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História

Por um mundo mais inclusivo

História de: Cláudio Amaral
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Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Quando a trajetória profissional do paulistano Claudio Amaral, nascido em 1947, o transferiu da Engenharia para o setor de Recursos Humanos de grandes empresas, ele não imaginava que essa mudança seria tão profunda. Foi depois de assumir a diretoria de RH de uma indústria em São Paulo que ele teve o primeiro contato com a APAE - Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, para a qual criaria um bem-sucedido programa de inclusão profissional e da qual não mais deixaria de fazer parte, como diretor e conselheiro. Em seu depoimento para o Museu da Pessoa, Cláudio conta como essa atuação mudou sua vida – e ainda lhe trouxe um prêmio – e fala de episódios marcantes de sua grande família e da infância no bairro da Pompeia (como o período em que fazia um extra como engraxate para juntar o dinheiro do cinema).

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História completa

Claudio Pacheco do Amaral, nasci em São Paulo em 23 de junho de 1947. Eu comecei a trabalhar muito cedo, por uma opção minha, estudar e trabalhar. Quando eu fui para o ginásio, eu tentei fazer um período à noite, pra que eu pudesse trabalhar. Trabalhava no centro, pegava ônibus, meus pais não tinham carro, não tinham nada. E entregava o envelope de salário, que a gente recebia em envelope, para o meu pai. Então, para ter dinheiro para ir ao cinema, eu engraxava sapato. Engraxate era um extra, vamos dizer. Eu fiz meu grupo escolar em colégio do governo, fiz o meu colegial também. Depois, como eu trabalhava numa empresa de tintas, eu fui fazer Química, que era correspondente ao científico, um curso técnico. Depois de lá, eu vi que Engenharia era o que eu gostaria de fazer, aí eu prestei. Fui para o Mackenzie fazer Engenharia. Trabalhei numa empresa, Lopes Engenharia. Depois eu trabalhei uma época na JHS e aí eu fui pra indústria, fui pra Brasimet. E lá eu tinha algumas obras de reformas, mas eu fui entrando na área administrativa, inclusive com o RH [Recursos Humanos]. Fui fazer um curso na GV [Fundação Getúlio Vargas] na área administrativa, e fui entrando nessa área. E nessa área administrativa veio o RH pra mim. Eu entrei com o RH, acabei ali na região de Santo Amaro. Eu fui presidente de uma associação ali da região, de recursos humanos, APSA, e ali eu conheci um pouco o projeto da APAE - Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais. Um dia bateram lá na minha porta, eu era diretor de RH na Brasimet, e fui conhecer. Quando eu chego lá, tinha uma oficina com umas dez, 12 pessoas, e o que eles estavam fazendo? Colocando tampinha. Eu falei: “Mas quanto eles produzem?” “Eles produzem um pouco.” Eu falei: “Mas vocês não pensam nisso como um negócio?” “Ah, não, a gente tem que treiná-los.” Mas isso é muito pouco. Eles ficam às vezes muito tempo ociosos e não ganham nada. Então, vamos tentar fazer um projeto pra poder alavancar isso! E foi quando eu comecei a mostrar para as empresas que poderiam mandar trabalho, e eles iriam fazendo, isso num primeiro momento. E, num segundo momento, começar a contratá-los para as empresas. E, nisso, a gente foi o pioneiro ali na região. Sem cotas, ainda não existia, a gente começou a contratá-los. E isso criou um case. Se começava às sete horas, antes das sete, eles estavam lá na porta pra entrar. E a partir do momento que eles entram nesse ambiente, eles mexem com as pessoas, então, o ambiente fica diferente, fica mais humano. E a gente tem muitos relatos de várias empresas que têm pessoas com deficiência e ficam mais humanas. Tem tanta gente que reclama de tanta coisa e não tem nada, não tem doença, anda bem, corre, enxerga, ouve, e, quando vê aquilo, fala: “Eu tô reclamando do quê?”. O que eu queria era criar mercado pra eles, não pensando em dinheiro, também que eles fossem remunerados, como foram, mas criar um espaço da nossa bandeira, que é a inclusão, e era a forma que a gente poderia. O preconceito nos leva para o último lugar da contratação. Então, a gente quebra barreiras em cima de barreiras. Hoje a gente vê que tem um número grande de empresas que nos procuram. Isso, pra mim, foi muito emocionante. A gente tem “n” histórias, de “n” empresas, mas eu acho que a Brasimet foi a pioneira que iniciou lá, com o projeto que iniciou. Mas, entre as empresas, a Colgate foi a que mais fez. Não é a quantidade, mas ela abraçou a causa. Independentemente se são cinco, dez, 20 pessoas, a forma com que ela trabalha com os meninos – que a gente tem toda uma forma carinhosa de chamá-los – é um negócio fantástico. Fantástico. Eu comecei como diretor da APAE, depois eu fui para o conselho, fui presidente do conselho, que nós temos o conselho e a diretoria, a diretoria responde para o conselho. Toda a diretoria, como o conselho, são pessoas que trabalham, têm as suas atividades e dão uma hora para a APAE, alguns momentos. Voluntariamente. Eu tive algumas premiações. A empresa em que eu trabalho, eles têm mais de 300 escritórios pelo mundo, mais de 60 países, todos os continentes. E eles, com 50 anos que estão comemorando, fizeram um prêmio para quem era voltado para o voluntariado, quem tinha um trabalho de voluntariado. E os escritórios do mundo mandaram projetos. Pediram para que eu enviasse o trabalho que eu faço na APAE, e eu acabei enviando. E, pelo tempo e pela forma como eu me desenvolvi dentro da APAE, fui o escolhido. Fui buscar esse prêmio, pelo qual eu me honro muito, não só pela Apae, mas como brasileiro, lá fora, nos Estados Unidos. A última premiação foi a minha, foi aquele discurso com o qual todo mundo se levantou, aplaudiu. Fui ovacionado, foi muito emocionante. Muito emocionante. Nossa, passei para o meu pessoal aqui no Brasil, todo mundo escrevendo, mas foi muito bonito. E para a APAE também, porque no fundo é o meu trabalho voluntário, mas em uma entidade pela qual eu tenho um carinho muito grande, um envolvimento muito grande por todos esses anos. Foi muito especial. Quando a gente vai, no contexto da vida, receber uma premiação que está voltada para as pessoas, tem outra conotação. O meu sonho em relação à APAE é que ela não existisse, que a própria sociedade e o próprio governo fizessem o papel deles, não precisaria ter uma instituição. É sonho, a gente sabe que isso está muito distante. Tantas pessoas mais necessitadas morrendo aí sem hospital, sem nada. Então, é um sonho.

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