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História

Povo barcarenense, povo cabano

Sinopse

Em sua entrevista, Mário faz a genealogia de sua família e da propriedade de suas terras, delimitadas atualmente pelo Quilombo Gibirié de São Lourenço. Fala do processo de deslocamento da população de Barcarena em prol de grandes empreendimentos, a partir dos anos 1970. Por fim, Mário nos conta a respeito da luta diária para a manutenção dos direitos do Quilombo e pela preservação das águas e das florestas da região.

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História completa

O povo que morava aqui em Barcarena, é um povo cabano, cabano de luta. Aqui, bem ali, próximo ali à piscina, tinha uma samaumeira. Aqui tu estás, esse Rio Murucupi vai sair lá no Rio Arrozal. O Rio Arrozal, seguindo em frente, tu vai dar no Rio Pará, tu vai dar na Baía do Marajó. Então, era por aqui que as esquadras da Coroa entravam com os soldados, pra dominar os cabanos. Movimento Cabano, o único movimento no Brasil que estabeleceu um governo. 

O Pará foi o último a sair, a proclamar a independência. O último. Por quê? Porque não concordava, não queria se separar. Apaixonado por Portugal, não queria se separar, né? Barcarena estabelece um governo. Um governo paralelo, longe da Coroa, longe das oligarquias. Por quê? Porque não queria mais sofrer, não queria mais ser tratado como um escravo, onde aqui só era tirado e continua sendo. Não queria mais, não queria mais viver isso. Queria viver livre. Queria fazer uma coisa justa. Porque era tirado até o sangue do povo pra ser mandado pra Coroa, o dinheiro. E os barcarenenses não queriam mais e começaram a fazer o processo da Cabanagem, pra ter a sua liberdade, né. A minha família conta essa história. Então, aqui no terreno da minha vó, tinha uma samaumeira bem ali, ao lado dessa piscina, que eles pegavam os soldados, amarravam a corda e lá eles enforcavam os soldados. Aqui, os trabalhadores daqui, têm medo de ficar aqui sozinho, porque veem muita visagem. Eles contam que veem muita alma aqui, veem cadeiras sendo arrastadas. Eles veem. Eles contam aqui que veem o vulto branco, vê gente caminhando. Na hora que eles vão ver, não é ninguém, a pessoa desaparece. Então, eles dão testemunho. 

Então, aqui, a minha vó contava que era aqui que eram enforcados os soldados e por aqui eram enterrados. Quem sabe a gente não está em cima de alguma cova de algum soldado, que lutou na Cabanagem do lado lá da Coroa, né? E os cabanos mataram. E o processo, que é de invisibilizar a Cabanagem, porque é contado muito sobre a Farroupilha, é contado muito sobre as outras revoltas do sul do país. Mas por que é abafado a Cabanagem? Pra servir de exemplo, como fizeram com Tiradentes. O cortaram em pedaços e, pra cada uma da região, foi mandado... mas Tiradentes não consegue fazer, com o movimento dele, o que o movimento Cabano fez: estabelecer um governo. Aqui no Pará tínhamos presidentes e nós tínhamos toda a estrutura pra viver e pra ser um outro país. Aqui em Barcarena. E esse movimento é abafado. E até hoje, Barcarena vive abafada. E na década de 70 isso fica muito mais forte. Por quê? Porque pra cá, com esses projetos que vêm, vêm também a força militar, pra que não haja resistência, porque conhecem como o povo de Barcarena é, aguerrido.

 

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