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História de: Bia Diniz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/08/2021

Sinopse

Lembranças e inspirações na infância. Estudando na escola da mãe, pressão familiar e momentos marcantes. Falência, mudança de escola e novos horizontes. Da fisioterapia para a administração. Concurso e serviço público. Cidade pequena e cidade grande. Como a maternidade mudou sua vida. Idealização e criação da Cruzando Histórias. Experiência mágica com um filme, uma corrida e a Hi Africa. Brigadeiros e mantendo uma escola no Quênia. Impulso para se tornar uma empreendedora social através de uma matéria no jornal. O Projeto "Poder da Sua História".

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História completa

P1 – Boa tarde, Bia, tudo bem?

 

R – Boa tarde! Obrigada pelo convite!

 

P1 – A gente que agradece a sua participação. Vamos começar, então, a entrevista. Eu vou pedir que você me informe seu nome completo, a sua data de nascimento e o local de nascimento.

 

R – Beatriz Marques Mendes Diniz, 16 de março de 1987, nascida em São Paulo (SP).

 

P1 – Qual o nome dos seus pais, Bia?

 

R – Sérgio Fernando Mendes, Noeli Marques de Oliveira.

 

P1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho dois irmãos: a Ciça e o Marcelo.

 

P1 – E onde você está, nessa escadinha? É a mais nova, a do meio?

 

R – Eu sou a mais velha, a primogênita. A Ciça é dois anos mais nova e o Marcelo é onze anos mais novo, então ele é a raspinha do tacho, aí, o caçulinha. (risos)

 

P1 – Sua família tem origem em São Paulo mesmo, Bia, ou seus pais vieram de alguma outra cidade?

 

R – Somos daqui de Cotia (SP), mesmo. Cotia nem sempre teve uma maternidade onde todo mundo nascia, então a gente ia nascer em São Paulo, mas sempre morou aqui na cidade. Meus pais são daqui a vida toda, são de Cotia e eu também, né, moro aqui a minha vida inteira. Toda a minha referência familiar está dentro dessa cidade, então eu sou bastante cotiana. (risos) 

 

P1 – Então, vamos começar a falar um pouco sobre a sua infância. Você se lembra da casa ou apartamento onde você passou a sua infância?

 

R – Me lembro e não foi uma só, viu? Foram muitas casas. A gente se mudou bastante durante a minha infância, adolescência. Os meus pais se divorciaram várias vezes e foram idas e vindas aí, num casamento bastante turbulento e, cada vez que isso acontecia, a gente se mudava de casa. Então, eu tenho lembrança de vários lares diferentes, né, várias casas diferentes e também de bairros diferentes. Amigos do bairro tal, amigos do outro bairro. Então, onde a gente ia, construía um pedacinho da nossa história, assim, mas, eu me recordo de cada um deles, sabe? Tenho bastante vivo na memória, desde a minha primeira casa, que foi a casa onde eu nasci e depois que a gente se mudou, se tornou a casa da minha avó. Então eu continuei frequentando aquela casa por um bom tempo e era do lado da escola da minha família, da escola da minha mãe, a escola onde eu nasci e fui criada, que era do lado, então, aquela vida: atravessava a rua, minha casa [e] casa da minha vó. E, também, a escola como minha casa. Eu acho que, em todas as referências que eu tenho, a escola [é] como a minha casa, sabe?

 

P1 – Então, a sua mãe era dona de uma escola, certo?

 

R – Isso, a minha mãe era dona da Sede da Sabedoria, uma escola familiar, aqui, na cidade de Cotia. A escola era dela e das minhas tias, então toda a minha família meio que vivia na escola, né? Os meus primos também nasceram e cresceram na escola, e tudo era em torno da escola. Meus avós trabalhavam na escola, tinha outros primos e familiares da minha mãe que atuavam na escola. E eu estava lá. Com três dias de vida, eu já estava lá, com carrinho, na escola. (risos) E cresci, até a oitava série, na época, né, que era o ensino fundamental. Essa escola é a minha grande referência de infância, na verdade, né? Então, quando a gente fala de casa, quando a gente é filha de empreendedora, que tem um negócio, a minha casa era muito a escola, porque era acordar, se trocar, ir pra escola, porque era o trabalho da minha mãe. Além de ser minha escola, era o trabalho da minha mãe e passava o dia inteiro [lá]. Então, era minha mãe que abria e fechava a escola. Então, eu e meus primos, a gente cresceu naquele ambiente, assim. Minha família sempre [esteve] muito presente na minha criação também, porque era aquele ambiente que a gente frequentava diariamente. Férias, de novo, né, estava lá fazendo a manutenção da escola, período de matrículas. Então, todas as minhas brincadeiras, amigos, sempre foram muito presentes dentro da Sede da Sabedoria.

 

P1 – E quanto ao seu pai, qual era a ocupação dele?

 

R – O meu pai, quando eu nasci, trabalhava num Banco, trabalhava com seguros e logo depois - eu nem lembro, inclusive, dessa fase - ele abriu um negócio, uma adega de bebidas, né? Que, na época, era muito famoso, vasilhame, as pessoas compravam bebidas em adegas, né? E meu pai teve essa adega por alguns anos. Então, eu também tenho bastante lembrança, assim, de final de semana, no meio dos vasilhames, saindo pra fazer entrega com meu pai, atrás do balcão, mexendo na caixa registradora muitas vezes, aprendendo a cobrar. Então, o trabalho sempre foi muito presente, porque os meus pais trabalhavam muito nos negócios deles, os dois eram donos do próprio negócio. Eu vivi muito também a adega do meu pai, e depois meu pai entrou numa sequência… Meu pai é super empreendedor, até hoje, tem 61 anos e parece que tem 21, assim, está sempre começando um negócio, encerrando um negócio. A vida dele, profissional, está sempre em bastante movimento. Ele é muito empreendedor, tem muita ideia e dali pra frente ele seguiu tendo outros negócios, né? Hoje... Hoje não, já faz vinte anos que ele empreende na área de sinalização viária. Então, ele pega muita estrada, viaja pra outras cidades, trabalha em outras cidades. E o empreender, assim, pode ver que já está no sangue, porque meus pais empreenderam durante toda a minha infância, adolescência. Hoje, a minha mãe é funcionária pública, já trabalha há bastante tempo aqui na prefeitura da cidade. Então, meio que o meu caminho profissional digo que foi costurado por essas duas frentes: o empreendedorismo e o serviço público. Tem muito a ver com a minha história.

 

P1 – E do que você gostava mais de brincar quando era criança, Bia?

 

R – A minha mãe fala que eu era uma criança adulta, porque eu não gostava muito de brincar. As minhas brincadeiras favoritas eram as brincadeiras de trabalhar, sabe? De ajudá-los, ou ajudar minha mãe na escola, ou ajudar meu pai na adega. Eu sempre fui muito antenada em conversas de adulto. Eu até tinha um apelido, que era Parabólica, porque eu ficava prestando atenção na conversa dos adultos, assim. Então, as minhas brincadeiras, onde eu mais gostava, assim, o que eu mais gosto de lembrar que eu estava fazendo era: vendendo sorvete na adega do meu pai, mexendo na caixa registradora, ajudando minha mãe na secretaria da escola. Nas festas que tinham na escola, eu sempre estava envolvida em alguma barraca, ajudando a servir, ajudando a cobrar. Então, as minhas brincadeiras são muito ligadas a isso e, quando eu penso em atividades com outras crianças, tal, foi sempre jogando bola, ou brincando brincadeiras coletivas mesmo, né? Muito jogando futebol, handebol e vôlei, sempre ligada a algum esporte e muito nesse ambiente de escola. Por um bom tempo, também, a minha casa sempre foi a casa que a galera da rua se encontrava. Meus pais sempre gostaram e deixaram as pessoas irem na minha casa, meus amigos irem na minha casa. Então era a casa onde a galera se encontrava na porta, pra ficar trocando ideia, pra brincar, pra bagunçar, pra andar de bicicleta. Eu sempre tive uma infância muito na rua, também, sabe? A gente morava em lugares tranquilos. Era outra época, hoje eu morro do coração do meu filho sair na rua, mas, na época, era super tranquilo sair na rua. Então eu andava muito de bicicleta, carrinho de rolimã. Eu tinha um mini “buggy” também, quando eu era criança, depois a gente teve moto. Então, a gente vivia nesses rolês, assim, de bairro e brincando de bola, sempre jogando bola.

 

P1 – Falando sobre a sua vida escolar, né, pelo menos no ensino fundamental, na escola da sua mãe, tinha alguma matéria que você gostava mais ou algum professor que te marcou por algum motivo?

 

R – Ah, é muito emocionante falar sobre a escola. Primeiro porque, podem imaginar, né? Filha da dona, era a pessoa mais cobrada da escola, então eu sempre sofri uma pressão muito grande pra me sair bem. Eu nunca tive a oportunidade de ir mal, ou de ter uma reclamação, porque eu tinha que ser o exemplo. Então, carreguei muito isso comigo, por muitos anos, né? De ser o exemplo da turma, de tirar nota alta em todas as matérias. Não tinha aquela que eu podia, que eu tinha licença poética (risos) de ir mal. Minha mãe sempre me cobrou muito performance na escola. Isso não quer dizer que eu era uma excelente aluna. Eu não era… Eu era uma aluna muito esforçada sob pressão, porque eu nunca fui muito bem em Exatas, assim, então, se falasse: “Do que você gostava?”. Eu sempre gostei muito de Português, principalmente de redação. Sempre gostei muito de escrever. Sempre. Então, eu sempre me dei muito bem com as palavras, assim, sabe? Então, quem me marcou? A minha professora de Português, que é a minha tia, a irmã da minha mãe, que foi minha professora de gramática, de redação, a minha vida toda. Por algum tempo, mais na infância, eu tive outras professoras, mas já crescidinha. A minha tia foi minha professora de Português até a oitava série e ela me marcou muito. Uma pessoa que tem grande influência sobre quem eu sou hoje, sabe? Acho que eu tomei consciência, inclusive, há pouco tempo, mas ela foi uma professora que me marcou muito. Não só em relação ao ensino do português, de redação, mas também uma grande influência de vida mesmo, sabe? Até o caminho que eu escolhi hoje, profissional, eu acho que tem muito a ver com os ensinamentos que eu tive nessa minha época de infância, onde ela tinha grande influência sobre a minha turma.

 

P1 – E passando pro ensino médio, você mudou de escola e aí, as coisas mudam?

 

R – Mudam. Bem perguntado, porque sempre que eu penso em escola, eu penso muito até a oitava série. Depois, no ensino médio, eu saio dessa escola, que era um ambiente super seguro pra mim, onde eu tinha ali todas as principais pessoas da minha vida e vou para um colégio muito grande, um colégio já com outra metodologia, apostilado, que é o Colégio Objetivo e começo acho que a minha sobrevivência no mundo externo, longe das pessoas que já me conheciam, né? E foi muito bom. Alguns amigos seguiram comigo, da escola, da Sede, pro Objetivo, então acabou que eu tive um apoio. A gente foi num pequeno grupo pra esse colégio, juntos. Então, os meus amigos, que eu tenho amigos… As minhas melhores amigas, inclusive, que eu tenho até hoje, são minhas amigas da escola. Elas passaram por essa trajetória comigo. No ensino médio, eu já queria começar a trabalhar, então, eu já me sentia muito adulta, muito (risos) preparada pra vida e acabou que eu perdi aquela pressão de ser a melhor aluna, de dar o exemplo, que tinha na Sede e eu vi ali a possibilidade de ser eu mesma, de errar, de tirar nota baixa, de não me cobrar de ser a melhor, de não me cobrar de ter que gostar de todos os professores. Foi quando eu dei uma relaxada, assim, com relação a escola, na verdade, né? Só que era uma escola muito puxada e então, assim, ao mesmo tempo que não tinha pressão da minha família, tinha pressão por resultados. Eu era bolsista, precisava tirar a nota pra conseguir me manter naquela escola, mas eu queria muito trabalhar e viver outras coisas. A minha família estava passando por um período muito difícil, a gente tinha perdido essa escola, essa escola da minha família entrou em falência, foi um grande marco na minha vida. Os últimos anos lá já não foram fáceis, porque a gente perdeu a escola e entrou no modo de sobrevivência da escola, porque perdeu mais de setenta por cento dos alunos, foi uma dor muito grande com a minha família e eu vivia isso. Eu passei os últimos anos na Sede vivendo muito essa dor da falência da escola. E quando eu fui pro Objetivo, eu também me soltei um pouco, de sair um pouco de perto dessa dor, mas de querer trazer alguma ação pra minha vida. E a ação que eu via, como forma de ajudar minha família, era eu trabalhando. Então, logo que entrei no ensino médio, comecei a trabalhar. Eu comecei a trabalhar com catorze anos numa loja de perfumes do Boticário, uma loja de perfumes aqui na cidade, através de uma amiga da minha mãe. E aí que eu comecei a pegar minhas responsabilidades de trabalho e tirar o pé da escola, sabe? Hoje eu vejo assim, cara, como eu nunca gostei de estudar, sabe? Sempre estudei meio que por obrigação, porque eu sou a pessoa que gosta de trabalhar, de colocar a mão na massa, de usar o que sabe pra fazer algo pra alguém, sabe? E o meu ensino médio foi muito assim: troquei de escola quatro vezes. Tudo que eu não troquei durante o fundamental, troquei no ensino médio. Então, eu fiz três anos de ensino médio em quatro escolas, porque eu tinha essa vontade de mudança, de querer trabalhar, de adequar o horário de trabalho à escola, então eu fui experimentando outras coisas. Foi uma época muito turbulenta, financeiramente, pra mim e pra minha família, a gente estava passando por muita coisa. Os meus pais se separaram de novo durante o ensino médio, e aí em definitivo. Depois dessa, eles pararam de se separar e se mantiveram separados até hoje, mas foi o último divórcio. O meu irmão pequeno, eu me sentia muito responsável pelo meu irmão também. E, então, assim, foi um ensino médio muito turbulento. Pisquei, me formei, assim, terminou o ensino médio, porque tinha muita coisa, na minha vida pessoal, acontecendo, muitas responsabilidades. Eu sempre me sentindo a mais velha, a mais responsável, responsável pelos meus irmãos, a responsável por dar certo, por fazer tudo certinho, sempre me cobrando muito. Então, eu não tenho grandes lembranças do ensino médio, só tenho lembranças, assim, sabe: eu trabalhava, tinha responsabilidade, tinha horário. O estudo estava me atrapalhando, porque queria trabalhar. Eu precisava ter recurso, também precisava cuidar do meu irmão. Eu queria estar sempre me desdobrando pra manter a minha família ali, num equilíbrio, porque foi uma época que a gente passou [por] muitos problemas. Foi bastante turbulento na nossa vida.

 

P1 – E nessa correria toda, dessa época, quando sobrava um tempinho livre, o que você gostava de fazer?

 

R – (risos) Eu gostava de sair com os meus amigos, assim. A gente - aqui em Cotia é um ritmo muito diferente do que experimentei na vida adulta em São Paulo - sempre fez muitas coisas um na casa do outro, então: “Ah, vem aqui pra minha casa e vamos fazer um lanche, vem aqui pra minha casa e vamos comer pizza”. Então, era um na casa do outro, a gente se juntando. Eu lembro muito desse movimento, de ficar até tarde da noite conversando na rua com meus amigos, acampar com os meus amigos no nosso condomínio, onde a gente morava. A gente gostava dessas atividades. A gente já tinha moto, então, gostava de ficar andando de moto juntos, aquelas motinhos tipo Mobilete, e a gente ficava andando juntos. Então, era uma coisa bem do interior mesmo, de estar junto, de cozinhar junto, de ficar trocando ideia. Nada muito elaborado, assim. Não tinha "shopping", não tinha cinema perto. Não tinha muita coisa pra fazer aqui na cidade, então, a gente estava sempre nessa, de simplesmente estar juntos, sem muita atividade. Então, era isso que eu gostava de fazer, quando não estava na escola ou trabalhando: eu gostava de estar com eles.

 

P1 – E você, nessa época, já pensava em fazer ensino superior? Já tinha alguma ideia do que você ia querer fazer?

 

R – Então, eu não tinha, mas era algo assim: pra mim era claro que eu ia fazer uma faculdade. Eu tinha isso pra mim: “Vou fazer uma faculdade”, mas eu não tinha um sonho de uma profissão, não tinha claro o que eu gostaria. E eu tenho um primo que é uma pessoa que tem grande influência, assim, sobre mim, também. Um primo que eu sou apaixonada e ele é fisioterapeuta, e eu achava muito bonito tudo que ele contava da faculdade, da profissão dele  Ele é mais velho. E eu acabei optando por fazer Fisioterapia, porque achava muito bonito o que ele fazia. Eu tive que fazer essa escolha muito cedo, era muito antecipada na escola. Eu tive que fazer essa escolha com quinze pra dezesseis anos. Então, assim, eu era muito nova, também. Meus amigos já estavam com dezessete, dezoito anos e eu estava ali, nos quinze, dezesseis, e acabei escolhendo Fisioterapia. Foi minha primeira faculdade, que eu não terminei, inclusive. Eu fiz seis semestres e larguei na reta final, por uma oportunidade de trabalho. Eu pensava assim, sempre pensei: “Ah, eu vou fazer faculdade”, mas eu nunca tive uma profissão que me chamasse tanta atenção, não sabia muito bem o que eu queria fazer. Até digo, hoje eu falo: “Ah, gente, eu devia ter escolhido agora, não escolhido com quinze anos. (risos) Acho que agora sei bem melhor o que eu gostaria de fazer, do que naquela época”.

 

P1 – E como foi essa experiência da faculdade, fazendo Fisioterapia? Como foi pra você essa experiência: o que você lembra até hoje, desse momento?

 

R – Eu acho que o que lembro mais é que me dediquei muito. Eu pagava a minha faculdade. Acho que esse foi o primeiro grande compromisso que eu tive, por mim, né? De eu pagar alguma coisa pra mim. Eu era muito nova, de novo, né? Trabalhava vendendo perfume de porta em porta, já tinha saído da loja, comecei a vender perfume de porta em porta, pra bancar a faculdade. O meu pai começou a pagar, mas logo ele não conseguiu dar sequência e eu tive que assumir isso, porque eu queria me formar. Então, eu lembro muito, assim, de eu me dedicando muito, porque eu pensava: “Gente, tenho que valorizar muito, porque isso aqui é muito caro. (risos) Me dá um trabalho danado pagar essa faculdade, então eu preciso me dedicar muito”. Eu lembro assim: eu estudando muito, fiz amigos muito legais; eu acho que foi uma oportunidade de conhecer muito o corpo humano, acho que foi uma experiência muito legal. Área da saúde, conhecer o corpo humano, entender como que a gente funciona, eu fiquei muito fascinada por isso. Eu gostei muito de tudo o que eu aprendi, gostei muito das pessoas que eu conheci. Inclusive, tenho amigas daquela época também, que eu tenho contato até hoje. Então, acho que foi, assim, uma primeira grande responsabilidade que eu assumi e que me dediquei. O ritmo de estudo aumentou muito. Então, tudo aquilo que eu não ligava pra estudar durante o ensino médio, no ensino superior, eu me cobrava bastante, só que logo eu tive essa oportunidade pra trabalhar no serviço administrativo. Eu já vinha questionando se valeria a pena me manter na área da saúde, porque muita gente se formava em Fisioterapia e não ganhava muito bem depois. Eu ficava questionando: “Ah, será que é isso mesmo que eu quero? Será que vou gostar, será que não vou?”. E aí, quando me falaram: “Ah, tem uma vaga aqui pra trabalhar no administrativo, mas você teria que ter uma faculdade na área de administração”, eu não pensei duas vezes. Eu fui lá, tranquei o curso de Fisioterapia e me matriculei no curso de Administração, que era mais barato e ia me trazer essa oportunidade profissional. Eu tinha acabado de fazer dezoito anos, e aí era a chance de eu ter um emprego, de ter carteira assinada, de ter um horário de trabalho e tal. E eu fiz esse movimento, meio que sem pensar, sabe, meio que só pela oportunidade, mesmo. E hoje eu vejo que fez muito mais sentido.

 

P1 – E conta um pouco, então, como foi essa mudança de área, de atuação, não só profissional, mas também acadêmica, né? Você foi fazer outro curso, foi trabalhar com algo bastante diferente do que estava fazendo antes. Como foi essa mudança pra você?

 

R – Ah, eu… Essa experiência profissional, eu tenho muito… Já faz doze anos que eu saí desse emprego, mas ainda tenho muitas dores em relação a ele. Então, é bem difícil pra mim falar sobre ele, porque é um emprego público, era um emprego que envolvia muita política. Eu era muito nova, então acho que faltava muita maturidade de como lidar com a política, e fui colocada em situações que hoje eu olho e falo: “Por que me colocaram nessas situações?”. Uma menina tão nova, inexperiente e tendo que lidar com coisas que eu não faria ninguém lidar com isso, até hoje. Eu acho que tem coisas que a gente não merece passar, a gente não tem que passar e eu me via muito sem escolha, num lugar que eu tinha que passar por aquilo, eu tinha que encarar aquelas dificuldades, aqueles desafios, coisas que iam contra os meus valores, os meus princípios. Então eu não tinha tempo nem pra pensar, assim, sabe? Eu simplesmente estava ali, tinha que trabalhar, me envolvia com pessoas diferentes a todo tempo. A política, eu falo, né, que a gente vê assim, nível Brasil, é a mesma política das cidades menores, só que em maior escala e, infelizmente, é algo que me machucou muito. Eu fiquei quatro anos nesse emprego, me formei, né? Estudei. Eu queria me formar, então me esforcei muito pra estudar, pra terminar minha faculdade porque, no meio disso, eu tive esse emprego que faltam palavras. Eu também não quero desmerecer totalmente a oportunidade, mas me testou muito, testou muito meus valores, meus princípios e eu tenho uma herança ruim ainda, sobre tudo que eu vivi nesse emprego público. Foi uma experiência bastante conturbada, com muitos altos e baixos, mais baixos do que altos e que me fizeram amadurecer de uma forma muito acelerada. De ganhar uma resiliência muito grande e que me machucou, infelizmente, me machucou, mas eu consegui me formar, no meio disso. Além desse trabalho, foi uma época que eu tive um relacionamento, um relacionamento amoroso, também tão conturbado quanto o trabalho. Estava num relacionamento violento, um relacionamento com uma pessoa que me machucava muito, né? Então, eu estava com tantos desafios, assim, sabe, profissionais, pessoais, que a faculdade, eu me formei tão rápido, que eu nem lembro exatamente como que era. Eu só lembro que achava muito mais fácil do que a faculdade de Fisioterapia, eu tinha muito mais facilidade de tirar nota, de entregar os trabalhos. Tinha mais a ver comigo. Eu achava aquela linguagem mais fácil, utilizava mais no meu trabalho também o que eu aprendia ali e, quando eu vi, já estava formada. Hoje, eu olho e falo: “Gente, faz mais de quinze anos que eu me formei, meu Deus!”. Faz quinze anos, acho, que eu me formei. Então, tudo passou muito rápido. Eu sempre fui muito entregue ao trabalho, sempre amei trabalhar, mas foi uma experiência que, realmente, mexeu muito comigo, muito com as minhas emoções, sabe?

 

P1 – E quando você se formou, você acabou saindo dessa experiência no serviço público e qual foi seu próximo passo? O que você planejou pra fazer, depois?

 

R – Então, nessa experiência, eu acho que pra dizer, como eu disse, assim: “Ah, eu não quero desmerecer o que passei”,  porque eu tive uma oportunidade muito legal durante esse meu emprego, que foi colocar, dar vida a um primeiro projeto social, que era uma ideia que eu tive, conhecendo as periferias aqui da cidade. Porque o meu trabalho me permitia isso, né? Me conectar com as comunidades, com a periferia. Então, eu tive a ideia de fazer um primeiro projeto social e tive a oportunidade de rodar esse primeiro projeto social. Então, o último ano que eu fiquei nessa empresa, eu rodei esse projeto social. E eu já tinha uma herança de voluntariado muito grande na minha vida, assim, o social sempre foi muito forte pra mim, sempre foi, tipo, como um "hobby". Sempre gostei muito de voluntariar, de ajudar as pessoas, de me envolver nas atividades da igreja, nas atividades da cidade, nas atividades da comunidade. Como eu disse: desde criança eu gosto de brincar de trabalhar e eu encontrava muito essa oportunidade no voluntariado. Então, eu fui fazendo voluntariado ao longo da vida e, no último ano que eu estava na prefeitura, eu tive a oportunidade de criar um primeiro projeto social e ali eu acho que foi a minha válvula de escape, de realmente sair daquele mundo da política, de todos os seus problemas e desafios e fazer algo que eu realmente acreditava. Então, eu rodei esse projeto, era um projeto de recuperação das periferias, a gente impactou quatro mil crianças em oito meses de trabalho. Eu trabalhei todos os finais de semana de 2008 com esse projeto e era algo que preenchia muito o meu coração. Então, assim, tudo que eu tinha passado, tudo que eu ainda estava passando em relação ao trabalho ali do dia a dia, transformava aquilo em satisfação dentro desse projeto. Foi a minha primeira oportunidade, assim, realmente, de trabalhar com o social, sem ser como… Eu era voluntária também, mas sem ser como voluntária ali da ponta, fazendo planejamento, captando recursos, mobilizando pessoas, criando mesmo, criando estratégias pra realmente chegar nos objetivos, que era de levar recreação, entretenimento pras crianças, dentro das comunidades. Então, foi uma oportunidade muito legal que eu tive. Eu cavei essa oportunidade e foi uma experiência muito legal, que eu acho que também me molda pra o que vivo hoje. Então, foi uma saída bastante conturbada, mas também foi uma saída que me direcionou muito pra um caminho que eu gostaria de seguir. Eu saí desse emprego, queria sair da cidade: não queria sair desse emprego, eu queria sair dessa vida. Queria deixar de me relacionar com as pessoas que eu me relacionava. Por ser uma cidade pequena, você acaba conhecendo todo mundo e a política acaba, parece que está todo mundo envolvido com a política da cidade, então a minha vontade era sair daqui, sair de Cotia, pra não ter mais que ver as pessoas, pra não ter que saber dos assuntos que elas tinham, pra não ter mais que olhar pra política. Eu criei uma grande aversão, assim, a tudo que acontecia aqui na cidade porque, pra onde eu olhava, eu enxergava coisas que não queria enxergar. Então, eu acabei pegando uma primeira oportunidade que surgiu, que foi pra ser atendente de seguros, tipo, atendente de "telemarketing" de seguros, numa empresa privada em Alphaville e eu fui pra lá. Eu lembro que o teste eram várias pessoas, né? Eram muitas pessoas, tal e eu me saí muito bem no teste, no processo seletivo. O coordenador dessa empresa me chamou pra conversar no final e falou: “Nossa, eu nunca vi um teste - era um teste, assim: tinha português, matemática, geografia, tal - tão bom como o seu e eu tô aqui há doze anos. Você tem certeza que quer ficar aqui? Porque eu tô vendo que você tem um potencial muito grande, tal. Eu acho que você já tem uma faculdade, acho que consegue um emprego melhor”. Eu falei pra ele: “Eu quero esse emprego, porque preciso sair de onde eu estou hoje. Eu não consigo mais esperar um dia. Preciso de uma oportunidade pra sair”. E não é fácil de sair de um emprego público, porque as próprias empresas mesmo têm essa questão cultural de que funcionário público é acomodado, funcionário público não gosta de trabalhar. Então, tem essa pegada, fama do funcionário público e eu falei pra ele: “Eu quero começar, resetar a minha experiência profissional e realmente começar numa empresa privada”. E era uma empresa muito boa, era uma empresa multinacional. Apesar de ser pra uma vaga de atendente, era uma empresa legal, que tinha uma condição legal e eu sabia que eles tinham em vários lugares do mundo, escritório. E eu até perguntei pra eles: “Em quais lugares vocês têm escritório porque, de repente, me mudar é uma opção”. E aí ele falou: “Olha, Beatriz, eu vou te contratar, mas tenho certeza que você não vai ficar”. E eu falei - teimosa, né? -: “Não, eu vou ficar!”. (risos) E eu fui promovida três vezes, em três meses que eu fiquei lá. Me colocavam num produto, eu ia muito bem; me colocavam num produto melhor, eu ia muito bem; colocavam num produto melhor… E tinha que trabalhar final de semana por escala, mas eu estava determinada, falei: “Não quero, eu quero sair da cidade, quero provar pra mim mesma que eu consigo, que posso e tal”. E eu estava indo bem, estava gostando. Apesar das dificuldades do salário baixo, eu estava realmente animada com tudo que eu estava vivendo. Foi quando me chamaram, eu tinha prestado um concurso público há um tempo, eu fiz uma prova pra um concurso, uma prova que não me preparei, uma prova que eu nem lembrava que tinha feito, só que eu passei em segundo lugar, nesse concurso. Empatada com o primeiro lugar, uma coisa assim, e me chamaram. Era um cadastro reserva, me mandaram um telegrama em casa fazendo a minha convocação e eu peguei, li aquela convocação, super com aquelas palavras arcaicas, tal e eu falei: “Ah, meu, serviço público de novo, será?”. Falei: “Não, não vou!”. Juntei a documentação toda, falei: “Vou lá - tinha que me apresentar, né? Até pra desistir tem que se apresentar - e vou pedir pra ir pro final da fila. Não vou aceitar, vou ficar onde eu tô”. E é uma história até engraçada, porque é uma autarquia federal, né? Era serviço público, mas de uma outra esfera, diferente do que eu havia conhecido. Era em São Paulo, na Oscar Freire. Pra gente aqui que é de Cotia, São Paulo sempre foi um luxo. "A gente mora em Cotia, a cidade é São Paulo", né? (risos) E eu fiquei até com medo: “Vou me perder. Será que eu vou conseguir...” e, enfim, nem é longe, mas eu tinha essa insegurança de ir pra São Paulo. E eu cheguei lá, era um prédio todo espelhado, lindo. Eu achei aquilo um luxo. (risos) Aí, eu com o documento, com a pastinha, tudo organizado lá, pra pedir pra ir pro final da fila, as meninas do RH não faziam ideia, era uma oportunidade na minha área, porque eu tinha me formado em Recursos Humanos e essa vaga era pra atuar com Recursos Humanos, aí eu fiquei lá, sentei e falaram: “Espera aí um pouco”. Sentei e comecei a olhar, assim, em volta, né? Aí eu vi um caixa do Banco, um caixa eletrônico do Banco, do lado e eu falei: “Gente, eles têm um caixa aqui dentro, pros funcionários! Isso é muito chique”. Eu achei muito chique. Aí, bom, demoraram, tal, eu falei: “Ah, vou no banheiro”. E estava tocando música ambiente, estava tocando lá Nova Brasil, música ambiente e eu pensando: “Gente, que luxo, tem música ambiente nesse lugar. Serviço público de primeira, né?”. Fui no banheiro, a música continuou tocando no banheiro, aí eu falei: “Gente, que música é essa? Tá tocando no banheiro. Isso é muito chique!”. Aí eu fui pegar o papel, era papel Neve. Gente, eu não esqueço disso, pra mim marcou muito, que na hora que eu vi que o papel era Neve, eu falei: “Não, isso aqui é luxo. Imagina, lá na prefeitura a gente tinha que levar papel de casa, senão a gente não tinha papel” (risos). Aí eu olhei aquele papel Neve, aquela música ambiente e aquele caixa eletrônico, entrei na sala e falei: “Eu vou ficar”. (risos) E eu fiquei. Saí daquele emprego que eu estava, em Alphaville, enfim, tinha uma condição salarial melhor, benefícios e a oportunidade de trabalhar em São Paulo, num emprego registrado. Era um emprego CLT. Então, eu olhei pra tudo aquilo e falei assim: “Não, eu vou topar como uma nova experiência, vou ficar aqui um tempo”. Eu fiquei muito com medo de ser serviço público. Falei: “Eu vou ficar aqui seis meses, vou pegar uma experiência na carteira, pra ganhar meus benefícios, ter um plano de saúde bom, que eu nunca tive. Então, vou ter um plano de saúde, vou ter um cartão de VR”. Olha que chiquérrimo, gente, um cartão VR. Comer por aí! Nossa, me achei poderosíssima com aquele tanto de cartão que me deram. E aí eu comecei, comecei a fazer amizade com gente diferente, histórias diferentes, lugares diferentes, aprendendo coisas novas também, que eu nunca havia feito. Aí eu falei: “Bom, fico aqui um tempinho e saio”. Dez anos, fiquei quase dez anos lá. Então, essa foi a minha mudança e fiquei quase uma década, nove anos e meio nessa empresa. E aí, enfim, tem muita história pra contar, né? Porque é quase uma década de vida no mesmo lugar.

 

P1 – Me conta uma dessas histórias, desse período em São Paulo, que marcaram você. 

 

R – Meu, tem histórias muito engraçadas, do tipo não saber pegar ônibus, metrô, não saber como funciona, não saber usar cartão de nada, não saber pra que lado que vai o trem. E, sabe, ser a 'perdidona', assim. Uma outra coisa engraçada, assim: (risos) aqui em Cotia, a gente sempre conheceu os motoristas dos ônibus, motorista, cobrador, porque é sempre o mesmo, o mesmo horário. A gente tem esse comportamento de interior, de achar que tem que conversar com todo mundo, né? E lá em São Paulo, eu cheguei muito com essa postura de interior, de achar que eu tinha que conhecer a pessoa da banca, a pessoa do restaurante, a pessoa da padaria, a pessoa do ônibus, então eu era a tagarela. Eu achava que todo mundo tinha que me conhecer, todo mundo queria conversar comigo. E aí eu fui me ligando que, cara, a galera não está nem aí. Passam milhões de pessoas na frente deles, eles não querem fazer amizade, não querem trocar ideia, assim, sabe? (risos) Esse é um grande aprendizado: São Paulo é pra sobreviventes, é difícil você conseguir criar vínculos com alguém. Então, foi algo, assim, várias histórias engraçadas, de eu achar que sou íntima da pessoa e a pessoa nem saber quem eu sou. Da segunda vez que eu via, já achar que sou amiga e a pessoa ficar olhando pra minha cara, do tipo: “Quem é você? Sai daqui?”, sabe? Eu tenho muitas histórias assim. Mas eu acho que, tirando as histórias engraçadas, as histórias difíceis, também, porque eu tive, enfim, várias outras questões que eu passei nesse emprego. A história legal é que, né, eu me apaixonei nesse emprego. (risos) Eu me apaixonei. Eu tinha, na verdade, um noivo, namorado aqui da cidade, que eu já estava há bastante tempo. Estava prestes a me casar, quando (risos) eu conheço um colega do trabalho e me apaixono por ele. E ele tinha acabado de se separar, então foi aquele meio que encontro de momento, de: “Nossa, meu Deus, eu quero viver isso, isso e isso”. E ele: “Eu também quero viver isso, isso e isso”. Então, assim, o Marcelo, que é o meu marido, a gente teve esse encontro, que acho que foi o grande responsável por eu ter ficado tanto tempo também, sabe? De ter encontrado um cara legal, de ter me apaixonado, de trabalhar na mesma empresa que o namorado, que o noivo, que o marido e construir a nossa vida com aquelas pessoas também. Porque a empresa se torna uma família, né? Serviço público lá, também, as pessoas estão lá há muitos anos. Ele já está lá há 22 anos, então já estava lá há muito tempo, as pessoas estavam lá há muito tempo. Mas uma coisa boa que eu guardo dessa experiência foi eu ter me apaixonado lá dentro e ter começado uma etapa da minha vida muito importante, que é o casamento, que é me tornar mãe. Então, assim, tenho muitas lembranças nesse sentido, né? Eu e o Marcelo, despedida de solteiro, chá de casa, chá de bebê. (risos) Então, a gente viveu muito isso juntos, né, no trabalho. Então, é algo que eu guardo, assim, com muito carinho. Eu falo: “Se tudo que eu passei foi pra chegar lá, conhecê-lo e começar essa fase boa da vida, que é uma vida a dois e tudo mais, então valeu a pena”, sabe?

 

P1 – E como foi, pra você, ser mãe?

 

R – Ah, (risos) o Rafa é o maior sonho da minha vida. Rafael, né? Ele fez sete anos. O Rafael sempre foi o sonho, assim. Acho que desde criança, quando me perguntavam: “Qual é o seu sonho?”, meu sonho era ser mãe. E adolescente: “Meu sonho é ser mãe”. Tanto é que eu namorava e já começava a pensar em casar. Com quinze, dezesseis anos, eu estava lá: “Eu quero casar, quero ter filho, né? Eu quero realizar meu sonho”. Então, assim, eu nunca fui uma pessoa de sonhos profissionais, de sonhos pra mim. Meu sonho era ser mãe: "Eu quero ser mãe, eu tenho muita vontade de ser mãe". E quando o Marcelo chegou na minha vida, ele chegou com dois filhos já, então ele já tinha a Marcele e o Mateus, que são meus enteados hoje. Então, assim, eu já joguei todo meu instinto materno (risos) nesses dois filhos que não eram meus, né? A Marcele tem a idade muito próxima à minha, a gente tem um ano de diferença, só, então claramente eu não podia ser mãe da Marcele, né? Porque eu tinha lá meus 22, 23 anos e a Marcele 21, 22 anos. Mas o Mateus, que era mais novinho, senti ali que eu poderia exercer de alguma forma, óbvio que não ser mãe do Mateus, nem ser mãe da Marcele, mas eu tinha um instinto materno muito forte. Então, assim, vendo que o Marcelo era um pai que queria recomeçar a vida dele, que falou pra mim de ter filho no primeiro dia: “Não, eu quero casar e ter filhos de novo, eu quero recomeçar minha vida”. Eu falei: “Não, espera, eu quero muito isso! Eu quero muito e ele quer também e ele já é pai, e tal”. Enfim, logo que a gente começou a namorar, casar e vai naquela fase de comprar apartamento, mobiliar apartamento, essa fase toda que é muito boa, eu só pensava: “Corre, tempo, eu quero engravidar. Eu sei que precisa ter esse tempo da gente viver a vida a dois, da gente realizar nossos sonhos, da gente viajar, mas eu quero aquela fase de engravidar, de ser mãe". Então, eu tinha muita ânsia por viver esse momento, assim. E eu comecei, no meio disso, a ter uma desmotivação profissional muito grande, assim. Eu comecei a: “Cara, não sei se eu quero ficar aqui, se eu quero mudar, fazer outra coisa”. Eu comecei a questionar muito a minha carreira. Só que, nisso, de questionar e não ter apoio, porque todo mundo olhava pra mim e falava: “Não, você está louca! Você é funcionária pública concursada, tem que aposentar nesse lugar. Fica aí, fica quieta. Você tirou a sorte grande, está aí, concursada, fica aí, tal”. Como eu não tinha o apoio das pessoas à minha volta, eu falei: “Bom, é agora que a gente vai realizar esse sonho”. (risos) E aí, até um pouco antes do que eu imaginava, acabei engravidando do Rafael e foi maravilhoso. Desde o dia que eu descobri, até hoje, cada dia [é] mais maravilhoso. O Rafael é minha grande realização. Ele nasceu e, literalmente, eu falo pras minhas amigas: “Gente, tudo que eu falar sobre maternidade...”. E às vezes me chamam pra dar palestra, pra falar sobre isso, pra falar sobre a minha relação com ele. Enfim, tem muito da maternidade no meu trabalho hoje, né? Na empresa que eu construí, na ONG que eu construí, falo: “Nada do que eu falar é suficiente pra expressar o que é ser mãe. Então, às vezes, a gente fica aqui se desdobrando pra trazer palavras pro que é ser mãe, mas eu acho que [é] impossível a gente transformar isso em uma fala, em história, o que seja”. Mas o Rafael me ensina diariamente, ele me desafia diariamente. Então, eu acho que isso é muito estimulante: uma relação que te joga pra frente, que te faz melhor, que te faz mais forte, que te faz mais potente. Então, assim, o Rafael é um grande projeto, né? Eu falo: “Gente, é um projeto que se torna cada dia mais grandioso”. Assim, então, cara, o dia que ele nasceu, que eu olhei, falei assim: “Caramba, é ele mesmo, né, esse chorinho - que parece um cachorrinho -é meu filho”. Achei ele até moreno demais, eu falei: “Gente, a gente é tão branquinho, porque que ele está moreno desse jeito, né, o que aconteceu?”, Não, ele estava lá nascendo, vermelinho, chorando. Eu falei: “Como ele chora baixinho!”. Enfim, já começaram, né, aqueles… E é muito doido, porque eu hoje olho e falo assim… Eu não tenho vergonha de falar isso, porque as pessoas acham: “Nossa, que louca falar isso!”, mas não nasceu aquele amor louco no dia que ele nasceu, sabe? Que as pessoas falam: “Ai, nasceu um amor louco”. Eu acho que eu o amei no primeiro momento, mas, hoje, quando eu olho, eu falo: “Gente, amor é todo dia, eu acordo todo dia e eu o amo”. Eu olho pra ele e eu falo: “Eu te amo mais, eu te acho mais bonito, eu te acho mais meu, eu te acho mais incrível", assim. E a maternidade mudou tudo, assim, dentro de mim, mudou tudo fora de mim, mudou até meu inconformismo, sabe? Eu deixei de aceitar que as pessoas me falassem o que eu deveria ser. Então, eu acho que esse foi o maior ganho de todos. Sou muito eu mesma hoje, sabe? Eu me escuto muito, me priorizo muito e me levo a sério a partir da maternidade, então eu acho que... Acho, não, eu tenho certeza: o Rafael é a grande virada da minha vida, assim, sabe? Eu sou mãe, assim. Hoje, eu falo pra todas as pessoas: “Quem é a Bia?”. As pessoas perguntam: “Quem é a Bia?”. Eu falo: "Eu sou a mãe do Rafael", vírgula, né? E aí todo o resto, porque é realmente algo que me define demais, assim, ser mãe do Rafael me define muito. É boa parte do que eu sou.

 

P1 – Após o nascimento do Rafael, eu quero que você me conte como foi a sua entrada no empreendedorismo social, como surgiu a ideia da ONG Cruzando Histórias.

 

R – Legal. A curva dessa história é um pouco longa, mas ela faz bastante sentido. Quando eu estava pra voltar da licença-maternidade, terminar minha licença-maternidade, eu já vinha com aquela insatisfação profissional que eu comentei antes. Já estava questionando muito a minha carreira, se eu continuava naquela empresa, se eu continuava fazendo o que eu fazia. Enfim, já tinha aí uma infelicidade vindo de algum tempo e com a maternidade se tornou ainda maior, porque como que um trabalho que já não faz tanto sentido, concorre com o bebê, que é o sonho da tua vida, né? Então, começou aquela concorrência: “Ai, meu Deus, vou ter que voltar a trabalhar, o que eu faço com esse bebê?”. Eu moro em Cotia, meu trabalho era em São Paulo, eu sempre tive que sair muito cedo, pegar ônibus, assim, das cinco da manhã, pra chegar na empresa e voltava sete, sete e meia da noite, às vezes, oito horas da noite. Então, já imaginava que eu, praticamente, ia ter que abrir mão de boa parte da vida dele, pra poder trabalhar. Então, eu comecei a me questionar muito, né? “O que eu faço, como eu vou voltar?”. E, ao mesmo tempo, eu precisava voltar, porque eu precisava, mais do que nunca, do meu trabalho. Agora eu tinha uma criança também pra sustentar, ali. Então, nos últimos dias, eu estava já naquela ‘sofrência’, né? “Caramba, eu vou ter que deixá-lo com uma pessoa o dia inteiro, ou vou ter que colocá-lo na escolinha”. Então, começaram aquelas reflexões e um dia eu comecei a introdução alimentar dele um pouco antes da hora, pra poder fazer o desmame, né? Que eu ia ficar muito tempo fora de casa, então, eu ia ter que tirar o peito. Isso foi uma coisa que me fez sofrer bastante, de ter que parar de dar de mamar, né? E eu estava fazendo, começando a fazer as comidinhas, eu o deixava comer sozinho. Tinha uma varandinha no apartamento que a gente morava, eu forrava com plástico e eu o colocava ali com as comidinhas, com alguns legumes, frutas, tal. E eu lembro muito de um dia que eu coloquei um pote de brócolis, um pote de melancia e ele estava todo lambuzado (risos) de brócolis e melancia. Faltavam acho que cinco dias pra eu voltar da licença-maternidade, olhei pra ele e comecei a viajar: “Filho, eu quero que você seja livre pra você fazer suas escolhas, não vai ser a mamãe que vai falar pra você não ser alguma coisa, ou te obrigar a ser alguma coisa”, muito pensando no que eu estava ouvindo as pessoas, que eu tinha que voltar, porque eu era concursada, não tinha que pensar, eu simplesmente tinha que voltar. Eu comecei a olhar pra ele e falar essas coisas: “Você vai crescer, vai poder escolher o que você vai querer ser, onde você vai querer ser. Eu quero que você seja livre, que você seja o dono da sua vida. Eu nunca vou colocar pressão sobre quem você deve ser”. Hoje eu tenho as minhas dúvidas, viu, mas, na época, era lindo, né? (risos) E eu comecei a falar isso pra ele e ele me olhava, claro, sem entender uma palavra, mas foi como se ele falasse comigo naquele momento, sabe? Eu senti assim: “Cara, esse moleque vai crescer, vai virar um adolescente bocudo e ele vai falar pra mim: 'E aí, mãe, por que você não fez isso por você? Por que você não era livre? Por que você não brigou pelo que você queria?'”. Eu comecei, como se ele estivesse devolvendo pra mim tudo que eu estava falando e, naquela hora, pensei assim: “Pô, realmente, eu tenho 28 anos, sou muito nova. Como que eu tô aceitando que as pessoas me digam o que eu devo fazer? Como eu tô aceitando que me digam que eu tenho que me aposentar nesse trabalho, que eu nem sei quantos anos vai levar pra conseguir me aposentar. Quarenta anos, ainda, pra eu me aposentar? Eu já não tô feliz, já não tô motivada, eu já não quero voltar agora, quem dirá ficar mais quarenta anos fazendo isso? Como que eu vou falar pra ele: ‘Olha, seja feliz, seja livre’, se eu não fui feliz, se eu não fui livre, se eu não escolhi, se eu não tomei as rédeas da minha vida”. E aquele dia foi, pra mim, muito marcante, assim, eu tenho muito vivo na minha memória esse dia. Ele terminou de comer, eu limpei tudo e com isso na minha cabeça, pensando: “Cara, como… Eu não vou ter moral pra falar com ele, tenho que fazer alguma coisa por mim e eu tenho que fazer agora, não posso esperar daqui quarenta anos pra querer fazer alguma coisa que faça sentido pra mim”. E eu voltei a trabalhar, óbvio, não tinha muita escolha, eu tinha que pagar meus boletos. Voltei a trabalhar, mas no dia que eu voltei, falei: “Meu, eu vou voltar, mas vou voltar determinada a achar a porta de saída desse lugar. Eu tenho que achar, não é possível que eu tenha que ficar aqui mais quarenta anos”. Eu estava lá há cinco anos. Eu não tenho que passar aqui mais quarenta anos da minha vida sendo infeliz, fazendo um trabalho que, pra mim, não faz sentido algum, que qualquer pessoa poderia estar fazendo, que não conversa com o que eu quero pra mim, batendo ponto, longe da pessoa mais importante da minha vida, que é meu filho, porque eu vou ter que abrir mão dessa convivência com ele, pra estar aqui. Eu falei: “Não, eu vou voltar e achar essa porta de saída. E eu, cara, não vou falar pra mais ninguém que eu tô infeliz. Eu não vou reclamar pra mais ninguém que está perto de mim. Vou trilhar o meu caminho”. E aí eu comecei, voltei e falei: “Eu quero estudar”. Cheguei na empresa e falei: “Eu quero estudar, quero fazer uma pós-graduação”. Aí falaram: “Ah, mas não precisa, o que você faz, você já faz bem”. Eu falei: Não, mas eu quero!”. E comecei a pentelhar que eu queria fazer uma pós-graduação até eu conseguir a aprovação de fazer uma pós-graduação com a ajuda deles e, no meio disso, eu comecei a querer conhecer gente nova. Eu trabalhava na rua da Unibes, que é um lugar muito massa em São Paulo, que tem vários eventos, tal, peguei o caderninho da Unibes e falei: “Não, eu vou começar a ir nos eventos”. Horário do almoço, às vezes tinha roda de conversa, tinha palestra, alguma ação, exposição. Eu vou aqui, é do meu lado, né? Poucos passos de mim, vou começar por aqui. Comecei a me inscrever, comecei a ir, a olhar coisas novas, diferentes, tal, comecei a conhecer pessoas diferentes, puxava assunto com as pessoas. Querendo me conectar com outro tipo de pessoa, assim, longe do meu universo, de trabalhar numa empresa pública, tal. Eu comecei, nisso, a comprar livros diferentes, a ler coisas diferentes. Comecei a [me] voluntariar mais. Eu já tinha o voluntariado muito vivo em mim, falei: “Vou voluntariar mais, que é a oportunidade de eu trabalhar com outras coisas, de conhecer pessoas diferentes”. Eu comecei a encabeçar umas campanhas, sabe? Teve o desastre de Mariana, eu já tinha feito uma campanha; eu já tinha feito uma campanha pra um lar de idosos. Fiz uma campanha pras famílias da Boate Kiss. Enfim, já tinha feito campanhas legais e comecei a fazer mais. Comecei a me envolver muito com voluntariado e com coisas diferentes. Comecei a ir em eventos na Paulista, comecei a ir em lugares que eu queria ir e nunca ia, né, olhava e falava: “Nossa, esse lugar deve ser muito legal”, mas eu nunca ia. E eu comecei a ir, falei: “Não, pelo menos um lugar novo por semana eu vou experimentar, vou conhecer e tal”. E veio essa curiosidade com muita força. Eu sentia que essa curiosidade, essa inquietação poderia me levar pra algum lugar. Eu não sabia qual, mas era um lugar diferente de onde eu estava. Comecei muito nesse movimento, mas pra achar a porta de saída dessa empresa. Queria achar a porta de saída, de qualquer jeito. E aí foi muito louco, essa história é muito doida, porque eu falava muito com Deus, assim, sabe? Eu andava na rua falando com Deus, eu falava: “Deus, eu tô aqui, me mostra, me faz encontrar alguém, alguma coisa que me traga mais sentido, que me traga uma oportunidade, que me traga uma nova possibilidade na minha vida”. Eu falava muito com Deus, eu não vou falar com ninguém, eu falava com Deus. (risos) E eu assisti um filme na Netflix, que se chama "Uma Lição de Vida". Eu assistia vários filmes, ia caçando no catálogo [por] filmes diferentes. Claro, eu assistia um pouquinho por dia, porque o Rafa era a disputa da televisão, da atenção. No pouco tempo que eu tinha em casa, eu ainda tinha que me dedicar. Eu era mãe, claro, tinha as minhas responsabilidades com ele. Então, assim, assistia dez, quinze minutos por dia. Antes de dormir, eu colocava um pouquinho de algum filme, ou alguma série, com meu marido. Esse foi um filme que eu escolhi e falei: “Vou começar a assistir”. Eu fui assistindo, assistindo um pouquinho por dia. É um filme que se passa em Nairóbi, no Quênia, na África e esse filme conta a história de um ancião, que quer aprender a ler, pra poder ler uma carta que ele recebeu e ele acaba se matriculando numa escola de educação infantil em Nairóbi, dentro da comunidade. Aquele filme me despertou pra uma África que tinha e tem todos os problemas possíveis, mas era um filme que mostrava uma África dançante, uma África viva, uma África inteligente, uma África potente. Enfim, foi um filme que mexeu muito comigo, assim. Eu nunca tinha refletido tanto sobre a África, foi um filme que me impactou bastante. No sábado de manhã, eu fazia parte de um grupo de corrida aqui na minha cidade, um grupo de corrida só com mulheres. E faltavam dez minutos pra terminar o filme, né? Eu falei: “Enquanto eu tomo café, faço café, vou ligar o filme, pra eu terminar”. Eu liguei o filme, estava ali fazendo café, tomei café correndo e tal e fui correr com o filme na cabeça. E nesse dia [tinha] uma mulherada lá e chegou uma menina nova no grupo. Ela chegou, colou em mim e falou: “Oi, tudo bem? Posso correr com você?”. Eu falei: “Pode, mas, olha, não corro bem, tá? Já te aviso que eu sou devagar”. E ela falou: “Não, tô começando hoje, tudo bem e tal”. Bom, corremos ali juntas, quarenta, cinquenta minutos de corrida, sem trocar uma palavra. Eu não sei correr e falar ao mesmo tempo, então foi em silêncio mesmo. E, no final, eu simpatizei com ela, estava alongando e falei pra ela: “Posso te adicionar no Facebook?”. Aí, ela: “Ah, claro, pode, meu nome é Mariana Fischer”. Eu falei: “Ah, legal”. Entrei no carro, ela saiu, foi embora, entrei no carro e já peguei o celular e coloquei lá no Facebook: Mariana Fischer. Na hora que apareceu Mariana Fischer, a foto dela, apareceu: Mariana Fischer, Quênia. Eu falei: “Cara, como assim? Como assim, Quênia?”. Eu não sabia nem de que lado da África ficava o Quênia. Eu tinha acabado de assistir um filme que se passava no Quênia. Eu já fiquei assim, né: “Nossa, calma, espera. Espera, Deus, é o sinal que eu estava pedindo”. Mandei uma mensagem no privado, eu falei: “Mari, tudo bem? É a Bia da corrida, tô te adicionando aqui, prazer. Cara, por que Quênia?”. Peguei, liguei o carro, fui embora, depois cheguei em casa, ela mandou uma mensagem: “Oi, Bia, tudo bem? Prazer, legal correr com você, tal. Ah, então, eu moro aqui em Cotia mesmo, mas eu fui pro Quênia fazer voluntariado, me apaixonei e acabei abrindo uma escola de educação infantil em Nairóbi”. Eu falei: “Não, você está brincando”. Ela falou: “Por quê?”. Eu falei: “Você conhece esse filme?.  E mandei o nome do filme pra ela que, na época, a tradução era "O Aluno", não era nem "Uma Lição de Vida". Aí eu peguei, mandei, ela falou assim: “Não, não conheço esse filme”. Eu falei: “Mariana, você assista esse filme, cara. Eu terminei de assistir esse filme hoje, eu saí pra correr e te conheci. Esse filme se passa em Nairóbi, no Quênia, em uma escola de educação infantil!”. Aí eu já tinha certeza, eu já estava ali: “Deus, quem é essa menina?”. De repente, quando ela fala educação infantil em Nairóbi, eu falei: “Não, é um furacão na minha vida essa menina, é Deus”. Parei tudo que eu estava fazendo: "Nada mais me interessa, eu preciso descobrir que história é essa". A gente ficou trocando mensagem o resto do dia e a Mariana me contando que ela tinha ido lá voluntariar, que ela ia ficar só um mês, mas que ela encontrou muitas crianças fora da escola, porque o ensino público é pago. Então, tem muita criança marginalizada, quase setenta por cento das crianças do Quênia não frequentam escola. Então, ela se apaixonou, ela é publicitária, (risos) nunca trabalhou com educação, mas era apaixonada por educação, apaixonada por crianças. Ela pegou o dinheiro que ela tinha ido lá pra voluntariar e alugou um espaço dentro da periferia, era Cabíria, né, e começou a dar aula de inglês pras crianças. Começou a chamar as crianças pra entrar, contar historinha e tal, conheceu uma mulher, lá, Zara, né? Uma africana que foi mostrando pra ela a comunidade, os desafios da comunidade e acabou que ela ficou lá sete meses. Ela foi pra ficar um mês, acabou ficando sete meses e começou esse trabalho lá. Hoje é uma ONG que se chama Hai Africa, então essa escolinha se chama Hai Center e ela voltou pro Brasil, apaixonada por tudo isso, mas sem dinheiro pra manter nada daquilo. Ela fez financiamento coletivo, estava aqui passando os perrengues, muito sozinha, sem saber pra que caminho seguir. Ela foi me contando tudo isso, eu falei: “Meu, fiquei apaixonada, fiquei enlouquecida! Mari, como eu posso te ajudar, como posso fazer parte disso, você precisa de alguém?”. E ela falou pra mim: “Não sei, Bia, eu preciso de dinheiro pra manter as coisas lá, preciso pagar o aluguel, preciso colocar a mulher que está lá numa faculdade, ela não é professora”. Aí eu falei pra ela: “Cara, eu não tenho dinheiro, mas eu acho que a gente pode vender brigadeiro e conseguir um dinheiro, pra manter essa escolinha lá”. Ela falou: “Ah, vender brigadeiro. Meu, que legal! Você faz brigadeiro? Que ‘dá hora’!”. Eu falei: “Não, Mariana, (risos) eu nunca fiz brigadeiro, mas eu acho que é fácil, acho que dá pra gente aprender e que, de repente, as pessoas podem comprar, porque brigadeiro todo mundo gosta. Então, eu acho que a gente pode vender brigadeiro, conta a história do porquê a gente está vendendo brigadeiro, vai juntar dinheiro e te ajuda”. Foi uma ideia, assim, pá, que surgiu ali, na hora. E ela falou: “Beleza, vamos!”. A gente continuou se falando e acabou fazendo uma primeira receita de brigadeiro, a mãe dela foi lá pra cozinha: “Vamos fazer!”. Fizemos uma conta no papel de pão e criamos ali uma meta super audaciosa, super ousada, de vender duzentos brigadeiros. A nossa meta era vender duzentos brigadeiros. E a gente ria sozinha, que a gente tinha acabado de se conhecer, nunca tinha feito brigadeiro, muito menos vendido, enfim, só comido brigadeiro, até então. E a gente colocou lá, duzentos brigadeiros: “Vender pra quem?”. E eu falei: “Mari, cara, sua história é muito boa, a gente vai contar a história e as pessoas vão comprar o brigadeiro. E a gente pode vender no trabalho, pode vender na rua, na feira, no parque, no grupo de corrida”. E comecei ali a ter minhas ideias, de como a gente ia fazer. E a gente ria sozinha, porque a gente falava: “Tá, é muito legal o plano, mas será que vai dar certo?”. Resumo: em três meses, a gente vendeu quinze mil brigadeiros. A gente vendeu brigadeiro pra todo mundo que você possa imaginar, inclusive pra todo mundo que a gente nem conhecia, porque a gente saía pela rua vendendo brigadeiro, a gente anunciava na internet. Todo mundo começou a conhecer a Hai Africa por conta do “Brigadeiro do Amor”. A gente contava a história do brigadeiro pra todo mundo. A gente vendeu muito brigadeiro e, com isso, além de, claro, trazer recursos pra ONG, mobilizou muitas pessoas pela causa. Muita gente passou a conhecer, então surgiram padrinhos pra ONG. Enfim, foi um movimento muito maior de oportunidades pra ONG, pra Hai Africa. E eu estava enlouquecida, não queria fazer mais outra coisa da minha vida a não ser vender brigadeiro pra Hai. Fez muito sentido pra mim isso. Passei a estudar Comunicação, Marketing, Mobilização de Recursos, Captação, enfim, eu falei: “Cara, eu vou, eu quero, eu vou aprender a fazer”. Pirei nesse negócio, pirei no brigadeiro e, lógico, não só no brigadeiro, mas principalmente no que o brigadeiro, através do brigadeiro, o que a gente conseguiria fazer lá no Quênia, lá pras crianças. A gente tinha 21 crianças naquela época, só. Por que eu conto sempre essa história, né? Porque o pessoal fala: “Ah, mas o que o brigadeiro tem a ver com a Cruzando Histórias? O que o brigadeiro tem a ver com a Bia? O brigadeiro é da Hai Africa, não é da Cruzando Histórias, tal”. Eu falo: “Gente, essa curva é muito importante - ela é distante, mas é muito importante -, porque esse movimento me trouxe muita autoconfiança, sabe? Resgatou em mim algo que talvez eu tivesse esquecido”, uma força, realmente. Me trouxe autoestima profissional. Me trouxe aquele lance de: cara, eu posso ser muito mais do que eu sou. Não sou só uma analista de RH de uma empresa pública, eu posso trabalhar com outras coisas: com vendas, com comercial, com ‘marketing’, eu posso aprender outras coisas, e cara, o que eu fizer pode ter um impacto muito maior lá na frente. Então, eu fiquei muito apaixonada e realmente me mudou. E, dali por diante, daquele brigadeiro, (risos) do primeiro, até hoje, eu tenho certeza que posso ser quem eu quiser, sabe? Eu posso aprender o que quiser, posso fazer o que eu quiser, eu sou capaz de muito mais. Então, foi muito importante o brigadeiro, né, e o trabalho na Hai. Era um trabalho voluntário, mas era um trabalho que preenchia totalmente meu coração. Fiquei muito apaixonada, principalmente de ver os resultados: da gente conseguir incluir a refeição saudável pras crianças; da gente conseguir colocar as mulheres que cuidavam da escolinha, as duas, na faculdade, conseguir colocá-las numa faculdade Waldorf, de educação Waldorf, uma educação humanizada, num país onde a educação é super violenta. Então, a gente estava conquistando coisas que, pra mim, eram lindíssimas... São, né, lindíssimas. São impressionantes. E eu só pensava em pedir demissão: “Cara, tem que virar isso, porque eu tenho que tirar renda daqui, porque eu preciso pedir demissão, eu não quero mais viver naquele trabalho vazio, sem nenhum sentido, naquela rotina. Eu quero trabalhar com algo que eu me sinta viva, como eu tô me sentindo com o brigadeiro. Se for pra vender brigadeiro, eu vou vender brigadeiro”. Eu só pensava em pedir demissão. Estudando e pensando: “Não, vai dar certo e eu vou pedir demissão”. E aí, no ano seguinte, meses depois disso, uns sete, oito meses depois disso, muito envolvida com a Hai Africa - todo mundo já me reconhecia com a Bia da Hai Africa -, eu estava assistindo uma matéria no “Jornal Nacional”. Tinha chegado do trabalho, de uniforme, cansada, ônibus lotado e tudo mais. Estava dando janta pro meu filho e ligo a TV, estava passando “Jornal Nacional” e começou a passar uma matéria sobre desemprego. E a matéria lá, né: catorze milhões de desempregados, X% de pessoas desempregadas, impacto econômico, número e gráfico, estatística e tal. E eu assim, estatelada, pensando: “Meu Deus, olha onde eu quero me enfiar, né? Porque, se eu pedir demissão, eu vou parar aí, né, no ‘Jornal Nacional’”. Fiquei prestando muita atenção, aquilo estava, assim, uma matéria longa, [com] número e [mais] número, e eu grudada na TV. Aí, no final da matéria, eles foram entrevistar pessoas nas ruas e, na hora que eles foram entrevistar, apareceu uma mulher, Sueli Batista da Silva e, na hora que a Sueli começou [a] falar, ela se engasgou, emocionada e falou: “Eu procuro emprego quando dá. Eu tenho vinte centavos na carteira, não sei nem como eu vou voltar pra casa. Quando eu tenho dinheiro, procuro emprego; quando não tenho dinheiro, eu não procuro emprego. Tenho três filhos e estou sendo despejada”. Foi isso, nem vinte segundos, assim, de fala da Sueli. Eu levantei do sofá, literalmente falando, levantei, olhei pro meu marido e falei: “Marcelo, eu vou pagar os aluguéis dela”. Aí, ele: “De quem?”. Eu falei: “Da Sueli”. Ele: “Que Sueli?”. Falei: “Da Sueli, que passou no ‘Jornal Nacional’”. Ele falou: “Mas você a conhece?”. Eu falei: “Claro que não, passou agora no ‘Jornal Nacional’, você não estava ouvindo?”. Ele falou: “Não”. Eu falei: “Ela vai ser despejada. Ela tem três filhos, como ela vai ser despejada? Pra onde essa mulher vai? Ela vai pra rua”. Porque, na minha cabeça, eram crianças e ela ia pra rua. E aquilo mexeu muito comigo, eu falei: “Não, eu vou pagar, vou dar um jeito, vou tirar dinheiro da poupança, não sei. Marcelo, ela é faxineira, eu trabalho com terceirizada, eu vou conseguir um emprego pra ela”. Enfim, já bolei ali todo um plano pra salvar aquela mulher. E passei o dia seguinte inteiro procurando-a nas redes sociais. Sueli Batista da Silva. Quantas existem, né? Milhares. E não a achava, não a achava, não a achava e [fiquei] procurando [sem parar]. Comecei a ligar na Globo. Eu falei: “Bom, a pessoa que gravou a matéria, o repórter, vai ter os dados dela, né? Ela deve ter assinado algum papel pra falar lá, dar a entrevista, tal. Vou ligar na Globo”. Aí começou a luta, né? Porque as telefonistas me jogavam na URA, não me davam atenção: “Ah, mas não tem ninguém pra te atender, liga depois, liga outra hora. Liga depois da uma; depois das três; depois das cinco”. E eu ligando, ligando, ninguém me atendia. Até que uma pessoa atendeu, lá na edição do “Jornal Nacional”, e falou pra mim: “Moça, a gente não tem os dados dela, a gente não pega dados de pessoas na rua, só pega o nome e entrevista. O que eu tenho é o que você tem, entra no G1, tem a foto dela e o nome, procura no Facebook”. Eu falei: “Moça, você não está entendendo, eu tô o dia inteiro procurando-a no Facebook, no Instagram, em todas as redes sociais possíveis. O nome dela é Sueli Batista da Silva, tem muitas, eu não tô encontrando-a. Você não tem uma pista, o telefone do repórter, não tem nada?”. E ele: “Não tem. Olha, boa sorte”. Falei: “Cara, não acredito que é assim”. Fiquei ali frustrada, aí vim embora, pensando: “Como eu faço pra achar essa mulher? Já sei!”. Olhei lá, assisti a matéria de novo no G1, tirei um “print” da tela, da foto da imagem dela com o nome e eu vi que era na Barão de Itapetininga que eles tinham gravado, lá no Centro de São Paulo, naquela rua que tem bastante agência de emprego. Eu falei: “Já sei, vou lá! Vou lá na Barão de Itapetininga, alguém vai conhecê-la. Ela estava lá anteontem, alguém viu essa mulher”. Fui lá, nunca tinha ido. Assim, já tinha passado, mas nunca tinha ido pra agência de emprego, assim. Sou profissional de RH, trabalhava com RH, mas eu nunca tinha ido lá com esse fim. Eu nunca tinha ficado desempregada. Pra ser bem sincera, nunca tinha passado pelo desemprego. Eu sempre fui trabalhando, me virando, fazendo as minhas coisas. Nunca tinha ficado desempregada. Aí fui, cheguei lá, achei que eu ia achar três agências de emprego, né? Imagina! Um monte de agência de emprego. Aí eu vi numa banca escrito: mapa das agências, dois reais. Falei: “Ah, já sei, vou comprar e vou contar a história, alguém vai conhecer essa mulher”. Comprei o mapa das agências e fui, de porta em porta, nas agências. Batia: “Oi, tudo bom? Olha, assisti essa matéria no ‘Jornal Nacional’ com essa mulher, você a conhece, Sueli?”. Ninguém nem olhava na minha cara. Mal olhava, assim, mal levantava o olho, pra ver quem que estava falando. E esse comportamento nas agências não era com a Bia, até porque eu não sou um alecrim dourado, não importa o jeito que estavam me tratando, mas eu vi tratando todas as pessoas dessa forma. As pessoas que ficavam na fila, lá na fila do desemprego, na fila com a pastinha, com o currículo, ficavam duas horas ali no sol, ficavam horas esperando pra entrar nas agências e as meninas mal levantavam o rosto, pra olhar na cara das pessoas. E eu via aquele movimento do pessoal entregando currículo: “Ah, eu vim trazer meu currículo, fazer meu cadastro”. Elas nem olhavam, elas jogavam o currículo em caixas de papelão, em gaveta, na cara da pessoa. Eu falava: “Pô, a pessoa passou horas aqui, ela veio até aqui, no Centro, com todas as expectativas dela, tipo: ‘Eu preciso de um trabalho, qualquer que seja’”. São pessoas super simples que fazem esse movimento ainda de ir pra rua, procurar emprego, né? Isso era início de 2017 e eu fiquei muito chateada com aquilo. Porque eu falei: “Bom, primeira coisa, não encontrei a Sueli, não encontrei nenhuma pista, ninguém nem que quisesse escutar porquê que eu estava procurando a Sueli”. Mas o que me doeu mais foi ver que era esse o tratamento que os meus colegas, as minhas colegas de RH davam pras pessoas que estavam desempregadas. Então, pô, aqueles catorze milhões de desempregados lá do “Jornal Nacional”, era isso que eles tinham: o descaso total das pessoas mal olharem pro rosto deles, né? E jogarem, descartarem o currículo. Aquela cena, sabe, de jogar o currículo numa caixa de papelão, pra mim aquilo foi tão frio, de falar assim: “Meu, a pessoa coloca toda a expectativa dela num papel. A gente já tem que se reduzir num papel, né, tudo o que a gente viveu, o que a gente sabe, o que a gente é, o que a gente fez, a gente tem que colocar numa folha de papel. Essa folha de papel vai pro lixo, porque ninguém olha aquela caixa de papelão, nunca mais”. E a hora que eu vi esse descarte, sentei. Eu não encontrei a Sueli, voltei pra rua, tinha um banco em frente onde tem o metrô, ali, da Linha Amarela, que hoje em dia eu uso bastante, sentei ali e falei: “Cara, o que eu faço agora?”, porque eu não consegui achar a Sueli, mas também não consigo ‘desver’ tudo isso que eu vi. Não consigo voltar na terça-feira e fazer de conta que nada disso está acontecendo. E eu já tinha pra mim uma coisa muito forte, que era: “Você quer ajudar as pessoas, pergunta pra elas o que elas, de fato, precisam”. A gente tem essa mania, quando quer ajudar alguém, ou alguma coisa, quer que a solução parta da nossa cabeça, né? Da nossa vontade. “Ah, o que eu quero fazer por ele?” Eu falei: “Não, eu preciso saber o que é isso, porque nunca passei por isso. Tô vendo, está doendo em mim, mas não é comigo, né? Eu tô vendo daqui de fora, de um lugar, assim, de muitos privilégios, né? Profissional de RH, trabalhando, concursada, que era o que todo mundo me falava, que eu tinha a sorte grande. Como, né?”. E aí, eu voltei pra casa muito incomodada, sem encontrar a Sueli. A Mariana, essa minha amiga da Hai Africa, falou pra mim: “Bi, ajuda outra mulher. Se você não achou a Sueli, ajuda outra Sueli. Deve ter um monte de Sueli, um monte de mulher nessa situação, ajuda outra, pro seu coração se acalmar”. E aí a minha irmã me apresentou uma mulher desempregada, a Diná. Ela me apresentou a Diná e falou: “Não, Bi, vai lá, a conhece, conversa com ela”. Eu falei: “Beleza, eu vou na casa dela, quero entender o que ela está sentindo e, de repente, ver como eu posso ajudá-la”. Eu já gostava muito de escrever - contei que desde criança gosto de escrever -, sempre me dei muito bem com as palavras, fui lá, conheci Diná, conheci a casa dela, a filha, a situação do marido. Ela estava doente, os dois não conseguiam emprego porque estavam com problema de saúde e uma filha de sete anos pra criar, enfim. Tudo aquilo, assim, muito impactante, uma situação muito triste, de assistência social mesmo, de precisar de intervenção do governo e tudo mais. Eu voltei pra casa muito satisfeita de ter conhecido a Diná, porque aprendi tanto com ela, sabe? Eu peguei. sentei no computador e escrevi a história de vida da Diná, né? E aí, pra mim, foi, na hora que eu escrevi a história, eu falei: “Meu, uma mulher tão legal, uma mulher tão massa, uma mãe tão legal, não é possível que ela não consiga algo”. Eu mandei pra minha irmã, minha irmã já conhecia a Diná há muito tempo. Minha irmã ficou muito emocionada com a história e falou: “Bi, põe no seu Facebook essa história, está muito linda. Cara, como você enxerga - você tem um talento pra isso - beleza nas pessoas! Eu conheço a Diná há anos, eu nunca tinha olhado dessa forma. Põe essa história no Facebook”. Eu fiquei: “Ah, meu, será? Ah, eu não sei”. Fiquei com vergonha, fiquei me sentindo muito romântica. Falei: “Acho que eu tô romantizando uma situação que é muito triste”. Aí minha irmã: “Põe e tal”. Eu falei: “Não sei. Vou abrir uma página aqui no Facebook, nessa página não vai ter ninguém mesmo, aí eu posto e ninguém vai ver”, com vergonha da história. Aí, na hora, veio na minha cabeça, assim: Cruzando Histórias. Porque a minha vontade era cruzar a história da Diná com a história de alguém que pudesse ajudá-la, né? E o nome estava disponível, falei: “Beleza, Cruzando Histórias”, pá, publiquei a história da Diná. Um monte de gente leu a história, compartilhou a história, curtiu a história, a história ficou circulando no Facebook e, na hora que eu olhei, tinha um monte de gente que tinha lido, comentado, eu comecei a receber doação: “Não, eu quero ajudar a Diná com material escolar, produto de limpeza”, porque ela estava doente, né? “Ah, tem um lugar que ela pode ir, que tem um médico assim...”.  Enfim, tudo que é tipo de ajuda e, no meio disso, umas pessoas me chamaram no privado, tinha lá umas mensagens no privado, eu comecei a ler e tal. Um rapaz me chamou a atenção, o Luiz. Ele falou pra mim: “Bia, meu nome é Luiz, eu tenho 54 anos, trabalhei dezoito anos na empresa ‘X’ e um dia antes da minha cirurgia no joelho, me mandaram embora. Eu tenho duas filhas, uma de dezessete e uma de quinze - não lembro, na época, direito -, adolescentes, que estão estudando, Eu nunca imaginei que fossem me mandar embora. Isso faz quatro meses. Eu durmo e acordo pensando na empresa. Não consigo sair desse luto, eu tô desesperado. Eu não consigo arrumar emprego: sofro, sonho, tenho pesadelo”. E aquilo, cara, calma aí, né? Eu falei: “Ah, Luiz, vamos conversar”. Conversamos, tal, uma história incrível, falei: “Vou escrever a história do Luiz”. Escrevi a história do Luiz, publiquei. Aí eu falei: “Cara, não, é mais que isso. Eu preciso escutar mais pessoas, eu preciso entender, de fato, onde dói”. Peguei uma lousa do meu filho, pequenininha e escrevi: “Está sem trabalho? Fale comigo”. Eu comecei a, todo dia, depois do horário de trabalho, eu saía quatro horas, parava no ponto de ônibus, na padaria, praça, Banco, esquina, com essa lousa. Ficava segurando a lousa, pra conhecer pessoas que estavam passando pelo desemprego. Pra entender como eu podia ajudá-los, né? E assim nasceu a Cruzando Histórias. Foi nesse movimento meu, nessa minha iniciativa pessoal. Eu não pensava em ser um projeto, não pensava em ser uma ONG, eu não pensava em nada, simplesmente pensava: “Como que eu posso ajudar as pessoas que estão desempregadas, hoje?”. E, conhecendo essas pessoas, escutando as histórias delas, eu fui entendendo como poderia ajudar, como eu poderia juntar mais gente pra ajudar. No primeiro ano da Cruzando, escutei mais de oitocentas pessoas pelas ruas, gente de tudo que é contexto, tudo que é história, né? Eu falo: “Gente, cada história é única, cada pessoa é única”; Mas ontem mesmo eu falei isso pra uma pessoa, eu falei: “Cara, nós somos muito diferentes, mas tem um fio condutor que une todas as histórias”. E quando eu penso qual é esse fio condutor, eu falo: “É a humanidade, né?”. Nós somos humanos, assim, então isso atravessa todos nós e acaba nos conectando, uns aos outros. Então, a Cruzando Histórias nasceu dessa narrativa, né? Dessa escuta e dessa narrativa: pessoas em desemprego. E eu mostrando, escrevendo as histórias dessas pessoas na internet, mostrando que a gente é muito mais que um currículo. Que aquele número do “Jornal Nacional”, na verdade, é uma vida, né? São sonhos, expectativas, desejos, enfim. Passei a escrever essas histórias, essas histórias 'viralizaram' no Facebook, as pessoas queriam ajudar e muita gente começou a se empregar por conta desse movimento das histórias, conseguir a oportunidade. E assim nasceu (risos) e cresceu a Cruzando Histórias.

 

P1 – E qual o trabalho, no momento que você estabeleceu a ONG? Como você foi fechando parcerias [e] se envolvendo nesse trabalho?

 

R – Então, depois de um ano que eu estava fazendo isso de forma muito... Fui fazendo isso muito, assim, sozinha, de forma muito intuitiva, né, tal. Depois de um ano, já tinha mais gente querendo fazer parte - “Ah, quero escutar também, quero escrever também,  quero oferecer uma oficina de currículo, quero oferecer uma mentoria, quero oferecer vaga” - da Cruzando, eu realmente resolvi que seria uma ONG. Então, fui atrás de entender como a gente faria isso, qual a natureza jurídica que eu iria registrar, o que a gente, de fato, iria fazer, qual que era o entregável da ONG, pra além de escutar as histórias, escrever as histórias, o que a gente poderia fazer pra ajudar essas pessoas. Então, em junho de 2018, saiu a nossa documentação como uma associação, que é a natureza jurídica da ONG e ali acho que as coisas começaram a ser levadas a sério, não só por mim, mas por outras pessoas também. A Cruzando, então, se torna uma ONG, ganha um primeiro edital, que foi muito importante, um concurso de projetos da Fundação Arymax e eu fui estudar empreendedorismo de impacto. Eu tive a oportunidade, através desse edital, de conhecer outras pessoas, outros empreendedores sociais e passar por cursos, formações [e] mentorias durante seis meses com a Fundação Arymax. E foi aí que eu falei: “Meu, é isso que eu quero. Eu nasci pra isso, isso aqui é o que me fascina. Sou apaixonada por isso e preciso aprender mais, eu quero me dedicar mais”. A Cruzando, já estavam acontecendo várias coisas diferentes: estava gravando documentário, estava rolando muitas atividades na Cruzando, muita gente, muitos voluntários passando pela Cruzando, me ajudando a construir a Cruzando e tal. Aí, depois, eu recebi um investimento semente, super pequenininho, da Fundação Arymax, mas fez toda a diferença, porque me deu muita força. E aí, no final desse processo com a Fundação Arymax, eles escolheram, nossos colegas, a gente votou em quais eram os projetos melhor estruturados e a Cruzando foi um desses projetos. Eu ganhei mais um prêmio, no final, um prêmio em dinheiro e aquele prêmio eu falo, gente, muito mais que o dinheiro, que nem era tanto, foi quando eu segurei aquele cheque grandão e falei: “Eu quero viver pra isso”, sabe? É isso, eu encontrei… (choro) Eu me emociono quando falo disso, porque, se você for ver, assim, num espaço de tempo, né, resumindo aqui a história, parece que foi tudo muito rápido. Mas, na verdade, desde que eu me tornei mãe, em 2014, pra esse dia que eu levantei esse cheque, foram cinco anos, quase cinco anos, quatro anos e meio, sei lá, que muita coisa aconteceu. Eu passei por muita coisa, não foi fácil. Tive que fazer muitas escolhas, tive que sacrificar muitas coisas, pra chegar nesse momento. Eu tive que escolher a Cruzando Histórias todos os dias e não é fácil, né, começar um projeto social e acreditar nele. Acreditar a ponto de tampar os ouvidos pra todos os não estímulos possíveis. Eu escolhi muito a Cruzando Histórias, e escolher a Cruzando Histórias era me escolher também, porque era... Eu estava criando uma organização que priorizava, que valorizava as mulheres [que também são] mães, que eram tão excluídas, que eram tão assediadas, como eu estava sendo muito assediada no meu trabalho. Então era por mim, mas [também] por um monte de mulheres que vinham comigo. A Cruzando, hoje, é uma organização que atende só mulheres, né? A gente só trabalha com mulheres, com empregabilidade feminina. Na época, ainda não, acho que ainda estava um pouco conturbado o que, de fato, eu queria fazer, mas já tinha uma força da mulherada muito grande, muito viva dentro de mim. Quando eu segurei aquele cheque, falei: “Meu, eu quero viver pra isso, não quero viver pra mais nada que não tenha um resultado tão bom quanto esse”. Então, transformação social que, pra mim, desde criança, sempre foi fascinante e eu não enxergava como uma possibilidade de carreira, eu achava que era “hobby”, era distante de mim, que o terceiro setor não era possível, né, trabalhar. Ali abriu aquela porta que eu falei que em 2015 eu queria que abrisse uma porta, pra eu sair do lugar onde eu estava. Era uma porta escancarada. Eu enxergava porta, janela, sabe? Tudo, eu só via muita luz naquele caminho. Não tinha nenhuma garantia de dinheiro, porque eu continuava voluntária. A Cruzando não tinha recursos, a gente ainda não captava recursos, eu não tinha nem certeza se daria certo, mas eu tinha uma força muito grande. “Cara, eu quero fazer isso, vou me dedicar a isso. Eu vou!”. Levantei aquele cheque e falei: “Eu vou pedir demissão”. No dia seguinte, no primeiro dia de trabalho, eu voltei e pedi demissão do meu emprego. Eu já vinha me planejando pra isso, tinha feito escolhas pessoais que me deixassem um pouco mais tranquila pra tomar essa decisão e também pelo meu filho. Porque eu levantei aquele cheque e falei: “Eu quero viver disso, porque eu vou poder trabalhar mais perto do meu filho. Ele está crescendo”. Ele já tinha quatro anos quando aconteceu isso e eu via muito pouco meu filho, né? Eu estava sempre nessa correria de trabalhar, de sair de madrugada, de voltar de noite. Com a Cruzando Histórias isso estava sendo ainda pior, porque eu tinha que usar meu tempo livre pra construir a Cruzando. Então eu levantei aquele cheque e falei: “Sou eu, é a minha vez agora. É a minha vez de fazer o que eu quero, num projeto que é incrível, que vai ajudar muita gente e me trazer a possibilidade também de empreender e estar mais perto do meu filho, que é o meu projeto, que é o meu grande projeto”. Foi quando eu pedi demissão e vim pra Cruzando Histórias, né, e aí a Cruzando Histórias, de fato, começou a acontecer, porque tinha uma pessoa inteira. Não tinha um pedaço de Bia, um resto de Bia pra Cruzando, tinha uma Bia inteira e uma Bia que sempre teve essa capacidade de construir conexões, né, de juntar as pessoas, de conectar as pessoas, de fazer as pessoas acreditarem. Então, eu sempre fiz muito esse movimento, assim, de juntar gente legal [e] incrível, né? Eu falei: “Agora eu vou fazer por mim, pelo meu negócio, pelo meu projeto” e as coisas passaram a acontecer de fato, assim, sabe? Escrevi a metodologia da Cruzando Histórias, fiquei mais à vontade pra trabalhar com os projetos, mais tranquila. E ano passado, né, em 2020, com a pandemia, com a chegada da pandemia, a Cruzando deixa de ter esse sabor artesanal de presença, porque tudo acontecia todo mundo junto, era tudo presencial, artesanal, gente com gente, com abraço, com olho no olho, tal. A pandemia meio que não vou dizer que destruiu, porque não destruiu. Na verdade, potencializou tudo isso. Porque eu não acreditava que a Cruzando Histórias poderia acontecer no digital, mas sim, pode acontecer no digital e pode acontecer muito melhor, muito maior, assim. Hoje, a gente atende mulheres de todos os lugares do país. A Cruzando, com a internet, foi possível que a gente chegasse em outros lugares, em outras mulheres. Pra chegar nisso, né, de ser só mulheres, a gente passou por alguns obstáculos, como a violência doméstica, que foi algo que tomou uma proporção muito grande durante a pandemia, teve um aumento de casos de violência muito grande, relatados nos atendimentos. Foi algo que a gente teve que olhar durante a pandemia, mas que potencializou, deixou a gente mais forte e foi quando eu falei: “Bom, está tudo muito lindo, o trabalho é incrível, agora a gente precisa captar recurso. A gente precisa trazer gente pro nosso lado, eu preciso contar essas histórias pra quem realmente pode investir, pra quem realmente pode deixar isso ainda maior”. E foi quando eu comecei a bater na porta das empresas, né? De falar: “Olha, eu tô fazendo isso, eu quero contar minha história”. Eu uso muito o LinkedIn pra me conectar a pessoas de dentro das empresas, né? Conto histórias no LinkedIn, o tempo todo eu tô contando histórias, eu adoro contar histórias. E, contando essas histórias, mais gente foi falando: “Pô, legal o que você faz, quero fazer também, vamos fazer junto”. E hoje, depois de quatro anos e meio, eu vejo a Cruzando Histórias numa situação um pouco melhor, assim. A gente tem um início de sustentabilidade financeira. Hoje, eu tenho pessoas trabalhando comigo, né, remuneradas pra trabalhar comigo, pessoas contratadas pela Cruzando, e é isso, né? Força, com força, um resultado muito maior, muito melhor e de mais impacto, assim.

 

P1 – Me fala sobre a oportunidade de trabalhar, né? Você já tinha falado sobre Nairóbi: como isso se estendeu, como isso aconteceu?

 

R – Eu ainda estou na Hai Africa, acho que não tem como. Eu sou conselheira hoje, lá na ONG Hai Africa. A Hai está muito maior do que em 2016, quando eu conheci. Hoje, nós somos responsáveis pela educação de oitenta crianças. Não todas dentro da nossa escola, mas a gente mantém o ensino, elas ficam [com] a gente até os sete anos, depois vão pro ensino fundamental em outra escola, e a gente faz o financiamento desses estudos enquanto a gente pode, na verdade. A gente faz muito esforço pra conseguir manter a educação dessas crianças. Hoje são oitenta crianças e, além da educação infantil e da alimentação saudável, a gente tem um centro de empoderamento de mães. Então, as mães das crianças trabalham também pra Hai, fazendo artesanato e essas peças são comercializadas aqui no Brasil e em outros países pra gerar renda pra essas mães também, né? Então, é uma forma aí de levar autonomia financeira, pra que as famílias consigam se manter, né? Não só a criança ter acesso à educação, mas as mães também poderem ter um recurso pra, enfim, cuidarem das suas famílias, terem as suas vidas. A África, estive lá em 2017. Eu fiz um financiamento coletivo pra conseguir ir pra lá, numa missão voluntária, pra conhecer de perto o nosso trabalho e o que eu posso dizer, assim, pra mim, transformadora. Acho que a gente está acostumado a reclamar muito de tudo, o tempo todo, né, reclamar de tudo à nossa volta e lá eu pude ver um lugar, assim, de muita carência, né, de carência de recursos, mas abundante na simplicidade, abundante na alegria, né? E ver crianças sem recurso algum sendo crianças, brincando, se divertindo, sonhando. Então, a África realmente cativou um pedaço do meu coração. Assim, acho que ela ensina muito sobre humanidade, sobre amor, sobre maternidade, porque é muito lindo ver o instinto materno, o quanto as mulheres dominam tudo lá, sabe? Dentro da comunidade, assim, dominam. O cuidado, a economia do cuidado, a economia do cuidado africana é muito incrível, assim. Enfim, a África me inspira, né? Eu acho que é isso, assim: me inspira a reclamar menos, a dar valor às pequenas coisas, a dar valor pra aquilo que a gente tem de abundante, como, por exemplo, a água, que é tão abundante pra gente aqui. Foi um grande aprendizado minha relação com a água. A minha relação com a infância mudou, com o trabalho da Hai, de ver a pedagogia humanizada num lugar que é tão cruel com as crianças, assim, onde as crianças apanham muito. Ser um refúgio de amor, de educação, de cuidado, de alimentação, né, de garantia de direitos, isso me inspira muito. Assim, eu sou muito feliz em poder trabalhar com a Hai Africa, trabalhar com a Mariana, que é uma pessoa extremamente humana. Então, são muitos os aprendizados. São muitos os desafios, mas são muitos os aprendizados. E a Mariana, hoje, é a minha vice-presidente aqui na Cruzando, então é uma pessoa que eu tenho muita confiança. A gente troca muito. Ela toca muito o Hai e eu toco a Cruzando, mas a gente troca muito sobre o nosso empreender, os desafios de empreender no social, de manter o equilíbrio emocional, né, também, com tudo que a gente lida, como a gente se mantém no foco, né? Como a gente se mantém com força pra fazer mais, pra fazer por mais pessoas, pra envolver mais pessoas. Então é uma pessoa que eu confio muito, assim, que eu quero muito do meu lado e que me possibilitou viver tudo isso. Acho que foi uma grande mentora, assim, de ser uma menina, como eu, uma menina que tinha um sonho muito grande, de querer fazer mais, de crescer mais e teve uns anos aí, acho que uns dois anos na minha frente de ponto de virada, mas que me trouxe, que me carregou junto com ela, que me deu a oportunidade, então sou muito grata. E hoje em dia, é isso: além de uma amizade, é uma parceria muito grande de colaboração, tanto eu lá, quanto ela aqui. 

 

P1 – A maternidade é meio que - a gente percebe, pela sua fala - o centro, o eixo do seu trabalho. E como é pra você, pessoalmente, ser mãe e empreendedora?

 

R – Uma loucura. (risos) Uma loucura, gente! Hoje, em especial, eu falei: “Olha, meu filho é maravilhoso, ele é super bonzinho, tal”, mas é realmente um desafio, assim, porque criar uma vida é um trabalho que exige muita responsabilidade, que exige muita presença também. Eu acho que, hoje, com o meu empreendimento, né, com a minha ONG crescendo, com muitos desafios, muitos projetos, muita gente envolvida, eu ainda ter que ser essa mãe presente que eu quero ser, que eu gosto de ser, que eu amo ser, mas me desafia bastante, assim, sabe? Como que equilibra as duas coisas? A Bia que está deixando de ser uma empreendedora, pra ser uma empresária, uma diretoria executiva de uma ONG que está crescendo, mas que também gosta de ser mãe, de sentar no chão, de levar na escola, de buscar na escola, de levar na terapia, de querer colocar na natação e todas as outras vontades, os outros sonhos. Quero estar junto, brincar, ter energia pra isso, mas a cabeça a milhão, trabalhando o tempo inteiro, né? Pensando em tudo, nos projetos, nas pessoas. Enfim, uma montanha russa. Tem dia que eu tô super bem, me sentindo super forte: "'Uhuu', vou dominar o mundo". E tem dia que eu fico: “Meu Deus, não vou dar conta de nada, não dou conta dele” e aí vem aquela montanha de culpas. Então, é um turbilhão, assim, mas é muito gostoso, né? Eu acho que também é a possibilidade de eu ser eu mesma, de poder mostrar pra ele que eu vivo meus valores dentro e fora do meu trabalho, que é algo que eu nunca vivi. Hoje, eu tenho uma empresa que está totalmente alinhada aos meus valores. Então, poder mostrar isso pra ele: “Olha, filho, é possível, fazer pelas pessoas pode ser um trabalho”. Então, assim, eu tenho muito orgulho do que eu tô construindo e espero, ele ainda não tem essa consciência,  tem sete anos e ele simplesmente odeia meu trabalho. (risos) Todas as vezes que ele pode falar isso, ele fala: “Não gosto do seu trabalho, porque você trabalha demais”. Então, a gente fica aqui querendo inspirar os filhos [e] na verdade, eles detestam nosso trabalho.  (risos) Então, ele fala muitas vezes pra mim: “Eu não gosto do seu trabalho. Eu não vou trabalhar. Não gosto do seu trabalho, você trabalha muito”. Mas eu tento conversar com ele, eu falo: “Filho, eu preciso, gosto [e] amo meu trabalho. Eu gosto, amo você, sou louca por você, mas eu também quero trabalhar, também quero fazer o que eu faço. Eu ajudo muita gente, isso é muito legal! Eu ajudo outras mamães, outras famílias [e] isso é muito legal!”. Então, eu converso com ele, né? Como se ele entendesse, mesmo sabendo que ele não tem a compreensão exata do que é, do que eu faço, eu mantenho esse diálogo com ele. De mostrar, de querer que ele participe, de levá-lo. Quando tinha os eventos presenciais, ele sempre estava à tira colo. Já o levei em muita reunião, em muito evento. Então, realmente, participando. E também mostrando pras pessoas que meu filho é parte fundamental da minha vida e que eu não vou deixá-lo de lado pra ter sucesso na minha carreira. Que ele faz parte da minha carreira, ele faz parte de tudo. A vida é tudo, não tem a Bia diretora executiva, a Bia palestrante, a Bia mãe, a Bia esposa. Não, eu sou uma Bia só, né? E todas essas áreas e papéis têm que se conversar. Então, era muito engraçado: quando eu saí do meu emprego, comecei a ir pras reuniões e eventos e levar o Rafael, muita gente falava: “Você não tem dó de levar? Não tem com quem deixar?”. Eu falei: “Não, eu tenho com quem deixar, não tenho dó e acho que ele tem que vir, porque ele é parte da minha vida. Eu o quero junto comigo, né? Eu quero ter mais tempo com ele. E se esse tempo tem que ser dentro da empresa, se esse tempo tem que ser no trajeto, se esse tempo vai ser no almoço, que eu vou correr de um lugar pro outro, que seja, é a minha oportunidade de estar com meu filho e dele ser inserido na minha vida, no meu mundo também, né?”. Então, é assim, é o tempo todo aqui junto com ele. Agora, na pandemia, é super desafio, né, porque perdemos a rede de apoio, diminuiu nosso contato com outras pessoas. Eu e ele ficamos ainda mais grudados, porque [estão] os dois dentro de casa, né? Ele [está] sem escola e eu trabalhando do computador o dia inteiro, mas tentando equilibrar, assim, dias bons e ruins. Essa é a resposta, não tem nada de maravilhoso e também não tem a receita certa. Eu vou tentando. Todo dia acordo e falo: “Eu preciso ser mãe e preciso empreender, então bora, vamos, né?”.

 

P1 – Me conta um pouco sobre esse projeto "Poder da Sua História", como surgiu a ideia. A gente sabe que já existiu uma escuta de histórias, começou com isso o Cruzando Histórias, mas como isso surgiu já dentro da ONG?

 

R – Nossa, essa você me pegou de surpresa, não imaginava que você fosse falar do "Poder da Sua História". Mas o Poder de sua História, na verdade, é um projeto com uma amiga, que está nascendo ainda. Está demorando mais do que a gente gostaria, porque a ONG foi crescendo e a gente foi tomando decisões estratégicas sobre o que entregar, o que, de fato, fazer e tal, que me distanciaram um pouco das histórias e isso me chateou, em um certo momento. Mas eu também falei: “Bom, se esse é o caminho que vai dar resultado, que realmente vai ajudar as pessoas, tudo bem! Mas eu preciso continuar conectada a essas essências das histórias. Eu amo escutar e contar histórias, então, como eu faço pra não perder isso?”. Então, foi muito esse meu questionamento, eu não quero me desconectar das histórias. E eu conheci uma pessoa nessa caminhada, no Cruzando Histórias, que é a Lígia, e ela se tornou uma grande parceira. Ela é jornalista, trabalha com contação de histórias a vida toda, toda vida profissional dela é contando histórias. Ela veio contar histórias aqui comigo, na Cruzando Histórias, e a gente trocou muitas ideias sobre, cara, como é incrível escutar as pessoas, como é incrível valorizar a história das pessoas. A gente sempre se conectou muito nisso, trocava muita ideia sobre isso. Ela morando em Londres (Inglaterra) e eu morando aqui, pandemia, até que ela falou: “Não, vou voltar pro Brasil, tal”. Ela começou a planejar, né, a volta pro Brasil e eu falei pra ela: “Meu, uma editora me convidou pra escrever um livro sobre a Cruzando Histórias, sobre a minha vida e tal”. Só que eu virei pra editora, no primeiro contato e falei pra ela: “Meu, que incrível, eu nunca acreditei, nunca pensei que eu pudesse escrever um livro. Eu nunca achei que fosse pra mim”. E ela queria que eu contasse essa história toda da minha vida, né, da descoberta da Cruzando Histórias, da criação da Cruzando Histórias e eu falei pra ela: “Cara, eu acho muito massa contar essa história, mas eu queria fazer um livro diferente, se você me permite, não sei nem se eu posso. - Eu não sabia como lidar com uma editora, não sabia falar com uma editora. - Se for pra escrever um livro, eu quero que seja um livro que ajude as pessoas a contar sobre sua própria história, porque eu sinto que todas as pessoas que chegaram em mim, é muito raro não ser assim, mas a grande maioria é: “Ah, a minha história é comum demais, eu não tenho nada pra falar, sou uma pessoa comum”. E eu falava: “Não, espera, calma, como? Não. Toda história é incrível. Então, calma, vamos...”. E eu ajudo a pessoa a descobrir o valor de sua história, o poder de sua história, o encanto de sua história. E eu sempre fiz isso através de perguntas, né? E a Lígia tem uma abordagem parecida e ainda melhor que a minha, porque ela é especialista nisso. (risos) Então, eu falei pra editora: “Eu gostaria de escrever um livro, onde eu ajudasse as pessoas a contar a sua história”. E aí a editora falou: “Como?”. Aí eu falei: “Acho que, de repente, com um livro de perguntas”. Eu fiz um “workshop” uma vez só com perguntas, pra ajudar as mulheres a escreverem a própria história. E a editora falou: “Beleza, pode escrever”. E aí a gente começou a escrever esse livro, que agora já está aí na fase de impressão. Então, o "Poder da Sua História" é um livro que a gente quer que se transforme num projeto pra além do livro, que se torne aí [em] “workshops”, palestras, oficinas, rodas de conversas. Então, a gente quer ampliar, mas ainda está muito “baby”, a gente está preservando-o muito e pensando exatamente o que a gente quer fazer, de fato, e se a gente tem energia pra isso, né? Porque ela também tem o trabalho dela, que é incrível, e eu tenho a Cruzando Histórias, mas a gente quer construir algo mais conectado à nossa essência. Então, é um projeto que divido com a Lígia Scalise, que é uma jornalista que eu admiro muito. Não só uma jornalista, mas uma pessoa que eu admiro muito, uma mulher que admiro muito. Então, é um projeto “baby” que, em breve, vai ganhar vida. (risos) 

 

P1 – E depois, lógico, essa jornada não acabou, ela continua, mas, nesse momento, nesse ponto dessa jornada da Cruzando Histórias, como você avalia a importância do empreendedorismo social, Bia?

 

R – Bom, eu vejo o empreendedorismo social como um ativo, numa enorme lacuna, né? Está aqui a sociedade, o governo, tem a iniciativa privada, mas que visa lucro, que visa, enfim, sua própria sobrevivência em primeiro lugar e tem o empreendedorismo de impacto, que junta tudo isso, pra realmente gerar uma transformação para as pessoas. Então, quando as pessoas falam, me falam muito: “Ah, mulheres, mas que mulheres você atende? Mulheres em situação de vulnerabilidade social?”. Eu respondo: “Toda mulher está em situação de vulnerabilidade social”. Nós já estamos muitos passos atrás dos homens, né? Então, pra gente igualar isso, pra gente equiparar isso, chegar junto das oportunidades que os homens têm, é toda uma luta, pra todas nós, né? Então, nós existimos por conta de um problema. O empreendedor quer solucionar um problema social que ninguém está conseguindo resolver, seja porque não quer, seja porque não tem tempo. Enfim, nós queremos. Então, eu vejo o empreendedor como um inquieto, um questionador e um fazedor, um realizador, uma pessoa que realmente fala: “Pô, isso aqui dói, isso pode ser melhor? Eu vou fazer”. O governo não está fazendo, por ‘X’ motivos, a empresa privada não está interessada ou não consegue fazer sozinha, né? Acho que o que a gente está vendo hoje é que querem fazer também, mas não conseguem fazer sozinhos. E o empreendedor social. Então, eu, como empreendedora, como vejo o futuro do empreendedorismo social? Acho que é a cola, o que une sociedade, empresas privadas e o governo, em prol de uma mudança, assim. Eu acredito muito que, pra gente ter grandes transformações, precisa unir todas essas forças, né? Todos esses atores. Então, isso me estimula muito. Conversar com as empresas, mostrar o problema, trazer a solução. Inseri-la naquela jornada, trazer o poder público, que é algo que a gente está começando a fazer, mas que é o nosso grande objetivo, né? Influenciar políticas públicas. Eu só acredito em mudança quando ela é coletiva, quando todo mundo bota a mão e faz acontecer. Então, empreendedorismo, pra mim, é isso: é a cola que vai ligar tudo e vai fazer a gente chegar num resultado, né? Numa transformação, numa evolução, numa solução. Então, eu acho que é extremamente relevante e tem se mostrado extremamente relevante, principalmente agora, em tempos de pandemia, onde os problemas sociais chegaram pra superfície, que eu falei: tudo já existia, a pandemia só trouxe pra superfície. A gente tem que lidar com tudo isso que está acontecendo, enfim, com todas as dificuldades, Brasil voltando pro mapa da fome. São muitos os desafios, né? E, hoje, a gente vê as empresas interessadas em fazer parte dessa solução, mesmo que seja só investindo dinheiro. Só, né? (risos) Não tem problema, mas que faça parte dessa transformação. Então, eu sou apaixonada por empreendedorismo social. Para além do meu, eu sou apaixonada por todos, assim, sabe? Eu acho que existe uma força de compaixão, de empatia, de colaboração, muito forte, assim. Acho que a gente tem muito a fazer, muito trabalho a fazer, mas é uma grande inspiração pras empresas privadas, capitalistas etc. Acho que é uma grande inspiração, tipo: vocês podem fazer o que vocês fazem, mas fazer um pouquinho aqui vai ser muito massa e fazer bem pra todo mundo.

 

P1 – Bom, então a gente vai pro último bloco de perguntas. A primeira é: quais as coisas mais importantes pra você, hoje em dia, Bia?

 

R – Pessoas. (risos) As pessoas são tudo pra mim. Tudo. Eu acho que... Hoje mesmo eu comentei com a minha terapeuta: eu não tenho sonhos de ter coisas, de ter, assim. Sou muito de fazer. E toda vez que eu penso em fazer, penso nas pessoas. Seja nas minhas pessoas, seja nas pessoas do mundo. Então, eu acho que coisas importantes, não tem coisas importantes, tem pessoas. Pessoas são muito importantes. Acredito muito na humanidade. Então, tudo, assim, pra mim, minhas vontades, meus desejos, meus sonhos, estão pautados no outro, sabe? Em servir, assim. Eu quero muito servir, continuar servindo e servindo mais e mais, sempre.

 

P1 – Quais os seus sonhos pro futuro, Bia?

 

R – (risos) Eu quero viajar mais, conhecer outras realidades, outras culturas, outras pessoas, outros povos. Eu tenho muita vontade, assim, de movimento. De sair aqui da minha bolha, da minha cidade, da minha empresa. Mesmo sendo uma empresa social, eu tenho vontade de conhecer outras problemáticas, outras soluções. Então, eu, faz uns dez dias, mais ou menos, eu coloquei pra mim que quero conhecer um lugar diferente por ano. Mas realmente conhecer, não viajar, passear, pra bater foto. Realmente conhecer outro lugar, assim, sabe? Então, eu tenho muita vontade de trabalhar em áreas mais remotas, conhecer um Brasil mais de verdade, sair do centro, sair de São Paulo, ir pra áreas mais remotas. Então, meu sonho é esse movimento, assim, sabe? Envolvendo pessoas, cultura, diversidade. É isso. (risos) Tá tudo aí.

 

P1 – E a última pergunta, então, Bia: como foi pra você contar a história da sua vida pra gente, hoje?

 

R – Ah, foi… Contar minha história, hoje, é um motivo de orgulho, assim. Eu gosto muito do que eu tô construindo, de quem estou me formando, sabe? Muita gente já me falou: “Você não cansa de contar sua história?”, porque todo mundo quer saber minha história. (risos) Tipo, as pessoas: “Ah, conta sua história?”. Às vezes tem uma reunião, eu vou pra uma reunião falar sobre um tema: “Mas você pode contar sua história?”, aí eu conto minha história. Meu marido trabalhando em casa nos últimos tempos, falou: “Meu, eu não aguento mais ouvir você contando sua história. Sério, como que você aguenta contar sua história três vezes por dia?”. Eu falo: “É, tem dia que é basicamente repetir, assim, mas é motivo de orgulho, porque eu acho que eu já passei por muita coisa, eu tive muitas oportunidades. Não vou dizer que foi uma vida difícil, de dificuldade, de escassez, porque não foi. Eu sempre fui cercada de privilégios, fui cercada de amor, principalmente. Eu acho que esse é o sentimento que esteve presente durante toda minha vida, nunca faltou e eu acho o amor uma força muito poderosa. Eu acho que ele nos faz pessoas melhores”. Assim, eu sempre fui uma pessoa que viveu em abundância de amor. Sempre tive uma família que me amou muito, que viveu o amor, amigos que me amam, que eu amo. Sempre tive uma estrutura muito boa pra ser quem eu sou. Então, eu sou uma pessoa muito privilegiada por ter isso, por ter uma família estruturada. Apesar de todos os divórcios que eu contei, (risos) é uma família estruturada, é uma família presente, pai e mãe presentes, irmãos presentes. Meu irmão que esteve aqui agora há pouco, escutou eu falando e me mandou uma mensagem: “Eu morro de orgulho de ouvir você contando a sua história”. Então, assim, eu tenho um marido muito legal, que é um pai super legal, que é um parceiro muito legal. Então, assim, eu sou muito privilegiada pelas pessoas que tenho. Então não vou dizer: “Pá, foi uma história com muita dificuldade, que eu atravessei várias coisas”. Não, eu passei por muitas coisas, mas muito cercada, assim, tive muito apoio, muito amor, muita presença das pessoas. E, mesmo assim, eu vejo que as coisas poderiam ter tomado um rumo totalmente diferente. Eu poderia estar acomodada num lugar que não me fazia bem, envolvida com coisas que eu não acredito, com coisas que me fizeram mal, parado em algum ponto dessa história e ter achado que a vida era aquilo. Mas eu sempre fui inconformada - sempre acreditei -, falando: “Eu posso ser mais, posso fazer mais pelas pessoas”. Esse meu desejo de servir as pessoas, de ser mais pro mundo, de ser mais pro outro. Um valor meu que eu acho que é muito forte e que me ajudou a chegar até aqui: é a justiça social. Sempre foi uma coisa muito forte dentro de mim, de não aceitar que as pessoas vivam com menos, que elas tenham acesso a menos. “Que tem gente que tem que se ferrar e tem gente que tem que se dar bem”, isso pra mim nunca foi uma equação que bateu. Então, quando eu olho e falo: “Pô, não que eu seja maravilhosa, perfeita”. Não acho. Eu acho que tenho muitos defeitos, acho que tenho muito a melhorar e que bom, porque eu só tenho 34 anos, tô começando, né? Mas quando eu vejo que, cara, eu não aceitei aquilo, eu não me aquietei, não me privei, sabe? Eu sempre fui, pô, de pouquinho em pouquinho, me escutando, fui escutando minha intuição. Eu fui acreditando em mim, persistindo, perseverando nas coisas e eu vejo que isso está me levando pra um lugar melhor. Eu acho muito massa contar minha história. Então, assim, eu acho muito legal contar, mesmo que conte três vezes por dia. (risos) Não ligo, porque eu falo: “Cara, que legal, eu tô tendo oportunidade de chegar em mais pessoas e de mostrar pras pessoas, talvez, porque sempre acho que alguém vai escutar e vai se inspirar”. Então, quando eu conto a história, é pra falar: “Pô, você que está aí, que acha que você não é ninguém, ou que sua história é comum de mais, ou que: ‘Ah, eu tenho trinta anos e vai ser isso pro resto da vida’”, esquece isso, sabe? Essa é a nossa chance de ser quem a gente quer ser, de fazer o que a gente quer fazer. Então, é isso. Quando alguém fala pra mim: “Ah, é comum de mais”. Eu falo: “Cara, essa é a sua chance, faça agora”. Sabe, eu não sou a pessoa louca: “Rasga, joga pra cima, tira o crachá!”. Não, mas eu falo: “Meu, com planejamento e com pequenos passinhos, você vai alcançar mais, você vai ser mais, vai fazer diferente. Essa é a vida que a gente tem. Não tem garantia de outra vida”. Ninguém garante pra gente: “Ah, vai ter uma próxima vida, aí na próxima você faz o que você quiser”. Não. Eu acho que é hoje, assim. Então, eu acho muito legal poder falar isso. Meu compromisso é hoje e hoje eu quero ser melhor. Eu acordo todos os dias e falo: “Hoje eu quero ser melhor, hoje eu quero fazer mais, hoje eu quero ser mais eu, hoje eu quero aprender alguma coisa”. Então, eu acho muito legal contar. E eu amo o Museu da Pessoa. Inclusive, eu fiz o curso de Tecnologia Social da Memória, amei, uso muito no meu dia a dia. Então, é uma alegria. Tô super feliz! (risos)

 

P1 – A gente tem muita coisa em comum, o nosso trabalho com o seu, e realmente foi um depoimento incrível. Muito bom que você tenha gostado, eu agradeço a você, em nome do Museu da Pessoa.

 

R – Obrigada! Eu que adorei. Tô muito feliz. Agradeço muito, agradeço a Colgate também, por investir nesse projeto. Acho que é necessário você ver as empresas se movimentando, investindo nas histórias, investindo na cultura, investindo na humanidade, porque é isso: histórias, né? Histórias é o que vai contar, o que vai deixar, é o legado que a gente vai deixar. Porque ora ou outra, a gente vai embora. Acho que isso ficou provado no último ano. De repente, a gente vai embora. E o que fica? São as histórias, né?


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