dei entrevistas para jornais e revistas de circulação nacional e internacional. Participei como palestrante em congressos, seminários e mesas redondas, em universidades e ONGs pelo Brasil, divulgando minha história e contribuindo para a reflexão sobre a diversidade sexual e os direitos humanos.

 

Nunca imaginei que ao lançar meu segundo livro minha vida mudaria radicalmente. Não mais como um freak de Joana para João, mas como um elemento visibilizador de um segmento praticamente desconhecido - os transhomens. Muitas pessoas começaram a identificar amigos, parentes ou a si próprias com a minha história. A procura por ajuda em todos os níveis foi tão grande, que me vi obrigado a me familiarizar com as redes sociais para atender aos pedidos: eram pais de trans me pedindo orientação; filhos que não sabiam como se assumir perante a família ou a sociedade; transhomens que até então se autodeclaravam lésbicas masculinas, por desconhecerem outras categorias e, aqueles que já tinham tentado suicídio e viviam a base de antidepressivos; pedidos de indicação de profissionais especializados; travestis e transmulheres, que surpresas, perguntavam se tínhamos ou não pênis e até heterossexuais homofóbicos, que vieram me agradecer por terem se libertado do preconceito com a leitura do livro. Tornei-me uma espécie de “psicólogo virtual”.

 

Desde que me tornei um ativista, minha luta passou a ser pelos Direitos Humanos, não se restringindo à causa LGBT. Fui rompendo alguns tabus dentro da própria comunidade trans: quando não neguei meu passado, mesmo depois das cirurgias: "Joana também sou eu e graças a ela me tornei o João que sempre fui”; ao me declarar num blog como transhomem , enfatizando o trans como motivo de orgulho, ressaltando a importância de transcender o gênero e afirmando não querer ser um homem como definido por esta sociedade controladora, machista e misógina, já que a maioria prefere usar homem trans ou FTM (Female to Male), almejando se "encaixar" no limitante binarismo sexual; ao defender o direito de um projeto de inseminação artificial (antes da pan histerectomia), para uma possível gravidez dos transhomens, sem que com isso a identidade masculina ficasse comprometida; ao defender as várias orientações sexuais que uma transhomem pode assumir, em função do seu desejo; ao me posicionar contra a patologização, questionando os "científicos" saberes biomédicos e jurídicos em relação às transidentidades , confiando no princípio da integralidade do SUS.

 

Considero a transexualidade apenas como uma da várias formas de expressão da sexualidade humana (através de identificações de modelos de gênero, socialmente disponíveis), sem nenhum caráter universal, natural, biológico ou genético. Ativismo Transhomens, assim como os outros termos de autodesignação ( homens trans, FTM), procuram dar visibilidade ao conflito entre características masculinas e femininas designadas/atribuídas/assignadas a partir da observação (anterior ou posterior ao nascimento) de órgãos genitais e a subjetividade do gênero das pessoas. Essas transubjetividades ultrapassam o binarismo esperado, fissuram a heteronorma da sexualidade e negam que a anatomia dos corpos possa ser tomada como único destino possível (Nery e Meinberg , 2013).

 

Declarar-me como transhomem, ter uma identidade inteligível, é imprescindível para que eu conquiste direitos, através de políticas públicas. Foi esse o meu intuito, quando participei da fundação da Associação Brasileira de Homens Trans - ABHT em 30 de junho de 2012, hoje extinta, e do IBRAT - Instituto Brasileiro de Transmasculinidades , criado me meados de 2013, com um núcleo de Pesquisa e produção acadêmica, que também vai trabalhar com formação política, incentivo à militância e controle social. Dentre as principais propostas das pessoas trans, estão: - a ampliação da rede ambulatorial e hospitalar, que hoje consta com apenas quatro unidades do SUS para fazer o processo transexualizador no país, sendo feita uma cirurgia por mês em cada hospital. As filas são enormes e há transexuais esperando há mais de 10 anos. Os que procuram médicos particulares, geralmente esbarram com a exigência do laudo psiquiátrico, com a falta de recursos financeiros e com o despreparo de profissionais especializados para atendê-los. Sem autonomia, são obrigados a se sujeitarem a um protocolo "científico", de caráter duvidoso, por dois anos e impedidos de terem qualquer decisão sobre como se definem e sobre alterações nos seus corpos.

 

Ter uma identidade de gênero trans não se limita a realização de uma ou outra intervenção somática. - a defesa do 3º "Princípio de Yogyakarta” : Ninguém deve ser obrigado a submeter-se a procedimentos médicos, incluindo cirurgia de redesignação sexual, “esterilização” ou tratamento hormonal, como requisito para o reconhecimento legal de sua identidade de gênero. - a aprovação de uma legislação específica que proteja e reconheça os direitos civis da população trans, que combata a discriminação e a retificação de prenome e gênero independente da realização da cirurgia de transgenitalização, de perícia médica e autorização judicial. O nome social além de não vigorar na maioria dos Estados, não é cumprido como deveria.

 

Para preencher esta lacuna, os Deputados Federais Jean Wyllys e Érika Kokay protocolaram na Câmara em 20 de fevereiro de 2013, o projeto de lei 5002/13 com o nome de João W Nery – a Lei de Identidade de Gênero . O projeto de lei garante o direito do reconhecimento à identidade de gênero de todas as pessoas trans no Brasil, sem necessidade de: autorização judicial, laudos médicos ou psicológicos, cirurgias, hormonioterapias. Preserva todo o histórico, assegura o acesso à saúde no processo de transexualização, despatologiza as transindentidades para a assistência à saúde e preserva o direito à família frente às mudanças registrais. A psicoterapia, portanto, só será feita caso o interessado assim o desejar. O projeto foi feito se baseando na experiência da Lei de Identidade de Gênero Argentina, com o incentivo, trabalho e engajamento de vários ativistas e, sobretudo, com as demandas levadas pela ABHT - Associação Brasileira de Homens Trans (Nery, 2013) . - o combate à transfobia nos espaços públicos e privados, tais como: escolas, estabelecimentos de saúde e prisionais, banheiros públicos, delegacias, locais de internação coletiva, mercado de trabalho, famílias. - a despatologização ou despsiquiatrização das transidentidades com garantias da manutenção e ampliação da assistência à saúde integral nos sistemas público e privado A transexualidade no DSM V de 2013 (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), da Associação Americana de Psiquiatria e no CID 10 (Classificação Internacional de Doenças), da Organização Mundial da Saúde (OMS), (que deverá ser revisto em 2015), passou a constar o termo “disforia”, em substituição a "transtorno de gênero”, entretanto, continuará a ser uma patologia. Ser um “disfórico de gênero” pode ser cômodo para alguns trans, por isentá-lo da responsabilidade de ser o agenciador de suas possíveis causas. Entretanto, acarreta uma série de desconfortos: retira a autonomia de seus corpos, obrigando-os a um protocolo discutível, baseado numa visão de que o cisgênero é o normal; impõem aos não normativos (transgêneros) a se submeterem por dois anos a testes, psicoterapias, a responder questionários sexistas e ainda a se moldarem aos estereótipos dos profissionais, do que é ser masculino ou feminino, para conseguirem um laudo, a fim de se operarem. Influencia negativamente, também, as crianças e adolescentes trans a se verem como doentes e por fim, o autoritarismo iguala a todos e não reconhece as diferenças. Considerações Finais Devido aos diários pedidos de ajuda, através das redes sociais, elaborei uma lista de profissionais especializados, que pudesse atender às solicitações recebidas.

 

Infelizmente em todo o país, só em uma universidade, na cidade de Assis/ SP, existe a cadeira de Gênero e Sexualidade como obrigatória, no currículo. Algumas outras a tem como eletiva. Portanto, há um desconhecimento e despreparo total no trato da população transgênera, seja de profissionais, como da sociedade em geral, começando pela família e escola, que não tem projetos políticos e pedagógicos para a diversidade sexual. Não só a criança como o adolescente precisa de orientação e apoio emocional para enfrentar a homo/transfobia. O fato de que vários alunos universitários e pesquisadores passaram a escolher a transexualidade masculina como tema para seus trabalhos e teses, me solicitando depoimentos e indicações bibliográficas, constatei que haviam poucos artigos e livros sobre o assunto. Retomei então meus estudos sobre gênero e sexualidade e voltei a escrever, desta vez em parceria, inicialmente, com um pesquisador acadêmico , sobre o tema “as transmasculinidades”. Trata-se de etnografias digitais, compartilhando as transexperiências (experiências políticas) no ciberespaço. As cartografias sobre tais vivências foram realizadas a partir de trabalho de inspiração etnográfica digital – marcado pela observação participante em fóruns e grupos da rede social Facebook. Pretendemos nestes textos , abrir novos diálogos e tornar visíveis as transvivências masculinas - cientes de que tais trabalhos não esgotarão o assunto. Finalizando, faço hoje, através do estabelecimento de uma rede de contatos, o primeiro levantamento dos transhomens no Brasil, classificados por Estado.

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