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Prazer em servir o coletivo

História de: Hélio Mattar
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/02/2017

Sinopse

Hélio Mattar é descendente de imigrantes árabes vindos para o Brasil. Nascido em 1947 e criado na capital paulista, Helio relembra a recepção dos imigrantes na cidade e como sua infância foi marcada pela situação financeira do pai, motivo de divergências familiares. Fala sobre o bairro da Bela Vista e os estudos no Dante Alighieri, colégio tradicional da cidade. Cursou Engenharia na Escola Politécnica da USP e lá fez pesquisas no Instituto de Pesquisas Tecnológicas, onde estudou os impactos da economia do babaçu. Após atuar no setor privado, setor no qual foi dono da rede de restaurantes América, Helio dedicou-se ao terceiro setor, servindo voluntariamente na Fundação Abrinq e no Instituto Akatu, dos quais foi presidente.

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História completa

Sou o Hélio Mattar, nasci em São Paulo, capital, em dezesseis de fevereiro de 1947. O nome de meu pai era Jamil Mattar, ele foi um típico filho de imigrante. Os árabes, nessa época, década de vinte, eram aqueles que comiam esfiha e esfiha era uma coisa considerada estranha, esquisita, esfiha, kibe. Então, eles não eram totalmente aceitos pela chamada aristocracia paulista naquela época. Minha mãe, Laurence era o nome, Lorance era como era chamada, era de uma família síria, uma família também de imigrantes. Sempre esses imigrantes acabavam vindo porque alguém tinha vindo antes para o Brasil. Olhando para as duas famílias, eu sempre me identifiquei com o lado paterno, me identifiquei muito pouco com o lado materno. Talvez porque, quando em 1954, eu tinha sete anos e o meu pai foi à falência, a maneira como eu fui tratado por cada uma das famílias foi muito diferente e por parte da família síria, de maneira muito gritante, a questão da perda do dinheiro era uma perda absoluta, era quase a perda da dignidade, era perda de absolutamente tudo, não sobrava absolutamente nada na vida. De um modo geral, minha mãe era a autoridade da casa. Papai, depois da falência que, como eu disse, foi extraordinariamente marcante na vida dele, eu o via sorrir, o via feliz, realmente de eu lembrar, uma vez por ano, no Natal. Então para mim, era o máximo o Natal, até hoje é. Fazia uma árvore grande, punha presentes embaixo e ele sorria, essa é uma lembrança forte que eu tenho. E no dia a dia era a minha mãe, ela que fazia as coisas acontecerem na casa, conduzia os filhos, nos obrigava a estudar quando a gente estava meio relaxado e não deixou a peteca cair.

Morava na Bela Vista, que era um bairro maravilhoso! Era como uma extensa família, eu diria, o bairro da Bela Vista. E eu era muito bom aluno na escola, no Dante Alighieri, a secretária da escola me indicou como tutor para alguns alunos que estavam com dificuldade e eu fui muito bem aceito pelos alunos e pelos pais dos alunos. Então, o que acabou acontecendo foi que já com doze, treze anos, eu dava aula o tempo todo. Eu ia para a escola de manhã, à tarde, dava aula, às vezes, à noite, dava aula. Nas férias, que tinha segunda época naquela época, então, as crianças iam ter segunda época em fevereiro, eu passava as férias inteiras dando aula. Com dezesseis, dezessete anos, eu acordava às seis e meia da manhã, dava aula das sete da manhã à meia-noite, sem parar. Fui remunerado desde o primeiro dia que eu comecei a dar aula.

Prestei vestibular para Engenharia, nessa época, há cinquenta e poucos anos atrás, , a gente com 18 anos prestava ou era Engenharia, ou era Medicina ou era Advocacia, pelo menos no meu modo de ver, naquele circulo em que eu estava. Então, fui fazer Engenharia, mas nunca fui engenheiro na minha vida, me formei em Engenharia de Produção porque eu não me via como aquele engenheiro típico que é dos cálculos, da coisa das exatas e tal. Eu, no fundo, eu dei aula de exatas durante treze anos da minha vida, dos onze aos vinte e quatro, porque eu tinha facilidade nisso, mas isso não significava que era o que eu queria, mas diziam naquela época: “Você é bom de matemática, você vai para Engenharia”.

Cursei a escola Politécnica, a Poli. Naquele momento, tem que lembrar que era o inicio da década de 70, a Cidade Universitária tinha começado de ser instalada onde ela está hoje. Me formei depois de dois anos, portanto, fiquei seis anos na faculdade e nunca, realmente, fui engenheiro. Durante toda a minha vida, aquilo que mais me interessou, de fato, que mais interessa a mim, eu acho que são as artes.  Me interessa o bem estar das pessoas, eu tenho prazer de servir o coletivo, adoro fazer isso. Quando eu faço algo que é em beneficio de algo maior do que eu mesmo, eu fico super contente. E isso é o que realmente me dá prazer, me dá gosto. No fim, eu fui ser administrador, mas a Politécnica era uma grande escola, e nela eu aprendi a pensar. Eu acho que se eu fosse olhar em termos modernos, do que hoje a UNICEF diz que deve ser o ensino, a Politécnica me deu isso, de aprender a refletir, análise crítica, estrutura lógica de pensamento. Tudo isso eu acho que veio da minha formação no Dante Alighieri e veio muito da Escola Politécnica.

Depois me doutorei em Engenharia Industrial com ênfase em Economia Industrial, dei aulas por um período, fui professor da USP, fui professor da FGV, fui professor do ITA, fui professor de algumas universidades. Então fui para o IPT, e no IPT montei uma área que não existia. O IPT era um estudo exclusivamente de tecnologia e o Doutor Alberto Pereira de Castro, na época, estava querendo montar uma área da economia da tecnologia, uma área que estudasse a viabilidade da tecnologia para ser implementada, de que aquilo que fosse desenvolvido dentro do IPT pudesse ser implementado na sociedade. Curiosamente, o que eu comecei a fazer no IPT, e montei um departamento para fazer isso, era análise de impacto da tecnologia sobre a sociedade, sobre o meio ambiente, sobre economia. Eu dei uma volta imensa, durante uns quarenta anos, e hoje, se eu olhar o que eu faço, eu olho para o impacto do consumo sobre a sociedade, sobre o meio ambiente, sobre a economia. Aqui olhava para a tecnologia como determinante dos impactos e aqui eu olho para o consumo como determinante dos impactos, mas é obvio que o consumo tem uma relação direta com a tecnologia para que ele tenha esse impacto, dependendo da tecnologia, muda a tecnologia, mudam os impactos, então, dei uma volta imensa para fazer a mesma coisa nesses últimos quinze anos.

Foi uma área muito bem sucedida, que existe até hoje dentro do IPT, e fez os primeiros estudos de avaliação da viabilidade tecnológica e dos seus impactos para vários setores dentro do IPT. Um dos maiores estudos, que foi feito contratado pela CESP, foi um estudo que hoje teria alguma oportunidade, era de uma atualidade imensa, que era estudar a biomassa para fins energéticos. Então, nós fomos olhar álcool, fomos olhar madeira, carvão e madeira, fomos olhar babaçu. Mas o estudo foi revolucionário, nesse ponto de vista, porque ele foi analisar combustíveis que, de um modo geral, seriam renováveis, como a madeira e o álcool a partir de cana-de-açúcar, e de outros combustíveis como era o caso do babaçu no nordeste brasileiro. Fiz o primeiro estudo sobre babaçu, economia do babaçu que era uma economia, praticamente, comunitária. Estabeleci a área, fiz estudos na área de transportes, fiz estudo na área de fertilizantes, na área de química, em cada uma dessas áreas havia algum desenvolvimento tecnológico que precisava de um estudo econômico e de um estudo de impacto. Era essa nossa área que fazia, foi muito rico esse período e foi dos raros períodos da minha vida que eu só fazia uma coisa, eu só trabalhava no IPT e dava aula na época, na GV. Fazia só isso, porque em todos os outros períodos da minha vida, eu fiz várias coisas ao mesmo tempo.

Eu resolvi sair do IPT, basicamente, por uma questão financeira. Aí, fui para o setor privado, fui trabalhar em planejamento estratégico na Corporação Bonfiglioli que era uma enorme corporação nessa época, tinha banco, tinha alimentos, tinha trading, tinha agricultura, enfim, tinha muitos negócios. Nos meus últimos meses na corporação um grupo de empresários me procurou oferecendo um negócio, era um negócio de uma lanchonete, burguer e pasta. Eles pretendiam montar uma rede de restaurantes, e eu disse: “Só que o nome que vocês deram – que eu não me lembro mais qual era – não vai dar certo, precisa escolher outro nome”, então trabalhamos um tempo no nome, no cardápio e montamos uma rede que existe até hoje, chamada América Burguer e Pasta. O Burguer e Pasta sumiu, mas o América continuou, muito bem sucedido. Passei quase doze anos lá até vender a minha participação para meus sócios, que ficaram com 100% do negócio e eu fui para o governo. Fui secretário de politica industrial, comercial e de serviços do Governo Federal, segundo governo do Fernando Henrique. Fui convidado pelo Celso Lafer, que era o primeiro ministro do Desenvolvimento de Indústria e Comércio Exterior, e ele juntou duas secretarias que eu chamei de secretaria de desenvolvimento da produção e fiquei dois anos no governo. Depois de dois anos no governo, estava muito cansado de ir a Brasília toda semana, ir e voltar, e decidi ir para o terceiro setor.

Eu já estava na Fundação Abrinq há muitos anos como membro do conselho, então, o convite foi feito pelo conselho para tocar a executiva da Abrinq voluntariamente, o que fiz por três anos. Na Fundação Abrinq eu estava para levar para a escala alguns dos programas da Fundação Abrinq que não tinham escala de impacto. E eu achava que a Fundação Abrinq tinha uma grande visibilidade, uma grande reputação e que dava para formatar os programas de maneira a leva-los para a escala. Eu comecei a fazer isso, levava isso para o conselho que era essa a missão que eu negociei com o conselho. O conselho, muitas vezes, não conseguia entender bem o que eu tava propondo, que obviamente, era uma responsabilidade minha fazer com que entendessem e o pessoal que estava na gestão, menos ainda. O pessoal, a equipe menos ainda conseguia entender. Eu levei muitos anos para entender que as ONGs são uma federação de indivíduos, em geral, com um norte que tem que ser, praticamente, único para que ele possa caminhar e é um de cada vez.

Eu fui para a Abrinq ao final de 2000, e então já comecei a conceber o Akatu com certa formulação. Seis meses depois, eu formalizei a criação do Akatu. Durante esses seis meses, eu trabalhei com duas pessoas do Ethos, onde a ideia do Akatu tinha nascido, nas reuniões de conselho do Ethos, dentro de uma perspectiva de que o consumidor era necessário para valorizar as empresas e fazer com que as empresas aprofundassem a sua responsabilidade socioambiental. Este objetivo é o que foi levado para o Akatu, de que o Akatu faria com que os consumidores conhecessem melhor a responsabilidade socioambiental, conhecessem o que as empresas estavam fazendo e dado o que os consumidores haviam declarado em pesquisa que tinham interesse em saber o que as empresas faziam, a gente provia essa informação e achávamos que o consumidor iria pegar essa informação, usar e escolher comprar dessa empresa e não daquela, escolher esse produto e não aquele.

Acabamos nos convencendo que se o Akatu não fosse capaz de mostrar o quão transformador o ato de compra, uso ou descarte do produto e serviços de fato é, nós não iriamos fazer com que o consumidor se transformasse. E aí, nós desenvolvemos uma metodologia pedagógica para fazer a transformação da percepção do consumidor no consumo como um ato de solidariedade ou como um ato de compaixão, na medida em que o consumo tem impacto. Então, consumir é provocar impactos que podem ser melhores ou piores sobre a sociedade e sobre o meio ambiente e se eu, consumidor escolho impactos melhores, eu estou sendo solidário com o meio ambiente, com a sociedade e, em última instancia, eu também estou sendo solidário comigo mesmo, porque eu vou viver nessa sociedade e eu vou viver nesse meio ambiente que eu mesmo estou provocando ter determinadas características. Quando a gente percebeu que o problema era mudar a percepção do consumidor sobre o poder transformador do ato de consumo de maneira que o consumidor passasse a usar o seu ato de consumo de maneira a provocar melhores impactos, nós começamos a desenvolver a metodologia pedagógica tentando pensar por que o consumidor não tinha nenhum interesse em proteger o meio ambiente, por exemplo, por via do seu ato de compra. Por que o consumidor não fazia uso desse poder? E aí, desenvolvemos essa metodologia pedagógica, nós fomos testando aos poucos em pequenos grupos.

Do ponto de vista da nossa missão, que é o mais importante, o desafio é a escala em velocidade. Nós sabemos fazer, nós sabemos ensinar quem quiser fazer, mas nós precisamos levar isso para escala e com grande velocidade. Nós estamos, por exemplo, há três anos, praticamente, com o Edukatu, uma plataforma gratuita que já conta com duas mil e poucas escolas, cerca de 30 mil pessoas, não é suficiente e não conseguimos evoluir com velocidade, porque os governos não se interessam, de fato, em colocar isso fortemente para as escolas. Então escala e velocidade é o nosso grande desafio, é o mesmo desafio de levar as empresas a pensarem nos seus produtos de uma maneira radicalmente diferente, a se pensar como sociedade uma nova organização da sociedade que seja radicalmente diferente. Hoje a visibilidade, a transparência do mundo contemporâneo faz com que essas diferenças, essas desigualdades resultantes sejam muito graves e provocadoras de violência na sociedade, e nós vamos precisar mudar isso. E para mudar isso, nós vamos precisar mudar a maneira de viver.

Nesses 15 anos do Akatu, eu vi uma evolução das pessoas, eu não gostaria nem de dizer dos consumidores, mas das pessoas, das pessoas se tornando mais conscientes da importância do meio ambiente, da importância de relações sociais mais harmônicas, da importância da vida de família, da vida com os amigos. Isso, claramente, vem acontecendo. E é muito interessante ver a contrapartida disso nas relações das pessoas com as empresas e, aí sim, as pessoas como consumidoras.

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