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História

Por uma educação emancipadora

História de: Ralf Rickli
Autor:
Publicado em: 01/08/2020

Sinopse

Infância em Guarapuava, Paraná. Dificuldades sociais. Início dos estudos na Escola de Música e Belas Artes no Paraná. Interesse por música e educação. Mudança para Curitiba. Estudos na Europa. Descoberta da Antroposofia. Trabalho com jovens periféricos. Criação da Filosofia do Convívio. Concurso Público. Sonhos.

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História completa

Eu tinha concepções de sociedade, desde pequeno eu pensava como o mundo devia ser e não como ele era. Eu fazia cidades imaginárias com bloquinhos, com pecinhas, coisa e tal, botava o nome de cidade, criava o sistema de governo da cidade, escrevia a Constituição da cidade. É engraçado isso. Mas a minha grande preocupação sempre foi como viver no mundo de um modo menos atroz do que nós vivemos.

Eu interrompi meu curso de licenciatura em Música quando eu conheci um pessoal que foi muito enriquecedor para mim, mas também foi em parte uma pista falsa, uma pista verdadeira e em parte uma pista falsa. Conheci o pessoal da Antroposofia, que é uma filosofia de vida, digamos assim, desenvolvida por um austríaco no começo do século XX, Rudolf Steiner. Eles criaram o sistema de educação Waldorf, o sistema de agricultura biodinâmica, só isso: o fato deles trabalharem com educação, cultura e agricultura, [serviu para eu dizer]: “Olha, esse pessoal tem a mesma pista que eu”.

 Eu conheci um grupo em São Paulo, fiquei fascinado com eles e falei para o meu pai: “Olha, eu quero ir para Europa estudar com esse pessoal”. Meu pai, naquele momento, tinha condições de me bancar lá e eu fui para Inglaterra em 79. Eu tinha terminado o segundo ano de faculdade, interrompi, nunca mais retornei para aquela faculdade e fui estudar na Emerson College, na Inglaterra, que era um lugar absolutamente fascinante.
Eu lembro daquilo como um sonho, [mas] já de início eu comecei a perceber que poderia ser problemático é que se tratava de uma, eles diziam, ciência espiritual, uma ciência espiritual, mas é uma fé, na verdade, né? É mais uma fé, uma fé bastante sofisticada, intelectualmente sofisticada, mas que exige acreditar no que o fundador falou, quer dizer, dizem que não, que não exigem, que você é livre para se posicionar, mas se você começa a se posicionar e dizer que discorda do Rudolf Steiner, que acha que ele errou, você começa a não ter lugar nesse espaço, nessa sociedade. Apesar disso, eu trabalhei treze anos, depois, de volta ao Brasil, totalmente dentro do movimento Antroposofico.

Durante um tempo, eu atuei dentro da favela Monte Azul fazendo aulas de cultura geral complementares com os meninos que trabalhavam na marcenaria, estagiários da marcenaria. Chegou um momento que eu não consegui, meu modo de trabalhar ainda se choca com essa metodologia de origem europeia.

Eu falei que fiquei chocado quando eu voltei para o Brasil a primeira vez, fiquei chocado com a desigualdade, dez anos depois eu quis voltar para Europa para olhar para o Brasil de fora mais uma vez, porque eu precisava. Eu queria encontrar qual era o meu verdadeiro rumo e queria perspectiva, distância para olhar. Enquanto eu estava na Alemanha, eu disse: “Olha, a agricultura é fundamental, é base da sociedade, sim, etc e tal”. Só que o Brasil passou pelo processo de urbanização mais vertiginoso de toda a história humana, em poucas décadas, no final do século XX, o Brasil passou de ser 80% rural para ser 80% urbano, isso de um modo totalmente sem estrutura.

Eu falei [que] o ponto crucial do Brasil, na viabilização do Brasil não é mais ter uma agricultura saudável, ter uma vida cultural no campo, porque a maior parte do povo do campo debandou e está nas favelas, está na periferia das metrópoles, a periferia das metrópoles é o principal campo de trabalho, de batalha do Brasil agora, a educação dos jovens, uma verdadeira educação para os jovens, uma educação eficiente para os jovens nas periferias metropolitanas essa é a chave para o Brasil. Eu pensei isso em 1990, 91, um bocado antes de entrarem no poder pessoas que pensavam a mesma coisa.

A Monte Azul foi um lugar onde já tinha uma relação construída e eu comecei a construir minha relação com o povo periférico, o povo clássico, o trabalhador da base do Brasil. Depois, eu me enturmei com os jovens das favelas que vinham na minha casa, vinham usar a minha biblioteca, meu computador, vinham bater papo, vinham fazer pergunta, tirar dúvidas sobre as aulas que tinham tido de manhã, de tarde, isso em torno de uma mesa redonda com pão e café em cima, sempre. Até hoje eu tenho uma mesa redonda na minha cozinha com intenção de ser um ponto de reunião, só que a minha vida atual não permite na mesma medida.

Na minha casa, nas conversas com eles, conversas de igual para igual, mostrando: “Bom, eu sei mais que você, mas eu não sou uma pessoa diferente de você, eu também já não soube, eu conquistei meu saber assim, você também pode conquistar o seu”. “Eu vou sempre falar errado?”. “Não, não é errado, é o dialeto, é a forma de falar do seu grupo social, é certo você falar assim no seu grupo social, mas outros grupos vão usar isso como barreira para você subir, se você não souber falar a linguagem deles também. Então aprenda o português padrão, correto, não porque ele é o único correto, mas aprendam até por vingança ‘vocês não vão me derrubar com isso’”.

 Essa sinceridade com os jovens conquistava adesão, eles me viam como um aliado real, porque eu não estava enganando eles: “Estude, se esforce que as portas vão ser abertas para vocês”. “Não, eles vão tentar tudo para não abrir as portas para vocês, mas fiquem espertos, se habilitem o mais que puder aqui embaixo e apareça já habilitado”. Eu tenho aluno dessa época que foi responsável pela delegação do Ministério da Cultura para o Estado de São Paulo durante um ano.
Única coisa que deu certo na minha vida, essa deu. É uma minoria, é um grupinho pequeno, mas é um punhado de fermento que larguei no mundo desses anos do meu trabalho, a minha casa virou uma associação, Associação Trópis para o Desenvolvimento Cultural e Social, a gente preferia chamar a Trópis Iniciativas Socioculturais, a gente caminhou paralelo a Monte Azul.

Chegou um ponto que a gente abandonou a estrutura de associação, a gente não aguentava mais fazer ata e levar registrar no centro de São Paulo, uma ata que não dizia absolutamente nada, só para dizer que a gente tinha uma associação. Mas a essência do trabalho da Trópis, Associação Trópis, Trópis é uma palavra grega que quer dizer quilha do barco, mas é ligado a trópicos que é direção, rumo, direção, a palavra trópico. É uma forma tropical, comecei falando uma forma tropical de conhecimento e prática. Era a minha diferença com o movimento antroposofico, inclusive a Monte azul, eles saem de uma natureza temperada, do clima frio, trazem uma cultura gerada pelo modo de viver dentro daquilo.

Se nós partirmos da natureza daqui, a gente vai chegar a outras soluções, uma coisa que é mínima: pinheiro de natal são árvores pontudas, essas árvores crescem assim, para cima, fazendo pontas, porque elas estão próximas do polo, que é para o sol dar a volta nelas e poder pegar, elas serem o máximo captadoras de energia solar sendo pontudas assim. Não tem árvores pontudas assim aqui na nossa natureza, aqui o sol não passa em volta, aqui o sol passa em cima. Então a árvore se abre toda para cima porque ela é um captador de energia solar. Quando eu comemoro o natal em pleno verão tropical com pinheirinhos significa que nós somos uma cultura dominada pelo norte, toda celebração de natal com neve e pinheiro significa: “Vocês não mandam nessa terra, quem manda aqui somos nós desta terra dos pinheiros da neve”. Isso é profundamente político, por isso também era difícil conseguir apoio para os nossos projetos, eles viam que íamos produzir pessoas não submissas. Ah, não, queria que a gente ensinasse eles a trabalhar para os patrões europeus.

A maior parte da educação popular, a educação que se quer dar para o povo é para condicionar a serem melhores escravos, não é emancipadora, por isso que Paulo Freire é tão detestado, porque Paulo Freire viu isso décadas antes de mim, né? Era bem mais velho. Eu vi pelos meus próprios caminhos, eu me encontrei com Paulo Freire pelo caminho, não foi dele que eu aprendi, foi do trato com a realidade.

Eu não me arrependo de ter sido verdadeiro, ter sido sincero quanto aos objetivos da minha Associação. Eu não sei se eu fosse hipócrita e dissesse: “Não, estamos aqui para esses meninos se tornarem melhores servidores para a sua empresa”, se eu conseguiria ter feito o que eu fiz, não, eles diriam que iam monitorar. Eles iriam ver que o conhecimento humanístico que os meus alunos estavam ganhando, a capacidade de ler o mundo que eles estavam ganhando não era de interesse deles. Não teria funcionado também. E do jeito que foi até chegou a funcionar, então disso eu não me arrependo, não.

Eu acho que com todas as limitações econômicas que eu vivo, a minha vida foi uma vida de superação, economicamente eu decaí, mas como pessoa, psicologicamente eu superei as barreiras que me colocaram, que a vida inicial me colocou ajudando outros a superarem as suas. A questão do bullying da sexualidade, quando chegava um jovem e, de repente, percebia que ele tinha condições de se abrir comigo que estava sofrendo por isso, eu sabia falar a linguagem dele, eu sabia dizer: “Olha, eu passei exatamente pelo o que você está passando e eu superei, em partes venho ainda superando de tal e tal modo, que tal você experimentar isso?”. Então, desde que eu engrenei nesse trabalho que foi a Trópis, e os demais que se fizeram, eu acho que eu construí a minha realização, a minha superação com isso, sim. Eu venci, com uma herança de infância que tinha tudo para ter me deixado aleijado [emocionalmente] a vida toda e não me deixou.

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