Busca avançada



Criar

História

Por uma sociedade solidária

História de: Derly Fabres
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/09/2003

Sinopse

Irmã Derly Fabres conta como sua família foi constituída a partir da vinda dos avós italianos para o Brasil. Relata lembranças da infância, de como era viver no Interior junto de seus muitos irmãos. Fala sobre o cotidiano, criação e convívio dentro de casa, as comidas saborosas que preparavam, o que faziam para se divertir.  Derly conta como surgiu sua vocação para a vida religiosa e discorre sobre os vários trabalhos sociais aos quais se dedicou, referindo-se à figuras importantes como o Padre Batista e importantes obras da Igreja. Além disso, diz o que mudou no bairro Liberdade desde a década de 1990 e sua visão sobre o lugar e a sociedade como um todo.

Tags

História completa

P1 – Agora a gente pergunta de novo, por favor a senhora diz o seu nome, local e data de nascimento?

 

R – Eu me chamo Derly Fabres, eu nasci em 1941 no dia 24 de abril, no Espírito Santo, num bairro, numa capela que é a Nova Estrela, e numa cidade que é Alfredo Chaves.

 

P2 – A senhora nasceu na capela?

 

R – Não, não foi na capela. Eu nasci num lugarzinho que se chama Nova Estrela, era uma capela, era capela que se falava, a Capela da Nova Estrela, onde eu fui batizada – a minha mãe, por exemplo, quando ganhava um filho daí vinte dias, oito dias ficava deitada, daí vinte dias que ia lá fazer a promessa, levar o filho na igreja e isso tudo, e a igrejinha se chamava Nova Estrela.

 

P2 – Era uma cidade ou uma vila?

 

R – Quê vila nada, era na roça, era na Capelinha – tinha um “botecozinho”, uma capela, no interior do Espírito Santo. Até hoje lá tem umas estradinhas, tem umas picadas, não tem  estrada ainda, é incrível. É incrível, a estradinha do jeito que eu saí há quarenta anos atrás está aquela estradinha do mesmo jeito; então, evoluiu muito pouco. O povo até evoluiu, porque tem poucos pobres lá no Espírito Santo, porque veio essa coisa de plantar banana, então todo mundo tem um pedacinho de terra e todo mundo planta banana, banana dá bem, então as pessoas estão bem. Só que os filhos foram saindo, foram saindo fora, estudando fora, então... é legal lá, é bonitinho, mas tudo muito primitivo ainda, não tem nem um asfalto, não tem nada, nada, então continua aquilo mesmo. Foi lá onde eu nasci.

 

P2 – Como é que é o nome mesmo?

 

R – Nova Estrela.

 

P2 – Bonito nome.

 

R – E a cidade, acho que uns trinta quilômetros para a frente há a cidadezinha que é a Alfredo Chaves. Você gastava umas quatro, cinco horas pra ir para lá, tinha que ir a cavalo, era tudo a cavalo. Eu lembro, quando o papai ia buscar açúcar, levar porco pra vender, essas coisas, ele levava, aí trazia arroz, feijão, açúcar, o feijão não, trazia açúcar, trigo e arroz.

 

P1 – O resto tudo plantava?

 

R – O resto plantava. Depois, acho que em 1958, por aí, nós começamos a plantar o arroz, aí a gente socava o arroz no pilão porque não tinha máquina e tudo aquilo, e fomos criados assim, todo mundo lá no interior.

 

P2 – E quando vocês nasceram, não tinha hospital, nada?

 

R – Não tinha hospital, nada.

 

P2 – Era parteira?

 

R – Parteira, ninguém nasceu no hospital, todo mundo nasceu em casa.

 

P1 – Quantos filhos a sua mãe teve?

 

R – Teve vinte e dois. (risos)

 

P1 – Era um por ano.

 

R – Um por ano. Não tinha, não tinha, eu mesma tenho onze meses de diferença do meu irmão;  eu tenho um irmão meu que ele mora no Rio, ele é mais novo do que eu onze meses.

 

P1 – Ela se casou com quantos anos?

 

R – Dezesseis anos e o meu pai tinha dezenove.

 

P1 – E começaram aí...

 

R – Aí começou a arrumar filho.

 

P2  - Vinte e dois filhos...

 

R – É, o meu irmão mais velho tem sessenta e oito anos e minha irmã caçula acabou de fazer quarenta e cinco, agora em setembro.

 

P1 – Todos viveram?

 

R – Viveram, agora tem uns seis que morreram, então hoje nós vivemos em dezesseis irmãos. Eu tenho noventa e seis sobrinhos verdadeiros e tenho mais uma galera... sobrinho, neto, eu tenho já trinta e dois sobrinhos casados, dos meus sobrinhos quem tem mais filho tem quatro, e meus irmãos que casaram há mais de quarenta anos todos têm, o que tem menos tem nove filhos, um tem onze, dois têm dez e dois têm nove e dos que casaram há trinta e cinco anos pra trás, o que tem mais, tem três filhos, que é o Durval, que tem três e a caçula também que tem três, o resto teve dois.

 

P2 – A senhora lembra o nome de todos os seus irmãos?

 

R – Eu lembro, lógico. Eu lembro o nome de todos.

 

P1 – Como é que era na sua casa, a vida na sua casa?

 

R – A vida na minha casa era muito legal porque nós trabalhávamos todos juntos na roça, e a gente de manhã, quem tinha idade de ir para a escola ia para a escola. E o meu pai era assim, ele determinava um pouco a profissão, então ele dizia que o meu irmão mais velho iria ser dentista e foi ser dentista, a minha irmã iria ser costureira e foi ser costureira, depois o meu outro irmão iria ser alfaiate e foi ser alfaiate, mas ele não gostou de ser alfaiate e foi ser tratorista, o outro também falou que iria ser, eu não lembro o que ele falou que iria ser, mas ele determinava muito, mecânico, sei lá. Mas eu sei que com os mais velhos ele conseguiu fazer tudo o que ele queria. Depois meu pai, ele tinha depressão, acho que foi umas quatro vezes, ele tinha umas depressões bem fortes, aí não teve muita profissão do jeito que ele queria não. Aí os outros: eu tenho uns quatro que são lavradores; tenho um em Vitória que trabalhou na Vitória Vag, ele é administrador; eu tenho outro que é industrial, tem uma pequena indústria aqui no Rio de Janeiro, trabalha com ferro e alumínio; tenho uma irmã que é médica; tenho uma, ambas trabalham aqui no Rio, uma médica e a outra é trocadora de ônibus, então existe uma diferença né. Os mais velhos não tinham condições de estudar, fazer o Primário era muito difícil, então os mais novos começaram a estudar, porque nós mudamos pra uma cidadezinha no Espírito Santo, no norte do Espírito Santo e também agora tem os sobrinhos que são dentistas, tem uns sobrinhos que são médicos; mas dos meus irmãos todos têm três que trabalham na roça, o mais velhos é dentista, a minha irmã é costureira, a outra trabalha no Rio de Janeiro, outro é industrial, eu sou religiosa, tem um que trabalha na Vitória Vag, tem um outro que é carpinteiro, tem pedreiro, tem um que é motorista, trabalha fazendo plantação de soja em Rondônia, tem outro em Rondônia também que trabalha com madeira, tem outros em Rondônia, dois que trabalham com madeiras também, serraria, agora eles têm gado, serraria, fazenda e a minha irmã, tem um que trabalha na Petrobrás, tem outro que trabalha... a Devaneide é médica, a Jaruza tem uma que trabalha na medicina alternativa, ela é professora e tudo, mas já se aposentou, tem uma que é bancária, a minha irmã caçula é bancária... eu acho que é isso.

 

P1 – Vocês se reúnem?

 

R – Olha, nós nos reunimos há vinte e dois anos atrás só, depois nós não conseguimos mais porque nós temos um irmão no sertão da Bahia, tem em Rondônia que tem quatro irmãos, tem no Rio de Janeiro, eu estou aqui em São Paulo, tem algum na Itália, sobrinhos na Itália, e uns estão no Espírito Santo.

 

P1 – Como é que é a vida de toda essa gente na infância?

 

R – Nós na infância, a gente era interessante, a gente era muito unido, os tios moravam muito perto, os meus tios e a gente à noite e aos finais de semana se reunia pra brincar, no domingo a gente ia pra igreja.  E o meu pai gostava, ele fazia doce de mamão com caldo de cana – nós tínhamos uma moenda e tinha um animal que rodava moendo a cana – todos os sábados o meu pai fazia doce de mamão pra vender no domingo e comprar açúcar e trigo e essas coisas; então pegava duas latas, botava em cima do cavalo e os meus irmãos iam para a igreja, todo mundo ia pra igreja e botava essas latas em cima do animal, todo mundo lá comprava, então ele vinha com uma sacolinha, meu irmão vinha com uma sacolinha de dinheiro, aí no final de mês, final de semana, o meu pai ia comprar as coisas que precisava. Remédios a gente tomava muito pouco, eu lembro que eu tomei a primeira injeção quando entrei no noviciado com vinte e quatro anos porque eu peguei gripe; mas, a gripe, a gente curava com limão, com chá, com chá de mato a gente curava, com chá de pitanga, de laranja, tudo isso. A gente comia muito bem, de manhã cedo algumas vezes tinha pão – a gente falava pão de venda, era pão que o meu pai comprava a cada quinze dias – senão a gente comia batata doce cozida, banana da terra cozida, inhame cozido. A minha irmã levantava cedo, quatro horas da manhã, fazia polenta, a gente comia sete horas da manhã, seis e meia a gente comia polenta com queijo frito, linguiça frita, carne assada, de manhã cedo a gente comia isso, mandioca cozida. Então a gente foi criado com muito leite; café, eu tinha uns doze anos quando eu fui beber café feito de açúcar: a gente moía a cana, fervia o caldo de cana e fazia o café – é, apanhava o café, torrava o café, pilava o café no pilão, torrava o café no moinho, o meu pai fazia uma lata e torrava o café, botava um ferro dentro e torrava.  A gente batia num tanquinho que moía e aí torrava o café, fazia o coador e aí fervia o caldo de cana – ele ferve, você coloca um pouco de água porque senão fica muito doce – e coava, fazia café com caldo de cana. Eu nem sabia que existia outro café, quando eu descobri, já tinha uns doze, treze anos. Só tomei esse café, me criei com esse café.

 

P1 – Pra entender bem, tinha um pouco do café mesmo, mas adoçado com cana junto?

 

R – Não, o café, o pó do café é o mesmo que o de hoje, o mesmo jeito, só que açúcar, nós não tínhamos açúcar pra adoçar a água, daí moía a cana e fazia o caldo, e assim fazia o café. Até hoje a gente vai lá e faz esse café pra recordar.

 

P1 – A sua mãe só cuidava de vocês e da casa, não dava pra fazer mais nada, é claro.

 

R – A mamãe costurava, fazia roupa – pra fora não – , ela costurava pra família, pros filhos, eu sempre usei roupa, até uns anos, eu sempre usei roupa que a mamãe costurava, ela tinha uma maquininha e fazia assim, à mão, tinha uma maquininha desse tamanhozinho assim e costurava à mão, tinha uma carretilha – eu lembro como se fosse hoje – uma carretilha desse tamanho e costurava roupa pra todo mundo.

 

P1 – Eles falavam italiano também?

 

R – Nós falávamos o italiano em casa, mas depois que nós mudamos para o norte do Espírito Santo, eu já tinha uns catorze anos, aí nós paramos de falar porque na região onde nós fomos morar o pessoal ria, aí a gente, eu acho que nós éramos tímidos, a gente achava que... aí paramos de falar, tanto que os meus irmãos menores quase não falam italiano, e eu depois – eu sempre falei italiano, eu sempre vi o meu pai e a minha mãe conversar em italiano – mas aí depois nós paramos. Até eu hoje tenho dificuldade de fazer, não é o italiano, é um dialeto que a gente tinha, a gente só falava o dialeto na família inteira. Depois nós paramos de falar porque mudamos para o norte do Espírito Santo e lá ninguém era, não tinha italiano quase, nós mudamos pra uma região que tinha pouquíssimo, nem encontrava quase italiano, então a gente foi passando e esquecemos um pouco.

 

P2 – Como é que chamava?

 

R – O lugar é Tiradentes, no município de Linhares, onde o meu pai e a minha mãe morreram, dentro de Linhares.

 

P1 – O que eles foram fazer nessa mudança?

 

R – Nessa mudança nós fomos pra Linhares porque ele queria que os filhos estudassem, aí foram com os meninos mais novos pra estudar, pra estudar fora ficava muito difícil, ficava muito caro, a coisa foi ficando mais difícil, então nós compramos uma casa e fomos pra lá.

 

P2 – Irmã, a senhora sabe contar um pouquinho da origem, dos seus avós paternos e maternos, onde eles moravam?

 

R – O meu avô paterno, ele veio bem novinho da Itália, acho que com uns cinco anos, ele se chamava Henrique, ele veio para Anchieta e, de Anchieta, ele foi pra Nova Estrela e lá ficou uma vida inteira, ele se criou lá, se casou e morreu lá nesta mesma cidade. Ele voltou uma vez pra Itália, só depois que ele estava no Brasil, e aí quando ele veio pro Brasil eles tinham se casado e a minha avó teve até um filho no navio – isso a mamãe sempre contava pra nós, isso. Ele criou os dezoito filhos que ele teve ali em Nova Estrela, todos já se casaram, só tem um, só tem uma tia minha que está viva os outros já morreram todos. Eu lembro que, quando eu era criança, o meu avô era um homem assim bem trabalhador, a minha avó também, só que eles eram muito severos, a gente parava perto deles, só tomava benção assim e era aquela maneira muito severa, muita disciplina. E eles criaram, eu lembro, aquele monte de filhos que eles tinham, os meus tios, só que os meus tios eram mais alegres que o meu avô, o meu avô parecia bravão assim, e a gente tinha um pouco de medo do meu avô – eu não posso dizer muita coisa, porque às vezes eu roubava mexerica e eu raspava fora, eu corria dele porque eu não queria que ele... Porque eu passava lá e tirava mexerica do quintal. Minha mãe sempre conta que ele era muito ordenado com os filhos: “Você vai fazer isso, isso e isso.” Era uma pessoa muito ordenada. A minha mãe conta que cada um de manhã cedo levantava e primeiro ia fazer o serviço e depois tomava café, e ele reunia todo mundo e rezava, ele rezava sempre em italiano: Salve Rainha, Ave Maria; aí enquanto a minha avó ia fazer o café, um ia dar de comer à galinha, o outro ao pinto, o outro ao porco, outro ia tirar leite; diz que ele era muito organizado, o meu avô, meu avô materno, a minha avó também. Eles tinham um casarão muito grande e uma vez, nunca me esqueço, uma vez eu fui lá e esses últimos dois tios que casaram, eles moravam tudo junto, aí um teve catorze filhos e o outro teve dezesseis e morava tudo numa casa só, eu nunca esqueço, aí quando o meu tio fez cinquenta anos de casado nós fomos lá, tinha mais de duas mil e quinhentas pessoas, todos eram parentes quase.

 

P2 – Também cada um teve...

 

R – É, aquele monte... Meus tios que tiveram menos filhos acho que foi nove ou dez, todos tiveram mais do que isso, todos, todos, todos. Então eram assim, umas pessoas de muitos filhos, e os meus irmãos também, um que teve mais, o Ari, o quarto ou quinto filho que teve onze também.

 

P1 – Todos foram com parteira?

 

R – Não, depois, agora os meus irmãos...

 

P1 – A sua mãe?

 

R – A minha mãe teve todos com parteira. Eu lembro do dia em que a minha irmã caçula nasceu, eu tinha catorze anos.

 

P2 – Como é que foi?

 

R – Eu lembro que estava no quarto, aí diz que, eles diziam que os filhos traziam pela cegonha, pelo repolho, por esses negócios todos, eu disse assim: “Que cegonha o quê, eu escutei a minha mãe chorando lá, gemendo pra ter o filho.” Aí falavam: “Não, não, não pode não.” Aí, se era de dia, os meus pais botavam, nós ficávamos tudo do lado de fora da casa esperando, depois que dava banho no nenê, aí chamava lá pra ver o nenê, eu lembro de tudo isso; eu lembro de uns quatro irmãos meus que nasceram.

 

P1 – E nunca teve complicação?

 

R – Teve complicação: teve uma irmãzinha minha que morreu, nasceu, depois morreu porque a minha mãe teve problemas sérios, parece que baixou muito a pressão, eu lembro: “Não vai salvar, não vai salvar.” Eu sei que eles limparam, limpavam a menina, mas não salvou não, ela morreu, chamava Maria Luiza essa menina, eu lembro o dia do enterro dela e tudo.

 

P1 – Mas foi só essa?

 

R – É, foi só. Teve outros também que morreram, mas eu não lembro.

 

P1 – Outros? Quer dizer que ela teve mais?

 

R – Não, ela teve vinte e dois, só que seis morreram. Agora, os outros que morreram foram mais velhos.

 

P1 – Morreu criança?

 

R – Morreu criança. A mais velha minha morreu com dor de ouvido com seis meses. Engraçado que, no dia em que o meu pai morreu, eu fiquei meio desesperada, eu vi no sonho – tinha um deputado em Linhares que o meu pai gostava muito dele, meu pai era politiqueiro pra caramba, gostava de fazer política pra danar – eu vi no sonho, eu queria ver o meu pai, eu tinha assim uma certa angústia, aí eu sonhei que esse deputado, eu estava na Assembléia e esse deputado me chamou e falou: “Derly vem cá. Olha, a Júlia viu o seu pai, estava aqui e estava te chamando.” Eu fui lá, quando eu vi assim, a menina era pequena mas falava, ele falou: “Eu vi o meu pai, eu vi um líder.” Quando eu fui pegar a menina no colo aí ela sumiu, sumiu o meu pai e sumiu todo mundo, aí eu acordei, ela falou: “Eu vi meu pai.” – a menina falou, aí eu falei: “Mas ela é pequena e está falando – aí eu chamei a minha irmã – Jaruza vem cá, Jaruza vem cá ver.” Aí a Jaruza foi lá ver, quando a Jaruza chegou aí a menina sumiu, aí sumiu todo mundo, engraçado eu cheguei em casa e falei “Mamãe como é que era?” A menina era assim, assim, assim...

 

P1 – Era a sua irmã?

 

R – Era a minha irmã, e eu vi no sonho né. Eu realmente acho que vi porque era igualzinho o que a minha mãe falou, interessante. E nunca mais.

 

P1 – Avisando que o seu pai tinha chegado lá, tinha morrido?

 

R – Tinha morrido. Interessante que até hoje o único sonho que eu nunca esqueci foi este, já tem vinte e três anos que eu sonhei, é interessante, o sonho. Depois que eu sonhei, fiquei tranquila, não tinha mais angústia, porque eu ficava angustiada e não tive mais a angústia. Interessante que foi um sonho. E o meu avô, o meu pai, a minha mãe, eles eram muito unidos – lógico, meu pai era muito severo, quando ele queria bater na gente ele chamava: “Vem cá.” E passava a mão na vara de uma vez, a gente ia e a gente cascava fora, mas ele também era muito carinhoso com os filhos.

 

P2 – E a mãe da senhora?

 

R – A minha mãe também, a minha mãe era uma pessoa mais tímida, mais calada, a minha mãe era muito tímida, ela saía muito pouco – depois, quando ela tinha mais idade, que ela foi..., mas mais nova, também com aquele monte de filho que ela tinha – eu sempre vi a minha mãe muito dentro de casa, muito trabalhando, fazendo comida, lavando roupa; aí depois, depois meu pai morreu, ela viveu mais onze anos e tudo, era mais tranquila, ela teve uma vida mais, sei lá, a gente tinha mais tempo pra conversar com ela, foi muito bom, eu acho que nós tivemos uma vivência muito boa porque nós somos muito unidos, os nossos irmãos. Esses dias vieram seis aí e me ligaram: “Derly você vai lá, vai lá.” Quando eu cheguei, passamos lá de madrugada, eu falei: “Gente, eu estou com uma fome.” Fomos pra geladeira quatro horas da manhã, todo mundo batendo papo. Então a gente se encontra em dez; em janeiro do ano passado a gente se encontrou em doze, mas todos é muito difícil de encontrar – nós nos encontramos em doze, nós fomos ao casamento de uma das minhas sobrinhas e nós nos encontramos.

 

P1 – Interessante. Agora pra não esquecer o seu nome é com ‘y’ mesmo?

 

R – É com ‘y’.

 

P1 – Como é que foi o começo da escola pra toda essa gente, como é que foi?

 

R –  Eu acho que foi assim um pouco dificultoso, porque a gente tinha muito pouca escola, então é por isso que os meus irmãos mais velhos foram fora pra estudar, estudaram fora, mas realmente os meus irmãos – o que é dentista hoje, ele tem até a Primeira Série primária, porque naquele tempo tinha, eu acho que é carta branca que se falava, ele é dentista, mas, é dentista prático, o mais velho – aí nós estudamos...

 

P1 – Ele ainda exerce?

 

R – Sim, tem sessenta e oito anos, ele está em Teixeira de Freitas na Bahia, mora na Bahia, ele faz dentadura muito bem feita, ele trabalha muito bem como dentista. Aí... o que eu...

 

P2 – Da escola.

 

R – Ah, da minha escola, lá em casa nós tínhamos a maior dificuldade pra escola, porque era difícil, nós andávamos uma hora e meia pra ir à escola, era longe. Eu lembro que de vez em quando eu apanhava, porque eu vinha pra casa com fome e subia nos pés de banana pra tirar banana madura pra comer, aí eu manchava toda a roupa, aí minha mãe... (risos) Mas a gente ia, ia em seis, sete irmãos, ia pra escola.

 

P2 – E como é que era a escola?

 

R – Era primária. Eu lembro que era tão difícil, que a gente não tinha mesa, só tinha uma cadeira pra sentar e quando a gente queria escrever no caderno, a gente sentava no chão e botava o caderno na cadeira, porque não tinha carteira pra estudar. Aí a gente estudou, eu lembro que eu fiz o Primário, aí depois quando eu fiz dezoito anos é que eu fui começar a estudar novamente, eu fiz o primário estudei até os dez anos, mais ou menos, e depois eu parei de estudar porque era muito difícil pra ir; ir fora eu não queria, meus irmãos foram estudar fora, aí que o meu pai foi comprar uma casa nessa cidade de Linhares pra botar os filhos para estudar, mas eu já tinha, eu já tinha, eu quis vir para o convento e vim pra São Paulo. Olha, eu realmente olhava o pessoal e queria trabalhar com pobre, eu dizia que eu ia cuidar dos pobres, cortar cabelo, eu cortava muito cabelo dos meninos pobres, eu queria trabalhar com gente pobre, trabalhar livre, e eu sempre via que se eu fosse casar, eu ficaria presa com marido, com negócio, eu via as minhas colegas e: “Ah, ah.” Eu vou ser freira.” “Por que você quer ser freira?” “Porque eu quero ser livre.” Eu não tinha uma coisa... Aí um primo meu que era padre falou: “Você quer?” Eu falei: “Quero, eu vou pra África, vou para as missões, mas eu quero ir.” E, realmente, eu tinha muita vontade de ser freira pra cuidar de gente pobre, eu não sabia como, mas eu queria.

 

P1 – Era uma vocação?

 

R – Era uma vocação. Eu queria sair, eu queria estudar pra ser freira porque eu queria lidar com os pobres, eu não queria trabalhar com gente que tinha condições financeiras; porque a gente via que os ricos iam pra escolas particulares, o pai levava, pagava, e os pobres ficavam só na roça e não tinham condições de estudar e eu queria ir pra libertar essas pessoas, e quis ir, fui e estou até hoje.

 

P2 – A senhora estava contando que cortava cabelo das crianças, de onde eram essas crianças?

 

R – Era de uma vilazinha perto da minha casa na roça, eu cortava, era das crianças pobres que vinham lá e a gente fazia, a gente moía cana, exprimia limão, fazia suco de limão, fazia doce e a gente sempre brincava muito, jogava bola, dançava muito forró, gostava muito de dançar, a gente ia muito pra baile e dançava forró, sábado, domingo, de noite a gente ia dançar com os amigos, sentava, dançava; e também, quando eu queria ser freira, eu tinha um amigo que lia muito a bíblia comigo e eu dizia que queria descobrir o que é que tinha em cima da bíblia, eu tenho a bíblia, até eu dei pra minha sobrinha, está toda riscada, eu era jovem, acho que eu tinha uns catorze anos quando eu comprei essa bíblia e eu queria saber o que é que tinha – “Ah, mas não pode ler” – aí eu comprei e aí é que eu lia mesmo, porque mandava proibir...

 

P1 – Por que não podia ler a bíblia?

 

R – Não podia, naquela época não podia ler a bíblia.

 

P2 – Por quê?

 

R – Eu acho que a Igreja, por isso que a igreja é fechada até hoje, porque tinha dificuldade; então aí ele falou: “Você não pode ler isso, isso e isso.” A irmã marcou tudo o que eu não podia ler, aí é que eu aproveitei, aí é que eu chamava e falava: “vamos ver o que é que é.” (risos) Me falaram o que eu não podia ler, e eu me lembro como se fosse hoje, era uma passagem de Abraão que tinha não sei quantas mulheres, eu falei: “Ah, mas o que é que tem?” Eu achei interessante. Eu queria ir, eu não tinha muito concerto, só que eu queria ir pra cuidar dos pobres, eu cortava...

 

P1 – Não era assim contemplativa, né.

 

R – Não, eu acho que eu não tinha uma contemplação, eu sempre gostei muito de rezar, até hoje, eu nunca faço nada se eu não rezo, entendeu. Sempre quando vou fazer alguma coisa, eu rezo muito, peço muito a Deus, peço à Maria que ela me ilumine, ao Espírito Santo e dificilmente eu faço alguma coisa e não dá certo porque eu rezo muito, eu gosto muito de rezar, eu gosto de fazer a oração contemplativa, eu gosto de rezar, de realmente ficar só pra rezar e falar com Deus na oração, no silêncio, mas naquela época eu não queria ser contemplativa, eu queria pra lidar com os pobres.

 

P2 – A senhora foi pro convento com quantos anos?

 

R  - Eu tinha vinte e quatro anos quando fui. Eu já era grande, foi porque eu quis mesmo – o meu pai não queria muito deixar, ele falava: “Ah, você é doida, você vai lá fazer o quê? As freiras vão te mandar embora.” “Mas eu vou assim mesmo, se mandar eu venho, mas eu vou.”

 

P2 – Onde era?

 

R – Eu vim em Vitória na primeira vez, eu fiquei lá dois anos, acho, e depois eu vim pra São Paulo.

 

P1 – Por que ele achava que iam mandar a senhora embora?

 

R – Porque eu gostava muito de falar, de fazer farra, de brincar, de ir à festas, então ele achava que freira tinha ser que ficava quieta, que era assim obediente, eu não era obediente também não, se ele falava não vai, eu cascava e ia: “Você não vai à festa.” “Por que eu não vou?”. “Segunda feira o que é que você vai fazer? “. “Trabalhar, pois se eu vou trabalhar domingo eu vou passear.” Então a gente andava em cima de caminhão, eu montava muito a cavalo, a gente ia nos cavalos pra festa, três, quatro horas a cavalo, saía cedo. É, a gente ia longe! Montava o arreio no animal e mandava brasa, não tem essa. E até hoje quando eu vou lá, eu adoro aquelas festas, passear naquele lugar onde a gente andava a cavalo, nossa!

 

P2 – Como são as festas de lá?

 

R – Naquele tempo, sei lá, tinha a missa, a celebração, depois da celebração tinha a procissão em que todo mundo tinha que ir, era missa, depois tinham aqueles andores, carregavam o Santo, ia pra missa, em 1959, 1958, 1959, ia na missa, acabava a missa daí tinha comes e bebes, tinha doce, tinha comida – mas não tinha comida de panela, era mais doce, pão, essa coisas – aí a gente comia, tomava refrigerante que era quente – nunca lembro de ter gelado, era quente – depois ia fazer procissão, depois a gente montava a cavalo e voltava. Talvez tivesse algum baile, mas era difícil ter baile, mais era mesmo bingo, bingo sempre tinha e aí a gente jogava bingo, leilão, bingo, tinha leilão – meu pai gostava muito de leilão, toda vez que tinha leilão, fazia os festeiros, aquelas festas, aí a gente andava pegando prenda, quem fazia mais dinheiro ganhava mais, era o festeiro do ano, era gostoso, eu gostava, gostava muito mesmo, até hoje eu adoro o Interior, adoro mato – quando eu vou para Rondônia, eu passeio, de vez em quando, a cada três, quatro anos eu vou à Rondônia, aí eu vou lá para aqueles matos que tem lá...

 

P1 – O que é que tem lá em Rondônia?

 

R – Eu tenho os meus irmãos.

 

P1 – Vai visitar os irmãos.

 

R – Eu vou visitar os meus irmãos, mas eu nunca vou à cidade, dificilmente, Aqui, eu não conheço um shopping, porque eu não vou. Agora, vai em Cotia, Suzano, esses lugares que tem chácara, eu adoro, eu gosto, eu gosto de ir ao Ceasa, de comprar enfeite pra fazer, pra arrumar, eu gosto muito de roça.

 

P1 – A senhora fez o Noviciado por quanto tempo?

 

R – Eu fiz o Noviciado durante três anos e depois eu fiz Juniorato durante mais quatro anos.

 

P1 – Como se chama?

 

R – Juniorato. É, depois dos votos anuais, a gente, cada ano a gente renova os votos, durante 5 anos, aí faz os votos perpétuos, são nove anos.

 

P1 – E depois a senhora fez o quê?

 

R – Fez os votos perpétuos, aí continua normal.

 

P2 – A senhora fez lá em Vitória?

 

R – Os meus votos perpétuos eu fiz aqui em São Paulo. A gente vinha pra São Paulo, aí a gente fazia uns dois meses de formação, aí fazia os votos perpétuos.

 

P2 – Quando foi que a senhora veio pra São Paulo?

 

R – A primeira vez foi em 1965.

 

P2 – Como é que foi?

 

R – Olha, pra mim foi um pouco difícil, eu estava no Interior, eu estava bem no Interior, eu queria ser Irmã, mas aí eu vim pra Vitória, passei uns meses em Vitória, mas aí eu voltei pra decidir, aí eu falei: “Bom, eu vou em dezembro, aí em julho eu decido. Ou eu vou ou eu não vou, até julho eu decido se eu vou ou não vou.” Em julho eu liguei pra uma prima minha que estava fazendo Noviciado na França, Irmã Maria Celina, aí ela veio, ela veio pro Brasil, a família dela mora em Vitória, a minha prima, aí ela foi lá me ver e me trouxe pra São Paulo, aí nós fomos até o Rio de Janeiro de trem, no Rio de Janeiro nós atravessamos o mar e fomos embora pra São Paulo. Eu vim aqui pra São Paulo, aqui no Jardim Prudente, aqui pra cima do aeroporto, aí eu fiz o meu Noviciado alí. Isso, isso, o nome da fundadora, tem até ali a imagem dela. Aí em 1968 eu fui pra Santa Catarina, fiquei em Santa Catarina até 1972, em 1972 eu fui pra Barra de São Francisco, e lá em 1974, eu fiz votos perpétuos, mas eu vim aqui pra São Paulo, em novembro a gente vinha e ficava dezembro, janeiro e no dia 2 de fevereiro a gente fazia os votos, que foram os votos perpétuos que eu fiz aqui em São Paulo. Daqui, eu voltei novamente para o Espírito Santo, depois de Espírito Santo em 1968, em 1988 eu fui pra Governador Valadares, depois, em 1991, eu voltei novamente pra São Paulo e estou aqui até hoje.

 

P1 – Em que momento a senhora veio pra Liberdade?

 

R – Na Liberdade eu estou desde que cheguei em São Paulo, eu cheguei em 1991, no final de 1991 e dia 2 de fevereiro de 1992 eu vim pra cá, pra Liberdade.

 

P1 – Então explica essa vinda sua, o que é que a senhora veio fazer?

 

R – Eu vim pra Liberdade porque é o seguinte: eu sempre trabalhei em Barra de São Francisco com menores de rua, porque nós fizemos uma casa de menores de rua em Barra de São Francisco, chama Casa...

 

P1 – Onde fica?

 

R – Fica no Espírito Santo, na divisa de Minas com Espírito Santo, lá em cima, bem lá em cima da Barra em Minas Gerais, na cidadezinha que se chama Mantena, é na divisa, tem cinco quilômetros.

 

P2 – Chama como?

 

R – Mantena, isso. Mantena porque teve a guerra e chamava Gabriel Emílio, então depois da guerra eles venceram – porque Minas queria pegar um pedaço do Espírito Santo por causa do mar, só que eles venceram e não conseguiram o mar – então tirou o nome Gabriel Emílio e botou Mantena, porque eles mantiveram, eles conseguiram, venceram, é um pedacinho do Espírito Santo, já era pequena, tomou mais um pedaço ficou menor ainda.

 

P1 – Em que data foi isso?

 

R – Ah, não me lembro, eu acho que foi 1940 e pouco, por aí, eu era bebê ainda, eu só sei da história. Mantena, chamava Gabriel Emílio. Eu trabalhei lá, e lá nós trabalhamos com o Fórum, com o juiz e fizemos uma Fundação, e depois nós temos uma casa em Governador Valadares que é na Cidade dos Meninos, lá em São Francisco se chama Casa do Menor e em Governador Valadares chama-se a Cidade dos Meninos, há trinta e cinco anos que nós trabalhamos lá com essas crianças, menino da Febem, menino de rua mesmo, é em uma fazenda, aí eu fui lá pra tomar conta da fazenda. Chegamos lá, eu passei três anos lá, três anos e meio, mais ou menos, aí quando eu estava lá o Padre Batista, que foi o fundador daqui, Padre Batista ele fez a Fundação em 1984, só que ele morreu em 1991.

 

P2 – O padre do Instituto do Negro, que fundou...?

 

R – Isso mesmo, foi ele mesmo. Então ele que é o fundador daqui, ele foi o mesmo fundador, até essa figura desses meninos foi ele quem fez, essa aqui, essa aqui foi um amigo dele de lá da Itália, o padre Mário – mas aí foi ele quem pediu para o padre Mário, esse mesmo que fez esse, fez esse aqui, agora é que nós mandamos fazer, mas o logotipo dele é esse aqui. Aí ele morreu, teve um problema de saúde sério, eu acho que foi Aids, ele morreu, em 1991, dia 10 de fevereiro de 1991; e nesse dia eu estava aqui, a missa dele foi muito bonita, foi na Catedral, a missa do velório, foi velado na Catedral, e eu estava aqui, fui no velório. Quatro meses depois eu fui chamada por essas Irmãs que trabalhavam aqui. O Padre Batista teve essa doença e morreu, e havia duas Irmãs que trabalhavam aqui, só que elas não conseguiram, elas pediram pra sair e foram trabalhar em outro lugar, numa creche, aí ficou sem ninguém. A Irmã Fátima, que era muito amiga dele, pediu pra eu vir pra cá porque ele tinha morrido, aqui estava muito difícil, estava com dificuldade, a obra dele, ele tinha seis projetos, nove projetos, não sei, aí caiu tudo, então me chamaram pra vir pra cá em 1992, eu cheguei aqui em fevereiro de 1992. Começamos a trabalhar na obra, foi com muito custo, com muita dificuldade, devagar, nós tínhamos oito funcionários, foi crescendo, foi pra doze funcionários, nós trabalhávamos só com meninos de rua aqui, nós tínhamos algumas oficinas, muito pouco, trabalhava mais a alimentação, tinha caixa de engraxate – ele estava com um trabalho muito bonito, só que o trabalho dele caiu muito, por causa dessa dificuldade, porque ele morreu, e como morreu, ele não teve muito tempo de fazer a estrutura porque a doença dele veio e, dentro de um ano, ele adoeceu e morreu, muito rápido. Como ele morreu muito rápido, a coisa não teve uma continuidade, então foi muito difícil – quando eu cheguei aqui já estava mais ou menos arrumado, o diretor, que foi o Rui, ele fez um trabalho muito bom, teve muita dificuldade, mas ele fez um bom trabalho; formou uma diretoria, o Dom Gaspar ficou presidente da obra, que é o Bispo da região, e fez uma diretoria e essa diretoria foi caminhando, caminhando, eu vim, várias pessoas vieram e devagar nós fomos trabalhando. Inclusive, a Lisa do departamento pessoal, ela se casou aqui, na época em que eu estava aqui, depois ela trabalhou três anos, mas ela não aguentou, ela teve uma menina, a menina teve problema de coração e ela saiu, e agora ela voltou, e a gente também, quer dizer, eu e ela que somos as mais velhas daqui, ela entrou acho que oito meses antes de mim, depois ela saiu três anos e meio, quatro anos e agora ela voltou novamente, e eu continuei aqui. Só que agora a gente já tem cinco projetos, tem três casas com cinco projetos.

 

P1 – Mas como é que foi, explica desde o começo, por que é que você se instalou aqui, qual era o objetivo?

 

R – Eu me instalei aqui porque o objetivo era esse, era mandar a obra pra frente, a obra do Padre Batista.

 

P1 – Que já estava instalada aqui?

 

R – Que já estava instalada aqui há seis anos, só que o fundador morreu e ficou essa coisa toda.

 

P1 – Essa obra tinha quais objetivos?

 

R – Objetivo de trabalhar, de resgatar os meninos de rua, trabalhar com os meninos de rua.

 

P1 – Precisava pegar na rua os meninos e trazer...

 

R – Não, os meninos vinham. Ele tinha aqui caixa de engraxate, ele tinha aqui as oficinas, ele tinha datilografia, ele também dava formação para os meninos, e tinha também uma cozinha em que ele vendia a comida para os meninos, ele não dava as “marmitéx”, ele não dava a comida para as crianças, ele também cobrava um valor ‘x’ porque ele estava trabalhando, e tinha mais de 200 meninos que engraxava em toda a cidade.

 

P2 – De onde vinham esses meninos?

 

R – Era da rua mesmo, do centrão daqui, era muita gente que ele tinha pra engraxar, era muita mesmo. E aqui tinha uma oficina de marcenaria só pra fazer caixa de engraxate, tinha um homem que trabalhava e só fazia isso – a oficina ainda está, está até lá debaixo do viaduto, eu pedi lá, pra guardar lá porque não tinha mais...

 

P2 – E como é que esses meninos chegam até a Instituição?

 

R – Eles chegam vindos da rua mesmo, eles sabem que o único projeto de menino de rua é aqui.

 

P1 – Um fala pro outro.

 

R – Um fala pro outro.

 

P2 – E como eles abordam vocês aqui?

 

R – Eles vem de manhã cedo, e nós temos a entrada de manhã cedo com as crianças, nós recebemos as crianças, tem banho, tem lavação de roupa, tem café da manhã, e depois do café da manhã tem computação, tem uma oficina de bijuterias, tem uma oficina de costura e tem uma oficina de capoeira, aqui no Centro Comunitário; à tarde nós temos essas mesmas oficinas com as crianças de cortiço daqui da região: da Baixada do Glicério, da Conde de São Joaquim, dos cortiços da região.

 

P1 – Eles também vêm espontaneamente?

 

R – Vem espontaneamente.

 

P1 – Vocês atendem quantas crianças?

 

R – Nós atendemos, mais ou menos, umas trezentos e dez ao todo, de manhã e à tarde. Não só aqui, porque no Cambuci nós temos outro CJ, no Cambuci nós trabalhamos de manhã e de tarde com  as crianças do CJ, de sete a catorze anos. Talvez uma coisa que eu não falei também, aqui nós recebemos crianças de sete a dezessete anos, nós recebemos aqui.

 

P1 – E se vierem algumas menores?

 

R – Se vierem algumas menores a gente dá um jeito, se for de rua a gente recebe até de quatro anos, agora se não for de rua aí é diferente, aí vem fazer matrícula com o pessoal da tarde. De manhã nós temos esse projeto e o projeto além de todas essas oficinas também tem a sala de apoio pedagógico – que é a alfabetização, reforço, alfabetização, as crianças estudam, a Eliane dá aula para as crianças, e quando as crianças têm condições de passar, aí nós temos esse trabalho de levar as crianças na escola pra ver se eles têm a série no final do ano, aí eles continuam estudando. Aqui nós temos também o projeto Bazar Escola, que é um projeto em que nós atendemos as crianças no comércio, então eles tem base de comércio – depois nós temos o Sebrae que também dá a formação para essas crianças do Bazar Escola pra poder desenvolver o pré-profissionalizante. Depois nós temos também o projeto Retorno à Família, que esse projeto é dos meninos de rua, a gente faz a abordagem na rua, a gente vai conversando com essas crianças, a gente vai lidando com eles com muito carinho, com muita coisa, até a gente conquistar que eles falem da família deles, e eles descobrindo, falando da família, a gente vai conhecer a família. A gente leva, aí conhece toda a família, depois a gente começa: primeira coisa o menino vai para a família e a gente acompanha, a cada quinze dias, cada mês a assistente social vai na casa e convida, a criança tem que ir pra escola, nós damos meio salário mínimo e uma cesta básica pra família, e todo mês essa família vem aqui nesse centro comunitário. Nós temos reuniões, nós chamamos uma pessoa pra dar formação pra eles, dependendo da pessoa, uma psicóloga, uma pedagoga, dependendo da situação da família. E aí nós fazemos a confraternização, tem um lanche, comem todos juntos, passamos algum vídeo e damos a formação pra toda a família.

 

P1 – Esse prédio é de quem?

 

R – Esse prédio é da Prefeitura, nós temos quarenta e cinco anos de comodato.

 

P1 – Vocês estão ligados à alguma pastoral?

 

R – Com a Pastoral do Menor, na Pastoral da Criança nós estamos ligados. Porque nós somos a Pastoral do Menor. Nós temos também o projeto do Cambuci, sobre o qual eu já falei, que é de sete a catorze anos, e depois nós temos uma casa, a Casa Arte e Vida que é em Santa Cecília, em que recebemos meninos pra dormir a noite, eles ficam de dia aqui e depois à noite eles vão pra Santa Cecília e lá tem todo um trabalho educativo com essas crianças.

 

P2 – Irmã, como é que o bairro recebeu esses projetos? Como é que a comunidade aqui lida com eles?

 

R – Eu acho que há algum tempo atrás foi muito difícil. O que eles faziam? Eles mandavam carta pra cá, queriam nos expulsar daqui, hoje não – o pessoal do bairro, da comunidade, os japoneses, coreanos não aceitavam fácil a gente aqui não, mas hoje eles aceitam porque viram que nós estamos fazendo um bom trabalho. E realmente nós estamos fazendo um trabalho pra resgatar a criança não é pra, como alguns diziam “pra sustentar vagabundo”, não é por aí. Nós fazemos um trabalho educativo com essas crianças, socioeducativo, um trabalho realmente de promoção, de conscientização, de cidadania.

 

P1 – As pessoas do bairro não queriam esse trabalho?

 

R – Não queriam, mas hoje nós já não temos esses problemas.

 

P1 – Tem algum apoio do bairro?

 

R – Temos. Pouco, mas temos.

 

P1 – De quem é o apoio financeiro, etc.,  que vocês recebem?

 

R – Nós recebemos 70% da prefeitura, outros são entidades, são, por exemplo, posso até te dar o nome de quem faz – estamos até fazendo um folder aqui, pra mostrar – tem todo um trabalho que a gente faz. Por exemplo, algumas paróquias, as igrejas, o Estado também de vez em quando ajuda, alguns hospitais, colégios e parcerias, como a Abrinq, a C&A, a CESP, o SENAC, que agora está dando duas oficinas: a de costura e de bijuterias, então a gente tem bastante parceria fora, são os parceiros que nos ajudam, porque se não fossem eles... Por exemplo, o Bazar Escola foi a C&A que reformou e deu todo o material, então hoje eles estão muito contentes com o Bazar Escola porque a gente se sustenta – eles até queriam ter uma franquia do Bazar Escola, porque o Bazar Escola é uma coisa que está ajudando muito, porque a cada ano nós montamos uma equipe de meninos, de dez a doze meninos pra trabalhar lá dentro. Então tem toda uma formação: ele tem uma hora e meia dentro do Bazar, depois eles têm computação, têm escola, têm curso do Sebrae, então é uma formação que a gente faz com os meninos para que eles tenham o conhecimento, nós já temos pelo menos uns cinco que já estão empregados – tem uma aqui hoje, que foi a primeira gerente do Bazar, hoje ela está em Natal, está gerenciando a loja de uma tia dela lá, tem o Cido, tem a Vanessa, tem a Patrícia, são várias meninas que se formaram aí, e aqui hoje nós temos um só, que é o Cido; nós temos vários trabalhando, que é o office boy hoje, ele trabalhou no Bazar, vários são empregados, eles se tornaram funcionários do Centro Comunitário.

 

P2 – A senhora sabe por que o padre Batista escolheu esse bairro, essa rua para fundar a Associação?

 

R – Eu acho o seguinte: ele trabalhava na rua do Carmo, ele tinha alugado uma casa na rua do Carmo e depois ele batizou um filho do Jânio Quadros, o filho ou o neto, não sei, aí o Jânio Quadros deu todo o apoio pra ele e falou: “Você escolhe onde você quiser.” Ele escolheu esta casa, foi ele quem escolheu, era uma casa que estava mais ou menos desativada.

 

P1 – De fora parecia um edifício de apartamento?

 

R – Mas era isso mesmo, era um edifício de apartamentos. Ele escolheu e o prefeito deu quarenta e cinco anos de comodato, então acabaram os apartamentos, acabaram as lanchonetes que tinham aí embaixo e tudo, e tornaram-se uma Casa do Menor, Centro Comunitário, CCM que falava.

 

P1 – Não entendi bem: os meninos vem espontaneamente?

 

R – Vem, todo mundo sabe, um vai falando pro outro e eles vêm espontaneamente, menino de rua, todo mundo conhece o CCA.

 

P1 – Qual é a relação que eles têm com o bairro, os meninos? Eles vivem nas ruas?

 

R – Eles vivem nas ruas, mas eles também, eles vão nas nossas casas, na Santa Cecília, por exemplo. E a gente tem um trabalho de abordagem de rua, os educadores vão nas ruas e fazem abordagem, conhecem, nós jogamos capoeira, nós explicamos o que é, o que não é, porque é que ele está na rua, o que é que está fazendo, então a gente tem um trabalho não só aqui dentro, mas fora também.

 

P1 – Esses lojistas, essa Associação de Lojistas aqui do bairro, eles não dão nenhum apoio? Depois que pararam de achar ruim de repente, não dão nenhum apoio?

 

R – Eles dão muito pouco, em geral aqui são só japoneses e coreanos, a gente tem muito pouco apoio deles. Eu acho que eles poderiam estar dando mais. Agora a gente tem a Igreja São Gonçalo que dá muito apoio pra nós.

 

P1 – Essa igreja aí do lado...

 

R – A igreja aí do lado também dá apoio, Santa Cruz dos Enforcados, também nos dá apoio, nos ajuda com o financeiro.

 

P1 – Com o quê?

 

R – Por exemplo, ela nos ajuda financeiramente também, dá uma quantidade, porque também o veleiro, que o veleiro também é do Centro Comunitário.

 

P2 – O veleiro?

 

R – É, seria nosso, mas é da igreja. Foi a igreja que construiu para sustentar a igreja. Então eles dão o apoio desse veleiro pra nós.

 

P2 – O veleiro, o que é?

 

R – De queimar vela, vender vela. O pessoal compra e queima muita vela, hoje por exemplo eles queimam muita, muita, muita vela, segunda-feira, queimam...

 

P2 – A senhora sabe por que eles queimam na segunda-feira?

 

R – Porque diz que é dia das Almas. Então as pessoas têm uma devoção às almas, então queimam vela na segunda-feira.

 

P2 – A senhora conhece a história dessa igreja?

 

R – Eu conheço um pouco. Porque quando eu vim aqui tinha uma história que algumas pessoas me contaram e parece que tem escrito. Uma irmã que morava comigo, ela contou a história da igreja que eu na realidade não conheço muito, mas a história foi a seguinte: os escravos, quando estavam fazendo aqui a cidade de São Paulo, esses túneis que tinham aí, a Sé e tudo, eles trabalhavam muito, e quando eles estavam idosos e doentes, quando já não podiam mais trabalhar, então eles passavam lá na igreja da Boa Morte que fica na Rua do Carmo, e pediam a Boa Morte, e vinham aqui e pediam a Salvação das Almas e ali embaixo eram enforcados. Nesse morro aqui, nessa descida, era o cemitério, ali os escravos eram enforcados, os negros eram enforcados ali embaixo. Então, os escravos eram enforcados ali, então fizeram essa igreja porque nela eles pediam socorro para a salvação das almas deles e ali embaixo eram enforcados e enterrados ali mesmo, no cemitério, porque alí era um cemitério. Por isso que existe a devoção às Almas, porque as almas, eles, claro... o sofrimento que a igreja teve em cima dos negros, hoje eles pedem perdão, e temos que pedir realmente, muito, muito, muito mesmo, porque realmente nós fomos errados, porque afinal de contas por que os pretos tinham que ser escravos e nós tínhamos que ser os donos? Então, o sofrimento era muito grande. Essa história foi contada muitas vezes pra mim, porque tinha muita curiosidade de saber, então foi isso que me contaram: que eles passavam lá, pediam a Boa Morte, vinham aqui e pediam na Santa Cruz dos Enforcados, porque iriam ser enforcados, pediam a salvação das almas e iam lá embaixo, e lá eram enforcados. É muito sofrimento, sofrimento...

 

P1 – Quem enforcava os negros? Não sabe. Nem por quê?

 

R – Nem por quê. Eu fui à cidade de Tiradentes, por exemplo, uma parente do Tiradentes, duas mulheres lá, uma estava com setenta anos, outra com oitenta e cinco e eu conversei muito com elas – tinha a bacia, a cama de Tiradentes, tudo isso lá, e embaixo desce uma escada assim, desce um troço, embaixo tem uns rolos de pau e no meio o pau está quase cortado e eu falei: “Por que isso? “. “Porque batia nos negros até matar.” E eles rodavam assim e batendo, batendo, batendo. Quer dizer, isso é ...

 

P2 – A senhora já ouviu uma história dessa igreja que quase até virou lenda de um enforcamento que não dava certo, que o sujeito ia ser enforcado, daí a corda não apertava...

 

R – Não, não ouvi, não ouvi.

 

P2 – De uma pessoa que se chamava Chaguinhas?

 

R – Eu já ouvi falar de Chaguinhas, mas lenda assim eu não conheço não.

 

P2 – Acho que foi o padre Ennes que contou.

 

R – Que contou, bom, o padre Ennes, ele estuda, porque eles têm a Pastoral do Negro muito forte e o Batista – nós estamos fazendo um vídeo do padre Batista, isso é super interessante, porque aí nós fomos procurar a família dele: o padre Batista tem dez irmãos, essa mãe do padre Batista, a Dona Rosa, ela ficou grávida solteira e a família dela não aceitou que ela ficasse grávida solteira e o Batista foi um menino criado muito discriminado, porque ela ia apanhar café com o filho pequenininho já que os irmãos dela não queriam aceitá-la por ela ter o filho solteira. O padre Batista teria quarenta e oito anos hoje, ele morreu com trinta e oito, quarenta e oito anos mais ou menos. Ele era um menino muito inteligente e ele dizia assim: “Mãe, quando eu crescer, eu vou ser padre.” Na casa dele a mãe contava, eu fui lá pra filmar, a mãe contava que ele colocava um tijolo no chão, botava um paninho em cima, folha de banana e fazia um altar, e lá ele cantava a Ave Maria e dizia: “Mãe eu estou cantando bem.” E ele cantava muito bonito, muito bonito, “Tá cantando meu filho, está cantando muito bem.” Ele foi crescendo, mas ele era muito pobre, então ele queria ser padre e não conseguia, aí ele foi numa cidadezinha quando ele tinha dez anos e fez uma caixa de engraxate, nessa caixa de engraxate ele estava engraxando e uma senhora perguntou pra ele: “Por que é que você está engraxando.” “Porque eu quero ser padre.” “Mas ser padre e engraxar sapato o que é que ter a ver com isso?” “É porque a minha mãe é pobre e não pode comprar as coisas pra mim, então eu estou engraxando sapato porque, quando eu crescer, vou ser padre.” Na quinta série, eu acho que ele estava com onze, doze anos, essa senhora comprou tudo o que ele precisava, a mãe dele diz: “Eu não comprei nem uma cueca pro meu filho e nem um sabonete porque essa senhora deu tudo, tudo, tudo, só que ela não sabe o nome dessa senhora, acho que não queria que falasse. Ele veio embora, foi estudar em São Roque e realmente, ele falou: “Quando eu crescer, eu vou ser padre e eu vou fazer a Pastoral do Negro.” Ele cresceu, foi ser padre, ele fundou a Pastoral do Negro aqui. Ele era negão, negão, eu vou mostrar a fotografia pra vocês, ele era negão, mas muito inteligente, muito inteligente, muito capaz. A mãe dele teve mais dez filhos sem ser ele, tem aqui vários, tem dois aqui em São Paulo, e ele trabalhou, lutou, deu uma casinha pra mãe dele. Ele morreu em 1991, dia 10 de setembro.

 

P2 – A senhora já ouviu falar... Então ele morreu logo que tinha inaugurado...

 

R – Logo em seguida, logo em seguida. Em 1990 ele fez a Casa e em 1991 ele morreu.

 

P2 – A senhora já ouviu falar se teve uma inauguração dessa casa, como é que foi a transposição lá da sede...?

 

R – Eu acho que foi muito natural, eu acho que já foi trazendo as coisas e fazendo, foi... porque diz que ele era assim muito dinâmico.

 

P1 – É a criançada.

 

R – É, algumas vezes eles brigam. As crianças são fogo.

 

P1 – E a história do Metrô, ajuda vocês em alguma coisa?

 

R – O Metrô, no momento, de vez em quando ele ajuda nesse sentido, porque a gente pede e a gente sai com a criança em algum lugar e eles deixam, mas nós nunca tivemos assim uma ajuda, até estivemos pedindo algumas vezes, mas nem fizemos muita coisa, mas eu tenho vontade de pedir pro Metrô pra nos ajudar.

 

P1 – Eles dão por exemplo passagem?

 

R – Dão, dão, nisso eles ajudam.

 

P1 – Se tem que ir lá pra Santa Cecília, eles...?

 

R – Assim todos os dias, eu acho que não, todos os dias assim não. Só num passeio, a gente faz uma cartinha e leva pra eles, aí eles deixam, agora todos os dias eu acho que não. Não sei também, nós estivemos pedindo e depois não fomos mais atrás. Mas quando vai num passeio eles ajudam sim, eles dão ajuda sim e de vez em quando eles dão alguma ajuda, não é assim esporádica, não é... mas, eu acho também que é falta de pedir um pouco, de ir atrás, é falta de tempo, porque tem pouca gente na entidade.

 

P2 – A senhora acha que esse bairro tem uma boa infra-estrutura urbana, tem luz, Metrô, transporte?

 

R – Eu creio que mais ou menos, não muito, mas tem. Eu vejo que, eu nem saberia dizer muito, porque eu moro aqui perto, eu moro muito perto, eu moro aí na rua do Carmo, então...

 

P2 – Irmã continuando a entrevista, a senhora iria falar de outra igreja aí a gente cortou, estava falando da São Gonçalo...

 

R – Então, estava falando da São Gonçalo, eles são aqui da comunidade, eles são da comunidade japonesa, os padres também são japoneses.

 

P2 – Os padres?

 

R – Também, são vários japoneses, nem todos, mas tem vários japoneses. Então, eles têm uma comunidade e nos ajudam muito, na alimentação, em roupa, mesmo em formação, eles estão ajudando algumas crianças a vir de longe pra fazer o curso de bijuterias aqui, de computação, eles nos ajudam muito, muito. Tem também os padres franciscanos que também nos dão apoio na formação.

 

P2 – De outra igreja?

 

R – É de outra igreja, lá de São Francisco.

 

P2 – Onde fica essa?

 

R – No largo de São Francisco mesmo. Então, a igreja aqui nos ajuda, esses aqui também nos ajudam, o padre Ennes também, se a gente chamar, ele está aqui presente, a igreja dá o apoio à comunidade, dá o apoio pra nós, nem tanto, mas apoia. Eu acho que é válido, é muito bom pra gente, é um apoio muito grande.

 

P2 – Irmã, o que a senhora acha que teve de alteração no bairro desde quando a senhora chegou no começo da década de 90?

 

R – Eu acho que pra nós o bairro está mais... eu não tenho, não vou dizer que eu tenho um conhecimento maior, eu acho que nós temos... eu não sei se melhorou mais aqui embaixo, tem muito comércio, tem shopping, tem supermercado. Agora, eu me vejo mais diante da pobreza, da miséria que a gente... Melhorar? Eu acho que melhorou a comunicação, sei lá – eu não poderia dizer nem o que melhorou porque eu trabalho com uma realidade tão esfacelada, que se você me disser o que melhorou, eu posso dizer o que piorou: teve mais cortiço, menos posto de saúde. O Maluf, por exemplo, fechou os dois postos de saúde que tinha porque achou que não precisava.

 

P2 – Aqui na Liberdade?

 

R – É, aqui embaixo, outro lá, pra lá um pouco, pro lado das Carmelitas. Então, nós temos hospitais perto, tem o Bandeirantes, tem o Anhanguera, nós temos bons hospitais, hospitais municipais, tem o Pérola Byington, mas na realidade, a pobreza, depois que eu cheguei aqui em 1991, 1992, eu acho que tem muita droga, muito crime: outro dia aqui, eles mataram três coreanos dentro desse restaurante, na hora que eu ouvi os tiros eu só via assim: em um segundo os táxis saíram, nenhum táxi aí, desapareceram em pleno sábado à tarde, às três horas, foram seis tiros... Foi um cara assim “desse tamanho”.

 

P2 – Assaltando?

 

R – Nada. Acho que foi treta deles, acho que era tráfico que tinha aí, matou e desceu, foi andando com um casaco. Quando eu desci lá, os três homens morrendo e as mulheres em cima deles. Estava almoçando na mesa, matou todos os três: um pegou um tiro no peito, outro na cabeça e o outro aqui nas orelhas, matou todos os três, três colegas. Eu falei pra mulher: É seu marido?” Ela falou: “Não sei falar.’ Mas assim, crimes bárbaros.

 

P1 – Onde?

 

R – Ali, ali, no restaurante, dentro do restaurante, eu vi, mas eu vi morrer, a hora que a polícia chegou já estavam todos mortos, estavam só respirando. Então eu trabalho com uma realidade muito pesada aqui na região, portanto nem vejo o que melhorou. Tem um shopping aqui, não tinha nada, ali embaixo tem um shopping, tem muita casa de comércio, tem banco, abriu um McDonalds, tem lanchonete, mas eu acho que o sofrimento do povo é tão grande, é tão miserável – por exemplo, hoje pela manhã nós estávamos rezando porque tem uma família dentro de um cortiço e estamos com medo de que morram, tem uma menina de braço quebrado, tem outro fugido, escondido, porque não pode... querem matar a família inteira, está envolvido com drogas.

 

P2 – Onde é esse cortiço?

 

R – É aqui embaixo.

 

P2 – Pertinho?

 

R – Perto, perto, não é longe não. Você quer ir lá ver?

 

P2 – Não, só pra saber.

 

R - É bem pertinho aqui. Aqui tem muito cortiço, muito, muito, muito. É um sofrimento muito grande, então... Tem coisas boas também, não vou dizer que não tem, tem muita coisa boa, eu acho que tem muitas coisas boas.

 

P1 – Por exemplo, quais coisas boas?

 

R – Olha, por exemplo, eu acho que tem – o que eu poderia falar que tem coisa boa... – a Igreja das Almas sempre foi aqui, tem o shopping que abriu aí, tem as pessoas, parece que as pessoas estão mais acessíveis conosco aqui, por exemplo, isso é uma coisa boa, porque nós recebíamos sempre carta pra sair daqui – “porque aqui não é o lugar que levava, que tirava, que não sei o quê” – e hoje eles se acalmaram, eles nos aceitam, eles nos ajudam.

 

P2 – Os cortiços como é que eles se formaram aqui no bairro?

 

R – Eu acho que foram se formando porque chamava Treme Treme.

 

P2 – O que era isso?

 

R – Treme Treme são os casarões velhos. Então já tem menos cortiços, mas teve muito mais, hoje tem menos, mas os cortiços que tem são piores ainda, porque é muito o povo da periferia.

 

P1 – Tem certeza que Treme Treme quer dizer isso aí?

 

R – Eu não sei se quer dizer morte ou...

 

P2 – São casas antigas e que são ocupadas.

 

R – São ocupadas... Mas hoje eles dizem que querem tirar esses cortiços, mas tem.

 

P1 – Não é casa de prostituição?

 

R – Também tem muita casa de prostituição, muita casa de prostituta, tem muitas prostitutas aqui, aqui embaixo mesmo, a Irmã que trabalha comigo trabalha com a prostituição...  Tem coisas boas aqui. Eu acho que o Metrô é uma coisa muito boa, esses shoppings que abriram são uma coisa muito boa, esse pessoal... Eu acho que o povo está nos ajudando, por exemplo, voluntários, eu acho que é uma coisa muito boa, nós temos muitos voluntários que vêm nos ajudar, que vêm conhecer a obra.

 

P1 – São pessoas do bairro?

 

R – Tem pessoas do bairro, são mais de fora, mas tem pessoas do bairro também que vêm. Nós temos muitas pessoas que nos ajudam aqui nesse sentido, quer dizer, eles percebem que nós estamos fazendo um bom trabalho, querendo fazer um bom trabalho com os meninos. Eu, às vezes estou falando com vocês, mas é uma realidade muito difícil que a gente vê todos os dias, todos os dias: é morte, é menino machucado, é menino quebrado, é menino furado, é maconha, é muito avião, são crianças pequenas.

 

P2 – Avião?

 

R – Aviãozinho, leva droga pra cá, leva droga pra lá, até criança de três, quatro anos já leva droga. É, tem uma menina, a Vitória, a menina de três anos entregava, ela mandava, apontava pro carro, parava e ia lá.

 

P2 – A filha?

 

R – A filha, é. Então são coisas que você vê todos os dias. Por exemplo, essa menina, a que eu tive que botar pra fora, quer dizer, os filhos dela estão lá, ela fica drogada, ela se droga, ela é traficante, ela...

 

P2 – Onde ela mora?

 

R – Ela mora aqui embaixo num cortiço, num quartinho, quatro desse, divide em quatro, ela mora dentro daquele quartinho – mas ela fuma droga, então ela é fogo. Tem meninos aqui que a família é triste, tem família em que há muita droga, muito tráfico, é pai e mãe que usa droga. Existe também muitos ladrões aqui, também tem muita gente que rouba, muito, muito. Então é uma coisa que não é tão simples não, é pesado, isso eu acho que não pode ser falado...

 

P2 – Depois a gente...

 

R – É, mais aqui é pesado, é pesado, nessa baixada aqui é muito pesado.

 

P2 – E tem pensões aqui no bairro?

 

R – Tem pensões também. Pensões coletivas que se fala né. Tem, tem pensões, são melhorzinhas do que cortiço.

 

P2 – Mas aí já não são adultos que vêm pra cá?

 

R – Vêm também, vêm pra cá, porque são as pessoas pobres, são pessoas pobres, pobres. São muito pobres.

 

P2 – Mas adulto?

 

R – Tem casados que moram dentro de uma pensão e que tem dois, três filhos.

 

P2 – Daí as crianças ficam na rua, são essas crianças que vêm pra cá?

 

R – Que vêm pra cá.

 

P2 – Mas pelo que eu estou entendendo vocês não atendem só crianças aqui, vocês chamam crianças de rua...?

 

R – Criança e adolescente.

 

P2 – E essas que a senhora citou?, que são mais velhas, são adolescentes mas que tem filhos, vários filhos.

 

R – Não, não, isso nós não citamos: nós temos a parte de costura com as mães, com os filhos daqui, nós temos também à noite, nós temos a alfabetização aqui, nós temos duas classes de alfabetização com pessoas pobres, e no sábado, nós temos preparação pro vestibular que se chama Educafro, que é de negros e pobres, Educafro todo sábado está aqui pra preparar, Educafro. E a gente tenta, eu acho que tem muita coisa, aqui mesmo no CCA é feita muita coisa boa. Hoje mesmo, à tarde, vai ter um encontro aqui das mulheres marginalizadas, das prostitutas, mas não são dessas que tem condições financeiras, são dessas mais pobres. Temos a casa aqui da Liberdade também, a Irmã que veio é a Irmã que trabalha comigo também, a Ivonete, a Irmã Ivonete.

 

P2 – Chega muita gente doente aqui?

 

R – Bom, quando chega também, a gente leva no hospital, mas não chega, os meninos chegam machucados, com buraco de faca – hoje mesmo veio um esfaqueado na coxa, levamos no hospital.

 

P2 – Qual hospital socorre?

 

R – Nós levamos no Glória, no Bandeirantes ou no Hospital Municipal.

 

P2 – Todos são públicos?

 

R – Não. O Glória que é o público e o Municipal, agora o Bandeirantes tem dois, tem o público, tem o Pronto Socorro e tem particular, a gente leva no Pronto Socorro.

 

P2 – Eles atendem a demanda?

 

R – Atendem, atendem. A gente leva, manda o educador levar, sempre atende, sempre, sempre atende.

 

P1 – Quantos educadores tem aqui?

 

R – Aqui nós temos ao todo vinte, dezenove pessoas aqui.  Ao total nós somos em quarenta e seis funcionários na entidade.

 

P2 – E voluntários?

 

R – Voluntários, nós temos uns trinta voluntários mais ou menos.

 

P1 – Em que área?

 

R – Em todas as áreas: na Educação, na Assistência Social, lá embaixo no comércio, na cozinha, na costura, em toda parte, à noite lá no Arte e Vida, na Santa Cecília. Então em toda a parte a gente tem voluntário, voluntário, por exemplo, que ajuda a fazer folder – agora mesmo estão fazendo um folder, um voluntário acabou de trazer isso aqui pra ver se está bom ou se não está, então está montando – são voluntários que fazem isso. Então a gente trabalha com os voluntários, hoje mesmo a gente tem duas pessoas que têm o curso de voluntariado na Paulista, a Ana Célia e a Maria José estão lá na Paulista.

 

P1 – Curso de voluntariado, explica melhor.

 

R – O curso é assim: na Paulista tem uma entidade que trabalha com o voluntariado, quer dizer, o voluntário vai lá, se registra e depois vai nas entidades trabalhar. É interessante. A Ana Célia e a Maria José foram lá fazer esse curso.

 

P2 – Irmã, como é que é o tratamento das crianças com os funcionários?

 

R – É um tratamento muito carinhoso, porque nós trabalhamos com as crianças com muita delicadeza, respeitamos muito as crianças, mas também é exigente, mostra... Porque a criança quer ter também um parâmetro deles, então eles mostram o que está certo, o que está errado, tem as oficinas – de manhã cedo, quando a criança entra, já dá o nome e o sobrenome, a idade e que curso quer fazer, se quer fazer capoeira, se quer fazer computação, se quer fazer costura, se quer ir à sala de alfabetização, ao SAP, Sala de Apoio Pedagógico, tem o vídeo e tem outras oficinas de artesanato.

 

P1 – O que mais as crianças querem?

 

R – A maior parte quer computação, computação em primeiro lugar. E temos a oficina de bijuterias, mas essa já uma equipe fixa e, depois, na quinta-feira temos toda a equipe de crianças pequenas, menores, de sete a catorze, que vão fazer a oficina de bijuterias.

 

P1 – Eles vêm sozinhos ou alguém traz?

 

R – Algum, um ou outro vem com a mãe, vem de cortiço, a maioria vem sozinha. Eles agora têm o almoço, o café da manhã. Das onze e meia às treze horas tem almoço, treze e meia é o último almoço, os meninos da manhã almoçam às onze e meia, e tem outro almoço dos meninos do cortiço que é às treze horas, eles sobem, almoçam e depois vão para as atividades.

 

P1 – Não tem ninguém que vem pra almoçar e vai embora, não quer saber de atividade?

 

R – Não, aí a gente não aceita, porque aí também não tem limite e como é que nós vamos ficar?... A entrada é até às nove horas, eles sabem disso, se chegar depois das nove, não entra, amanhã ele vem mais cedo.

 

P2 – Eles vão aprendendo.

 

R – Eles vão aprendendo. Porque tem que dar limite pra eles, porque senão... Eles trazem a roupa suja e eles tem que lavar a roupa, porque se não lavar, eles vão amontoar roupa e aonde nós vamos achar roupa pra dar? Então se eles quiserem roupa limpa, eles tem que lavar.

 

P2 – Faz o papel de pai e mãe, né.

 

R – Lógico. E os educadores são muito bons nesse caso, a gente acompanha nas oficinas todas, no refeitório, no café da manhã, tudo, todas as crianças são acompanhadas.

 

P1 – Deve dar trabalho.

 

R – É um pouco desgastante, mas... Algumas vezes eles brigam também, eles são violentos, menino de rua é muito violento, e cortiço também não fica atrás não, difícil. Por exemplo, essa Claudia aí, desde de manhã é que ela está tentando, ela já veio aqui três vezes hoje.

 

P1 – Querendo arrumar encrenca?

 

R – É, querendo arrumar encrenca. E não é fácil, está lá fora, não é fácil pra lidar, é difícil.

 

P2 – Vocês dão uniforme para as crianças?

 

R – Não, não. Quando a gente sai tem camiseta, bota a camiseta do Centro Comunitário, capoeira, nós temos a roupa da copeira. Uniforme... bem que a gente tem vontade de dar uma camiseta pra eles sim, mas no momento a gente não tem condição, se bem que a gente tem silk screen, nós temos a outra máquina pra fazer estampa, mas a gente não tem condições de comprar.

 

P2 – O que falta, seriam as camisetas mesmo?

 

R – Com certeza e também condições financeiras pra comprar. Mas tem muita gente, a Mackenzie também nos ajuda, trouxe roupa hoje, trouxe remédio pra nós.

 

P2 – Vocês aceitam doações?

 

R – Aceitamos doações.

 

P2 – Como é que funciona o regime de doações?

 

R – A doação a gente tem aqui, por exemplo se vem camiseta, calção, sapato que serve pras crianças, a gente dá pras crianças, o que não serve, a gente bota nas lojas pra vender. Se é tecido, nós construímos, nós fazemos as roupas aqui porque nós temos a oficina de costura, aí a gente leva pra vender.

 

P2 – Vocês têm um bazar?

 

R – Temos o bazar, temos três “bazarzinhos”: temos o Bazar Escola que é de roupa nova.

 

P1 – Para gerar uma verba?

 

R – Isso, gerar renda pra sustentar aqui. E temos o brechó que são coisas usadas, e temos o Zenshop, que é religioso com esotérico, tudo misturado.

 

P2 – Como é que é?

 

R – Zenshop, é tudo meio misturado.

 

P! – O que é?

 

R – É uma lojinha, são três lojinhas, as três foram feitas pela C&A, a C&A que nos ajudou – a C&A dá muito apoio pra nós, muito, muito, muito. Uma das entidades que mais dá apoio aqui é a C&A, dá muito apoio.

 

P1 – É na rua essa lojinha?

 

E – É, é aqui embaixo, as três lojinhas. Está até fazendo uma reforma, eu estou fazendo uma reforma pra fazer uma mezanino pra ter espaço.

 

P2 – Quem compra nessas lojas?

 

R – Qualquer um que passa, todo mundo, qualquer pessoa. Aos domingos, o Zenhop fica aberto, aí a gente vende esotérico, incenso, tudo, sol, lua – é bonitinha a lojinha, tinha que conhecer que bonita a lojinha.

 

P2 – Irmã, a gente já está acabando a entrevista, como a senhora gostaria que fosse esse bairro no futuro assim?

 

R – Eu gostaria que eles entendessem a miséria que existe em São Paulo, claro que não é o bairro, é toda uma estrutura, é todo um Brasil, é todo um mundo, mas eu acho que eu gostaria de ver menos miséria, menos sofrimento. Porque há muito sofrimento, muita miséria, muita disparidade entre as pessoas: tem pessoas que nascem e morrem na Paulista e nunca conheceram a Praça da Sé porque têm medo, eu acho que isso são coisas que deveriam terminar, deveriam acabar. Um professor disse que, na faculdade de Turismo em que ele dava aula, havia vinte, trinta e seis alunos que nunca tinham andado de Metrô, então eu gostaria que isso não existisse dentro de São Paulo, dentro de um bairro, dentro de tudo isso. Eu gostaria que existisse menos sofrimento e mais conhecimento, porque eu acho que a gente desconhece o que existe. Porque de medo, de tanta coisa… mas eu acho que quanto mais medo, pior. Eu acho que aqui no domingo, a Liberdade é um espaço muito bom, tem feira dos japoneses, é gostoso, tem brasileiro misturado, mas são mais japoneses porque tem muita comida típica, essas coisas. Eu gostaria que pudesse ter mais união, pudesse ter cultura, que o pessoal não tivesse tanto medo de vir, porque eu acho que o medo é uma coisa que – eu estou aqui há dez anos e nunca me aconteceu nada, nada, nada, nunca, nunca fui roubada, nenhum tostão. Eu fui roubada numa cidadezinha do Interior, lá no Espírito Santo e aqui nunca. Então eu acho que um pouco é medo do povo, eu acho que o povo deveria ter menos medo e ter mais solidariedade, ser mais solidário com os outros, ser mais fraterno.

 

P2 – A senhora tem algum sonho que gostaria de realizar?

 

R – Eu tenho.

 

P2 – Qual é?

 

R – Meu sonho é conseguir uma chácara pra colocar aquelas crianças que não tem ninguém por elas. Tenho esse sonho, tenho essa vontade, esse querer. Já falei com várias pessoas, já falei com muita gente, algumas oficinas aqui perto, que tem um pedaço de terra, que tem um lote muito grande em que eu gostaria de fazer uma quadra de futebol para que as crianças pudessem ter espaço pra brincar – porque aqui não tem espaço, as crianças vivem confinadas dentro das casa, dentro de cortiço, e também esse sofrimento vem de muita gente confinada dentro de casa.

 

P2 – Aqui no bairro a senhora diz?

 

R – Aqui no bairro eu acho, muito...

 

P2 – Não tem praça...

 

R – Não tem praça, não tem lazer, não tem quadra, não tem uma piscina, tem muito pouco, você não vê uma quadra – tem a faculdade que tem uma quadra mas é da faculdade, tem escola que tem a quadra mas lazer não tem – eu acho que precisava mais lazer, para as crianças, para os adultos. Tem muito pouco lazer.

 

P2 – A senhora gostaria de registrar mais alguma coisa que a gente tenha esquecido?

 

R – Eu acho que é isso mesmo. Está bom. Eu me sinto muito bem em trabalhar aqui, eu acho que é um trabalho em que eu gosto de trabalhar e eu penso que quanto mais a gente vai vencendo, a gente vai ter mais futuro, vai conseguir melhorar, mas há muita falta de espaço para o povo, há muita pedra, muito cimento e pouco espaço.

 

P1 – Muito obrigado pela entrevista.

 

R – Obrigada vocês.


Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+