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História

Pré-sal: o ínicio de uma nova era

História de: Márcio Félix Carvalho Bezerra
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Infância em Brasília. Criação da Informação de Publicação Aeronáutica. Criação e gerência das unidades petrolíferas no Sul e Sudeste em 2000. Administração na Petrobras. Descoberta e produção do Pré-sal em Espírito Santo no Campo Jubarte. Início de testes petrolíferos em águas profundas. Descoberta do parque da Baleias.

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História completa

Memória Petrobras – Pré-sal

Depoimento de Márcio Félix Carvalho Bezerra

Entrevistado por Márcia de Paiva e Inês Gouveia

Rio de janeiro, 22 de julho de 2009

Realização Museu da Pessoa 

MPET_HV010

Transcrito por Ana Lúcia V Queiroz

 Revisado por Júlia Teixeira Reis

 

 


P/1 – Para começar vou pedir para que você diga o seu nome completo, local e data de nascimento.


R – Meu nome é Márcio Félix Carvalho Bezerra, nasci na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 9 de maio de 1958.


P/1 – Márcio, qual o nome de seus pais?


R – Meu pai é Dagoberto Felix Bezerra de Araújo Galvão e a minha mãe, Silvia Carvalho Bezerra.


P/1 – Qual a atividade de seu pai?


R – Meu pai é militar, hoje está aposentado. Ele gosta de mexer com fazenda, terra. Ele continua ativo nessas atividades rurais.


P/1 – E a atividade da sua mãe?


R – Minha mãe, mãe padrão daquela época: Cuidou de nós todos e continua cuidando dos netos. Atividade que chamam do lar, mas não é só do lar. Padrão mãe, mãe das antigas.


P/1 – Você tem irmãos?


R – Tenho duas irmãs.


P/1 – Você é o mais velho?


R – Sou o mais velho. Mas é uma escadinha. Eu nasci no Rio e minhas irmãs nasceram na Bahia.


P/1 – A sua infância foi no Rio?


R – Não. Eu com três meses de idade mudei para Salvador. Passei três anos em Salvador; fui para Brasília no início de Brasília. Vi Brasília nascendo. Cheguei lá com três anos de idade e morei até os oito.  Comecei a estudar em Brasília, depois fui para Natal, onde passei mais cinco anos. Voltei para Brasília, fiquei mais uns dois anos e meio; já estava no ensino médio. E aí fui para Belém, a passagem por lá foi rápida: Um ano e pouco em Belém; fui para a segunda série e voltei na terceira, faltando três meses para o vestibular. 


P/1 – Isso tudo acompanhando teu pai?


R – Acompanhando o meu pai. Meu pai disse assim: “Você fica em Belém, faz o vestibular, porque você tem grandes chances de passar, depois você cursa três meses e vai para Brasília”. Eu falei: “É melhor eu ir porque qualquer coisa eu já fico: 'graças a ele eu não passei no vestibular'. E se eu ficar aqui já está contando que eu já passei”. Não foi tão simples assim, mas a gente optou e eu fui para Brasília. Fiz vestibular, fiz o curso de Engenharia Eletrônica na Universidade de Brasília. Só que quando acabei o curso meus pais não estavam mais em Brasília.  Faltando um ano e meio para acabar o curso eles se mudaram de novo para Natal e eu fiquei. Desde então, esses últimos 30 anos, a gente morou em cidades diferentes. Porque depois eles voltaram para Brasília, mas eu segui outro caminho. Comecei a trabalhar. A primeira não foi na Petrobrás [Petróleo Brasileiro S.A.], eu era estagiário.


P/1 – Vamos detalhar um pouquinho: como era essa coisa de mudar de escola com tanta freqüência? Mudar de cultura em que essa escola estava inserida. 


R – Essas mudanças, mesmo sem a gente ter conhecimentos, de estudar alguma coisa nesse sentido, cada um vai criando suas defesas, digamos assim. Então eu, nem compartilhando muito com as minhas irmãs eu estava, sem dialogar com elas, mas acompanhando o que elas. E também eu resolvi adotar o seguinte modelo, a conclusão que eu cheguei depois das primeiras mudanças foi a seguinte: Sempre era igual, a gente nunca queria ir embora do lugar onde estava. Então o negócio é não se apegar tanto porque senão você não conhece novas pessoas. Qual a vantagem de mudar? Você conhece outras pessoas que você pode ficar a vida inteira, mas as relações passam a ser mais superficiais, mais efêmeras, mais temporárias. Aí a gente tenta praticar o desapego, vai se desapegando demais. Mas isso também chega o limite, com dez, quinze anos de idade é uma coisa. Depois passa para 20, a gente vai mudando também, começa a ter envolvimentos, namoros, amizades mais fortes. Em cada lugar eu estudava qual a relação daquele lugar com o resto do Brasil. Porque eu era criticado por causa do sotaque. Hoje meu sotaque não é identificado com lugar nenhum: sempre sou de outro lugar. Eu não sou do Rio; o pessoal do Rio: “Nossa, você não tem sotaque de carioca”; se vai para Natal, não tem sotaque de potiguar; em Brasília, que hoje é sotaque misturado, mais para mineiro, goiano. Então eu fiquei sempre de fora. 


P/1 – Isso te incomodava?


R – Em alguns momentos. Uma vez que saí de Natal para Brasília – como eu fui de Brasília para Natal o pessoal me chamava de carioca – e eu não tinha sotaque de carioca, mas para lá era como se fosse. Então eu adaptei em pouco tempo meu sotaque para o local. Aí quando fui para Brasília fui criticado pelo sotaque de lá. Aí eu disse: “Eu vou para o meio termo”. Eu não admitia que tinha que mudar. Por que eu tinha que mudar tanto? Achei um ponto de equilíbrio, nos lugares que eu morei eram, sei lá, Belém. Outro lugar que depois, quer dizer, Belém eu morava com meus pais, depois que eu continuei mudando eu já não mexi mais no meu sotaque. Aí o sotaque ficou esse aí. Dá para circular pelo Brasil, não é um choque para nenhum lugar, mas é diferente de qualquer lugar. Passo a me sentir mais brasileiro que de qualquer lugar. As pessoas me perguntavam: “De onde você é?”. Eu tinha que respirar fundo para pensar que historinha eu ia contar naquele momento.


P/1 – E das diferenças culturais desses lugares que você morou: Tem alguma coisa que te marcou, alguma coisa que você guarde?


R – Foram vários momentos: Primeiro que tive a oportunidade de ver a História do Brasil acontecer. Tinha três, quatro, cinco anos de idade e Brasília começando; as primeiras lembranças. Eu me lembro do dia que cheguei a Brasília. Depois tem um hiato aí. Mas de Brasília se falava muito o seguinte: Que a capital ia voltar para o Rio de Janeiro, que era um absurdo aquilo ali. Então o modelo inicial de Brasília era uma combinação social muito grande. Você chegava lá e a Novacap [Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil], falava: “Você vai para tal lugar”. As pessoas que chegassem, não era na rodoviária, não sei aonde que era, no primeiro dia eles já diziam: “Você vai morar em tal lugar”. E era por ordem de chegada, não era por ordem de importância das pessoas. Havia uma convivência, isso em 1961, que o Brasil estava num modelo um pouco diferente. Eu não morei em área militar, porque até não tinha, hoje está cheio. 

Brasília é uma cidade muito segmentada; já foi mais, mas no iniciozinho todo mundo era muito unido. Acho que foi um aprendizado de Brasília de conhecer as pessoas da história; como as pessoas foram para lá. Como era a vida de cada um. Via pessoas de vários lugares do Brasil. Era um sincretismo de coisas. Brasília tem um lado mais esotérico, o lado das religiões. A gente acha que vai ter contato com disco voador; que lá vai ser a salvação do mundo; o sonho de Dom Bosco. Aquilo tudo era um caldeirão, muito diferente de Salvador, de onde eu tinha vindo e freqüentava ___ de lá. Bahia, Salvador principalmente, tem todo um sincretismo religioso, mas Brasília é um negócio mais ecumênico, mais aberto, o planalto. Eu gostava de ver aquelas frases do Juscelino Kubitschek, a história de Brasília. Tive uma ligação muito grande com Brasília, com a história de Brasília.


P/1 – Você se lembra de Brasília de 1961, dessa cidade que está começando? Foi uma experiência única.


R – Eu me lembro eu tinha uma musiquinha que era: “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. E para mim aquilo era o hino de Brasília porque lá tinha muito redemoinho. Era muito descampado, barro vermelho, sem grama. Dava aquela ventania e ficava tipo um mini furacão. E a gente se divertia e via as folhinhas rolando, e aquele barro. A gente voltava para casa vermelho disso aí. E tinha muita construção de madeira, uma coisa que para mim, não era favela, eu não tinha imagem de construção de madeira, sempre era de concreto. Mas o acampamento, núcleo bandeirante onde ficavam os operários. A gente freqüentou esse, vamos dizer assim: Brasília era tão pequena que você conhecia do Presidente da República ao contínuo do banco. Pessoas que acabavam de alguma maneira se encontrando. Brasília foi, vamos dizer, as construções todas sendo concluídas ainda; as pessoas chegando, os sonhos. O lago tem um perímetro de 82 quilômetros aproximadamente. É um lago comprido e o terreno em frente tava há 40 quilômetros de distância. Se tivesse uma ponte era ___. E as pessoas não queriam o terreno nem de graça. A gente não queria nem de graça. Diziam: “Não, isso não vai valer nada, a gente vai embora, isso vai ficar no meio do mato. Os que acreditaram compraram terreno a preço de nada, e hoje são terrenos caríssimos. No colégio a gente convivia com, olhava assim, o cara chegava num carro oficial. E assim, como era tão pequeno, a gente estudava com as pessoas todas. Havia uma diversidade, não havia uma segregação social como talvez seja mais hoje. As pessoas se uniam muito. O que marcou o início de Brasília foi isso. Brasília foi planejada para ter tudo próximo. Os colégios eram sempre, tem um setor. 


P/1 – E você voltou a morar lá depois de um tempo?


R – Morei três vezes em Brasília. Foi o lugar que eu mais morei. Morei 13 anos somando as três vezes.


P/1 – Deu para fazer também essa análise da evolução do crescimento depois do tempo.


R – Tirando fotografias, depois de passar algum tempo e depois continuando freqüentando, a gente vai vendo a transformação. Por exemplo, Brasília chegava o final do ano era um deserto. Todo mundo quase ia embora para viajar para algum lugar. Ficar no natal em Brasília era tristeza total. Todo mundo ia encontrar as suas famílias em algum ponto do Brasil. Não existia o brasiliense. Foi uma formação e durante um período muita gente acreditando que Brasília não iria para frente. Tinha assim: “Será que vai? Será que não vai?” Aquilo não me afetava muito naquele momento, mas eu torcia por Brasília embora não fosse candango. Brasília acabou me dando várias coisas na vida.


P/1 – Falar agora no contexto mais doméstico da vida: Como era dentro de casa a tua relação com a tua mãe, com as tuas irmãs?


R – Como em Brasília a gente estava longe do núcleo familiar maior, ou seja, Natal de meu pai e Salvador da minha mãe, onde tinha muita família. Mas tinha um ou outro parente. Isso fazia que o nosso núcleo ficasse mais unido. Naquele tempo quase ninguém tinha carro. Às vezes saíamos assim: Meu pai carregava as minhas duas irmãs no braço, eu ia andando. Até que um dia a minha mãe falou para o meu pai: “Não dá mais para viver sem carro. Só me apareça aqui com um carro. Dê um jeito porque as crianças estão crescendo”. Aí meu pai chegou com um fusquinha vermelho, devagarinho. Conseguiu comprar. A indústria automobilística estava se instalando no Brasil. As primeiras oportunidades. Naquele tempo não tinha inflação. Comprava assim, pagava à prazo. Então a gente ia passear. Meu pai gostava de dar a volta no lago, olhar o lago para ver, ficava achando como ia ser no futuro. A gente ia na barragem de Paranoá, que formou o lago de Paranoá. Visitávamos alguns parentes. Para mim, que era pequenininho, achava que aquilo era quase um ritual, tinha que cumprir uma obrigação. 

Tinha alguns conhecidos no colégio. Eu como menino e minhas irmãs mais ou menos da mesma idade, mas acabava que eu me dava bem com elas. Elas brincavam e tal, mas eu ficava meio de lado. Eu era mais reservado, com duas irmãs, cada uma de um jeito. Mas eu já achava que não podia andar com meninas, com quatro, cinco, seis anos de idade. 

Tinha essa brincadeira de clube. Socialização através de clube; freqüentar o clube. Eu não gostava porque os clubes eram muito assim: tinha Clube do Exército, Clube da Aeronáutica, Clube Naval, Clube do Banco do Brasil, quer dizer, AABB [Associação Atlética Banco do Brasil], Clube Central. E praticamente só ia aquela turma e eu queria um negócio diversificado; eu queria uma mistura. Então eu era meio ovelha desgarrada desses rebanhos aí, porque eu não gostava de frequentar esses locais. A gente não morava em quadra militar, que já era uma vantagem, tinha gente de tudo que é lado. E você já era rotulado filho de não sei quem. 


P/1 – Isso foi escolha do seu pai: Não morar nessa área reservada?


R – Não, foi pela chegada. Não havia disponibilidade; foi determinação da Novacap, não sei de quem era. Fomos para lá e moramos e só saímos desse apartamento quando a gente foi embora para Natal. Aí esteve a oportunidade de comprar; vender esse apartamento. Aí comprou esse, numas ondas que o governo resolveu vender os imóveis que eram. Mas era um outro mundo, por exemplo, não tinha condomínio. O pessoal reclamava: “Não, a empresa é do governo, a Novacap que tinha que fazer elevador, jardim. Ninguém pagava e todo mundo achava isso o mais natural do mundo. Brasília deu muito incentivo para as pessoas irem. Tinha a “dobradinha”, que era um salário a mais que as pessoas recebiam para ir trabalhar lá. As pessoas recebiam o salário da onde trabalhavam e o governo, sei lá, o Distrito Federal, pagava mais outro salário. Depois isso foi reduzindo e desapareceu. Eu fui a exposição da Petrobrás lá, eu conheci, o prédio da Petrobrás tem muitos, acho que desde o início de Brasília. Acho que o primeiro poço da Petrobrás no Brasil foi lá em Brasília, perto de Brasília, o núcleo Bandeirantes. Meu pai sempre dizia assim, meu país gostava de botar a gasolina azul, porque era gasolina aditivada: “Essa gasolina a gente sabe que é verdadeira”. Falava da Petrobrás, a gente foi na exposição, ele mostrou lá uma borracha, um negócio sintético, falou assim: “Isso aqui vem do petróleo”. Pensava que o petróleo era um negócio todo sujo, todo cheio de mato, cheio de óleo. A imagem que tinha dos filmes antigamente. Enfim, lá eu tive uns contatos com o que seria a Petrobrás na minha cabeça. 

 

P/1 – A sua relação com seu pai na juventude era uma relação próxima, vocês conversavam? Ele te contava as coisas?


R – Meu pai era – é, mas já menos – reservado, mais de uma família de oito irmãos. Com catorze anos de idade ele foi mandado estudar interno em Recife e não voltou mais para casa. Mas a gente não levava em conta nada disso, que ele também tinha demanda. Mas a relação era muito boa. Meu pai gosta muito de esportes e eu sou mais do estudo, e achava que estudo e esporte não combinavam. Hoje em dia eu sei que combina bem, hoje o pessoal faz tudo. Então, meu pai gostava muito de esporte, mas não gostava de futebol. E eu gostava de futebol. Ele fazia tudo que era esporte: Atletismo, corrida, salto, negócio de moto, demonstrações. Era meio “globetrotter”. Mas sempre estava com a gente; levava a gente passear. Um pai mais rural também; ele sempre esteve vontade de estar próximo a terra, pisar no chão. E a gente ficou mais urbano. Então tinha isso: Ele fazia a gente querer gostar, levava para o mato. “Ah, meio do mato, fazer o que aqui? Neste negócio não tem nada”. Mas aí a gente se divertia, vai as coisas. Foi interessante. Ele com certeza tinha uma relação mais próxima de mim do que das minhas irmãs. Minha mãe também tinha. Eu acho que, não era bem um problema, mas tinha que ser administrado, eu era o mais querido. Não mais querido, eu era mais idolatrado, sei lá. Era o exemplo de tudo bom. Mesmo quando não era, a fama quando vai. Isso incomodava um pouco minhas irmãs. Só mais recentemente que a gente foi revisitar, depois da distância. Bobagens. Mas uma relação normal, muito tranqüila.


P/1 – Mas por que você era tido como exemplo? Quais eram as características?


R – Eu acho que talvez porque tudo que projetavam eu tentava ser. Não é que eu fosse o bom nisso ou naquilo. Mas se diziam assim: “É bom chegar em casa até às nove horas da noite”. Aí eu oito e 59, no máximo, estava em casa. “Nove horas da noite? Nove é muito cedo”. Chegavam e rompiam essas coisas. Então sempre ficava: “Mas o Márcio vem”. No estudo, mesmo. Eu acho que fiquei responsável muito cedo. Não só perante pai e mãe, mas perante a família de um modo geral. Interpretei o papel. Até certo ponto era eu mesmo e um pouco era uma forçação de barra. Eu gostava também desse papel, mas eu vi depois que tinha que mostrar que eu era humano, tinha as minhas falhas, não queria fazer certas coisas. Estou falando isso me referindo mais ao garoto mesmo, depois de adolescente já flexibilizei mais algumas coisas.


P/1 – E na escola como era? Qual o perfil de aluno que você era na escola na infância, na adolescência?


R – Bom aluno, bom comportamento, boas notas, mais quieto. Eu gostava de jogar o campeonato de chapinha, campo de futebol de chapinha de refrigerante. A gente se sujava todo no final da aula. Gostava de jogar futebol no colégio. 


P/1 – Como é chapinha?


R – Embaixo do colégio tinha uma área de cerâmica e aí você pegava tampa de refrigerante e fazia daquilo uma bola. O negócio passava, prendia de baixo do pé, jogava para um lado, fazia para o outro. Os caras conseguiam pegar aquela tampinha, puxar assim a chapinha voava. A gente se divertia. Mas era diversão sem nada. Mas no colégio reclamavam porque a gente ficava fazendo embaixo do colégio enquanto esperávamos. Quanto mais os pais demoravam, mais felizes a gente ficava. Às vezes meu pai demorava para pegar e a gente ficava jogando isso aí. Quando ele chegava o placar encerrava naquele momento. 


P/1 – Quais são as lembranças que te marcaram nesse momento de escola?


R – Eu estive em várias escolas. A despedida dessa escola, eu estudava no Colégio Dom Bosco em Brasília, quando eu fui embora para Natal, eu saí em agosto, e o Colégio resolveu fazer uma homenagem. Mas a homenagem do colégio era assim: Antes de começar as aulas todo mundo se formava, todas as turmas. Eu não me lembro se tinha o Hino Nacional, como era colégio religioso alguma oração. E tinham umas músicas e, em função das músicas cada turma ia indo, e sempre tinha um aviso, alguma coisa. Eu imaginei que a minha despedida ia ser naquele ambiente, vão juntar todo mundo, me levar lá para frente. Passei mal e não fui. Não fui nessa despedida. Meus pais foram, minha mãe falou que foi isso, foi aquilo. Eu fiquei meio sentido de não ter ido. 

Aí fui para Natal; depois saí de Natal, nas férias eu voltei para Brasília. Voltei para Brasília uns cinco anos depois. Outro colégio, aliás, era o mesmo colégio quando voltei, mas muitas pessoas já tinham mudado. Os colégios não eram mistos; na minha época os colégios não eram mistos. E o colégio foi ficando misto uma ou duas turmas abaixo da minha. Quando eu cheguei a Brasília, falei: “Bom, agora vai ser num colégio misto”. Só a minha turma que não era mista. Era um negócio assim. Até que no outro ano fui estudar num colégio em Brasília que tinha uma abordagem extremamente moderna, arrojada. Até para hoje acho que seria arrojada. Talvez não tenha durado tanto tempo. Os professores, sei lá, esteve um do colégio que esteve um acidente, morreu, e o colégio desandou também. 


P/1 – Qual era o nome?


R – Era colégio pré-universitário. O colégio era ensino médio. Você não tinha chamada, não tinha uniforme, tinha auto-avaliação. Avaliação do professor. Tinha a chamada aula maior e aula menor. Ou seja, num auditório onde juntavam duas turmas e uma aula numa salinha menor. As mesas dessa sala menor eram de um formato tal que juntando seis formava um círculo. Durante a aula mesmo você mudava a disposição da sala tipo um auditório para mesa de reunião. Você circulava, não tinha lugar fixo. Tinha estudo dirigido, numa salinha menor para você fazer os estudos, tinha laboratório.

Eu saí de Brasília também em agosto, fui para Belém, aí meu pai disse: “Você escolhe, tem dois colégios”. Aliás, ele ofereceu para eu estudar no Colégio Militar de Manaus. “Você não quer estudar no Colégio Militar?”. Eu pensei bem e falei: “chegar lá em agosto, levar um monte de trote. Eu vou pensar, talvez o ano que vem”. Fui enrolando e não fui. 

Escolhi o colégio em Belém, que era o Nazaré, que era um colégio marista que eu já tinha estudado em Natal no marista. Escolhi por isso. Fui para o colégio: todo mundo de uniforme, o único sem uniforme era eu. Cheguei no intervalo, todo mundo olhando para mim. Acabou o intervalo, eu entrei na sala, todo mundo se levanta, entrou o diretor na sala, todo mundo em pé. Aí me leva lá na frente e fala: “Esse aqui é um novo aluno”. Tal, tal, tal, não sei o quê. Aí vem a turma inteira, fazer uma fila e me cumprimentar, dar as boas vindas e etc. Daí vem um representante da turma e diz assim: “Só que nós temos lugar marcado”. Eu pensei assim: “Aqui é tudo ao contrário de Brasília”. “Você precisa escolher o seu lugar, como você chegou agora você pode escolher o lugar que você quiser”. “Rapaz, como vou escolher o lugar? Quase todos estão ocupados”. E estava todo mundo em pé naquela hora. Ele falou: “Não, a pessoa que você escolher o lugar vai ter o maior prazer em ceder o lugar para você”. Eu pensei assim: “Será que o cara está brincando ou está falando sério? Ele podia ceder, mas outra pessoa!”. Aí eu falei: “Será que não tem alguém que quer mudar de lugar?”. “Onde você gosta de sentar?”. “Aqui no meio, na terceira, quarta fila”. Alguém escutou e já veio: “Oh, está aqui, quer esse lugar aqui?”.  A pessoa mudou para trás. Sentei ali. 

O ensino era totalmente diferente. Cheguei lá tinha uma prova: “Vou tirar zero nessa prova, não tem como fazer essa prova”. Uma prova de química, uma coisa que eu nunca tinha visto na vida. Aí eu falei para o professor: “Professor, não dá para fazer essa prova”. Ele falou assim: “Se não fizer a prova vai tirar zero”. “Melhor tirar zero por não fazer a prova do que tentando fazer”. Passaram alguns dias, meu pai me chama em casa: “Tem uns amigos seus aqui”. Eu falei: “Não tenho nenhum amigo aqui em Belém”. Mal conhecia as pessoas. “Não, tem uns amigos, o pessoal diz que é amigo teu”. Fui lá falar com o pessoal; era um pessoal da minha turma que tinham levado o caderno do ano inteiro de química; copiaram porque não tinha cópia; tinha cópia, mas não era um negócio disponível. Copiaram o caderno, me entregaram. “A gente veio aqui para te ensinar”. Eu falei: “Pode deixar o caderno aqui que eu estudo”. “Não, então a gente vai levar você para conhecer Belém”. “Como que eu posso não ser simpático com um pessoal assim?”. Aí vai para Belém: Amazônia, as frutas, os costumes, as danças. Outro mundo. Só que nessa coisa da vida, no ano seguinte eu voltei para Brasília. Saí de Belém do colégio; fui para aula, peguei um avião a noite e no dia seguinte fui para o mesmo colégio que eu estava em Brasília no ano anterior. Fui para o colégio, sem uniforme, aquele mesmo estilo, entrei na sala, aí chegou um colega, um cara distante – lá tinha o terceiro ano especial, muitos colegas meus prestaram vestibular no meio do ano e entraram. Eu só fiz no início do próximo ano. Aí um cara para mim, um colega: “Você estava doente? Aconteceu alguma coisa com você? Nunca mais te vi aqui no colégio?”. Falei: “Não, morei um ano e três meses em Belém e voltei agora”. Ele falou: “Bem vindo ao mundo”. Então são essas guinadas, de você estar ali no manto protetor, todo mundo cuidando e depois estar solto no mundo. Essas mudanças sempre são difíceis. Que a gente tem que praticar o desapego, por mais que possam ter conexões, hoje em dia tem muitas conexões, para poder abrir o coração para novas pessoas, novos acontecimentos. É mais uma face que eu estou vivendo agora. De outra maneira.


P/1 – Qual era a matéria que você mais gostava de estudar? 


R – Matemática, Física e Português.


P/1 – Tinha alguma que você tinha dificuldade?


R – Biologia. Eu tinha uma aversão tão grande! Química orgânica também não gostava. Foi a mudança de Brasília para Belém. Quando eu voltei também foi ao contrário: Muita matéria que eu estudava em Belém que não tinha. Vestibular em Belém era diferente de Brasília. Você estudava coisa da Amazônia. Mas o que ficou para sempre foi que algumas pessoas diziam que eu não devia ter estudado, que foi perda de tempo. Mas isso é que ficou. A oportunidade que tive de conhecer a Amazônia, ___. Mas ali de conviver, sei lá, a história, geografia era muito ligada à Amazônia. E biologia em Belém, para quem ia fazer engenharia não era nada. Em Brasília era um monstro de matéria. Acho que fiquei com uns traumas aí de não ter frequentado todas as aulas por não estar no colégio certo na hora certa. Curso de medicina eu sempre fiquei longe. 


P/1 – Esteve algum professor que te marcou?


R – O pessoal conta de um professor, conta histórias, mas minha memória está tentando fotografar. Mas tem um professor lá em Belém que era o professor Kurt (Ribeiro Siqueira?), que era professor de Física do terceiro ano e realmente eu me identifiquei muito com ele, quase que eu fico em Belém porque ele era professor da Universidade. Ele me deu um livro com dedicatória e tal; essa dedicatória fez eu me comprometer. Eu gostava, tal, mas eu me dediquei muito mais. Acho que foi o professor que mais me marcou.


P/1 – Em que momento você começou a pensar em profissão, carreira, de uma forma mais séria?


R – Juntando algumas historinhas que eu já contei, o meu avô materno era português, veio para Brasil com 14 anos de idade, virou empresário, teve altos e baixos, mas não se formou. Mas ele era um inventor, tem patente de antena de televisão, de vários equipamentos que ele desenvolveu. Ele gostava do comércio, tinha alguns princípios que não abria mão. Teve uma briga comercial, ele morava numa casa em Salvador e a casa tinha sido da família do cara que tinha sido sócio dele. E o sócio quis depois da briga, comprar a casa. Ele falou: “A casa eu jamais venderei”. A casa ficou, virou até um hospital. 


[Troca de fita]


R – Meu avô materno que teve brevemente a história dele. Meu avô paterno era do sertão do Rio Grande do Norte, morava em São José de ___, mas era de Acari,


P/1 – São José de?


R – São José de (Ibitibu?) era meu pai. Que é uma cidade que meu avô foi promotor. Meu avô seguiu essa carreira na área do direito. Mas eu nunca gostei, achava interessante e tal. 

Meu avô materno, Manuel, o sonho dele era ver alguém se formando, ver uma formatura. E como ele fazia as invenções dele, eu gostava daquilo ali, ficava sentado com ele. Às vezes ele ia para Salvador e ficava contando as histórias, como era, como não era. E aí com uns doze anos de idade eu falei que ia ser engenheiro eletrônico. E ele faleceu quando eu tinha catorze anos de idade, mas ele deixou registrado numas anotações que era para me entregar as abotoaduras para eu usar na formatura. Naquele mesmo dia eu digo: “Pronto, não preciso nem discutir o que vou fazer. Já sei o que vou fazer”. Esqueci disso aí; não ficou na minha cabeça, passou o tempo. Aí, esse negócio de ficar em Belém, Belém não tinha engenharia eletrônica. E aí eu ia fazer engenharia mecânica. Afinal de contas não ia fazer nenhuma diferença pela vida depois, mas tinha aquele negócio da engenharia eletrônica. Mas quando eu fui para Brasília, na mudança de última hora eu falei assim: “Não vou fazer engenharia eletrônica porque é muito difícil; é muito mais disputado. Vou botar mecânica em primeira, matemática em segunda opção”. Mas eu botei elétrica, que depois você escolhia eletrônica, em primeiro e mecânica em segundo. O maior erro porque se o cara não passasse em elétrica não passaria em mecânica em segunda opção nunca. Tinha que botar física ou matemática. E aí acabei passando, só que chegou no meio da curso mais ou menos, tive uma crise existencial: “Esse negócio aqui é muito diferente do que aquilo que eu imaginava. Muito abstrato, muita física, muita matemática, coisa complexa, que você nem consegue imaginar. Uns colegas pirando de tanto estudar. “Eu vou mergulhar cada vez mais nesse negócio? Não.” E comecei também, provocado por outras pessoas lá a fazer matérias, que o modelo da Universidade de Brasília também é muito aberto, tipo esse colégio pré-universitário, e aí eu comecei a fazer matérias da administração, da economia, da psicologia, da matemática, de letras. Fiz várias matérias. Os meus colegas diziam: “Você está fugindo aqui das matérias importantes.” As obrigatórias eu tinha que fazer. E isso acabou me dando um caminho para onde eu estou hoje aqui. Uma visão menos técnica especialista, para ser mais generalista, fazer mais gestão, enfim, entender mais a interligação das coisas. Mas a história de forma simplificada é esta.


P/1 – Só deixa eu te falar uma coisa: Diz o nome dos teus avôs: O inventor e o advogado.


R – Meu avô português, o inventor, era o Manuel Teixeira de Carvalho. 


P/1 – E a tua avó?


R – Mariah Dias Teixeira de Carvalho. Era Mariá, não Maria. Meu avô paterno era o nome do meu pai tirando o Dagoberto. Era Felix Bezerra de Araújo Galvão. E a minha avó, Amélia Carneiro da Cunha Bezerra.


P/1 – Você viveu mais com seu avô inventor?


R – O núcleo familiar da minha mãe era bem menor. Embora o número de filhos fosse igual, até maior o da minha mãe que eram nove irmãos e meu pai oito, mas meu avô era um cara muito rico em Salvador e quando a turma era adolescente, os mais velhos eram adolescentes, o meu avô perdeu tudo e houve um grande choque para família de sumir as amizades. Então quase nenhuma tia minha se casou. A minha mãe era a mais nova; era pequenininha nesse tempo. As minhas tias foram para o exterior, foram estudar fora, fazer um monte de coisas, mas não casaram. Tinha só um tio que casou e foi para São Paulo. E minha mãe casou. Meu avô tinha por jeito, por idade, por número de netos, enfim, meu avô materno tinha mais proximidade. Tinha mais tempo para mim.


P/1 – Era o teu avô querido?


R – Eu sempre chegava as férias ele mandava um telegrama: Comparecer a Vasp [Viação Aérea São Paulo] retirar passagens. Então ele mandava passagem para gente passar as férias. Fazia surpresa. Presentes, as coisas que eu queria. Tinha um brinquedinho chamado engenheiro eletrônico, não sei se ainda existe hoje, mas era um kitzinho de montar uma série de coisas. Ganhei de presente numa dessas, conclusão de ano, de estudo. Autorama também, que ele mandou. Em Salvador era 110V, Natal 220, o carro não funcionava, fiquei todo triste. Foi uma confusão, mais consegui. É um problema que hoje em dia se fizer assim está resolvido. Dei um dos maiores foras da minha vida com esse meu avô, porque uma vez ele estava falando assim, era Manuel, né? Ele falou: “Seu pai não quis botar o nome dele em você”. Eu falei: “O nome do meu pai é muito feio, ele já não queria o nome dele, para ele botar em mim! E ainda mais ele fala o seguinte: Para ter um filho com o mesmo nome isso dá um azar danado, o filho vai para o mal caminho”. Falei, falei, falei. Meu avô ficou quieto, ouvia e tal. Depois eu fui pensar. Tenho um tio, que é Milito o nome dele, quer dizer, sempre conheci como Nelito. Aí um dia eu perguntei para o pai: “Nelito, esse nome, qual o nome do tio Nelito?”. “Não, é Manuel Filho”. Aí já era. E ele deu trabalho. Então ele fez jus ao carão que eu passei.


P/1 – Na faculdade você só estudava ou já começou a trabalhar?


R – Eu só estudava e nos últimos dois anos passei a estagiar. Como fazia eletrônica, especializando em telecomunicações, eu era estagiário aonde eu imaginava. O Brasil estava um boom na década de 1971. Quer dizer, eu entrei em 1976, na universidade e me formei em 1980. Durante a década de 1970 foi um grande crescimento nas telecomunicações. Telebrás [Telecomunicações Brasileiras S.A], Centro de pesquisa em Campinas. Só que em 1980 isso acabou sem aviso prévio. Eu estagiava na companhia de telecomunicações de Brasília. Telerj [Telecomunicações do Rio de Janeiro S/A], daqui do Rio lá em Brasília. O estágio era de seis meses e podia ser renovado por mais seis. Não podia passar de um ano porque você podia ter vínculo empregatício. Aí eu fiz um acordo de cavalheiros que eu não entraria na justiça contra a empresa e eles renovaram e eu fiquei até o dia de me formar. Eles queriam me contratar, não era concurso, era contrato, só que estava o fim dessa festa aí, e o governo tomou uma medida de não contrata mais ninguém. A partir de início de 1980, exatamente depois que eu me formei. Aí eu fiquei meio à deriva e fui buscar alternativas, como engenheiro eletrônico. Aí fui a tantos lugares, os mais variados possíveis, até a fila do Sine [Sistema Nacional de Emprego] em São Paulo eu estive. Aquela fila quilométrica de dar até medo. E eu vendo as histórias do povo na fila. E ali é emprego mais pouco qualificado. Até que os caras da fila falaram assim: “É melhor você não ficar nessa fila”. Porque eu fui à São Paulo, na casa desse meu tio Nelito, sem saber noção do tamanho de São Paulo. Vou em tal lugar. Você desce em tal lugar. Desci, eu estou na rua. Só que na rua tinha que andar uns 15 quarteirões para chegar no endereço que eu ia. Então fui a vários locais lá em São Paulo em busca de emprego como engenheiro eletrônico. Em São Paulo, no Rio, Paraná, mas aí começou a surgir a área do petróleo. O pessoal morava em Natal e falava: “Olha, o petróleo está dando, se fala muito do petróleo. Você tem que olhar essa área também”. Petróleo não tem nada a ver com eletrônica. Aí comecei a ver que tinha algumas atividades que tinham a ver; fui fazer um teste numa empresa. Teste de um dia inteiro. E me perguntaram: “Você quer trabalhar como? Qual a sua atividade?”. “Quero trabalhar como engenheiro eletrônico”. “Mas aqui não é como engenheiro eletrônico”. “Como vocês me convidam para passar um dia aqui”. “Não, mas tem outra empresa do grupo que faz isso”. Aí eu fui para outra empresa. Passou mais um tempinho e fui chamado. Perguntaram se eu preferia trabalhar no Brasil ou no exterior. Falei: “Gostaria de ir um dia para o exterior, mas por enquanto eu prefiro ficar no Brasil”. “Mas este emprego é para ir para o exterior”. Eu digo: “Poxa, não acerto uma!”. “Mas tem outro emprego aqui no grupo”. Acabei indo trabalhar numa empresa que é do grupo ___, hoje, que é uma grande multinacional que presta serviços inclusive aqui para a Petrobras. Fui trabalhar em Macaé nesta empresa. Aí foi quando conheci de perto a Petrobras. Já estava chegando perto da Petrobras. 


P/1 – Mas lá chegando você foi fazer o quê? Qual foi a atividade assim que você foi para Macaé?


R – Na verdade eu fiz as entrevistas aqui no Rio. Eu não imaginava o que era Macaé. Peguei um ônibus, em 1981, aí o ônibus parou numa praça. Eu falei: “chegou? Aqui é Macaé? “Pode descer que é aqui”. Eu olhei para um lado, para o outro e falei: “Não vou ficar aqui”. Aí já tinha um camarada esperando, da empresa, para me levar para uma casa que era tipo uma república da empresa. E aí foi o serviço militar que eu não tinha feito. Que engenharia eletrônica, que nada! Era pegar no pesado. A gente fazia um curso e – o nosso supervisor morava com a gente – então toda noite ele botava a gente para estudar até 11 da noite. Não tinha televisão em casa. Imagine a gente sem televisão! “Posso botar televisão?”. “Não, não pode botar televisão”. A gente escutou o campeonato mundial interclubes de 1981; eu fiquei na porta de um hotel para ver o jogo, na varanda de um hotel lá porque o jogo foi uma hora da manhã, meia-noite, sei lá. Jogo no Japão. A gente estava na rua, a gente ia muito na telefônica, não tinha celular, nem nada. Em casa tinha um cadeado, não podia usar. A gente ia na telefonica e tinha filas e filas. Lá era ponto de encontro. O cara chegava ali e falava: “Tem um equipamento para mandar para embarcar, vamos lá no porto”. Aí saí dez, onze, numa chuva terrível. Chega, em uns equipamentos: “Vamos desmontar tudo”. Equipamento pesado, a gente mesmo carregava. E trabalhava embarcado também. Quando eu vi a primeira plataforma eu falei: “Isso aqui é um negócio todo enferrujado, um navio todo velho”. Ele estava em testes, queimando gás, labaredas gigantesca. Esse negócio aqui é um negócio pequenininho. Você vem de helicóptero, chegando assim, uns tipos esquisitos. Aí cheguei na plataforma tinha forno micro-ondas. Nunca tinha visto forno micro-ondas na vida.


P/1 – Isso era em que campo?


R – Isso aí era um posto exploratório de algum campo, que até eu preciso descobrir que campo. Porque depois eu fui trabalhar nessa área de Avaliação de formações. Eu sempre trabalhei na área que avaliava descobertas. A gente ficava feliz de ver, saía notícias, o que a gente estava fazendo ali era notícia no noticiário da noite, nos jornais do dia seguinte. Então aquilo ali embolava bastante. A gente ficava brincando: “Se a gente inventar um número aqui sai um número diferente lá”. A gente ficava vendo o efeito daquilo ali; o interesse de todo mundo saber. Porque realmente era um momento que mexia; até hoje é um momento que mexe com a empresa, mexe com bolsa, mexe com o inconsciente coletivo. Na hora que descobre e depois coloca em produção. Mas a emoção é maior até quando descobre do que quando coloca em produção. 


P/1 – E embarcado você fazia o quê? 


R – A nossa atividade era nos testes de formação, para avaliar descobertas, a gente descia uns equipamentos eletrônicos para registrar a pressão, temperatura, fluxo. Só que para descer um equipamentozinho eletrônico você tinha um aparato mecânico gigantesco. Você desce com um cabo elétrico, um cabo envolto, como se fosse um cabo de aço. Passa por um sistema, fica na cadeira do ___, aquela sonda balançando, aquele negócio todo. Eram equipamentos muito pesados que a gente acabava exausto porque a gente fazia esforço. Não era ficar analisando, naquele bem-bom, no ar condicionado. 

E também tive a oportunidade de trabalhar em vários lugares do Brasil nessa atividade. E fiquei conhecido das pessoas da Petrobras dessa área. 


P/1 – Quanto tempo você trabalhou na ___?


R – Pouco menos de dois anos. Só que quando eu entrei, hoje iam dizer que era assédio moral, mas com dois meses lá meu chefe chegou para mim e falou assim: “Você não tem condições de trabalhar aqui”. Me reduziu a nada, falou um monte de coisa e falou: “Só não te mando embora porque não tenho outro para botar no teu lugar”. Só que ele esteve que viajar não planejadamente, esteve que viajar por alguma razão de serviço, para o exterior e ficou uns 20 dias ou mais fora. E como eu fiquei de café com leite, não me deixou embarcar, era uma área nova na empresa, então acabei ficando como chefe dessa área, porque não tinha ninguém para cuidar. Eu fiquei cuidando, disse assim: “Olha, quer saber de uma coisa? Eu acho que vou mudar tudo o que está aqui. Isto aqui está tudo errado, tudo bagunçado”. E o pessoal: “Você está doido? Você vai ser mandado embora”. Eu pensei: “Estou indo embora mesmo vou fazer tudo o que tenho que fazer”. E comecei a ler todos os arquivos de tudo o que tinha lá, de documentos. Arrumei os equipamentos e a papelada toda, registros. E aí vi o seguinte: Que fazia parte do treinamento você trabalhar sob pressão. Às vezes o cara estava falando aquilo ali para ver qual a reação da pessoa. Se eu soubesse disso eu não ia dar bola, mas mesmo assim eu não gostei daquilo. Quando voltou esse meu chefe, a empresa tinha umas inspeções surpresa, o pessoal vinha de outro país para ver como que estava funcionando aquela área. Os caras vieram, passaram três dias, examinaram tudo e no final falaram assim: “A gente nunca viu uma área tão organizada como esta”. Meu chefe ficou todo! E eu do lado, humildezinho, ele nem deu uma olhadinha para mim. Ficou assim. Aí eu:"Está bom”. Ele esteve que viajar de novo e falou: “Márcio, dá uma olhadinha”. 


P/1 – Mas ele sacou que você tinha mexido?


R – Ele sabia porque ele chegou e: “Quem fez isso?” Aí o pessoal: “Foi o Márcio”. “E quem fez isso?”. “Foi o Márcio”. Todo mundo com medo de dizer que era eu, e eu ia lá e explicava. Mas não fez nenhum elogio, nem disse que estava bom, nem nada. Parou de perguntar. Perguntou, perguntou, perguntou, até sossegou. 

O regime de trabalho era muito. Você embarcava muito. Não era esse negócio de 14 por 21, um por um. Era três por um. Você trabalhava três dias e folgava um. Aí eu comecei a ler as leis, a lei _11, que regula o trabalho embarcado e comecei a ver que aquilo ali estava errado. Conversando todos os empregados brasileiros assinaram um abaixo-assinado e entregamos na empresa. Só que entre fazer abaixo-assinado, começar e entregar, eu tive a oportunidade de fazer o concurso da Petrobras. Que foi um milagre estar desembarcado no dia do concurso. Eu não desembarquei para fazer o concurso, eu estava, a probabilidade era pequena. Eu fiz o concurso lá em Brasília, meus pais moravam lá. Meu pai: “Vou te inscrever no concurso da Petrobras”. Dei a procuração, ele me inscreveu, eu fiz a prova lá e aí, vamos dizer assim, o dia que eu chamo o mais feliz da minha vida, mas é porque de vez em quando as pessoas reclamam: “O dia mais feliz não foi o dia do casamento? O dia que nasce um filho, o dia da formatura?”. É porque esses outros dias já estavam no calendário. Agora, o resultado do concurso da Petrobras ia sair determinado dia, duas semanas antes do resultado estou no sábado trabalhando lá em Macaé, toca o telefone. Porque a gente trabalhava todo dia para não gastar folga. Ficava sábado e domingo trabalhando para juntar. Aí tocou o telefone era minha irmã de Brasília, irmã do meio, e ela disse assim: “Chegou um telegrama aqui que diz que você passou na Petrobras”. “Leia o telegrama com calma”. Porque tinha negócio de suplente, titular. Depois de umas três leituras: Passei no concurso, titular, curso de engenharia de petróleo. Quer dizer, na realidade chamava engenharia de produção, depois virou engenharia de petróleo. Aí eu pensei: “Agora eu vou”. Mas eu olhei os outros colegas lá, essa coisa, outros tinham feito o concurso e não tinham recebido esta notícia. Se o cara não recebeu é porque não deve ter passado. O cara já sabia. Esse telegrama antecipou o que ia sair no jornal. Aí trabalhamos no sábado, isso era de manhã, até às seis horas da tarde. Aí eu chamei um colega de Brasília também, vamos comemorar. Fomos a uma churrascaria em Macaé: “Hoje eu pago a conta!”. Depois jantar lá, eu vou pagar a conta o garçom chega lá e diz: “A conta já está paga”. “Mas como está paga?”. “Aquele senhor ali pagou”. Era meu chefe. Ele não sabe que pagou a minha despedida.  

Aí eu fui pedir a demissão, foi um dia difícil. Escrevi uma cartinha manuscrita, entreguei para a secretária digitar, a secretária se apavorou. Ele foi lá, me ofereceu de tudo. Esse que era meu chefe, que não estava lá, me ligou da França não sei quantas vezes. Ofereceram-me tudo: “Você quer ganhar quanto?” “Você quer passar um tempo na França? Você quer ser o chefe da base de Natal?”, que estava abrindo. “Qualquer dessas coisas, se vocês tivessem me oferecido ontem, teria mudado a história. Mas vocês só estão me oferecendo agora depois que eu já pedi demissão. Então é o seguinte: Eu vou fazer um curso de engenharia de petróleo, passar um ano fora, quem sabe um dia. Agradeço o que aprendi aqui”. Tal, tal, tal. E vinham todos assim, porque a gente ia ser o fiscal dessa empresa. A gente ia retalhar. Esse diazinho foi importante.


P/1 – E isso foi quando, em 1983?


R – Esse resultado foi em outubro de 1982. 


P/1 – E você começou o curso em 1983.


R – Primeiro de fevereiro de 1983 eu, oficialmente, entrei na Petrobras. Mas na realidade, no dia 24 de janeiro de 1983, eu guardei essa data, foi o dia que a gente foi para Salvador. Tinham uns 20 e poucos que eram da Bahia e 160 e tantos vieram de outros lugares do Brasil. Chegou esse povo todo no mesmo dia e aí esteve um lance engraçado. Chega gente de tudo que é lugar do Brasil. Chega no aeroporto, esse período era há dias do carnaval, Salvador estava fervilhando de movimento carnavalesco. Aí nós fomos para um hotel; eu desci, não fiquei no quarto, ficava dois em cada quarto. Nem sabia quem era a pessoa que ia ficar comigo, nem tinha chegado. E aí eu desci e ficava observando a fauna e a flora, olhando para as pessoas e imaginando os que vinham, quem estava chegando aquele dia. E vai chegando gente. Tinha hóspede no hotel. Aí tinha uma senhora, sentada num sofazinho, viu eu e mais outros dois conversando, e falando, perguntou: “Que está acontecendo que está chegando todo este pessoal?”. Aí eu disse primeiro: “Nós somos engenheiros da Petrobras”. Enchi a boca para dizer. Aí expliquei, não sei o quê. A senhora ficou eufórica, começou a gritar para as duas filhas delas: “Tem 180 engenheiros da Petrobras solteiros. Será possível que vocês não arranjam nenhum!”. E as garotas morrendo de rir, e a gente também. 


P/1 – O curso você achou difícil?


R – Muito difícil, muito puxado. O curso no cenário que a gente tinha de década de 1980 ali, era um ano de muita crise, falta de emprego, tinha sei lá, não sei quantos caras do ITA [Instituto Tecnológico da Aeronáutica], UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], os principais alunos de tudo que é lugar estavam lá. E eu digo assim: “O que estou fazendo no meio dessa turma aqui?”. A gente chegou no período pré-carnavalesco, então alguns caíram na farra. Eu já trabalhava, tinha algum dinheiro, cheguei lá e comprei um carro. Tinha parentes meus lá. Primo meu me levando para tudo. Aí depois do carnaval veio a prova. 


P/1 – Mas o curso já tinha começado.


R – Já tinha começado. Vinte e quatro de janeiro a gente chegou, segunda-feira. A gente assinou oficialmente o contrato dia primeiro de fevereiro, mas já estava em curso. Na segunda-feira depois do carnaval, não sei se foi na segunda ou na quinta, sei lá, esteve uma prova. Eu olhei a prova e achei tranqüilo. Aí saíram as notas, eu tirei oito, uma nota razoável. Aí saíram as notas: dez, dez, dez, dez, nove, nove, nove, oito, oito... Quando eu fui ver o meu oito era o centésimo quarto lugar. Aí eu digo: “Agora acabou a brincadeira”. E a gente esteve que estudar, batalhar. Morava numa república, algumas pessoas de Brasília, mas ninguém era de Brasília. Tinha um cara de Goiânia, um do Rio Grande do Sul, que estava trabalhando em Brasília a pouco tempo, e um que estava perdido lá de Marília, choramingando que não tinha onde ficar e a gente convidou ele para ir lá para casa. Mas foi um ano bastante puxado, muita competição, um desgaste emocional muito grande. Salvador não esteve o encanto que eu imaginava que teria. E foi o curso até o dia 14 de janeiro de 1984. Na sexta-feira, 13, que era a festa do Bonfim, teve a lavagem do Bonfim, que teve um monte de gente indo para lá, e eu mais outros ficamos estudando. Mas eu fiquei estudando até mais porque um outro colega estava precisando de nota, queria mudar. Todos iam embora e só um ia ficar em Salvador. Então o cara queria se mudar de casa, a gente ajudar, para demandar também. 


 P/1 – E você conseguiu escolher para onde você ia?


R – O pessoal, a maioria, colocou na cabeça o seguinte: O primeiro lugar do curso seria o presidente da Petrobras. Não disseram isso, mais quase. O último se ferrava, não teria aonde ir. Havia uma competição muito grande e havia um critério de selecionar, por grupos, o cara ia escolhendo, sendo escolhido. Não podia ser assim: O lugar menos desejado para os últimos lugares. Tinha muita gente do Rio, muita gente queria vir para o Rio e para Macaé. Mas eu entrei numa situação diferenciada porque como eu tinha trabalhado para a Petrobras, e tinha gente na Petrobras que defendia que eu nem fizesse o curso, já queriam que eu fosse trabalhar direto, então, mais ou menos quando eu estava na ___, em dezembro de 1982. Eu já tinha pedido demissão, passado no concurso, mas continuei trabalhando. A empresa pediu para eu trabalhar até janeiro. Então continuei trabalhando. Numa dessas, que isso aí mudou a história, por isso eu estou voltando, uma colega, a Gina, que trabalha comigo, que era uma engenheira da turma anterior que a minha, mas ela estudou comigo em Brasília, era um pouco mais adiantada que eu na universidade. E ela entrou, eu estava numa reunião discutindo assunto de interesse da ___com a Petrobras, e estava discutindo com o gerente de Macaé, na própria Petrobras, trabalhava de porta aberta, ela passou, virou e falou: “Está negociando onde você vai trabalhar?”. O João Carlos de Luca, que era o Chefe da Divisão de Avaliação, depois virou diretor, já saiu da Petrobras há algum tempo. Eu vou voltar a trabalhar com ele pelo IDP [ Instituto Brasiliense de Direito Público], ele é o presidente do IDP (__________?), ele chegou e falou assim: “Foi você?”. Ele sabia que alguém tinha passado dali, “Você vai ter que trabalhar aqui. Você quer?”. “Quero”. “Você vai sair mesmo, você vai entrar mesmo na Petrobras?”. Eu já tinha feito todos os exames, ainda não tinha assinado o contrato. “Então a empresa confia muito em você porque está mandando você vir negociar em nome dela com a Petrobras”. “Não é bem assim, também não tem outra pessoa. Eles pediram para eu ficar”. Porque normalmente quando você pede demissão o cara diz: “Vai embora logo”. Mas enfim, então esteve esse fato.


P/1 – Essa tua experiência na ___ ajudou?


R – Aí quiseram que eu fosse trabalhar lá e aí toda hora lá em Salvador tinha uns cursos, o pessoal ia conversar comigo. Então eu não sei, até hoje não sei, eu fiz opção Macaé. Saiu o resultado: Macaé. Mas em nenhum momento eu me preocupei porque se eu não fosse para Macaé, a minha família morava em Natal, meus pais falaram: “Você não quis vir para Natal”. Mas foram as circunstâncias que a vida seguiu outro caminho. A opção Macaé estava associada a um convite. Aí fui trabalhar nessa área de Avaliação de formações. Foi um período bem interessante, as descobertas de ___, ____. As primeiras descobertas em águas profundas, para valer mesmo, foram feitas logo depois que a gente chegou para trabalhar em Macaé, na área que acompanhava os testes. Tinha todo esse glamour da coisa nova e aí eu fiquei uns três anos trabalhando no campo.


P/1 – Explica para um leigo o que é essa parte de avaliações e formações.


R – Avaliação de informações é uma área bastante interessante, quer dizer, todas as áreas são interessantes. Porque eu acho esta área interessante? Porque ela é um meio de campo na engenharia de petróleo, quer dizer, tem um pouquinho de reservatório, tem um pouquinho da área de elevação e escoamento, a área de poço, tem processamento de fluidos, análises. O regime de trabalho era variado, não era 14 por 14, você embarcava quando tinha um teste. Umas vezes ia para outros lugares do Brasil acompanhar teste, fui à Amazônia, vários lugares do Brasil que eu achei muito interessante ter a oportunidade. Sempre uma expectativa, todo mundo querendo saber qual o resultado. Todo esforço da Exploração no final está ali o resultado. Avaliação de explorações coloca experimentalmente um poço em produção por algumas horas ou poucos dias e verifica em escala real qual o potencial de produção daquela área.


P/1 – A comercialidade quem dá é essa área?


R – Isso aí é fundamental para a comercialidade.


P/1 – É anterior, então.


R – A comercialidade é dada pelo resultado dos testes e pelo volume que se imagina que tem.


P/1 – Mas é um trabalho da Avaliação?


R – Não, hoje mesmo esta estrutura está dentro da Exploração. A Exploração é quem declara a comercialidade. Mas isso varia muito. A Exploração junto com a produção. Na verdade a Avaliação é um meio de campo, uma interface. A gente se relacionava com diversas áreas. Se relacionava muito com a Exploração. Então 


[Troca de fita]


P/1 – Você estava falando que a área de Avaliação trabalha muito com a parte de Exploração. 


R – Tem uma relação muito grande com a Exploração, isso a gente acaba tendo uma relação, desenvolve interações, um meio de campo dentro da área de Produção e Exploração. Lida com várias áreas, um pouquinho de cada coisa. Isso ajuda a desenvolver uma visão mais abrangente do __, pelo menos da parte de engenharia de petróleo, que é uma parte do __. Cada vez é maior.


P/1 – E qual das avaliações das descobertas dessa época toda te marcou mais?


R – Você fez uma pergunta sobre qual era o campo do poço que eu fui lá no coisa. E eu pensei assim: Eu não fiz essa correlação. Teve um outro poço, o RJS 342 [Lei Ordinária 342 1982 Niterói RJ] , que trabalhei na avaliação dele e 20 anos depois eu descobri que ele, quer dizer, eu descobri, eu soube que ele foi o poço descobridor do campo Albacora Leste [Campo petrolífero de Albacora Leste], que foi o campo da P-50, da auto-suficiência. Eu vi um relatório numa reunião: Poço descobridor RJS 342, eu digo, “Espera aí, esse é o poço”. Só que a gente esteve na época a ideia de pedir a autorização para a Petrobras para fotografar esse teste e na realidade essas fotos e o trabalho em si virou uma apresentação, virou um paper para ir para OTC [Mercado de balcão], para (BOT?), esse negócio ganhou, e eu acabei indo de carona, fui puxado por isso aí para várias. para mostrar, porque teve um desempenho, os testes foram mecanicamente perfeitos, nada é perfeito, mas o termo que a gente usa quando tudo correu bem, tudo deu certo, e os resultados também foram excelentes. Que às vezes o teste mecanicamente é tudo bem, mas o resultado é ruim. Foram cinco testes feitos nesse poço.


P/1 – Esse poço é o ___ Leste?


R – Albacora e Albacora Leste. É na divisa, quer dizer, tem reservatório de Albacora e Albacora Leste. Albacora já estava descoberto, então foi a extensão de Albacora na época. Que Albacora foi descoberto no final de 1984, e isso aí foi em maio de 1986, eu passei meu aniversário a bordo. Ele marcou por ser perfeito, sei lá. Também tinha alguma maluquice que eu achava que eu ia viver até os 28 anos. Assim de uma interpretação de sonho, placa de carro, uma conversa de anos e anos antes, lá em Brasília. Não tinha nenhum fundamento, mas eu achava. E tinha colega que falava que eu ia ter uma grande mudança na vida nessa idade. Eu estava embarcado um tempo antes, isso foi início de 1986, uns colegas falaram: “Vamos para Europa”. “Europa, é um negócio muito complicado, tem que financiar passagem, comprar dólares não sei aonde, carregar esse monte de dólares por aí, tirar não sei quantos vistos”. Aí acabei indo. Falaram: “Só diz que você vai”. Aí acabei indo. 


P/1 – Isso com colegas da Petrobras.


R – Aí embarquei nisso aí e pensei: “Nós estamos aqui e eu vou fazer os 28 anos embarcado, não pode acontecer nada”. Coincidência ou não, a minha esposa eu conheci pouco depois desse embarque. 


P/1 – Em Macaé?


R – Em Brasília. Ela morava em Brasília. Meus pais estavam morando em Brasília e eu com a folga ia à brasília. Então teve o aniversário dos 28 anos a bordo da plataforma e fizeram um bolinho, o pessoal cuidadoso, meticuloso, de fazer um bolinho desenhado. Então esse poço, eu embarcado, foi o que mais me marcou na história da Petrobras. Desembarcado, eu acompanhando foi o outro do Espírito Santo.


P/1 – Você casou com 28 anos?


R – Não, não casei com 28, casei com 29. foi rapidamente. Eu conheci a minha esposa com 28. Conheci em outubro, comecei a namorar em novembro de 1986 e casei em julho de 1987.


P/1 – Ela foi morar em Macaé.


R – É, ela foi morar em Macaé. 


P/1 – Você estava contando desse segundo poço que foi marcante para você.


R – Esse foi o de Espírito Santo, é uma outra história.


P/1 – Em Macaé você ficou nessa parte de avaliações até quando?


R – Até 1988. Eu trabalhei embarcado, fiquei no escritório, depois fiquei como gerente de operações de Avaliação de Formações.


P/1 – Gerente da área mesmo.


R – Gerente dessa atividade das operações de avaliação na Bacia de Campos. Foi quando eu vim para o Rio, para trabalhar na área de avaliação. Fiquei de 1988 à 1992 na área de Avaliação. E talvez pelo perfil, em 1992 houve uma reestruturação e me convidaram para trabalhar na área de planejamento do então departamento de produção. E aí a gente depois foi cuidar da criação do AIP [Informação de Publicação Aeronáutica], a junção dos três departamentos, e também da preparação da Petrobras para conviver com a quebra do monopólio. Eu estava no planejamento que a gente vibrou quando viu o primeiro rascunho do que seria a lei de 9478, a constituição foi modificada em 1995, no início de 1996 apareceu o primeiro rascunho e a lei só foi aprovada em agosto de 1997. Então a gente esteve mais ou menos um ano e meio que a gente começou a se preparar, como está se preparando agora para o pré-sal.


P/1 – Você ajudou a trabalhar nessa reestruturação?


R – Da criação do AIP e da preparação principalmente da área de Exploração e Produção para ser bem sucedida nessa nova fase com o mercado mais aberto. 


P/1 – As unidades foram na mesma época?


R – A criação das unidades de negócio já foi em 2000. Participamos da criação das unidades do Sul e Sudeste, eu já estava no Espírito Santo, em São Mateus, e conseguiu se criar uma unidade no Espírito Santo, que era um sonho lá, ter uma unidade que cuidasse de todo o Espírito Santo. Surgiu Jubarte, que Jubarte é um atalho para muita coisa porque primeiro surgiu a descoberta, em janeiro de 2001, a reestruturação foi em novembro de 2000, em janeiro de 2001 esteve a descoberta do que viria a ser o campo de Jubarte. Só que na ótica do pessoal, na época, diziam o seguinte: “É um óleo pesado, água profunda, o volume é pequeno, isso não é comercial”. Mas para o Espírito Santo aquilo era maior do que tudo que o Espírito Santo tinha tido até então. A gente ficou trabalhando para transformar aquilo em produção mesmo com essa avaliação, esses preconceitos. Isso estava baseado em sísmica 2D, foi adquirido sísmica 3D, foi juntando e foi conversando com os especialistas da Petrobras, como é que fazer, que abordagem teria para desenvolver. Aí tinha um navio, o (Xilan?), que é um navio de teste, ele estava em Roncador, em 2000 tinha saído na capa da Brasil e Energia o (Xilan?) produzindo Roncador, um poço, 20 mil barris. A gente colocou: “Essa aqui é a nossa visão. A gente tem que ter um desse no Espírito Santo”. Não tinha nem descoberta nem nada. Aí acabou tendo a descoberta, passou um ano, em 2001 chegou perto do final do ano o (Xilan?) esteve que mudar de Roncador porque já tinha outro sistema lá, e ele tinha ainda um contrato pela frente.  Então o pessoal resolveu estudar alternativas que diminuíssem o prejuízo do que se tivesse de rescindir o contrato. A administração da empresa não gostou dessas alternativas e lembraram de perguntar, ligaram para mim e perguntaram: “Em quanto tempo vocês apresentam uma proposta aqui para utilização do (Xilan?)?”. Eu pensei assim: Três horas. Se eu disser três horas não tem nem como provar, “Três dias”. “Então está bom”. O Tadeu que era nosso gerente executivo falou assim: “Vou a Vitória”, aí foi, viu a apresentação, gostou muito e falou: “Mas vocês tem que entender que vocês não têm experiência nisso aí, a gente tem que submeter isso a um grupo de especialistas”. Aí montou uma apresentação, outro dia eu estava vendo, dando uma olhada nos documentos guardados, essa troca de correio desse momento. Os especialistas que foram chamados para opinar tinham sido os caras que tinham construído o nosso projeto. Falei: “Vai ficar até chato”. Mas a gente defendeu lá que os projetos todos eram iguais, muito parecidos, mas que a Petrobras nunca tinha produzido fora do Rio de janeiro um negócio, então produzir no Espírito Santo seria uma, depois óleo pesado, tal, tal, tal.


P/1 – Era isso que o Tadeu queria provar? Que vocês poderiam tentar fazer esse teste em águas profundas?


R – Isso, que era comercial. Tinha também uma discussão muito grande: O efeito de um poço, o poço descobridor geralmente é vertical, então se queria fazer um poço horizontal para que o ganho de produtividade dele tornasse comercial. E o pessoal analisava que o ganho seria muito pequeno, seria em torno de três a seis vezes. E na hora que a gente colocou o teste. A gente conseguiu o VC para fazer o teste. Em agosto de 2002 é que se conseguiu chegar num poço horizontal para fazer o primeiro teste para depois completar o poço e botar em produção efetivamente pelo (Xilan?). Demorou, idas e vindas, emoções. Tinha um acompanhamento que eu ficava olhando quase 24 horas por dia; até em casa. Aí quando eu vi, de repente, sábado dez horas da noite o negócio dá um pulo, a produção. E aí eu tinha que sair, estava saindo para jantar, alguma coisa, mas não querendo sair, voltei para casa para ligar o negócio. “Hoje eu vou ligar para a plataforma”. Mas tive que esperar o dia seguinte para entender o que estava acontecendo porque podia ser um erro, alguma coisa. Mas realmente tinha limpado o poço e o poço tinha, como era um óleo pesado, viscoso, a gente não estava acostumada com isso aí, a gente tinha um sistema de flex tubo, um tubo de aço inox, você injeta nitrogênio para deixar mais leve o óleo e ele fluir. Só que com óleo pesado isso não funcionava muito. Então um colega lá, que era da minha turma, que é um dos maiores pé quentes, desde que eu embarquei até hoje ele continua fazendo a mesma coisa: Loris Gotuzzo Junior, um cara do IME [Instituto Militar de Engenharia], mas virou um homem do mar. Ele embarcou na quinta-feira, no sábado o poço, porque estava há 15 dias sem produzir. Injetava nitrogênio, nitrogênio cortava e não vinha e o pessoal já estava quase abandonando. Então com ele o negócio já melhorou. O Flex tubo ele deixou por dentro da coluna, no fundo do mar, em cima da água em Natal, mas a restrição do fluxo passando entre o tubinho e o tubão, o condutor e o tubo de aço inox dava uma ___ muito grande. E ele estava vendo, pela experiência dele ele viu que tinha alguma coisa errada ali, ele achou que tinha algum entupimento e tirou o flex tubo. Quando ele tirou o flex tubo foi quando deu esse salto na vazão. No domingo a gente já viu e na segunda-feira


P/1 – Isso porque o óleo era mais leve?


R – Não, o óleo era muito viscoso, como se fosse uma graxa, e o gás corta. Não conseguia dar sustentação, ele usou óleo diesel para empurrar. Quando pegou o embalo veio que foi uma beleza. Na segunda-feira de manhã a gente já reportou o resultado e a gente pensou: “Nós temos que sugerir um nome, porque um campo desse”, inclusive nesse meio tempo foi feito uma sísmica 3D que mostrou que o volume era muito maior. E na hora que furou o poço o volume ficou maior ainda, só faltava ele produzir. Aí eu dei a notícia para o nosso gerente geral, que era o Monte, ele estava até no Rio. Ele falou: “Fala aqui com o Tadeu, que o Tadeu entende mais disso aí”. Aí eu falei diretamente com o Tadeu, falei os dados e falei que a gente tinha uma sugestão de nome para o campo. Eu falei: “Isso aqui é um campo grande e pesado, temos que botar aí um nome, aí pensamos em Jubarte”. E aí ganhou, sei lá, o negócio andou, depois eu vi a Petrobras estava anunciando o Campo de Jubarte. Isso foi em 2002. 


P/1 – Você tinha chegado, a gente deu um salto muito grande, você estava o planejamento da (EP?), quando você é convidado para ir para o Espírito Santo e você vai fazer o quê no Espírito Santo?


R – Eu fui convidado em fevereiro de 1999, em primeiro de março de 1999 eu fui oficialmente para o Espírito Santo para então gerência de produção em São Mateus.  A unidade produzia bem pouquinho, estava fechando, o mundo se acabando. Todo mundo: “O que você fez, brigou com o sistema?”. Fiquei 1999 e 2000 em São Mateus, aí eu participei da reestruturação da criação das unidades de negócio. Que eles colocaram a unidade de negócio do Espírito Santo sediada em Vitória, eu mudei para Vitória no final de 2000 e em janeiro de 2001 apareceu essa descoberta. Logo de cara que descobriram o parque das Baleias e ao lado desse poço foi furado um outro que chegou no tal do pré-sal.


P/1 – Ao lado do Jubarte?


R – Dentro do que hoje é o Campo de Jubarte. Só que na época não se deu, lá qualquer coisa a gente achava que era bom, tem que dar um desconto, mas era um reservatório diferente, tinha penetrado parcialmente, não estava na melhor posição do campo para o pré-sal, e isso ficou adormecido. Quando apareceu o pré-sal da Bacia de Santos alguém chegou e falou: “Esse aqui é igual ao de lá”. Aí nós pedimos autorização para reentrar no poço e fazer a mesma coisa, fazer um teste de longa duração. Quando reentrou no poço e fez o teste curto mostrou um excelente resultado e nós vimos a chance de colocar o pré-sal em produção no Brasil antes de tudo porque tinha uma plataforma de produção ao lado, plataforma predestinada, porque ia juntando as histórias que a plataforma. Até me emociona a conexão que eu nunca tinha feito de tão explícita. Mas a plataforma P-34 era um navio chamado Juscelino Kubitschek. E que com o regime militar cassaram o Juscelino e cassaram o nome dele em todo, inclusive nesse navio, passaram para Presidente Prudente de Moraes, PP Moraes, e depois P-34. então essa história foi resgatada, eu até fui lá em Brasília no Memorial JK, há uns anos atrás, numa cerimônia, fala com o Presidente, o ____, resultado: todo mundo topou fazer isso, se criou a bordo da P-34 o espaço JK. Isso produziu Jubarte pós-sal. Sempre na posição de pioneirismo de Juscelino a P-34 estava no caminho para produzir o primeiro óleo do pré-sal no Brasil. Foi essa unidade, inclusive o tempo ajudou porque o Lula pode ir a bordo, fez a festa. Foi um dia muito bonito.


P/1 – Isso foi que dia?


R – Foi no dia dois de setembro de 2008, que foi, vamos dizer assim, o poço entrou em produção em agosto, esteve lá umas emoções, mas a data marcada pela presidência da república não estava associada a data prevista pela Petrobras, mas tinha a data da agenda, mas foi uma data associada a semana da pátria, Independência, tal, foi associado a isso aí, e o slogan usado foi: O início da nova era. Agora com o Tupi foi o ano um da nova era. Então na realidade aquele barril do Tupi já foi igualzinho ao outro. Teve uma coisa, o presidente Lula pediu uns barris. Houve uma, o que eu chamo de competição olímpica, ninguém está ganhando nem medalha de ouro por causa disso, mas a vontade que move a Petrobras e o entusiasmo de fazer as coisas até porque o ganho é para o país. A alegria das pessoas. O conhecimento adquirido ao adiantar alguns meses foi muito importante até para o teste de Tupi também. A gente esteve a felicidade de estar nesse ciclo, com dez anos de Espírito Santo, sair ali de patinho feio, que ia fechar, para


P/1 – Pois é, isso que eu queria saber: eu já ouvi pessoas falarem que o Espírito Santo teve uma época que estava com uma produção em declínio e se cogitou até em fechar. Queria que você comentasse esse período, você foi para lá e deu essa, como é que foi?


R – Eu fui para lá no auge desse período, no auge da imagem desse período, mas já era no início de uma virada. Se a gente olha os números o pior ano foi em 1998; 1999 já foi melhor um pouquinho. Alguns indicadores já estavam mudando, só que como era uma coisa muito pequena, melhorar 10% de uma coisa muito pequena ninguém perceba. Mas o ponto de (flexão?) foi ali. Também eu não tinha essa percepção que o ponto de (flexão?) era ali. Mas a gente chegou lá e viu o seguinte: “Aqui a gente tem que ousar o máximo porque não tem saída. Se deixar as coisas acontecerem vai acabar e fechar”. No planejamento a longo prazo da empresa não existia o Espírito Santo como unidade. Podia existir o norte da Bacia de Campos, por Macaé. E a gente fez um plano estratégico regional, que a gente colocou algumas coisas nesse plano, plano formal, uma delas era: A visão maior. Ter uma unidade de exploração e produção que gerenciasse todo o Espírito Santo. Foi em meados de 1999 que a gente fez isso. Da gente ter lá o (Xilan?), ter uma unidade do tipo (Xilan?) produzindo no mar até 2003. A gente botou seis mil barris até 2003. Tinha data e volume. A gente botou seis mil que a gente achava que era o mínimo a ser produzido para ser comercial. O poço de Jubarte entrou e botou 23 mil barris. Foi quase quatro vezes mais. O ganho de produtividade, que eu falei que tinha sido três, quatro, seis vezes, foi 20. O cara que menos sabia foi que acertou. A gente fez um IP [Índice de Produtividade], a gente fez e chamou de hipoteca, aposta no IP e o cara que menos, o cara coitado, falei assim: “Esse cara está doido, botou 20”. Botou 20 não, o IP saiu de 26 para 120. A gente apostava no número do IP, e o cara botou 120. Eu botei cem porque eu era mais numerológico. O número do poço era 100, o outro era 100, resolvi botar cem, pensei: “110 é muito, vou botar cem”. 


P/1 – Quando você liga para o Tadeu, é uma aposta também? Ou vocês já tinham alguma interpretação que valia a pena também jogar as fichas ali? Tem o lado da avaliação de vocês, mas tem o lado também do “vamos correr riscos”?


R – O risco seria um fiasco, não se comprovar. Como ficou esses 15 dias que eu falei que estava testando e parece que as pessoas: "Está vendo? Isso não dá certo, não vai. Para quê? Agora aonde a gente vai botar o (Xilan?)”. Mas o fato é que existem os modelos construídos de sucesso que quando você vai replicar para uma outra área você tem que modificar. Como é o caso até do pré-sal, que eu falei. O Pré-sal foi descoberto e passou despercebido. Não tinha sido esse o primeiro momento; também não era na posição mais favorável. Ele enganou mesmo, não era uma coisa, enfim, esse poço é que entrou em produção. Ele não entrou para história como descobridor, embora tenha sido.


P/1 – Esse poço próximo do Jubarte é do pré-sal?


R – Ele foi o primeiro que atingiu o pré-sal, mas como não foi testado, não estava numa posição muito favorável. Depois a gente entrou no poço e aprofundou ele, e aí encontrou mais óleo, esse poço, a história fez justiça, passou a ser o primeiro a produzir. Alguém pode dizer: “Mas ele foi descoberto lá atrás”. Mas entre decisão e colocar foi coisa de meses. 


P/1 – Teve uma agilidade, uma sorte de vocês estarem também ali com o Jubarte?


R – Eu estava ao lado. Eu acho que às vezes você tem que acreditar. A gente ficou trabalhando o tempo inteiro sem ter perspectiva. A gente foi criando um projeto. Tanto é que na hora que o Tadeu me perguntou: “Em quanto tempo vocês apresentam um projeto?” Nosso projeto já estava pronto. A gente vinha conversando com diversas pessoas. Não estava só pronto como estava vendido para a comunidade técnica. Essa comunidade técnica tinha montado esse projeto. Ele estava sendo hipoteticamente apresentado em seminários. Ele já estava ganhando vida, só faltava um cenário de utilização. Eu participei da discussão da reestruturação de 2000, que criaram as unidades de negócio, eu falei que tinha uma sinergia entre a parte de terra e mar, numa reunião lá até com muita gente, e todo mundo riu. “Não tem nada a ver; é outro mundo; uma coisa não se mistura com a outra”. Mas tem a ver. E tem um reservatório nosso, fazenda alegre, que é um campo de óleo pesado lá no norte do Espírito Santo que também aconteceu a mesma coisa, de 1999 a 2000. A gente não podia desenvolver os campos que os poços eram sub-comerciais, o reservatório era sub-comercial com os poços verticais direcionais. E não deixavam a gente fazer um horizontal para testar. Quando fez um horizontal o ganho de produtividade foi muito grande. Baseado no conhecimento dali a gente transportou para Jubarte.


P/1 – Como chama? Esse é o pendular?


R – Não, horizontal. O horizontal vem em um determinado ângulo e no reservatório ele fica horizontal. Não é horizontal perfeitamente, mas tende a ter um ângulo de 90º, quase horizontal.


P/1 – E isso que ajudou o Jubarte.


R – O Espírito Santo daria um capítulo de ver como isso aconteceu. Porque quando a gente chegou lá a gente falou o seguinte: “Vai ter uma unidade desse tipo com sede em Vitória”, a sede era em São Mateus. Em menos de dois (anos?) que a gente estava lá essa sede estava em Vitória. “Tem que colocar alguma coisa em produção para dar âncora”. Ancorar a unidade. Tinha o projeto de Peroá, que era um campo de gás. Mas o Jubarte furou a fila e entrou em produção primeiro e depois entrou Peroá. Com a crise do gás nós nos oferecemos como uma solução, com as oportunidades que tinha e foi construída uma estrutura gigantesca; está sendo ainda construída, mas já tem boa parte pronta. Saiu (gás N?), saiu tudo. A Âncora no curto prazo é o Espírito Santo. Acabou passando a imagem que ganhar um campeonato de goleada, você nem comemora muito no final, mas de virada tem mais emoção. Essa característica de virar as dificuldades, de poucos acreditarem. Mas a questão é do olhar. Quem está ali, e aí eu digo: “Quantos Espíritos Santos não estão escondidos no Brasil afora e vão aparecer ainda?” Tudo em seu momento. Porque a Petrobras fez o primeiro poço marítimo no Brasil no Espírito Santo, tentou no Espírito Santo, em 1968. Mas só se revelou, e como a própria diretoria brincou, a gente achou o sal lá. O poço encontrou sal, o que já era um sinal interessante.


P/1 – Eu queria que você fizesse uma avaliação do pré-sal depois desse primeiro poço que vocês furaram, que vocês largaram na frente, também qual a perspectiva que você, como que vocês projetaram o desenvolvimento do pré-sal lá. Vocês já têm algum planejamento. 


R – Isso. Lá tem dificuldades da área de Marketing, mas não de ser propaganda, assim, mas de conseguir vender um produto. Então o pré-sal virou sinônimo do pólo pré-sal da Bacia de Santos: Tupi, Iara, Guará, essa turma gigantesca. E o Espírito Santo ficou na seguinte situação: Os campos do parque das baleias, Cachalote, Jubarte, Baleia Anã, Baleia Azul, entre outros, eles primeiro foram descobertos no pós-sal, e já tem um volume significativo, um campo gigante. São vários campos, por exemplo, Roncador é uma concessão só, mas poderia ser várias, dependendo da história, que a história foi diferente. Então ao descobrir o pré-sal na área desse 103 se estimou um volume pequeno. Mas quando furou os poços de Baleia Azul, a Petrobras anunciou, o volume cresceu muito. O pessoal quer separar o pré-sal do pós-sal, mas se contar tudo junto o Parque das Baleias é um meio Tupi. E meio Tupi é um gigante para ninguém botar defeito. Aí surgiu, uma maneira brasileira, às vezes falam assim: “Vamos falar do conceito Flex”, o pré-sal virou como se fosse uma grife. O que não é pré-sal não é bonito. Mas espera aí: A gasolina ninguém vai saber se veio do óleo do pré-sal ou não sei da onde. Tem esse lado. Então a gente começou a desenvolver o conceito de sistemas que estavam já em desenvolvimento para o pós-sal, a gente começou a ver possibilidade de colocar poços do pré-sal, começar a lotar essas plataformas e fazer outras plataformas dedicadas ao pré-sal. Já tem um conjunto de plataformas pensadas, ou em contratação, em estudo de viabilidade econômica, para desenvolver a região. Espero que outras coisas aconteçam, que não fique só nisso. Então não pode ter assim esse pólo do Espírito Santo e depois o da Bacia de Santos e não ter no meio do caminho mais nada de pré-sal. Inclusive não é o que se vende por aí. Só que não é furou e achou. A Petrobras tem essa competência, o nosso pessoal da exploração. Às vezes a gente vai conversar com as empresas e todo mundo quer o pré-sal. Eu digo: “E quando não sabia que tinha pré-sal, você queria?”. “Não”. “Então porque você não quer a __ equatorial, que fica lá no litoral do Pará, do Maranhão”. O que se descobrir lá passa a ser importante. Então a hora de entrar no jogo, que nem entrar em Brasília. Agora é diferente, o cara que chegou em 1961 podia ter começado a vida de outra forma. Ou não. As oportunidades estão aí, isso mostra que o Brasil tem muito mais oportunidades que a gente imagina. Todo mundo quer morar no Leblon, um em cima do outro, mora em outro lugar que daqui a pouco cria uma nova grife, uma coisa que o imaginário cria. 


P/1 – Você ficou também como Gerente da UM. Isso foi quando?


R – Eu fui gerente de produção em São Mateus e quando fui para Vitória no final do ano 2000, início de 2001, eu fui ser o gerente do ativo de Peroá, que era um campo de gás, mas como não tinha nenhum outro ativo a gente cuidava de todo o Espírito Santo. Depois fui gerente do ativo Mar, que mudou o nome para pegar realmente todo o Espírito Santo. 


P/1 – Ativo o quê?


R – Ativo Espírito Santo Mar. E em março de 2003 eu assumi a gerência geral e fiquei nesses seis anos e pouco aí.


P/1 – Foi um crescimento muito grande. Eu queria que você contasse um pouco até do prédio bonito que estão construindo. Sei que houve um concurso de arquitetos pelo Brasil. 


R – O Espírito Santo, antes de ir para lá eu não tinha nenhuma ligação com o Espírito Santo, mas há algumas palavras chave para ele, uma delas é diversidade. O Espírito Santo é o campeão de diversidade da fauna, da flora, da gente, e do petróleo também. Ele tem atividade em terra, água rasa, profunda, tem pré-sal, tem de tudo. Um bocadinho de cada coisa tem. Acho que o Espírito Santo também é um campo de inovação. Acho que a palavra chave é abertura para inovação. Ele tem um campo, você pode fazer pilotos. A gente tem vários projetos piloto. A sede de unidades administrativas, não é das porque não cabe todo mundo. Não é uma sede do (AP?), uma sede da ONS [Operador Nacional do Sistema Elétrico], é uma sede da Petrobras, para as unidades da Petrobras. A gente é pretensiosa e quer botar uma sede da Petrobras. Às vezes o pessoal confunde. É o conceito de integrar todo mundo. É um ambiente para integrar a Petrobras inteira, no Espírito Santo. A parte administrativa. Então foi uma, é até um dos projetos mais polêmicos, mas aí a gente vê que para construir uma pirâmide no Louvre foi uma polêmica sem fim, a Torre Eiffel, hoje nem se fala mais. Não sei porque algumas coisas dão polêmicas, foi feito para ser polêmica. A escolha do local foi um processo complicado, passou por ene locais, ene situações, ene abordagens. E o nosso diretor me convidou e no próprio momento que ele estava me convidando um outro colega já estava pedindo para fazer prédio em outra unidade. Aí ele falou o seguinte: “Para mim o prédio tem que ser concurso público arquitetônico nacional”. E os outros prédios foram passando sem concurso público e a gente levou o nosso como concurso público, naquele modelo de querer projetar o sonho dos outros [risos], eu digo: “Vamos fazer dessa forma aí”. Aí foi feito o maior concurso público de arquitetura da história do Brasil. Até porque não têm muitos.

 

[Troca de fita]


P/1 – O prédio também foi pensado para ser um prédio ecologicamente correto, né?


R – A gente pensou: “Para fazer o concurso a gente tem que dar uma orientação”, então a gente começou a pesquisar com as pessoas, de forma informal, com os empregados, contratados e pessoas de um modo geral, ideias de um prédio eco suficiente, sustentável. O que as pessoas imaginavam que seria o prédio. Juntámos tudo isso, surgiu já um primeiro conjunto de orientações. E também foi feito um seminário de Arquitetura onde foram trazidos especialistas em prédios desse tipo. Esse seminário foi muito procurado pela classe dos arquitetos, houve mais de 400 participantes. Não foram convidados, foi entrada gratuita, mas não foram levados pela Petrobrás, veio gente do Brasil inteiro participar. E com o resultado a gente escreveu um caderninho de premissas para fazer o concurso, que o Instituto dos Arquitetos do Brasil coordenou. Foram sete jurados: Quatro indicados por eles e três pela Petrobrás. O nosso diretor disse: “Não indique ninguém da Petrobrás”. Eu o convenci a indicar um, então já teria uma pessoa da Petrobrás no júri, um arquiteto, da Engenharia. A Petrobras indicou duas pessoas, o presidente do CREA [Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura] do Espírito Santo e um professor da Universidade ___, estamos dentro da Universidade, com parte de nossas atividades, Universidade Federal do Espírito Santo, e um professor lá que escreve sobre desenvolvimento. Mas dá um certo ___ quando a gente viu. Foram 120 ou 130 projetos inscritos do Brasil inteiro. E três foram escolhidos finalistas. 


P/1 – Qual o nome do arquiteto vencedor?


R – É o Sidonio Porto, um arquiteto mineiro, que está radicado em São Paulo, ____.  Anunciaram os três finalistas num determinado momento e ele foi o único dos três finalistas presente. Ele acreditava!


P/1 – Está previsto para ficar pronto quando?


R – Meados do ano que vem, estamos na reta final. De um lado há uma classe média alta, do outro é mais comercial. Isso tudo mexe. A Avenida Nossa Senhora da Penha, reta da Penha, lá em Vitória, já está se transformando. Eu chamo de século XXI, porque tem o Convento da Penha de um lado, tem a Universidade do outro, tem prédios maravilhosos. E vai ter lá, há um giratório na cobertura do prédio da Federação das indústrias e de lá a gente vai ver: As áreas sociais têm (desafio?), as áreas verdes, a água, o canal, manguezal, prédios maravilhosos. Inclusive o prédio da Petrobrás vai estar compondo esta paisagem. 


P/1 – Vitória cresceu nesse período que você ficou lá?


R – Muito, o crescimento do Espírito Santo é vertiginoso. Todos os indicadores mostram. Inclusive o crescimento do Espírito santo passou a ser muito associado ao da Petrobras, as pessoas confundem uma coisa com a outra. A Petrobras era pequena comparada com Vale, ___, Aracruz, São Marco. E hoje a Petrobras passou a frente com a chegada da P-34. Foram dois momentos que milhares de pessoas foram às ruas: Para aplaudir a chegada de uma plataforma para ser reformada e a sua saída, depois de dois anos e pouco. Não foi convite, não foi nada. Foi um negócio que causou... Então há uma ligação muito grande. Aqui ___ plataforma. Não faz mal, faz parte da paisagem!


P/1 – E a sua trajetória: Você saiu de lá porque quis sair? Como foi?


R – Tudo é temporário. Sair de lá foi muito difícil. A ligação com os empregados, com a sociedade, com a população é muito forte. Acabei também ficando identificado com esse momento. Isso dá um peso maior. Eu já vinha conversando, você tem uma hora que mudar, sair. Surgiu um convite para vir aqui para os Novos Negócios, que é uma área que também tem um papel muito importante, pode juntar parte da experiência que eu tive, já que a gente agora vai lidar com um novo marco regulatório do pré-sal. Nova forma da Petrobrás lidar com outras empresas e com o próprio governo em termos de negociação de contrato de partilha, contrato de concessão. Essa área é fundamental para isso e tem a ver com esse meu lado de gostar de trabalhar com estratégia. O que aconteceu com o Espírito Santo também dá uma bagagem para as pessoas; é uma forma da Petrobrás mostrar. É como o chefe, o Figueiredo dizia: A gente muda de emprego sem sair da empresa. A gente tem que estar sempre começando de novo. Claro que tem já uma história, mas acho que esse momento é muito rico e coincide. Quando eu saí há dez anos, aqui estava no início desse novo modelo. E agora a gente vai começar o novo. Continua o antigo e vai ter uma parte significativa de um novíssimo modelo. 


P/1 – Você falou que estava indo para o IBP [Instituto Brasileiro de Petróleo]?


R – Os Novos Negócios representam; a Petrobras tem uma vaga na diretoria do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis. Eu também estou indo trabalhar lá. O João Carlo de Luca é presidente do IBP hoje. São os encontros que acontecem. Mas eu continuo na Petrobrás. São coisas simbólicas assim, que reúne indústria, _____.


P/1 – Queria que você me dissesse qual é o seu atual desafio nessa nova área.


R – Meu desafio é que a Petrobrás possa ser mais bem sucedida ainda nesse novo modelo, com o marco regulatório do pré-sal. Que é uma forma diferente de trabalhar. As pessoas às vezes não estão acostumadas a trabalhar em parceria. ___ que a Petrobras domina.


P/1 – Vocês estão fazendo estudos? A Petrobras tem uma forma de colaborar com o governo nesses marcos? 


R – A Petrobras é o ator mais importante da indústria do petróleo no Brasil. Ela participa, nosso presidente participa de reuniões com pessoas do ___. Então a Petrobrás está acompanhando, está vendo também. Tem um poder limitado, mas tem a sua capacidade, pelo que ela já fez tem crédito para usar nesse momento. Isso aí ela está usando bem.


P/1 – Eu queria te perguntar: Você tem filhos?


R – Eu tenho dois filhos, um casal. A Bárbara tem 21 anos e o Bernardo tem 16. 


P/1 – A mais velha está na faculdade?


R – Está na faculdade, faz Economia, na PUC [Pontifícia Universidade Católica]. O Bernardo está na segunda série do ensino médio, ano que vem faz vestibular. Um casal espetacular. Tem feito, esse tempo de hoje, intercâmbio, viaja para lá, viaja para cá. São mais ecléticos, mais polivalentes de estudo, de diversão, de esporte. Às vezes o pessoal faz a conta no investimento do filho. Eu digo, para usar o termo das análises econômicas dos projetos: “O retorno é infinito”. Calcula que gasta tanto, mas o retorno não tem preço. Qualquer investimento dá resultado. Estou muito feliz com eles.


P/1 – Está gostando do Rio, de volta aqui, a sua vida aqui?


R – Eu sempre freqüentei bastante o Rio, não é uma mudança tão forte assim. Mas estar no dia a dia da sede é diferente, uma nova fórmula. Estou gostando muito.


P/1 – Queria perguntar o que você achou de ter participado do Projeto Memória e o que você acha dessa iniciativa da Petrobras.


R – Acho uma iniciativa espetacular. Eu fico imaginando como tantas coisas maravilhosas que estão aí podem ser pesquisadas, como a gente pode traduzir isso num mundo que é muito instantâneo, coisa de consumo imediato. Como que esse produto vai ser trabalhado, através de um Museu, um centro, um local interativo, onde as pessoas possam pesquisar, trocar e entender. Porque às vezes as pessoas não se interessam em saber por que as coisas acontecem e querem ficar só no fato em si. Acho que o que está por trás daquilo ali que é uma grande aprendizagem que a gente pode passar para outras pessoas, interagir. Acho que esse material é muito rico. Como a gente navega por ele é o grande desafio.

 

---FIM DA ENTREVISTA---

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