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Pra quem queria ficar pra titia...

História de: Alice Salvo Sosnowski
Autor: Alice Salvo Sosnowski
Publicado em: 07/02/2018

Sinopse

Para uma adolescente que queria mudar o mundo e não estava nem aí para casamento e filhos, até que as bodas de cristal me caíram bem

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História completa

Era uma noite quente de setembro de 1992. Apesar da hora avançada, a estrada estava movimentada. Vários ônibus vindos de todas as regiões do país convergiam para a Capital Federal. Estacionamos num posto de serviço da rodovia e eu, uma jovem do ensino médio acompanhada da minha irmã de 18 anos, liguei para casa:  “Pai, estamos chegando em Brasília. Vamos tirar o presidente!”.


Aos 15 anos, eu era uma jovem que queria mudar o mundo e participava ativamente de todas as manifestações pró-impeachment de Fernando Collor de Mello. Fã de Luiz Inácio da Silva - o Lula - não via a hora de completar 16 anos para tirar o título de eleitor e votar no retirante nordestino que poderia mudar o Brasil. Também era fã de outro Luiz nordestino: o Gonzaga, o mestre Lua, um ícone do forró pé-de-serra, ritmo que me fazia dançar até de madrugada.  


Política e música. As minhas duas paixões na adolescência, que não deixavam espaço para mais nada: nem para os estudos, nem para os amores juvenis. Arrepiava só de ouvir falar em namoro sério, para desgosto de meus pais. E dizia: “Quando me formar, vou rodar o mundo e, depois, morar na Itália”. Este era um país que me cativava pela sua história e pelo belo idioma desde a infância.  


Concluí a faculdade de jornalismo em 1999 e me mudei para São Paulo. Precisava ganhar dinheiro para seguir meus planos de independência e liberdade. Mas já tinha 22 anos e as cobranças dos parentes se intensificaram. Nunca tinha apresentado um namorado para família, nem sonhava ou falava em ter filhos.  


Para me livrar das perguntas curiosas, dizia em tom jocoso:


- Só caso com alguém que preencher três pré-requisitos: tem que ser um cara que dance forró, fale italiano (já que vou me mudar pra lá) e que vote no Lula para presidente.

 

Minha veia política ainda pulsava forte e o Lula, nesta época, já disputava sua terceira eleição.


Comecei a trabalhar no jornal O Estado de S.Paulo e fiz uma boa turma de amigos. Logo de início, gostei do um colega tímido, vindo do Rio Grande do Sul, que um dia me contou que havia participado do movimento político de esquerda em Porto Alegre.  


Trabalhávamos até tarde da noite no fechamento do jornal. Era comum, então, eu chegar na redação já vestida para o forró: saia rodada, sapatilha e cabelo preso. Do jornal ia direto para o Remelexo, reduto dos forrozeiros paulistanos.


Um vez, a turma quis ir junto. Eu, já estava de olho no gaúcho esquerdista. E ele, de olho na minha saia curta e rodada. No forró, ensaiamos alguns passos juntos. Dois pra lá, dois pra cá. Rosto colado, ritmo compassado. Depois fiquei sabendo que ele dançava na verdade o vanerão, uma dança típica do sul. A amizade coloriu. Ficamos juntos a primeira vez!


Chegando no seguinte dia ao trabalho, escuto uma voz vindo do fundo da redação:


- Mama, me go gata la tozeta!


Hãhh!! O que era aquilo??


Era meu ficante gaúcho conversando com a mãe num idioma estranho que ele me explicou ser o talian, um dialeto do Norte da Itália que aprendera com os pais na vila de imigrantes onde nascera.


Percebi que o destino havia me pregado uma peça. Os três pré-requisitos que eu exigia para casar estavam de alguma forma se conectando: o gaúcho não falava italiano, mas era fluente no talian; não dançava forró, mas mandava bem no vanerão. E no quesito política, era mais vermelho que eu. Não apenas votou no Lula, como fez questão de acompanhar a posse do novo presidente! Fomos juntos para Brasília no primeiro dia de 2003 ver o Lula subir a rampa do Planalto. Fazendo valer minha palavra, entrei na igreja naquele mesmo janeiro.


Neste ano de 2018, completei 15 anos de casada. Já não danço mais forró. As atividades com nossa filha me tirou esse tempo. O Lula entrou e saiu da presidência e o Brasil continua igual. Não me intrometo mais neste assunto, nem acredito que o mundo possa mudar por esta política que está aí. E meu sonho de morar na Itália ficou pra trás. Estou satisfeita em ouvir o talian dos meus sogros e cunhados na pequena vila de Evangelista, cravada na Serra Gaúcha, para onde vamos todos os anos passar férias. No final das contas, para quem queria ficar para titia, as bodas de cristal recém conquistadas até que me caíram bem! ;-)

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