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História

Prazer em ajudar o outro

História de: Joana Darc Rosalvo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/02/2021

Sinopse

Joana é a mais velha de três irmãos, ajudava em casa desde cedo; Adotou uma criança com paralisia cerebral; Desenvolveu um aplicativo para facilitar a comunicação verbal de pessoas com paralisia cerebral, o V de Vitória; Apresenta performances de dança com a Vitória;

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História completa

Há uns três anos nós fizemos um cinema na rua. Como minha rua não tem saída, nós fechamos um trecho bem próximo da minha casa. Consegui um pula-pula, uma cama elástica e uma piscina de bolinhas. Coloquei a piscina de bolinhas no meu quintal e a cama elástica na rua. Pegamos a garagem de um dos vizinhos e colocamos o cinema lá depois de seis horas com a molecada, com pipoca, refrigerante, cachorro quente… Então assim, fizemos uma tarde para as crianças, e nessa tarde, fizemos brincadeiras típicas: corrida de saco, corrida do ovo… Mostramos para as crianças que temos brincadeiras que não estão ligadas aos eletrônicos e às redes sociais. Foi uma tarde bem interessante. Alguém me perguntou, "mas o que você ganha com isso?". Depois de alguns dias passado esse evento, eu estava na rua e veio uma criança correndo, grudou nas minhas pernas e disse, "tia, foi tão gostoso o cinema, quando é que você vai fazer outro?", então assim, o que eu ganho? Isso eu ganho. A criança ter visto… Quantas crianças da periferia, da Brasilândia, vão ao cinema? Quantas crianças têm esse privilégio? É um momento de lazer, uma coisa diferente que lá na frente eles vão perceber. Quando eu faço esse tipo de trabalho, é pensando que, "bom, se a Joana conseguiu fazer, se ela conseguiu ter a visão para fazer, eu também posso", que as pessoas saibam que são capazes. Você não tem o dinheiro… Por exemplo, na alimentação que nós fizemos naquele dia, distribuímos 270 cachorros-quentes. Como conseguimos isso? Um vizinho deu um pacote de salsicha, o outro deu um fardo de refrigerante, o outro deu dez pães… E assim nós fizemos. Tivemos uma participação muito grande da associação de moradores do bairro. O presidente Cláudio Café projetou, os brinquedos quem forneceu para gente foi a Solange que faz eventos, então assim, são pessoas parceiras que vamos bater na porta. Eu fazia parte da associação, então o Cláudio me ajudou a organizar esse cinema na rua. O Cláudio é sempre muito meu parceiro no que eu invento de fazer, nas loucuras que eu penso na vida, estamos sempre juntos nesse sentido. E que as pessoas consigam enxergar que são capazes, é capaz de acontecer. Não precisa ter muito dinheiro, não precisa bater na porta da prefeitura, porque a própria comunidade pode fazer isso. Já te dei dois exemplos do que a comunidade fez: o cinema na rua para as crianças e a praça pronta. É a força da própria comunidade. Por que eu escolhi a enfermagem? Porque eu me formei auxiliar de enfermagem primeiro e depois fiz o técnico de enfermagem... Quando me imaginei cuidando, foi quando a Vi apareceu na minha vida, porque como eu disse, a Vitória tem paralisia cerebral espástica. Quando ela chegou na minha casa, tinha três meses. Tinha a Tatiane… Elas têm dois meses de diferença, então eram dois bebês de três ou quatro meses. A Tatiane se mexia, um bebê de três meses já quer brincar e tal. A Vitória, não, ela ficava ali paradinha, só chorava. Ela passou uns três ou quatro dias só chorando, aquela coisa de… E aquela criança me chamou atenção. Eu devia ter uns 15 anos quando a Vitória apareceu em casa, mas aquela criança me chamou atenção. Ela passava a semana em casa e a mãe vinha buscá-la no final de semana. Quando a mãe dela chegou eu disse, "traz para mim a certidão de nascimento da Vi e a carteirinha de vacina, porque essa criança chora demais e eu vou levá-la no posto", e a mãe me disse que ela não tinha carteirinha de vacina, eu falei "então me traz a certidão". Passou-se mais de uma semana, a mãe trouxe, eu levei a Vitória até a OBS, e nós descobrimos que a Vitória não era uma criança dita "normal", ela era diferente. Nós conversamos com a doutora, começamos a fazer pesquisa e fazer exames. O que a Vitória tinha, nós não sabíamos, eu não sabia. Fomos fazendo exames, e quando a Vitória estava com oito para nove meses, eu fui para a escola, - eu estudava, era adolescente - um dia, e quando eu fui para casa meu pai e minha mãe me disseram o seguinte, que a mãe da Vitória tinha aparecido no meio da semana e ido lá em casa, perguntando a eles se eu podia ficar com a Vitória, se ela podia me dar a Vitória, porque ela não tinha condições de cuidar da Vi e sabia que se alguém poderia cuidar dela, essa pessoa seria eu, e se eles não permitissem, ela iria entregar a Vitória na época ao juizado de menores, porque não tinha condições. Quando eu cheguei em casa e meu pai me contou, eu me ajoelhei nos pés dele, "deixa, pai, pelo amor de Deus, deixa". Na verdade, meus pais achavam que seria mais um filho para eles criarem, mais uma criança para eles tomarem conta, ninguém imaginou que eu teria essa paixão pela Vitória. Essa paixão pela Vitória foi desde o primeiro instante. A Vi ficou comigo, começamos os tratamentos e a mãe dela sumiu. Nós conseguimos tratamento na Santa Casa e foi interessante na primeira consulta, porque eu a levei na Santa Casa de Misericórdia, entramos no consultório e o médico queria saber como foi a gestação, como foi o parto e toda… "Não sei", "como não sabe? Você não é a mãe? ``,''não ``,''e quem é você?", "ah, a mãe dela me deu", "como assim te deu?", eu era menor de idade e ele disse, "não, não dá, vamos remarcar e chamar a mãe". A mãe já tinha sumido. Eu tinha ido uma vez na casa da irmã dela, e nem sei onde fica. E para achar essa mulher? O que eu ia fazer? Eu trabalhava de segunda a sexta, no domingo eu saía de manhã, ia para o terminal Bandeira, pegava o primeiro ônibus de uma daquelas plataformas, ia até o final e voltava tentando reconhecer o lugar. Eu fiz isso por mais ou menos um mês e meio, mas eu achei o lugar, desci do ônibus e fui bater na casa da irmã dela. A irmã dela me disse que não sabia que ela tinha me dado a menina. Bom, resumindo, a irmã dela apareceu, fomos na consulta e foi a última vez… Depois a Vitória fez um ano, eu fiz o aniversário dela, e ela não veio, mas 15 dias depois veio trazer um presente para a Vitória. Qual foi a surpresa? Ela trouxe um bebê. Quando ela me deu a Vitória, ela já estava gestante, então a Vitória tem um irmão. Nós começamos a fazer fisioterapia, e eu comecei a ver que precisava aprender a cuidar, então decidi que iria fazer enfermagem e fiz. Fui até o juiz para pegar a guarda da Vitória, porque eu tinha muito medo que a mãe chegasse a qualquer momento e a levasse embora. O juiz me perguntou minha idade e falou, "o correto é eu recolher essa criança. Você é menor de idade. A mãe tinha 23 e não quis, você com 16 para 17… Não, não posso", e eu me desesperei, né? Falei, "vai tomar a menina", e ele falou, "vamos fazer o seguinte? Eu estou vendo que você tem a maior boa vontade do mundo. Peça para os seus pais virem aqui, e eu dou a guarda a eles, mas vamos combinar uma coisa, você estuda, se forma e volta", e foi o que eu fiz. Eu fiz enfermagem, estava começando a trabalhar e voltei. Por uma coincidência do universo, eu encontrei o mesmo juiz. Quando ele leu, falou assim para mim, "você já esteve aqui anos atrás, não é?". Eu também não lembrava que era o mesmo juiz. Ele falou para mim, "eu lembro do seu caso, "você já esteve aqui anos atrás, não é?". Eu também não lembrava que era o mesmo juiz. Ele falou para mim, "eu lembro do seu caso, você estudou?". "Estudei", "o que você fez?", "fiz auxiliar de enfermagem", "trabalha?", "sim" (eu já trabalhava em dois hospitais), ele falou, "é, você realmente quer essa menina". Ele me deu a guarda durante seis meses, mandou me convocar três meses depois, me deu a guarda aos 18, depois de alguns meses me chamou de novo e me deu a guarda permanente. Uns seis meses depois desse processo todo, ele mandou me chamar novamente, eu fui até lá, e foi todo aquele processo com psicóloga e assistente social, e ele me deu o direito de adoção, então a Vitória é registrada no meu nome. Porque assim, eu sempre quis cuidar, mas é o cuidar de uma forma diferente, porque dentro da enfermagem, você tem uma limitação, tem a medicação, tem o procedimento médico que tem que ser liberado pelo médico, então você tem uma limitação. Já dentro do âmbito social, é muito maior esse leque, então não há limites para essa ajuda, para esse empoderamento. Na área da saúde, o máximo que você pode é empoderar a pessoa, é que ela tenha… Porque vai do psicológico… Quando o paciente decide não mais viver, decide que não quer mais viver e opta por morrer, você vê uma pessoa morrer aos seus olhos. Às vezes a depressão mata a pessoa de uma forma fulminante diante dos seus olhos. Então a área da saúde é limitada nesse sentido. Eu amo a minha profissão na área da saúde, é minha paixão.

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