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Por um fio

História de: Rosa Maria Cussi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/12/2004

Sinopse

Rosa Maria Cussi relembra da sua infância e das suas responsabilidades dentro de casa ajudando sua mãe a cuidar de seus irmãos mais novos. Relembra as escolas que estudou e do momento em que entrou no seu primeiro trabalho, na ETUSA, pois queria ser independente. Conta como era o seu trabalho como telefonista na época em que essa profissão era muito inovadora, sobre os turnos de trabalho, da relação com o cliente, que muitas vezes acabavam a desrespeitando por terem que esperar na linha, dos códigos que usam no trabalho entre as telefonistas, além de lembrar-se dos anos noventa, quando a tecnologia da informação começou a avançar rapidamente e tiveram que, aos poucos, mudar de função. Afirma que sua profissão era muito rígida e exigia muita disciplina.

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História completa

P/1 – Boa tarde dona Rosa, muito obrigado por ter aceito nosso convite. Eu queria que a senhora, por favor, começasse dizendo o seu nome completo, o local e a data do nascimento.

 

R – Meu nome é Rosa Maria Cussi, sou de Uberaba, nascida em 25 do doze de 46.

 

P/1 – Dia de Natal, presente pros seus pais. Qual era o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai Jorge Cussi e de minha mãe Ilza de Oliveira Cussi.

 

P/1 – Atividade do seu pai qual era?

 

R – Ele era motorista de táxi, trabalhou muitos anos na Praça Rui Barbosa.

 

P/1 – No centro aqui de Uberaba?

 

R – No centro de Uberaba.

 

P/1 – Certo e a sua mãe?

 

R – Minha mãe sempre foi do lar.

 

P/1 – A senhora conheceu seus avós?

 

R – Não, da parte do meu pai não, mas da parte da minha mãe conheci os dois.

 

P/1 – A senhora sabe o nome da parte do seu pai, seus avós?

 

R – Da parte do meu pai era José Cussi e minha avó era chamada Nácera era libanesa, Nácera de Felici Cussi.

 

P/1 – E da sua mãe?

 

R – Da minha mãe era Henrique Vasconcelos de Oliveira e Dilna Aurora de Oliveira.

 

P/1 – Bom, a origem dos seus avós paternos é evidente, né?

 

R – É libanês.

 

P/1 – O Cussi não tem nada haver com italiano?

 

R – Não, o Cussi meu é Cussi, é nome libanês.

 

P/1 – A senhora sabia de histórias dos seus avós paternos, como é que eles chegaram aqui?

 

R – Minha avó morava no Líbano, a cidade não sei, ela veio pro Brasil na primeira guerra mundial, o marido dela faleceu na primeira guerra e ela veio pro Brasil trazendo os filhos, eram cinco filhos, teve uma até que já tinha quinze anos e no próprio navio que ela veio ela casou, a filha dela casou e foi pro Estados Unidos, então essa nós não conhecíamos lá não, chamava-se Ácima e minha avó veio pro Brasil e aqui ela conheceu esse meu avô José Cussi e teve mais dois filhos que é meu pai e meu padrinho que estão todos os dois já falecidos e ela viveu aqui no Brasil até 1945 quando veio a falecer.

 

P/1 – E da parte da sua mãe, os seus avós maternos?

 

R – Eu conheci todos os dois.

 

P/1 – Eles eram da região?

 

R – De Uberaba mesmo.

 

P/1 – A senhora conheceu a atividade deles?

 

R – Meu avô era marceneiro, Henrique Vasconcelos, ele faleceu no ano de 1951 e minha avó era do lar e faleceu no ano de 1968.

 

P/1 – E como é que era, a senhora teve irmãos?

 

R – Lá em casa somos em cinco, mas eu tive um irmão que faleceu no ano de 1978, num acidente de avião lá em Duque de Caxias na cidade do Rio com 29 anos e tenho mais três irmãs, são duas casadas e duas solteiras, eu e minha irmã somos solteiras, vivemos junto com minha mãe.

 

P/1 – Como é que era a sua casa de infância, onde é que a senhora morava?

 

R – Sempre morei no mesmo lugar, na Rua Zeferino, número 381, sempre que eu me entendo de vida eu morei ali, nunca morei fora de Uberaba ou mesmo em outra rua de Uberaba, foi sempre ali na Zeferino.

 

P/1 – E como é que era essa casa, não agora, como é que era essa casa quando a senhora era menina?

 

R – Olha, a casa papai sempre fez ela afastada mesmo, porque tinha uma casa na frente e ele fez a casa mais afastada no fundo e de lá pra cá nós continuamos morando mesmo assim numa casa, arrumamos ela, foi aumentada a casa, mas sempre afastada assim uns dez metros da frente da rua, moramos num lugar muito bom graças a Deus, os vizinhos também muito bom, o bairro também muito bom, sossegado e mora mamãe, a minha irmã Ângela e eu.

 

P/1 – Mas quando a senhora era criança, como essa casa funcionava, a senhora tinha obrigações ali no lar?

 

R – Sempre tive, mamãe nunca deixou a gente ser criada assim sem ter o que fazer não, tinha responsabilidade de arrumar casa, arrumar cozinha, essas coisas, olhar meus irmãos menores, dar banho neles, eu fui a mais velha então eu tive mais quatro irmãos pra frente então sempre tinha isso de ajudar olhar.

 

P/1 – Mais responsabilidade.

 

R – Mais responsabilidade, a mais velha sempre julgada mais cedo pra responsabilidade da casa, né?

 

P/1 – E como é que era fisicamente a casa, embora ela possa estar muito parecida hoje, mas como era na sua cabeça de criança?

 

R – Você fala de quantos cômodos tinha? Tinha dois quartos, um que era do meu pai e da minha mãe, um que era dos irmãos, tinha sala, tinha copa, tinha banheiro, cozinha, área de serviço e um quintal muito grande na frente pra gente brincar.

 

P/1 – E a senhora disse que sua mãe sempre dava responsabilidade as crianças, que tipo de responsabilidades?

 

R – Ela sempre cobrou de nós responsabilidades em todas as nossas ações, assim fazer em homem de bem, gente de bem, crescer, ter bons hábitos, boas maneiras, então isso ela cobrava muito alto de nós, ela e meu pai.

 

P/1 – Dona Rosa, como eram as brincadeiras dessa criançada ali na sua casa?

 

R – As brincadeiras eram boas demais, a gente tinha aquela turma de meninos tudo ali por perto, tudo criança da mesma idade, então nós brincava de cantar ou senão eleger rainha, brincar de pique, de casinha. Era criançada com muita saúde e com muita vontade de brincar, mas pra fazer aquilo tudo você tinha que cumprir suas obrigações dentro de casa pra depois você ir brincar, aí deixava depois a gente ir brincar.

 

P/1 – E que tipo de obrigações a senhora tinha que cumprir?

 

R – Arrumar cozinha, varrer o quintal e ajudar a olhar os menores, porque a gente ia brincar todo mundo junto e os menores queriam ir, mas aí punha na responsabilidade da gente de olhar, não deixar machucar, deixar cair senão sobrava pra gente, e antigamente você já viu como era quando o coro cantava (risos).

 

P/1 – A senhora chegou a levar umas surras?

 

R – Ora, a mais velha sempre.

 

P/1 – Que situação a senhora...

 

R – Eu era o nome mais falado dentro da casa, Rosa, era a mais velha acho que era a mais pinta brava, a minha irmã menor, a caçula, a Alzirinha ela até os dois anos não falava de jeito nenhum, a minha mãe falava assim: “Acho que essa menina é muda, ela não fala”, mas o primeiro nome que ela falou foi o meu “Osa”, porque chamava a minha atenção demais. “Osa” e tinha um irmão meu que também era muito danado que morreu, ele saía na rua, chegava reclamação dele, ele não podia ver uma bicicleta, uma motocicleta, quebrava tudo, era moleque mesmo, a meia dele só tinha o cano, embaixo não tinha nada, era só botina que dava conta dele, tive uma criação assim, graças a Deus, sadia, criança mesmo, de brincar, de fazer arte, de apanhar, mas era tudo saudável, tínhamos todo o conforto, alimentação era das melhores porque meu pai era um homem que sempre gostou de se alimentar muito bem, família árabe é sempre assim, a mesa cheia, então nós fomos criados desse jeito, também muito forturento e eu sempre tive uma caída muito grande por cozinha, desde de pequena, desde sete anos já cozinhava porque quando minha mãe ficava grávida ela tinha um problema muito sério, dava muito enjôo nela e ela ficava muito fraca, então com a idade de sete anos eu já colocava o caixotinho assim na beira do fogão de lenha e fazia comida, fazia arroz, fazia feijão, fritava ovo, eu já fazia e tinha que olhar as crianças porque tinha que dar banho nelas, então eu cresci assim, na responsabilidade de sempre estar amparando meus irmãos, mas é por causa da responsabilidade que o pai jogava em cima dos filhos, mas hoje os filhos são criados mais a vontade, não tem tanta responsabilidade. Hoje os pais fazem tudo pros filhos, mas antigamente não a cobrança era maior.

 

P/1 – Seu pai levava a senhora, às vezes, pra passear de carro, de táxi?

 

R – Demais, papai nunca deixou de passear conosco, principalmente final de semana, a gente fazia muito piquenique, papai gostava muito de fazer piquenique com a gente, a gente levantava cedo e ia passear aqui na beira do Rio Claro, essas coisas, ia de manhã e só voltava a tarde, passeava muito, brincava demais.

 

P/1 – E como eram esses piqueniques, o que ele gostava de levar pra comer, pra tomar?

 

R – Fazia comida lá na beira do rio, fazia fogão lá e fazia tudo lá, fazia muita comida, muito gostoso, e a gente brincava e eles diziam que fazia mal entrar na água, fazia nada, a gente comia, brincava, pulava dentro da água, nunca teve problema nenhum, cozinhava lá na beira do rio mesmo, aquelas comidas gostosas, arroz com frango, não, fazia macarronada com frango, aquelas comidas goianas, aquele macarrão goiano, a gente aprendeu muito lá desse jeito.

 

P/1 – Dona Rosa, e a sua escola, como foi a sua primeira escola, onde ela ficava, como ela era?

 

R – A minha primeira escola foi no Grupo Escolar Brasil, lá perto mesmo de casa.

 

P/1 – A senhora lembra de alguma professora, de alguma coisa que tenha ficado marcado na sua memória?

 

R – Lembro de uma professora, ela é viúva até hoje e ela parece que não envelhece, parece que quanto mais o tempo passa ela fica mais forte, parece vinho, quanto mais velho melhor, então ela era Dona Maria Antônio Baltazar, uma senhora muito educada, a gente tem muita lembrança dela, eu sempre encontro com ela, converso, quando ela me vê na rua: “Oi Rosa, como é que vai, tá boa?” e a gente sempre tem aquela conversa de amizade, de carinho.

 

P/1 – E a senhora ficou nessa escola até quando?

 

R – Eu fiz até o quarto ano primário, aí depois eu fui pra Escola Estadual Castelo Branco, chamada Escola Normal, eu fui pra lá e fiz até a quarta série, estudei até a quarta série, aí depois eu vim pro Colégio Triângulo fazer Magistério, depois eu fui trabalhar, eu saí do Magistério em 68, 69 eu comecei a trabalhar na ETUSA – Empresa Telefônica de Uberaba SA, quando foi mais ou menos em 72 eu fiz cursinho e entrei pra faculdade de Ciências Econômicas, só que eu não acabei de completar o curso.

 

P/1 – Certo, a senhora pretendia ser professora, era isso?

 

R – Eu me formei pra professora mas não tinha muita caída pra professora, não.

 

P/1 – E o seu primeiro trabalho externo fora as suas obrigações domésticas foi na ETUSA?

 

R – Foi na ETUSA.

 

P/1 – E o que atraiu a senhora na ETUSA, como é que a senhora chegou lá?

 

R – Olha, eu achei que a gente tinha que ser independente, achei que tinha que arrumar um trabalho pra mim pra ser independente e que era muito mais fácil pra gente ser independente do que ficar dependendo de pai e de mãe, ser um peso, pesado, então eu comecei a procurar serviço, meu pai tinha muito conhecimento lá com a Dona Anita Cunha Campos, então a hora que surgiu a oportunidade a Dona Anita me chamou na época pra trabalhar na ETUSA, era a antiga dona da empresa de Uberaba, telefônica de Uberaba, Dona Anita Cunha Campos.

 

P/1 – Como era a Dona Anita?

 

R – A Dona Anita sempre foi uma pessoa muito boa, dinâmica, era uma empresa familiar, como a CTBC no início também foi assim, depois as coisas foram ficando difíceis e as empresas têm que tomar outro rumo, não pode ser como diz aquela mãe demais, mas a Dona Anita sempre foi uma pessoa muito boa, administrou bem ali, mas aí a família foi desfazendo e ela ficou sozinha e foi quando o senhor Alexandrino, Doutor Luís, senhor Walter entraram em entendimento com ela e vieram pra Uberaba.

 

P/1 – Ela administrava sozinha a ETUSA?

 

R – Tinha o Doutor Alexandre que era o sobrinho dela, mas ele ficava mais em São Paulo que ele tinha um negócio em São Paulo, uma empresa em São Paulo e a Dona Anita foi ficando sozinha, os irmãos dela foram morrendo.

 

P/1 – Como ela era de trato assim, pessoalmente, como ela era, a relação com ela?

 

R – Muito boa, ouvia muito bem os funcionários, conversava com eles, era uma amiga mesmo, tratava todo mundo muito bem.

 

P/1 – E dona Rosa, o que atraiu a senhora a trabalhar na ETUSA, a senhora queria ser professora mas...

 

R – Não, eu me formei, mas foi assim, eu queria fazer engenharia mas aconteceu algumas coisas na vida da gente que às vezes desvia a gente do roteiro que a gente quer, aí não deu certo, aí eu fiz Magistério mas aí eu não quis lecionar não, aí foi quando apareceu a oportunidade de trabalhar na ETUSA, aí eu fui trabalhar, acho que já era hora de ser independente, de ter o meu dinheiro e de governar a minha vida, e também papai não andava muito bem de saúde, ele teve sempre problema de insuficiência cardíaca e renal, então eu falei: “Já é hora de ajudar meu pai”. 

 

P/1 – E na ETUSA, a senhora foi fazer exatamente o que?

 

R – Quando eu iniciei na ETUSA trabalhava na PS, no posto de serviço, aí depois eu passei pra sala de tráfego. Eu trabalhava na PS e na sala de tráfego também.

 

P/1 – E qual era a sua atividade, o processo do trabalho qual era?

 

R – Do PS era atender as pessoas que iam falar interurbano lá na telefônica mesmo, na empresa telefônica, e lá na sala de tráfego eu fazia as ligações interurbanas, naquela época era difícil, porque era tudo linha física aquilo lá, quando dava defeito ninguém falava.

 

P/1 – E as ligações demoravam muito a ser completadas?

 

R – Demoravam, porque todas as ligações que Uberaba fazia tinha que passar o bilhete pra Uberlândia, tudo que era ligação, falava: “Uberaba, número tanto de tal pra Uberlândia, número tanto ou pra Campina Verde” ou outras localidades tinha que passar e depois a telefonia de Uberlândia a hora que ia conseguindo as ligações lá ela passava pra gente o atendimento, a gente colocava o assinante de Uberaba, na linha o cliente e colocava pra falar.

 

P/1 – Certo, isso costumava... Por exemplo uma ligação daqui pra Uberlândia demorava o que?

 

R – Daqui pra Uberlândia talvez não demorasse muito não, mas pra outras localidades demorava mais, tinha ligação que dava seis horas de demora, as vezes não falava de jeito nenhum porque vai superior de seis horas, quer dizer, a gente passava isso pro cliente superior a seis horas, quer dizer, naquele dia não falava, só se fosse de madrugada, às vezes, quando voltasse o circuito, se o circuito tivesse...

 

P/1 – E as vezes o cliente ficava meio exasperado com isso?

 

R – Claro, aí era hora, xingava, falava palavras que até ofendia.

 

P/1 – E como tratar numa situação dessa?

 

R – Quando o cliente ficava assim muito nervoso a gente passava ele, encaminhava ele pra telefonista chefe, aí a telefonista chefe dava um jeito de acalmar, conversar com ele, tinha que dá um jeitinho dele acalmar, mas sempre tava lá perguntando se o defeito já tinha sanado, se ele podia falar, então era difícil, hoje tem uma facilidade muito grande, as pessoas ainda acham que demoram muito.

 

P/1 – Não viram nada, né, Dona Rosa. Dona Rosa, numa ligação mais longa como é que era o procedimento, a senhora tinha que fazer ligações pra cidades diferenciadas? Eu queria ligar pro Rio de Janeiro, como eu fazia?

 

R – Quando eu comecei a trabalhar na ETUSA, nós falávamos com o Rio de Janeiro, São Paulo, foi na época que a Embratel começou a trabalhar com os canais, tinha um circuito pra Brasília, então nós falávamos com o Rio de Janeiro, São Paulo via Brasília olha o tanto que dava volta, e também era desse jeito, passava o bilhete pra elas e elas iam chamando de acordo com o horário que a pessoa pediu, enquanto tivesse na fila, então ia colocando os bilhetes por horário, por data de registro de horário e aí elas iam chamando, quando ia dando passagem pras ligações e a vez da pessoa chamava, dava sinal pra gente no circuito e a gente atendia e ele falava: “Ó, to dando PA”, quer dizer que tá dando passagem pra ligação do número tanto de tal de Uberaba, então a gente acionava o telefone do cliente de Uberaba e colocava ele na linha e falava.

 

P/1 – E se o cliente resolvesse falar durante uma hora ao telefone os outros atrasavam tudo?

 

R – Falavam, não podia cortar, é por isso que demorava muito, às vezes.

 

P/1 – E tinha códigos a serem usados, tinha uma fraseologia que usava, como é que era?

 

R – Tinha, telefonista tinha que usar, PA, esse aí é código de telefonista pra telefonista, PA é pronto para atender, a gente já deve ter esquecido alguma coisa e o que mais que tinha... Então quando falava PA a gente colocava o horário no bilhete e pronto para atender, aquela horário a pessoa começou a falar, PE acho que a pessoa não foi encontrada e assim, o que mais, acho que eu já esqueci, também passa tanto o tempo. De noventa pra cá eu já não trabalhei mais em departamento de tráfego porque foi em noventa que Uberaba encerrou as atividades de trabalhar com circuito, aí quem estava atendendo era Uberlândia, passou pra Uberlândia, Uberlândia que fazia serviços dessas cidades que não tinha DDD.

 

P/1 – Mas aí ainda nesse momento da ligação intermediado pela telefonista, como a senhora conseguia amainar a situação do cliente que tava com pressa pra fazer, tava querendo falar rapidamente e não conseguia, na verdade eles tavam falando com a senhora, como é que a senhora driblava esse...

 

R – A gente tinha que usar através das fraseologias, a gente tinha que usar e fazer com que ele entendesse que não tinha condições dele falar porque tava com defeito os canais pra aquela localidade.

 

P/1 – Como é que a senhora controlava as tarifas, como é que a senhora tarifava as ligações?

 

R – Quando o cliente começava a falar nós tínhamos um relógio na mesa que marcava o início da conversa e quando ele terminava que acendia a lâmpada na mesa nós batíamos o final do bilhete, ele contava os minutos e colocava no bilhete e passava pra tarifa, se ele quisesse saber a tarifa na hora.

 

P/1 – Ele podia saber a tarifa na hora?

 

R – Ele podia saber.

 

P/1 – Isso tudo feito a mão Dona Rosa?

 

R – Tudo feito a mão.

 

P/1 – E quando tinha mais de uma ligação pra atender duas, três ligações como é que a senhora conseguia tarifar todas elas?

 

R – Bom, eu to falando as tarifas a gente passava pras telefonistas elas mesmas que tarifavam, nós não tarifávamos na mesa não.

 

P/1 – Sim, mas dava o horário do início e o horário do fim?

 

R – Horário do fim, dava os minutos e passava pra telefonista que informava a tarifa.

 

P/1 – Certo, mas nesse momento de ficar controlando o relógio não podia ocorrer de mais de uma ligação está sendo atendida?

 

R – Mas aí a telefonista tinha que ativar mesmo os reflexos dela, é audição, a visão, então você trabalhava com audição, com a visão e com as colegas de lado, porque uma registrava as ligações pra gente, então cada telefonista ali tinha um tanto de circuito que ela atendia e que ela despachava as ligações pra não haver ligações, então tudo era controlado desse jeito nas mesas.

 

P/1 – Tinha um processo pra chegar até essa posição de telefonista interurbano ou a senhora já entrou trabalhando em interurbano?

 

R – Não, nós passamos junto com um trabalho com a telefonista chefe de estudar mesmo os códigos, dela passar as informações pra gente tudo pra depois a gente ir pra mesa, aí a gente ia pra mesa com uma telefonista mais antiga e a gente ficava ouvindo ela, ela trabalhar com as pedras, abrir aquelas chaves, bater o início do bilhete, do relógio, o final a gente passava por umas duas ou três semanas ou mais ali junto com a telefonista mais antiga ou então com a própria telefonista chefe, ela ensinando pra gente, não sentava assim sem saber não.

 

P/1 – E quando a senhora sentou pela primeira vez, aquela responsabilidade o que veio pra senhora?

 

R – Ah, a gente fica apreensiva, nervosa, as vezes a gente faz até uma coisa errada, porque a gente ficava apreensiva demais, tinha que atender diretamente com a pessoa, com o cliente no fone, e a pessoa de lá não sabe se a gente é nova de serviço ou deixa de ser, ele quer ser atendido na hora e muito bem, então às vezes faz pergunta pra gente e a gente muito sem experiência tinha que entrar a telefonista chefe ou senão está com a gente uma mais velha e entrar na linha junto com a gente porque trabalhava com os dois fones, tanto ela ouvia como eu, aí ela entrava na linha e conversava com a pessoa, quando a gente não sabia responder.

 

P/1 – Antes da senhora chama-la ou ela entrava no meio da conversa?

 

R – Não, quando a gente trabalhava numa mesma posição de interurbano nós entrávamos com dois fones uma que tava comigo me ouvindo e uma com a telefonista aprendiz, não ficava sozinha não, aí só depois de meses mais ou menos que a gente ia tomando mais experiência, aí que a gente ficava sozinha.

 

P/1 – Como é que era esse ambiente de trabalho, Dona Rosa, como era sala, como que era fisicamente esse local?

 

R – Olha, tudo na vida vai modificando, na época o tráfego era assim, você vinha trabalhar quando iniciei eram oito horas de serviço, você fazia quatro horas na parte da manhã e quatro à tarde, mas o horário era rodízio. Tinha mês que você tinha que fazer plantão e era assim: a telefonista sentava, ela não podia ficar toda hora mudando de posição ela tinha que ficar ali quatro horas seguida, ela não podia ficar levantando se precisava beber alguma água, alguma coisa, vinha outra pessoa encarregada e trazia pra não poder ficar mudando de posição, era muito rígida a disciplina de telefonista quando eu entrei.

 

P/1 – Eram muitas, Dona Rosa?

 

R – Quando eu entrei devia ter umas doze telefonistas mais ou menos, Uberaba chegou a ter sessenta telefonistas, quando eu iniciei tinha doze.

 

P/1 – E onde era esse local?

 

R – Era ali em Governador Valadares, naquele prédio ali da esquina onde que vende telefone, onde tá o Pedro, era embaixo ali, tinha uma sala. Quando iniciei tinha só duas posições, uma mesa e duas posições, trabalhava duas telefonistas em cada horário e tinha uma mesa de informações de telefones da cidade, aí depois eles ampliaram uma sala no primeiro andar do prédio aí já colocaram, já tinha umas seis ou oito mesas, aí já tinha umas dez ou doze posições e aí já trabalhava mais, aí já foi aumentando, já foi expandindo, aí depois que a CTBC entrou lá e já foi expandindo, quando era ETUSA eram só duas posições, depois que a CTBC foi pra lá depois expandiu, aí já tinha acho que cinco ou seis mesas, doze posições aí já trabalhavam doze telefonistas nos interurbanos e trabalhava duas na informação de Uberaba e uma também dava atendimento nas ligações que fazia direto Uberlândia, aí a gente já tava ligando direto Uberlândia, depois que a CTBC veio pra cá.

 

P/1 – E os turnos de trabalho Dona Rosa, como era?

 

R – Aí já começou a passar pras seis horas, eram seis horas e quinze minutos, nós tínhamos que pagar os quinze minutos de lanche também rodízio, um mês você tava pela manhã, um mês à tarde, um mês a noite, um mês plantão era assim.

 

P/1 – Quando a senhora chegou pra telefônica os seus estudos foram interrompidos por causa desses horários?

 

R – Não, depois que eu passei pra telefonista encarregada que eu trabalhava no período da manhã e no período da tarde aí eu comecei a fazer faculdade, mas aí meu pai adoeceu e já não tava trabalhando mais, então eu tive que largar a faculdade porque não tava dando conta de pagar a faculdade, com despesa dentro de casa, aí eu saí da faculdade, depois eu não voltei mais não.

 

P/1 – A senhora lembra assim com exatidão no momento em que a CTBC passa administrar a ETUSA, o que sucedeu?

 

R – Olha, a CTBC começou administrar a ETUSA em fevereiro de 1971 que veio Uberaba, veio o senhor Alexandrino, veio do Doutor Luís, senhor Walter, senhor Wilson, não lembro mais quem foi, estiveram aqui em Uberaba aí depois que eles vieram pra cá que começou a ampliar, nesse tempo eles começaram a construir aquele prédio aqui do lado, o espaço físico dele ficou pronto em 1975, aí depois demorou mais um anos pra montar as centrais, aí inaugurou em 76, fevereiro de 76 inaugurou.

 

P/1 – A senhora lembra do senhor Alexandrino bem?

 

R – Me lembro, mas eu não tinha muito contato com ele não, porque ele ficava mais em Uberlândia, mas pelas oportunidade que eu tive de conhecer o senhor Alexandrino, busquei nele assim uma diretriz de vida pra gente, porque as pessoas, às vezes, acham que porque chegou uma certa idade “Ah não, vou aposentar não tô nem aí, já trabalhei muito e não quero trabalhar mais”, mas a gente viu que o senhor Alexandrino quando achavam que ele ia aposentar, cinquenta e tantos anos foi aí que ele adquiriu esse império que ele tem que hoje ele passou pros familiares dele, como a CTBC cresceu e ampliou. Pra ele não tinha sábado, não tinha domingo ele ia e enfrentava o trabalho junto com os funcionários, os empregados dele, se ele soubesse que no sábado e domingo tinha uma linha caída em qualquer lugar pegava o carro dele e ia atrás dos empregados e já ia consertar a linha, colocar o circuito pra falar, quer dizer que ele tinha um interesse muito grande que a comunicação avançasse cada vez mais e ele foi o empreendedor nisso da comunicação aqui do nosso triângulo mineiro.

 

P/1 – A senhora se lembra de algum episódio de ter vivido ou passado com ele, alguma coisa que tenha marcado a sua memória?

 

R – Não, o senhor Alexandrino eu não tenho não, mas quando a gente encontrava com a turma dos aposentados a gente tinha sempre oportunidade de conversar com os companheiros, então tinha um senhor acho que era o Benedito lá de Uberlândia que era motorista de caminhão, ele falava assim: “Rosa, eu vou muito lá na chácara”, quando o senhor Alexandrino já tava doente “Quando eu chego lá que ele ouve o caminhão chegar ele fala pro enfermeiro dele pra empurrar a cadeira de rodas até lá no caminhão”, aí o Benedito falava que quando ele via o caminhão chegar e o Benedito descer as lágrimas desciam no rosto dele de vontade de entrar no caminhão e também a trabalhar, então não é uma passagem alegre mas é uma passagem que veio o espírito valoroso que foi do senhor Alexandrino Garcia.

 

P/1 – E o Doutor Luís?

 

R – Eu tive muita oportunidade de estar junto com o Doutor Luís aqui em Uberaba, me lembro dele quando às vezes chegava aqueles caminhões de, quando ele conseguia trazer aqueles caminhões de cimento que parava lá pra construir o prédio, às vezes não tinha ninguém pra... Ele mesmo tirava a camisa, descia o caminhão e fazia o trabalho de chapa, (risos) descia aquele caminhão de cimento ajudado pelo Héber, Doutor Héber Pimenta, e assim a gente conheceu eles. Também tem um caso muito engraçado do Doutor Luís, daqueles empregados já antigos mesmo que foi da ETUSA e depois passou pra CTBC mas eles já tinham muitos anos de casa, já tem muitos anos, às vezes quando era no termino da tarde assim eles iam chegando e encostando os caminhões e as vezes eles ficavam lá embaixo rindo um com o outro, eles tinham aquela amizade. Um dia o Doutor Luís tava lá e o senhor Mota, porque eles instalavam os telefones o senhor Mota e o senhor Juscelino, então eles tinham uma brincadeira do Juscelino pegar e deitar no colo do senhor Mota. Então o senhor Juscelino vinha, deitava no colo do senhor Mota, o senhor Mota passava a mão na cabeça dele e falava: “O minha véia você tá boa? Você tá cansada?” e nisso o Doutor Luís veio e pegou eles desse jeito, o Doutor Luís falou: “Uai, mas hoje isso aqui tá bom demais hein”, mas gostou demais daquela passagem, o Doutor Luís pegar o Juscelino no colo do senhor Mota na cabeça, passando a mão na cabeça do Juscelino.

 

P/1 – Que vexame Dona Rosa, isso aí até explicar que focinho de porco não é tomada...

 

R – Mas eram amigos, eram companheiros já muito antigos, eram pessoas mais dos seus cinquenta anos cada um, tinha muita amizade, era até compadre um do outro, então tinha aquelas brincadeiras lá e a gente, como diz uma família, de tanto tempo que tava junto era uma família, já considerava uma família, né?

 

P/1 – E esse pessoal da ETUSA mais antigo, a senhora chegou a conviver com eles?

 

R – Pois é, o senhor Mota, o senhor Juscelino, o senhor Manuel Hernandez, o Dilson, Delalibra já é falecido, quem mais? Senhor Licinho também já é falecido, muita gente.

 

P/1 – A senhora diz que quando sai do tráfego a senhora passa a ser chefe do tráfico é isso?

 

R – Não, eu trabalhei primeiro como telefonista, depois como encarregada e depois quando a Paulina saiu da CTBC que era telefonista chefe aí comecei a trabalhar, exercer o cargo que ela exercia lá de telefonista chefe.

 

P/1 – Como é o trabalho de encarregada e como é o trabalho de telefonista chefe?

 

R – A encarregada fica junto ali das telefonistas passando serviço uma pra outra, junto ali, correndo as mesas ali junto.

 

P/1 – É como se fosse uma monitora assim?

 

R – É uma monitora e a telefonista chefe é aquela que é responsável por todo serviço do tráfego, pela complementação das ligações, por tudo aquilo, pela disciplina, por tudo.

 

P/1 – E a telefonista chefe também tem turnos de trabalho ou tem horário fixo?

 

R – Ela tinha horário fixo, ela entrava cedo e depois ia almoçar e retornava, saía às cinco horas da tarde, mas quando existia necessidade dela ficar ela ficava até a hora que fosse necessário ela ficar lá dentro.

 

P/1 – Mas de todo modo aí melhorou um pouco mais a sua vida, porque a senhora passou a ter um horário mais razoável.

 

R – Foi.

 

P/1 – E nessa época a senhora tinha mais alguma atividade fora da CTBC ou era só o trabalho mesmo?

 

R – Não, eu sempre tive trabalho voluntário, em trabalhar em assistência social, eu frequentava lá o grupo espírita do Euripedes Barsanulfo na parte de assistência social da casa e também na Casa do Cinza, no Templo Espírita Casa do Cinza e lá no Lar Espírita eu não tinha condição de permanecer mais tempo, mas a gente auxiliava de uma forma no momento de folga da gente.

 

P/1 – Certo, mas de todo modo era um trabalho voluntário que acaba ajudando a senhora no dia a dia?

 

R – É, e as telefonistas também de uma forma elas ajudavam também, cooperavam nas cestas básicas pra gente levar pras famílias carentes então de uma forma ou outra todas as meninas ajudavam. Eu tenho telefonistas lá hoje que continuamos amigas, companheiras e que nos relacionamos através de assistência social, de colaborar nas casas de assistência social.

 

P/1- Certo, Dona Rosa, nesse período aí do final de setenta e início dos anos oitenta a companhia cresceu muito, ela se expandiu, como isso acabou refletindo no trabalho da senhora ali na sala de tráfego?

 

R – Olha, a única coisa que refletiu era assim, sempre o que refletiu em nós era o medo do tráfego acabar, porque teve muita telefonista ali que depois que encerrou o tráfego de Uberaba elas ficaram sem, parece que ficaram sem ação, passou elas pra outro departamento, elas não quiseram mais, pediu pra ser mandada embora porque não queriam mais, elas gostavam daquele trabalho de telefonista, de estar junto com o cliente trabalhando com ele depois ficaram, como é a palavra, me fugiu, não quiseram mais.

 

P/1- Decepcionadas?

 

R – Não decepcionadas não, desmotivadas.

 

P/1 – E a senhora, como é que a senhora se portou nesse momento?

 

R – Olha, eu sempre gostei muito de trabalhar, gostava muito do que fazia e sempre fui uma pessoa alegre, satisfeita de tudo aquilo que eu faço, mas a gente tinha o coração apertado que sempre chegava aquelas notícias que como a comunicação tava avançando de uma forma rápida que não ia existir mais telefonista, então era uma profissão que todos nós sabíamos que tava perto de terminar, não ia ter mais, então aquilo, às vezes, angustiava a gente, então ficava aquele questionamento das meninas: “Será que vai acabar, o que será que vai acontecer com a gente, será que eles vão mandar a gente embora, o que vai acontecer?” Quando foi na época foi aberto para todas as telefonistas que quisessem continuar trabalhando na telefonia que tinha lugar pra elas em Uberlândia ou em outras regionais ou outras seriam conduzidas pra outros departamentos que na época era o CO, ou no DG ou no escritório mesmo na parte administrativa ou no PS no posto de serviço, muitas não quiseram trabalhar quiseram ir embora então saíram da empresa.

 

P/1 – E a senhora optou em fazer o que nessa época?

 

R – Aí eu fui pro departamento de recebimento de contas na parte de recebimento, tinha que fazer caixa, essas coisas, depósitos, então eu fui trabalhar lá junto com uma turma, as meninas que foram trabalhar junto comigo eram também do tráfego.

 

P/1 – E como era esse processo de trabalho, o que a senhora fazia especificamente?

 

R – A CTBC tinha um Banco ali mesmo, então o pessoal que não queria ir em Banco ia, e nós recebíamos as contas lá, conta atrasada, conta mesmo atual, nós recebíamos lá e fazíamos o depósito e tínhamos esse trabalho lá.

 

P/1 – Como é que era especificamente esse trabalho, chegava lá pra pagar uma conta pra senhora, o que a senhora fazia, pegava a conta e daí?

 

R – Pegava a conta e recebia a conta, e nós, naquela época, não tinha autenticação, a gente batia um carimbo de pago e colocava o nosso visto.

 

P/1 – E aí a papeleta da conta?

 

R – Ficava a papeleta da conta e nós somávamos aquele canhoto, somava tudo, fazia o depósito e o canhoto ia pra dá baixa, as vezes, telefone que tava bloqueado essas coisas pra dar baixa no telefone.

 

P/1 – E o dinheiro do caixa do dia o que fazia com ele?

 

R – Era depositado, às vezes. O Banco recebia até cinco horas da tarde, então limpava tudo, não tinha que deixar nada, dinheiro no cofre, era depositado até cinco horas, era levado por um funcionário do CTBC até o Banco do Brasil então lá faziam o depósito.

 

P/1 – E na hora de fechar esse caixa sempre dava certo ou teve dia que não dava?

 

R – Teve dia que não dava certo ou, às vezes, o Banco sumia com o depósito da gente, tinha dia que a gente ficava até oito, nove horas da noite acertando o caixa, era difícil achar, sumia canhoto ou às vezes a pessoa por distração levava o canhoto, às vezes a fila era grande demais e a pessoa levava o canhoto, aí tinha que parar pra pensar o que é que fez de errado, aí a gente ia atrás do cliente pra buscar o canhoto, mas quem trabalha com dinheiro, trabalha com o público assim ele guarda alguma coisa que ele fez de errado.

 

P/1 – Ah, tem esse negócio é?

 

R – Não, porque às vezes se você falar: “Eu dei o canhoto assim, assim”, então a pessoa começa a pensar, repassar aquilo que ela fez durante o dia, aí ela vai falar: “Eu to achando que aquele ali eu não dei, o canhoto foi junto”, aí a gente ia buscar e às vezes tava certo mesmo, isso aí é experiência também de trabalho.

 

P/1 – E como era essa relação com o assinante ali, com o cliente na boca do guichê?

 

R – A coisa virava, você já viu em Banco que às vezes a coisa tem hora, o cliente briga com os funcionários do Banco, também era desse jeito, ainda mais que era CTBC de Uberlândia.

 

P/1 – O que isso tinha a ver, Dona Rosa?

 

R – Ah tinha, você sabe que às vezes Uberaba tinha uma animosidade de Uberlândia com Uberaba, Uberaba com Uberlândia, então depois que a CTBC veio pra Uberaba nós sofremos muito, os funcionários da CTBC de Uberaba, porque sempre que o cliente vinha agredir já vinha com uma agressão mesmo, isso aqui depois que passou pra Uberlândia tá assim, então são bobeiras, mas são modos das pessoas virem agredir a gente, então achava que a gente tinha agressão e vinha agredir a gente. Certa vez eu atendi um senhor no PS e queria falar uma ligação não sei pra onde mas tava muito difícil de falar e eu acho que ele me conhecia, pior que eu cheguei, fui atender ele, ele falou pra mim assim: “Por isso que eu não gosto dessa raça de telefonista”, falou desse jeitinho, não tinha meio termo não, falou na lasca “Por isso que eu não gosto dessa raça de telefonista e ainda mais duas raças que eu não gosto é de motorista de táxi e de telefonista”, agora eu sou filha de motorista de táxi “Então eu não tô valendo nada” (risos), mas ele me conhecia por isso que ele falou aquilo, aí eu falei: “Deixa pra lá eu não vou falar nada de volta pra ele, não”, sai de perto, ele foi embora e eu não devolvi nada, não redargui nada pra ele.

 

P/1 – Mas tem hora que é difícil segurar o sangue né, Dona Rosa?

 

R – É, certa vez aquela telefonista muito antiga mesmo da ETUSA, hoje ela já é falecida, ela atendeu, naquele tempo daqueles telefones magnéticos aquilo quando dava defeito não falava de jeito nenhum, aquelas mesas que você nem imagina que mesa que é, ela atendeu um cliente de Uberaba mas ele era bravo demais, o dia que ele dirigia pro lado nosso lá de telefonista jogava tudo que era praga na gente, se pegasse a gente já tava morta e um dia jogou uma praga numa telefonista lá, ele falou: “Eu não sei porque um raio não cai em cima de vocês e não mata vocês tudo”, ele até já faleceu coitado e faleceu muito difícil, menino eu vou falar pra vocês, caiu um raio no avião dele que quase matou ele, é ele teve muito ruim, em vez dele pilotar o avião, caiu um raio em cima do avião dele e quase matou ele, mas ele era difícil, viveu muitos anos ainda pra continuar xingando nós. Um dia eu chorei, eu tava sentada assim e fui atender, atendimento de monitorar o Héber... Chegou perto de mim e eu tava chorando, “O que foi?” “Eu não aguento, olha o que ele tá falando pra mim”, ele acabava com a gente.

 

P/1 – Nossa, que figura.

 

R – Ele era impossível, coitado, o apelido dele era espeto, ó o nome… Tadinho, deixa ele.

 

P/1- Mas independentemente do espeto mais com clientes e com assinantes que tinha esse destrato, essa falta de educação, como a senhora dava volta por cima com eles?

 

R – Tinha que conversar com eles e calma, muito calma. Tinha que deixar eles falarem o que tinham que falar, não cortar a palavra deles de jeito nenhum, deixar eles falarem, aí depois que eles acabam de falar e tiravam aquele pouco de nervoso que eles tavam, eles precisavam falar urgente, e não tinha jeito de falar, então a gente esperava eles acalmarem um pouco e conversava com eles e falava com eles que o momento que o circuito voltasse a funcionar, voltasse ao tráfego, a gente ia chamá-lo rapidamente e ele ia falar, aí ele acalmava mais, mas tinha muita gente boa, muita gente educada, tinha alguns que infelizmente...

 

P/1 – Mas independentemente dessas exceções digamos assim, como as pessoas, como as comunidades enxergavam as telefonistas, como era a imagem da telefonista?

 

R – Olha, eles tinham muito carinho pela telefonista, quando chegava na época do dia da telefonista chamava desde as primeiras horas da manhã pra cumprimentar, mandavam presente pra gente, precisa ver o tanto de presente que mandavam pra gente.

 

P/1 – Que tipo de presente?

 

R – Mandavam perfume, flores, bombom, você precisa ver, roupa, blusa, mandavam muita coisa pra gente, na época de Natal a gente ganhava cestas de Natal com amêndoas com tudo quanto é coisa que a gente ganhava.

 

P/1 – Mas chegava em nome de alguém específico ou vocês dividiam?

 

R – Nós dividíamos.

 

P/1 – O dia da telefonista tinha festa?

 

R – Tinha, 29 de junho é dia dos telefônicos, então nessa época a telefônica sempre fez festa na época da ETUSA e depois na CTBC, então era uma época de festividade dentro da empresa, então nós fazíamos festa junina, convidava a família, vinha os familiares, então era uma festa assim de uma alegria e tanto. Certa vez teve uma festa junina lá no CTBC então eles me convidaram pra ser a noiva, eu era a noiva e o Dilson que vem amanhã era o noivo, o Dilson era casado com a Elma, você lembra da Elma? Você não lembra não, era advogada, ela já faleceu, aí eu falei: “Elma, mas não vai ficar bem eu vestida de noiva” “Não, mas isso é tudo festa, vamos fazer”, fui noiva e o Dilson foi o noivo e teve uma turma lá que carregava aliança sabe, umas meninas também lá, então são umas lembranças que a gente tem que a gente guarda com a gente, foi momento de alegria, é, a gente sempre teve muita festa boa lá na CTBC, a gente sempre ajudava a organizar a festa.

 

P/1 – E Dona Rosa, nesse momento que a tecnologia já começa a avançar, já começa a ver as discagens direta, o DDD começa a chegar, que papel que ficou reservado pra essas telefonistas que tavam lá no tráfego desde de sempre?

 

R – Nisso as vezes as pessoas tinham um pouco de dificuldade de conseguir, as ligações, sempre chamavam pra nós, mas aí com o tempo ia diminuindo as ligações, então a gente via, as telefonistas também foram diminuindo o quadro de telefonistas, então sempre naquela apreensão que um dia não vai precisar mais de telefonista, mas gente nós não podemos segurar progresso, quanto mais avançar melhor é, até o momento que não houve mais precisão de nós, então aí terminou o tráfego de Uberaba.

 

P/1 – Aí a senhora foi trabalhar no escritório pra receber contas e a senhora ficou nesse processo até quando?

 

R – Eu fiquei até... Foi noventa pra lá, eu fiquei até 95, 95 eu saí.

 

P/1 – Nesse período de final dos anos oitenta princípio dos anos noventa teve um processo de reestruturação muito forte na companhia, e como a senhora avalia isso?

 

R – Olha, aí foi terceirizando, o trabalho já começou a terceirização, então também aquela turma que trabalhava tudo lá em Governador Valadares ali, foi feito em outro prédio na São Benedito que era chamado 336 e o pessoal que trabalhava de rua, aquele pessoal que instalava telefone, foi tudo lá pra cima pro outro prédio lá na São Benedito e lá foi ficando assim tráfego, atendimento ao público, PS atendimento ao público, escritório, parte administrativa, mas também foi crescendo outra parte administrativa no outro prédio da São Benedito, então foi modificando demais e depois veio pessoa a terceirizar o serviço e os departamentos foram diminuindo.

 

P/1 – E o seu trabalho durante esse período estava mais vinculado a cobrança ainda?

 

R – A cobrança, aí depois começou a ser dirigido tudo pra Banco já não queria mais recebimento ali, então nós ficamos na área de PS e também nos caixas do PS, essas coisas fomos fazendo até... Aí eu aposentei.

 

P/1 – E foi uma decisão sua assim?

 

R – Quando eu tava fazendo 26 anos... (pausa)

 

P/1 – Como eu lhe dizia, como foi essa decisão de aposentar e porque, em que circunstâncias a senhora saiu da CTBC?

 

R – Olha, a CTBC tava passando por uma transformação muito grande, foi uma época em que começou a desfazer os departamentos, abrir outros departamentos, então começou a mexer muito com o pessoal, então eles começaram a ver quem já podia aposentar, porque na época mesmo que você aposentasse você não podia ficar na empresa, agora não, agora acho que pode, mas naquela época não podia, então começou a ver as pessoas que já podiam aposentar pra não mandar os outros embora, porque eles estavam naquela época de, foi quando o pessoal mais velho começou a procurar a ver o tempo de serviço, então eu mesmo procurei ver quanto tempo de serviço eu tinha, vê se já tinha condição de aposentar aí eu mesma fui a gerência da casa, “Eu já to com 26 anos de casa, já tenho tempo pra aposentar”, que eu tinha tempo especial de telefonia, “E eu vou me aposentar esse ano, eu não quero que por causa da minha pessoa, já tenho tempo de aposentadoria, mandar uma pessoa que tá iniciando agora, embora”, então eu fui e falei com Osvaldo pra me aposentar.

 

P/1 – Certo, e a senhora passou a ter algum tipo de atividade depois da sua aposentadoria, fora esse seu voluntariado assistencial?

 

R – Olha, o voluntariado que eu faço é o dia todo, eu tenho as minhas obrigações dentro do meu lar, eu faço as obrigações dentro do meu lar, eu que cozinho dentro da minha casa, porque minha mãe não dá mais conta, e na hora que eu termino as obrigações do meu lar eu vou pra Instituição do Lar Espírita do qual eu to na Vice Diretoria, então lá é um internato de crianças do sexo feminino que vivem lá, são órfãs, filhas de presidiários, então nós, eu e minha irmã, estamos lá na orientação da casa.

 

P/1 – Quantas crianças são?

 

R – Já chegou a ter cinquenta crianças lá, hoje nós estamos numa faixa mais ou menos de umas vinte crianças, porque hoje o estatuto menor da criança, já não condiz que a criança pode ficar dentro da Instituição o máximo acho que dois ou três anos, não pode passar mais do que isso. E ainda nós temos muitas crianças lá, muitas já mocinhas que ficaram lá, passou o tempo de adoção e agora tão esperando chegar a idade de maior, de dezoito anos até elas arrumarem um serviço ou ter uma independência pras elas saírem de lá, mas não sai assim sem ter uma independência, sem ter um lugar pra ir não, elas continuam lá no lar delas mesmo.

 

P/1 – E como a Instituição sobrevive, como ela consegue recursos pra viver?

 

R – O Lar Espírita de Uberaba é mantido pela Mocidade Espírita de Uberaba e também pela Associação de Apoio Mari Modesto e também pela ajuda da comunidade, Uberaba é muito fraterno, Uberaba é muito bom, as pessoas ajudam demais as casas de caridade, então a gente mantém elas em tudo, porque lá é o lar delas.

 

P/1 – Dona Rosa, se a senhora tivesse frente a frente hoje com o associado que tivesse, começar a trabalhar hoje na CTBC, o que a senhora diria pra ele?

 

R – Olha, eu falaria o seguinte pra ele, se ele quer ser um bom profissional tem que abraçar primeiro com muito amor aquilo que ele faz, porque às vezes a pessoa tem que ter amor naquilo que faz pra poder ser um bom profissional e abraçar com amor e com carinho pra luta que tá vindo aí, porque agora como a gente tá vendo não só no Brasil como em todo mundo a luta pra conseguir um trabalho, e se ele não for um profissional bom, responsável por aquilo que ele faz ele não pode permanecer principalmente dentro da CTBC, que é uma empresa de comunicação, ela tá em evidência em todo lugar, ele tem que ser um bom profissional.

 

P/1 – Dona Rosa, com essa experiência toda que a senhora tem na CTBC com a sua vivência, como é que a senhora enxerga o futuro da companhia, o que vem pela frente, o que espera aí essa empresa pela frente?

 

R – Olha, ao meu ver eu senti que a CTBC passou por uma época que houve muita transitoriedade dentro dela, não sei se a gente viveu uma época que era uma empresa onde a gente vivia junto, vivia como família e depois quando começou a viver aquela transitoriedade eu achei que ela se perdeu um pouco, mas me parece que agora estão... Como diz? Juntando tudo aquilo que ela foi pra que ela possa continuar sempre na época que eu entrei, uma empresa que hoje não pode se falar que é uma família, mas uma empresa que dá posição, que dá suporte, que dá um pouco de segurança pra aqueles que estão ali, porque é muito difícil você trabalhar e viver numa insegurança que a qualquer momento você possa ser mandado embora mesmo que você seja um bom profissional, então eu acho que a CTBC devia, todos os lugares não to falando só da CTBC, todas as empresas deviam fazer com que o empregado, o funcionário tenha mais segurança no emprego que ele tem pra que ele possa também produzir melhor, porque ele sabe que quando ele é uma pessoa confiável, ele está seguro ali, eu acho que ele produz mais, não viver nesta guerra fria que nós estamos vivendo aí.

 

P/1 – Tá certo, Dona Rosa, a senhora tem sonhos, a senhora nutri sonhos, acalenta sonhos, quer realizar sonhos ainda, que sonhos são esses?

 

R – Olha, os meus sonhos são dentro desse trabalho que eu faço hoje, desse trabalho que eu faço voluntário, como Vice Diretoria, onde eu trabalho no Lar. Eu trabalho porque eu gosto, então o que eu queria se eu tivesse uma condição monetária, uma condição melhor, aí talvez eu ampliaria mais o meu trabalho dentro da caridade, dentro da assistência social.

 

P/1 – Perfeito Dona Rosa, nós estamos satisfeitos, a senhora tem alguma coisa que gostaria de dizer e não disse?

 

R – Eu quero agradecer a CTBC pelo tanto de anos que eu trabalhei lá, que eu tive a oportunidade de trabalhar, de conviver com os amigos, de conviver com a antiga diretoria Aitusa, Dona Anita que eu sempre soube admirá-la e também com a diretoria da CTBC, o Doutor Luís que eu tive muita oportunidade de conhecer, o Senhor Valter eu não tive oportunidade de conhecer não, porque ele faleceu logo, ao Senhor Alexandrino o meu abraço, a minha homenagem, o meu carinho por esse homem que foi empreendedor da empresa que hoje cada vez cresce mais o meu abraço a todos e a todos vocês que estão aqui o meu agradecimento fraterno.

 

P/1 – Mas Dona Rosa, como a senhora se sentiu dando esse depoimento, como foi pra senhora isso?

 

R – Isso aí é muito gratificante pra nós, pra cada um de nós que ajudamos a construir esta empresa, deles terem lembrado da gente, pra gente concluir este histórico da CTBC que hoje é uma empresa falada em todo o nosso Brasil, ou até fora do nosso Brasil que eu não sei e que eu tive a oportunidade de conviver e de ser o que eu sou hoje.

 

P/1 – Então muito obrigado pela sua gentileza em atender o nosso convite. 


 

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