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História

Preocupado em ser justo e humilde

História de: Rui de Moura Gonçalves
Autor: Ana Paula
Publicado em: 18/06/2021

Sinopse

O tocantinense Rui de Moura Gonçalves conta de sua infância na zona rural, da importância e transformação que a escola deu a sua vida, crença que o acompanha por toda a trajetória de décadas como professor e funcionário da escola da Fundação Bradesco na região da Fazenda Canuanã. Ele divide diversos episódios com alunos, como a escola mudou ao longo dos anos e analisa o impacto da educação no estado em que vive.

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História completa

Projeto Fundação Bradesco Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de de Rui Moura Gonçalves Entrevistado por Marlom Chaves e Damaris do Carmo Formoso do Araguaia, 10 de janeiro de 2006 Código: FB_HV_023 Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha Revisado por Marina Tunes P/1 – Bom dia, Sr. Rui. R – Bom dia. P/1 – Primeiro, a gente queria que o senhor se identificasse com o seu nome completo, local e data de nascimento. R – Rui Moura Gonçalves, nascido em 14 de dezembro de 1953 na cidade de Itacajá, Tocantins. P/1 – Os seus pais, quem são? R – O meu pai é Valdemar Gonçalves Lima e a minha mãe Antônia Moura Lima. P/1 – Seu pai, o quê que ele era? R – O meu pai era militar. O meu pai é falecido, era militar, e a minha mãe doméstica. P/1 – E Itacajá é na região Tocantins agora, antigamente era Goiás. Como é que era essa região? R – Itacajá fica a 120 quilômetros de Pedro Afonso, na divisa com o Maranhão, no leste do estado, na divisa com o estado do Maranhão. Fica a 120,130 quilômetros de Pedro Afonso. P/1 – E como é que era essa região naquela época que o senhor nasceu, as lembranças que o senhor tem mais antigas? R - Na realidade eu não nasci em Itacajá, eu nasci numa fazenda do município, que era do meu avô. Eu vim conhecer Itacajá já tinha 15 anos, a cidadezinha de Itacajá. Eu nasci numa fazenda, que era o município de Itacajá e posteriormente meus pais mudaram para Pedro Afonso. Na realidade, não era Pedro Afonso, era um bairro chamado Bom Jesus, hoje é cidade de Bom Jesus do Tocantins. Nós mudamos pra lá. E Itacajá eu vim conhecer só depois de 15 anos. Eu não conhecia Itacajá. Eu nasci na zona rural, na fazenda, e depois mudei para Bom Jesus, que era bairro de Pedro Afonso. Isso em 1959. Em 1959 o meu pai foi pra Brasília, na época da construção de Brasília, o pessoal ia muito pra ajudar a construir Brasília. E nós ficamos com o meu avô em 1959, 1960 e 1961. Nós éramos dois irmãos só. E aconteceu uma coisa engraçada, que aí meu pai era muito novo na época, casou jovem demais. E ele ficou três anos em Brasília sem voltar. E aí, quando ele voltou, ele queria retornar a Brasília de novo, meu avô não deixou. Aí foi quando ele entrou na polícia, na época Polícia Militar do Estado de Goiás e nós mudamos para Miracema de Tocantins, próximo à Palmas. E nós ficamos em Miracema até 1965. Aí meu pai sofreu um acidente na época, e esse acidente fez com que ele fosse afastado. Aposentou, né? Aí nós retornamos pra Pedro Afonso. P/1 – Mas o senhor ficou até quantos anos nessa fazenda que o senhor nasceu? R – Quatro anos. P/1 – O senhor tem lembrança dessa época ainda? R - Tenho, e como tenho. Era uma fazenda na beira de um rio chamado Rio Negro, assim, uma fazenda muito bonita. O pátio dela era enorme. Naquele tempo o pessoal tinha o hábito de fazer aqueles pátios bem grandões na frente, bem limpinho, como se fosse um campo de futebol. E o meu avô criava muita ovelha, na época. Então naquela época a diversão nossa era montar em ovelha. O sonho da criançada era montar em ovelha e tomar banho no rio. E era assim, tinha a fazenda que era do meu avô, e perto tinham outras fazendas de irmãos dele, sobrinho. Então terminava sendo quase que um povoado. Então era muita gente pra ser zona rural. Era assim, final de semana era aquela coisa extremamente animada, porque o pessoal juntava tudo. Aquilo era uma festa. E agora a minha lembrança é essa, quer dizer, era montar em cabrito, ovelha. Mais ou menos quatro anos foi quando nós saímos de lá, e foi aonde eu, por incrível que pareça... Nós tínhamos um primo que morava em Tocantinha, e ele foi passar umas férias conosco. Nós nunca tínhamos visto bola, a criançada. Ele levou uma bolinha daquelas, não sei se vocês conhecem, uma bolinha vermelha dura, de borracha. Não sei se você lembra, dura. O pessoal gostava muito de jogar queimada com essa pequenininha. Levou uma bolinha daquela pra lá. Nós ficamos extremamente entusiasmados com a bola, futebol, e aí nós começamos a jogar bola. Ele ficou dezembro e janeiro lá. Nós fizemos um campinho. E aí, quando ele foi embora, a bola furou. E aí como é que joga, né? E aí meu avô falou assim: “Faz com a bexiga de boi, quando matar o boi faz a bola.” E aí nós assoprava, a bicha ficava, não pegava o formato, não ficava redonda. E aí pegou, um tio nosso falou: “Eu sei como é que, eu faço. Aí tem um pau chamado mangaba.” Não sei se você conhece mangaba, tem o látex, tipo látex de seringueira, você corta ela e ela pinga aquele leite. Aí você faz uma, aí você começa a passar isso aí pra colocar o formato na bola, você põe ela do jeito que você quiser. Aí nós aprendemos a fazer bola. E foi, por incrível que pareça, quando eu comecei a jogar bola, futebol. Aí pronto, a nossa diversão era jogar bola. Ninguém queria saber nem de pescar. E era o dia todo, era, enfim. E foi aos quatro anos que nós mudamos pra cidade de Pedro Afonso, Bom Jesus. Eu tinha quatro anos, a minha irmã tinha cinco, nós éramos só dois irmãos nessa época, os dois mais velhos. P/1 – E o senhor lembra da casa da fazenda, como era? O senhor poderia descrever pra gente? R - Lembro. O pessoal, naquele tempo, eles tinham o hábito de ter duas casas, uma casa grande na frente. Aí tinha quarto, sala. Agora, uma coisa que não me sai da memória é que o meu avô tinha um rádio, aquele rádio Semp, grandão. Então ele ficava em cima de uma mesa, lá no canto da parede. E a sala era enorme, mais ou menos assim uns 15m x 10m, só a sala. No fundo tinha o quarto do meu avô, aí tinha mais dois quartos. Aí tinha outra casa que é onde ficava, ele chama de despensa, fogão, a sala de jantar vamos dizer assim, com toda, paiol de arroz, onde guardava tudo que é mantimento, onde fazia comida, onde a gente comia. A sala era só pra receber visita. Fazenda é toda cheia de varal. Aquilo armava lá 10, 15, 20 redes. Naquele tempo ninguém dormia em cama, era tudo na rede mesmo. Então armavam 15, 20 redes naquele negócio lá. Agora, o negócio era de noite assistir o rádio, a Rádio Nacional, essas rádios mais antigas, Tupi, era no rádio. E esse rádio ainda existe até hoje, está com meus tios lá em Pedro Afonso. A gente guardou. P/1 – E o senhor lembra dos programas, como é que era? R – É, pra criança é muito difícil, a gente não se ligava muito. A única coisa que a gente se ligava é que o meu avô brigava demais, que ele estava assistindo e a gente ficava, a gente não se ligava muito, assim, no que se passava lá, notícia, a gente não se ligava nessas coisas. A única coisa que eu me lembro é que ele brigava demais porque ele queria assistir alguma coisa, a meninada ficava fazendo bagunça, ficava brigando, brincando, enfim. Mas lembrar, assim, dos programas não tem jeito. P/1 – E aí, a mudança como foi? R – Foi quando o meu avô veio pra Pedro Afonso. Ele vendeu essa fazenda e comprou uma próxima a Pedro Afonso, a 9 quilômetros. Aí construiu uma casa na cidade, e ficou dividido. Aí foi quando o meu pai foi a Brasília. Então a minha mãe, comigo e a minha irmã, ficamos morando com a minha avó na cidade e o meu avô ficava na fazenda quando houve a separação, porque até então na fazenda nós não morávamos na casa do meu avô. Tinha a casa do meu avô mas a casa do meu pai ficava do lado. A casa do meu pai do lado, um tio meu do outro lado. Então os filhos moravam ali em torno. E quando da vinda pra Pedro Afonso houve essa separação. Meu pai viajou, o meu avô ficou na fazenda e nós ficamos na cidade com a minha mãe, só que mantido pelo meu avô. O meu pai se mandou. O meu avô é que mantinha. Aí nós começamos a estudar, eu comecei a estudar com seis anos, na época. Comecei a estudar com 6 anos, depois eu parei mais ou menos um ano. Principalmente, naquele tempo, dizia-se que era muito novo pra estudar, aquela "coisera" toda. Dizia ter que estudar com oito, nove, dez anos, tem que ir pra escola. Tem aquela coisa que criança nova demais não podia estudar, e aí nos tiraram. Questão de... Até uma professora nossa lá, a Dona Maria do Carmo: “Não, está muito novo, tem que deixar crescer mais, não sei o quê.” Aí nós paramos de estudar e voltamos a estudar quando nós nos mudamos para Miracema, já com oito anos mais ou menos, a gente começou a estudar em Miracema. Mas em Miracema nós ficamos só cinco anos. Aí retornamos a Pedro Afonso, e fiquei lá até vir pra cá. P/1 – E o senhor tem lembrança dessa escola lá de Miracema? R – Demais, demais. Nós morávamos numa praça, e bem na praça tinha um campo de futebol. Na frente da praça era um campo de avião, a pista de avião ficava na frente. E o colégio ficava do lado direito da nossa casa, tudo na praça. Era assim, um colégio municipal. E assim, como era perto, e a gente... Em casa eu costumava demais, de vez em quando, quando dava no intervalo do recreio, tinha uma rua atrás e os meninos gostavam muito de jogar peteca, bola de gude. De vez em quando eu fugia pra ir jogar bola de gude. Aí, como ficava perto, a professora pegava, avisava em casa. Quando via, o meu pai estava atrás. Quando vinha, viu como é que é, né? É um chicote na mão, um cipó, quer dizer, quando chegava, se mandava. Então isso marca muito pela professora que era, o nome da professora era Dona Ivete. Ela era muito, toda professora antigamente era muito austera, muito Caxias. Tinha que ser o preto ou branco, ou certo ou errado, não tinha esse negócio de mais ou menos. Eu até gosto de falar pros meus meninos, um exemplo assim, a diferença em questão de educação. Eu ainda fiquei de castigo em cima de carocinho de milho. Estava até falando com ela aqui há pouco. Aprontava as coisas, colocava os carocinhos de milho no chão, você de joelho. Quer dizer, a maneira da educação, há 30 anos atrás, não era muito fácil. P/1 – O senhor chegou a enfrentar a palmatória? R – Demais, demais. P/1 – Conta uma aventura da palmatória. R – Na verdade, a palmatória era assim. Na 3ª série eles chamavam de sabatina, ou seja, você ia estudar tabuada, o professor te colocava no pé do quadro, todos os alunos, e perguntava pra você. Você errou, perguntava pra ele. Ele acertou, aí ele ia, quem dava a palmatória em você era ele. E tinha um detalhe, se você desse... Às vezes você ficava depois de uma menina e você ficava com pena. Quando era na mão do cara, o nego puxava o que dava, porque sabia, quando era a vez dele o cara não alisava, batia pra valer. Quando você ficava na frente da menina, que a menina errava, normalmente as mulheres tinham mais dificuldade pra, na época, era tabuada mesmo. Então o cara tentava dar uma bolinha ali, meio faz de conta, aí não adiantava, porque aí quem ia dar a mão era ele. Aí a professora chegava e puxava. Era toda sexta-feira, tinha isso, pé do quadro, errou, o bolo cantou. E era assim também. O colégio tinha as tabuadas quando tinha as palmatórias. Qualquer ato de indisciplina que você cometia, o professor não batia, já da 3ª série pra cá, mas chamava o pai. Aí tinha lá a sala da diretora, o pai chegava, entrava, te chamava, entrava pra dentro, fechava a porta, os colegas tudo fora. E ali o pai, palmatória mesmo da brava. Então funcionava assim no colégio que eu estudei, não sei de lá pra cá. Isso na 3ª e 4º séries, era mais ou menos nesse estilo. E o colégio existe até hoje, Colégio Alfredo Nasser, era o nome do colégio onde eu terminei o primário. Alfredo Nasser era uma grande personalidade do estado de Goiás na época. Era mais ou menos por aí, parte assim. E na época também, quando a gente terminava a quarta série, você tinha o Exame de Admissão. Você não entrava na quinta série do ginásio direto, você tinha que fazer. Igual vestibular hoje, você fazia uma prova de português, matemática, redação e conhecimentos gerais quando você saía da quarta série do primário para entrar no ginásio. E aí foi onde eu dancei, dancei feio. Eu fiquei. E como era só uma vez por ano, eu fiquei um ano sem estudar. Aí meu pai falou: “Bom, já que você não está estudando, o negócio é ir pra roça.” Foi um ano bem complicado porque o meu pai tinha acabado de comprar uma fazenda. Não tinha nada, a casa era de palha, as paredes eram de palha. Não tinha nada. E o meu pai estava trabalhando na fazenda, fazendo umas cercas. Aí ficou lá só eu, minha mãe e um irmão nosso, já bem mais novo, na época com dois anos. Então eu segui assim. E a gente não tinha ninguém, e os vizinhos mais próximos ficavam a seis quilômetros. Foi um ano assim, sofrimento, mas de aprendizagem. Foi quando eu resolvi realmente, falei: “Pelo amor de Deus, eu tenho que fazer alguma coisa porque isso aqui não..” E na época eu tinha 13 anos, mais ou menos. Foi o ano todo na roça mesmo, pra valer. E lá era uma região que tinha muito coco, babaçu. A gente fazia, a gente juntava coco e quebrava durante o dia, eu e minha mãe, quebrávamos. Aí, à noite, não sei se você sabe o processo, ela ia torrar o coco, aí eu ia pisar até transformar em farelinho. Quando ele se transformava em farelo, você pegava aquilo, punha numa panela, cozinhava, a gordura subia. Depois você tirava aquilo, punha em outra panela, que eles chamavam de apurar o óleo, aí ficava óleo de coco, por sinal, super gostoso até. Quando era sábado, a gente tinha uma bicicleta, e ficava a 18 quilômetros de Pedro Afonso. Quando era sábado eu pegava o óleo que tinha, cinco litros, dez litros, tudo que tinha feito, e se mandava pra Pedro Afonso. Eu saía cedinho. Eu tinha que ir lá vender aquilo, e comprava açúcar, café, as coisas que a gente precisava. Mas eu tinha que fazer de uma maneira tal que eu tinha que chegar lá antes da noite cair, que a minha mãe não ficasse só. Então foi um ano assim, na verdade foi um ano que marcou pra caramba a minha vida como pessoa, como ser humano, em todos os sentidos, porque foi bastante sofrido. E eu falei: “Eu não vou mais ficar reprovado na admissão.” Aí quando foi em novembro eu voltei. Eu paguei um professor particular pra me dar aula. E eu só ficava em português, era só aula de português. Paguei um professor pra me dar aula particular. Ele me deu aula por um mês. Fui, passei, e retomei a vida normal na cidade de Pedro Afonso. P/1 – A rotina, como era essa rotina da roça? Acordava que horas, trabalhava até que horas? Fala pra gente só pra gente ter uma noção desse ano do senhor. R - Não, a rotina da roça é a seguinte: existe... vamos dizer, que é dividido em dois períodos básicos. Por exemplo, o período que você, período de outubro, novembro e dezembro, é o período que você está plantando. É capinar, rastelar, plantar, cuidar da lavoura, ou seja, limpar, tomar conta. Você passa aquele período todo envolvido com a roça em si, com o plantio em si, que seja milho, mandioca. Na época plantava basicamente milho, mandioca e arroz. Então esses três meses você basicamente ficava envolvido nisso aí. A partir de fevereiro você ficava envolvido com a colheita, colher, secar. Imagine secar arroz naquele tempo que você não tinha quadra de cimento, você não tinha secador. Então você secava... Nem lona, porque lona, esses encerados são bem... já pra cá que começou a surgir. Então você secava em banda de couro de boi. Eram três, quatro bandas de couro de boi, colocava aquele tantinho de arroz, todo dia mexendo, mexendo, até chegar ao ponto ideal para ser armazenado. Essa atividade era num determinado período. No outro período, você já tinha atividades diversas. No nosso caso lá, no período da seca era quebrar coco pra tirar óleo, e a diversão era pescar e juntar o que fosse possível, e jogar bola. Jogar bola entrou no sangue, na época. E era pescar e jogar bola, pescar e jogar bola. E na época da seca era quebrar coco o dia todo. O dia todo sentava no chão com um machado. De vez em quando machucava o dedo, aquela "coisera" toda. E na época, por exemplo, de junho e julho, era um período que você, que eles chamam de desmatar. Você tinha que desmatar a roça, derrubar e depois tocar fogo pra, quando chegar no mês de outubro, você estar com ela pronta, fazer a cerca. Então você... Naquele tempo, o arame era privilégio para poucas pessoas. Você fazia a cerca com a própria madeira que você tirava da roça, você cortava e fazia a cerca de madeira. O arame era privilégio pra poucas pessoas que compravam até então, porque a maioria das pessoas criava porco solto e a cerca, tinha que ter uma proteção pro porco pra não entrar, porque senão ele entrava e acabava com tudo. Eles chamam cerca de cana, você bota uma vara deitada, depois fazia uma faixinha lá e fechava. Aquela cerca durava três anos no máximo, estava começando a cair. Por isso que as pessoas não faziam roça sempre no mesmo local, fazia no máximo dois anos em cada local. No terceiro ano já derrubava tudo de novo, entrava na mata virgem e já ia pra frente. Mas a rotina da fazenda era essa. E no nosso caso lá nós não tínhamos gado. Quando tem gado é diferente, já muda um pouco. É você olhar o gado, é por no curral, tirar leite. Você já diversifica a rotina. Mas no caso, na época lá, no nosso caso como não tinha gado ainda, então a rotina era basicamente só agricultura mesmo. Era basicamente agricultura, não tinha outra atividade. E é interessante. A gente não pagava ninguém, mas também a gente não dava conta de cuidar da roça sozinho. Então havia um sistema, não sei se o pessoal usa hoje, a gente trocava de serviço, permutava. Vamos supor, eu ficava, vamos supor, uma semana trabalhando na sua roça. Aí, quando era na outra semana você vinha na minha. Fazia tipo um mutirão. Vamos supor, esses três dias é na roça de fulano. Aí juntava três, quatro, cinco pessoas, os vizinhos, É pra fulano. Aí capinava, arrancava, plantava e deixava plantadinho. O outro, terminava o de fulano e vinha pro outro e fazia a mesma coisa, limpar, plantar. E fazia aquilo pra você não ficar sozinho, porque sozinho não é fácil não. Aquele tantão de chão pra você capinar sozinho é complicado. Então as pessoas trocavam o dia de serviço sem correr valor, dinheiro nenhum. Era pra trocar mesmo. Eu trabalhava um dia, depois eu recebia aquele dia de volta. Na época da colheita era a mesma coisa. As pessoas faziam muito isso naquele tempo. Eu não sei se hoje, eu penso que hoje é muito diferente, mecanizado, as pessoas não usam mais, não tem mais aquele negócio de enxada. O cara paga um trator, vai lá, prepara a terra, planta e pronto, não tem mais negócio de enxada, é muito raro. P/1 – E aqueles mutirão pra construir casa, o senhor participou de algum, de juntar e chegar? R – Não. P/1 – Esses não aconteciam na região? R – Não. P/1 – Tá. E aí a sua mudança passou, aí voltou pra escola? R - Voltei pra escola para estudar, fiz o ginásio. Quando eu estava fazendo, na época, hoje é a oitava série, que era quarta série, foi quando eu servi o Exército. Naquele tempo Pedro Afonso tinha Tiro de Guerra, que faz parte da Décima Região Militar. Aí eu fazia a oitava série e servia o Exército. Agora, 1972 foi um ano extremamente tenso. Foi basicamente em cima daquele auge da Guerrilha do Araguaia, 1972, 1973, 1974, estava no auge. E quando a gente estava servindo, por quatro vezes nós ficamos lá aquartelados, armados, esperando o avião pra ir pra o Pará, para a construção do Araguaia, aquela região onde o pessoal da guerrilha ficava. Então foi assim, a gente não sabia se estudava, a gente não sabia se, enfim, foi confuso demais, e uma tensão... Na época é como se fosse pra nós, aquele pessoal era tudo gente extremamente perigosa, era como um bicho, podia chegar, matar. A visão era essa até porque nós éramos soldados e o Exército tinha esse papel, quer dizer, tudo que eles falavam era aquilo que interessava. E a gente tinha a maior preocupação. As mães então... Garotão, jovem, às vezes ficava com vontade de ir. Agora, os pais, as mães, aquele choro, e a gente ficava. Por duas vezes chegamos a se arrumar, a fazer treinamento especial, aquela "coisera" toda, pra ir pro Araguaia. Assim, foi um ano bem difícil, mas muito difícil, exatamente em função dessa... E pra nós que servimos o Exército na época, como eu disse, aquele pessoal não merecia viver, não tinha sentido, tinha que ir lá e matar mesmo, jogar, enfim, aquela coisa assim de soldado mesmo. Na realidade, a gente recebia um treinamento pra aquilo também. Dentro do quartel não se falava outra coisa. Eu não sei se o pessoal, matava famílias, que eram inimigos do país, aquela "coisera" toda. Mas aí isso foi um ano só, terminou, nós demos baixa, todo mundo, alguns, outros não deram. Eu nunca gostei muito, apesar de minha família ser basicamente de militar. Eu nunca gostei muito assim de ser militar. Aí eu dei baixa, saí. Foi quando surgiu o Colégio Agrícola de Pedro Afonso. E comecei a estudar o Segundo Grau. P/1 – Aí conta essa fase da Escola Agrícola. R – A fase da Escola Agrícola foi uma fase interessante porque não tinha em Pedro Afonso, na época, segundo grau. Só tinha o que eles chamavam, era só formação de professor. Não era Magistério não, que davam o nome na época do curso. Era Normal. Então só tinha o Normal. E uma coisa curiosa é que naquele tempo, o machismo era tão grande que homem não fazia Normal, quem fazia Normal era mulher, assim como a mulher não fazia um curso lá que era basicamente pra homem. Existia essa coisa assim... E como só tinha o Normal, eu não tinha condição nenhuma de sair pra estudar fora. Enfim, não tinha jeito. Só tinha duas saídas, ou ficava sem estudar ou então ia pra polícia. Aliás, havia uma pressão muito grande do meu pai, dos meus tios, que eram todos militares, pra ir pra polícia. E pra polícia eu não queria ir. Foi quando surgiu o Colégio Agrícola, inaugurado em 1973. Eu terminei o ginásio em 1972 e o colégio foi inaugurado em 1973 e nós fomos a primeira turma do colégio. Muita dificuldade porque, como era um colégio estadual e era novo, faltava professor. Mas a gente conseguiu fazer um bom colégio, de uma certa maneira. E quando eu me formei, o colégio adotou um sistema para escolher os melhores alunos. Eles faziam uma votação entre professor, diretor, toda a equipe, o corpo docente do colégio, pra escolher os melhores alunos, até então porque eles tinham muita dificuldade, ainda estava tendo dificuldade pra contratar professores pra área técnica. Não queria ir a Pedro Afonso para dar aulas, veterinário nem pensar. Naquele tempo só Goiânia, o veterinário mais perto era em Goiânia, então o cara não vinha de Goiânia nem a pau para ser professor em Pedro Afonso, mas nem de jeito. Então eles fizeram uma escolha, aí ficou, nós fomos três escolhidos, eu e mais dois colegas meus. Só que os dois colegas meus casaram na época já, só tinha eu solteiro. E nós ficamos lá em Pedro Afonso quando terminou o colégio, aguardando a liberação. Era um contrato pelo Estado, pela Secretaria da Educação em contato na época, que hoje é o Ibama, que seria o IBDF [Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal], não sei se você se lembra, era Instituto Brasileiro não sei do quê. P/1 – Do Desenvolvimento Florestal. R – Era o IBDF. Então eles estavam arrumando dois contratos pra gente ficar dando aula em Pedro Afonso. O contrato pela educação já tinha saído, já tinha sido homologado pelo secretário, direitinho e tal. Aí nós estávamos aguardando o contrato do IBDF pra ter um salário um pouquinho melhor. E quando foi fevereiro, essa história é muito engraçada. Em fevereiro foi quando a atual diretora da ______ foi em Pedro Afonso _____. Só tinha dois colégios agrícolas em Goiás. Tinha um, se não me engano, em Rio Verde. P/1 – Lá no sul. R – Lá no sul, e outra em Pedro Afonso. Como estava mais próximo, ela resolveu ir em Pedro Afonso. Só que ela foi numa época errada, em fevereiro. Ela devia ter ido em novembro, dezembro, quer dizer, antes de terminar o ano letivo, mas ela foi em fevereiro. Então, quando chegou lá, só havia nós três, os outros todos tinham... Nós éramos um grupo pequeno, nós éramos, formaram 22 alunos só. Os outros todos já tinham se mandado. E nós nos formamos em dezembro. Aí em janeiro aquela coisa começou a demorar. Eu fiquei com aquele negócio, os meus colegas, todo mundo já trabalhando. Aí a gente lá, e aquele negócio depende de política, aquela "coisera" toda. Eu falei, e sem dinheiro também: “Eu vou arrumar alguma coisa”. O meu pai, aquela região era uma região que muita gente tinha carro de boi. Eu falei: “Eu vou trabalhar”. E tinha uma fazendinha perto lá do meu tio. Então o que eu fiz? Eu fui tirar lenha. Naquele tempo, já em 1975, na região nossa eram poucas pessoas que tinham fogão a gás. A maioria era fogão a lenha. Fogão a gás era assim uma coisa, uma raridade, em 1975 já. E eu fui tirar lenha. E o diretor lá, o Dr. José Edgar, que era o diretor do colégio... Eu falei: “Olha, qualquer coisa eu estou no mato”. Que às vezes, quando chegava um político, ele chamava a gente: “Vamos lá”. Aquele negócio de ficar rodeando política, aquela "coisera" toda. Eu falei: “Estou no mato cortando lenha”. Saía cedinho, só voltava à noite. Aí eu almoçava lá na casa do meu tio, ficava pertinho de onde eu estava tirando, e ficava o dia todinho. Quando a Sara chegou lá eu estava tirando lenha no mato, socado lá. Aí foi uma luta pra me achar, e ela tinha que voltar no mesmo dia. Me localizaram, eu vim. Ela já tinha ido lá em casa, tinha conversado com os meus pais. E aí eu fui lá pra casa do que era o nosso diretor, o Dr. José Edgar. Aí conheci a diretora, e perguntou se eu queria vir. Mas como eu não quero? Doido pra trabalhar e estava meio preocupado com essa questão, se o contrato do estado ia ou não sair. “Não, eu vou sim.” Eu falei: “Bom, Dona Sara”...que era o Dr. José, “agora vamos discutir o salário.” Aí eu sentei, um pouco com vergonha, meio tímido. Aí ela falou: “Olha, eu tenho autorização da minha empresa pra pagar.” Era complicado aquele negócio de moeda, mas eram mil. Eu não sei se eram mil cruzeiros, se era... sei lá, mas eram mil, não lembro bem o nome da moeda na época. Ele falou: “Não, mil o rapaz não vai não.” Meu Deus do céu, eu nunca tinha visto mil cruzeiros na minha vida. Mil cruzeiros? Eu quase pulava da cadeira. Quem falou que eu não viria, né? _____, mas de jeito nenhum. Eu fiquei: “Não é possível”. O _____ ficou... A Sara tinha o hábito de morder a unha quando ela ficava meia... Aí ela começou a morder a unha e falou: “Não, eu pago 1300.” Era um milhão e trezentos, sei lá, uma coisa assim, só sei que eram mil. Aí ele falou: “Não, por 1300 ele não vai não.” Aí eu não aguentei mais, rapaz, eu levantei, fui lá pra fora, falei: “Eu não aguento isso aí, eu não aguento.” Aí fiquei lá fora. Um paga não paga, um vai não vai. Eu falei: “Sabe de uma coisa? Eu vou acabar com essa confusão agora.” Aí eu sentei, falei: “Eu vou falar que eu vou por 1300 e acaba com esse trem.” E eu lembro dela falando assim: “Bom, então nesse caso eu vou abrir mão do rapaz, eu vou procurar outra pessoa.” Esse é que era o medo, aquela preocupação de querer trabalhar. O medo era esse. Pra mim quanto maior fosse o valor, melhor, lógico. Aí eu cheguei lá, sentei. Rapaz, impressionante. Aí quando eu digo: “Agora é a minha vez.” Então eu parei, quando ela falou: “Não, doutor, então vamos fazer o seguinte. Eu pago 1500.” Eu ia falar que eu ia por 1300. Foi engraçado assim. É uma coisa assim que marca tanto porque, quando eu cheguei aqui, eu falei que eu ia por 1300 , negativo. Que aí ela, quando eu falei, conversando informalmente eu falei: “Não, por mim eu estava quase falando que eu vinha por 1300.” Ela queria retrair. Eu falei: “Não, de jeito nenhum. Foi um acordo, nós combinamos lá 1500 e pronto”. E vim pra cá. Cheguei aqui no dia 25 de fevereiro, debaixo de uma chuva, isso aqui só tinha água e uma meia dúzia de meninas. Era período de férias, devia ter uns 30 alunos aqui, quando eu cheguei, no dia 25 de fevereiro. E só mato. Isso aqui não existia não, isso aqui era mato, onde nós estamos aqui. Vou mostrar pra vocês aonde é que era a escola. Era só aquele cantinho ali na beira do rio, isso aqui era serradão, mato, mato, mato, isso tudo era mato. Mas isso não me assustava porque também onde eu fui criado foi no mato, a minha vida toda, a minha adolescência toda, quer dizer, fazenda, o que eu gostava, o que eu sabia tinha a ver com fazenda. Então não me assustou essa parte não. O que me assustou mesmo foi a quantidade de água. Apesar de eu morar na beira do Rio Tocantins, mas só tinha água no leito do rio, fora do rio não tinha água. Então, quando eu cheguei aqui, que estava o rio aqui, onde se dizia que era só água, você ia lá era só água. Todo lado que você girava ali era só água. Na realidade nós ficávamos praticamente fechados por água. Isso me assustou. Eu falei: “Santo Deus, essa água vai subir aqui numa velocidade incrível.” E assustava todo mundo, porque nós ficávamos só vendo esse pedação aqui, que não tinha água. Você olhava aqui embaixo, aqui aonde tinha essas casas, lá embaixo era só água. Isso era só água. O rio vinha de lá pra cá, o rio vinha de lá pra cá e começava a ter um lago que eles chamam Lago da Mata Azul, vindo de lá pra cá, então começava a fechar tudo. E eu cheguei exatamente na pior época, que tinha o maior volume de água. Então isso me assustou assim demais. E era um dos grandes motivos que ninguém queria vir pra cá. A pessoa, às vezes tinha um colega que vinha pra cá, passava um mês e ia embora. Ah, não fica aqui não. E eu aguentei, fiquei sem, não tinha ninguém. Aí colocaram alojamento. Só que esqueceu de falar pra mim que, naquele tempo, a energia era mecânica, e às 9 horas o motor apagava. Eu fui pro alojamento, deitei, ali pensando, enfim. P/1 – Isso sozinho no alojamento? R – Sozinho, sozinho. De repente a energia “paf”, tudo escuro. Aí tinha muriçoca. Eu não dormia, não dormia. De repente muriçoca, muriçoca a noite todinha. Eu não consegui dormir de jeito nenhum. Agora voltando lá atrás, no dia que eu cheguei, aconteceu uma coisa interessante. Quando nós descemos do avião o rapaz nos pegou lá numa Kombi, era o chamado Messias, era funcionário da escola. E quando nós descemos ali embaixo, era a casa onde morava a diretora. Aí, na hora que ela desceu da Kombi, a gente tinha mais ou menos assim umas 15 a 20 crianças, aí ela falou assim: “Deus te abençoe” pra todo mundo, e entrou. E eu desci. Aí o menino começou: “Bença tio”. “Deus te abençoe”. “Bença tio”. “Deus te abençoe”. Eu nunca tinha abençoado ninguém. Eu não tinha sobrinho, não tinha. Aí então fui ficar só “Abençoe”. Era ruim demais, demais, demais. Tudo bem. Eu falei: “Eh, esse trem aqui está complicado. Se tiver que dar bênção a esses meninos todo dia eu tô ferrado”. Aí quando foi de manhã ela falou: “Vamos tomar café aqui pertinho”. “Ta bom”. Acordei numa fome, eu falei: “Eu vou tomar café”. Quando eu saí lá veio uns cinco meninos: “Bença”. “Deus te abençoe”. “Bença”. “Deus te abençoe”. “Bença”. “Deus te abençoe”. Lá na frente tinha mais outro grupo: “Bença, bença”. Eu falei: “Danou-se”. Eu fui, tomei café. Eu falei: “Eu tenho que dar um jeito nesse negócio”. Era todo dia, todo dia assim, e os meninos só aumentando. Os meninos foram chegando. Eles estavam chegando da casa dos pais para iniciar o ano letivo. Eu falei: “Ah, eu tenho que dar um jeito nesse trem”. E um dia, passando eu no corredor do alojamento que a gente chamava de maloquinha na época, aquela moradinha, e aquele menino jogando bolinha de meia assim, uma habilidade. Eles faziam aquelas bolas de meia e ficavam. Eles pegavam aposta, quem dava mais toque. Eu fiquei olhando, olhando. E eu já tinha me informado antes sobre se tinha time de futebol. “Não, não tem”. Eu falei: “Meu Deus”. “São poucos os que jogam bola”. “Tem o campo”. “Não, tem o campo lá, mas já está meio largadão”. Na realidade uma das grandes paixões minhas é jogar bola. Enfim, eu falei: “Eu vou embora, mas vou embora mesmo”. Só pensei, não falei nada. Aí quando eu vi aquele menino jogar, aquela habilidade assim, aí eu... E também não tinha muito o que fazer, esse era o problema. Não fazia nada. Fiquei um mês praticamente sem fazer nada, nada, nada, aquela ociosidade danada. Eu pegava, ficava ali vendo os meninos jogar bola, bolinha de meia. E aí, quando eu chegava lá no alojamentozinho pra jogar bola, que vinha tomar a bênção, aí eu pegava na mão: “Deus te abençoe”. Aí dava uma bisca. P/1 – A bisca é um tapinha, né? R – É, um tapa, uma cachuleta. Eu falei: “Oh, dar bênção é pro tio, pro pai, pra mãe e tal”. E às vezes eu dava uma bisca um pouco mais. Então aquele que eu dava a bisca não vinha mais me dar benção. E aí começou, ele falou: “Olha, não dá benção pro Rui não porque toda vez que a gente dá benção ele dá uma bisca na gente”. Então aquele condicionamento, em cinco meses ninguém mais me deu uma benção, ninguém. Eu falei: “Graças a Deus”. E quando foi no mês de abril surgiu uma... Naquele tempo aqui ou você saia de avião ou então rodava 390 quilômetros pra chegar em Gurupi, que dá 130 quilômetros né? Eu sei que 390 quilômetros. Saí aqui, Araguaçu. P/1 – Ia por cima? R - Por cima. Porongatu, pegava a BR 153. Só na BR você rodava 200 quilômetros pra ir pra Gurupi, a não ser de avião. E aí surgiu uma necessidade de procurarem professor em Gurupi, eu falei: “Olha, eu acho que eu consigo em Pedro Afonso”. Mas na realidade não ia conseguir professor coisa nenhuma, eu ia embora na verdade, eu ia embora. E o cara que era Vice-Diretor, que era o Renato, um cara bem jovem também, tinha uns 25 anos mais ou menos. Eu não tinha 22 anos, um meninão. Nunca tinha saído da minha casa pra nada, nada, nada, nada. Nunca sai da casa do pai nem da mãe. E quando eu soube que tinha uma proposta de emprego lá eu falei: “Eu não fico aqui de jeito nenhum”. E aí eu falei: “Olha, eu acho que eu consigo alguém em Pedro Afonso. Vocês me dão uma oportunidade pra ir lá”. Eu arrumei a minha roupa toda na malinha, e coloquei um cigarro dentro da mala. Nós íamos de carro, uma Kombi. Saí daqui mais ou menos três horas da manhã. Ele passou lá no quarto, eu coloquei a mala no bagageiro da Kombi. E tem uma casa ali, nesse tempo morava um senhor chamado Valderez, que a esposa dele ia a Gurupi, acho que ao médico fazer um tratamento. Ela ia com a gente. E naquele tempo o pessoal daqui tinha um negócio de mandar peixe, que a facilidade de pegar peixe é enorme. Aquelas caixas de peixe. Ele mandando peixe para os parentes dele lá. Aí, pra arrumar esses peixes dentro da Kombi… O rapaz falou: “Vem tomar um café aqui, eu passei café”. Eu entrei. Aí o quê que o Renato fez, o diretor? Ele sentiu que eu não voltava mais. Ele pegou minha mala e deixou lá na casa do Sr. Valderez. Aí fui embora. Quando eu cheguei em Araguaçu... E outra coisa, assim, cara meio da roça, você tinha o maior medo de andar com os documentos, com certidão, tudo, dentro do bolso. E ele desconfiou porque eu pedi minha carteira: “A minha carteira, deixei a minha carteira em casa, não sei o que”. Ele desconfiou. Depois ele falou pra mim: “Eu desconfiei. No dia que você me pediu sua carteira eu senti que você ia embora”. Eles não tinham assinado ainda minha carteira naquele período de experiência, aquela "coisera" toda. “Então, no dia que você me pediu a carteira eu senti que você ia embora”. Aí ele pegou e deixou minha mala. E, como eu disse, o hábito de colocar a carteira, certidão de nascimento, coloquei tudo dentro. Fiquei só com identidade, enfim, no bolso, CPF. Aí não teve jeito, tive que voltar. P/1 – E o senhor conseguiu achar alguém lá? R – Não, consegui. Aí realmente eu fui, trouxe um colega meu pra cá, aí melhorou bastante. Ele tocava violão, cantava razoavelmente bem. Nós começamos a mudar um pouquinho a parte que, eu diria assim, de diversão. Ele gostava muito de jogar bola. Nós começamos a montar time de futebol, arrumamos o campo, arrancamos mato, passamos, colocamos trave, demos assim uma girada. Começamos a treinar os meninos. Os meninos tinham uma habilidade, assim, fantástica pra jogar bola. Nesse próprio mês de abril, eles tinham me pago um salário. Quando eu voltei, passei em Gurupi, comprei uma porrada de bola com o meu dinheiro. Que eles não tinham bola, naquele tempo chamava bola de capotão. Então não tinha, era só bola de manguaba, igual eu falei pra você, que fazia com bexiga de boi. E eu comprei uma porrada de bola, comprei bola, comprei mico, e trouxe. A gente começou assim... Dei aula de Educação Física cinco anos. E futebol. E aquilo foi montando um time de futebol. Nós chegamos a ter aqui nessa região o melhor desses times amadores, talvez dos melhores nessa região aqui. Isso em 1981, 1982. Só garotão dessa Ilha do Bananal que nunca tinha visto bola. Então futebol é uma coisa que está no sangue do brasileiro. E de lá pra cá, meu irmão, passei muitas coisas aqui. P/1 – Então assim, naquele primeiro momento tinha uma dificuldade muito grande de encontrar os professores? R – Demais. P/1 – Por que que o pessoal não vinha? Além das cheias tinha algum motivo, os índios assustavam? Como é que era isso? R – Olha, a fundação praticamente ninguém conhecia. A Escola de Canuanã, na época chamada Escola Dr. Dante Pazzanese, ninguém conhecia. E quando se falava, nem pessoas que moravam aqui próximo, em Gurupi, achavam que a gente morava na aldeia, que a escola é na aldeia. P/1 – Por que é o mesmo nome, né? R – É, porque era uma aldeia. E que aqui era, você morava em casa de palha, tipo aldeia, que não tinha nada. Então esse é um dos maiores problemas, porque a escola ninguém conhecia. Por incrível que pareça, já com mais de três anos, quatro anos de existência, as pessoas de Gurupi quando ouviam Escola de Canuanã: “Mas aonde é isso?” Quando falava assim: “Não, é na beira do Rio Jaguaré”, mas aí a pessoa não podia enganar. Falava: “Não, é na beira do rio, próximo à Ilha do Bananal.” “Ah, na Ilha do Bananal?” Aí as pessoas, mesmo as pessoas que moravam aqui, pensavam que Ilha do Bananal era só água e índio. “Na Ilha do Bananal? Ah, não, então não.” Mas também tinha um motivo muito forte: na área de professor, naquele tempo o aluno terminava o magistério, ele já estava trabalhando. Então por que ele ia sair de lá pra vir pra cá? A facilidade de trabalho era muito grande para quem dava aula. O cara não vinha mesmo, a não ser aquelas pessoas que tinham espírito mesmo de conhecer, de: “Não, vou lá, vou conhecer, vou ter um desafio”, aquela "coisera" toda. Então não vinha. Tanto é que os primeiros professores da Escola de Canuanã vieram de Porto Nacional, os primeiros funcionários de Porto Nacional. P/1 – Na verdade naquela época, aqui de cidade grande só tinha Gurupi, Porto Nacional, e aí era… R – É. Paraíso, bem pequetitinho mas, Araguaina. Esse Miracema já era uma cidade que... Porto Nacional, Miracema, Pedro Afonso, são as cidades mais velhas do estado de Tocantins; Peixe, só que Peixe não cresceu. As cidades da beira do Rio Tocantins são: Peixe, Porto Nacional, Miracema e Tocantinha, e Pedro Afonso. E vinha lá embaixo Tocantinópolis. Araguaina já era bem mais jovem. Tocantinópolis é uma cidade lá no Pico do Papagaio. Então, e o que aconteceu? Porque as primeiras pessoas que vieram de Porto abriram caminho pros outros. Era um amigo: “Não fulano, venha. Aqui é legal”. E assim a pessoa vinha, igual Pedro Afonso. Quando eu vim pra cá, às vezes surgia uma necessidade, sabia que tinha um colega, então ligava, ia a Gurupi e ligava: “Olha, aqui é…”, jogava aberto, “aqui é assim, mas é bom por isso e isso e isso e isso e isso”. Então nós chegamos numa época, em 1982, 1983, que os funcionários daqui eram basicamente de Porto Nacional e de Pedro Afonso, exatamente por esta questão. A gente já estava aqui, já dava informação, a pessoa já vinha. Então era basicamente Pedro Afonso e Porto Nacional. Mas aí também a escola começou a criar... foi quando se formaram as primeiras turmas. Então já começou a abrir um leque bem grande. Mas na década de 1970 era difícil demais, demais, demais, demais. Era quase impossível arrumar gente pra ir pra lá, exatamente por ser um pouco desconhecido e as pessoas se assustavam quando falava Ilha do Bananal, índio, água. Essas eram as coisas, água e índio, porque realmente assustava, porque você ficava basicamente seis meses sem... Você saía, você não ficava seis meses, você saia. Mas era um custo muito alto. Era, por exemplo, pra você fretar um avião pra ir em Gurupi, era um salário de um professor, do mês. Então o custo era muito alto. Então as pessoas só iam em caso de extrema necessidade pra poder ir pra Gurupi. Então as pessoas se assustavam por isso. E como eu disse, também... P/1 – A Rodovia Belém-Brasília ainda não era asfaltada também? R – Já. P/1 – Já? R – Já era já. A Belém-Brasília é de 1972, 1973. P/1 – Junto com a escola praticamente então. R – Já foi asfaltada. Não tinha asfalto era daqui até a Belém-Brasília. Eram 110 quilômetros de chão, hoje nós temos só 20 que não são asfaltados, na época eram 110, até lá na Belém-Brasília, no trevo, que não tinha asfalto. P/2 – Sr. Rui, e esses índios aqui da redondeza, como eles viam a formação da escola aqui? R – Os índios ficavam muito na deles. Na década de 1970 por aí, ficava muito índio lá e a gente aqui. A gente visitava muito a aldeia, índio andava aqui demais. Quando a gente começou a jogar futebol, a gente jogava sempre com índios. Futebol aqui, futebol lá, voleibol. Então a gente tinha um intercâmbio na área de esporte bem interessante. Aí na época surgiu um chefe de posto chamado Eliseu, ele era índio. Eliseu, ele é até falecido. Então Eliseu começou a mudar um pouquinho a visão do índio. Criou escola na aldeia. Ele começou a pleitear da escola a possibilidade de o índio vir estudar na escola. Que antes, índio lá e a gente aqui. Como eu disse, as diferenças no intercâmbio de futebol. No dia do índio as pessoas iam pra festa, participavam numa boa. Então o relacionamento com os índios, assim, perfeito, excelente até então, porque apesar das pessoas acharem, o índio é assim, são pessoas assim de fácil relacionamento. Relacionar com índio é uma coisa assim extremamente fácil, e é gostoso até. São pessoas assim extremamente francas. Índio é muito franco. Se o índio é seu amigo, é seu amigo, não tem jeito dele deixar de ser, não existe uma possibilidade. Então esse relacionamento foi muito grande. Às vezes, por exemplo, a escola dava muita coisa. O próprio funcionário. Às vezes o índio passava, pedia uma coisa, você dava. Qualquer coisa, né, você dava pro índio. Que índio também tem esse lado, pede bastante, principalmente as índias. Os índios homens não pedem, mas eles botam, impressão, acho que botam as mulher pra pedir, né? Então o relacionamento foi ótimo. Agora, foi a partir de Eliseu que começou a mudar. Foi quando ele começou a pleitear da escola a possibilidade de colocar índios pra estudar aqui. E começou pelos filhos dele. P/2 – Isso foi quando? R – 1981. Os primeiros índios vieram estudar aqui em 1981. (Pausa) P/1 – Bem, agora a gente queria saber, como era pra encontrar os alunos? Tinha dificuldade com os professores, mas com os alunos também, parece que no começo era um pouco difícil. Como foi esse tempo? R - É assim, tudo uma coisa soma com a outra, ligando uma coisa à outra. Na época, eu disse lá atrás sobre a Guerra do Araguaia, aquela "coisera" toda, o banco tinha uma fazenda chamada Capra no Pará, uma fazenda enorme. Então, quando surgiu a escola aqui os pais não queriam deixar os filhos virem pra cá de jeito nenhum. Aí surgiu uma conversa que o banco trazia os filhos pra cá, estudava um tiquinho. Quando ficava rapazinho, pegava tudinho e mandava pra fazenda, pra Capra, pra trabalhar de graça. Então surgiu aquela... Então o pai, mas, Nossa Senhora, era difícil demais. Você tinha que ir na casa do pai argumentar, explicar. E nisso surgiu uma pessoa aqui que teve uma influência muito grande, chamado Domingos Pereira. Ele era gerente da Canuanã, bem na época pra trás um pouquinho, e ele tinha fazendas aqui. Então ele conhecia muita gente. Então ele teve uma influência muito grande pra convencer os pais a deixar os filhos virem estudar aqui, e muitos não deixavam, e outros tantos vieram e fugiram, voltaram. Assim, a escola tinha uma coisa, a gente até brincava, a única função dela era ir atrás do aluno. _______ contava muito. Contava, vamos dizer que era igual gado porque... Um, dois, três, fulano, ia chamando. “Fulano, fulano, cadê fulano?” “Ih, tia, fugiu”. “Ah, fugiu?” Aí ia lá, corria. Mora, vamos supor, na barreira, que era a que tinha aqui. Pegava a Kombi e se mandava. Chegava lá, falava: “Não, mora daqui a 20 quilômetros”. Aí pegava um cavalo, selava e... Então era aquilo, assim, principalmente no final de semana. Então o pessoal tinha essa coisa assim pra... Na realidade, a escola deixou de ter dificuldade pra receber aluno a partir basicamente de 1977. Até 1976 havia uma certa resistência para os pais deixarem os alunos vim pra cá. Deixar aluno de sete, de oito vir pra cá, mas nem pensar. Vinham de nove, dez, onze, doze. De oito anos, nove anos os pais não deixavam porque muitos acreditavam que realmente o banco queria só dar um pouquinho de formação e deixá-los crescer um tiquinho, ter suporte pra servir de trabalho escravo na Capra, na fazenda que ficava entre Conceição do Araguaia e Redenção, naquela região ali. Então era muito difícil. E além disso, imagina você pegar alunos da Ilha do Bananal. A única coisa que eles faziam era estudar, tinha a escolinha rural. A única coisa que eles sabiam fazer, estudar na zona rural, tomar banho a hora que bem quisessem, pescar a hora que bem quisessem, ir em festa, sem disciplina, sem regras, sem nada. De repente põe numa escola onde o forte eram regras e disciplina, hora pra tomar café, hora pra almoçar, hora pra jantar, hora pra lanchar, hora pra dormir, hora pra levantar, hora pra ir pro colégio, hora pra ir trabalhar. Não era fácil. No rio, o índio não podia tomar banho no rio. O rio está aí na beiradinha, mas não podia tomar banho no rio. Tanto é que a gente fez uma cerca separando a escola do rio. Então esse era um dos grandes motivos que fazia com que uma grande parte dos alunos fugisse. Quer dizer, eles achavam que não tinham liberdade. Aí um outro grande problema é também porque a gente não tinha lazer para criança, a gente não tinha lazer, não tinha uma quadra, não tinha uma piscina, não tinha lazer mesmo. O lazer nosso na época, que a gente fazia com os meninos, e uma coisa que eles gostavam, era pescar. Então a gente pegava aí um grupo de alunos e ia pescar. Pescar e assar peixe. Ia pescando, tratando, temperando, a turma já ia assando e comendo. Esse era um dos lazeres que a gente fazia mais, e infelizmente muito mais só com os alunos homens. As meninas sempre ficavam mais restritas, né? Então essa dificuldade que a escola teve de aliar essa coisa de fazer o aluno entender que o objetivo deles aqui era estudar. E às vezes ele ficava seis meses aqui, estava já bem. Aí ficava um mês lá na casa dos pais e começava tudo de novo. Ficava um mês vivendo do jeito que ele queria, sem limites, sem regras. Quando chegava era praticamente um recomeçar, vamos dizer assim. Eu até gosto de falar que as pessoas que lidavam diretamente com a educação na época aqui eram pessoas assim, enfim, você tinha que tirar o chapéu. Eu lidava muito com a educação, mas a minha obrigação não era como a do professor, da diretora, da orientadora. A minha função era um pouco diferente. Lidava bastante com os jovens, mas não tinha aquela obrigação. Mas o professor, a diretora, era um trabalho bastante complicado você pegar jovens de nove anos, dez anos, onze anos. Como brigavam, porque lá era uma região, eu diria assim, não vou dizer bruta, mas quase isso. O que aluno brigava, de tapa mesmo, porrada. O que mais tinha era aluno com a cabeça furada com pedra, com, enfim. Então era tipo assim aquele negócio, não leva desaforo pra casa. Brincou com o outro, o outro não gostou, disputava era no tapa. E isso era uma cultura, era a cultura desses meninos, essa questão de ser machão. Comigo aqui, não vem que não tem. É muito complicado. Então isso em 1976. Porque na realidade eu não falo desde 1975 porque eu não vivi. Quer dizer, imagino que era muito pior. 1974 e 1975 eu imagino que era muito pior porque em 1976 ainda tinha essa dificuldade, 1977, essas dificuldades, imagina em 1973, 1974, 1975. E a alimentação, meu irmão? Essa que era dura, porque nós não tínhamos geladeira. Não tinha geladeira, não tinha energia. Então era carne, vamos dizer, carne fresca só uma vez, no dia que matava, depois vinha carne de sol, que tinha que secar, peixe, basicamente isso. Aí vinha abóbora, mandioca, mas tudo comprado. A escola não produzia nada, verdura, que até então a própria região não tinha. Pra você ir comprar verdura em Formoso, não tinha. Se ia comprar verdura em Gurupi como? Também não tinha grandes supermercados, não tinha nada. Então a alimentação nossa era à base de carne, peixe, peixe famoso chamado pirosca. Tem alunos nossos, aluno hoje já com seus 40 anos, fala assim: “Nossa, quando me lembro daquele pirosca de caldo”. P/1 – O pirosca é o pirarucu? R – É o pirarucu. Então a alimentação era terrível nesse sentido, se comparando com outras épocas. Mas não é porque a escola não tinha condição de oferecer, não tinha condições de ter, de comprar. Macarrão, ovos também comprava fora, peixe, carne. Aí logo surgiu a padaria, mas não conseguia padeiro. Todos os padeiros que vinham pra cá eram pessoas que vinham aprender a fazer de qualquer jeito, que não encontrava um padeiro pra vir pra cá. Tinha a padaria, tinha uma estrutura, mas não tinha quem soubesse fazer. Eles faziam umas roscas aí que Deus me livre. Se não comesse ela demais, se não comesse de tarde ela virava pedra. Era desse tamanhozinho assim, se jogasse na cabeça furava. Então, assim, o início foi muito difícil. Agora, o problema sério mesmo era esse, era conseguir colocar na cabeça dessa molecada que o objetivo era estudar, que ele tinha que abrir um pouco a mão e que a disciplina era necessária. E na realidade era uma disciplina bastante, imagina, era bem, eu diria assim, bem dura a parte de disciplina da escola. Se você olhasse os regulamentos, jogaram alguns fora, não sei, talvez não. A gente olha assim: “Nossa, mas não é possível. A gente fazia isso aqui?” Mas o aluno que viveu aquela época também não tem nada contra, até agradece: “Olha, se não fosse isso eu teria ido embora.” E uma coisa interessante é que os alunos que conseguiram ficar aqui, que a gente chama, que são os alunos da primeira turma, foram os alunos mais beneficiados durante todo esse tempo, foram os mais beneficiados, foi aquele grupinho que entrou aqui na primeira série, segunda série. Quando eles se formaram, terminaram o ginásio, não tinha segundo grau. Foi quando o senhor Amador Aguiar veio aqui pela primeira vez. E o que que eles fizeram? Orientados pela diretora eles pegaram o senhor Amador na beira do rio batendo pauzinho, lá no pé de amêndoas, num banquinho lá, sentaram o senhor Amador lá e pediram que eles não iam mais ter condições de estudar, que todos eles iam voltar pra Ilha do Bananal, era aquela, tudo orientado, tudo papapá. E aí o senhor Amador ficou extremamente emocionado, mas não disse nada, não falou nada, enfim, ficou calado. Aí, quando foi, ele voltou pra São Paulo, chamou a equipe dele lá, inclusive o senhor Carlos, e deu um prazo: “Vocês têm tantos dias pra receber tantos alunos aqui. Se vira com alojamento, colégio, emprego, papapá.” Foram todos pra São Paulo, alunos que nunca tinham andado nem em Gurupi. Todos, todos foram pra São Paulo. Aí o alojamento, alimentação, tudo, tudo. Aí alguns foram pra um banco, outros foram pra Fundação, outros foram pra _____, outros foram. Todas as empresas ligadas ao Banco ali começaram a colocar alunos da escola de Canuanã pra trabalhar e estudar, ou seja, eles continuaram com a mesma mordomia que tinham, quer dizer, muito mais. Eles tinham colégio de graça, alimentação de graça, moradia de graça e ainda tinham o seu emprego. E, quando eles terminaram o segundo grau, os que foram pra faculdade ainda, a Fundação bancou uma parte da faculdade, modificava o horário de trabalho, toda aquela "coisera". Então na realidade foram os alunos pioneiros, então esses caras tiveram um privilégio assim em termos de oportunidade ímpar na vida, porque é muito difícil ter essa oportunidade. Ou seja, estudar numa instituição que te dá tudo de graça até a tua formação a nível de terceiro grau. Isso é praticamente, é difícil pra acontecer, isso não acontece duas vezes. E o que aconteceu com eles foi isso, desde a primeira série até o terceiro grau, formação do curso. Muitos fizeram Direito, outros fizeram Administração, vários cursos diferentes. Então foi uma turma assim que... E quase todos ficaram ligados ao Banco. Depois foram saindo. Talvez alguns permaneçam até hoje, eu não sei. Mas a grande maioria que eu conheço não está mais no banco. Mas são pessoas assim que devem a sua formação, não profissional só, mas como pessoa mesmo, basicamente 100% à escola, à Fundação de maneira geral. E não são só eles, são centenas de jovens que devem isso. A gente não consegue mensurar, medir assim o quanto essa escola tem definido na vida de centenas de jovens. Com a escola eles são isso, sem a escola eles não seriam, não vou dizer não seriam nada. Eles estariam na ilha sendo vaqueiro, casado, um monte de filhos. A gente conhece vários que não vieram ou alguns que vieram e voltaram. Está aí com um retirozinho, mora numa ilha, cuida um pouco de gado para outros, com um monte de filhos, sem condição de colocar os filhos pra estudar fora. Aí vêm pra Fundação. O interessante é que hoje são vários filhos de ex-alunos que estudam aqui. São vários, tem muitos filhos de ex-alunos que estudam na escola hoje. Então, é difícil falar da Fundação. P/1 – E assim, desse pessoal o senhor tem conhecimento de alguns que ainda estão na região ou ficaram lá por São Paulo? R - Voltaram muitos. Por exemplo, aqui voltou pra cá, nós tínhamos o senhor Osvaldo. Ele voltou pra Gurupi mas voltou ligado à empresa, pra trabalhar na Fundação. Ele ficou muito tempo no Departamento de Compra em Gurupi, depois veio pra cá, ele ficou com a gente no Departamento de Contabilidade. Mas ele não chegou a concluir o terceiro grau lá, veio concluir aqui. Agora, no ano passado, ele foi convidado pra ser vice-diretor numa escola em Rondônia. P/1 – Escola da Fundação? R – Da Fundação. Em Goiânia nós temos o Edmilson. O Edmilson ficou no banco muitos anos. Ele saiu há uns quatro anos. O Edmilson era diretor do cartão de crédito em Goiânia, na Regional de Brasília, chegou à diretoria do Bradesco, chegou a ser Diretor do Bradesco na Regional de Brasília. Também saiu, teve uma oportunidade melhor, enfim. Nós temos o Adecildes essa é uma história estupenda. O Adecildesera desse tamanho assim. Quando ele foi pra lá, foi o único dos homens, que teve ________ que optaram por fazer Técnico de Enfermagem, curso médio, e ele foi o único homem. Então era gozação na época porque os meninos daqui da Ilha do Bananal: “O que? Fazer Enfermagem, dar banho em homem, pegar nisso, pegar naquilo, papapá, nem pensar.” E ele optou por fazer Enfermagem. E ele foi trabalhar no hospital em São Paulo, na gastro, hospital ligado ao Bradesco. É gastro mesmo? P/1 – Gastroclínica. R – É, ligado ao Bradesco. Então ele ficou lá o tempo todinho. Aí ele prestou vestibular pra Administração Hospitalar. Terminou o curso de Administração Hospitalar, aí ele passou a administrar uma área do hospital. Aí, por motivo de família, os pais dele, ele resolveu vir mais pra cá, veio pra Goiânia. E ele ficou cinco anos como diretor de um dos maiores hospitais de Goiânia que é o Santa Genoveva, um dos grandes hospitais de Goiânia. P/1 – Eu acho que é o mais famoso de lá, né? R – O mais antigo e o maior hospital de Goiânia. Então ele foi diretor ali vários anos, e ele saiu pra ir pro Estado. Hoje ele é o Diretor da Secretaria da Saúde do Estado de Goiás. É uma equipe. Estive com ele no ano passado, no mês de julho. Ele tem uma equipe de mais ou menos uns 200 funcionários. Ele administra todos os hospitais estaduais de uma região de Goiânia, de Goiás, aliás. Então são histórias bem assim. A mulher dele é enfermeira, é formada, é Enfermeira Padrão, já tem um filho. Ele só tem um filho. Então você olha pra trás, a gente que conhece. É por isso que eu falo, quer dizer, se não fosse essa instituição, jamais chegaria lá. E todos os outros. Lá em Goiânia nós temos mais dois ex-alunos nossos que trabalham no Bamerindus e outro no Itaú. Eu não me lembro de alguns que ainda permaneçam no banco, não lembro. Mas todos eles assim, foi assim de um privilégio ímpar. P/1 – E outra coisa que a gente queria saber, assim, como eram as visitas? O senhor falou da visita do senhor Amador Aguiar. Como era a chegada, por exemplo, do senhor Amador Aguiar? Como é que a escola se movimentava? O senhor. Carlos de Oliveira que já tem toda aquela história em cima dele, da rigidez? R - Normalmente, quando durante os anos que eu estive aqui, o senhor Amador veio aqui quatro vezes. Quando falava assim... E ele tinha um detalhe interessante, o senhor Amador. Ele chegava assim e falava assim: “Oh”...vamos supor, hoje é terça, “sábado eu quero ir pra Canuanã.” Acabou. Ele não avisava: “O mês que entra...”, não tinha isso não. Era: “Sábado pra Canuanã”. Você imagina a loucura lá, né? Aí aquele pessoal de lá pra cá, chegava aqui aquela, era correria, lógico, pra arrumar, limpar, ajeitar aqui, arrumar. P/1 – O senhor Carlos vinha antes? R - O senhor Carlos, o Antônio Carlos, o senhor Jorge, sempre, o Sr. Antônio, sempre vinha alguém com uma equipe. Mas a parte mais de visual, que ninguém queria saber de, a parte mais de visual, da escola estar pintada, estar roçadinha, estar limpa, a horta estar arrumadinha, o pomar estar arrumado, o gado estar arrumado. Então era assim uma, sempre foi assim uma loucura. Mas a parte mais interessante de tudo isso é que era a época que nós tínhamos mais ganhos. Chegava aqui. Bom, pra fazer isso às vezes ficava aquela burocracia toda que as empresas têm. Às vezes a gente queria, dependia de um instrumento, de uma ferramenta qualquer para melhorar nosso trabalho, você ficava aquela burocracia, ia pra mesa de um, mesa de outro, mesa de outro. Então era uma época que a gente inteligentemente usava pra conseguir tudo aquilo que a gente vinha batalhando. Então, por exemplo: “Ah, o senhor Carlos vem mais fulano e fulano”. Aí o quê que nós fazíamos? Cada responsável por cada área juntava, falava: “Olha, aqui eu preciso disso, disso, disso, disso.” O outro lá: “Papapá.” Aí, na hora que chegava... Mas cada um ia, quer dizer, não era achar que era a diretora, ia como se fosse uma coisa nossa. “Bom, senhor Carlos, faz tempo que eu tento isso, tento isso, tento isso. Agora vocês chegam aí. Enfim, se nós tivéssemos isso estaria assim, assim, assim. Se tivesse isso estaria assim, isso estaria assim.” Aí autorizava. Então era a época assim que a gente... E além do prazer de vê-los. O senhor Amador é uma pessoa assim, é difícil de descrever, não dá nem pra, não dá. Mas assim, aquele prazer de conhecê-lo. A primeira vez foi uma coisa assim, pra nós era como se viesse o Papa, é como se o Papa viesse visitar a Escola de Canuanã, aquela coisa. O senhor Amador Aguiar, nossa, pra gente que trabalhava, pro aluno, era coisa assim difícil pra descrever a empolgação, a expectativa. Então cada vez que vinha era essa confusão, mas uma confusão boa. A escola ficava limpinha, toda organizadinha. Ele vinha. O senhor Amador chorava nesse galpão aqui. Ele já tinha um problema de...já estava bem acentuado o problema dele de Mal de Parkinson, nesse galpão. Aí o que que a escola fazia? Pegava os meninos, fazia homenagem, um grupinho de dança, uma “musicazinha”, os meninos faziam música em nome do senhor Amador. Então ele se emocionava. Um dia ele chorou nesse galpão. Aí ele chorava e muita gente chorava junto, porque era bastante, assim, muito emocionante. Nessa penúltima vez mesmo que ele veio, que ele estava bem... Então foi assim muito emocionante a homenagem das crianças, a emoção que ele estava sentindo. O pessoal ficava até preocupado, o médico, pra não ter muita emoção, aquele negócio todo. Mas como que não tem, né? E pra gente assim a visita dele, não era só dele. Pra nós o senhor. João Carrera vinha aqui, o Sr. João vinha aqui a cada dois anos. Era uma beleza. O senhor João Carrera era uma pessoa assim, que não dá também pra descrever também a importância do senhor João. Eu não sei da Fundação, mas na Escola de Canuanã ele é tão decisivo ou mais do que a do próprio senhor Amador. O senhor Amador que idealizou, vai fazer uma escola ali. O senhor João foi aquele homem que, quando chegou aqui e conheceu a gente, abraçou. Abraçou e, quer dizer, defendia, peitava, conseguia as coisas. Então se, por exemplo, a escola, essa escola aqui de Canuanã, sem o senhor João Carrera, sem o senhor Antônio e sem o senhor Carlos talvez estaria longe do que é hoje, estaria com certeza. Então foi aquele tripé assim que abaixou a coisa até então porque, quando o pessoal vinha aqui... A gente tem um ponto muito forte que é a simplicidade. Então veio aquele pessoal. A única preocupação nossa era trabalhar. Ninguém se preocupava se era feriado, ninguém se preocupava se eram seis horas, se eram cinco horas, a gente queria trabalhar, queria ver a coisa. O envolvimento com o aluno era assim uma coisa extremamente intensa o envolvimento que a gente tinha com o aluno, mas muito forte. E eles chegavam aqui e viam aquela coisa, aquela vontade, aquela união, aquela coisa. Então o cara não tem jeito, se apaixonava, abraçava. Então quando a gente pedia alguma coisa e, às vezes demorava, porque a burocracia é complicada, mas normalmente quando era em Canuanã, eles terminavam liberando. Tem que perguntar porque eu não sei falar mais nada. P/1 – A Lílian contou uma história que foi muito engraçada, que foi a visita da Glória Pires aqui, essa movimentação toda. R – Na época da gravação de Iracema, é isso aí? P/1 – Que ela era índia, pra lançar o filme, né? Como é que foi essa visita dela aí? R – A gente acompanhou, mas nem tanto. Teve um grupo de alunos que acompanhou bastante. E o pessoal assim é muito recatado, é muito... Eu pelo menos não cheguei a ter contato, só vi ela, se não me engano o Nuno Leal Maia. Só vi, eu não tive contato. Agora os alunos meninos, teve meninos que tiveram bastante contato, foram lá aonde eles fizeram a gravação, na praia. Mas a gente.. eu não tive muito contato com ele não. Também não sei muito assim, eu só sei que foi uma revolução isso aqui, pra meninada, uma revolução, artista da TV Globo, papapá. Mas foi uma coisa interessante que era o seguinte, pra nós a nossa energia chegou aqui em 1986. O carro chefe de qualquer desenvolvimento, principalmente a nível de comunicação, é a energia, chegou em 1986. Logo em seguida veio a televisão, através de antenas parabólicas. Anterior a isso nós não tínhamos televisão na escola, nós não tínhamos. E não tínhamos telefone, a comunicação era feita via radioamador. Então a gente ficava muito... Não recebia o jornal escrito, e falado nem pensar, porque não tinha televisão. A gente não recebia jornal. Então a gente ficava como se aqui fosse um mundo, a gente vivesse num mundo, e passou dali era outro. Você não tinha informação assim no campo político, no campo financeiro, questão de ouvir um jornal, ler um jornal, ver televisão, aquela "coisera" toda. Então você não tinha esse tipo de informação, só via rádio. E não era todo mundo que tinha o hábito de ligar o radiozinho ali e ouvir a notícia, não. Então, assim, as pessoas que vinham, que já tinham tido contato, é que abriam um certo espaço. E depois a escola começou a buscar esse espaço, que também a Fundação tinha um outro problema, aquela questão de não abrir. A escola não aceitava nada, de ajuda vamos supor assim. Receber visitas na área cultural demorou muito, intercâmbio cultural. Mas quando veio, também foi uma beleza. Até pouco tempo o aluno aqui não podia se envolver com política, ele tinha que ouvir. A escola não permitia que, vamos supor, um candidato viesse aqui e fizesse um palanque ali. Mudou um pouco também isso, que o que aconteceu é o seguinte. Os alunos saiam daqui pra votar, eles não sabiam, não conheciam. Votava pra pessoas que pediam, sem a menor noção do que estavam fazendo. Então, assim, de 1986 pra cá é como se fosse assim uma outra, a escola até 1986 e de 1986 pra cá. Foi quando veio energia, água tratada que nós não tínhamos, a televisão, telefone. Enfim, aí a coisa, houve uma mudança assim bastante acentuada, que foi até difícil pra gente que vinha de lá, acompanhar essa... E principalmente na área de educação. As leis mudaram. Nossa, foi complicado demais. Mas a verdade é que a Fundação praticamente _____ que ela teve duas épocas, até 1986, de 1986 pra cá foi diferente, bem diferente. Porque você já imaginou isso aqui, como eu disse, não tinha televisão, não tinha energia, não tinha telefone, não tinha geladeira. Tomar coisa gelada nem pensar. Bom tempo depois eles compraram uma geladeira que ficava no ambulatoriozinho lá. Aquilo era só pra manter uma vacina, uma coisa assim. Era muito difícil. Então você não tinha nada que o mundo, outra cidade, tivesse há tempos. A gente veio a ter isso a partir de 1986, esse lado moderno, tipo televisão, energia, água gelada, a carne fresca a qualquer hora, o frango. Apesar de que nós começamos a criar frango em 1982. Já tínhamos frango na escola, frango de corte. Mas era assim, um lote pequeno, abatia, pra consumir em dois dias no máximo. Fazia eles, deixava pronto pra amanhã. Aí os frangos iam crescendo lá. Nós íamos lá, matava mais uma quantidade. Mas já em 1982 nós começamos a criar suínos, ave de postura também era 1982. O bovino de leite nós começamos, até uma história engraçada isso. Em 1977 nós começamos a criar bovino de leite aqui. Até o senhor João Carrera que nos enviou um presente quase que de grego, porque não tinha curral, não tinha pasto, não tinha nada, nada, nada, só serrado. Aí ele pegou um dia, falou que ia conversar comigo, radioamador. Aí eu fui. Ele falou: “Olha, está chegando aí 100 vacas pra você tomar conta, vaca gir, leiteira.” Chegamos, foi montado dentro de Formoso do Araguaia, estava aqui ó. Isso no mês de março. Chega aqui, como é que chega? 100 vacas. Aí veio até ali, daqui a uns 20 quilômetros, ficou lá esse gado. E quando nós trouxemos esse gado pra cá, você imagina, não tinha curral, não tinha cerca, não tinha pasto, não tinha estrutura nenhuma, nenhuma, nenhuma, nenhuma. E a gente não teve outra saída além de alugar um pasto lá na Ilha do Bananal, do outro lado do rio. Colocar esse gado lá do outro lado do rio, que aqui não tinha como. E aí fomos começar a fazer a estrutura. P/1 – E a travessia pra lá, como é que vocês levaram essas cabeças? R – Não, nós atravessamos no verão. O rio é seco, né? A gente atravessou lá. Mas ficava só nessa época seco. Ficava lá maio, junho, julho, agosto, setembro e outubro. Quando era em novembro a gente trazia pra cá. Aí começamos a arrumar um pedaço de serrado aí na Fazenda Canuanã. A escola não tinha área, a escola só tinha um pedacinho dela aqui, não tinha terra nenhuma. Aí nós começamos a arrumar terra, com a Fazenda Canuanã. Aí eles liberavam lá dez alqueires esse ano. Aí a gente ia lá, arrumava, formava. No outro ano arrumava mais cinco alqueires, aí fomos caminhando pra frente. E a nossa criação de bovino aqui foi assim de uma maneira surpreendente, sem estrutura, sem nada, nada, nada, nada. O colégio está aqui, o nosso primeiro curral nós fizemos ali na frente, o primeiro curral. Você imagina fazer um curral aqui, criando gado aqui dentro? Não tem... Assim, primeira lavoura de arroz, primeira colheita de hortaliças, isso aqui é uma coisa assim extremamente rara, o local que nós fizemos a primeira horta. Quando eu cheguei não tinha. Aí o que que eles fizeram comigo? Falou: “Olha, a sua função aqui é criar um setor agropecuário”. Aí olhava, só tinha água. Isso é que me assustou. Foi uma das coisas que me deu vontade de ir embora, que eu olhava mais um, olhava : “Mas onde é que...”. Aí ele falou: “Olha, vamos começar logo com uma horta porque o retorno é rápido, a verdura vem com 30 dias, com 60, com 90 está produzindo”. Mas aonde vamos fazer uma horta aqui, que só tem água? Aí arrumaram um cantinho ali, um pedacinho enxuto lá. Aí me arrumou um rapaz pra trabalhar comigo. Aí falou: "Criar pomar, plantar arroz, feijão, milho, mandioca, criar paca, enfim”. E nós começamos. Em 1976 a gente já tinha alface, tomate, essas verduras mais fáceis de ser cultivadas, pimentão, jiló, quiabo, couve. E naquela época você falar em produzir repolho, “Ah, não, repolho não dá. Ah, beterraba, nem pensar. Couve-flor, Nossa Senhora, couve-flor aqui não existe, a região não produz, é quente”. Foram assim muito aqueles mitos de coisas que não produzia. Quando foi 1978 eles me arrumaram uma viagem em Goiânia. E tinha um cara em Goiânia, que era de Pedro Afonso, na época ele era coronel da polícia. Ele era muito amigo do meu pai, enfim, e eu fui a Goiânia, estive com ele. Aí falando sobre isso, ele falou: “Eu conheço um cara aqui que vai te ajudar”. Pegou o telefone. Aí a minha surpresa foi tão grande que o cara nada mais, nada menos do que uma das maiores autoridades em agricultura do estado de Goiás, chamava-se Antônio Figueira, professor da UFG [Universidade Federal de Goiás], da Escola de Agronomia. E aí nós conversamos, eu expliquei, ele falou: “Não”. Pediu pro Coronel: “Leva ele na faculdade amanhã, na UFG”. Aí ele me deu uma série de materiais, me deu variedade de tudo que era coisa, variedades que eles estavam experimentando, testando, variedades ainda não aprovadas. Então ele me abriu um canal, e aí me deu material didático à vontade. Então ele abriu um canal, assim, que na produção de hortaliça nossa aqui foi decisiva. Nós passamos a produzir tudo, repolho, couve-flor, beterraba, tudo, tudo, tudo, tudo. E sempre que pintava, eu comecei a fazer um trabalho de experimento aqui. Ele me dava lá, vamos supor, 15 variedades de tomate. Testava semente da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], da (Engolpa?), e me dava. E eu ia trabalhar esse tomate aqui. De alface, várias variedades. Então eu comecei a fazer um trabalho mais ou menos nesse sentido, e aí o campo abriu. Aí nós passamos a produzir tudo na época em termos de... Aí a nossa alimentação melhorou. Mas tinha um negócio interessante. Aí foi um outro problema de cultura, fazer com que esses meninos entendessem que comer tomate, alface, papapá, era muito mais prático do que comer pirosca. Sabe o quê que eles faziam? Eles... Ah, botava no prato tinha que comer, né? Alface, papapá. P/1 – Não podia desperdiçar. R - Não. Aí o menino pegava e enfiava debaixo do forro da mesa, as verduras. Punha até no bolso pra não comer, não podia deixar no prato. Ia deixar o prato lá no barracão, ia voltar, “Não, come alface, come isso.” Então botava no bolso, botava debaixo do forro da... Quando descobria que estava debaixo do forro. P/1 – Tiraram o forro? R – Não, não. O cara, o inspetor ficava lá ficava olhando, observando. De vez em quando levantava o forro. Aquilo, sobrava umas folhinhas de baixo. Aí o menino amassava aquilo ali, saia com ele na mão ou no bolso. Não era ele que lavava a roupa mesmo, né? Então foi uma batalha. A gente tinha que ir em sala de aula: “Olha, verdura é bom.” Aí mostrava as vantagens, e isso e isso e isso, comparava o valor de um pro outro. Pode não ser tão saborosa, pode encher a barriga como arroz, feijão e carne. Então a gente começou esse trabalho assim, ia na sala, conversando assim numa roda. E surpreendentemente o nosso trabalho teve uma resposta muito grande com os alunos que eram ligados a futebol, porque jogavam bola, que aí eu comecei a mostrar a importância disso pra eles que praticavam esporte, parará, parará, parará. E eu comecei a observar, e aí em uma fase de orientação o Aroldo falou: “Bom, a partir de hoje quem não comer verdura não joga bola. Quem não comer verdura não joga bola”. E aí começou, então esse grupo aqui começou a gostar, apesar que tem algumas verduras que até hoje a gente mesmo não vai. E começou a gostar e a coisa foi, essa questão assim. Mas levou tempo. No início o desperdício era enorme. Já pensou, você batalha pra produzir, por exemplo, cenoura. Cenoura é gostosa lá, arrancar ela ali e comer verdinha, né, a raizinha? Você chegava lá, estava o pé murchinho, você arrancava, só o pé, a raizinha eles tinham comido lá e jogado fora. Mas quando batia aqui no centro de alimentação era diferente, a resistência era muito grande. Mas foi assim, a qualidade da comida foi excelente. P/2 – Sr. Rui, as crianças participavam de quais atividades, além da atividade na sala de aula? R – Em 1976, 1977 e 1978 eles não tinham obrigação nenhuma com atividades. Ajudar ajudavam, mas era assim, eu chegava, arrumava um grupo: “Oh, vamos fazer isso comigo, vamos fazer uns canteiros hoje, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo”. Então pegava, e aquilo às vezes você juntava um grupo: “Fica me esperando aqui, que eu...”. Quando você chegava lá daqueles cinco, três tinham fugido. Mas aí eu tinha, por exemplo, sempre os que jogavam bola comigo, sempre, qualquer... Até então porque eles sabiam que, como eles falavam, não podiam se sujar comigo, né? “Se eu não ajudar o Sr. Rui ele não vai deixar eu treinar, não vai deixar eu jogar bola.” Aí nós começamos a sair pra jogar fora, arrumar jogo em Formoso, em Sandolândia. Então eles faziam o possível e o impossível. Mas quando foi em 1978, aí não dava mais. Em 1978 nós criamos uma área que era o pomar, começamos a formar um pomar de cítricos, laranja, mexerica, limão, enfim, e banana. Então atividade, e começamos já a produzir arroz e milho. E a atividade agrícola começou a se expandir. Ou a gente se organizava pra que o aluno participasse afetivamente com horários, com regras, ou então a gente não tinha condição nenhuma de melhorar a alimentação, que o objetivo nosso naquela época era só melhorar a nossa alimentação, e didático, a parte didática. E aí, quando se criou o ginásio, nós criamos uma matéria chamada Técnicas Agrícolas, desde a quinta série. Eu trabalhava no campo mas eu dava aula aqui na quinta série de Técnicas Agrícolas mostrando pro aluno sempre a importância da agricultura e da agropecuária na vida familiar, na vida de cada um, enfim. Eu cheguei um dia a falar: “Não dá pra trabalhar mais. Você pega no laço”. Por quê? Porque era só um determinado grupo que trabalhava. Os outros não faziam nada assim em termos, era só pra limpar o pátio mesmo, sei lá. E aí nós sentamos, aí foi quando nós resolvemos criar a equipe de setor com regras, com horários. Por exemplo, quem estudava de tarde, na parte da manhã ia pro setor. Aí dividia, vamos supor, tantos pra cá, tantos pra lá, tantos pra cá. P/1 – Quais eram os setores? R – Nós já tínhamos pecuária de leite, nós tínhamos avicultura. Não, nós não tínhamos avicultura. Nós tínhamos o pomar e a horta, e a que a gente chamava de manutenção geral, que era parte da escola, manter a escola limpa, capinar, rastelar, enfim, dentro da escola, pintar, essas coisas. Então nós tínhamos, e o setor de alimentação, que passou a começar a trabalhar aluno também dentro do refeitório, em 1978 aluno começou a trabalhar no refeitório também, ajudando a fazer comida, fazer mistura, aquela "coisera" toda. E os setores foram aumentando. Aí passou a, aí começou as vantagens. Aluno começou a trabalhar no consultório dentário, dentista e no consultório médico. Aí começou, a cada ano que passava essa questão do setor passava a ter uma visão diferente. Aí nós passamos, por exemplo, o setor agropecuário, nós passamos a dar aula dentro do setor agropecuário. Por exemplo, as aulas já começaram, em 1982 nós já tínhamos o segundo grau. Então o aluno do segundo grau dava aula pra aluno do ginásio ou do primário que trabalhava. Vamos supor, qualquer assunto sobre cultura de qualquer coisa, manejo de bovinos. Os próprios alunos faziam esse... desde a terceira série o aluno começava a ter aula no setor. E essas aulas eram dadas pelos alunos do segundo grau. Aí então a visão do setor foi tendo uma, assim, bem diferente do que só aquele trabalho. Então ela passou a ter uma importância na aprendizagem assim, eu diria assim que definitiva, definida, uma coisa fatal na formação do aluno do curso. Porque quando ele chegava, que ele terminava o ginásio, que ele entrava no segundo grau, ele já tinha um conhecimento enorme na área agropecuária, tanto sobre as aulas porque ele também trabalhava, ele sabia plantar cenoura, ele sabia plantar tomate, já sabia tirar leite, já sabia cuidar de um bezerro, ele sabia cuidar de um frango, ele sabia, enfim, ele sabia tudo, praticamente sabia tudo, e ainda tinha um pouco de conhecimento técnico. P/1 – Quer dizer, de 1986 pra cá a escola, o senhor falou que teve essa mudança. O que foi implantado de novo? Logo depois já veio a informática também. Como é que foi essa abertura pro mundo, na escola? R –1986, como eu disse, foi quando surgiu energia, água tratada. A televisão começou aí com antenas. Quem podia comprava antena parabólica, era cara pra caramba. Era interessante que, pra você comprar antena parabólica, as primeiras pessoas que compraram fizeram um consórcio. Juntavam cinco, faziam um consórcio. Esse mês você comprava, outro mês você comprava, que era tão cara a antena parabólica. E também em termos de estrutura da escola. Nessa época a escola já foi pra mil e tantos alunos. Uma coisa que eu esqueci de falar lá atrás, a escola veio de 80... a escola começou com 83 crianças, vamos dizer assim. Quando eu cheguei, em 1975, aqui tinha 180 alunos. Então veio subindo, subindo, subindo. Em 1982 foi pra 350, em 1981. Em 1982 foi pra 750, dobrou. Quando foi a partir de 1986, aí nós fomos a 1200, foi quando criou toda essa estrutura. P/1 – Foi a época da reforma, que teve uma grande reforma aqui? R – Exatamente, alojamentos, o hospital, ambulatório, o refeitório, o setor de alimentação com estrutura, quer dizer, aí a escola começou a mudar a visão no sentido profissional. Quer dizer, antes quem tomava conta da alimentação, um menino qualquer podia chegar lá e tomar conta do setor de alimentação. Aí passou, mudou, tinha que ser nutricionista. Começou a haver aquele profissional específico pra cada área. Surgiram os grandes projetos, de avicultura, estendeu-se a parte de pecuária, a parte de pecuária de leite. A escola vinha aí com 200, 300 litros de leite. Hoje a nossa faixa é 700, 800, 900, 1000 litros de leite/dia. A escola começou a trabalhar pra ser autossuficiente, em produção de arroz somos autossuficientes, em produção de milho. Não compramos milho, não compramos carne, não compramos ovos, não compramos frango, não compramos leite, não compramos queijo. Então foi assim uma época que houve uma transformação muito grande no sentido... Eu estou falando mais sobre o setor de agropecuária. P/1 – É a área do senhor. R – Tá. Então ficamos muito grandes na autossuficiência, carne de suíno, enfim. Alguns projetos não deram certo. Nós tivemos um projeto de arroz irrigado, não deu certo. Tivemos um projeto de criar frango pra abastecer a região, pra vender, não deu certo por questão, eu diria assim, não foi pelo projeto, foi por questão de lei. P/1 – Política também né? R – É lei, foi a questão lei. Empresa filantrópica, aquela "coisera" toda, mais ou menos por aí. Mas, nos colégios a transformação foi muito grande. Por exemplo, antes a escola, a parte de colégio era na mão de duas, três pessoas. Tinha a diretora que administrava a escola como um todo, tinha o vice-diretor que hoje é o diretor administrativo e tinha uma ou duas orientadoras. Então era muita gente, era muito aluno. Então eles criaram uma estrutura em termos da orientação. Aí vinha um orientador profissional, uma orientadora pedagógica, aliás, uma orientadora educacional, um profissional, uma pedagógica lá de primeira a quarta série, uma pedagógica de 5ª a 8ª série, uma pedagógica de segundo grau, e ainda havia uma diretora pedagógica. Então eles criaram uma estrutura muito grande dentro da escola. O professor de matemática tinha que ser formado em matemática, professor disso tinha que ser professor específico. Acabou aquela... Professor de geografia tinha que ser formado em geografia. Então, ou seja, foi a fase de extrema modificação no sentido positivo. Então tem o lado negativo, quer dizer, vem a televisão, vem a informática, o aluno ficou, assim, recebeu muito mais, tem acesso a informações que antes ele não tinha, informações boas, outras nem tanto. Outra coisa também, que o aluno só saia daqui a cada seis meses. O aluno só saía a cada seis meses. Aí, daí pra frente, de 1995, 1996 pra cá basicamente, eles começaram a sair final de semana pra ir na casa dos pais. Saía. Tinha os recessos escolares, quatro, cinco dias o aluno sai. Então houve uma mudança muito grande. P/1 – Procurando amenizar esse sentimento de falta que eles tinham de ficar longe, né? R – Esse foi o grande objetivo na questão do aluno sair finais de semana, nos recessos, além do financeiro, né? Você imaginou, cinco dias sem alunos aqui, o custo que fica, um exemplo. E a escola trabalha em cima de previsão orçamentária, aquela "coisera" toda. Então, se você imaginar que a escola sem nenhum aluno durante cinco dias, o que não economiza em alimentação, energia. P/2 – Sr. Rui, na época de 1970 uma criança que saía um mês pra ficar com os pais, o senhor falou que ele voltava muito diferente, tinha que readaptar novamente aqui. E depois da década de 1980? (Pausa) P/1 – Sr. Rui, o senhor comentou que, na década de 1970, quando as crianças voltavam pra casa dos pais por um mês e retornavam à escola, tinham que ter um trabalho de readaptação. Eu queria saber como é que foi, como é que aconteceu isso nos anos 1980, de 1990, que agora eles ficam até por mais tempo, voltam em tempos mais curtos. R – Não, nos anos 1980 eu ainda posso falar uma coisa assim porque... Na realidade, nos anos 1990 pra cá, basicamente de 1995 pra cá eu, especificamente no meu caso, eu me afastei um pouco dessa área de acompanhamento do aluno. Eu me liguei muito mais na parte de produção mesmo. Agora, já na década de 1970 e de 1980, apesar de trabalhar na área de produção, eu me envolvia muito na área da educação. Até então, como eu disse, eu dei aula até 1985. Então eu dava aula à noite, às vezes de manhã ou de tarde, dependendo do horário. Então eu me envolvia bastante. Ou seja, eu estava ali no eixo da equipe que, eu diria assim, na equipe de educação mesmo, de orientação, professores. Já de 1985 pra cá eu me afastei um pouco, até então porque a escola, como eu disse, ela diversificou, ela, quer dizer, modernizou essa coisa, quer dizer, colocou profissionais competentes em cada área. Então, assim, eu só participo assim, mensalmente existe uma reunião que eles chamam de reuniões pedagógicas. E a gente, como responsável pelo setor, participa. Então naquela reunião você se envolve e tem conhecimento dos índices da escola, de aprovação, dos índices de tudo, dos projetos desenvolvidos pelos professores, dos projetos desenvolvidos pelo setor. Então, naquele momento você tem conhecimento. Mas no dia-a-dia nós nos envolvemos com alunos, mas só aqueles alunos que fazem parte da equipe do setor. Vamos supor, lá são na média de 60 alunos. Então você se envolve no dia-a-dia, mas no grupão de maneira geral não. Mas essa dificuldade de o aluno voltar, ela em grande parte... Eu esqueci de falar uma coisa interessante. Em grande parte ela se dava mais em função dos pais, porque os pais ainda não tinham consciência do que era realmente ter o filho dele estudando. Então, qualquer desculpa que o filho dava, ele acreditava. Falava: “Ah, pai, lá fulano fez isso comigo”. Aí o pai zangava. Eles vinham aqui, queriam saber, aquele jeitão. E uma coisa assim que eu esqueci de falar, que me impressionou muito, que me assustou muito na escola quando eu cheguei aqui, é porque tinha a Fazenda Canuanã aqui. Então a Fazenda Canuanã era cheia, era peão que não acabava mais. A fazenda tinha 30 e tantas mil cabeças de gado. Isso aqui era um município. Pra você ter uma idéia, a fazenda de um extremo no outro, daqui lá dá 60, daqui lá dá 40, são 100 quilômetros assim, que era a Fazenda de Canuanã, e mais ou menos 30 assim, que era desse rio aqui no outro Rio Formoso lá. Tudo era Fazenda Canuanã. Era uma coisa enorme. E por incrível que pareça as pessoas andavam armadas com revólver exposto igual militar. Então isso me deixou apavorado naquela época. O pessoal andava com revólver e cartucheira cheia de bala, o revólver amarrado na perna igual militar hoje. Nem militar não anda assim, né? Mas antes militar era assim, era revólver meio pendurado, amarrado naquela correia na perna. Então o pessoal aqui era assim. O pessoal chegava da Ilha do Bananal com revólver. Aí a escola proibiu: “Ninguém anda mais armado aqui dentro, nem revólver, nem... Se vier, vai deixar lá fora no seu arreio, na sua cela, mas aqui dentro não se entra mais armado.” Aquela coisa me assustou demais. Assustava todo mundo que vinha. Você via o pessoal andando na rua com revólver, sacudindo de um lado e de outro igual soldado, militar. E aí vinha aquela coisa. Quando os pais vinham aqui, quem tomava essa coisa, principalmente pra resolver problema de aluno, pra não reclamar, tinha que ter muita habilidade, tinha que ter muita sensibilidade. E, às vezes, por exemplo, a direção encaminhava. Vamos supor que o aluno reclamou de um problema que houve comigo lá na horta. Então, quando o pai vinha a direção encaminhava aquele pai pra mim. Eu que ia conversar com ele, explicar, mostrar o que aconteceu, o que não aconteceu. E nessa época eu aprendi uma coisa assim muito interessante. Cada vez que eu ia discutir uma coisa com o pai ou com aluno eu sempre, porque nas primeiras vezes eu tive muita dificuldade em conseguir me entender com a pessoa, porque eu queria que ele pensasse igual a mim. Eu não ia conseguir nunca. E, por incrível que pareça, quem me disse isso, na primeira visita dele que esteve aqui, com um ano e meio que eu estava aqui, o senhor Carlos veio aqui. Eu não conhecia ele. Ele gostou muito de mim, a gente conversou bastante. E eu fui falar pra ele de alguma dificuldade que eu tinha. Ele falou: “Olha, Rui, é o seguinte. Quando você for conversar com esse pessoal você tem que entender que eles são pessoas analfabetas. Então, quando você for falar, você tem que pensar igual a eles. É como se você estivesse no lugar dele. Você nunca queira que ele pense igual a você, você não vai conseguir resolver conflito nenhum nunca. E outra coisa”. É questão de lição de vida que ele disse pra mim. Ele falou: “Olha, tem outra coisa. Você nunca se preocupe em ser bonzinho, só justo e humilde. E quando você tiver dificuldade pra resolver as coisas com a cabeça, deixa o coração falar.” Então são coisas assim que a gente, que as pessoas passam pra gente e a gente não esquece nunca. Então, a partir daí... E eu peguei isso pra mim e comecei a levar isso pros meus colegas. “Olha, faz assim, assim, assim. O resultado é esse”. Porque na realidade o objetivo nosso, quando o pai vinha, não era, era simplesmente convencê-lo a deixar o filho. É só isso, não tinha outro objetivo. Era só convencer ele: “Pelo amor de Deus, não tira o seu filho, deixa o menino aqui. Ele está achando ruim, não é fácil, mas amanhã o senhor vai agradecer.” Então esse era o nosso objetivo. Então a gente tinha que ter todos os argumentos possíveis pra convencê-lo a isso. Mas a partir de 1980, como eu disse, as coisas começaram a mudar porque eles viram a importância que a escola tinha na região, eles começaram a ver a diferença. Por quê? É a coisa, a parte bonita. Uma grande parte dos meninos que começaram a estudar começaram a alfabetizar os pais. Tem vários exemplos. Chegavam em casa nas férias e ensinavam os pais ler e escrever. Então isso que trouxe, houve uma mudança de consciência. E aí a escola começou a fazer reunião com pais muito mais direcionado à parte de vida, assim, do mundo, a importância da escola, a importância do pai, a importância da mãe, a importância da família na sociedade. Então a gente começou a fazer reunião nesse sentido, ou seja, educando os pais. Antes da reunião nós chegávamos para os pais: “Olha, seu filho reprovou, seu filho teve tanto em matemática, tanto em português, bebebê, bebebê, seu filho cometeu esse ato de indisciplina, seu filho ficou de castigo por isso”. Então a mais ou menos era assim. Depois houve essa mudança de comportamento na equipe. Também, por esse outro lado, em função dos alunos, uma grande parte começar a alfabetizar os pais. E aí houve o inverso. Aí a procura de vagas começou a superar, o número de alunos candidatos começou a superar o número de vagas. Aí foi uma outra dificuldade enorme porque a escola, vamos supor, tinha 150 vagas na primeira série, tinha lá 300, 400 querendo. Aí você ia olhar, você sabia que daqueles pelo menos a metade precisava de verdade, mas não tinha como atender, nem tem até hoje, hoje ainda está pior. Então começou esse conflito. E a escola começou a por regras assim. Primeiro, de preferência alunos que moram na Ilha do Bananal. Se não tiver alunos que moram na Ilha do Bananal que preencham o número de vagas, nós vamos pra região do município de Formoso do Araguaia, as fazendas. Aí é que o bicho pegou, que as pessoas começaram a enganar. O cara morava em Gurupi, aí um amigo tinha um retiro na Ilha do Bananal. Aí ele vinha fazer a inscrição do aluno como se ele morasse na Ilha do Bananal, instruía a criança pra dizer: “Não, lá é assim, assim”. Quando você ia descobrir que ele não morava e nunca morou e nem conhecia a Ilha do Bananal, já estava aí com três, quatro, cinco, seis anos. Vai mandar um rapaz desse embora? Nem pensar. Ele não teve culpa nenhuma, né? Aí, quando foi bem pra cá, a escola instituiu uma outra regra, que dura até hoje. Várias inscrições, são 100 vagas na primeira série, tem 300 candidatos, vamos supor, e selecionamos 105. Vamos visitar casa por casa, não importa aonde, essa equipe vai. A secretária resolve ir pro Maranhão ou uma orientadora. Sempre eles se revezam, casa por casa. É uma maneira que a escola achou de não cometer injustiça, né, deixar de dar uma vaga pra uma criança que realmente mora na Ilha ou mora aqui pra uma que mora no Gurupi, no Formoso, que o pai ou bem ou mal tem condição de morar num local onde tem escola. Eles fazem isso hoje. O custo é alto? É. Você imagina o cara andar 200 quilômetros nessa Ilha do Bananal aí, de carro. O carro atola. Então é complicado. Mas houve mudança nesse sentido. E, como eu disse lá atrás, a questão da resistência dos pais, é porque eles não acreditavam. A partir do momento que eles passaram a acreditar. (Pausa) P/1 – Nessa trajetória o senhor constituiu uma família? R – Ah, com certeza. P/1 – Como foi a história do casamento? R – Bom, eu conheci minha esposa aqui. Ela era professora aqui. Eu cheguei aqui, como eu disse, em fevereiro, ela chegou em abril. P/1 – Um mês depois. R – Um mês depois, né? Nessa viagem que eu fiz em abril, pra arrumar as professoras em Pedro Afonso, quando nós voltamos pra Gurupi, a gente deu uma olhada em Gurupi e ela foi uma das pessoas que vieram. E a gente casou cedo, novo, ainda bem. A gente começou a namorar em...ela chegou em abril, começamos a namorar em maio de 1976 e nos casamos em outubro de 1977, exatamente no dia 21 de outubro. Tive três filhos, os três homens. E os nomes que são engraçados, é Ruite, Robson e Rubens. P/1 – E o da esposa? R – Maria do Carmo. E a gente constituiu uma vida. E minha mulher trabalhou aqui até 1995. Aí nós chegamos num impasse bastante interessante e difícil de tomar. Nossos filhos, o primeiro tinha terminado o segundo grau, estava se formando. P/1 – Aqui na escola mesmo? R – Aqui na escola. O segundo não quis fazer segundo grau aqui, tem aquela coisa de jovem. Aí nós tínhamos e temos uma casa em Gurupi, meu sogro morava lá, ele ficou lá. Mas quando foi em 1995, e aí nós começamos a ter muita dificuldade com ele, era garotão de 12 anos, 13 anos. E minha mulher estava bastante cansada, questão de sala de aula. E aí nós tomamos uma decisão: ela mudar, ela pedia demissão da empresa, mudava pra Gurupi exatamente pra ficar com os filhos e eu ficava aqui. Aí nós já tínhamos estradas mais favoráveis. Então chegava sábado meio dia, pegava o carro e... Todo final de semana, ia sábado meio dia e voltava segunda feira 4:00 horas, 5:00 horas da manhã, todo final de semana. E depois a gente começou a inverter, eu ia um final de semana, ela vinha outro, ia um, vinha outro, a gente ficava invertendo. E os filhos foram crescendo. E aí o meu filho, o do meio, que é o Robson, foi o primeiro a iniciar a faculdade, em 1999, na UnirG [Universidade de Gurupi] que antes, anteriormente era a Fafich [Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas de Gurupi] o nome da universidade, fazer curso de Administração. Aí começamos a pagar a faculdade. Em 2000 o outro mais velho prestou vestibular na UFG em Goiânia pra Musicoterapia e aí também passou e mudou pra Goiânia. Aí começou o meu dilema, vamos dizer assim, um filho em Goiânia, filho em Gurupi e eu aqui, administrar essa... E quando foi em 2003 o outro mais novo também entrou na faculdade de Educação Física. E o meu menino, o segundo que é o Robson, ele trabalhava numa empresa, na época ele começou a trabalhar na Celtins [Companhia de Energia Elétrica do Estado do Tocantins], empresa de energia do estado de Goiás, Tocantins. E ele prestou o concurso pra Polícia Civil no estado de Tocantins, e aí passou. Aí deixou a empresa Celtins. E nesse meio tempo ele casou, casou em 2000, casou garotão. Namorava a menina, a menina engravidou e casou, que é pai daquela menina, da Ana Beatriz. Casou em 2000. E aí deixou a Celtins e entrou na Polícia Civil, resolveu parar de estudar, mandou trancar a matrícula na Faculdade de Administração. O mais velho terminou o curso dele o ano passado, em março foi a formatura dele; continua em Goiânia, trabalha em Goiânia, na prefeitura. Ele trabalha numa ONG chamada Cidadão 2000, que é ligada à prefeitura de Goiânia, casou agora em junho; a mulher dele também é Musicoterapeuta, era colega de faculdade, e continua a vida dele lá. O outro, o Robson, que é o da Polícia Civil, mora em Gurupi e tem aquela filha. A mulher dele faz hoje... está no 8º período de Fisioterapia. E o meu filho mais novo vai fazer o 6º de Educação Física. Então, assim, uma história bem ____. E hoje minha mulher, quer dizer, com os filhos crescerem... Porque o plano era esse: “Você vai pra lá, daí a dois, três anos eu vou embora.” Essa era a ideia. O tempo foi passando, foi passando, foi passando, e a gente foi ficando, e hoje ela mora aqui, quer dizer, não tem mais necessidade nenhuma, não tem mais filho pequeno. Os filhos terminaram os seus cursos, estudaram, se tornaram homens. Então aquela fase de adolescência, que precisava de uma pessoa ali mais próximo, passou e hoje ela mora aqui. Estamos só nós dois, igual começamos, igual começamos lá em 1977, só os dois, e os filhos por aí. Mas assim, na questão de família, eu sempre assim... É uma outra coisa que a escola nos ensina bastante, essa questão da importância da família. E a gente quando casa, você às vezes pensa, idealiza. De repente você põe os pés no chão e, enfim, a coisa não é bem como você imagina. Mas no sentido de realizado como pai e como esposo eu acho que eu não tenho muito a reclamar não. Primeiro pela esposa que eu tenho e pelos filhos que eu tenho. Assim, meus filhos não bebem, não fumam. Tem um que bebe mais ou menos, mas tem dois que não bebem de jeito nenhum. Quer dizer, isso é muito raro. E um bebe mas não fuma. E eu sou fumante, essa é a questão. São três jovens aí, um futuro promissor, cada um já praticamente com a sua vida começada, que só depende deles. Tudo que eu e a mãe podíamos fazer a gente fez, que era de dar condições pra estudar, pra fazer um curso superior, ou seja, se preparar pra enfrentar essa vidona, esse mundão, que não é fácil. A concorrência hoje é brutal. Tenho uma neta que é uma coisa maravilhosa, não precisa nem falar. Hoje ela tem cinco anos. P/1 – E, fazendo uma avaliação sobre a importância da fundação na região, o senhor acha que ela fez a diferença quando chegou aqui? R – Vixe Maria. Eu vou te citar um exemplo. O ano passado... A eleição pra prefeito foi o ano passado, né? Foi o ano retrasado, a secretária de educação em Formoso do Araguaia, uma ex-aluna nossa, a Isabel, foi secretária durante quatro anos. Ela foi considerada uma das melhores secretárias de educação do estado de Tocantins. De 60 ...ela fez um levantamento, quase 60% dos professores de Formoso do Araguaia são ex-alunos. E Formoso do Araguaia mesmo, nesses quatro anos, foi considerado uma das cidades que teve maior evolução na educação do estado de Tocantins, tanto é que uma secretária não vai receber um título de uma das melhores do estado se os seus professores não fizerem por onde. Quer dizer, não tem jeito, né? E quase 60% dos professores do Formoso do Araguaia eram ex-alunos. Eram não, são ex-alunos. A região sabe, todo mundo sabe que a região foi antes e depois da criação da Fundação. E você vai no estado, hoje uma grande parte dos funcionários públicos estaduais são ex-alunos. Em qualquer cidade que você vá, você tem ex-alunos em prefeituras, secretarias, no estado, Polícia Militar, enfim. Hoje, pra você ter uma ideia, uma das maiores autoridades da Universidade Federal do Estado de Tocantins é um ex-aluno nosso. Ele é doutorado em Reprodução Vegetal. Ele é um ex-aluno nosso. É a maior autoridade em Reprodução Vegetal do Estado de Tocantins, quer dizer, ele é um dos responsáveis pelo programa de experimentos no estado de Tocantins, através da Universidade Federal de Tocantins. Então, assim, a importância que a escola tem, sem contar a agropecuária. Por exemplo, a escola foi pioneira em inseminação artificial. A primeira fazenda a trabalhar inseminação artificial foi a escola. Nós começamos a inseminar aqui exatamente em 1979, só o gado de leite. Depois houve a transferência da Pecplan pra cá, então hoje quase todo o rebanho dessa região é oriundo da Pecplan Fundação Bradesco. Todo o rebanho bovino da raça Nelore tem origem aqui na Pecplan. É um trabalho que a escola fazia, tinha uma equipe, tinha veterinários, tinha toda uma equipe. E começou a se trabalhar no melhoramento genético do rebanho na região. P/1 – E Nelore era a maior criação de gado no estado? R - No mundo e no Brasil. _____, no Brasil. Então todo o rebanho, basicamente, dessa região, é oriundo do rebanho. ______, foi a primeira região a começar a trabalhar com melhoramento genético através da inseminação artificial. Nós não somos muito acima é na agricultura, que a gente mantém aquela coisa só mesmo pra se manter. Agora, na área de educação não tem. Por exemplo, no ano retrasado, o Governo Federal tem um programa de gestão de escola, escolhe a melhor escola em cada estado. No ano retrasado a melhor escola do estado de Tocantins, uma escola em Gurupi, a diretora é ex-aluna. Que escola é assim, quando a diretora é um ex-aluno normalmente quase todos os professores são. Porque na hora que surge uma vaga, ela fala: “Não, vou buscar a fulana que estava lá.”Então foi considerada uma das melhores escolas do estado de Tocantins. Você vai lá, só são ex-alunos. Nós temos exemplos de alunos que tiveram problemas, têm, mas assim coisas raríssimas. Eu costumo falar assim que um dos maiores orgulhos, prazer que a gente tem, que nem outros tantos colegas que estão aqui desde o começo acompanhando essa evolução passo a passo, às vezes cheio de dificuldades. Mas assim, você vê que uma grande parte, 90, 95% dos alunos, eu gosto de falar assim, que se deram bem na vida. Agora, quando você fala assim, às vezes as pessoas falam que se deu bem na vida você imagina. “Não, tem um bom emprego, enricou, ganhou dinheiro”. Não, não, não estou me referindo a isso. É que achar o seu espaço ali dentro de sociedade com respeito e dignidade, não importa se trabalha de zelador num colégio, se é guarda num banco, não importa. Mas eles acharam o seu espaço ali dentro da sociedade, e com respeito e dignidade. E se a gente for olhar isso aí, mesmo casado, morando num assentamento, às vezes têm muitos que casaram, arrumaram uma posse. Mas são pessoas que acharam o seu espaço dentro da sociedade e são pessoas honradas e simples. Então essa é uma das coisas assim que deixa a gente assim feliz, deixa, enfim, porque a gente sabe que naquele caboclo ali, naquela menina, naquele rapaz, tem pelo menos uma pontinha da sua unha ali, né? Pelo menos uma pontinha tem ali naquele sujeito, que está ali dentro. E sem contar o engrandecimento. A gente não trabalha pra isso, mas é gostoso demais. Você trabalha com a educação, aí você se forma aqui. Daí dez anos, ela foi sua professora, você encontra com ela e fala: “Nossa, professora, mas lhe devo isso, aconteceu isso. Se não fosse isso... Se hoje eu sou assim, devo a isso, aprendi isso, sou grato a isso. Tal tempo você fez isso comigo, eu fiquei “pê da vida” mas logo depois eu reconheci que foi pro meu bem.” Você entendeu? Foi aquela... E é por isso que existem professores, existe gente na educação. É por isso, porque o resto não compensa. P/1 – E pro Brasil, qual que o senhor acha que foi a importância da Fundação com essa coisa de procurar sempre os lugares onde não têm chance mesmo, de estar levando essa oportunidade pra esse pessoal? R – Eu vou só voltar um pouquinho atrás. Um dia desse nós tivemos um encontro de alunos egressos aqui na escola, já foi pro terceiro ano seguido. O pessoal vem de fora trocar experiência, trazer pro aluno nosso sua vida, as dificuldades, enfim. E a gente estava conversando com _____, e aí o menino disse uma coisa. Ele está até, ele trabalha no Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] e está no último ano de Agronomia. Ele falou assim: “Rui, hoje se nós tivéssemos o poder, todos nós ex-alunos, alguns ex-funcionários da Escola de Canuanã, se nós tivéssemos o poder e a capacidade de nos unir em torno de um objetivo, ninguém nos segurava. Mas é verdade, assim, vamos supor, na área política, na área social, enfim, ninguém segurava porque são tantos. E, assim, e pessoas que acreditam na... Porque outra coisa que a escola ensina, graças a Deus, é acreditar no ser humano, acreditar na sociedade, acreditar no Brasil, acreditar que a gente, não importa se A, B, C faz isso ou assado, mas que nós somos capazes de cada um fazer um pouquinho, mudar alguma coisa”. Então ele me disse isso, eu fiquei raciocinando, falei: “Mas ele tem razão”. Se junta, dentro do estado de Tocantins, a gente mudava, eles, né, pelo que cada um é, que cada um ocupa, a inteligência que eles têm, a formação que eles receberam, como eles vêm o futuro, como eles foram educados, como eles foram formados. Então eles seriam capazes, tranquilamente, de fazer isso. Tanto é, acabei de citar um exemplo, quando se junta um grupinho em determinada instituição o resultado é óbvio. Eu acabei de citar o exemplo da secretária de educação de Formoso, acabei de citar o exemplo da Escola de Gurupi, que é onde um grupo de ex-alunos é maior volume. É destaque na certa, né? Agora, em termos de Brasil é uma consequência, não tem jeito, porque o aluno nosso não está só no Tocantins. Mato Grosso é um dos estados que nós mais temos ex-alunos. O Pará, hoje o sul do Maranhão, o próprio São Paulo, Minas, Goiás. Então, esses estados nós temos ex-alunos demais. Mato Grosso, tanto Mato Grosso como Mato Grosso do Sul, Bahia que divisa com o Tocantins. Então nós temos ex-alunos espalhados nesse Brasil inteiro. E quando chega o final do ano, começa a se formar os alunos, você começa a receber e-mail, telefone do Brasil inteiro: “Ah, eu preciso de um técnico pra isso, eu preciso de um técnico pra isso”. Então às vezes você chega ao ponto de, quando nós vamos sair, todo mundo sai com a direção. Às vezes sim, nem sempre. Também existe uma dificuldade muito grande em nosso jovem, ele sair de uma escola dessa com tudo. Aí ele vai pra uma fazenda que às vezes não tem nem energia. E já aconteceu comigo, aconteceu com centenas. O impacto é muito forte. Chega de noite, sozinho, escuro, alimentação não tão boa quanto a que ele tem aqui. E esse é o lado que a escola está trabalhando demais pra fazer o aluno ver que ele tem que passar por isso, tem que passar senão ele não vai sair daqui e ir pro céu. “Ah, vou arrumar um emprego aí.” Então hoje nós temos essa dificuldade em conseguir fazer. E um outro problema é que os nossos meninos estão tendo um segundo grau muito novos, 18 anos, 19 anos. No máximo 20 anos. Então são muito jovens, assim, pra encarar um serviço numa fazenda, chegar ali e mexer com peão, mandar peão, lidar. São muito crianças ainda. Essa parte é muito complicada hoje. De uns dois anos pra cá a gente tem essa dificuldade. P/1 – E pro senhor, o que o senhor acha dessa iniciativa da Fundação Bradesco estar fazendo o resgate da história dela através da história das pessoas que viveram? R – Eu disse pra você no começo que um dos grandes problemas que nós tínhamos é que a escola era fechada. A própria instituição não permitia a divulgação, não permitia uma visita. Se, por exemplo, se alguém, uma autoridade qualquer solicitasse uma visita aqui, a diretora tinha que ligar pra São Paulo e passar por uma série de avaliação, aquela "coisera" toda. A Fundação praticamente não era divulgada, ninguém conhecia. No começo conhecia através dos ex-alunos: “Ah, estudei na Fundação”. “Fundação?” E de uns anos pra cá a Fundação me parece que mudou essa visão. Agora, cara, essa questão de divulgar, pra nós, você não imagina, eu até brinquei agora, se fosse por mim eu ficaria aqui só tomando café. Ficava aqui uma hora, duas horas, três horas, quatro horas, cinco horas falando da Fundação, especificamente da Escola de Canuanã, não jantava, não almoçava, não tomava café, ficava aí horas. Mas esse trabalho é magnífico. Você já imaginou. É um livro que vocês vão publicar? Não sei se os livros vão ser só pra instituição ou se vão mandar pras bibliotecas, se vão mandar pra terceiros, eu não sei. Mas você imagina, assim, você como ex-aluno. Você está lá, vamos supor, vamos colocar bem longe, lá em São João Del Rei, lá na terra da _______. Você estudou aqui. Aí, de repente você vai numa biblioteca pública ou numa própria agência do Bradesco, o livro lá. Aí você, aí de repente você vai rever toda a sua história, toda ela, quando você chegou aqui, a dificuldade, o que você aprendeu, as malandragens que você vê que são demais quando faz. Então você vai rever tudo. Como é que você se sente? De repente pode ser até no momento que você está pra baixo pra caramba por ene motivos da vida. Você pega um livro daquele e está lá na Fundação. Aí você pega lá uma parte sobre a Escola de Canuanã, aí está lá: “Aqui quem falou foi o senhor fulano, quem falou foi o senhor fulano”. Nossa, aí que você, quer dizer, se você estiver pra baixo com certeza você sobe. Mas não tem jeito. E o ex-funcionário. Assim, o resultado de um trabalho desse não tem preço. Assim, pra quem já passou aqui, pra quem está aqui e também pra quem vai passar, que amanhã o aluno entra aqui, daqui dez anos ele vai pegar um livro desse e vai ver: “Não, eu estudei lá. Eu também, um pouco depois, faço parte dessa história. Eu convivi com essa história, eu vivi uma parte dela.” Eu acho que é coisa assim, e são 50 anos. É a metade da vida. Ah, quem dera a gente durar 100 anos. Mas é, eu diria assim, a metade da vida das pessoas, de uma instituição. Quando nós comemoramos 10 anos da Fundação Bradesco foi assim uma emoção muito grande, foi uma baita de uma festa. Veio jornalista aí, trouxeram jornalista de tudo que é...Folha de São Paulo, Globo, Manchete, Jornal de Brasília, tudo que foi jornal e revista, Isto é, Veja, todos eles tiveram profissional aqui. Então a gente pensava assim: “Nossa, 10 anos.” Aí a gente pensava: “Será que eu vou estar aqui nos 20 anos? E nos 30?” Então quando foi aclamado os 30 anos, pra gente que estava nos 10 anos e que estava nos 30 anos foi uma coisa assim fantástica. Quer dizer, a emoção foi muito forte, as pessoas como eu, o senhor Antônio que era aposentado, o cara não consegue falar nada porque a emoção toma conta e não tem jeito. E 40 anos, foi _____ da Escola de Canuanã. Quem está aqui, quem vai fazer parte dessa história. Aí é onde entra esse trabalho que vocês estão fazendo, não importa a época em que você esteve, que você vai estar. Direta ou indiretamente você vai fazer parte dessa história, desse livro, dessa, enfim, desse trabalho. P/2 – Tem alguma coisa que o senhor gostaria de contar, que nós não perguntamos? P/1 – Pode selecionar, deve ter várias. R – É assim. A gente falou muito assim sobre a parte assim de trabalho assim. Agora, tem uma coisa assim que sempre fez com que as pessoas aqui tivessem uma vida profissional aqui dentro mais longa, porque não é fácil. Se você imaginar, não é fácil você, porque aqui não é que nem uma escola comum. Aqui você, quer queira quer não, você está envolvido durante o dia todo. Não tem aquele negócio de ser oito horas, não tem jeito. Oito horas é o compromisso lá no meu setor, de chegar lá. Eu entro às 6:00 horas saio às 11:00, entro às 13:00 saio às 16:00. Mas fora dali não existe, não tem como. Se você vai aqui, aí tem uma criança no pé de manga. Você tem que chegar lá, parar: “Filho, desce daí.” Às vezes o menino manda você tomar lá não sei aonde, xinga: “Ah, não é da sua conta”. Alguns não fazem isso, mas a grande parte faz. Você tem que ter paciência: “Oh, filho, desce daí. Você vai quebrar o braço”. Você tem que arrumar um jeito de convencê-lo a descer. Às vezes você está até descendo pra almoçar ou jantar, apressado. Você corre até o risco de chegar, o restaurante ter fechado. Mas você não pode passar e fazer de conta que não viu. Então o envolvimento é toda hora, assim, todo dia. Não tem negócio de sábado, domingo. Você estando aqui, não saindo da escola, aquilo é todo dia. Mas por outro lado existe a parte que nos deixa assim bastante tranquilo, é porque a gente é uma comunidade que vive muito de brincar. _____, não dispensa uma gozação. Você pisou na bola, meu irmão, com qualquer coisa, você pode ficar sossegado que o pessoal vem mesmo. Então não adianta. Então isso cria assim uma relação muito forte. Isso não tem negócio... E outra vantagem nossa é que a gente não tem, lógico, no horário de trabalho de cada um é ____, mas passou daí não tem diferença se é diretora, se é diretor, se é professor, se é zelador, não tem diferença esse relacionamento, não tem diferença. Não tem negócio de Sr. Fulano, Sr. Beltrano, sim senhor, não senhor. Não existe isso. Então isso faz com que todo mundo fique à vontade. E a brincadeira lá é assim, faz parte da nossa cultura. Às vezes você pode até ir pra uma brincadeira um pouquinho mais pesada às vezes, mas ela faz parte. E principalmente as coisas, que o aluno faz muita besteira, besteira demais. Lógico, faz parte, é o jovem. Se não fizer, tem alguma coisa errada. Se o aluno não tentar burlar as normas: “Ah, é proibido tomar uma cervejinha”, ele vai achar um jeito de trazer uma latinha escondida, vai tomar. “Ah, é proibido namorar segunda-feira”. Ele vai dar um jeito de namorar segunda-feira. “Ah, tem que, não pode matar serviço”. Sempre que ele puder ele vai matar serviço. É normal e faz parte da formação do jovem. E a gente tem que fazer isso, resolver de um jeito meio brincalhão, porque se você não fizer assim... Porque é assim, você não é nem pai, nem tio, você não é nem uma coisa nem outra. Mas ao mesmo tempo você é pai, você é tio. Eu não sei se vocês estão entendendo. Ou seja, na prática eu não sou nem pai, nem tio, nem avô, nem nada. Assim, de sangue. Mas na prática eu sou, eu sou pai, eu sou tio, eu sou avô, eu sou irmão. E depende da situação ou vou ter que atuar como pai ou vou ter que atuar como irmão ou vou ter que atuar como um tio. De uma forma ou de outra tem que escolher um personagem desse pra atuar. E eu, particularmente, eu gosto de atuar muito mais como irmão, porque aí eu vou na gozação. P/1 – Eu queria perguntar o que o senhor achou de participar dessa entrevista pro projeto da história oral da Fundação Bradesco, ter sido um dos convidados. R – Quando o Ricardo me ligou, isso tem mais ou menos um mês, talvez, que ele não afirmou, ele falou: “Há essa possibilidade, você aceita?” Eu falei: “Rapaz, mas é com todo prazer.” Quando foi agora a semana passada o Manoel me ligou, depois eu conversei com você. Pra mim, pessoalmente pra mim, pra minha família, pros meus amigos, as pessoas que me admiram, que me respeitam, assim, eu diria que isso é quase que uma homenagem. Eu me sinto assim. É como se eu estivesse sendo homenageado. Não sei porque, mas é como se eu estivesse sendo homenageado. E eu fico assim extremamente feliz, mas feliz demais por fazer parte, por poder ajudá-los. E é uma coisa assim que não tem preço. Não tem preço isso aqui. Tanto é que eu disse aquela hora que eu fiquei aqui, até então porque eu não estou trabalhando, matando serviço. P/1 – Então, em nome da Fundação Bradesco e do Museu da Pessoa, a gente queria agradecer imensamente essa entrevista. R – Ah, rapaz, eu é que agradeço. Eu quero só complementar uma coisa. É uma coisa que eu sempre digo, aliás, que eu sempre falo pra colegas, pra alunos. Assim, eu, e uma maneira também de me eximir das minhas falhas. Tudo que eu fizer, de certo ou de errado, a única responsável chama-se Fundação Bradesco. É verdade, porque a Fundação é responsável pela minha formação. Quem me fez foi a Fundação Bradesco. Eu cheguei aqui, não tinha experiência profissional, não tinha experiência como pessoa. Então, qualquer coisa que eu vier a cometer, coisas boas, outras nem tanto, a fundação é responsável, eu não tenho culpa nenhuma. A última vez que eu conversei com o Senhor Carlos, tem dois anos atrás, ele ficou emocionado. Eu falei: “Senhor Carlos, se a fundação fosse uma pessoa, uma mulher, um homem, eu seria capaz de todo dia cedo levantar e beijar os seus pés”. Aí ele falou: “E eu também”, pelo que essa empresa me deu. Me deu um trabalho digno, uma família, quer dizer, graças à fundação eu consegui constituir uma família com dignidade, com padrão de vida razoável, escola pros filhos. E acima de tudo, eu me considero uma pessoa muito rica em termos assim, como diz o pai da Lílian, o senhor Antônio, de sabedoria. Ele gosta de brincar, o senhor Antônio: “A gente não fica velho, a gente fica, cada ano que a gente envelhece, fica mais sábio.” E a Fundação tem isso porque a gente convive com pessoas de vários níveis, e a gente aprende a tirar de cada um o que ele tem de bom, e o que ele tem de negativo a gente deixa um pouquinho de lado. E eu tive essa sorte de conviver com pessoas fantásticas, tanto profissionais locais como da matriz, pessoas que eu admiro, que eu respeito, e, enfim, eu vou admirar sempre. É isso, meu amigo, eu fico muito feliz de estar aqui, pode ter certeza disso. P/1 – Então novamente muito obrigado. ----FIM DA ENTREVISTA----
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