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História

“Preservando as tradições do passado, Sr. João mantém viva a tradição e a cultura de um povo”.

História de: João Nestor da Fonseca
Autor: Sophia Donadelli
Publicado em: 13/06/2021

Sinopse

João Nestor da Fonseca, herdou de seu pai a responsabilidade de manter e preservar uma tradição cultural e religiosa que teve origem numa promessa dos seus tataravôs. Através das Folias de Santos Reis e do Divino Espírito Santo seja no candomblé ou do congo ele mantém viva as tradições históricas imprimindo desde cedo esses valores nas crianças, garantindo a continuidade das tradições africanas, que envolve o canto, a dança e as expressões religiosas. Mantendo presente essa tradição, através das apresentações que realiza, organiza e dirige na região da cidade de Fidalgo-M.G.

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História completa

Projeto Quinta do Sumidouro na Memória e Vida dos seus Moradores

Realização Museu da Pessoa e Instituto Camargo Corrêa

Entrevista de: João Nestor da Fonseca

Entrevistado por: Sônia London e Mônica Machado

Pedro Leopoldo, Minas Gerais, 02/09/2013

Código: QSHV02_João Nestor da Fonseca

Transcrito por: Liliane Custódio

 Revisado por: Anna Christina Madrid

 





P/1 – Senhor João.



R – Oi.



P/1 – Vou pedir que o senhor diga para mim o seu nome completo, data e local do seu nascimento.



R – Certo. Meu nome é João Nestor da Fonseca, nasci aqui em Fidalgo, em oito de setembro de 1948.



P/1 – Quais são ou quais foram os nomes dos seus pais? Eles estão vivos?



R – Não. Todos falecidos. O nome do meu pai é Agenor da Fonseca Amaral, e o nome da minha mãe, Conceição da Silva.



P/1 – Sei. Eles nasceram aqui?



R – Nasceram.



P/1 – Nasceram, todos.



R – Todos eles.



P/1 – E o que eles faziam aqui?



R – Meu pai era agricultor, trabalhava na lavoura, onde ficou até morrer, como dizem. Ele faleceu em 1973, sendo que trabalhou até 1968, quando adoeceu, desta época para cá... Não teve condições de trabalhar mais, nós ficamos nessa luta com ele até Deus levá-lo .



P/1 – E a sua mãe, também era daqui de Pedro Leopoldo?



R – Minha mãe também era. Ela nasceu e foi criada aqui em Fidalgo.



P/1 – Fidalgo?



R – É. A Conceição da Silva



P/1 – E ela fazia o quê?



R – Ela trabalhava em casa, na cozinha, era doméstica. Fazia as obrigações da casa, como lavar roupa, passar e cozinhar. E meu pai, nessa época, tinha muitas criações, como: muitas galinhas e muitos porcos, e ela ajudava a cuidar disso tudo, além da luta de ter 11 filhos.



P/1 – Onze filhos?



R – Sim, onze filhos e ainda criou mais três.



P/1 – De onde?



R –Todos daqui.



P/1 – Mas...



R – São parentes...Todos trabalhavam aqui. Eles começaram a trabalhar com meu pai e pediram a ele, se consentia deles morarem conosco. Meu pai prontamente os adotou como se fossem seus filhos. E saíram só depois, já rapazes, para se casarem.



P/1 – Como?



R – É. Tinha um que se chamava “Antônio da Saúde”, ele era de Lagoa Santa. E os outros dois eram daqui mesmo, um é primo, chama-se Raimundo Catarino, e o outro era sobrinho de meu pai, chamava-se Carlos da Silva, já falecido, mas foi criado conosco, com meu pai. E nós o tínhamos como irmão mesmo, ele é como primo-irmão. 



P/1 – Quem foi o primeiro da família que veio para cá? Foi o seu avô ou o seu bisavô? Como a família veio para cá?



R – Olha, pelo que eu tenho de conhecimento, é meu avô. Meu avô e minha avó, todos os dois, tanto do lado de pai como do lado de mãe, todos eram daqui de Fidalgo.



P/1 – E eles vieram de onde, seus avós?



R – Não, eles nasceram e se criaram aqui.



P/1 – Ah, nasceram aqui.



R – Sim, e aqui adquiriram a família, que são a minha mãe, o meu pai e, do outro lado do meu avô, e por aí em diante. Agora, os meus bisavós, eu não sei dizer se são daqui ou se vieram de outro lugar.



P/1 – Ah, está certo.



R – Mas moravam aqui, porque toda a família nasceu e se criou nessa região, aqui de Fidalgo.



P/1 – Sei.



R – Antes, era chamado Sumidouro, depois passou a ser chamado de Fidalgo. 



P/1 – Sumidouro.



R – Sim, agora é: Quinta de Sumidouro, de Fidalgo, quero dizer.



P/1 – E como era a casa que vocês moravam?



R – Ah, era uma casa muito simples, não era nem de tijolo, nem de “adobe” [Tijolos de terra crua, feitos em processo artesanal], era feita  de enchimento. Era feito de uma madeira fina, a qual nós fazíamos aquelas “masseiras” de barro e rebocávamos até com as mãos, não era usado nem a colher de pedreiro, era com as mãos. Colocávamos um pouquinho de areia no meio, para dar uma liga, e assim era feito o material foi desse jeito que foi feito a nossa casa. Depois, com um espaço de tempo e depois da família já criada, meu pai construiu uma casa de tijolos, já com outro material e com mais perfeição. Enquanto antes, ela tinha sido feita de barro, era uma casa de barro, com essas telhas curvas e antigas, foi desse jeito. Depois passamos por uma casa que meu pai fez em 1965, já construída com a telha francesa e foi desse jeito nossa casa depois. Depois, do “velho” morrer, ficamos eu e a minha mãe somente. Eu era solteiro, minha mãe ficou viúva, então fiquei com ela. Minha mãe ficou viúva e em alguns anos depois, eu me casei e fui morar com ela. Depois começou a ter uns desentendimentos, não por parte de minha mãe ou da minha esposa, mas com a família.  Com isso “rendeu” ciúmes e começou a ter intrigas e, para não complicar a situação, eu peguei e falei: “Eu vou sair e vou arrumar uma casa para eu morar, porque eu não posso maltratar a minha mãe e nem maltratar a minha esposa, sem elas merecerem”. Eu estava vendo que elas não mereciam passar por aquilo, nisso eu decidi sair. Mas foi uma coisa que até me abalou, porque de todos da família, eu fui o único que não saí de casa para trabalhar em outro lugar, a não ser aqui dentro de Fidalgo. E por conta do meu pai e minha mãe, já serem de idade, eu não queria deixá-los sozinhos, então eu fiquei, enterrei meu pai e enterrei minha mãe. Mas na época eu não consegui continuar morando junto com minha mãe, por esses motivos de família, alguns tendo ciúmes, achando que eu ia “possear” de tudo que minha mãe tinha. E era o contrário, eu estava tentando zelar para nós todos termos igualmente. Porém, eles não punham na cabeça isso, não viam por esse lado e não pensavam assim. Aí eu peguei, retirei tudo e fui morar na casa de um compadre, depois mudei novamente e fui para casa de uma tia da minha esposa, em seguida, aluguei outra casa e agora eu moro numa  casa da Rua Santo Antônio, uma moradia que hoje é minha, graças a Deus! Então eu vivi esse período todo desse jeito. Trabalhei por 12 a 13 anos na prefeitura de Pedro Leopoldo, onde trabalhava de dia e à tarde eu ia para casa.



P/1 – Está certo. Vamos voltar ainda um pouquinho lá na sua infância, nós já vamos chegar aí ao seu trabalho.



R – Certo.



P/1 – Está certo? O senhor se lembra, assim, como era a sua rua?



R – Lembro.



P/1 – O que vocês faziam? Como era?



R – Tudo. Era rua de chão, tinham poucas casas.



P/1 – Quantas casas, o senhor se lembra?



R – Lembro. Devia ter na minha rua, onde fica a minha casa na Rua Fernão Dias, uma base de mais ou menos de seis a sete casas.



P/1 – Olha!



R – Hoje, se for contar, tem mais de 50.



P/1 – [risos].



R – Mas era isso. Então a gente...porque se eu for falar que eu tive infância, eu estaria mentindo, pois eu nunca tive infância, foi só trabalho.



P/1 – Mas o senhor brincava?



R – Foi por isso que eu não concluí meus estudos, pois quando estava na época das plantações, meu pai falava: “não, nós vamos trabalhar, temos que ir trabalhar”. Às vezes nós tínhamos prova na semana, e por conta dele, nós não fazíamos a prova. Quando terminava a plantação, a professora que era muito boa e muito amiga deles, do meu pai e da minha mãe, e nós também tínhamos muita amizade com ela e muita consideração; com isso ela separava as provas para nós fazermos depois. Porém, nós não continuávamos a sequência dos estudos, por exemplo, em uma semana faltávamos de duas a três vezes. E era assim. E quando  eu já estava crescido, com mais ou menos 13 ou 14 anos, já não tinha outra classe de aulas para nós daqui da região, estudarmos. 

E aqui, eram só o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto ano, onde a pessoa completava o quarto ano, onde ele recebia o diploma e depois  ele já não voltava mais para a escola, pois não tínhamos  mais jeito de estudarmos por aqui . Nessa época não tinha como, já que a situação não permitia que fôssemos estudar fora. Então eu fiquei e depois eu fiz segundo ano e, quando eu entrei no terceiro ano do Grupo Escolar, eu saí novamente para ajudar meu pai na lavoura. E depois, abriram uma sessão para termos aulas a noite, no período noturno, onde eu fiz e completei o terceiro ano. E daí para cá, parei de estudar e fui trabalhar de fato. Não tive como não trabalhar. Trabalhando e ajudando o meu pai. 

Nós plantávamos muita lavoura, então todos nós da família, estávamos todos trabalhando em casa. Das meninas, que eram as duas mulheres, que ficavam em casa nas tarefas entre lavar e cozinhar; enquanto os outros filhos trabalhavam na lavoura.



P/1 – Desde pequenininho? Desde qual idade, mais ou menos?



R – Desde pequeno. Eu comecei a trabalhar com a idade de cinco anos.



P/1 – Cinco anos?



R – Cinco anos. Eu falo sempre para meus meninos: “Olha, meu filho, eu já podia ter me aposentado muitas e muitas vezes. E, por nós sermos pessoas simples, nesse tipo de coisa, que eu não me aposentei”. Pois pela idade que eu comecei a trabalhar, com cinco anos, e eu vou fazer 65 agora, dia oito de setembro, então eu passei minha infância toda, trabalhando. Para nós, brincarmos com os coleguinhas, era depois do trabalho. Nós chegávamos do serviço, reuníamos um grupinho de companheiros e ficávamos brincando de pegador ou escondendo,eram  as brincadeiras que nós tínhamos. E, aos domingos, tinha um campinho no Grupo Escolar onde nós estudávamos, e onde nós nos reuníamos com uma turminha para jogarmos uma “peladinha” por lá, durante o dia. E era sempre depois de fazermos os deveres de casa, pois papai não abria mão disso, para nós. Era como uma festa que tinha todos os anos, porém não é mais a mesma festa igual era antes, uma festa tradicional. Nós às vezes fazíamos todas as  coisas a tempo, para nós irmos à festa aqui do lado de cima, e aí ele falava assim: “Não, mas ainda está faltando isso”. Às vezes, estava quase na hora da missa e nós tínhamos ainda que fazer algo para ele. Ele não nos deixava sair, sem que fizéssemos aquilo que ele queria. Era como uma recomendação, minha filha, um “corregimento”, para qualquer “coisinha” que não tivesse motivo para que ele soubesse, mesmo assim ele estava querendo nos corrigir. Mas eu não ignoro isso, não, pois foi bom para nós. Éramos 11 irmãos, morreram dois mais novos, “pequenininhos”, os nove que ficaram, graças a Deus, são cidadãos do bem. São cidadãos do bem, graças a Deus! Nós não encobríamos as coisas erradas, de espécie alguma. Então, agradeço muito ao meu pai por ele ter nos corrigido, apesar de tudo. Porque nessa época, nós não tínhamos esse desenvolvimento que nós estamos tendo hoje. Como o caso dos jovens de hoje, que estão se envolvendo em coisas ruins, este tipo de coisa, a gente não tinha. Não tínhamos isso nessa época, pois ele não nos deixava mesmo, em nos distanciar dele.



P/1 – Quantos irmãos eram?



R – Nós éramos em 11 irmãos.



P/1 – Não, mas quantos meninos e quantas meninas?



R – Nós éramos nove homens e duas mulheres.



P/1 – E como vocês “tratavam”, como vocês faziam com as duas irmãs no meio de tantos homens assim?



R – Para nós, pois até hoje as duas são vivas, sendo que uma fez no último 31 de julho, 80 anos. Eu falo que ela é minha mãe, para mim é minha mãe. Enquanto a mais nova, está com 73 anos e também é a mesma coisa, pelo carinho que nós temos por elas e elas têm para com a gente. Somente eu e meu irmão mais novo, que é mais velho que eu, um pouco acima de mim, o que elas podem fazer para nós, elas fazem. Então, graças a Deus, a gente tem uma convivência muito boa.



P/1 – E elas estudaram também?



R – Sim, igual a mim.



P/1 – Igual a você?



R – Sim, igual. Lá em casa só teve um que concluiu o quarto ano, só o caçula que ficou no quarto ano, o Expedite [Expedite João da Fonseca]. Ele concluiu o quarto ano e pegou diploma, enquanto os outros, foram para o segundo, terceiro ano, e quando chegaram no quarto ano, não completaram e tiveram que sair. Sendo que ele, o Expedite, conseguiu  completar.



P/1 – Ele completou?



R – Sim, porque ele era o mais novo. Quando meu pai falava: “Amanhã nós vamos para a lavoura” e ele falava: “Eu não vou, não. Eu tenho prova”. E não ia mesmo. Ele batia o pé e não ia. Enquanto eu era doido para ir e guiar os bois, pois eu gostava demais de trabalhar na lavoura, então quando meu pai falava, eu já estava correndo [risos]. Era desse jeito.



P/1 – Então o senhor “tocava” boi?



R – Ah, sim, “mexia” com boi.



P/1 – É?



R – Trabalhei muito tempo.



P/1 – Como era isso?



R – Eu trabalhava na lavoura com boi e no curral, tirando leite. Mas foi por muito, muito tempo. Trabalhei por anos e anos tirando leite e, de cada serviço braçal, eu aprendi a fazer um pouco, graças a Deus também. Era esse tipo de serviço que nós tínhamos para fazer na época e nosso pai nos “empurrava” mesmo, a trabalharmos. Ele não aceitava que nós ficássemos em casa parados, não. E se nós não tivéssemos serviço na nossa lavoura, ele falava assim: “Olha, fulano está precisando de uma ou duas pessoas  para trabalhar, então vocês vão trabalhar lá para ele”. Aí nós íamos. Era assim, não nos deixava ficar parados, não. Nós trabalhávamos direto, não tínhamos férias, não tínhamos  nada, era quase de domingo a domingo; pois era só no domingo mesmo que nós tirávamos para descansar. Caso acontecesse de ter uma cerca estragada ou que o gado tivesse entrado na lavoura, ele nos mandava para lá e dizia: “Olha, vão arrumar a cerca lá, tem criação dentro da roça, põe para fora e vão arrumar”. Então nós não tínhamos aquela liberdade, igual a liberdade de hoje que os meus filhos têm. Mas mesmo assim, para com todos os meus quatro filhos, eu trouxe o exemplo também de: não “judiar”, de não bater e, não os tirei dos estudos, mas os ensinei a trabalharem. O que eu aprendi eu os ensinei a fazer. Falei: “Olha, meu filho, o homem não vive só de vinho e de pão, não. Ele tem que sacrificar um bocadinho. Pois hoje você pode estar num emprego muito bom, mas amanhã você pode estar desempregado, aí como você vai fazer para sobreviver? Você tem que dar um jeito, então você tem que aprender”.



P/1 – Então vamos voltar mais um pouquinho, antes de chegar aos seus filhos. Sobre sua juventude, como foi?



R – Ah, trabalhando.



P/1 – Como o senhor se divertia?



R – Ah, nós tínhamos um “joguinho” de bola. Tinha um “joguinho” de bola, era aos domingos que nós jogávamos. Por exemplo, no dia que nós não tínhamos o jogo de bola, nós tínhamos os “companheirinhos”, com os quais nós jogávamos um “truquinho”, um “baralhozinho”, e assim também nós nos divertíamos. Nessa época tinha também uns “bailezinhos” em casa de parentes, com sanfona, geralmente de sábado sempre tinha um baile e, e era onde nós íamos. Era assim que nós fazíamos. 

Aqui também, por ser um lugar muito religioso, onde quase todas as pessoas faziam um “levantamento” de bandeira, nos meses de junho, julho e até agosto, onde tinham o costume de fazer a reza depois do “levantamento” e, em seguida,  fazíamos   um “rastapézinho”. E nós estávamos  sempre  por ali, no meio.



P/1 – Então como vocês namoravam? Como conheciam as meninas?



R – Uai.



P/1 – Uai.



R – As meninas, era o seguinte, elas iam às “rezas” também, igual aqui na igreja, sendo que essas “rezas”, começavam no mesmo de março, mês de São José, era a reza de São José, depois vinha o mês de abril, com São Benedito e aí vinha o mês de maio, o mês de Maria. Então eram três meses de reza, direto, onde nós nos víamos nesse local e ficávamos nos conhecendo e com isso, começávamos com um “papinho”. Mas era um tipo de namoro, mas ali os pais das meninas não nos davam espaço para nada, não. Era igual ao que nós estamos aqui, numa comparação, se fôssemos eu e você que estivéssemos conversando ou namorando, o velho punha uma cadeira aqui e ficava de frente para nós.



P/1 – [risos].



R – [risos]. É. E não podia mesmo nem pegar na mão, não aceitavam bem, não. Mas foi desse jeito.



P/1 – Quantos anos o senhor tinha quando começou a namorar a sua esposa?



R – A minha esposa?



P/1 – Isso.



R – Ou a primeira?



P/1 – Não, a primeira namorada então. Vamos ver.



R – Ah, eu estava com 16 anos, ia fazer 17 anos. Na escola nós tínhamos ... Como eu frequentei a escola e ela também, nós já conversávamos, embora nunca tivemos assim, alguma coisa séria, era mais um papinho à toa. Depois quando eu estava completando 17 anos, certo dia eu fui à reza, mas  antes da reza nós  ficávamos  “fazendo avenida”, ou seja, subindo e andando  para lá e  para cá.



P/1 – Fazendo o quê?



R – Fazendo “avenida” na rua aqui. Juntava um grupinho de moças e, às vezes, quando uma delas gostava de algum menino, assim como de  mim ou de outro, mandavam uma colega chamar. Aí a colega chamava e assim começávamos a bater um papo. E assim continuamos. Foi assim que eu comecei a namorar essa menina. Depois namoramos por uns seis ou sete meses, depois terminamos e comecei a namorar outra e fui continuando. Eu era muito paquerador.



P/1 – [risos].



R – Teve uma vez que eu estava com seis namoradas, todas daqui, deste lugar.



P/1 – Ao mesmo tempo?



R – Todas ao mesmo tempo. Eu ia à casa de cada uma. A semana toda eu tirava um dia para cada uma. E elas não ficavam sabendo, mas quando elas descobriram...Minha filha, me fecharam numa rodinha e eu andei como rato.



P/2 – [risos].



P/1 – [risos].



R – [risos] É, aí eu falei: “Não, isso aqui é gente da minha amizade, é gente que eu tenho”. Aí ela falava: “Ah, era assim que você estava me enganando, não é? Levando-me na conversa e namorando outras e falando...” “Não, de jeito nenhum. Você está doida? Não faria isso com você, não”. E assim foi, até que eu tive que ficar só com essa, que eu me casei.



P/1 – [risos].



P/2 – [risos].



R – [risos] “Essa daí”, coitadinha, me tolerou demais. Ficava até bobo, na época, de ver o quanto que ela me suportava. Mas eu não tinha nada escondido dela, não. Às vezes...



P/1 – Ela sabia que o senhor tinha seis namoradas?



R – Sabia. Eu falava com ela. Com ela eu falava. Acho que foi até por isso, que a gente se casou, foi mais por conta disso, da minha sinceridade para com ela e dela comigo. Aí eu falava com ela assim: “Olha, fulana está desfazendo de você e falou que vai me tomar de você. Então você não esquenta a cabeça, não, eu vou namorá-la ao menos uma semana, ao menos uma semana”. Assim que eu fazia, sabe? 



P/1 – [risos].



R – Aí eu conversava com ela e saía às vezes... Igual àquela casa dali, uma casa que tem ali em frente ao barzinho, onde a menina que era a minha namorada, morava logo em frente da casa da que é a minha esposa hoje. Aí ela sempre ficava implicando com a minha namorada, provocando-a,  e tal. Aí ela pegou e falou: “Você vai ver, eu vou tomar seu namorado. Eu vou tomá-lo”. Ela falou: “Você não toma nunca”. “Vou”. Ela pegou e mandou recado para mim. Eu falei: “Ô, menina, o negócio é o seguinte, eu sou bem mais velho do que você e eu tenho namorada certa, tenho namorada firme, a minha intenção é de casar com ela, então eu não quero atrapalhar meu namoro com ela”. “Não, mas você é bobo, porque passou por aqui?...” “Então está bem”. Aí eu voltei e falei para minha namorada: “Olha, fica na sua, pode ficar tranquila, na hora que eu sair da casa dela, ainda passo aqui na sua casa”. E era assim que acontecia, eu vinha na casa dela e ficava até oito e meia, nove horas. Depois eu ia embora, passava por lá e olhava de um lado para o outro lado e não via ninguém que estivesse “tocaiando”... 



P/1 – [risos].



P/2 – [risos].



R – [risos] Aí entrava lá, ela já estava sabendo, esperando, então batia um papo de uma meia hora, 40 minutos, falava: “Vou embora porque eu tenho que trabalhar amanhã cedo”. E ia embora. E assim eu fazia. Depois eu falei: “Olha, você quer saber de uma coisa, a gente não deve deixar o certo pelo duvidoso. E para mim, ela era a pessoa certa, então ela era a pessoa que eu tinha intenção de me casar, e pensei: “eu vou mudar isso, pois não está certo, não”. Aí mudei.



P/1 – Mudou.



R – Aí já passei mais a sério, não quis mais bater papo com ninguém, não. Em termos de namoro, não. Foi assim, até que eu me casei.



P/1 – Com quantos anos o senhor se casou?



R – Eu fiz 30 anos dia oito de setembro e me casei no dia 30 de setembro.



P/1 – Está certo. Trinta anos.



R – Ainda foi uma história a respeito do meu casamento.



P/1 – Como foi?



R – Uai.



P/1 – Uai.



R – No dia do meu casamento, nós viemos aqui na igreja, eu me casei nessa igreja aqui, e na hora do padre celebrar o nosso casamento ele só falava “Zé Nestor”: “Seu Zé Nestor”. Eu falava: “Seu Vigário, é João Nestor”. 



P/2 – [risos].



P/1 – [risos].



R – Aí ele falava comigo: “Tá bom, senhor João”. Quando o velho ia falar: “Ô, senhor Zé Nestor”. Aí eu por fim fiquei até com vergonha de falar com ele, de falar novamente com ele que era João Nestor, aí pensei: “Ah, deixe-o falar. Na hora de assinar, eu vou assinar João Nestor”. E assim foi. E na hora de colocarmos as alianças, eu coloquei a aliança no dedo da mão esquerda dela e ela veio e colocou na minha mão direita. Eu olhei assim, falei... e ainda eu a cutuquei para ver se ela percebia (maliciava) o que estava fazendo. Não, ela ficou tranquila. Aí casamos e tal, assinamos os papéis. Quando nós fomos embora, minha sogra nos recebeu na porta. Não, foi no portão. Minha sogra chamava Eulinda da Fonseca Vieira. Eu falei: “Dona Eulinda, deixe-me falar para senhora, a senhora podia me casar, que eu estou solteiro”. Ela tomou um susto, falou: “O quê? O quê? O quê?”. Eu falei: “Não, a senhora poderia me casar, que eu estou solteiro”. “Mas por quê?”. Eu falei: “O padre só casou o Zé Nestor, não casou o João Nestor. E a sua filha colocou a aliança no meu dedo direito, aqui da minha mão direita”. Eu falei: “A gente não é noivo”.



P/1 – [risos].



P/2 – [risos].



P/1 – O João Nestor? [risos].



R – Ela falou: “Ô, meu Deus do céu”. Eu falei: “Então a senhora me case”. Dei a ela a aliança e dei a mão esquerda, ela pegou e colocou a aliança aqui e mandou a minha esposa... Ela falou: “Meu Deus”. Eu falei: “Pois é. Para senhora ver”. E você acredita que até hoje... Eu usei aliança somente no dia em que eu me  casei? Nunca mais usei aliança. Ela, minha esposa, é quem usa a minha aliança.



P/1 – Por quê?



R – Porque a aliança dela já acabou, gastou. Então ela passou a usar a minha.



P/1 – Por que o senhor tirou?



R – Eu não me acostumei com a aliança. Não me acostumei. Mas eu sempre falo para ela: “Denise, a honestidade é quem manda. Eu com aliança ou sem aliança, se eu não lhe respeitar... Mas por outro lado, a aliança é necessária, pois ela é o símbolo que consagra o matrimônio. É mais por aí. Portanto, não estou querendo dizer que vou segurar “as petecas” sozinho. Não é isso, pois eu posso errar. Então, graças a Deus, em todos lugares que eu ando, eu procuro tratar bem a todos. E mesmo que...Já até aconteceu de uma pessoa chegar perto de mim, principalmente em festa, e começa batendo um papo e tal ou quando começa a jogar uns “assuntinhos”, aí eu já vou dizendo: “Minha filha, sou casado. Já sou até avô, tenho neto”, já falo assim;  e assim  elas dizem: “Ah, não parece, não.” Aí eu digo: “Pois pode acreditar, que eu sou casado e muito bem casado. Muito bem casado. Porque o respeito que a minha “dona” tem por mim, ou seja, a minha esposa, eu também tenho por ela”. Pois quando elas olham para o meu dedo, e não veem, dizem: “Não parece, o senhor não tem aliança no dedo. O senhor, a escondeu? ”. Aí eu falo: “Eu não, eu nunca usei aliança. Usei no dia em que eu me casei e a minha aliança está em casa guardada”. Elas riem, né? É assim que eu faço, pois eu respeito muito minha esposa, porque é uma companheira. Para mim, a minha mãe era muito boa, eu não tenho outra pessoa para restituir, mas minha esposa restituiu a minha mãe, para mim. E, eu não tenho do que me queixar dela, nem uma unha, nem nada. Entende, todo o meu sistema, minha natureza? Então, eu também sinto a mesma coisa por ela. Eu não tenho ciúme. Eu sempre falo para ela: “Sabe como eu tenho ciúme de você? É quando você estiver brincando”. Pois algumas pessoas tem a liberdade, ou o hábito, de falar palavras pesadas com o outro, através de brincadeiras, não é?



P/1 – É.



R – Você pode brincar com quem você quiser, com amigo meu, com seus amigos, só que eu falo uma coisa, se eu escutar alguém “gabando” que falou isso com você, fez isso com você, eu não vou falar nada com ele, eu vou falar com você. “Agora, se você quiser continuar, a história vai mudar entre nós dois. E, eu também lhe dou a mesma liberdade comigo. E ela falou: “Não, João, é marido”. Então, essa é a maneira que nós vivemos, graças a Deus. Com uma boa harmonia, numa boa união. Você entendeu?



P/1 – Como ela se chama?



R – Denise Vieira da Fonseca.



P/1 – E vocês tiveram quantos filhos?


R – Cinco. O meu segundo filho, eu o perdi com sete meses. A primeira, era mulher, filha mulher. Minha esposa disse: “Ganhei de você. Você viu, né? ”. Aí, eu falei para ela: “Mas o segundo vai ser filho homem”. E foi.



P/1 – E foi.



R – Eu tenho muita fé em Nossa Senhora do Rosário. Eu disse a ela: “Oh, Nossa Senhora, a senhora me deu uma filha mulher, agora me dê um filho homem”. E o segundo filho, foi homem. Só que eu não tive a felicidade dele viver. Viveu quase sete meses, ele faleceu quando ia completar os sete meses, dia 11 de março. Ela nasceu em 1979, no dia 11 de março às seis horas da manhã, enquanto ele nasceu no mesmo dia 11 de março de 1980, às sete horas da manhã.



P/1 – Olha! Um ano.



R – É. Aí ele viveu... Ele ia fazer sete meses dia 11 de março, quando foi dia dois de setembro, ele faleceu. Um menino gordo, sabe? Mas a gente ficava até bobo, lá em casa ninguém falava que tinha criança. Você não via dar um “pio”, não chorava.



P/1 – E por que ele morreu?



R – Ele tinha problema de sopro no coração. O médico falou comigo, mas eu não quis falar com a mãe dele, o médico me chamou e falou comigo: “Oh, senhor João, eu vou falar com o senhor a verdade. Para o senhor eu vou falar, pois os pais sempre são mais duros, têm o coração um bocadinho mais firme. Olha, o seu filho pode viver 30, 40 ou 50 anos, mas com o problema dele, ele poderá morrer de um minuto para o segundo e de um segundo para o minuto. E quando ele completar três anos, vamos ter que operá-lo”. Ele falou comigo. Só que meu filho, não teve essa felicidade de chegar até aí. Eu fiquei tristonho com aquilo, mas depois eu falei: “Mas Nossa Senhora vai me dar outro filho homem”. E veio outro filho homem.



P/1 – Veio outro filho.



R – Sim. Depois veio outra filha mulher, depois veio o caçula, outro homem de novo. 



P/1 – Como eles se chamam?



R – O caçula?



P/1 – Não, todos os filhos.



R – A mais velha se chama Luciléia da Fonseca, o segundo chamava Geraldo Antônio da Fonseca, o que morreu, aí veio o terceiro, o Leonardo César da Fonseca, a terceira... Não, a quarta, é Lucilene da Fonseca, e o quinto é Luís Sérgio da Fonseca. Ele hoje já é pai também, já tem um rapaz, um netinho, que está com um ano e pouco. Então eu tenho três netos da minha primeira filha, sendo um menino de 15 anos, e duas meninas, uma de sete e outra de um ano e meio, a caçulinha. Do meu filho, Leonardo, tenho um neto que está com dez anos, fez no dia seis de março. E do meu filho, Luís, tenho um netinho que fez um ano, agora no dia 24 de julho.



P/1 – Um ano.



R – Sim e já está andando, ele conversa muitas coisas comigo.



P/1 – [risos].



R – Ah, é uma gracinha. A gente fica muito satisfeito.



P/1 – Bom, vamos mudar um pouco de assunto. E a congada, como entrou na sua vida? Ou o senhor entrou na congada? Como foi?



R – Olha, para dizer a verdade para você, na congada mesmo eu comecei já mais velho, enquanto na folia, eu já nasci dentro dela.



P/1 – Ah, foi?



R – É. O meu pai foi diretor da Folia de Santos Reis e do Divino Espírito Santo, ele foi diretor por 50 anos, direto, sem passar para ninguém. Era ele quem organizava tudo, marcava o dia de sair, as tocadas, ele cuidava de tudo. Essa Folia de Santos Reis, eu nasci praticamente dentro dela. É nessa tal casa que eu estou lhe falando, a casinha rebocada à mão, feita de barro, é lá. E, nessa época, nós éramos pequenos, ficávamos  olhando com muita atenção, como os mais velhos faziam e nós tínhamos o maior entusiasmo com aquilo, era uma época muito animada. No período da folia sair, no dia 24 de dezembro, lá na casa do meu pai, nós subíamos até nas janelas à espera da hora do canto para assistirmos  aos mascarados dançarem. Então a gente ficava debaixo das pernas dos mais velhos para vermos como era. E foi neste período, quando eu estava para fazer cinco anos, que eu entrei. Eu fiz cinco anos em setembro e quando foi em dezembro, já entrei na “farda”. Tomei até “couro” para poder entrar na farda de Benedito, pois nessa época todos os foliões eram mesmo foliões, então era de fato só para quem sabia, ou entendia do assunto. Quem nunca tinha entrado, eles não abriam muito a mão não. Lembro-me que meu irmão mais velho, era muito duro conosco, e naquela época a folia chegou a trabalhar a noite dia 24 para o dia 25 direto. E quando foi no dia 25, almoçamos e na hora não tinha o Benedito para fardar, nisso os companheiros da sociedade, que eram meus primos, falaram comigo: “Você tem coragem de fardar?” E lembro-me que eu era bem “pequenininho”, assim, e eu disse: “Eu tenho”. “Você tem?” “Tenho”. Ele falou: “Então, venha cá”. Levou-me até lá dentro do quarto, tocou os instrumentos e disse: “Canta isso para mim”. Aí eu cantei. Ele falou: “Ah, esse daqui vai sair direto. Cante esse, assim”. Aí eu cantei. Mandou-me primeiro cantar o... “As danças aqui tem o dobrado, lundu, maxixe  e, para o Bastião, tem candomblé. Para o Guarda-mor, tem boiadeira, dança e todas essas coisas. Só o Biné, que dança do candomblé e até o maxixe”. Aí ele tocou um dobrado, eu cantei, tocou lundu, e eu também cantei. Ele falou: “O maxixe é mais fácil, você sabe, não precisa nem pedir para dançar”. Eu falei: “Toca um candomblé para mim”. Eles tocaram, eu dancei. Ele disse:  “Pode fardar.” Aí eu fiquei lá dentro do quarto trocando a roupa. Ele chegou lá e falou: “Já arrumei o Biné”. Chegou lá fora, na sala: “Já arrumei o Biné”. Meu irmão falou: “Quem é?” “É João, seu irmão”. Ele falou assim: “Ah, eu vou lá”. Chegou lá, minha filha, eu estava calçando as meias, já tinha vestido o calçãozinho da farda e estava sentado na cama, quando ele me pegou pela orelha aqui e me levantou no ar e disse: “Você não vai fardar, você não sabe de nada. Você não sabe de nada”. Eu falei: “Eu já treinei aqui. Dei um treino com eles aqui, eles falaram que está bom”. “Não, você não vai fardar, não”. E nisso, os dois companheiros que tinham me mandado “fardar”, falaram assim... (pois eles entraram nesta hora no quarto e viram meu irmão me maltratando). Eles falaram: “De jeito nenhum. Sai lá para fora, deixa o menino, pois nós temos que ajudá-lo e você está tirando o entusiasmo do menino”. Nisso eu terminei de “fardar” e quando saí para fora do quarto com a fardinha no corpo, com a máscara na cara e o capacete; eles tocaram para o Bastião dançar e ele dançou para o dono da casa. Depois disseram: “Agora é o Biné”. Eu falei com o dono da casa com a vozinha fininha: “Oi, oi, ô, o que você quer com o Binezinho?”. Aí ele falou assim: “Ah, o que você souber fazer, que você é muito pequenininho”.



P/1 – [risos].



R – Ele falou: “Quero um dobrado”. E os Binés, tudo que não gostam de dançar é o dobrado, já que é o mais difícil de cantar. Ele falou: “Eu quero um dobrado”. Os foliões mais velhos falaram: “Olha, gente, esse menino, vai se sair muito bem, porque uma das coisas mais complicadas é a que pediram para ele cantar e dançar”. Quando eles riscaram os instrumentos lá, eu estava em cima. Porque meu pai sempre nos passava força: “Tem que cantar lá perto do violino, pois o violino toca os versos que você canta. Aí você vai perto do violino”. Ah, mas eu dancei, e eles me levantaram lá em cima. Todos e além  do dono da casa, esse falou: “Oh, gente, a folia parada aqui por conta de um Benedito e o menino aqui”. Depois disso e de lá para cá, meu irmão largou do meu pé, né? E eu vim crescendo, até chegar com a idade de 14 anos fazendo o Benedito. Tirei a farda no ano de... Por exemplo, em janeiro, dia 20 de janeiro que nós encerramos a sociedade, foi quando em dezembro, do mesmo ano em que eu fardei-me de Bastião. E, de lá para cá, eu usei todas as fardas que precisava: Bastião e Guarda-mor. Para nós daqui, o ritual nosso é o seguinte: são duas pessoas mais velhas e uma mais nova, um pequenininho. Porque nessa folia, quando chegarmos nela, eu vou explicar a você, desde  como ela foi fundada e por qual motivo. Toda vez... Na nossa Folia de Santos Reis e São Sebastião, nós temos sempre quatro ou cinco meninos conosco. E, parece uma bênção de São Sebastião mesmo, que nós “cortamos” a noite inteira e eles “cortam” conosco. Meninos de quatro, cinco ou seis anos, andam conosco. A mãe falava: “Como eu vou fazer?” “Não, pode deixar, nós tomamos conta deles”. E na hora em que eles começavam a cochilar, nós íamos na casa de algum amigo e os colocávamos para dormir, deixávamos eles descansando e íamos seguindo a viagem; já que nós andávamos a noite inteira. Assim nós fazíamos. 

Mas, voltando na parte da folia, essa folia nossa aqui que eu estou falando para senhora, ela tem 302 anos.



P/1 – Trezentos e dois anos?



R – Sim, trezentos e dois anos.



P/1 – Quem trouxe a folia para cá?



R – Isso foi criado por uma promessa dos meus tataravôs.



P/1 – Qual era a promessa?



R – Foi criado por uma promessa. Nessa época, aqui em Fidalgo, os meninos ou criança recém-nascida, até 14 ou 15 anos, passaram por uma epidemia, a qual estava matando muitos. Aí aquelas mães já tinham...



P/1 – Matando do quê?



R – Aquelas mães...



P/1 – Mas do quê?



R – Ah, não sabíamos do que. A medicina naquela época não era tão desenvolvida, né?



P/1 – Sei.



R – Sendo que as mães que já tinham perdido os filhos e outras que estava com os filhos doentes, já não sabiam mais como fazer. Aí juntaram um grupo de mães e falaram assim: “Gente, vamos fazer uma promessa para São Sebastião, porque ele é o protetor da fome, da peste e da guerra. Se ele colocar uma pausa nessa epidemia, que está tirando a vida das crianças, nós vamos fazer uma folia de menino”.



P/1 – Ah.



R – E, olha, foi a partir do momento em que elas fizeram essa promessa, não morreu mais nenhuma criança. Mais nenhuma, até nos dias de hoje. Através dessa doença, não. Aí elas fizeram a promessa no meio do ano e quando chegou no final do ano, elas formaram a folia. Os maridos juntaram, formaram a folia de menino. E como não tinha verba para comprar os tecidos para fazerem as roupinhas para eles, as mães forneceram as roupas delas. Aí saíram para folia. Granjearam de casa em casa, granjearam os donativos, daí compraram os tecidos e fizeram as roupinhas para eles no ano seguinte. E foi assim, no ano seguinte, que eles já tendo as roupas, que eles começaram a trabalhar.



P/1 – A fardinha.



R – E aqui nessa igreja, não tinha a imagem de São Sebastião, então o pessoal  trabalhou no outro ano para adquirir as “esportas” para  trocar a imagem e, assim  trouxeram a imagem de São Sebastião. E com isso essa sociedade foi se formando, esses meninos foram crescendo, viraram rapazes, viraram pai de família, avôs, e a sociedade continuou, não parou. E nós sempre tivemos essa tradição, de quatro a cinco “pequenininhos” conosco e assim seguimos essa tradição, até os dias de hoje. Eu já estou... Meu pai passou essa responsabilidade para mim de diretor dessa folia, quando  eu estava com 21 anos, sendo que eu vou fazer 65 anos, agora no domingo. E vou fazer 44 anos de diretor, dessa bandeira de São Sebastião e Santos Reis. E a minha irmã, desde mocinha, que ela lava  e passa  as roupas dos mascarados. Quando mamãe também fracassou na saúde, ela falou: “Você quem cuida, você quem enfeita, então é você quem vai ficar com a responsabilidade da diretora. Você, como a diretora e João como diretor”. E assim nós continuamos, eu e ela.



P/1 – E o que faz o diretor?



R – Uai, a missão do diretor, é dar o exemplo, quando chega a época da sociedade sair, nós vamos à delegacia, à prefeitura, pegamos o alvará, que o delegado autorizou e, ficamos com esta licença em mãos, para podermos trabalhar. A Folia de Santos Reis não precisava de se comunicar com a polícia, mas como é uma época natalina, dia 24 e dia 25 de dezembro, também é a passagem do ano, temos então o problema de muita bebida e as pessoas que ficam fora. Enquanto para os componentes da sociedade, não (não acontece). Nós bebemos sobre a minha mão. Assim, por fora eu não aceito. Então a bebida é usada desse jeito. E já tem os copinhos dos pequenininhos, aquele que pode beber o cheio, eu dou e o que não pode, eu dou a metade.



P/1 – [risos].



R – Pois eu sei que os pequenos são mais fracos. Então nós trabalhamos assim, como eu falei: “Olha, nós temos que dar um bom exemplo, nós temos crianças conosco. Então se nós damos um mau exemplo, o que essas crianças vão aprender? O que elas vão ser lá na frente? Então nós temos que fazer a coisa certa”. E assim nós fazemos. De maneira que nós estamos lutando, pois eu vou fazer 44 anos de diretor dessa folia. E é uma folia de tradição, uma folia de família, que eles falam Folia dos Fonseca, que minha família é dos Fonseca, então foram eles que fundaram essa sociedade. Então nós continuamos planejando. Nós éramos nove irmãos homens... Não, sete homens. Todos foliões. Hoje só tem eu, somente eu. Mas eu ainda tenho quatro irmãos vivos, eu perdi dois, e todos os quatro são foliões. Dois não passaram pela religião, continuaram na mesma religião católica, só que perderam o entusiasmo depois que meu pai morreu. E dois, depois quando estavam mais velhos, passaram para a religião evangélica. E a gente não tem o direito de tirar a liberdade e a vontade da pessoa ser o que ela quer ser, né? Eu falei: “No meu caso, eu não faria isso”. Mas o que você vai fazer também? Você vai acompanhar a palavra de Deus, então que Deus tenha um bom destino que você quer fazer. E eu, fiquei sozinho.



P/1 – E o que é...



R – Como?



P/1 – O que é, a Folia de Reis?



R – A Folia de Reis?



P/1 – É.



R – A Folia de Reis é formada numa base de 18 componentes. Não são todos os dias que temos 18 componentes, mas ela é formada por 18 componentes. Somos três reis magos e 15 componentes para cantar, tocar ou bater. Nós trabalhamos com a caixa, um pandeiro, dois ou três cavaquinhos e duas violas; então são esses componentes que compõem a Folia de Reis. Aí nós andamos do dia 24 de dezembro, à meia-noite quando nós saímos e depois vamos até o dia 20 de janeiro.



P/1 – Ah.



R – Nós saímos daqui e vamos para Tavares, nós vamos para São José da Lapa, depois nós vamos para Prudente de Morais, tudo através de convite, eles nos convidam. Além de outros lugares que nos convidam. Porém nós não damos conta, nem de “bater” todo o nosso lugar, como visitar as casas. Com isso nós ficamos em dificuldade aqui, com o povo nos cobrando, apesar dos outros companheiros que nos ajudam também são desses lugares e aí nós ficamos sem jeito de não ir visitá-los também. Nós tiramos um sábado à noite e um domingo para nós trabalharmos na cidade deles. E, graças a Deus, em todos os lugares que nós vamos, nós somos muito bem recebidos, muito bem tratados, então nós só temos que agradecer mesmo pela consideração dos amigos que nos ajudam e, o pessoal que nos acolhe. Nós somos muito bem recebidos.



P/1 – E a congada então, como entrou?



R – A congada é o seguinte, dessa folia, igual eu estou lhe falando, nós temos mais três folias aqui em Fidalgo: nós temos a Folia de São Sebastião do Chapéu, temos a Folia do Divino e temos a Folia de Nossa Senhora do Rosário. Nós saímos com a de Santos Reis do dia 24 de dezembro a 20 de janeiro, aí nós descansamos uma semana, no domingo seguinte nós pegamos a de São Sebastião do Chapéu. Aí nós vamos até na quaresma, antes do Carnaval e depois nós encerramos. Aí ficamos os 45 dias da quaresma parados.  No mês de maio, nós saímos com a folia do Divino, e trabalhamos até junho e depois nós paramos a do Divino e iniciamos a da Nossa Senhora do Rosário, a qual foi criada através de um pessoal que trabalhava em pedreira, um lugar muito perigoso. Eles trabalhavam num lugar de 50 metros de altura, amarrados pelas cadeiras nas cordas, era muito perigoso. E essa congada nasceu em razão desse problema, as pessoas fizeram uma promessa para o Nossa Senhora do Rosário, pedindo a proteção para aqueles trabalhadores que estavam nessas pedreiras, nesse lugar perigoso. E com isso, eles fizeram uma missa e um terço para Nossa Senhora do Rosário. E cada um deles doavam um dia de serviço para ajudar com as despesas que viessem a ocorrer dentro da festa. Graças a Deus, todos trabalharam até parar (finalizar) com esse setor no trabalho; era de um lugar perigoso e nunca mais aconteceu nada com ninguém. Então essa festa veio crescendo. O primeiro ano foi uma missa e um terço, já no segundo ano eles trouxeram a congada de Mocambeiro, para fazer a celebração da congada. Com isso, a congada, só veio crescendo, crescendo e só crescendo.



P/1 – Qual foi o primeiro ano?



R – Ah, essa festa do Rosário, já tem por volta de uns 70 a 80 anos. Você entendeu, como ela funciona?  E nós continuamos trabalhando nesse movimento aqui, das folias, sendo que os foliões saíram para o candomblé e para a guarda, onde nós estamos hoje nessa união, com mais ou menos um grupo de 12 a 13 membros.Na guarda  temos mais pessoas, só que a guarda esse ano não funcionou, não. Ela ficou parada, não funcionou. Mas o candomblé está funcionando, onde eu trabalhava cantando e batendo. Hoje eu recebi a responsabilidade de capitão do candomblé e no candomblé, existe o primeiro capitão, o segundo capitão e o capitão-mor, que é mais velho do que nós; tem também o fiscal, o lerim e o cabo, sendo que este cuida da distribuição da bebida, a “pinguinha”, é ele quem cuida disso. No candomblé, primeiro nós benzemos, depois disso é que fica autorizado a servir os companheiros com a bebida. Eles já sabem como funciona o regulamento, então a responsabilidade é dele. O candomblé é formado nessa “base” aí e, nós trabalhamos dentro desse setor, sendo que eu já estou com... Praticamente, eu posso falar que estou com 65 anos, sendo que tenho de 43 a 44 anos de trabalho, no candomblé.



P/1 – E de família também? Era família que...



R – Olha, aqui o lugar é pequeno, e praticamente quase todos são parentes um do outro. Então, normalmente, essa trajetória é apresentada dessa forma. Antes tínhamos dois candomblés, junto com o da Quinta, somavam três. Mas era assim, quando convidávamos  o festeiro, dessa festa do Rosário, convidávamos  o candomblé também. Com despeito iam até lá, formavam uma confusão no candomblé, era aquele “Deus nos acuda” para controlar essas pessoas.Formamos depois a diretoria da guarda, um dos moços ficou sendo o nosso presidente da guarda, do candomblé. Era o Zé Eduardo Bastos, já faz anos que ele faleceu, lembro-me que ele então nos falou: “Nós vamos acabar com esse problema. Nós vamos fundar um candomblé aqui para o reino de Nossa Senhora do Rosário, para trabalhar dentro do reino de Nossa Senhora do Rosário, seja aqui ou em qualquer outro lugar que possamos ser convidados”. E assim ele fez. No ano seguinte, os companheiros... Ele arrumou as madeiras e os companheiros fizeram os instrumentos, aqueles instrumentos que estão ali  e, quando foi o mês de setembro, nós estreamos. O padre veio benzer para nós, e daí em diante tudo funcionou, acabou com o problema. Nós vamos para todos os lugares de promessa, onde as pessoas nos convidam, até para aniversário nós somos convidados. E assim, acabou o problema das discussões, de um atacar o outro ou de provocar. Acabou. Nossa Senhora deu a ele, ao presidente, uma boa ideia. E por ele ter agido desse jeito, acabou servindo de lição para nós até os dias de hoje; tanto para o grupo que trabalha dentro da sociedade, nós que estamos aqui, ou os companheiros que vêm nos ajudar...Porque nós também trabalhamos assim: hoje nós estamos aqui trabalhando na nossa festa e quando for o próximo domingo será na festa deles e assim nós iremos até eles, para ajudarmos também. Nós não vamos com o nosso candomblé, não, nós vamos pessoalmente ajudá-los, pois na Quinta tem o candomblé deles, por isso nós vamos somente para ajudá-los. 

Assim como o Mocambeiro, que possuem o candomblé, nós também vamos até eles para ajudá-los na festa. O mesmo acontece com o Matosinho, que possuem o próprio candomblé, onde nós ajudamos e recebemos a ajuda deles também. 

Ontem mesmo tivemos um exemplo aqui, com um grupo de mais ou menos 35 a 40 homens, entre “candombleeiros” e capitães, que “batem e cantam” e que estavam também nos ajudando. E isso foi bom, pois eu pouco trabalhei, ficando mais na tranquilidade...



P/2 – Na administração. 



P/1 – Na coordenação.



R – Sim, e os companheiros todos agiam com boa vontade. Então nós trabalhamos em união, porque se não tiver união, não vai dar certo. Isso serve para qualquer projeto que nós fazemos e repito: se não tiver união, não prossegue. Eu falo sempre para meus companheiros: “Olha, aqui não tem política, aqui não tem discussão, não tem falsidade e nós somos irmãos um do outro aqui dentro da sociedade. Pode até existir um inimigo de vocês, mas aqui dentro da sociedade, deve ser amigo. E digo para eles que podem até não conversarem entre si, mas peço para que não provoquem um ao  outro”. A lição que eu dou para eles dentro da sociedade é essa, e graças a Deus estamos seguindo, e também com esse meu filho, que vamos continuando. Enquanto Deus nos der vida e saúde, para  continuar  fazendo, nós iremos fazer. É o que eu sempre falo com eles: “Para Nossa Senhora e para as coisas de Deus, eu só não vou se eu estiver doente, mas se eu estiver bem e com saúde, podem me oferecer o dinheiro que quiserem”. Foi como um exemplo de um companheiro, que falou comigo assim: “Oh, João, por que sua vida é só mexer com folia e candomblé?”. Eu falei: “É um dom que Deus me deu. E eu gosto de tudo, principalmente do dom que Deus me deu, sendo que eu não o deixo por nada, só se eu estiver doente. Estando com saúde, sei que vai funcionar, eu vou”. Um outro exemplo, é que desde a idade de cinco anos, se você me perguntar o que é passar um Natal na minha casa, ou um Ano Novo, eu não sei dizer. Pois sempre passo dentro da sociedade. Todo ano é dentro da sociedade de Santos Reis. Então, muitas pessoas falam comigo: “Eu fico bobo com você”. Eu falo: “Não. Não fique bobo, não. É o dom que Deus me deu e eu tenho a fé”. Para você ver, eu graças a Deus vou fazer 65 anos, e nunca estive em confusão, nunca ninguém me assaltou, nem me ameaçaram, graças a Deus! A primeira coisa que eu faço é pedir as graças de Deus, para iluminar meu caminho. Então eu saio de peito aberto, vou para Belo Horizonte ou para qualquer lugar sem um pingo de receio. Mas eu sempre estou buscando a Deus em meu pensamento e nas minhas devoções, peço aos santos para me protegerem. E, graças a Deus, eu sempre alcanço essas bênçãos rogadas.



P/2 – Eu queria saber qual é a diferença entre o congado e o candomblé, se tem alguma diferença.



R – Sim, tem. O candomblé é o instrumento que conseguiu tirar Nossa Senhora da beira das águas do mar. Ela apareceu nas ondas do mar. Então o candomblé foi o primeiro que chegou. Ele não foi o primeiro que existiu, mas foi primeiro que chegou para buscá-la. Foi o império quem foi buscá-la, quando ficaram sabendo que ela estava lá. Porém ela não queria acompanhá-los e não queria aquele império que eles queriam dar a ela. Ela queria o império da humildade e isso ela via que não estava neles, portanto ela não quis segui-los. E eles a levaram na marra, puseram ela na igreja. E quando foi no dia seguinte, ela estava no mesmo lugar que havia aparecido. Nisso, eles foram lá na igreja e não a encontraram mais, foi quando de repente, eles receberam  a notícia que ela estava nas águas do mar. Aí levaram a banda de músicos, tocaram música para ela mas ela não quis ir com eles. Então, como os negros da senzala não possuíam os instrumentos, eles ficavam batendo no bancos, nessas coisas assim, e ficavam cantando e cantando. Nisso, eles falaram assim: “Vamos, porque você levará esses negros até lá, eles conseguirão lhe tirar de lá”. Aí eles arrumaram uns pedacinhos de pau (madeira), puseram um pedacinho de couro de boi neles, foram de percata nos pés, percata de Deus, chapéu de palha e chegaram na beira do mar e começaram a cantar. E ela veio para a beira do mar. Chegando lá, ela foi a um instrumento, se aproximou, sentou, pôs a mão, abençoou e pediu para eles cantarem, eles pegaram e cantaram: “Oh, Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, santificado seja o vosso nome. Somos pretinhos do Rosário, filho do pai eterno”. Foi aí que eles bateram os instrumentos, ela se manifestou e saiu na frente, e eles a seguiram. Aí ela parou numa pedra, sentou numa pedra, pois ela queria que a casa dela fosse feita ali. Eles assim fizeram o gosto dela, fizeram a igrejinha para ela e depois cantaram o verso: “Nossa Senhora é lá da Lapa. Nossa Senhora é lá da Lapa. Oi na Lapa não pode morar Nossa Senhora, oi do Rosário”. Depois que eles fizeram outra igreja, ela foi morar na igreja dela. E aí libertaram, pois veio a libertação da Princesa Isabel, que logo entrou em vigor também, e libertou a escravidão, pois os negros puderam louvar a Nossa Senhora com liberdade, com liberdade. Pois antes, quando os negros chegavam à igreja, não os deixavam entrar, eles ficavam do lado de fora. Eles não podiam assistir a uma missa. Eles cantavam na senzala deles. Então é onde está a diferença da congada pelo candomblé. O candomblé é o pai do trono.



P/1 – É o quê?



R – É o pai do trono, o candomblé. É tanto que não sei se vocês observaram isso aqui ontem, todas as guardas foram na frente, o candomblé foi o último, o que foi atrás. O congo coroado foi na frente, e o candomblé veio atrás. Ele que vem fechando a congada toda. E quando chegamos aqui, as congadas, as guardas, nossos amigos, ficaram de lado, um de outro. Nossa Senhora vem entrando e nós entramos também, depois a levamos ao altar da igreja. Então ele é o pai da congada, o candomblé, mas é tudo do reino de Nossa Senhora do Rosário. O Moçambique, os caboclos e as guardas de congo. O Moçambique é depois do candomblé, sendo que ele também fez parte de tirar nossa senhora das águas. Depois veio a guarda de conga, e nisso vai sendo criado as outras, as outras congadas. E hoje temos muitas congadas, com muitos tipos para louvarmos a Nossa Senhora. Por exemplo, esses instrumentos do candomblé, que são seis ao todo, cada um tem uma batida diferente, e no momento em que todos se reúnem, vira uma orquestra só, com um único som, igual você os vê bater. Então é desse jeito. Os instrumentos são tão abençoados por Nossa Senhora do Rosário, que cada um tem um tom, mas na hora em que todos começam a  bater... E não tem ninguém que estudou isso, não. Isso não é de estudo, não. É da mente e do coração. A pessoa parece que já nasceu com aquele dom e vai. Então nós estamos fazendo esse tipo... Igual eu lhe falei, com as crianças, nós estamos aproximando-as. A única coisa que nós não temos é “uma força”, assim, por exemplo, uma ajuda financeira da Secretaria da Cultura. Podiam nos dar uma situação para que tivéssemos uma sede própria para treinarmos os meninos; uns falam ensaiar, porém para nós, é treinar. Porque como eu falo: cantar, bater, ninguém ensina não, a pessoa já vem por si mesma. Pois como eu vou lhe ensinar a cantar? Pois é você quem está cantando com a sua língua, sua boca e sua voz. Agora, eu só sei o seguinte, se você estiver cantando e eu estiver ouvindo, eu sei o tom da primeira voz, da segunda, da terceira, da quarta ou da quinta. Se você coloca quatro vozes e você estiver cantando três: “Olha, o lugar dela é aqui. Ela vai cantar aqui. Essa voz que ela está cantando, ela canta aqui. O lugar dela é aqui”. E aí você já vai cantar naquele lugar. E isso nós sabemos, mas falar que domina a boca da pessoa para ele poder cantar, não tem como. Bater, também é a mesma coisa. A pessoa fica observando você bater, quando vê, pega num dia e vê o outro que vai bater, que já tem prática, e assim vai pegando o ritmo, observando. Daí acaba de praticar. Por exemplo, se a pessoa desafina, pois está meio confuso, com medo de errar ou de passar vergonha, aí ele vai só desenvolvendo no meio da turma, nisso os companheiros vão dando apoio e assim ele só tem de acabar de chegar, por ele mesmo. E é assim que nós estamos fazendo. Para os novos companheiros que chegam, todos os nossos companheiros dão apoio. Nasce o apoio de todos, que os recebem de bom coração, com maior carinho e todos expõem: “Olha, o que eu souber é para lhe ensinar. O que eu quero é lhe ensinar”. Então a pessoa fica entusiasmada. Nós temos um baixinho, ele deve ter uns 12 anos, ele já bate todos os instrumentos do candomblé, já está cantando e na folia ele também está fazendo a mesma coisa. E assim ele vai se saindo cada dia melhor, onde o trazemos com o maior carinho, ensinando a ele como é o regulamento da sociedade, como funciona, que não pode ter falta de respeito, não pode ficar deslocando do meio da turma da sociedade para ir para porta de boteco  e, isso tudo isso nós estamos trazendo para o nosso ritmo, que é a cultura que nós temos a qual nós aprendemos desse jeito. Então nós estamos passando para eles e eles vêm seguindo, graças a Deus. E, pela idade que eles tem, até que não estão dando amolação e nem trabalho para nós. De vez em quando a gente dá um “puxãozinho” para trás, mais para não complicar.



P/1 – [risos].



R – Mas graças a Deus eu estou muito satisfeito em ver o desenvolvimento deles, com aquele entusiasmo e com aquela boa vontade. Então, eu falo para eles: “Olha, meu filho, do jeito que você vem aprendendo, quando você tiver uns 20 anos, você terá condições de ser um capitão de candomblé, ser mestre de folia ou mestre de guarda, porque você têm o dom. Você leva jeito e tem o dom”. Então, graças a Deus, eu estou muito satisfeito de ver o desenvolvimento desses meninos. E os avós e a mãe deles, dão muito apoio e falam: “Não, se ele está com vocês, eu estou sossegada, porque eu sei que ele está num bom caminho. Para seguir, ajudar fazer as coisas de Deus, eu estou muito satisfeita”. Então nós temos sempre esse prazer de estar com eles, devido à promessa que foi feita na época e por eles. Então nós estamos bem. Damos um empurrão aqui, outro ali, mas estamos indo. E, tenho certeza, como eu falei anteriormente, essa sociedade de Santos Reis até hoje nunca parou. Não vou dizer que não tem dificuldade, não, pois têm sim. Porque nós não temos ajuda de nada. A ajuda que nós temos são as “esportas” que nós granjeamos. Durante o período que nós tocamos, quando chega no dia 20 de janeiro, é que estamos sabendo que nós produzimos. Agora a gente... (corte no áudio). O que nós conseguimos, as “esportas” que nós conseguimos, são para a reforma dos instrumentos, para a manutenção dos uniformes que eles usam e também para comprarmos corda, pois arrebentam muito, já que é um instrumento tocado, espancado, em que trabalhamos muito com alta afinação, por isso arrebentam muitas cordas e precisamos comprar para não pararmos. Nesse ano, eu estou tentando registrar essa sociedade para nós podermos ver se conseguimos uma verba de um patrocínio, com isso nós podermos manter toda a sociedade uniformizada, como também manter os instrumentos arrumados e bem zelados. Eu até já conversei sobre isso, não com o Aloísio, mas conversei com o Tadeu, pois ele  é muito meu amigo. Se nós conseguíssemos arrumar uma sede, mesmo que fosse um cômodo, teríamos um lugar para nós fazermos as reuniões e conversarmos sobre as coisas que fossem preciso e também um local para os meninos treinarem. Nós pegamos  esses instrumentos seja num dia de domingo ou de sábado, porque eles praticamente não trabalham aqui, e assim nós damos a eles um treino para irem se desenvolvendo, para que no dia de  amanhã, no futuro,  eles possam  ser o que eu e os nosso amigos, somos hoje. Porque nós temos que ir reformando o nosso grupo. Assim como muitos “candombleeiros” que  já passaram nesse candomblé, e mesmo em outros por onde passaram poucos ou até nesses que nós temos aqui e que  funciona às  quintas-feiras, o qual já tem seus 599 anos, e é de 1916. Não, 1914... 



P/1 – 1500?



R – 1416. É. Esse candomblé. Dele só restam dois instrumentos da tradição, o resto foram todos reformados, porque estragaram ou apodreceram, alguns não tivemos  mais condições de reformá-los. O filho do capitão que era dono deles, restaurou tudo, e ficaram uma beleza e agora serão usados no domingo e tocados lá na Quinta. Eu gostaria de saber se vocês irão no domingo na  Quinta e, se irão  me ver por lá?  São 599 anos de existência,. O filho do capitão pegou os instrumentos tirou a numeração e colocou em todos pelo lado de fora para ser visto por todos, ele são  do ano de  1416. Então, quantos anos já se passaram? Quantos capitães já passaram por esse candomblé, que eu nem conheci? E o candomblé sempre foi uma coisa mimosa, uma coisa de muito “mandinga”, no entanto hoje até que não tem sido  mais assim, graças a Deus. Antigamente o “trem” rolava pesado, e era difícil. Mesmo o capitão de candomblé, não frequentava, ele ficava em casa e mesmo da sua casa, ele conseguia bagunçar todo o candomblé. Eu posso falar, pois meu pai me contou, que havia um “candombleeiro”, um capitão de candomblé que não foi ao candomblé na casa de um moço para cumprir uma promessa, pois ele estava meio “rinchado” com um outro capitão. E com isso, o “trem” funcionou por lá, não sabe de onde nem como, mas pegou fogo nos instrumentos. Tinha labaredas de fogo em cada instrumento. Aí o capitão que estava reinando, por lá falou: “Já sei o que é isso. Já sei quem mandou isso aqui. Mas não precisam ter medo, não. Ninguém precisa ter medo, não”. Levou a boca lá no candomblé, chupou todo o fogo para dentro, com isso o fogo apagou na hora e o candomblé continuou trabalhando. Depois  ele nos falou quem tinha mandado o fogo lá no candomblé. Você entendeu? Os “candombleeiros” que estavam “batendo” os instrumentos ficaram bobos, porque ninguém estava fumando, como não tinha fogo perto e mesmo assim os instrumentos pegaram fogo com aquelas labaredas de uma hora para outra.



P/2 – Nossa!



R – Então, hoje não acontece. Sempre eu falo: “Gente, nós saímos para louvarmos a Nossa Senhora, nós temos que ter amor por Nossa Senhora, nós temos que saber que Nossa Senhora é uma mãe que compadeceu com seu  filho, que  viu seu filho sendo preso na cruz para nos salvar, para nos perdoar. Como nós vamos trabalhar para ela com essa má intenção? Com esse mau coração e com os irmãos que estão dentro da sociedade? Não existe isso, não. Quem faz isso é quem não tem fé em Deus, quem não está seguindo as leis de Deus, mas estão seguindo as leis do demônio. Essas pessoas são espírito fraco”. Então, graças a Deus, depois que eu estou reinando dentro desse candomblé, nunca mais houve esses problemas, você entendeu? 

Mas aqui mesmo, aqui eu apreciei, desde a época em que as  estradas eram todas  de chão e poeira. Nessa festa do Rosário, nessa época, tinha um...Tinham aberto um barzinho ali, e tinha um moço de Lagoa de Santo Antônio, o qual “mexia” muito com  centro espírita e, quando ele chegou aqui, o candomblé  estava batendo, o dono desse candomblé que eu estou falando para vocês, era antigo. E quando o candomblé estava batendo, num certo dia, ele veio até aqui e daqui ele foi comprar uma garrafa de pinga, e depois ele fez as “mandaca” dele por lá. Chegando depois  aqui, ele abriu a garrafa de pinga e deu para os “candombleeiros” beberem. O capitão falou: “Não. Ninguém vai beber dessa pinga, ninguém”. Ele sabia que a pinga já estava “temperada e trabalhada”. Ele então pôs a garrafa de pinga, depois ele a benzeu  no candomblé, cantou e falou algumas palavras por lá: “E agora podem servir a pinga”. Aí todos beberam, não tiveram nada. E sabe o que aconteceu? O rapaz  que veio com a garrafa de pinga, esse capitão, pegou uma palha de milho, fez uma cruz e a jogou no chão. O rapaz foi para entrar no candomblé, pisou na cruz, cambaleou para cair, e ele falou: “Não, aqui não. Você não vai cair, não, você vai cair em outro lugar”. Depois ele desceu de onde ele trouxe a pinga, ele estava de roupa branca, se deitou lá no meio da poeira e ficou o dia inteirinho de Deus, dormindo lá. O sol quente do mês de agosto, que o suor você via descer igual bica d’água, assim corria do rosto dele. E ele estava lá,  envolto na poeira. Quando foi “vespando”, mais ou menos uma hora dessas, eles pegaram e falaram: “Agora o companheiro pode acordar, ele já dormiu bastante”. Falou as palavras dele do candomblé de lá e de repente o companheiro chegou aqui, todo amarelado de poeira, desde a cabeça como a roupa. Depois chegou o capitão, ainda brincou, e disse: “Uai, você está cansado demais. Você dormiu muito? ”. “Ah, rapaz, não sei o que aconteceu comigo, não, pois eu puxei a palha”. É maldade dele. É maldade dele. De certa maneira, eu apreciei isso. Agora, sobre o fogo, como eu já falei para você, eu não cheguei a presenciar não, foi  meu pai quem falou isso para nós. O capitão desse candomblé que eu estou lhe falando, se chamava “Zé das Candeias”, e o outro é o tal de “Zé Basila”, este foi quem mandou o fogo no candomblé de lá. E o Zé da Candeia foi quem puxou todo o fogo com a boca e apagou na hora. Você entendeu? E depois, ainda falou para os “candombleeiros”: “Ah, eu já sei quem mandou isso aqui. Isso é o compadre Zé Basila”. Agora, esse outro caso aqui do capitão Eusébio, eu apreciei. O cara quis cair, e ele disse: “Não, aqui você não vai deitar, não. Vá deitar em outro lugar”. E ele desceu, chegou lá e “cumbucou” no meio da poeira por lá, ficando deitado na beira da estrada o dia inteirinho. Até impressionou. Depois as guardas bateram as “moçambicas” e o candomblé, mas ele não veio e não apreciou a festa. Mas agora não acontece mais esse tipo de situação, graças a Deus. Eu já tenho mais... Estou próximo dos 40 anos trabalhando dentro dessa sociedade, nunca vi isso. Depois dessa, nunca vi mais nada.



P/1 – Agora, eu queria pedir uma coisa para o senhor fazer: primeiro cantar aquele dobrado, o primeiro que o senhor aprendeu de São Benedito. O senhor se lembra?



R – Ah, do São Benedito? Lembro. Nós temos uma dobrada do candomblé aqui, que eu sempre gosto de cantar. Essa,  até as folias, as congadas cantavam e  eu também ouço sempre no rádio, mas eu aprendi dentro do candomblé. É uma congada que fala assim: “Dia 13 de maio é um dia muito bonito. Dia 13 de maio é um dia muito bonito, a congada se reúne para festejar São Benedito. A congada se reúne para festejar São Benedito”. Essa é uma delas. E, tem o outro também: “Dia três de maio a assembleia trabalhou. Dia três de maio a assembleia trabalhou. Com o poder da Santa Isabel a escravidão acabou. Com o poder de Santa Isabel a escravidão acabou”. Esse é o verso da libertação. E tem também, o canto da escravidão: “No tempo do cativeiro, como o senhor me batia. No tempo do cativeiro, como o senhor me batia. Eu gritava por Nossa Senhora, meu Deus, como a pancada doía. Eu gritava por Nossa Senhora, meu Deus, como a pancada doía”. Essa é o canto do negro. Aí vem: “Abre a porta da senzala, deixa esse negro entrar. Abre a porta da senzala, deixa esse negro entrar. Esse negro está cansado, oh de tanto trabalhar. Esse negro está cansado, oh de tanto trabalhar”. E tem vários dobrados. Isso daí é da arte da linhagem dos negros. Agora, tem o dobrado que nós cantamos: “Oh marcha via, hoje é dia de alegria. Vamos todos acompanhar o Rosário de Maria”. Essa é uma marcha. Tem outra também: “Marcha nova que vem da Bahia cantando e rezando pelas estradas. Marcha nova que vem lá da Bahia cantando e rezando pelas estradas. Viva o povo que adora, viva o povo que venera, Nossa Senhora do Rosário”. Essa é uma marcha também. Tem uma outra também, que nós cantamos, principalmente quando nós estamos em caminhada com a dor, ela é assim: “Nossa Senhora quando andava pelo mundo, oh que beleza, com o teu filho nos braços, louvado seja. Nossa Senhora quando andava pelo mundo, oh que beleza, com o teu filho nos braços, louvado seja. Os anjos estão rezando, oh que beleza, no Rosário de Maria, louvado seja. O Rosário de Maria, oh que beleza, lá no alto tão bela flor, louvado seja. Vem as contas pequeninas, oh que beleza, nesse congado ele abaixou, louvado seja”. Essa é outra marcha do reino de Nossa Senhora, né? E quantos mais temos, né? Então a gente procura sempre concluir tudo, tanto eu, como o capitão, o outro capitão, além de outros que não são capitães, mas que têm aquele dom, chegam e cantam também. Cada um canta o que sabe, o que vem na mente. Porque o candomblé não é coisa que a gente estuda, não. Eu aprendi com o capitão, o capitão Lelé, ele falava que ele tinha... Era um recurso para tudo. Ele falava assim: “Olha, candomblé você não ensina a ninguém, a pessoa aprende. Na hora ele entra no candomblé, Nossa Senhora abre a mente dele, vem o verso na cabeça dele, aí ele canta”. E, é assim mesmo, porque... E outra coisa, por exemplo, nós estamos aqui, nós somos dez “candombleeiros”, ou 15, você vem, você canta um dobrado, ele vem e canta outro, você vem e canta mais outro, ele vem e canta outro também, aí eu venho e canto outro, e assim cada um de nós estamos “mutucando” ali para aprendermos  o que o outro cantou, e assim nós vamos, vamos seguindo. E cada vez que nós saímos, que nós vemos “candombleeiros” que não estão acostumados assim, na nossa turma, com outros tipos de grupos, nós ficamos observando eles  cantarem,  para aprendermos sobre alguma coisa deles, alguns versos deles para eu também poder passar para outros. Então, nós estamos nessa luta aí.



P/1 – Então aí a gente podia ir então... Você quer nos fazer alguma pergunta? Vocês? Não? Como foi para o senhor nos contar a sua história?



R – Para mim? Uai, muito boa. Gostei muito.



P/1 – Gostou muito?



R – Gostei. Fiquei muito satisfeito de ser entrevistado por vocês e também estar passando a cultura que nós temos aqui em Fidalgo. Assim como eu estou lhe falando, nós temos aqui quatro grupos de folia, nós temos esse candomblé, além desse outro que eu estou lhe falando, também temos a guarda de congo. Tem o nosso congo, o nosso trono todo coroado. Tem o rei congo, tem a rainha congo, tem a rainha Santa Isabel, tem a rainha Santa Efigênia, tem a rainha da paz, tem a rainha Nossa Senhora da Aparecida, tem a rainha da Santa Cruz, temos o rei São Benedito, tem o rei do Império e a rainha do Império. Nós temos o trono coroado por completo. Então nós temos essa cultura aqui, graças a Deus, muito boa. Muito boa, porque eu ando muito, pois nós saímos muito para fora, para outros lugares. E nós não vemos, a não ser as moçambiques e as guardas, outras coisas como nós vemos aqui. Nós temos as folias, temos o candomblé. Que o candomblé é uma coisa tão significante, que em congada não pode ter dois candomblés, é somente um. Agora, moçambique, guarda, caboclos, catopé, podem ter quantos quiserem.



P/1 – Sei.



R – Mas o candombe é um só.



P/1 – É um só?



R – É um só. Não pode ter dois, não. É um só. Aí você vê a diferença que faz o candomblé no meio da congada. É ele, é ele e só. Se tiver mais de um, atrapalha, acaba por um atrapalhar o outro. Já as congadas não, as congadas cada um sai cantando o que sabe, e nós vamos indo, porque é da tradição deles. Então é desse jeito.



P/1 – E nós podemos acompanhar o senhor organizar o grupo? O que o senhor vai fazer agora?



R – Nós? Nós agora vamos fazer a “descoroação” dos reis com o meu grupo de “candombleeiro”, pois eu tenho outro capitão que trabalha comigo, que é meu primo. E nós vamos fazer a “descoroação” dos reis desse ano, de 2013, e vamos coroar os dois reis para o próximo ano de 2014.



P/1 – Certo. Mas agora o senhor vai organizar o outro grupo?



R – Vamos, sim.



P/1 – E vão ensaiar um pouquinho ou não?



R – Não ensaia, não, já está pronto, já está feito na cabeça o que tem que ser feito, né?



P/1 – Não ensaia, né? Vem da cabeça [risos].



R – É [risos].



P/1 – É que eu queria gravar ,um pouco, o senhor tocando.



R – Pois é, nós vamos para lá.



P/3 – Depois, vocês poderiam fazer um pouco  aqui fora, com a gente?



R – Vêm. Nós vamos aqui, uai.



P/1 – Podem chamar?



R – Pode.



P/1 – Agora?



P/3 – Depois que acabar lá.



R – Agora?



P/1 – Agora ou depois que acabar?



P/3 – Vocês não tem que fazer lá...



P/4 – É melhor quando acabar.



P/3 – É melhor fazer antes ou...



R – É, nós vamos fazer antes para não atrasar, porque nós vamos ter a janta ainda. 



P/1 – Ah, está certo.



R – Eles vão servir a janta depois da coroação, aí nós vamos fazer isso, ainda. Você entendeu?



P/1 – Entendi. 



R – Depois que nós terminarmos isso aí, nós voltaremos para cá, ou lá dentro da igreja mesmo, se estiverem de acordo coloquem as coisas lá e se quiserem filmar e gravar, podem. Mas vai ser bom, porque até vão filmar a “descoroação” dos reis e a coroação dos outros. Assim, vocês vão filmar e levar essas coisas para o Museu de vocês.



P/1 – Pois é.


R – Viu?



P/1 – Pois é. 



R – Então é isso.



P/1 – Muito obrigada.



R – De nada. Eu quem agradeço.



P/1 – Muito obrigada. Foi muito bom ouvir o senhor.



R – Muito obrigado, viu?





--FINAL DA ENTREVISTA--







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