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História

Presença na luta pela democracia, pela liberdade e pelos direitos

História de: David Zaia
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/05/2020

Sinopse

Nesta entrevista, David nos conta sobre sua trajetória de vida, desde a infância em Cordeirópolis, até sua ativa participação na política brasileira. Relata como foi sair do interior, aos 10 anos de idade, para morar num Seminário. David nos fala sobre seus estudos na faculdade e seu primeiro emprego de bancário, em Campinas. Depois, relata sua carreira política e sua participação nas atividades sindicais e nas assembleias, além de sua trajetória para conquistar a presidência do Sindicato e no DIEESE.

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História completa

P/1 – Pra começar, eu gostaria que você dissesse o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R/1 – Meu nome é David Zaia, nasci em 7 de agosto de 1956, na cidade de Cordeirópolis, estado de São Paulo.

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

 

R/1 – Alfredo Zaia e Rosa Celeste Zaia.

 

P/1 – Você lembra dos seus avós?

 

R/1 – Vitório Zaia, Maria Batistela. Não. Antônia Batistela Zaia. Antônio Celotti e Maria Tomazela Celotti.

 

P/1 – Você lembra qual a atividade profissional dos seus pais e dos seus avós? 

 

R/1 – Todos lavradores. Todos sempre agricultores.

 

P/1 – Que tipo de agricultura que era, você lembra?

 

R/1 – Bom, foi mudando. Café, inicialmente. Depois, milho, arroz, amendoim, cana, laranja. Isso foi mais ou menos o que eles produziram.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R/1 – Somos em cinco irmãos.

 

P/1 – O que eles fazem?

 

R/1 – Dos meus irmãos, um sempre trabalhou de mecânico de manutenção. O outro é motorista. O outro também é motorista. E a minha irmã é secretária.

 

P/1 – Você viveu em Cordeirópolis, até que idade mais ou menos?

 

R/1 – Vivi até os 10 anos de idade.

 

P/1 – Então, deu pra viver bastante coisa lá.

 

R/1 – É.

 

P/1 – Você lembra do bairro onde você morava quando você era criança?

 

R/1 – Lembro. Eu nasci no bairro do Cascalho. É um bairro rural, são pequenas propriedades. Pequenos sítios. Está todo mundo na atividade rural. Fora a atividade de trabalho propriamente dito, o que você tinha ali era a igreja em torno da qual toda a comunidade se organizava. Tinha a igreja e o salão social. A gente regularmente ia à missa aos domingos. Ia a pé. No caso, a minha casa ficava a um quilômetro, um quilômetro e meio, mais ou menos, distante da igreja. Então, essa era rotina.  E eventualmente também durante a semana e no terço, alguma coisa desse tipo. Então essa era a atividade dessa época.

 

P/1 – E qual que era a rotina da sua casa?

 

R/1 – Ah, quando era menor era basicamente ficar em casa. Acordava. Os irmãos e os primos, todos juntos, morando na mesma casa. Bastante gente. Mas, quando a gente era menor, aí a atividade era brincar. Depois, já era começar a trabalhar. Ajudar, cuidar dos animais, da criação. E depois, já com um pouco mais de idade, ir ajudar eventualmente em algumas atividades de colheita, ia pra roça também, trabalhar. E quando completei sete anos, comecei na escola. Então, fiz lá o primário, foi o ginásio. Ginásio, não. Grupo escolar, na época.

 

P/1 – E como que era essa escola?

 

R/1 – Eu fiz o grupo escolar na cidade de Cordeirópolis. Era o Grupo Escolar Coronel José Levi, com prédio normal. A gente também ia a pé até à escola. Voltava a pé. Aí, já era na cidade. A escola era na cidade. Cordeirópolis era uma cidade muito pequena. Normalmente tinha dever de casa pra fazer. Como ia todo mundo a pé, ia juntando, saía de uma casa, passava na casa vizinha, encontrava os amigos e a turma ia crescendo até chegar na escola. Quer dizer, a escola era um pouco mais longe. Eram dois quilômetros e meio, quase três quilômetros. Então, eu saía, já passava na casa do vizinho, que tinha mais ou menos a minha idade, depois já encontrava com outros e a gente formava um grupo e ia. Uma hora correndo, outra hora, passando no... Tinha um engenho no caminho. Um engenho que fabricava pinga, aguardente. Então, a gente parava lá, pra tomar garapa na época da safra, que eles estavam moendo. Então essa era a rotina de ir pra escola, era encontrando os amigos e tal.

 

P/2 – Você falou que seus pais e seus avós eram agricultores?  Eles trabalhavam pra alguém, pra eles mesmos? Como que era a relação de trabalho?

 

R/1 – Não. Trabalhavam pra eles mesmos. Eles já eram donos de uso do sítio, donos da terra, então eles trabalhavam pra eles mesmos. 

 

P/1 – Você lembra, você falou que num determinado momento vocês também ajudavam, não é? No trabalho. E você lembra a primeira vez que você foi trabalhar, como que foi esse trabalho, quê que você fez?

 

R/1 – A gente sempre ajudava em casa, tinha que cuidar da criação que tinha, alguma coisa, tinha que ajudar. Mas, eu me lembro da primeira vez que eu fui ajudar meu pai a plantar laranja, tinha um carrinho de mão, que a gente levava as mudas. E eu passei o dia inteiro junto com meu pai carregando. Porque fazia as covas, depois tinha que plantar. Então, eu passei o dia inteiro carregando aquilo pra cima e pra baixo, buscava as mudas e levava pra ele, levava. Eu lembro muito disso... Não sei se foi a primeira vez, que eu trabalhei, porque depois, logo no fim do dia, eu cheguei em casa e estava com febre e com umas dores no joelho e tal. E minha mãe achou que era porque eu tinha trabalhado muito, devia ter me esforçado muito, estava cansado, mas, depois, no dia seguinte, continuava. Aí, eu fui ao médico e eu estava com início de febre reumática. Essa coisa da febre reumática me acompanhou até os 20 anos. Por que eu sempre tinha, uma crise, de vez em quando, então, fui ao médico. O médico diagnosticou que era isso. Aí, fui operar das amídalas, porque normalmente se considerava que era uma infecção nas amídalas que levava a isso. Então, eu lembro disso. Eu lembro das primeiras coisas já com sete anos. Eu atrasei uma semana pra ir à escola porque fiquei doente. 

 

P/1 – Dessa época, você lembra das brincadeiras que vocês... Do quê que vocês mais brincavam?

 

R/1 – Ah, brincadeira lá no sítio era brincar de esconde-esconde, de bolinha de gude, de pega-pega. E a gente também brincava muito de fazer lá uma fazendinha. Então, punha lá uns, pegava "uns abacates", umas coisas, a gente mesmo fazia uns porquinhos, como se fosse um cavalo. Pegava algumas coisas e fazia assim pra ficar brincando. Por que normalmente não tinha brinquedo. Acho que só depois que eu já estava na escola, que fui ganhar uma bicicleta, um triciclo. A gente tinha que inventar lá o que fazer pra brincar. 

 

P/1 – Esse grupo escolar, você deve ter feito até o primário, não é? Depois você teve que mudar de escola? Como que foi isso?

 

R/1 – Não. Naquela época, na cidade de Cordeirópolis, só tinha o primário. Não tinha ainda o ginásio. Então, eu fiz lá na cidade... Tinha uma escola também no bairro do Cascalho, mas, como eu estava no meio do caminho, entre a escola do bairro e do Cascalho, minha mãe preferiu que eu fosse estudar em Cordeirópolis, na cidade. Os meus amigos também iam pra lá, então, eu fiz lá até o quarto ano 

primário. Tinha um curso de admissão pra entrar no ginásio. O meu irmão entrou na escola também, quando eu estava no quarto ano. E aí, só tinha vaga pra ele à tarde. Então, eu deixei de ir de manhã, junto com a turma que eu estava acostumado. Minha mãe me transferiu pra tarde, pra eu poder ir junto com o meu irmão. Então, íamos eu e ele só à tarde, ali do bairro, porque não tinha vaga pra ele de manhã, depois eu voltava pra casa. Chegava em casa acho que umas cinco horas da tarde. E aí, eu ia para o bairro do Cascalho, fazer o curso de admissão, à noite, que começava acho que seis e meia, sete horas da noite. Então, eu ia e voltava da escola em Cordeirópolis, depois ia à noite para o curso de admissão. E logo depois, eu resolvi ir para o seminário, então eu fui pra Araraquara. É por isso que eu fiquei em Cordeirópolis só até os 10 anos. Porque no ano seguinte, pra começar o ginásio, eu fui pra Araraquara, no Seminário do Verbo Divino. A gente morava no seminário, um prédio grande, quatro andares. E estudava num colégio, que era um de padre, Colégio de padre que o pessoal estuda. E nós, que éramos do seminário, também, estudávamos lá. Então, morava no seminário e todo dia de manhã, íamos para o colégio, estudar, aonde era perto do seminário que a gente morava. E o resto do dia ficava no seminário. Fiquei sete anos em Araraquara.

 

P/1 – Que ano foi isso, o seminário?

 

R/1 – Isso foi 1960, deixa ver, 1963 eu comecei, 1967. 1967, 1963, 1964, 1965, 1966, é isso. 1967 eu fui pra Araraquara.

 

P/1 – Aí, você ficou lá até...

 

R/1 – Até 1973. Fiquei sete anos.

 

P/1 – Ficou longe dos pais?

 

R/1 – Ah, ficava longe. Eu ia mais ou menos no final de fevereiro, quando iam começar as aulas. Então, ia pra Araraquara e só voltava em julho, quando tinha as férias de julho. E depois, voltava pra lá de novo no comecinho de agosto. Aí, ficava até novembro ou dezembro, quando terminavam as aulas. Passava dezembro, janeiro e fevereiro em casa. Então, nesse período que eu ficava lá, estudava. E quando vinha pra cá, vinha trabalhar. No caso, quando meu pai estava plantando cana nessa época, então quando eu voltava, em julho, era a época do corte de cana. E depois, em dezembro, janeiro e fevereiro não tinha corte de cana e também não tinha muita atividade no sítio porque nessa época era só o plantio de cana mas isso era uma coisa que gastava pouco tempo, entendeu? Normalmente não plantava todos os anos. A cana, você corta, ela brota de novo. Então, plantava muito pouco. Aí não tinha serviço pra gente no sítio. Então, normalmente, eu ia trabalhar com um vizinho, com um tio meu, que eles tinham um barracão de laranja. Eles traziam aqui pra São Paulo, para o Ceasa aqui, nessa época. Ia trabalhar colhendo laranja, depois teve época que o meu pai plantou arroz. Às vezes, quando chegava na época da colheita do arroz, eu ficava em casa pra ajudar a colher, mas quando não tinha, eu ia trabalhar basicamente com o meu tio, que era colher laranja.

 

P/1 – Depois que você saiu do seminário, porque você já saiu, assim, adolescente.Praticamente, a sua adolescência você ficou no seminário.

 

R/1 – É, fiquei dos 11, aí depois eu terminei o colégio, estava com 17 anos, fui pra Campinas, fazer Filosofia. Daí, a explicação porque que eu fiz Filosofia. Porque precisava fazer Filosofia. Então, os padres tinham uma casa lá em Campinas, que era uma casa alugada. Era como se fosse uma república, morava um padre e nós fomos pra lá em... Acho que eram umas 10 pessoas que moravam lá. E estudava na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas. Isso foi em 74. Fiquei um ano lá no seminário ainda, fazendo Filosofia na PUC. No final do ano, eu resolvi sair do seminário. E aí, então, eu continuei fazendo o meu curso de Filosofia em Campinas e trabalhando, porque eu já estava trabalhando no banco. Em junho de 74, estudava a noite e trabalhava durante o dia.

 

P/1 – Que banco?

 

R/1 – Sudameris?

 

P/1 – Mas, como foi essa entrada? Porque é outro universo. Até então, o que você tinha de experiência era a agricultura?

 

R/1 – É.

 

P/1 – Ir pra um banco, como foi essa diferença, esse...

 

R/1 – Bom, eu estava estudando, já estava na universidade. Quando eu estava no colegial, eu fiz o curso de datilografia, que era o requisito básico pra ser bancário. E aí, quando fui pra Campinas, estava procurando emprego. Fiquei seis meses lá, não tinha arranjado emprego, então estava só estudando. Aí, depois, quando eu fui de férias, eu estava de férias em julho. Até estava na casa da minha mãe, tinha voltado pra Cordeirópolis. Aí, chamaram que tinha surgido. Tinha um companheiro nosso, que estudava junto também, que era do seminário, que já estava trabalhando no Banco Sudameris. Aí, surgiu uma vaga, me convidou, eu fui pra lá, fui trabalhar no Banco Sudameris. Foi normal, era um serviço mais tranqüilo.

 

P/1 – Você lembra o que você fazia? Qual era o seu serviço?

 

R/1 – No banco?

 

P/1 – É.

 

R/1 – É. Eu fazia uma parte do atendimento ao público. Que era atender o pessoal que ia lá pra fundo de garantia. Cuidava da parte de fundo de garantia, no banco. No período que tinha imposto de renda, eu cuidava do recebimento das declarações de imposto de renda dos clientes. E a outra parte do dia eu fazia as fichas de caixa, que era contabilizar o que os caixas recebiam durante o dia. Água, luz, telefone, uma série de carnês que o banco recebia. No fim do dia, a minha tarefa era somar tudo isso. O que recebeu de cada tipo de carnê e fazer a ficha debitando do caixa e creditando na conta das diversas empresas que tinham recebido os valores. Então, esse era o meu serviço.

 

P/2 – Você achava isso, achava muito mais tranqüilo do o que você fazia antes? Como que era? Comparação.

 

R/1 – Ah, muito mais tranquilo. Serviço na roça era um serviço pesado. Era um serviço embaixo do sol, às vezes embaixo da chuva. Mesmo quando não tinha chuva, você chegava cedo pra trabalhar. Por exemplo, quando ia na cana, por exemplo, estava molhado. Colher laranja, de manhã, mesmo que não tivesse chovido, as árvores estavam molhadas. Então, você começava de manhã, molhado, depois, o resto do dia, era o calor. Daí, você ficava molhado de suor. Enquanto que lá não. Era um trabalho muito mais tranqüilo e sossegado. Pra mim era uma diferença enorme. 

 

P/1 – Deixa só eu voltar uma coisa que você falou da filosofia. Como que era fazer Filosofia, ainda mais na PUC de Campinas, não é?

 

R/1 – É.

 

P/1 – Em plena época da ditadura. Como que era isso?

 

R/1 – Ah, isso foi interessante porque... Na verdade, fazia o curso de Filosofia porque eu tinha ficado no seminário. Então, embora eu tivesse vivido o tempo do colégio em Araraquara, a gente ouvia falar alguma coisa da ditadura, mas isso não era uma coisa muito presente. Não tinha uma inserção política. O que eu acompanhava de política era lá da minha cidade. Meu pai era ligado ao Movimento Democrático Brasileiro [MDB], que era oposição na cidade, mas nada mais. No seminário a gente tinha a oportunidade de ler jornal, aí a gente tomava um pouco de conhecimento disso, de que tinham presos políticos, procurados. Quando ia para o seminário e voltava, ia de trem e voltava de trem. Na estação tinham aqueles cartazes, dos procurados, que a polícia colocava. Os cartazes dos chamados na época, dos que estavam fazendo a subversão, dos estavam fazendo a luta armada, e tal. Eu não tinha uma militância política mais efetiva. Então, quando eu fui pra universidade, comecei a participar, logo no segundo ano, do centro acadêmico do curso de Filosofia. Era um curso pequeno. Tinha pouquíssima gente. Eu tinha alguns professores que tinham uma visão bastante crítica. O professor Narciso, que era padre, quase tocava o curso todo. Logo depois foi assassinado, quando a gente estava no segundo ano, mas nada a ver com a política, aparentemente. Foi um assalto no sítio onde ele morava. E alguns outros professores que tinham uma visão crítica. O curso de Filosofia, pra mim, foi um, de certa forma, despertar essa visão crítica, esse senso de você estar sempre, que é próprio da Filosofia. Acho que foi importante por aí. E de ler muito. No seminário também, eu tive a oportunidade de ler bastante. Acho que foi fundamental na minha vida. Então, no curso, também, a gente lia muito. Morava numa república. Então, comecei a fazer parte do centro acadêmico. Passamos a editar, um jornal, com algumas notícias mas era pouca coisa. E também passamos a editar no centro acadêmico uns cadernos, que a gente chamava de cadernos de textos. Nós divulgávamos muitos textos nesse caderno, como a “Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire. Pegava alguma coisa que estava proibido e divulgava. Me lembro de termos divulgado alguma coisa de Paulo Freire, como a “Pedagogia do Oprimido” e alguma coisa do Noam Chomsky, que é um norte americano, crítico da guerra e de toda a política americana. Então, divulgava muitos textos dele sobre isso. Tinha um companheiro que gostava de escrever muito, o Roberto Goto, ele era um, vamos dizer, muito mais intelectualizado do que eu. Ele tinha uma vivência muito maior, era uma pessoa que produzia textos, coordenava esses cadernos. Eu era o presidente do centro acadêmico, mas ele era o coordenador disso. Nós debatíamos muito e também com os professores e tal. E aí, então, começou também a militância política. Então, em 76... Eu cheguei em Campinas em 74, em 76 já tinha um ressurgimento do movimento estudantil, mas, eu trabalhava o dia todo e estudava a noite. Então, eu não tinha uma militância, no movimento estudantil como tinha o pessoal da Medicina e da Arquitetura. Que era o pessoal que passava o dia inteiro na universidade. Eles tinham uma militância maior. Muitos já estavam organizados em vários grupos políticos. Eu não participava de nenhum, mas participei das assembleias e dos movimentos. Dirigi algumas assembléias lá na Universidade, mas não cheguei a ter uma militância, nesse período, organizada. Embora, fosse presidente do centro acadêmico do curso de Filosofia. Depois, essa militância veio se dar, assim, de forma mais organizada, logo que eu saí da universidade. Saí da universidade em 77, final de 77. Em 78, eu continuava no banco. Já estava na Nossa Caixa. Tinha saído do banco, tinha ido pra Nossa Caixa, mas eu queria continuar fazendo alguma coisa. Então, eu me matriculei no curso de mestrado em História na Unimep [Universidade Metodista de Piracicaba] em Piracicaba. Era um curso que eu ia fazer uma vez por semana, de manhã. Então, eu acertei um esquema no banco. Fazia umas horas extras, compensava a sexta de manhã, em que eu não trabalhava e ia estudar. E fui procurar dar aula, eu queria dar aula. Quando eu fui procurar, uma das professoras me levou pra fazer uma ficha no Curso Evolução. Curso Evolução era um desses cursinhos que tinha lá em Campinas, que preparava os alunos. Tinha curso de madureza, tinha curso de supletivo, na época, falava madureza. E lá muitos professores que tinham militância política davam aula nesse cursinho. Quando eu estava saindo – tinha feito a ficha, eventualmente, pra dar aula lá – a professora que estava comigo e dava aula naquele curso, tinha sido minha professora na universidade e me apresentou para o Reinaldo Dias. E o Reinaldo Dias coordenava um curso, que era um curso supletivo no Sindicato dos Petroleiros de Campinas. O sindicato tinha um curso para o pessoal que trabalhava na Petrobrás, mas que não tinham segundo grau. Então, o sindicato dava o curso e depois o pessoal ia fazer um exame, quando chegava um período do ano.  E o Reinaldo Dias coordenava esse curso lá no Sindicato dos Petroleiros, que era um sindicato que o Jacó Bittar, na época, era o presidente. E aí, eu me apresentei pra ele. Um tempo depois, ele me ligou dizendo: "Olha, eu estou precisando de alguém pra dar aula de Geografia”. Não era a minha especialidade, mas eu topei dar aula porque era um curso pra nível ginasial. Não tinha feito Geografia na universidade, mas tinha feito no colégio, então, eu estudava a matéria e ia dar aula. E a aula era em Cosmópolis, que é do lado de Campinas. A Petrobrás fica em Paulínia. Então, tinha aula em Campinas e tinha aula em Cosmópolis, aonde precisava de alguém pra dar aula. Durante seis ou oito meses, duas vezes por semana, eu ia pra Cosmópolis à noite, dar aula de Geografia para o pessoal que era petroleiro. Depois que terminou o curso, parei de dar aula e de fazer o curso de mestrado em História que eu tinha começado na Unimep, porque não dava pra compatibilizar o horário. Comecei a militar num grupo político que o Reinaldo coordenava em Campinas, um grupo clandestino, naquele momento.

 

P/1 – Que grupo que era?

 

R/1 – Era o Grupo Companheiro. Era ligado à nossa, nossa...

 

P/1 – O (MEP?)

 

R/1 – Não, não era do (MEP?), não. Era o Ricardo Zaratini. Era um grupo independente. O Zaratini tinha sido exilado, em troca dos embaixadores, tinha voltado para o Brasil, tinha esse grupo. Em Campinas tinha o Reinaldo Dias e a gente montou um grupo de alguns companheiros, todos jovens iguais a mim. O Reinaldo era mais velho. Um militava no Sindicato dos Químicos, outro era metalúrgico, outro era gráfico e a gente tinha uma base lá que se reunia. E aí, logo em seguida, em 80, eu fui para o sindicato dos bancários. Já com uma tarefa organizada. 

 

P/1 - Espera aí, você foi como diretor?

 

R/1 – Eu fui eleito para o sindicato.

 

P/1 – Mas, o sindicato teve uma chapa, você concorreu, quem que estava na direção?

 

R/1 – Teve todo um processo de discussão. Eu estava militando de forma organizada nesse grupo clandestino e me reunia muito com o Reinaldo. Tinha algumas reuniões aqui em São Paulo com o Zaratini, e também reunia com o Bigode que tinha montado uma chapa no Sindicato dos Metalúrgicos, de São Paulo. O Bigode militava aqui. Era um grupo que tinha montado uma chapa em 78 aqui, depois, na frente, eles montaram uma chapa com o Joaquinzão [Joaquim dos Santos Andrade]. Em Campinas, várias pessoas começavam a fazer oposição ao sindicato, tinham vários grupos lá. Nada que, do meu ponto de vista, pudesse montar uma chapa consistente. Então, eu a partir de 79, comecei a participar da atividade sindical. Então, o que quê eu fazia? Eu saía todo dia do banco, cinco e meia da tarde, eu passava no sindicato, chegava lá, se tivesse alguém do sindicato, senão eu ficava lá, lia jornal, cortava o cabelo. O sindicato tinha isso. Tinha um bar lá no sindicato. Então, o pessoal ficava lá. Às vezes, eu passava lá. Eu chegava e o presidente do sindicato normalmente estava lá. E até ele reclamava muito porque seis horas ele queria ir embora e eu chegava lá e: "Ô, Armando, podemos conversar." Daí, eu começava a querer conversar com ele. "Olha, e isso, e isso, e do sindicato." E sugerindo algumas coisas. "Vamos fazer isso, vamos fazer aquilo. Olha está tendo essas reuniões." Em 79, já tinha começado a ter esse movimento. "Vai ter o 1º de maio, os sindicatos estão se reunindo. Como é que o nosso sindicato vai participar do 1º de maio?" Eu ia discutir com ele as coisas que estavam sendo faladas no movimento sindical. Eu tinha essas informações porque nosso grupo estava organizado, então: "Olha, tem...". O quê que estava sendo discutido na cidade pelos outros sindicatos e tal. Todos os sindicatos, naquela época, em Campinas, tinham diretorias que vinham desse período da ditadura, então, era raro o sindicato que tinha inclusive militantes mais de esquerda, mas eu fazia isso invariavelmente. Passava lá e conversava com ele. E aí, depois, começou a chegar perto da eleição, a gente começou a discutir com outros companheiros. Participávamos das assembleias, discutíamos, fazíamos propostas. Aí, durante a assembléia, sempre fazíamos aquelas propostas de montar uma comissão de mobilização, com a participação da base. O presidente do sindicato às vezes concordava, às vezes não concordava. E esse era o nosso trabalho, e eu já falava nas assembléias, participava.

 

P/1 – Você lembra da primeira vez que você falou, como é que foi?

 

R/1 – Da primeira vez, eu não me lembro, não. Assim, a primeira vez que eu falei, eu não lembro, mas eu lembro de uma vez que teve uma assembléia que tinha que escolher representantes pra ir para o encontro estadual da categoria. O encontro acho que ia ser em Bauru. E a gente já estava organizado, então, nós tínhamos interesse em levar gente do nosso grupo. Eu já levava gente pra assembléia, lá do banco, da Nossa Caixa, outros companheiros. E quando chegou lá, eu fui falar com o presidente do sindicato, porque eu conversava com ele todo dia: "Como é que vai ser a eleição?" Ele falou: "Ah, a gente vai abrir a assembleia e depois vocês vão indicar. Quem estiver na assembléia vai indicar." Acho que tinha que eleger três ou quatro pessoas, um negócio assim. E a nossa proposta era que quem quisesse ir, se apresentasse e depois fizesse aquela votação. Cada um levantando a mão, quem vota nesse, quem vota naquele. Ele falou: "Não, a votação vai ser na urna.". "Como vai ser na urna?" "Não. A gente vai distribuir, cada um escreve...". Acho que eram três. "Cada um escreve três nomes e põe aqui na urna. Depois a gente apura e vê os mais votados.". E aí, a gente percebeu que a gente ia dançar nesse negócio. Porque por mais organizados que nós estávamos, um ia escrever meu nome, outro ia escrever outro. E eles estavam distribuindo um papelzinho, pronto, com os três nomes deles. E aí, nós fomos brigar: "Pô! Espera aí, não pode ser assim, porque a gente não sabe quanta gente tem na assembleia. Como é que vai ser?" "Não, cada um levanta e vem aqui pôr na urna." "Espera aí, levanta? E se alguém põe dois papéis na urna?" Era um negócio que eles tinham feito pra eleger o pessoal deles. E aí, eu fui lá falar. Fiz um discurso questionando que isso era um absurdo, essa forma de fazer, porque não permitia que a gente tivesse um controle disso, e tal. E aí, um dos diretores do sindicato, um cara mais forte, resolveu subir pra me pegar. E eu pulei do palco e sai correndo e meu povo saiu correndo atrás pra não apanhar. Foi mais ou menos isso, assim. E eu muito nervoso. Eu me lembro muito nervoso, mas não era por falar, nervoso porque tive que sair correndo de lá, porque o cara queria me pegar lá em cima do palco. E o pessoal todo correu, acabou a assembleia e nós não fomos para o congresso. Foi chegando perto da eleição e juntamos cinco companheiros. Tinha mais gente que fazia oposição, mas por orientação, nós achamos que não tínhamos condições de montar uma chapa de oposição. Nós não teríamos nenhuma chance, então, a orientação que nós recebemos era o seguinte: buscar fazer uma composição. Então, juntei eu, tinha um outro companheiro que era do Banespa, o Zé Antônio, ele militava no Partido Comunista Brasileiro (PCB), mas eu não sabia disso. Eu sabia mais ou menos, porque quando eu conversava com o nosso pessoal, o pessoal falava assim: "Com quem que você conversa?". Porque todo mundo era clandestino, um não falava para o outro. Então, eu falava assim: "Bom, tem um cara assim, assim, que sempre está lá, participa, que a gente está, participa junto, tal.". Acho que sabiam, mas ninguém passava todas as informações pra gente porque eu também era novo. Nós resolvemos que íamos procurar o presidente do sindicato dizendo que queríamos participar da chapa do sindicato. Então, fui eu, o Zé Antônio e o Luiz Durante. O Luiz trabalhava comigo, era um companheiro que tinha vindo do Banco Safra, não militava muito, não participava da organização política, mas era importante levar, porque ele era conhecido do presidente do sindicato, era o campeão de pingue-pongue lá do sindicato e já estava participando com a gente, acompanhava a gente mas não militava, não estava na nossa organização. Então, fui eu e o Zé Antônio. E os outros dois companheiros, nós não levamos num primeiro momento pra falar porque eram dois companheiros do Itaú. Eu era da Nossa Caixa, o Durante também era e o Zé Antônio era do Banespa. Então, a gente, de certa forma, tinha uma estabilidade maior. Banco Itaú era mais complicado. Tanto que os outros dois, logo depois, foram demitidos. A gente acha até porque começaram a participar muito do sindicato e antes de verem o registro da chapa, eles foram demitidos do banco. Mas, fomos conversar com o Armando. O Armando era o presidente do sindicato. Falamos: "Ô, Armando, a gente queria fazer parte da diretoria do sindicato." Ele falou: "Não. Tudo bem, quando chegar na época, a gente vai falar, tal." E eu continuava indo lá. Um dia ele chamou a gente e falou: "Olha, pra já adiantar o processo, vamos preencher aqui a ficha. Tem uma ficha de qualificação aqui e é importante preencher isso, porque tem toda uma burocracia. Então, a hora que abrir o edital, a gente precisa estar com tudo isso pronto.". "Está bom." Preenchemos a ficha e ficamos esperando abrir o edital. Aí, ele chamou a gente no outro dia e falou assim: "Ó, já encerrou a inscrição de chapa e a chapa é essa." Ele botou a gente na chapa, não deixou a gente de fora mas já tinha encerrado, não teve divulgação nenhuma que tinha o edital. Ele abriu, publicou no diário oficial, ninguém ficou sabendo, registrou chapa única.  E eu estava de secretário-geral do sindicato.  Porque, sei lá, pela minha participação, pelo fato de eu estar sempre lá, conversando com ele.  Sempre estava levando sugestões, debatendo. Eu, secretário e o Luiz Durante e o Zé Antônio de suplente. O Zé Antônio, ele colocou como último suplente porque ele tinha um pouco mais de preocupação porque ele tinha algumas informações.  E o Zé Antônio, na época, estava militando no partidão, mas tinha militado, acho que ...ligado mais à Ação Libertadora Nacional (ALN).  Uma dissidência do partidão. O Zé tinha vindo de Ribeirão Preto. Então, o Zé tinha ficado clandestino, tal.  E eu acho que o Armando tinha alguma informação disso. Alguém devia ter falado pra ele: "Ó, esse cara aí, é....". O David, acho que ele não tinha muito. O David acho que ele só sabia o seguinte: "Ah, militava lá na PUC. Militou um pouco no movimento estudantil.”. O Zé Antônio acho que ele tinha mais informação, então ele botou como o último da chapa, lá embaixo: suplente da federação mas fomos eleitos. E aí, fui eleito como secretário-geral e fui liberado pra ficar no sindicato, isso em 80. E os outros dois continuaram no banco e com o trabalho de sindicalizar. A gente tentou montar um cineclube no sindicato. Tinham as atividades que o sindicato já fazia e conseguimos implantar um jornal permanente. O sindicato já tinha uma gráfica, de antes, mas não tinha nada periódico. Às vezes saía um boletim, na época da campanha salarial, quando terminava a campanha. E não saía mais nada. Saía umas circulares. Aí, a gente conseguiu implantar um jornal no sindicato. O Armando contratou um jornalista. Então, passou a ter um jornal que não tinha uma periodicidade, fixa, mas todo mês tinha jornal. E eu passei a pegar esse jornal e ia no banco entregar pessoalmente. Ia pra base.  Às vezes, com o meu carro, às vezes convidava um outro diretor, que estava liberado, pra ir. Ia pra uma cidade, pra outra, aproveitava e fazia um trabalho de sindicalização. Então fomos sindicalizando gente.  E isso, foram os três anos desse trabalho. Fazia o cineclube, aí o Armando resolvia fechar o cineclube. Aí, ia lá de novo. Todo um trabalho de articulação. Lá não pode. "Mas, não está vindo ninguém no cineclube. Vocês estão aproveitando pra trazer aqui só estudante, e não sei o quê, isso é coisa de político. Não é coisa do sindicato." Era todo um esforço pra estar cavando um espaço, esse trabalho que a gente fazia mas, ao mesmo tempo, sempre visitando a base. E aí, foi terminando o mandato, quando chegou em novembro. Outubro ou novembro de 82, eu, o Zé Antônio e o pessoal que estava lá falamos: "Bom, vai chegar a eleição e nós temos que buscar uma situação diferente, não dá pra... Agora não dá pra ser igual. Três anos atrás.  Nós viemos aqui, falamos para o Armando que a gente queria entrar, ele botou a gente na chapa mas agora..." Então, fomos fazer uma reunião com o Armando. "Ô Armando, nós queremos discutir a eleição do sindicato." Falou: "Ah, tudo bem, pode vir." Sentamos lá com ele e começamos a falar, falar da eleição. Ele falou olha: "A eleição vai ser o seguinte: vocês vão continuar, se vocês tiverem alguma sugestão de gente, tal, vocês podem apresentar mas, eu vou montar a chapa." Daí, a gente falou: "Olha, Armando, assim não.  Agora nós estamos participando mais. A gente acha que o sindicato pode ter uma diretoria melhor do que essa. Pode ter gente que participe mais e tal." E ele falou: "Não, eu que vou montar a chapa.". Aí, a gente articulou uma entrevista no jornal da cidade. Pegamos um jornalista que também era ligado, na época, ao Sindicato dos Médicos, e ele fez uma entrevista comigo e com o Zé Antônio. E a gente dizendo o seguinte: "Ó, no ano que vem tem eleição no sindicato e nós achamos que essa eleição tem que ser uma eleição democrática, tem que ter uma participação da categoria." Quando saiu a entrevista no jornal, o Armando chamou uma reunião da diretoria pra um sábado. Normalmente, a reunião no sindicato era só dos sete, que eram os sete efetivos. Nesse dia, ele chamou uma reunião com a diretoria toda. Com os efetivos, os suplentes, o conselho fiscal, as 20 pessoas. Alguns faltaram a reunião, então, ele abriu dizendo o seguinte: "Olha, o David e o Zé Antônio querem fazer oposição no sindicato e nós não podemos permitir isso. Há três anos atrás eu botei os três na chapa, agora, eles querem fazer oposição. Querem botar vocês todos pra fora".  Os outros que estavam lá, chegando, nunca participavam de reunião. "Querem botar vocês pra fora, tal. Então, a proposta que eu quero votar aqui na diretoria é que o David seja devolvido para o banco. Seja cassada a liberação que ele tem pra ficar aqui, no sindicato.". E a gente disse que não era nada disso, que o que a gente estava querendo era uma diretoria que incorporasse gente nova, não era tirar ninguém. Aí, ele votou e empatou. Ele não conseguiu me devolver. No outro sábado, ele chamou outra reunião. Aí, estava todo mundo, não faltou ninguém. Nós fizemos, só nós, três votos. Eu, o Zé Antônio e o Durante, só. E o resto, todo mundo votou pra me devolver para o banco. Na segunda-feira, ele fez uma carta me devolvendo para o banco mas eu não fui. Eu fui lá para o sindicato, cheguei de manhã, eu tinha um fusquinha. Cheguei lá, encostei... Na beirada do sindicato tinha uma garagem, que cabia três carros. Eu cheguei, entrei com o carro e sentei lá na secretaria geral. Eu era o secretário-geral do sindicato. Tinha a sala do secretário-geral, sala da tesouraria, do presidente e o gabinete dentário. E no fundo, um salão. Tinha um salão de barbeiro e tinha o salão do sindicato. Ele entrou no sindicato, parou na frente da sala e falou: "Você tira aquele carro de lá já que você não é mais o secretário-geral. E some daí senão vai sair porrada aqui.". Aí, eu falei: "Pô, eu vou ficar aqui, eu vou armar confusão." Fui lá, tirei o carro e saí, E fui para o banco, fui lá no banco, falei: "Olha, o cara está me devolvendo, mas eu estou montando uma chapa. Nós estamos montando uma chapa. Vamos disputar o sindicato. Então, eu preciso que você me dê um tempo porque eu estou vendo na justiça alguma coisa pra voltar pra cá e tal." Aí, o cara falou: "Está bom. Então vamos te dar férias." Me deu férias. Depois tirei licença-prêmio mas foi acabando. E nesse período, fui buscando montar a chapa, organizar. Depois terminou as férias, eu voltei para o banco. Aí, já era 1983. Então, o quê que tinha acontecido? Como eu era funcionário da Caixa, no final do ano, nós tínhamos eleito o Reinaldo Dias, que era esse companheiro que a gente militava junto, vereador. Ele foi eleito vereador, passou a ser uma base de apoio importante, porque tinha o escritório dele, que a gente usava pra fazer as nossas reuniões e, além disso, em São Paulo, foi eleito pra governo do Estado o Franco Montoro.  E, por coincidência, eu tinha procurado, quando eu tinha sido devolvido pro banco, um advogado lá de Campinas, que era o Valdemar Tomazini, pra ver se ele podia me defender nessa briga. E fui lá, contei toda a história pra ele, falei: "Ó, o cara está me devolvendo. É um embate. Nós queremos disputar a eleição e tal, assim, assim." Ele falou: "Eu não vou poder pegar essa causa porque eu estou me mudando e eu não vou ficar aqui em Campinas. Eu estou indo pra uma outra atividade." Ele não me falou o que era. "Procura outro advogado" O Montoro tomou posse, nomeou nova diretoria pra Caixa, a hora que eu vejo a diretoria, Valdemar Tomazini diretor administrativo do banco. Tomou posse, no outro dia eu estava aqui em São Paulo, conversando com ele. Falei: "Ó, Doutor Tomazini." "Ah, ô, David." Falei: "Então, o senhor já sabe da história que eu fui procurar o senhor, tocar o processo pra gente. Então, o que eu vim aqui pedir é o seguinte: que me dê a liberação." Porque eu já não tinha mais jeito. Tinha acabado férias, licença-prêmio. Eu já tinha negociado com o diretor regional, de sair no meio do dia pra fazer reunião mas trabalhando era difícil de organizar a chapa. E aí, eu falei: "Eu preciso da liberação. Preciso da minha e do Durante." Aí ele deu a liberação dos dois, sem ter carta do sindicato pedindo. Ele liberou os dois, nós ficamos liberados, como se a gente estivesse liberado para o sindicato e montando a chapa. Daí, começamos a montar a chapa, viemos aqui em São Paulo, conversar com o pessoal do Sindicato dos Bancários, o Augusto Campos era o presidente, Gushiken [Luiz Gushiken] era diretoria, Lucas Buzatto, Luiz Azevedo, todo um pessoal que já tinha ganho uma chapa de oposição.  A primeira conversa que a gente teve com o Augusto Campos, ele, foi logo no começo falando: "Não tem jeito de vocês continuarem juntos lá, não. De manter a composição, porque uma oposição, pra ganhar, é muito difícil. Falamos: "Augusto, não tem mais jeito, nós já demos entrevista no jornal, o cara já botou a gente pra fora. Agora não tem mais retorno. Ou a gente monta a chapa e ganha a eleição ou nós vamos estar fora." E ele:"Não, bom." Mas começou a nos ajudar. Esse jornalista que era do Sindicato dos Médicos nos ajudava, então, a gente escrevia o jornal, um jornalzinho de oposição. Trazia aqui pra São Paulo, o pessoal diagramava e imprimia na gráfica aqui do sindicato. E no final do dia, a gente mesmo ou alguém pegava e levava isso. Íamos de ônibus, levávamos 5 mil, 10 mil, provavelmente um tamanho de ofício e distribuíamos banco a banco, o jornal da oposição. Organizamos nas cidades da região que eu tinha visitado, o Zé Antônio também, então tínhamos contatos. Onde a gente não podia levar, a gente mandava pelo correio pras pessoas distribuírem. E fomos fazendo esse trabalho e montando a chapa. Tinha um grupo que na época já estava surgindo, o PT [Partido dos Trabalhadores], em 83. Então, já tinha também essa divergência. Eu não estava no partidão. Eu estava no... Esse grupo que eu tinha passado aí já pelo Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), já tinha saído do MR-8, estava num outro grupo que era a UC, Unidade Comunista e tinha um pessoal que era mais ligado ao PT que estava nascendo. E que era, portanto, esse pessoal mais ligado aqui ao pessoal de São Paulo. Então, começou a surgir uma divergência.  Porque nós tínhamos composto três anos antes com o pelego, de certa forma. Então, tudo isso era um ranço aí.  Eu me lembro até que quando a gente compôs a chapa em 1980, uma das primeiras reuniões que eu fui, já representando o sindicato. Tinha ganho a eleição, era diretor do sindicato e fui pra uma reunião lá de primeiro de maio, alguma coisa assim. Um companheiro lá falou: "Você é um traidor, compôs do lado de lá." Eu falei: "Bom, isso você vai falar daqui a três anos. Daqui a três anos você discute comigo se foi uma traição ou não.  Por enquanto, eu estou aqui, representando o sindicato. E vamos trabalhar.". Três anos depois, esse companheiro estava lá, apoiando a nossa chapa de oposição.  Mas, então tinha esse embate. Nós começamos a montar a chapa, a reunir com todo mundo, vários grupos e houve alguma divergência. O pessoal lá que viria depois a montar o grupo do PT veio aqui falar com o pessoal de São Paulo que: "Olha, esse pessoal é mais ligado ao partidão, então como é que vocês tão apoiando?" Aí, nós marcamos um dia pra fazer uma reunião om o Augusto Campos e o pessoal dele. O outro pessoal não foi na reunião. Aí, eles continuaram rodando, a gente continuou fazendo o jornal. Aí, juntou todo mundo e a gente começou a montar a chapa. Essa história vai ser longa, hein? (RISO)

 

P/1 – Quem encabeçou a chapa?

 

R/1 – Então, tínhamos divergências pra encabeçar a chapa. Nos reunimos, eu e o Zé Antônio e discutimos, qual era a proposta de montagem de chapa, porque estávamos no sindicato. O Zé queria ser o presidente. Aí, depois, eu discuti com ele, falei: "Olha, Zé, acho que não... Tudo bem, nós estamos juntos, mas eu sou o cara que ficou liberado os três anos. Então, eu andei toda a base, conheço todo mundo, fui entregar jornal, sou muito mais conhecido. Eu acho que é melhor eu, então...". Aí, discute daqui, discute de lá, aí acertamos então que ele ia ser o secretário-geral. E nós éramos ousados, queríamos montar a chapa assim: eu de presidente, o Zé Antônio de secretário-geral e o Durante de tesoureiro. Esquecemos do resto, começamos a fazer as reuniões e aí acertamos o seguinte – isso era um acerto nosso – nós acertamos o seguinte: vamos primeiro definir quem serão os 24. E depois, definidos os 24, a gente senta os 24 e escolhe quem vai ser o que na chapa. Esse foi o acerto, teve todo um embate porque se eu queria ser presidente, eu tinha que ter uma maioria nos 24.  E tem histórias assim: vamos buscar gente, você tinha que chamar gente. Qual o banco que não tem? Então, tinha que ter gente do Bradesco, do Itaú, do Banco Real.  Do Banco do Brasil já tinha, porque o Banco do Brasil tinha uma militância que participava. Caixa Federal, aquele tempo, não era bancário, então não votava, não tinha ninguém. Me lembro até hoje que eu falei: "Bom, no dia que teve uma reunião no Diretório Central dos Estudantes (DCE), eu encontrei um garoto lá que é bancário. Que estava lá no DCE.". Que eu tinha ido numa reunião lá, ele era um jovem secundarista que estava numa dessas reuniões que a gente ia por causa de algum movimento. E eu, na época, peguei o nome dele, onde ele trabalhava. Ele trabalhava no Banco Real da agência do shopping. Pensei: se eu ligar lá, o pessoal vai perguntar, então, eu fui lá na agência, entrei na fila do caixa dele, quando chegou a minha vez, eu falei pra ele: "Ó, hoje à noite, você pode passar lá no DCE pra gente conversar?" O Marquinho Von Zuben [Marcos Von Zuben]. Então, convidei ele pra chapa. E assim, a gente foi convidando quem tinha alguma militância ou quem tinha alguma representatividade.  O pessoal da compensação, que esse pessoal se conhecia, muita gente, tal. E montamos a chapa. E depois, fizemos lá a votação. Então, aí eu fiquei como presidente. O Zé Antônio como secretário. E tesoureiro ficou um companheiro do Banespa, porque tinha um outro companheiro do Banespa que pleiteava a presidência. Então, nós disputamos, eu ganhei, ele não ficou presidente. Mas, o presidente então veio ser, que era mais ligado ao pessoal, vamos chamar assim, do PT hoje. Então, ele era o tesoureiro. E compusemos a chapa e fomos disputar a eleição. Continuamos com esse trabalho nosso de divulgação. Fazíamos a campanha, montamos a militância. O material de propaganda nós que... Fora o jornal, que o Sindicato de São Paulo rodava pra nós, o resto nós produzíamos lá. Durante uns dois meses de campanha, fazíamos umas faixas pra colocar na rua, ganhávamos o pano de alguém, nos juntávamos no fim do dia, alguém desenhava a faixa. Depois, de sábado e domingo, a gente ficava lá, pintando as faixas, nós mesmo. Aí, pegamos um companheiro que era estudante e que gostava de fazer charge. Nós fomos catar na rua, como tinha terminado a campanha eleitoral, tinha tido a campanha do Montoro e o Magalhães Teixeira tinha sido eleito em Campinas. E o Magalhães tinha colocado na rua umas placas grandes, de Eucatex. Fomos na rua, eu e o Zé Antônio, de carro, catar essas placas, levamos para o comitê, pintamos elas de novo de branco. E aí, esse companheiro desenhava umas charges, ele colocava umas palavras de ordem. Então, escrevemos em cima: vote chapa 2. Fizemos uns 10 painéis daquele, vote chapa 2. E colocamos uma charge assim: fim da hora extra, fim da exploração, ajuda alimentação. As palavras de ordem. E o cara fazia umas charges.  Ajuda alimentação, o bancário trabalhando assim, pensando num franguinho assim, tal.  Lembro até hoje. E a gente punha todo dia na rua, nos principais pontos, esses painéis. E no fim do dia a gente tirava. De manhã cedo punha de novo e de tarde tirava. E fizemos a campanha desse jeito. Com gente, com militância. Treinamos. O pessoal de São Paulo foi lá falar: "Ó, eleição é barra pesada." Porque nós não tínhamos mesário, o roteiro das urnas, os mesários todos eram deles, nós tínhamos direito a ter um fiscal pra acompanhar cada urna mas os três mesários, quem assinava a cédula, isso tudo, eram da outra chapa. Que era um pessoal profissional de fazer eleição, o Armando tinha contratado uma pessoa especialista pra isso. Tinham pessoas aqui de São Paulo que só faziam isso, todo mundo já conhecia, sabiam quem era. E a gente, então, foi pra eleição dessa forma.  Treinando... E fiscal precisava ser alguém da categoria, mas não podia ser candidato, não podíamos, então, nós conseguimos pessoas da categoria. Fizemos um curso pra esse pessoal, como é que tinha que fiscalizar. E fomos pra eleição. Ficávamos na frente do sindicato, esperando sair as urnas. Não podia deixar fugir o carro com a urna. A gente organizou um carro pra sair atrás. E pra não ter dúvida de que nós íamos perder a urna, convidamos vários bancários que tinham moto pra ir de moto porque é mais fácil de acompanhar. E a gente lá na porta, já anunciando: "Agora vai sair a urna um." Então, o cara do carro da urna um já, ali, o cara da moto, e saía. E conseguimos fiscalizar razoavelmente. Apurou o primeiro escrutínio e a gente ganhou a eleição por uns duzentos e poucos votos, mas não deu maioria absoluta porque o estatuto do sindicato dizia que precisava ter metade mais um do total de votantes, não dos que votaram. Então, foi ter o segundo escrutínio. No segundo escrutínio, o Armando sabia onde tinha perdido e onde tinha ganhado. Então, o que aconteceu? No primeiro dia, a urna do Banco do Brasil não colhia votos. A urna da Nossa Caixa ficou três horas parada com os mesários almoçando. A urna de Amparo, que era uma base nossa do sindicato, onde a gente tinha ganhado no primeiro turno de quase todos os votos, não colheu nenhum voto. Isso no primeiro. No segundo dia, mesma coisa, quase não colhia voto onde a gente tinha ganhado. Então, nós passamos o segundo dia todo organizando o seguinte: pelo menos os bancários ali de perto do sindicato, no terceiro dia, ir votar no sindicato. Porque o Banco do Brasil era perto, o Banespa tinha agência perto, a Nossa Caixa tinha perto. Então nós nos organizamos no seguinte: no terceiro dia, nós vamos estar cedo dentro do Banco, pra dizer o seguinte: "Vai para o sindicato votar. Não adianta ficar aqui, que a urna não vai passar aqui, porque aqui a oposição tá ganhando e a urna não passa. Então, lá no sindicato vai ter uma urna e tem que receber o voto de todo mundo". Chegamos no sindicato, no terceiro dia, oito horas, nada de aparecer ninguém. Nove horas, só o presidente do sindicato lá, e os mesários não apareciam e não abriam urna nenhuma. Nem as urnas que iam sair e nem a urna do sindicato. Quando foi nove e meia, dez horas, apareceram lá dois mesários, dizendo que eles tinham sido ameaçados no dia anterior, que um deles tinha sido ferido. Estava lá, com um curativo nas costas. Tinha um Boletim de Ocorrência (BO) e que então eles não tinham segurança de fazer a eleição, porque eles estavam se sentindo ameaçados pela oposição e que não ia ter eleição no terceiro dia. E não teve eleição. E a gente correndo atrás do Ministério do Trabalho com os advogados, o pessoal aqui de São Paulo tentando falar. Porque aquele tempo o Ministério do Trabalho controlava as eleições... E no Ministério do Trabalho, a gente não conseguia nada. Tentamos conseguir uma liminar pra determinar que fizessem a coleta de votos. Não conseguimos nada. Todo mundo desesperado: "Pô, vamos perder a eleição. Não colheu votos onde a gente tinha". Tentamos tudo o que era possível e não conseguimos. No outro dia cedo, a apuração. O sindicato... Botamos todo nosso pessoal no sindicato, pra ver a apuração, as urnas, e ficou assim, os bancários aqui, vendo a apuração. O pessoal que nos apoiava e do outro lado, o pessoal contratado. O Armando tinha contratado todo um pessoal de, uma escola de samba.  Tipo uns seguranças, tal, pra... Então, ficou aquele pessoal lá encostado assim e a gente aqui com os bancários. E desesperados, porque a gente fazia conta: "Olha, colheu ali, ali a gente ganhou". Quer dizer, na nossa conta nossa, a gente podia ganhar por dez votos, se fosse o caso, mas não tinha colhido voto. Pra se ter uma idéia, na urna de Amparo, que a gente tinha tido 90 votos, no primeiro turno, e eles tinham tido 27, eu me lembro disso até hoje, quando abriu essa urna, eles tiveram 27 votos e a gente teve 10. Mas o quê que aconteceu? Abriu a urna da sede, nós já tínhamos mais votos do que tínhamos tido no primeiro escrutínio. E aí, quando abriram várias urnas do centro da cidade que eram locais que eles tinham ganhado, tinha virado. Nós tínhamos ganhado a eleição, em bancos que a gente tinha perdido porque a eleição terminou numa quinta-feira e começou o segundo escrutínio na outra terça. Nós tínhamos feito dois jornais nesse período, contando a história, dizendo que a gente já tinha ganhado. E acho que o esquema que eles tinham montado junto com as chefias e tal, se desmontou. Então, a gente ganhou a eleição porque aí virou. E aí, ganhamos a eleição.  Fizemos a passeata, fomos para o centro, tal. Então, essa é a história da minha eleição pra presidente do sindicato em 83. Fomos tomar posse em julho. Chegamos lá no dia de tomar posse, com a festa pronta, todo mundo convidado, seis horas da tarde, uma liminar dizendo que não podíamos tomar posse. Porque a eleição, o segundo escrutínio, não tinha sido conforme o edital, não tinha sido três dias de eleição, só dois dias. Então, o juiz tinha determinado a suspensão do resultado da eleição. Ou seja, era o criminoso se aproveitando do crime.  Não tomamos posse. Foi nomeada uma junta interventora no sindicato. Aí, foram dois meses pra tentar reverter na justiça e não se conseguia. Já era campanha salarial, porque isso era julho, agosto. A campanha salarial dos bancários é em setembro. Quem tinha entrado com a ação de impugnação era um companheiro do Banespa que tinha feito parte da diretoria, mas não era daqueles antigos diretores, ele era novo também. Só que ele tava no banco. E o Banespa era um banco que a gente tinha ganhado maciçamente a eleição. Então, nós passamos esses dois meses fazendo jornal, dizendo que ele era o culpado de a gente não tomar posse. Depois de dois meses, ele não agüentou mais. Ele tava desesperado. Ele quis desistir da ação. Aí ele foi falar com o presidente do sindicato...Com o Armando, que era o antigo presidente. Também não estava, estava afastado. Que queria desistir. Só que quem tinha contratado os advogados era o Armando. Os advogados falaram: "Nós não vamos desistir". Então, ele veio falar com a gente, disse: "Ó, não tem jeito, eu quero... A ação está no meu nome", a ação que impedia nossa posse, "Eu quero desistir, mas os advogados não desistem". Aí a gente conversou com o advogado lá em Campinas, que estava nos assessorando, que era o Argeu Quintanilha. Tinha sido antigo dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos lá. Ele falou: "Tem um jeito. Vocês fazem o seguinte: ele faz uma notificação via cartório, destituindo os advogados e me nomeia". Então, nós fizemos isso. Viemos aqui em São Paulo, pegamos uma notificação via cartório, nomeamos e conseguimos fazer com que os dois advogados que acompanhavam o processo fossem intimados, porque eles estavam destituídos do processo. Tão logo a gente conseguiu pegar isso, o Argeu já entrou no processo e pediu o arquivamento do processo. Daí o juiz deu o arquivamento, porque o autor estava desistindo. Então não tinha mais. No mesmo dia, pegamos a sentença e tomamos posse. Acho que foi no dia 31 de agosto, oito horas da noite. Ficamos lá esperando. Falei: "Na hora que você chegar aqui, a gente toma posse pra não ter risco de reverter alguma coisa". E aí, tomamos posse, então, no dia 31 de agosto, oito horas da noite. Bom, de lá pra cá, é....

 

P/1 – Às portas da campanha salarial.

 

R/1 – Já concluindo a campanha salarial.

 

P/1 – Mas, nessa gestão que você pegou, 83, vai até 86, foi a época que teve aquele greve histórica dos bancários, em 85.

 

R/1 – Nós ficamos de 83 a 86 no sindicato, ampliamos muito a sindicalização, botamos um jornal diário, específico por vários bancos. Mudou radicalmente a atuação do sindicato. Passamos a sindicalizar, de três mil sócios, passou pra quatro, cinco, sete mil sócios. Inúmeras atividades, participando de tudo. 84, veio a campanha das Diretas, o sindicato participou ativamente com cartazes colados nas ruas, participando dos atos, fazendo tudo o que tinha direito pra conquistar a democracia e, ao mesmo tempo, a luta dos trabalhadores. Em 84, participando de todos os encontros da categoria, fizemos paralisações. Quando chegou em 85, foi a greve, fomos para o encontro nacional da categoria, levamos todo o trabalho que a gente tinha feito, aquelas paralisações, e Campinas foi escolhida para sediar o encontro. O encontro que decretou a greve de 85, foi no Ginásio do Guarani, em Campinas.  Então, a gente sediou lá, fizemos aquele grande encontro. Depois fizemos a passeata do Ginásio do Guarani até o centro da cidade que decretou a greve de 85. Nós tivemos uma participação ativa naquilo. Naquela greve.

 

P/1 – Desse evento, você tem alguma lembrança marcante? Algum caso?

 

R/1 – Nós éramos novos no sindicato.  Então, o que eu me lembro? O que eu me lembro é, a gente tem uma foto lá que a gente até fez a comemoração depois dos 20 anos da greve, que é uma foto que tem várias pessoas, puxando a greve.  Que era o próprio Gushiken, o Augusto Carvalho, que era deputado federal em Brasília, Olívio Dutra. Esse pessoal tá na linha de frente.  O Eriberto, que era aqui presidente da Federação dos Bancários de São Paulo, Roberto Pinto, do Paraná. Então, primeiro a passeata que foi um ato marcante, porque oficialmente foram dez mil pessoas. Ginásio do Guarani lotado. Uma coisa que eu me lembro também era a precariedade da gente do ponto de vista de estrutura.  Eu me lembro que o sindicato tinha uma Kombi e que nós a usamos pra ir na frente segurando o trânsito, pra não atrapalhar a passeata. E, nós não tínhamos um carro de som pra liderar a passeata. Na verdade, nós tínhamos uma Variant que tinha aquelas cornetinhas em cima, duas cornetinhas de som, com aquele aparelhinho. E eu me lembro que, a hora que foi sair pra puxar a passeata, eu até falei: "Vamos rápido, pra poder pegar o pessoal lá na frente". As cornetas ainda caíram no chão, a gente teve que arrumar em cima rápido. E depois fomos com o carro de som até o Largo do Rosário. Aquilo não era um carro de som, era uma perua com duas cornetinhas em cima. Então, um pouco a precariedade da estrutura. 

 

P/1 – Durante esse processo que você contou...da sua eleição, tal, você conheceu o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE)? E como que o sindicato usava o DIEESE? Como que era a relação?

 

R/1 – A gente já conhecia o DIEESE, porque o sindicato, eu acho que era filiado ao DIEESE. O DIEESE já tinha vários trabalhos específicos, a federação também era filiada ao DIEESE, a Federação dos Bancários, o sindicato estava filiado. E o DIEESE já participava das mesas, das negociações, da preparação das negociações.  O Barelli [Walter Barelli] era o diretor técnico do DIEESE. Em todos os eventos de preparação, principalmente, da campanha salarial, o Barelli estava sempre presente. Eu me lembro que em 84, a federação fez um seminário na colônia de férias em Caraguatatuba, com dirigentes da federação pra, era um seminário sobre negociação coletiva. O DIEESE tinha um curso que era bastante famoso, de preparar para a negociação coletiva.  Então, eu me lembro que eu fui fazer esse curso lá na colônia de férias, foi específico para os dirigentes da federação. Eu me lembro disso até porque o presidente da federação não foi e eu era o presidente do sindicato mas a negociação já era centralizada, até alguns companheiros que estavam lá falaram: "Todos nós que estamos aqui fazendo o curso, não somos nós que vamos participar da negociação", porque a gente não participava assim, diretamente. Tinha uma mesa que participava os dirigentes mais antigos, nós éramos muito novos mas eu me lembro de já ter feito esse curso lá em 84, lá na colônia de férias, com o pessoal do DIEESE. O DIEESE era muito presente, sempre esteve com todas as informações, era fundamental pra nós. Uma ferramenta muito importante, tanto pra formação, como pelos dados que a gente usava muito. 

 

P/1 – Como foi o processo, assim, de você como dirigente sindical e depois você veio, depois, presidir o DIEESE.  Como é que foi esse processo, esse percurso?

 

R/1 – Bom, eu fiquei presidente do sindicato até 89. Em 89, eu saí do sindicato. Saí, não. Deixei a presidência do sindicato. E sempre estava participando do movimento sindical, até pelas ligações que a gente tinha. Então, participei do CONCLAT [Congresso da Classe Trabalhadora], 1º CONCLAT em 80, dos ENCLATs [Encontros da Classe Trabalhadoras] todos.  Tinha uma coordenação regional lá em Campinas importante.  Não filiamos o sindicato logo de cara, com a criação da Central Única dos Trabalhadores [CUT] e nem a Central Geral dos Trabalhadores [CGT]. Ficamos meio fora disso, mas sempre participamos ativamente do DIEESE e participava ativamente de todas atividades do movimento sindical, participava das assembleias do DIEESE. Então, eu não me lembro agora se foi em 1989 ou 1990, foi quando eu entrei no DIEESE, na diretoria.

 

P/1 – 1992.

 

R/1 – Então, mas eu acho que foi em 1989 que eu comecei a participar mais.

 

P/1 – Ah, como diretor.

 

R/1 – E depois, em 1992, eu fui presidente.  Porque aí, então, eu acho que foi em 1990, não é? No ano de 1990, aí foi o ano que o Barelli estava saindo, é, o Joel que era presidente do DIEESE nos últimos... Tinha sido presidente acho que nos últimos cinco ou sete anos, o Joel tinha sido o presidente do DIEESE. DIEESE funcionava inclusive lá no sindicato dele, que era o Sindicato dos Marceneiros.  Então ele estava saindo, já tinha um pouco uma realidade nova que era a realidade de ter a CUT, de ter a CGT, tinha a questão das centrais, isso. Eu me lembro que nessa discussão, nós fomos eleitos pra diretoria do DIEESE, num acordo que era o seguinte: que eu seria o presidente, o João Vaccari e o Paulo Paixão.  Um cada ano. Então, um ano eu fui presidente, no outro ano eu fui vice-presidente, no outro ano eu fui secretário. E assim os três foram rodiziando.  Eu acho que foi nesse processo, que procurou contemplar pessoas de, vamos dizer, de diversas tendências do movimento sindical, dentro do espírito do DIEESE, de ser uma coisa plural. E o meu nome acabou sendo indicado nessa... Os bancários tinham uma tradição grande, desde a fundação do DIEESE, de participar ativamente do DIEESE.  Eu já estava indo pra Federação dos Bancários, também. Então já não estava só no sindicato, já tinha uma representação que era a Federação dos Bancários e acabei compondo essa diretoria que foi, de certa forma, uma diretoria de uma transição porque não era só trocar o presidente, era o Barelli também que estava saindo do DIEESE. O Barelli tinha sido diretor técnico durante 20 e tantos anos. Então era um momento delicado. Sérgio Mendonça estava assumindo. Embora tivesse a experiência de ter convivido bastante tempo aqui, era um momento de uma mudança significativa no DIEESE.

 

P/1 – Você lembra mais ou menos, como é que foi esse processo, assim, a saída do Barelli? Porque foi um momento de crise, que o DIEESE passou, não é? Você lembra como é que foi isso?

 

R/1 – É, foi um momento de crise, muita gente discutindo, "Será que o DIEESE vai sobreviver a essa nova realidade ou não?" O DIEESE tinha crescido.  Isso era uma outra coisa também, porque você tinha, de um lado essas mudanças no movimento sindical, com os grupos já mais estratificados e você tinha as centrais, cada uma já com a sua organização.  O DIEESE tinha deixado de ser aquele pólo único que ele era, de aglutinação, das diversas categorias que não tinham onde se reunir. Agora você tinha as centrais.  Então, tudo isso era uma crise de um lado. Do outro lado, o DIEESE tinha crescido e tinha uma crise de financiar o DIEESE. Isso era uma outra coisa. Eu me lembro que quando eu entrei aqui, nesses três anos, tinha INSS atrasado, tinha Fundo de Garantia [FGTS] atrasado, tinha dificuldade de pagar os funcionários que é uma coisa crônica mas tinha que se pôr em dia isso, porque, imagina: a gente estava saindo da ditadura mas continuava enfrentando o governo, continuava tendo um embate grande. Então, precisava respaldar tudo isso. Acho que foi um momento bom, nós tivemos capacidade de manter os sindicatos participando, de manter esse espírito do DIEESE que era o espírito de olhar para o conjunto.  Acho que conseguimos fazer campanhas importantes. Em 92, quando eu fui presidente, nós fizemos uma campanha grande de recuperação do salário mínimo, o "S.O.S. Salário Mínimo". Chegamos a elaborar um projeto, juntar as centrais pra ir à Brasília, apresentar esse projeto na Câmara dos Deputados. Como um projeto de recuperação e do crescimento real do salário mínimo. Eu acho que o DIEESE teve essa capacidade, naquele momento, de, com todas essas transformações, com sua equipe, a sua história toda, era muito forte. E era uma marca muito forte para o movimento sindical. Eu acho que isso foi fundamental pra que a gente conseguisse superar aquele momento, onde os embates eram muito fortes. As disputas do movimento sindical estavam muito acirradas. 

 

P/1 – E teve algum momento que você sentiu que amenizou? Teve algum trabalho do DIEESE que pôde estar amenizando esse embate?

 

R/1 – Não, eu acho que foi a capacidade do DIEESE. O que amenizava isso foi a capacidade do DIEESE de continuar produzindo documentos, estudos e pesquisas que subsidiavam o movimento sindical e que não tinham uma conotação de estar a serviço de uma corrente ou da outra.  Essa credibilidade técnica do DIEESE de fazer o estudo do ponto de vista do conjunto dos trabalhadores. É um estudo que tem lado, tal, mas, acima de tudo, é um estudo baseado na qualidade técnica e científica do trabalho. Acho que isso é a marca que sustentava o DIEESE e permitia que todo mundo continuasse se beneficiando disso.  E se utilizando desses trabalhos do DIEESE.  As pesquisas de Custo de Vida, as pesquisas do Índice de Custo de Vida (ICV), as ferramentas, os cursos que o DIEESE dava. Todo mundo tinha uma referência muito forte. O nome do DIEESE era muito forte, pra fora, pra sociedade. Mas também era muito forte pra dentro dos sindicatos.

 

P/1 – Você falou de cursos? O Programa de Capacitação de Dirigentes e Assessores Sindicais (PCDA) é dessa época?

 

R/1 – O PCDA é dessa época. Começou nessa época, começou a se expandir também esses convênios, com a própria mudança de governo. Foi no governo Montoro, por exemplo, que o DIEESE ganhou a sede que tem até hoje, que é aqui no Parque da Água Branca, que cedeu esse espaço pra que o DIEESE pudesse utilizar. Saiu lá do Sindicato dos Marceneiros, funcionava dentro do Sindicato dos Marceneiros. Logo em seguida, ganhou convênio com a PROCON [Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor] aqui no Estado de São Paulo.  Os convênios do DIEESE sofreram uma expansão. Acho que isso foi importante também.

 

(FIM DO CD)

 

P/1 – Então, você estava falando aí do DIEESE.  Qual a importância do DIEESE para o movimento sindical, de conjunto? Como você colocaria?

 

R/1 – Qual que é a importância dele? Primeiro, é que ele se constituiu com uma proposta clara de ser uma ferramenta independente, com rigor científico, de poder estudar e discutir as questões dos trabalhadores. E se preparou pra isso, construiu isso ao longo da história. Então, qual a importância dele hoje? A importância dele ao longo desse período. No período da ditadura, era o espaço que se tinha pra fazer um questionamento das políticas governamentais. Que você não podia, às vezes, criticar abertamente, porque o sindicato podia sofrer uma intervenção, o dirigente sindical podia ser preso mas você poderia repercutir uma pesquisa que apontasse, por exemplo, uma manipulação nos índices de inflação.  Como foi em 73. E o governo não podia dizer que isso era uma coisa de subversivos. Não. Você tinha técnicos especializados, que tinham o aval da universidade e dos segmentos da comunidade científica que reforçavam aquilo. Isso permitiu em vários momentos que você expressasse aquilo que era uma necessidade dos trabalhadores, que era enfrentar o regime militar, com alternativas, que você não teria, se fosse só um enfrentamento político mas um enfrentamento concreto numa discussão como, por exemplo, o índice de inflação que tinha-se, de fato, verificado no país naquele momento. Acho que além disso, a importância do DIEESE foi, ao longo desse período, qualificar os dirigentes sindicais, prepará-los pra uma coisa que naquele momento estava bastante restrito. Porque, com a ditadura, praticamente não se tinha negociação coletiva, tanto que os trabalhadores falavam: "Chegou a época do dissídio." Não era a época da campanha salarial. Época do dissídio o que quê era? Era aquilo que se instaurava na justiça do trabalho, onde o preponderante eram os advogados. Eu me lembro que em 80, quando eu entrei no sindicato, sempre que começava a campanha salarial, você tinha o DIEESE com uma importância grande, discutindo os índices e tal, mas, a palavra final era dos advogados. Porque todo mundo sabia que o processo ia acabar numa discussão no tribunal, ou se você fizesse greve... Porque ia ter julgamento da greve no tribunal. Você precisava ter todas aquelas cautelas de um processo jurídico. Não era um processo só de mobilização. Você tinha que ter mobilização, mas o fundamental eram todas as cautelas do processo jurídico. Os advogados tinham a palavra fundamental. A palavra final era do advogado praticamente porque, se aquilo ia terminar num julgamento, você tinha que instruir bem o processo, pra ter uma chance melhor no julgamento. O DIEESE, nesse período, vem preparando pra negociação coletiva, tanto com os cursos, como fornecendo dados, elementos, fazendo comparações. Então, acho que o DIEESE, nesse aspecto, cumpria um papel de vanguarda naquele momento. Você tinha, de um lado, a preparação, daqueles que estavam na militância política, que acabavam tendo algum tipo de preparação nas suas organizações mas o DIEESE permitia que você preparasse e treinasse um conjunto maior. Na época que se estava ainda na ditadura, clandestino, você não podia levar todo mundo pra sua organização. Então, você podia levar pra cursos do DIEESE, acho que esse aspecto foi fundamental. E a partir daí, foi a construção da credibilidade do DIEESE junto à opinião pública, junto aos outros setores da sociedade. Isso também foi fundamental. A imprensa publicava, não é? Regularmente, os atos do DIEESE. Como faz até hoje.  Um dia sai lá o ICV do DIEESE foi isso. No outro dia, o IPC [Índice de Preços ao Consumidor] da FIPE [Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas]. Então, essa credibilidade, para os trabalhadores naquele momento, era uma coisa fundamental. Você poder ter um organismo que é financiado pelos sindicatos, falando pra sociedade da mesma forma que fala a universidade, da mesma forma que fala a FIESP [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo].  Com a mesma credibilidade que falam qualquer outro organismo da sociedade. Acho que essa é a principal marca do DIEESE. Além de ter constituído estudos que foram gerando um conjunto de saber para a categoria.  O próprio ICV do DIEESE, quer dizer, o fato de ter um Índice de Custo de Vida, que tem toda uma metodologia, foi importante.  A Pesquisa de Emprego e Desemprego [PED], que o DIEESE veio fazendo, ganhou tanta credibilidade, que depois acabou inclusive influenciado... Agora, já, bem recentemente. Não estamos mais falando da saída da ditadura, não. Estamos falando agora, depois já de 10, 15 anos do processo democrático no país, influenciando o Ministério do Trabalho na forma de alterar como calcular o desemprego.  De uma forma que, de fato, refletia mais qual era a realidade do emprego no país.  

 

P/1 – Então, a importância do DIEESE, na sua avaliação, ela extrapola a questão sindical. Ela vai pra sociedade.

 

R/1 – É, eu acho que a importância do DIEESE é isso. É ser um instrumento do movimento sindical, mas que passou a ter uma credibilidade perante o conjunto da sociedade. E isso foi fundamental no período da ditadura e continuou importante e fundamental na democracia.

 

P/1 – E quais os principais desafios você acha que estariam colocados para o DIEESE?

 

R/1 – Olha, eu acho que hoje, talvez, seria convencer o conjunto dos dirigentes sindicais do valor do DIEESE. Do valor de ter, de manter essa marca e essa tradição do DIEESE. Eu vejo, muitas vezes, que os dirigentes sindicais mais novos, talvez não percebam com tanta clareza a importância de você ter um instrumento desse tipo.  Porque cresceram numa outra realidade.  Os sindicatos se aparelharam melhor.  Hoje, os sindicatos maiores têm as suas próprias assessorias e talvez, não tenham a dimensão da importância de um instituto como esse. Acho que o desafio que o DIEESE enfrenta, portanto, é dentro dessa nova realidade, pelo próprio movimento sindical, de continuar existindo.  Porque ele precisa de financiamento, ele precisa de recurso. Esse tem sido o principal desafio. Eu tenho participado, agora, menos da atividade do DIEESE no dia a dia, mas eu percebo isso. Que os dirigentes mais antigos olham o DIEESE com uma importância muito maior, do que os dirigentes mais novos. Precisa fazer com que todos saibam dessa... Uma história dessa você não cria de um dia pra outro.  Então uma marca, um conjunto de idéias, de propostas, de estudos que estão aqui, eles são fundamentais pra continuidade do movimento.  E por mais que o seu sindicato possa estar aparelhado, possa ter informações e tal, o DIEESE tem um conjunto e toda uma história e tem metodologia, tem um acúmulo de saber que é fundamental. Então, acho que é convencer o conjunto dos dirigentes sindicais de que isso tem que ser mantido.

 

P/1 – E como é que você vê o DIEESE, assim, no futuro?

 

R/1 – Bom, eu vejo o DIEESE se adaptando a essa nova realidade. Hoje, as pessoas não percebem a importância da pesquisa do Índice de Custo de Vida.  Porque nós vivemos na época, primeiro, da ditadura, que tinha manipulação. E depois, com altas taxas de inflação. Então, isso era uma coisa fundamental. Como é que você vai discutir, como é que vai repor, salário real, salário nominal.  Esse debate hoje está muito esquecido porque passa um ano inteiro a inflação está 2,3%, quer dizer, aparentemente, tem coisa mais importante pra discutir do que repor a inflação. Eu vejo o DIEESE tendo que manter essa tradição dele e se adequar a essa nova realidade.  Eu acho que é fundamental que o DIEESE, cada vez mais, possa se desenvolver, e eu acho que a diretoria tem tido um pouco essa... Eu participei de uma última reunião no ano passado, justamente na comemoração dos 50 anos.  E vi o DIEESE preocupado em estabelecer alguns temas sobre os quais ele tem que se dedicar.  Eu diria, tema do Salário Mínimo. Continua uma coisa fundamental para os trabalhadores brasileiros. O DIEESE pode ser e deve ser, o instituto que pode trabalhar isso de forma mais ampla. Porque as categorias, às vezes, não estão muito preocupadas com o Salário Mínimo. Cada um tem seu piso salarial. A questão da distribuição da renda, que é uma questão fundamental se a gente quiser ter um país diferente. É um desafio de todos nós que queremos transformar esse país aqui, em algo melhor pra se viver. Precisa ter uma melhor distribuição de renda. Isso é uma coisa básica. O DIEESE tem acúmulo nessa área. Pode trabalhar e fornecer estudos, subsídios fundamentais. Então, eu vejo: esse é o caminho do DIEESE. Se dedicar a alguns temas que são fundamentais para as transformações da nossa sociedade. E que as diversas correntes políticas podem trabalhar isso com maior ou menor ênfase, mas o DIEESE poderia e deve continuar, no meu modo de ver, trabalhando isso pra continuar podendo subsidiar qualquer desses. Quem quer dar mais ou menos ênfase a isso.  E pra ser também um fiscal. Não é porque nós vivemos na democracia, tal, que esse embate acabou. O embate do Capital e Trabalho continua. As transformações na sociedade continuam precisando ser operadas. Então, acho que o DIEESE pode continuar cumprindo esse papel.

 

P/1 – Agora, a gente vai mudar pouco. Bom, você é casado?

 

R/1 – Sou. 

 

P/1 – Qual o nome da sua esposa?

 

R/1 – Sônia Aparecida Aoki Zaia.

 

P/1 – Tem filhos?

 

R/1 – Três filhos.

 

P/1 – Qual o nome?

 

R/1 – O André, o Felipe e a Fábia.

 

P/1 – A idade?

 

R/1 – 26, o André, 22, o Felipe e 11, a Fábia. 

 

P/1 – E o que eles fazem, os seus filhos?

 

R/1 – O André é formado, é economista, se formou na UNICAMP [Universidade Estadual de Campinas] e está atualmente trabalhando na Libra, que é uma empresa de logística, que opera muito no porto de Santos. O Felipe terminou também o curso de Economia na UNICAMP e, atualmente, faz estágio na Elektro E a Fábia ainda está na oitava série. Quinta série.

 

P/1 – E com essa vida de ativista, de dirigente sindical, como que você conseguiu compartilhar a sua vida com a família, como foi isso?

 

R/1 – Bem, a Sônia sempre participou também do movimento sindical.  Na minha primeira eleição lá no sindicato, aquela história que eu contei, ela foi uma das que foi fiscal de urna.  Porque ela não era candidata, então ela foi fiscal. E depois, quando eu saí de presidente do sindicato, ela passou a fazer parte da diretoria do sindicato, acho que 89 ou 90. Hoje, ela é presidente do Sindicato dos Bancários, lá em Campinas. Então, em casa, a gente sempre esteve participando, correndo, cada um pra um lado. Às vezes, pouco tempo pra ficar em casa, porque a atividade acaba... Tem atividades à noite, você tem reuniões pra cá, pra lá, viaja mas acho que conseguimos conduzir isso de maneira adequada.  Conseguimos passar para os filhos algumas noções que a gente considera fundamentais, dos valores.  E eles estão aí hoje, seguindo a sua vida. Acho que a gente conseguiu adequar isso dentro da nossa realidade. A gente conseguiu conduzir isso de maneira adequada. Nem sempre estando muito presente em casa, mas conseguimos dar uma boa formação e também ter a nossa convivência relativamente normal.

 

P/1 – Pra sua vida, assim, quais as principais lições que você tirou dessa vida de militante, assim, dessa atividade?

 

R/1 – Bom, é difícil de principais lições, contar um pouco a história mesmo. Ver que a gente pôde ser protagonista de vários fatos, no meu caso da categoria bancária.  Participar de momentos importantes, para o país.  Embora, você não tenha sido um protagonista principal de nenhum deles, mas estar presente nas lutas do nosso povo.  Isso, pra mim, é o que tem de melhor.  De você poder estar sempre presente, buscando alguma coisa que buscasse melhorar a sociedade, transformar a sociedade, estar na luta pela democracia, pela liberdade, pelos direitos. Poder debater, discutir, fazer o debate de idéias, que eu acho que é fundamental também.  Então, ter aprendido com isso, ter podido me qualificar, ter podido continuar participando ativamente da vida política do país.  Fazer um pouco, de certa forma, do que eu gosto de fazer.  O que eu guardo de lembranças boas são esses momentos, aonde a gente tem esses embates, alguns fatos de uma eleição sindical. Acho que eu até me estendi aqui relatando, porque é uma coisa que me empolga falar.  Porque era um período de disputa.  Se a gente pensar, eu tinha vindo lá do interior, numa cidade grande, sozinho.  Porque eu não vim com a minha família, vim sozinho. Fui estudar, de repente estava lá, dirigindo uma assembléia. Minha mãe, quando ficou sabendo disso, disse que não conseguia imaginar como é que eu estava fazendo isso porque eu era de uma timidez enorme. Eu não conseguia, quando eu estava em casa, falar com a pessoa, se tivesse alguém estranho, eu não falava.  Em casa, se tivesse alguém estranho, minha mãe diz que eu não falava com ninguém.  Então, de repente, eu estava lá, falando em cima de um palco, dirigindo uma assembléia de estudante, depois da categoria, depois sendo presidente do sindicato.  Então, acho que as transformações que foram operando com a gente. O que tem de bom é isso. A solidariedade das pessoas, você vê hoje, passados 30 anos, encontrar pessoas que se lembram de fatos que a gente nem lembra mais, que vem te dizer: "Ó, lembra de tal dia, que eu estava lá, com tal problema e você me ajudou a resolver.". De vez em quando encontro várias pessoas que vêm me relatar isso.  Ajudou a resolver um problema, ajudou, fez alguma coisa que foi bom.  Eu estava, agora mesmo, candidato, e encontrei gente que falou assim: "Olha, vou votar em você porque meu pai fala muito de você, de quando quebrou o Comind [Banco Comind] de todo enfrentamento que você fez, liderando lá, pra defender o emprego do pessoal". Então, coisas desse tipo que eu acho que sobra de bom, na luta da gente.  De você ver o reconhecimento das pessoas. E não o reconhecimento pelo reconhecimento, mas ver que aquilo que você fez marcou as pessoas porque foi uma luta boa, foi um trabalho importante. Acho que isso é o que gratifica a gente.

 

P/1 – Você diria, então, essa vivência toda contribui inclusive pra sua eleição? Teria alguma influência?

 

R/1 – Ah, sem dúvida. Isso é uma história que vai se reproduzindo, a gente vai acumulando conhecimento, experiência. E foi fundamental. Sem sombra de dúvida.

 

P/1 – Você acha que a sua passagem pelo DIEESE também pode ter uma pontinha aí?

 

R/1 – Também, também, também. Foi uma experiência importantíssima, participar da diretoria do DIEESE.  Eu fiquei aqui poucos anos, mas foi fundamental acompanhar isso. Ver, poder ter outras experiências, ter toda uma relação com o corpo técnico. Então, isso tudo foi muito importante. Eu diria, o DIEESE, pra mim, foi importante, não pelo tempo que eu fiquei na direção do DIEESE. Eu acho que o DIEESE foi importante pelas oportunidades que eu tive, das reuniões que eu fiz com os técnicos do DIEESE, os cursos que eu fiz do DIEESE... Foi o trabalho do DIEESE, isso foi importante na formação da gente.  Acho que isso, mais do que minha experiência aqui como presidente, foi a vivência no dia-a-dia e a assessoria que a gente sempre recebia do DIEESE. Que não era só receber, era também reuniões que você fazia e que você podia estar debatendo, discutindo. Portanto, um aprendizado constante.

 

P/1 – E sonhos? Que sonhos que você teria, assim?

 

R/1 – Ah, de poder ver o país com uma sociedade bastante diferente dessa que a gente tem.  Com todo mundo tendo acesso a emprego, a qualidade de vida, esse é o.... É você poder olhar pra frente e ter certeza de que os filhos vão poder viver numa sociedade melhor, vão poder ter a certeza de ter dignidade.  Quer dizer, isso tudo é um, é o sonho de poder... E acima de tudo acreditar que isso é possível.  Então, esse é o principal sonho.

 

P/2 – Eu queria saber, assim, se você, nessa sua participação no DIEESE, se você criou relações pessoais, assim? Como que é, você tem amigos? Se você teve tempo de ter uma convivência pra esse tipo de relação mais pessoal?

 

R/1 – Eu sempre passava aqui no DIEESE muito correndo, embora eu tenha sido, assim, presidente e diretor, eu não fiquei aqui o dia a dia. Mas, tenho muitos amigos, que a gente pôde conviver, pôde se relacionar. Então, são pessoas que continuaram aí, no DIEESE.  O próprio Sérgio [Sérgio Mendonça], que foi o diretor técnico durante um grande período. O Wilson Amorim, que hoje não está mais no DIEESE, mas foi técnico da subseção lá da federação.  E foi uma pessoa muito presente lá, nesse período todo que eu estava na federação.  É ruim citar nomes porque você vai esquecer um monte.  Mas, o Bartô [Bartolomeu Romcy Costa], que é funcionário ainda do DIEESE aqui.  Sempre preocupado: "Olha..." Com a contabilidade está: "precisamos isso, precisamos daquilo." Vou citar esses três, mas são muitos companheiros que se dedicaram ao DIEESE, se dedicavam, faziam um trabalho mesmo de dedicação.  Então são pessoas que toda a vez que a gente se encontra é uma satisfação muito grande poder... Agora, nos 50 anos, foi muito bom rever muita gente, outros dirigentes que conviveram com a gente. Foi importante.

 

P/1 – O que quê você achou de participar desse projeto Memória DIEESE 50 anos?

 

R/1 – Isso é uma oportunidade de a gente poder falar um pouco das impressões da gente.  Acho que isso é importante e acho que esses projetos também... Bom, faz jus ao DIEESE.  Imagina se o DIEESE fizesse 50 anos e não fosse registrar a sua memória. O DIEESE que é a memória viva aí, de anos e anos da história do movimento sindical. A gente sofre muito com isso, a gente vê às vezes no sindicato, que passam, as coisas acontecem, a gente tinha outras prioridades, não conseguiu lá guardar, arquivar as coisas do jornal.  Quantos sindicatos que eu já vi que se perde a memória. Então, acho fundamental que o DIEESE está fazendo isso. E estou muito feliz por poder estar aqui, participando desse projeto. 

 

P/1 – Obrigada.

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