Busca avançada



Criar

História

Por trás dos primeiros prédios de São Paulo

História de: Braulino Valentin Jorgetti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/05/2004

Sinopse

Na entrevista, seu Braulino conta sobre o seu cotidiano em Itápolis, cidade pequena no interior de São Paulo, e como era sua relação com a sua família de imigrantes italianos. Discorre sobre como encontrou seu primeiro e único amor, casou-se e se mudou para São Paulo, buscando uma vida com mais oportunidades financeiras. Compartilha os detalhes das principais dificuldades que enfrentou, como conheceu o ofício de pedreiro e começou a trabalhar sendo autodidata. Conta sobre suas principais construções, incluindo sua própria casa e também resume o processo de ter aberto sua própria construtora, chamada Jorgetti Sociedade Civil Limitada. Mais tarde, seu Braulino foi trabalhar para a Aché, e coordenou grandes construções com uma equipe de 120 homens. Depois de anos trabalhando duro, muitas vezes sem férias ou descanso, seu Braulino se aposenta e vai morar perto da praia, desfrutando de tudo que conquistou com muita batalha ao lado da esposa, filhos, netos e bisnetos.

Tags

História completa

P/1 - Seu Braulino, para começar eu gostaria que o senhor dissesse o seu nome completo, a data e local de nascimento.

 

R - Braulino Valentin Jorgetti. A data de nascimento é 9 de setembro de 1929. 

 

P/1 - Onde o senhor nasceu?

 

R - Itápolis.

 

P/1 - É interior de São Paulo?

 

R - Interior de São Paulo.

 

P/1 - E os pais do senhor? Eram dessa região também?

 

R - Meu pai era... o nascimento dele foi de Botucatu. A mãe que eu não recordo. Acho que foi lá no Turvo, se eu não me engano.

 

P/1 - Como é que era o nome dos pais do senhor?

 

R - Meu pai era Luís Jorgetti, minha mãe Genebra Baldassa

 

P/1 - O senhor sabe como é que eles se conheceram?

 

R - [risos] Não sei nada.

 

P/1 - O senhor lembra da história do casamento deles?

 

R - Não sei, porque naquele tempo eles não contavam nada para a gente.

 

P/1 - [risos] É verdade.

 

R - E os pais dos pais do senhor, quer dizer, os avós do senhor, o senhor sabe um pouquinho da história deles?

 

P/1 - Olha, a história deles é muito pouco, porque eu era criança. Da parte da mãe eu conheci o finado avô e a finada avó. Da parte do pai eu conheci só o vô, porque a vó já tinha falecido, acho que talvez nem existia. 

 

P/1 - E eles eram brasileiros?

 

R - Não, eram italianos, os avós eram italianos. O pai e mãe são brasileiros.

 

P/1 - E o senhor sabe por que eles vieram para o Brasil?

 

R - Eles vieram naquele tempo da imigração, com o entusiasmo de ganhar dinheiro aqui.

 

P/1 - Dos avós que o senhor conheceu, de qual é que o senhor tem mais lembrança, como era o nome dele?

 

R - O que eu mais lembrei foi do Caetano e da avó, que eu não lembro o nome dela.

 

P/1 - E como era o senhor Caetano? Que lembrança o senhor tem dele?

 

R - Era um homem daqueles italianos bigodudos, sério, aquele não voltava uma palavra atrás não [risos].

 

P/1 - E ele trabalhava com o que, o senhor lembra?

 

R - Ele tinha um sítio, tinha essa planta, o café, da época que eu conheci. Aí formavam o café no sítio da avó, e fiquei lá, com o café. Café, plantava arroz, plantava feijão, plantava tudo que era o necessário para a casa.

 

P/1 - Isso lá na região onde o senhor nasceu?

 

R - Não, aí foi Novo Horizonte. Eu nasci em Itápolis, saí nenezinho de lá, dois meses, três meses, coisa assim. 

 

P/2 - Em Itápolis o senhor tinha nascido no sítio ou na cidade?

 

R - Sítio.

 

P/2 - Como é que foi? Foi com parteira que o senhor nasceu em Itápolis?

 

R - Parteira. [risos]

 

P/2 - A sua mãe conta a história do seu nascimento?

 

R - Não contava não, mas sei que foi com parteira, porque naquela época não existia médico não. [risos]

 

P/1 - Aí o senhor nasceu em Itápolis e foi bebezinho para Novo Horizonte?

 

R - Para Novo Horizonte, no sítio da avó em Novo Horizonte.

 

P/1 - E a avó do senhor, o que o senhor lembra dela?

 

R - Olha, eu lembro muito bem da avó, porque depois que o avô faleceu ela queria que eu fosse dormir com ela. E era uma mulher bem preparada, porque ela era professora. E de noite, então, eu tinha que ir lá. Toda noite eu ia dormir com a avó, para passar, acho, aquele tempo do falecimento do avô. Eu lembro muito bem dela. E eu não lembro o nome dela.

 

P/1 - Ah, mas daqui a pouco o senhor lembra. Como é que era essa casa, a casa da avó do senhor, o senhor lembra?

 

R - A casa da avó era uma casa muito bonitinha, de tijolo, com um terreiro muito grande, chamava terreiro, né? Para secagem de café. E era a casa melhorzinha. Agora a dos outros é de pau a pique, como chamam no interior. Agora a dela não, a dela era muito bonitinha. Um grande pomar, laranja, mexerica, tinha de tudo.  

 

P/1 - E ela cozinhava bem?

 

R - Cozinhava.

 

P/1 - O que o senhor gostava que ela fazia?

 

R - [risos] Acho que tudo que ela fazia era bom.

 

P/1 - O senhor disse que ela era professora. Foi ela que ensinou o senhor a ler e a escrever?

 

R - Não, nesse tempo não. Porque uma que ela falava o português muito mal, ela enrolava muito o português com o italiano, e tal. 

 

P/1 - O senhor dormia com a avó do senhor e morava...

 

R - Pegado, assim, daqui... pouco mais do que daqui na rua. 

 

P/1 - E essa casa dos pais do senhor como é que era?

 

R - De pau a pique. 

 

P/1 - Pau a pique. Era grande?

 

R - Ah, sim, isso... grande era. Tinha três, quatro quartos, cozinha lá separada no fundo.

 

P/2 - Era de chão batido?

 

R - Chão batido. Já da finada avó era com tijolo. Tijolinho colocado no chão, já era mais diferente, o nosso era mais simples.

 

P/2 - Tinha cama, seu Braulino?

 

R - Tinha.

 

P/2 - Não era rede nem esteira, não, era cama?

 

R - Cama mesmo. Nós sempre tivemos cama... nós chamávamos cama patente.

 

P/2 - Como é que era?

 

R - Eram uns tubos redondos assim, de madeira, muito bonito. Isso o pai sempre caprichou. Agora, o colchão era de palha. [risos] De palha.

 

P/1 - Quem é que morava nessa casa?

 

R - Na nossa casa?

 

P/1 - É.

 

R - Nove irmãos.

 

P/1 - Como é que eles chamam?

 

R - Começar do primeiro. A primeira era Jesuína, o segundo Alberto, o terceiro João, o quarto Percínio, quinto eu, sexto Vitor, Vitorino, sétimo Otávio e o oitavo Vandir. Agora tem um falecido no meio... Ah, falta o Dorival e não está nem na sua lista aí, Dorival. Dorival seria depois...

 

P/1 - E como é que era a vida nessa casa? Tanta criançada ali naquela casinha? Como é que era?

 

R - Olha, era uma vida dura, viu? Era uma vida muito dura. Vida muito dura, não tinha conforto nenhum em casa, nós não tínhamos conforto. Lá não se tinha chuveiro, não se tinha banheiro. Banheiro era um buraco lá no fundo. A vida nossa foi uma vida bem...

 

P/2 - Como é que vocês tomavam banho, seu Braulino?

 

R - Na bacia. Enchíamos uma bacia de água, puxávamos água no poço, esquentávamos outra lá no fogo e tomávamos banho na bacia. [risos]

 

P/2 - E nos dias frios?

 

R - Ah, era a mesma coisa.

 

P/1 - E o senhor lembra... o senhor participava do trabalho com o pai do senhor?

 

R - Participava.

 

P/1 - Ia junto para a roça também?

 

R - Ia junto todo mundo para a roça. Eu ia, e tinha... os mais pequenos ficavam em casa. Aí quando crescia um bocadinho, sete, oito anos, já ia para a roça.

 

P/1 - Fazer o que exatamente?

 

R - Colhia café, colhia arroz, carpia... carpinar chama, né? Fazia um pouquinho de tudo. A gente fazia muito pouco, mas tinha que ir. 

 

P/1 - A terra era do pai do senhor mesmo?

 

R - A terra era da finada avó, e nós éramos meeiros. O que colhia, metade era da avó, metade era nosso. O café. Agora cereais não, cereais, o arroz, o feijão, o que colhia era da gente. O que sobrava, vendia. E o café se repartia.

 

P/1 - E o pai do senhor, como é que ele chamava?

 

R - Luís Jorgetti. 

 

P/1 - Como é que era o pai do senhor?

 

R - Era um homão de um metro e 96 de altura, meio bravo, [risos] e ele gostava muito era de... ele não gostava muito da roça não, ele gostava era de comprar vaca, matar no sábado, tinha lá o matadouro dele lá, ele matava vaca, mas ele ia trabalhar também. 

 

P/1 - Quem é que trabalhava na roça?

 

R - Ah, olha, pegava desde a irmã até eu, que seria... abaixo de mim ainda tem três, e ia todo mundo.

 

P/1 - E a mãe do senhor, como é que chamava?

 

R - Genebra Jorgetti. Genebra Baldassa.

 

P/1 - E ela fazia o que no seu dia a dia?

 

R - Ah, ela cuidava da casa, coitada. Da casa, dos pequenos, fazia comida, ia levar para nós lá na roça.

 

P/1 - Como é que era a mãe do senhor?

 

R - Minha mãe era baixinha, bem loirinha, assim, e muito boa.

 

P/1 - Era brava também?

 

R - Não, a mãe não, a mãe era um doce. O pai era bravo.

 

P/1 - E nessa época o senhor chegou a ir à escola?

 

R - Eu fui na escola depois que nós viemos para Urupês, eu já era mocinho. Mas ia... chamava Tuia, Tulha, era Tuia mesmo, onde se guardava mantimento. E vinha uma professora da cidade, e nós íamos à noite. Ela dava aula durante o dia para os pequenos e nós, como tínhamos que trabalhar, íamos à noite, íamos com uma lamparina na mão. Foi assim.

 

P/1 - E como é que era? Tinha uma cadeira, tinha caderno?

 

R - Tinha uma... chamava de carteira. Cabia dois alunos em cada carteira. Era arrumadinha a salinha, só que não tinha iluminação. Tinha que levar a lamparina, quando não caía o querosene em cima do livro, [risos] estragava.

 

P/2 - E senhor Braulino, apesar de vocês trabalharem sempre na roça, sobrava um tempinho para brincadeiras quando eram pequenos?

 

R - Ah, sim, nós jogávamos bola. E eu jogava até bem. Até eu era... eu joguei em Catanduva, joguei em São José do Rio Preto, joguei em Novo Horizonte. Nós éramos do interior, mas eles escolhiam os melhores e chamavam. Porque lá não era um time formado, que nem o Novo Horizontino. O Novo Horizontino já foi um time criado pelo Gino Biasi, aí ele pagava, ganhava ordenado. Nós não, nós éramos voluntários. Dizia "Você não quer jogar com nós?" Nós íamos. O divertimento da gente era baile e dançar aos sábados, e no domingo jogar bola.

 

P/2 - Desde pequeno o senhor jogava bola?

 

R - Desde pequeno. Quando não era no campo era no terreiro. 

 

P/2 - E que outras brincadeiras?

 

P/1 - Com os irmãos do senhor?

 

R - Ah, juntávamos os vizinhos aí, ficávamos contando lorota. A namoradinha, olhando para as mocinhas,  tal.

 

P/1 - A primeira namorada o senhor lembra?

 

R - A primeira namorada foi minha esposa.

 

P/1 - Ah, é? E como é que o senhor conheceu ela?

 

R - Conheci junto lá, na mesma fazenda. Aí, como era bailinho, tal, ficamos conhecendo, começamos a namorar. Até casamos muito novos, porque eu vim embora. (Aí nós acabamos que... aí chamava... uma empreita que nós pegávamos para... derrubou o mato, e daí a gente... O pai lá contratou... era várias famílias, e justo a família da minha esposa.?) E derrubou o mato, pôs fogo naquilo, depois plantou café. Em quatro anos era tudo nosso. O que a gente colhia, só que nós tínhamos que deixar o café formado. Quando saímos de lá, já deixou o café na minha altura, ainda colhemos um pouco de café. Agora colhemos muito foi arroz. Nossa, arroz... chegamos a colher mil sacas de arroz.

 

P/1 - Como é que era a colheita de arroz?

 

R - Ah, ia lá, aquelas carreirinhas, cortava com ferro... chamava ferro, ia pondo os montinhos, os mais pequenos ia levando lá no malhador, chamava, uma esteira de pau, com um pano lá na frente, batia em cima e o arroz caía embaixo. Quando ele estava madurinho...

 

P/1 - Aí pegava o arroz...

 

R - Aí à noite a gente ensacava aquilo tudo e trazia para casa. Trazia quase à noite.

 

P/1 - Essa empreitada que o senhor falou foi em qual região, seu Braulino?

 

R - Foi em Urupês, chamava Bareron.

 

P/1 - O senhor foi para lá já casado?

 

R - Não, eu fui para lá eu tinha 15, 16 anos. Aí fiquei até os 20, me casei e vim embora para São Paulo.

 

P/1 - Os bailinhos que o senhor citou, como é que era esses bailinhos?

 

R - Ah, era gostoso! [risos] 

 

P/1 - Que tipo de música?

 

R - Ah, o sanfoneiro vinha lá, as músicas da época, o que ele sabia tocar.

 

P/2 - O senhor lembra de alguma?

 

R - Lembro. A última música do meu casamento foi Asa Branca.

 

P/2 - O senhor saberia cantar um trechinho?

 

R - Ah, não, não sei não. Nós dançamos todos os irmãos, isso era o baile.

 

P/1 - Isso no casamento?

 

R - É, no dia do casamento.

 

P/1 - Como é que foi esse casamento? Foi aonde?

 

R - Lá no sítio mesmo.

 

P/1 - No sítio?

 

R - É.

 

P/1 - Foi um padre lá?

 

R - Não, nós fomos na cidade, fomos com o carro, alugamos o carro. Foi na cidade, casei no civil de manhã, às nove horas, e acho que meio dia, duas horas casei na igreja... Não, de tarde foi na igreja. Quando viemos para casa já era tardezinha. Aí tinha aquela festa... 

 

P/2 - Matou um bezerro ou não?

 

R - Nossa, matamos 60 e tantas cabeças de frango, mais um boizinho, mais um cabrito. Cerveja, então, eram ______. Só que não tinha nada gelado, tirávamos ela do saco, dentro de uma palhazinha que vinha as garrafas, tomávamos sem gelo, sem nada. Foi uma grande festa. Peru...

 

P/1 - O que mais?

 

R - As festas lá eram assim, não eram que nem hoje, que fazem bolo não. Lá matava boi, matava cabrito. O padrinho nosso deu um boi e três cabritos, o padrinho de casamento. Ele era administrador da fazenda.

 

P/2 - Era o presente de casamento?

 

R - Não, ele dava depois um presentinho também. Mas isso aí ele deu por conta dele.

 

P/1 - E a música, como é que foi? Tinha um sanfoneiro, o que mais?

 

R - Sanfoneiro. E tinha bailinho também que o indivíduo tocava com o violino também, tocava bem.

 

P/1 - E quando chegou a vez da Asa Branca...

 

R - Foi a última música do baile. Já estava quase acabando, então tocou, dançaram todos os irmãos. Aquele que era casado dançou com a esposa, e o solteiro dançou com as namoradas, com as moças. 

 

P/1 - E como é que foi a roupa de casamento do senhor, o senhor lembra?

 

R - Um terno azul marinho. Isso eu lembro bem, camisa branca de gravatinha. Está aí na foto. 

 

P/1 - Foi o primeiro terno do senhor esse?

 

R - Foi o primeiro terno. [risos] Porque lá passava muito dos mais moços para os menores.

 

P/1 - E esse terno veio de quem? Mandou fazer?

 

R - Mandei. Não, mandava fazer no alfaiate em Urupês. Era pertinho Urupês. Bom, nós falávamos pertinho, era sete quilômetros do sítio a Urupês. Nós íamos nas festas, no sábado, nós íamos lá para o jardim, ficávamos lá namorando, vendo as mocinhas, encontrando os amigos [risos]. 

 

P/1 - Quanto tempo o senhor namorou com a esposa antes de casar?

 

R - Acho que uns três anos.

 

P/1 - E como é que era o namoro daquela época?

 

R - Eu ia na casa dela, sentávamos um perto do outro, ficávamos conversando, o velho e a velha ficavam aí, depois iam dormir, nós ficávamos os dois aí... O namoro era bem diferente de hoje. 

 

P/1 - E o senhor era romântico?

 

R - Eu acho que não, eu nunca fui romântico não. [risos] 

 

P/1 - E depois que o senhor se casou foi morar aonde, seu Braulino?

 

R - Eu vim aqui para o Planalto Paulista. Eu fiquei na mesma casa de junho a setembro. Dez de setembro nós viemos, do mesmo ano, nós viemos para São Paulo. De 1949. Eu casei em junho, dia 16 de junho, 10 de setembro nós viemos para São Paulo. Aí vim para o Planalto, perto do aeroporto de Congonhas. E eu estou até hoje aí no Planalto, lá na casa dela. 

 

P/1 - Como é que foi essa chegada na cidade grande?

 

R - Olha, nós chegamos era um nevoeiro que não se via nada. Aí tinha um irmão que já estava morando... porque nós já viemos na nossa casa. Isso que foi muito bom para nós, já tinha a nossa casa prontinha. E de manhã, quando levantamos no outro dia, só ouvíamos barulho lá no aeroporto aquecendo o motor dos aviões. Era... naquele tempo era o São Paulo da garoa ainda.

 

P/1 - Quem é que tinha construído essa casa que vocês iam morar?

 

R - Olha, eles pegaram uns pedreiros e quem tomou conta foi meu tio, o irmão do meu pai. Ele morava na Vila Mariana, então ele contratou um homem lá de confiança, um pedreiro muito bom, fizeram o desenho lá, e aí construíram a casa.

 

P/1 - E quem é que se mudou para São Paulo? O senhor...

 

R - O Alberto, que mudou primeiro. Mas o Alberto foi até morar com esse meu tio na Vila Mariana. Aí depois que aprontou a casa, ele veio para a nossa casa. Aí chegamos nós, eu e a mulher, e mais três irmãos solteiros. E a minha mulher que cuidou da casa quase três anos, aí depois veio a mãe, o pai e os dois menores.

 

P/1 - Aí morava todo mundo junto?

 

R - Não, aí eu já fiz a minha casinha do lado. Tinha outro terreno vazio, eu mesmo construí. Já tinha pegado a prática de construir, e eu mesmo fiz a minha casinha. Fiz um quarto e cozinha, depois aumentei uma salinha, e foi indo.

 

P/2 - Senhor Braulino, quando o senhor chegou em São Paulo o que foi a coisa que mais impressionou o senhor? O que era mais diferente?

 

R - Olha, o que mais me impressionou foi não ter emprego e não ter documento. Foi duro, eles queriam me prender na quarta série aqui, porque eu era (sobremisso?). Eu falei: "Não, não sou (sobremisso?)." Porque tinha um tal de sargento Garcia que era ruim demais. Nós chegávamos no pátio lá, duas, três mil pessoas, ele abria o braço assim, ia empurrando, ia derrubando a gente lá embaixo no meio das bananeiras, na cerca de arame. Até que um dia eu aborreci, falei: "Então me prende hoje já de vez." Porque eu tinha uma carta do delegado de Urupês, como eu não era (sobremisso?), porque na zona do café ninguém servia o governo. Aí ele falou: "Então você vai falar com o chefão lá em cima." Não sei se era coronel, o que que era, um homem cheio de estrela lá. Eu falei: "Eu vou." E subi a escada. Isso levou quase dois anos, essa luta, para eu tirar carteira de reservista. Aí eu falei... foi lá, ele me atendeu direitinho, mostrei o papel, ele falou: "Desce lá embaixo e faz a ficha." Aí fui lá, o rapazinho fez minha ficha, paguei um cafezinho para ele, já tirou quase o dinheiro meu do bonde, viu? Aí mandou eu ir depois de uns 20 dias, eu fui, a reservista não tinha saído, foi depois de mais um mês ou 20 dias. Aí fomos jurar bandeira. Aí, peguei aquela cadernetinha, falei: "Graças a Deus!" Aí não tirei carteira de trabalho, porque não tirava carteira de trabalho sem a reservista. Aí tirei todos os documentos, aí tirei a identidade, o CIC. Mas foi duro, vir numa cidade grande, sem profissão, caipira, que nunca tinha visto uma cidade desse tamanho. E sem profissão por cima, casadinho, uma responsabilidade, logo a mulher engravidou.

 

P/1 - E por que o senhor decidiu vir para São Paulo?

 

R - Olha, nós já estávamos mesmo para sair de lá, porque o irmão já tinha vindo, e os irmãos do meu pai moravam todos na Vila Mariana. E o pai vinha, de vez em quando ele vinha. Uma pessoa ficava doente lá, às vezes os médicos pediam: "Tem que levar para São Paulo." E era meu pai quem trazia, vinha acompanhando eles. E esse mais velho, o Alberto, ele casou depois de uns três anos, ele falou: "Eu vou para São Paulo, não vou ficar na roça mais, não." Aí ele veio. Ele veio dois anos antes do que nós.

 

P/2 - Estava difícil a situação lá na roça?

 

R - Não estava difícil. Mas era uma situação que nós terminamos a empreita, ir para onde? Teria que procurar outro lugar. E nós já tínhamos um dinheirinho, que naquele tempo já nós tinha mais de cem... não sei se era real naquele tempo... Ah, era o mil réis. Então, deu para nós comprarmos três lotes aqui em São Paulo, já viemos na nossa casa. Aí o meu irmão logo fez a dele também, fez os quartinhos para mim. Mas foi duro.

 

P/2 - O senhor já conhecia o ofício de pedreiro quando o senhor chegou aqui?

 

R - Eu não conhecia nada. E tive um amigo que morava pertinho de casa, e tinha pouca casa no planalto naquele tempo. Ele já veio já fazer amizade com a gente, gente simples. Ele falou: "Não, você vai trabalhar comigo. Você tira o seu documento e vem..." E eu estava tirando o documento, e fui trabalhar com ele. Aí fui cavar terra lá. Também já foi lá na Praça da Árvore, já comprou colher para mim, tal, e falou: "Ah, mas aprende num instantinho." No fim das quatro casas lá eu já era o oficial praticamente, já comecei a colocar piso e azulejo. E eu tinha muito boa vontade, viu? Que eu gostava lá no interior, eu ficava fazendo coisinhas, mesa, cadeira, eu fazia, eu empalhava. Eu empalho cadeira de qualquer jeito, com taboa, com palha de milho, fazia aquilo, gostava de fazer. Pegava a plaininha lá, o serrote e ia fazer. Cortava cabelo dos amigos, [risos] trabalhando.

 

P/1 - E a casa do senhor o senhor construiu logo que chegou?

 

R - Logo em seguida, o quarto e cozinha. Aí eu comprei um lote na Alameda dos Guatás, comprei um lote de 10 por 50, aí fiz uma bela casa.

 

P/1 - Como é que era essa casa?

 

R - Essa casa era uma casa muito bonita, de frente era, assim, um vitrô total, uma porta, duas portas de abrir, toda a fachada era de tijolinho de pedra mineira cortada, assim, e virada de corte, assim, tudo frizadinha, imitando uma lareira no canto, muito bonita. Uma sala de 48 metros quadrados, tipo L. Aí eu tinha um banheiro de visita, mais outro banheiro e mais três dormitórios, e cozinha... copa e cozinha. E depois fez... tinha os fundos ainda, que tinha a garagem, lavanderia e quarto de empregada, e um banheiro.

 

P/2 - A mulher ficou feliz?

 

R - Nossa! Mas chegamos a sentar no chão, porque não tinha móveis para pôr. 

 

P/1 - Essa casa de que época que é, o senhor lembra?

 

R - Essa casa devia ter sido em 60, por aí.

 

P/2 - Os filhos já estavam nascidos, seu Braulino?

 

R - Já, tinha os dois. Ela ia comigo, nos domingos ia colocar porta, ela ficava lá, arrumava lá no chão para ela... deitava as crianças e levava a marmitinha para nós comermos, eu com a mulher, e ia colocar a porta, ia fechando a casa.

 

P/1 - Depois daquele primeiro serviço que o senhor fez de pedreiro, como é que foi o trabalho do senhor?

 

R - Olha, eu comecei numa firma, chamava Genario Nicastro, Consultora Nicastro. E eles, como a gente é descendência italiana, eles gostavam demais de mim, porque eu nunca fui de embrulhar não. Eu sempre chegava e... E eu era muito curioso para ver os desenhos. E eles deixavam eu ver, me explicavam. Ah, num instantinho eu peguei, dentro de dois anos eu era mestre, já tomando conta de casa. Com quatro anos, cinco anos eu abri firma.

 

P/1 - Como é que chamava essa firma que o senhor abriu? 

 

R - Era Braulino Valentin Jorgetti o nome da firma. Depois, passado uns anos, como o meu nome foi subindo, então o guarda-livros falou: "Nós vamos mudar, vamos fechar essa firma e abrir Construtora Jorgetti... Sociedade... espera aí... 

 

P/2 - Não tem importância se o senhor não lembrar.

 

R - Aí abriu uma construtora. Aí eu trabalhei muito aqui no Alto de Pinheiros, os terrenos da City aí, casas finas, Pacaembu. Depois no fim eu fui trabalhar na Móoca, fazer prédio. Na Móoca fiz três prédios com a Preditex. 17 andares, dois de 13 e um... Daí... não, antes desse tempo eu conheci o pai do seu Vítor.

 

P/2 - Desculpe interromper, só para fazer uma perguntinha para o senhor, a gente já retoma esse contato com o Aché. O senhor começou a construir prédios numa época em que São Paulo tinha poucos prédios. 

 

R - Aí foi anos depois. Depois que eu tinha a firma de Braulino, aí era empreiteiro, fazia casas térreas. Mas passados os anos que o guarda livro falou: "Não, vamos fazer uma construtora, Construtora Jorgetti Sociedade Civil Limitada." 

 

P/2 - Mas o senhor lembra de São Paulo sem prédios?

 

R - Olha, quando eu vim para São Paulo existia o prédio Martinelli, já estava se fazendo o Banco do Brasil, que é pegado aí, tinha poucos prédios. Tinha também aí onde era o cine do Scuratti, o cine Marrocos, que de frente era o Mappin, a Light, já tinha prédios aí.

 

P/1 - E como era a vida em São Paulo nessa época? Era bom, senhor Braulino?

 

R - Aí foi melhorando, mas eu trabalhava muito. Trabalhava muito.

 

P/1 - É? Mas o dia a dia, assim, o senhor veio do interior e encontrou uma cidade grande. Como é que o senhor foi descobrindo a cidade? Andava de bonde?

 

R - De bonde, de paletozinho, não ia trabalhar sem paletó, não. 

 

P/2 - Chapéu?

 

R - Ia de bonde, chapeuzinho. [risos] E depois, passado uns anos, eu comprei carro.

 

P/1 - Comprou carro? Qual foi o primeiro carro?

 

R - Foi um Fordinho 46, depois passei para um 48, depois passei para um 51.

 

P/1 - E ia passear aonde nos fins de semana?

 

R - Nós íamos muito no cinema. Porque eu trabalhei com a empresa de cinema brasileira, eles tinham 21 cinemas. Eles me deram uma carteirinha, como eu era funcionário da empresa. Ah, no sábado, sábado e domingo, ia no cinema duas vezes. 

 

P/1 - O senhor lembra do primeiro filme que assistiu? 

 

R - Ah, não lembro. 

 

P/1 - Da primeira vez que foi ao cinema, o senhor gostou?

 

R - Eu gostei demais. A primeira vez que eu fui no cinema foi em Novo Horizonte. Que eu ia operar de apendicite em Catanduva, e à noite eu fiquei lá, então me levaram, para me distrair um bocadinho, no cinema. Agora o filme eu não lembro não. Eu sei que achei uma coisa muito interessante.

 

P/2 - Mas os filmes que o senhor via aqui em São Paulo, que tipo de filme que era? De amor, de guerra?

 

R - Ah, eu vi muitos filmes, viu?

 

P/2 - De cowboy?

 

R - De cowboy, gostava muito de ver esses filmes dos marinheiros, aqueles piratas da perna de pau. Bom, é difícil lembrar os nomes. 

 

P/1 - E as crianças iam junto, seu Braulino?

 

R - Não, ficavam em casa com a mãe.

 

P/1 - Ah, o senhor ia sozinho.

 

R - Eu e a esposa.

 

P/1 - Ah.

 

R - Mas no cinema que eu tinha carteirinha só entrava eu, se a esposa ia junto eu pagava. Então, tinha o cine Sabará na Vila Mariana e tinha o cine Estrela na Praça da Árvore. Então, nós íamos na Praça da Árvore, depois no domingo eu ia no Sabará. [risos] 

 

P/1 - E com as crianças? O senhor chegava em casa e brincava com elas?

 

R - Não tinha tempo. Eu via meu filho só no domingo. Porque eu chegava em casa, ele estava dormindo. Eu saía logo cedo de manhã, deixava ele dormindo. No domingo pegava a bicicleta, ia andar com ele. Esta aqui era mais pequeninha.

 

P/1 - Andar aonde? Ali no bairro?

 

R - No bairro, no campo de futebol, ia jogar futebol no Palmeirinha. Levava ele lá.

 

P/2 - Em que ano o senhor chegou em São Paulo mesmo, seu Braulino?

R - 49. No fim, né?

 

P/2- O senhor lembra das comemorações do quarto centenário da cidade?

 

R - Lembro, ô!

 

P/2 - Como é que era?

 

R - Bom, eu não participei praticamente de nada. A minha esposa que foi com o vizinho de frente, que chamava Paulo Geraldo, até ele fez vários cinemas com a moça lá, Vera Nunez parece. Eles foram ver a queima de fogos do quarto centenário. Foi muito bonito.

 

P/2 - Quando foi?

 

R - Ela foi, eu não. Eu estava trabalhando.

 

P/1 - E o senhor foi vendo a cidade mudar, né, seu Braulino? O senhor foi construindo...

 

R - É, foi acompanhando a evolução, foi indo, foi indo. Como ela disse: "Tinha prédios." Aí depois eu fui fazendo prédio também. Eu fui lá para a Paes de Barros, a Avenida Paes de Barros, no Alto da Móoca, aí lá comecei a fazer prédios. Aí depois eu fui para o Aché.

 

P/1 - Como é que foi essa chegada do senhor no Aché? O senhor conheceu o senhor Jonas...

 

R - Olha, enquanto eu tinha firma... antes da Construtora Jorgetti, que era Braulino Valentin Jorgetti, eu estava construindo de frente o clube sírio de cá, o libanês, na Avenida Indianópolis. Eu estava construindo quatro sobrados aí, e o pai do seu Vítor passava lá de carro, e ele viu o serviço meu e gostou. Então, ele tinha um terreno quase de frente. Então ele me convidou para eu fazer a casa. Aí fiz o orçamento, nós combinamos. E eles gostaram do meu serviço. O seu Vítor ainda era moleque de... era garotão de colégio. E aí foi indo, de vez em quando ele vinha visitar a gente lá em casa, ele e a esposa dele. E pegamos amizade. Mas eu não conhecia o seu Vítor. Via, assim, quando eu estava construindo a casa, que ele era garotão, que ele ia para o colégio. E daí foi trabalhando, foi trabalhando, virei para a firma construtora, fui lá para a Móoca. E ele veio na minha casa, aí quando o Aché ia fazer, ele falou, eles queriam um mestre bom. Então ele falou: "Tem que ser o seu Braulino." E ele veio lá em casa: "Braulino, o Aché vai fazer uma obra, uma obra enorme", ele falava. "Um serviço muito grande, muito... concreto aparente, tal. Nós queremos que você vá para lá." E eu estava mesmo fechando a firma, porque eu trabalhava na Móoca com aqueles turcos lá, não ia bem, eles são muito duros para pagamento. Aí eu acabei de construir, até eles me deram uma mãozinha lá: "Fecha a firma, e tal." E eu fui, fui para o Aché.

 

P/1 - Como é que foi a primeira vez que o senhor pisou lá no terreno da Dutra?

 

R - Olha, primeiro foi no laboratório lá na rua Nova dos Portugueses, aqui no... Chora Menino. Aí conversei com o Rafael, nós combinamos, no dia seguinte o seu Jonas que me levou lá. Quando eu vi aquele varjão lá...! Mas não tinha nem desenho para eu ver, nada. E eu fiquei lá, eu e o guarda, ouvindo música o dia todo, até que chegou. Chegou o topógrafo lá, me deu os alinhamentos, tirou o alinhamento da Dutra, deu o esquadro para mim, ele falou: "De tarde eu volto para nós marcarmos a obra." E estava o pai dele junto comigo. Eu falei: "Eu não vou esperar amanhã coisa nenhuma. Eu marco é já." Aí já fui enfiando os pauzinhos do lado, quando ele voltou a obra estava marcadinha. Falei: "Pode chamar o bate-estaca, que a gente já vai por estaca.

 

P/1 - Como estava o terreno, como é que era?

 

R - Essa parte era o campo de futebol mesmo, limpinho. Mas do lado era tudo vargem. Aonde ela chegou para trabalhar a primeira vez, assim, a dois metros era água, era um varzão, tinha peixinho, cheio de peixe. 

 

P/1 - Era um campo de futebol, e depois o resto era tudo vargem? 

 

R - Tudo uma vargem, que aí é entre a Dutra e a Marginal, aquela... a Airton Senna, né? Aí depois nós foi aterrando, chegamos a gastar lá mais de 7, 8 mil caminhões de areia, de terra. E fomos aterrando, ele foi comprando, do Roda viva, fomos aterrando. E aí saiu, saiu a primeira etapa, segunda, terceira, quarta, foi até a quinta etapa. 

 

P/2 - No começo quantos homens, seu Braulino?

 

R - Cheguei com 120 homens.

 

P/2 - Como é que era chegar lá com esse exército, coordenar toda essa...

 

R - Nossa, eu não te conto nada, viu, porque tinha dia que eu marcava, fazia ponto. E eu não tinha relógio de ponto, marcava no cartãozinho. Tinha dia que eu marcava... estava fazendo apontamento do funcionário e ele não estava trabalhando. Aí eu tinha um pernambuco, José Barbosa Leal o nome dele. Olha, para mim foi um braço direito. Ele se pegou muito comigo, era trabalhador à beça, e tudo que ele via ele me chamava a atenção: "Braulino, olha aquilo, olha aquilo, e tal." Ele falava: "Aquele fulano não vem trabalhar, aquele não vem trabalhar." Então eu falei com o Rafael: "Não está dando para mim assim não. Ou o senhor traz um relógio ou tem que ter um apontador." Aí eu levei o meu filho, o meu filho ficou um ano lá comigo, mais de um ano. Aí até... eu entrei 68, em 73 o Aché mudou para lá. Aí já me deram relógio, tudo, aí já foi diferente.

 

P/1 - O senhor começou as aulas em 1968?

 

R - 1968.

 

P/1 - O senhor chegou lá para construir o que? Qual foi a primeira construção?

 

R - A primeira etapa foi logo de frente, onde tem todas aquelas placas assim. Depois a segunda etapa foi continuação para chegar até o rio. Aí eu copiei, até foi chamada a atenção, o Rafael, o dono do Aché lá. Porque eu peguei a planta da primeira etapa e fez a segunda. Eu falei: "Isso aqui eu viro ela e faço." Toquei. [risos] O calculista pegou no pé de nós. E teve que pagá-lo.

 

P/1 - E quando o senhor chegou lá o senhor disse que lá funcionava um campo de futebol, é isso?

 

R - Um campo de futebol.

 

P/1 - Tinha a trava do gol ainda?

 

R - Tinha. A turma brincava lá ainda. Aí, quando o topógrafo chegou lá, me deu o alinhamento da Dutra e o esquadro do terreno, e eu já comecei a por madeiramento, aí acabou o campinho deles lá. Aí eu comecei a marcar, já marquei. No Natal, primeiro do ano, estava batendo estaca. 

 

P/1 - No dia de Natal?

 

R - Não, no dia não. Mas eu não saí de lá. Fiquei... acho que uns sete, oito anos que eu não tenho férias não. Ia direto. E no sábado até meio-dia.

 

P/1 - Como é que era o dia de trabalho do senhor? O senhor saía aqui de São Paulo, ia lá para Guarulhos. Chegava cedo lá?

 

R - Ah, eu chegava... seis e meia eu estava lá, começava às sete, né? Aí eu ia para arrumar as coisas da gente, desenho, ver o que ia usar no dia... deixar tudo prontinho.

 

P/2 - Seu Braulino, no comecinho, quando estava levantando o Aché 1, os senhores dormiam lá ou iam embora?

 

R - Íamos embora, só ficava o guarda. Ia embora todo mundo, não ficava ninguém. 

 

P/1 - E comiam lá?

 

R - Não, nós levávamos marmita, esquentávamos na areia.

 

P/1 - Na areia, fazia um foguinho?

 

R - Uma folha em cima do tijolo, “ponhava” areia, esquentava bem, viu? Aí “ponhava” a marmita em cima da areia, esquentava bem.

 

P/1 - E pegou dia de sol, dia de chuva?

 

R - Ah, dia de chuva nós “ponhava” lá para dentro. Nossa, eu sofri muito lá, demais. Aquela água que tinha barro, andava de bota o dia todo. Era cansativo para danar. Cansativo e muita gente. Eu não sei como eu toquei. Bom, eu tinha muita força de vontade, porque uma turma de gente daquela era demais.

 

P/2 - Quando ficou pronto, em compensação?

 

R - Aí eu aprontei... como eu digo? Em 1973, em junho de 1973 o Aché mudou para lá. Aí facilitou bem para mim, porque aí eu tinha compra, eu tinha o departamento pessoal, tinha o escritório que eu precisava. Então eu só fazia pedido, já levava direto lá para eles. Tinha telefone, aí já botaram telefone para mim na sala. Só que depois eu mandei tirar o telefone. Porque às vezes eu estava lá em cima, às vezes uma mocinha lá chamava por qualquer coisinha. "Ah, seu Braulino, queria tal, tal, tal." Ah, não. Aí eu tinha que sair do meu trabalho para atender o telefone. Aí eu mandei, falei para o Rafael: "Tira o telefone." 

 

P/1 - Ainda na primeira construção, seu Braulino, o Sr. Rui Otake já estava participando?

 

R - Estava.

 

P/1 - Como é que era essa convivência com o senhor Vítor, com o senhor Rafael, com o senhor Rui?

 

R - Olha, a convivência mesmo minha era com o Rafael. Com o Rafael eu me dava muito bem. E o doutor Rui vinha uma vez por mês. O doutor Rui faz o projeto, né? Então ele vem lá no sábado, vem bater papo lá, junto com o Rafael. Geralmente vem o Miro ou o senhor Vítor, uma vez ou outra vinha eles, mas mais era o Rafael mesmo. 

 

P/1 - E sábado e domingo o senhor também trabalhava?

 

R - Não, sábado até meio-dia. Aí era livre.

 

P/1 - Nessa época os filhos do senhor já estavam grandes?

 

R - Ah, já, meu filho já era mocinho.

 

P/1 - E eles iam com o senhor para a obra?

 

R - Ele foi quase um ano, depois ele fazia... eu levei minhas máquinas, que eu tinha firma consultora, e levei máquina de escrever, máquina de calcular, Olivetti de somar, três máquinas minhas. Então o meu filho já preparava a folha de pagamento lá mesmo. Ele fazia o apontamento e preparava a folha de pagamento. Aí ele pegava o meu carro e ia para o Aché, aqui na Chora Menino, rua Nova dos Portugueses. Chegava, entregava a folha lá, aí eles mandavam para o banco, faziam os envelopes, aí telefonavam, que eu tinha telefone lá, então meu filho ia buscar. Até eu ficava com muito medo de toda aquela gente, porque já tinha sido assaltada a floresta que era do lado, onde estão construindo agora. E eu tinha medo dele talvez ser assaltado, com todo aquele pagamento junto. Então eles botavam dentro de uma caixa de remédio, como se fosse remédio.

 

P/1 - Ele chegava com o pagamento dentro da caixa de remédio?

 

R - Com o pagamento todo lá. Nós fazíamos lá o pagamento.

 

P/1 - E a vizinhança naquela época na Dutra, o que existia?

 

R - Olha, vizinho mesmo nós tinha lá três casas, que era o doutor Xisto, que era um médico, um deputado de Guarulhos, que era o filho dele, um, e o outro ele tinha... é tear que chama, né, o que faz tapete? Tinha um tear. Eram essas três casas. Agora antes, conforme nós entrávamos no Aché, tinha a Correia da Silva, que é a fábrica aí e um posto de gasolina, que tingia roupa.

 

P/1 - Do lado mesmo, desse lado da pista do Aché?

 

R - Do mesmo lado. Do outro lado da pista nem passava, só fazia o retorno no viaduto para vir embora.

 

P/1 - E o dia da inauguração mesmo do Aché 1, o senhor lembra?

 

R - Ah, lembro. Deu até briga. Veio um ônibus cheio de gente do Rio de Janeiro, os vendedores. Sabe, vendedor é bagunceiro para danar. E desceram praticamente nu. Ah, e a nossa turma achou ruim... quis pegar ele de cacete. Eles foram parar lá na beira do rio lá embaixo. Aí depois deu encrenca lá entre o Rafael... Bom, o Rafael era meio marrudão. Mas ele fez aquilo para intimidar a turma. Senão já tinha tomado já chopp, estava lá o churrasco. Isso foi a inauguração da...

 

P/1 - Como é que foi a festa? Era churrasco?

 

R - Era churrasco. Todas as festas lá eram churrasco. Só depois de... passado... depois que nós fizemos o refeitório, lá na obra dois já, tinha o refeitório, que era bem na beira do rio, lá embaixo. Então aí tinha churrasco, aí já contratava firma, aí tinha churrasco, te dava um talãozinho, você tinha direito de tanto. Mas até tal hora só, depois liberava aquilo tudo. Para não dar aquele sufoco de início.

P/1 - E o churrasco da inauguração não era firma contratada que fazia? Quem que cuidava lá do churrasco?

 

R - A, os próprios funcionários.

 

P/1 - Ah, é? E levou a família também nesse dia?

 

R - Não, na inauguração não. Aí só teve homem, que deu essas encrencas aí. Não foi mulher nenhuma. Depois ia. Aí depois eu levava minha esposa, levava ela, um menino.

 

P/1 - E inaugurou o que, exatamente, nessa primeira fase? Foi um prédio só?

 

R - É, inaugurou o prédio que eles iam... essa primeira etapa... que eles iam mudar. E eu ainda não estava com a parte da administração pronta não. Eu ainda nem concretado estava, eu estava fazendo o forro ainda. Aí inaugurou, foi a festa de inauguração. Aí logo eles mudaram para lá.

 

P/1 - E o senhor lembra dessa mudança aí, eles levaram...?

 

R - Eu lembro que eu trabalhei demais, [risos] eu levei uma maçã para eu comer, pus na geladeira, passaram a mão na minha maçã, eu fiquei até à noite sem comida. E sabe como foi a mudança? Chegava as caixas de remédio, jogava para você, você jogava para ele, dava uma canseira. Quando acabava passava aqui pelo meio da perna um para o outro, chegava, olha, tinha gente que sentava no chão que não aguentava mais. Nós mudamos em um dia e meio, mudou o laboratório, não era brincadeira. Chegava um caminhão, descarregava aquele, já estava o outro encostado.

 

P/1 - E as máquinas também foram?

 

R - As máquinas... Bom, as máquinas foram mais no domingo. No sábado foi caixa, as caixas de remédio...

 

P/1 - Matéria-prima?

 

R - Matéria-prima, aquelas coisas todas. E as máquinas foram devagar, né?

 

P/1 - E já ia colocando tudo no lugar certo?

 

R - Ia colocando tudo no lugar. E eu já ia... conforme chegava eu já ia ligando, e mostrando para as moças como é que funcionava, as esteiras todas, eu já ia... mas estava tudo ligadinho já. Então eu levava uma caixa de fuzil, ia colocando, as moças já estavam aí sentadas para trabalhar na embalagem. Aí explicava para elas como ligava, desligava, e eu punha todas funcionando.

 

P/1 - Tinha um equipamento fora essas esteiras, que não tinha na rua Nova dos Portugueses?

 

R - Eu acho que não, porque eu não cheguei bem a conhecer a produção. Eu conhecia mais a parte de baixo, o escritório, e a sala do seu Rafael. 

 

P/1 - Mas tinha máquina que só...?

 

R - Tinha. Porque foram muitas máquinas para lá, que chama grajadeiras, né? E as máquinas que comprimem os comprimidos também. Mas era tudo coisinha bem antiga. Aí começaram a vir máquinas modernas, né?

 

P/1 - E como é que era o tempo da fábrica nos primeiros anos do Aché, seu Braulino? Era muita gente, o senhor lembra do uniforme das pessoas, como é que era o refeitório? O que o senhor lembra daquela época?

 

R - Olha, o uniforme parece que as moças trabalhavam de branco com gola amarela, as moças da embalagem, da produção. Agora no escritório não, no escritório íamos à vontade. Nós não tínhamos. Depois de muitos anos que... passados os anos que viemos nós também a usar uniforme. 

 

P/1 - E o refeitório, o grêmio, ainda não existia nada disso?

 

R - Não, nós tínhamos... eles encomendavam, essa comida vinha pronta. E lá tem os balcões, tudo de inox, esquentava em banho maria, e servia. Mas era pouca gente naquela época. Aí foi aumentando...

 

P/2 - É verdade que o primeiro restaurante tinha o apelido de Ameba?

 

R - Eu não lembro.

 

P/2 - Não lembra? É um que tinha um formato diferente, assim?

 

R - Ah, sim, aquilo era muito trabalhado, muito bonito. Que depois passou a ser o Departamento Pessoal. 

 

P/2 - O senhor sentiu alguma dificuldade nessa construção? Ela era muito diferente do que o senhor estava acostumado a fazer?

 

R - Era diferente porque era concreto aparente, e eu nunca tinha feito concreto aparente não. Então era um serviço mais caprichado, o sistema de forma era forma aproveitável, que a gente fazia, aproveitava sete, oito vezes. Era um sistema que o Toshio Eno, japonês, que bolou esse tipo de forma. Então a gente tirava, não podia bater pé de cabra, tirava com cunha, e soltava, lixava ela de novo, passava óleo diesel, e ia para outro lugar. Só que tinha que ser muito bem marcado, tinha que ter um capricho fora de série. A viga era duas chapas de madeirete, de laje, um metro e dez de cada folha. Tinha que caber as duas folhas lá, não podia tirar não. E nem pondo tirinha no meio. Tinha que ser duas folhas.

 

P/2 - Preciso.

 

R - Certinho. Era dois... a chapa é um metro e dez, e mais um metro e dez. Dois e 20. Aí vinha a viga, depois repetia de novo. Aí repetia 40, 50 vezes, a mesma coisa. 

 

P/1 - E depois desse primeiro prédio continuou a obra, né?

 

R - Aí foi para a segunda parte, como eu digo, que eu repeti os desenhos, que nós saímos mal depois com o calculista. [risos]

 

P/1 - Como é que foi essa segunda parte? Já foi diferente da primeira?

 

R - Ah, sim, foi diferente porque eu já tinha a turma toda lá, para mim já... e não tinha tanta gente mais, que caia para 80, 90 operários, 60, dependendo. Para mim foi bem melhor.

 

P/1 - Esses operários, eles eram funcionários do Aché?

 

R - Eram funcionários do Aché, contratados pelo Aché.

 

P/1 - E aí nessa segunda parte funcionou o que lá, seu Braulino? 

 

R - A segunda parte foi um aumento... embaixo foi o refeitório, e em cima foi o aumento da... foi jogado tudo lá para trás a parte de comprimido. A embalagem ficou tudo para frente, aí veio a parte de pomada também, e nós jogamos lá para o fundo foi comprimido, embalagem, uma parte da embalagem... o que mais? Ampola, essas coisas, enchimento de ampola, ficou tudo lá para o fundo. Mas ampliou, porque aquilo... estava muito apertadinho, o Aché foi crescendo, crescendo, crescendo, teve que aumentar. 

 

P/1 - Que tipo de ferramenta que usava na construção? Era diferente, era mais moderna?

 

R - Não, era a mesma máquina que eu... até um pedaço da quarta obra... era feito lá com as betoneiras, cimento. Fazia tudo no local. Tinha os vibradores, para vibrar, para deixar o concreto bonitinho. Tudo feito lá. Eu já fazia as caixinhas tudo de ancova, e já tinha aquela dosagem certa, eu tinha que fazer 180 por centímetro, que eles chamam, de outras partes 200. E assim foi, até a metade da obra quatro. Aí depois entrou o doutor Paulo, o genro do seu Rafael, falou: "Não estão matando o homem?" Olha, e eu não tinha férias. Foi o doutor Paulo que falou: "Não, ele é gente igual aos outros." [pausa]

 

P/1 - As máquinas de trabalho eram diferentes nessa segunda fase?

 

R - Depois, aí o concreto vinha pronto, aí é tudo bombeado, vinha as bombas... 

 

P/1 - Isso a partir de quando?

 

R - Bom, agora o ano que eu não lembro. A partir da obra quatro, quando veio esse doutor Paulo. E aí ele fez... porque nós tínhamos aquela mania que tinha que fazer manutenção no sábado e domingo, porque o laboratório estava livre. A turma toda saía, nós ficava, a minha turma. Aí o doutor Paulo falou: "Não." Ele falou: "O homem não vai tirar férias nunca? Trabalha direto? Não é máquina não." Aí acertaram, a manutenção saiu um mês antes do que eu, depois saí eu também, fiquei com o sábado livre.

 

P/1 - Aí passou a fazer manutenção que dia?

 

R - Aí eles pediam, me chamavam na sexta-feira ou na quinta: "Olha, precisa fazer isso e isso." Então eu escalava dois, três homens, dependendo do serviço. Então ia aqueles homens lá e faziam. Eu chegava, explicava para eles o que tinha que fazer. Aí eu ficava com o sábado livre. Sábado livre, aí comecei a tirar férias junto com a turma, a turma do Aché saía, nós saíamos também. Aí não trabalhava ninguém. Mas os primeiros sete anos, oito anos, por aí, não tirei férias não, recebia férias em dinheiro. 

 

P/1 - Sempre tinha coisa para fazer?

 

R - Sempre. A manutenção sempre tem alguma coisa para fazer, porque leva a máquina, quebra o piso. E vai desgastando, porque muita gente trabalhando o piso desgasta. E troca aqui, ou tem que aumentar qualquer coisinha lá dentro. Porque trabalhando a gente não podia fazer nada. Você tinha que pôr uma roupa apropriada para entrar lá dentro, não podia entrar de qualquer jeito. 

 

P/1 - E antes do concreto vir pronto como é que era feito no começo?

 

R - Com uma betoneira rodando lá, então a gente tinha as caixinhas, jogava, “ponhava” água, tinha uma quantia certa, botava o plastman, que é para endurecer mais rápido, aí jogava duas caixas de areia e três caixas de pedra. Aí tinha aquela quantia certa de água, já despejava no carrinho, botava no elevador, subia para cima. Era rápido, nós fazíamos 500 sacos de cimento por dia, 570 sacos, eram duas betoneiras junto. E não era também, assim, virado na boca da betoneira não. Vinha um carrinho, era empurrado pela turma mesmo, uma rampa bem comprida, suave, vinha de cima e virava. Dois carrinhos a betoneira estava pronta. 

 

P/1 - Betoneira? O que é isso?

 

R - Betoneira. É que nem uma drageadeira que faz o comprimido, igualzinho. Ela fica rodando lá o tambor, vai jogando o material lá dentro. 

 

P/1 - E essa fase dois, ela foi inaugurada também, teve festa?

 

R - Não, não foi inaugurada. Porque depois todo ano tinha festa, todo fim de ano. Então era despedida da turma que entrava de férias, então tinha uma festona. 

 

P/1 - E eram boas essas festas? Como é que era?

 

R - Aí era comida, bebida. O seu Vítor falava pelo menos umas duas horas, [risos] ele falava. Uma hora ele fechava o ______ [risos] Ele dava o balanço do ano, sabe? E tudo que acontecia na administração deles lá, falava, falava. Vinha um conjunto, tocava, entrevistava a turma lá em cima, eu fazia o palco, com os paus, ia pondo os paus em cima do outro, depois forrava, fazia escadinha. Lá ia entrevistando o povo lá, os músicos, vinha os conjuntos, tocavam.

 

P/1 -E o dia a dia de trabalho? Tinha um momento, assim, gostoso, de tomar uma cervejinha com os colegas de trabalho? Como é que era?

 

R - À tarde, quando nós saíamos no posto. Aí nós parávamos lá, tomávamos... alguma vez, às vezes a gente nem parava. Às vezes era aniversário de um, sempre tem um aniversariante. Então a gente parava. Mas era gostoso, a turminha nossa era muito boa. 

 

P/1 - Saiu muito casamento dessa turma aí, seu Braulino?

 

R - Saiu alguns. A mocinha, a moça que fez a minha admissão do Aché nasceu no dia que eu entrei no Aché. E ela ia casar com o rapaz da compra. Ela era do Departamento Pessoal. Ela falou: "É brincadeira? No dia que você entrou no Aché eu nasci, e eu estou fazendo a sua admissão?" 

 

P/1 - E a fase três? Depois dessa fase aí que o senhor dobrou aí o...?

 

R - Aí eu vim para a química, que aí são... eles falam, são três partes de concreto, mas dão cinco andares, porque são pé direito alto. Porque aí foi levado lá para cima os reatores, que chamava. Tinha reator, uma coisa enorme, assim, redondo. Aí nós puxava, com talha para cima, já tinha o buraco certo, encaixava ele lá, com viga de ferro. E o reator lá você jogava o líquido, saía pó. Mas tinha uns encanamentos de inox, tudo muito bonito. Mas eram muitos reatores. E foi dois andares do prédio assim. E embaixo tinha... depois tinha o controle de qualidade, nos fundos era o líquido, que era no térreo. Não, no térreo era mais máquinas, máquinas que mandava água para cima, ia o gás, tudo que precisava, no andar térreo. [pausa]

 

P/1 - Eu perguntei para o senhor sobre a terceira parte da obra, né, o que foi construído?

 

R - Foi a química.

 

P/1 - Como é que foi essa construção?

 

R - Essa construção foi... porque o Aché são duas partes, térreo e o primeiro andar. E a química já tem três andares, mas com pé direito de seis metros, que é onde ele botou esses reatores que eu estou falando. Aí foi controle de qualidade, embaixo também tinha o grêmio, e depois subia uma escada tinha o controle de qualidade, e para o lado de trás era onde produziam vários remédios, que muitas coisas eram feitas no Aché. Importa a maior parte, mas muitas coisas lá fazia com cevada de cerveja...

 

P/1 - Quantos anos demorou essa obra, o senhor lembra? Eram obras de um ano, dois anos?

 

R - Não, era obra de três anos, quatro anos, por aí. 

 

P/1 - O terreno dessa terceira parte como é que era, o terreno? 

 

R - O terreno foi... eu até achei um furo do doutor Rui. Porque nós estávamos nesse piso aqui, e nós já tinha sido inundado várias vezes com chuva, por causa do rio, ele ainda fez 40 centímetros mais baixo. Eu ainda falei: "Mas doutor Rui, está brincando?" "Não, seu Braulino, pode deixar. Eu faço aqui a jardineira." Tudo jardineira redonda, ovalizada assim, em redonda. "Eu faço a jardineira aqui, não vai acontecer nada." "Que não acontecer nada o que?" Porque depois subia até pelos ralos pluviais a água inundava nós. Voltava pelo esgoto de águas pluviais. E aí foi o que eu falei para ele: "Olha, eu não faria isso. Eu teria a idéia de subir mais 40, não menos 40." E aí me deu muito trabalho, mas foi inundado várias vezes. 

 

P/2 - Isso era só na quimica ou foi nos outros prédios também?

 

R - Não, no térreo todinho. 

 

P/2 - Em todos os prédios?

 

R - Todos. Olha, tinha o Walter lá, que era o guarda que ficava lá, nós fizemos uma linha de poste com os fios, que ele tinha um aparelho na casa dele que ficava bem lá no fundo que ele comandava as bombas. Tinha poço com bomba, sete, oito bombas dentro de um poço, mas era posto enorme. Mas bomba de puxar 80 mil litros de água por hora, com as bombas da Rússia. Então quando dava essa inundação a primeira coisa que ele lembrava era de mim: "Seu Braulino, vem para cá, que está inundando tudo." Aí no dia eu ia com as meninas dela, e ia para lá. No sábado, às vezes chegava em casa meio-dia e quatro horas estava lá de volta. Aí começava a comunicar os supervisores: "Olha, temos que limpar." Então no domingo era aquela turma de gente, inclusive ela ia, a filha dela foi ajudar. 

 

P/2 - Tirando a água?

 

R - Tirando a água. Nós limpávamos os vestiários, o refeitório, o escritório, essas partes principais, que era para a turma chegar e trabalhar no dia seguinte. Depois se emendava com a minha turma e mais a turma da manutenção o resto da semana.

 

P/2 - E o que foi feito para arrumar a estrutura?

 

R - - Olha, agora canalizaram o rio. Bom, depois que eu saí mesmo inundou feio. Agora canalizaram o rio. Porque, como estão construindo o outro lado, aí canalizou. Mas nós tivemos uma enchente lá que aquilo foi alguma coisa proposital, sabe? Não pelo Aché. Alguém... ou estourou alguma barragem, ou alguém fez sabotagem, porque passou por cima da Dutra. E nós temos abaixo da Dutra quase dois metros. Porque passou pau por cima da Dutra rolando e veio encostar no muro. Derrubou o muro lá, foi um negócio! 

 

P/2 - O senhor estava lá nesse dia?

 

R - Não, eu estava em casa e eu fui para lá. Daí... mas não adiantava ligar bomba, porque nós tínhamos a cabine secundária, tínhamos cinco transformadores, aquilo entrava 13 mil volts. Tem que desligar tudo. Então tinha dois geradores. Mas um aqueceu demais, não pôde ligar, e um não deu conta. 

 

P/1 - Qual o prédio que deu mais trabalho para construir, seu Braulino?

 

R - O mais trabalho foi a obra cinco, por causa da altura. Muito alto, 12 metros de altura. Era muito difícil para você conseguir fazer a laje lá em cima. E todo com vigamento de ferro, vinha aquelas vigas de quatro, cinco metros, pesadas. Olha, para começar, aí vem... não era madeiramento mais. Aí veio as torres de ferro, a gente montava aquele quadrado de cada três metros, ia montando as torres. Lá em cima chamava forcado. Era uma peça assim, você tinha que jogar viga e pôr dentro daquilo. E o começo era muito difícil, muito difícil e perigoso. Mas graças a Deus não aconteceu um acidente comigo no Aché. Acidente talvez lá seria um furo de prego.

 

P/1 - O senhor estava contando do Aché 5, que foi o mais difícil. Em que terreno que ele foi construído? Como é que era esse terreno?

 

R - Esse terreno eles compraram do Roda Viva, pegado à Correia da Silva, que foi a última parte. E lá no fundo tinha o chiqueirão dos porcos do Roda Viva. E aí teve que tirar. Aí o Aché comprou aquilo tudo.

 

P/1 - Quando o senhor foi para lá tinha porco ainda?

 

R - Nossa, porco desse tamanho assim. 

 

P/1 - Teve que correr atrás?

 

R - Porco que eles sustentavam, o Roda Viva. Nossa, nós levávamos a turma lá para almoçar, no dia das enchentes, levava lá no Roda Viva, mandava pôr na conta do Aché.

 

P/1 - E antes do Aché 5 teve o Aché 4, né? O Aché 4 o que foi? O que mudou para lá?

 

R - O Aché 4 foi expedição, expedição.

 

P/1 - E como foi a construção do Aché 4? O que o senhor lembra?

 

R - Foi muito bom, um serviço que eu fiz pela primeira vez, foi concreto protendido, puxado por cabo de aço. E eu nunca tinha feito isso. Porque então a gente concreta, faz o vigamento, e põe as bainhas. As bainhas é um tubo, assim, de duas polegadas, por aí, e vai pondo no meio dos ferros, tudo bem organizadinho, vai tudo com altura. Tem desenho, sabe? E depois passa... de cada bainha dessa passa três cabos de aço dentro. Aí fica ancorado lá na ponta, porque o balanço era... chegava a 11 metros distante do pilar. E ia por dentro dessa viga. Em cima desse pilar tinha uma vigona de dois metros por um de altura, para sustentar aquele balanço. Aí os cabos de aço ficavam lá atrás, a mais ou menos... quase 30 metros de distância, ficava as pontas dele lá. Aí eles davam 15 dias, 20 dias, depois vinha a firma com compressa... é que nem um compressor, aí pegava no cabo e ia puxando. E tem um manômetro, não sei como é o nome aquilo?... que ia marcando o esticamento do cabo, que tem que esticar tanto. Aí eles cortavam, aquilo tinha uma cunha que... quando ele ia voltar cunhava, cortava a sobra, depois eu fazia outra paralela para esconder. Então eu levantava aquela ponta todinha lá, o escalonamento chegava a ficar solto. Foi uma coisa que eu gostei muito, que eu nunca tinha feito. E olha, fizemos muitas vigas daquelas. 

 

P/1 - Esse é o Aché 4. E quando inaugurou o Aché 4 também não teve uma festa?

 

R - Não, aí não fazia mais festa. Aí só tinha mesmo festa de fim de ano. 

 

P/1 - E do Aché 5 teve festa?

 

R - Não, também não.

 

P/1 - O Aché 5 é aquele todo de vidro? Como é que foi aquilo, foi difícil?

 

R - Essa parte eu não fiz. Aí foi quando eu saí. Porque a idéia disso daí era ser almoxarifado. Ia ter umas empilhadeiras que iam pegar com as prateleiras, né, que chama, ia pegar e empilhar aquilo até o teto. Que parece que tem uma firma aqui... tem teto Interlagos, que tem o pé direito alto assim, que eles põem. Depois desistiram dessa ideia, acharam a idéia maluca, não sei o que. Não sei porque fizeram aquilo tão alto desse jeito. Aí nós ia fazer em concreto. Chamamos o calculista para nós fazermos... nós íamos encamisar os pilares e fazer mais duas lajes. Mas o calculista achou que o estaqueamento não era o suficiente. Então, aí entrou outra firma, que é com estrutura metálica, aí com tudo com viga de ferro, e reforçaram a fundação também. E depois veio esse fechamento de vidro, aí eu já não estava mais.

 

P/1 - O senhor participou, então, até a construção...

 

R - O concreto total. E usamos aquilo acho que uns quatro anos,vinham lá da Argentina os frascos. E nós empilhávamos tudo lá, cobríamos com serrado tudo. Aí até que eles resolveram mexer naquilo. Mas só deu mesmo com estrutura metálica.

 

P/1 - No decorrer desses anos também teve outro tipo de construção, como, por exemplo, do campo de futebol, como é que foi?

 

R - Ah, sim. Depois, assim que eu aprontei a obra cinco nós fomos lá para trás. Aí fizemos o campo de futebol, fizemos o grêmio, fizemos quadra. Nós temos todo tipo de quadra lá. Fizemos horta lá para trás. Aí estava até começando a creche. Aí, quando eu saí...

 

P/1 - A campo de futebol deu muito trabalho para fazer? Aí já era fácil, né?

 

R - Deu, para nós, aquilo afundava, e eu falei que não ia gastar mão. Mais de sete... nossa, veio uma quantia grande de caminhão de terra aí, ficamos quase um ano aterrando. Então, ia afundando, porque era água. Ia aterrando, e aquilo, passado os tempos... [pausa]

 

P/1 - O campo de futebol ainda, seu Braulino, deu muito trabalho, mas ficou pronto, né, depois de um ano?

 

R - Ficou. Aí “gramamos” tudo, aí podávamos com a máquina. Apanhava lá um rapaz, ia podando.

 

P/1 - E o senhor jogou bola lá?

 

R - Não. Não dava.

 

P/1 - E a construção do grêmio, como é que foi?

 

R - Do grêmio? O grêmio é uma construção simples, lá tem todas as salinhas, do diretor, o barzinho, o salão embaixo, um embaixo, outro em cima. Em cima são as ginásticas, faz ginástica em cima, embaixo o salão para festa.

 

P/1 - E a piscina deu trabalho?

 

R - A piscina deu trabalho, porque aquilo dá água. O Aché dá água com um metro e meio. Sai água. Você faz um pocinho lá com a cavadeira, sai água.

 

P/1 - E aí o que aconteceu com a piscina?

 

R -  Caíram os azulejos. Porque do jeito que eles trabalhavam lá não dá... porque eu já fiz piscina com azulejo, mas a minha nunca caiu não. Eu não sei, só que eu achava que o modo deles trabalharem... porque era um material também que eu não conhecia, esse cimento protendido, né, que chama? Esse cimento você faz isso aqui direitinho, e pega uma desempenadeira com o dente, só vai encostando o azulejo. Não é que nem o tempo em que você colocava com massa de cimento, ia pondo a réguazinha. Agora não, [risos] estende naquela massinha, vai encostando o azulejo. E eu falei: "Isso aí não vai funcionar não." E não funcionou mesmo, caiu duas vezes. Aí eu falei: "Vocês querem saber de uma coisa? Faz como eu fiz a piscina do seu Vítor no Pacaembu, faz com lã de vidro." Aí fizeram com lã de vidro. Está até hoje, aí não aconteceu mais nada.

 

P/2 - Seu Braulino, tem um lago lá também, né? 

 

R - O lago era da torre de Guarulhos. Tinha a torre de Guarulhos, estava lá no meio, aí o Aché comprou aquilo. Tem um lago grande. Tem peixe lá para danar. Agora soltaram peixe lá, tem muito peixe.

 

P/2 - Mas é natural aquele lago, ou não?

 

R - É natural. 

 

P/2 - Já existia, então?

 

R - É. Porque lá tem nascente, quer dizer, ele chega até transbordar, com... agora vem muita chuva. Do mais ele mantém quase aquele nível de sempre. Então, por causa da torre, às vezes tem aterramento dos conduites dele lá, dos cabos, então é dentro da água.

 

P/1 - E a horta? O senhor participou da horta?

 

R - A horta eu fiz, mudei ela quatro vezes de lugar, até que joguei ela lá para o fundo. Também agora acho que não saiu mais, ainda está lá.

 

P/1 - A primeira foi aonde?

 

R - A primeira foi perto da obra cinco, bem de frente aí.

 

P/1 - Tinha o que lá?

 

R - Ah, não tinha nada. O terreno estava vazio, ele falou: "Vê se você arruma alguma coisa aí para fazer de horta." Eu falei: "Vamos lá." Aí peguei, comecei a fazer os canteirinhos lá e fazia com tijolinho, deixava uma passagenzinha. Aí peguei um paranaense lá, que ele falou que ele entendia de horta, eu falei: "Vamos lá." Nossa, aquilo quase abastecia o Aché com verdura!

 

P/1 - Plantava o que lá?

 

R - Alface, almeirão, rúcula, couve-flor... Nossa, dava cada couve-flor desse tamanho! Essa abobrinha italiana, que dá de arvorezinha. Porque a outra alastra, não dá, o espaço é pequeno. Então essa abobrinha italiana, nossa, mas dá demais! Conhece, né?

 

P/1 - Sei. E depois a segunda horta foi aonde?

 

R - Ah, nós mudamos ela várias vezes de lugar. Agora foi lá para o fundo, está perto da creche agora. E lá ela ficou. 

 

P/1 - E lá a terra é boa também? 

 

R - Não, a terra a gente trazia de fora. Porque a terra lá não presta. Até o adubo trás, o adubo todo. Agora ficou muito moderno, porque agora a manutenção lá fez tudo com os caninhos, e tudo com os regadores, o chuveirinho. Você liga, faz schi..., rega a horta inteira em dois, três minutos, quatro minutos. E tem um frasco também. Ela, quando é com os canos, ela só pega aqui com a mão, um vai até a metade, outro vai até a metade, cobre quando replanta as plantas, que ela tira 40% do sol. Aí cobre, depois puxa para trás, ficou tudo bem mecanizado. 

 

P/1 - A primeira hortinha lá tinha que regar mesmo?

 

R - Aquela tinha, pegar o esguichozinho e ir regando, toda tarde. E eu fiz a estufa também, conservação de planta.

 

P/1 - Ah, é? Estufa? Onde?

 

R - Perto, encostadinho à horta mesmo, lá no fundo. E aquilo é controlado eletrônico, o aparelhinho, que ele liga de seis em seis horas. Ele liga, só que ele não solta água, ele solta um sereno. Põe... tem tudo um balcão com as plantas, as plantas quando sai de lá de dentro, elas saem judiadas, né? E é coberto com esse nylon, em volta todinho, que tira 40% do sol. Então depois, de cima, tem todos os caninhos furados. E _____solta um sereno, você fica lá, num instantinho você se molha. Mas você nem percebe a chuva. E ele liga sozinho, tem um aparelhozinho lá, liga às seis da manhã, seis da tarde, [risos]. Pulveriza sozinho.

 

P/1 - E todas essas obras que o senhor construiu lá no Aché, seu Braulino, tem uma que é favorita do senhor? 

 

R - Olha, eu gostei de duas coisas lá: esse concreto protendido, que eu falei que tem os cabos de aço, que eu nunca tinha feito, e na obra cinco uma marquise. Na marquise até que deu muita encrenca entre mim e o engenheiro. No fim... Ele não era engenheiro, ele era arquiteto. Eu sei que no fim ele acabou saindo ele e eu fiquei. Ela tinha 92 metros de comprimento por quatro metros e não sei o que, depois fazia 45% graus, e era muito pesado. Eu tinha um medo... E os pilares eram de cada nove metros. Ele é “engatalhado” só nesse pilar, depois no outro pilar, tudo esse mundo de concreto. O medo que eu tinha para disformar aquilo. Aí, mas disformei, ela ficou muito bonita.

 

P/1 - E a discussão com o arquiteto lá qual era?

 

R - Porque o doutor Paulo saiu na época, que saiu também o Rafael também do Aché, o doutor Paulo foi embora. Então o doutor Paulo, nós trocávamos muita ideia, eu falava: "Doutor Paulo, eu tenho medo na hora de disformar isso." Ele falou: "Você faz assim: você começa a tirar de lá da ponta." E você fica resguardado, aqui atrás. Se acaso cair, cai. Agora o Querroz, que era esse arquiteto, não queria, queria que eu tirasse de vez. E eu, como eu fiz, eu tiro. Quem fez foi eu, e eu sei tirar. Aí nós fomos parar lá no DP, chamou nós dois lá. Aí discutimos, discutimos, ele falou para o seu Di Pieri: "Olha, se for assim, então é melhor eu sair." Ele falou: "A porta que você entrou é a saída." E ele saiu mesmo. Porque viu que eu sei. Eu falei: "Quem está lá embaixo é a minha turma, né?" Vou bater em empregado? E do jeito que eu fazia nós, qualquer coisa, nós estava debaixo do prédio. Era cair, caía lá no chão. Aí impedia a rua todinha. Mas não aconteceu nada não.

 

P/1 - Foi tirando e ela ficou lá?

 

R - Ficou lá do mesmo jeitinho.

 

P/1 - E a época que a filha do senhor começou a trabalhar lá? Como é que foi?

 

R - Olha, ela veio de Goiânia, ela veio lá para casa. Levou poucos dias, ela falou: "Olha, pai, vê se arruma um serviço lá para mim." Aí eu cheguei lá com o Rafael, falei com ele de manhã, aí ele falou... ele chamava: "Ô, velho!" "Ô, velho, mas nós não estamos pegando ninguém, funcionário nenhum." Aí eu falei: "Mas o senhor tem que pegar a minha filha, pô!" Aí conversamos, conversamos, ele falou: "Para quando?" Eu falei: "Para hoje! Ela tem que vir trabalhar. Está lá com três meninas dentro de casa." Ele já sabia a situação minha. Aí no dia de manhã eu levei ela já para trabalhar, no outro dia. [risos] Aí ela foi lá para o Departamento Pessoal, tinha uma tal de Maria que quis enguiçar, eu falei: "Ah, Maria, arruma uma mesinha e põe ela aí. E não quero saber de prosa." E ela começou. 

 

P/1 - E aí os dois iam juntos para o trabalho, almoçava junto? Como é que ficou?

 

R - Nós ía junto e voltava junto. Foi bom que aí ela aprendeu a dirigir, perdeu o medo da Dutra, aí ela ia e voltava com o carro, e eu [risos]... Porque eu vinha cansado, como eu estava dizendo agora há pouco, e ainda eu tinha que dirigir o carro. Naquela época... eu até pensava: "Se tivesse um que dirigia o carro seria muito bom para mim." 

 

P/1 - Aí o senhor arrumou uma motorista.

 

R - Aí deu certo. O meu filho ficou lá uns tempos também, aquele ano que ele ficou lá também ele dirigia o carro. Mas foi muitos anos.

 

P/2 - A sua esposa ia em festas, essas coisas, com o senhor?

 

R - Se eles iam?

 

P/2 - A sua esposa?

 

R - Ia. Ia a minha esposa, iam as meninas dela, iam. No começo, antes dela vir para lá para casa, a minha esposa foi comigo algumas vezes, depois... ela tinha ido também, várias vezes.

 

P/1 - Quer dizer que o senhor ficou rodeado de mulheres em casa, né?

 

R - Nossa! Eu falei que tinha até uma periquita e uma cachorrinha. Tudo! [risos] Agora vem um hominho. Ah, eu falei: "Esse aí vai defender o gol, viu?" [risos] 

 

P/1 - Quem é que morava na casa do senhor?

 

R - Eu, minha esposa, ela, as três meninas. E tinha a empregada, [risos] e depois a periquitinha era mulher e a cachorrinha era mulher. [risos]

 

P/2 - O senhor tinha um exército de homens no Aché e um exército de mulher em casa?

 

R - De mulher em casa. [risos]

 

P/1 - E como é que foi a decisão de parar de trabalhar, seu Braulino?

 

R - Olha, isso é um ano que eu estava sabendo, eu, o seu Nivaldo e o... um cunhado até do seu De Pieri, do dono lá. E o (Nivaldo?) trabalhava no escritório. Porque eles chegaram num ponto que... depois dos 60 anos não fica mais ninguém no Aché. Eu já estava com mais. Então esperaram eu terminar aquela etapa todinha, aí o seu Vítor me abraçou, assim, e foi mandando lá para o campo de futebol, dando a volta naquilo tudo. "Ah, você vê isso, você vê aquilo." Eu numa boa. Aí ele virou para trás: "Você está vendo aquilo lá tudo?" "Lógico que eu estou vendo." [risos] Ele falou: "Só que você não vai fazer mais nada. Você vai embora." Aí eu fiquei chateado. Nossa, eu cheguei até a chorar aquele dia. Aí ele falou: "Não é nada não. A firma... eu vou sair, o Miro vai sair, o Rafael..." O Rafael já não estava mais. "O seu Di Pieri vai sair. Todos com 60 anos não vai ficar mais ninguém. Mesmo lá do escritório em cima, todo mundo vai sair." Ele falou: "Mas nós vamos fazer um ordenado para vocês. 70% do que você ganha hoje você vai receber." Então para mim deu até melhor, porque eu pagava o INPS, pagava grêmio, pagava sindicato... pagava não sei mais o que, outra coisa lá também, 10% já ia no INPS, 12% eu pagava, então já ficava 68. E assim foi indo, para mim foi muito bom. Então fizeram lá falou: "Vai no Bradesco, abre uma conta lá, que o seu dinheiro todo dia 10 está lá."...

 

P/1 - Mas o olho encheu de lágrima naquele dia por que? Qual era a tristeza?

 

R - Ah, eu fiquei muito chateado, nossa! Os amigos: "Nossa, você vai embora?" Tinha mulher que me abraçava e chorava, porque... você tem que ver. Botou a gente em pânico. [risos] Aí no outro dia teve que fazer entrevista lá com a moça lá. E depois no outro dia, aí eu tive que ir lá no Departamento Pessoal, fazer todo o acordo direitinho para depois ir no sindicato. Chegamos lá com a juíza lá, ela leu, viu tudo direitinho, tudo direitinho. "Então assina aqui." Assinou, pronto. Recebi tudo direitinho, que o Aché para mim é uma grande firma, viu? Mas fiquei muito chateado.

 

P/1 - Depois de tantos anos trabalhando lá, participando daquilo, quando o senhor olhava o Aché inteiro ali pronto, o que o senhor sentia?

R - Olha, eu olhava para trás, via, eu não acreditava que eu ia embora. Não acreditava mesmo que eu ia embora. Eu era um chefe que tinha muita liberdade, sabe? Eu fazia e desfazia, não tinha problema nenhum. Se fosse para mandar o fulano embora, ia embora. Agora no fim começaram a dar um corte grande, eu ficava com dó. Foi aí que eu desconfiei que nós... porque eu já estava sabendo um ano mais ou menos antes que ia ter uma coisa muito boa para nós três, que era isso daí, que nós ia sair e eles iam dar esses 70%. Porque esse cunhado de um dos donos, ele que me falava. Mas ele não falou como seria, eu soube na hora. Foi lá na sala do seu Tavares, ele falou: "Está aqui." Estava tudo prontinho os papéis já. "Você assina." Foi chato.

 

P/1 - E para o senhor qual é a característica mais forte da empresa, do Aché? É diferente das outras empresas? Como o senhor descreve o que é o Aché?

 

R - O que eu achava o Aché muito... era... olha, primeira coisa: "Não existia salário mínimo." Naquele tempo... bom, naquele tempo e hoje também, ganhava mais do que em dobro um salário mínimo. Pagamento, então, era antes, não era no dia. E era um povo muito bom para se lidar. Eles não importavam com o meu serviço de jeito nenhum. O Rafael vinha e falava: "Eu só vim para te falar bom dia." O seu Vítor: "Oi, bom dia!" Vinha me fazer cosquinha, ou me levantar para cima. Pegava o Rafael e Vítor, me judiava muito. Eu achava eles muito bacanas.

 

P/1 - Porque ele é grandão, né? Chegava e carregava o senhor?

 

R - Nossa! Eles gostavam muito de mim. Mas também eu trabalhei muito lá. E eu gostei muito do Aché.

 

P/1 - E aí quando o senhor se aposentou como é que foi isso? Mudou a vida do senhor?

 

R - Olha, para mim mudou um pouco para pior. Assim, pessoalmente, porque eu fiquei muito chateado. Deixei de fumar, que eu fumava dois maços e meio de cigarro por dia. Aí eu fui no médico, [risos] ele falou que o meu pulmão estava um temporal de chuva. Eu deixei de fumar, assim, na hora. E ficava aborrecido, andava para lá, para cá. Aí falei para a mulher: "Vamos descer?" Ela topou, essa aqui achou meio ruim. Ah, eu falei: "Não vou ficar aqui não." Porque ficar perto da Bandeirantes aí, perto do aeroporto, aí sem fazer nada. Aí eu desci, e assim mesmo foi meio difícil para mim acostumar, viu?

 

P/1 - O senhor já tinha uma casa na praia?

 

R - Tinha.

 

P/1 - E como é que ficou sendo o dia a dia do senhor lá na praia?

 

R - Os primeiros dias foi bem chato. Ah, mas foi acostumando. Aí a Nesi ia andar, a mulher ia comigo, eu ia pescar, ela vinha junto. E assim...

 

P/1 - E hoje como é que é a vida do senhor? O senhor acorda e vai fazer o que?

 

R - Ah, seis e meia eu estou de pé, pego minha cachorrinha lá, vou dar volta com ela. É só ela ver eu fazer assim com a mão, ela já pula dessa altura.

 

P/2 - Como é que ela chama?

 

R - Ariette. Coitada, agora teve uma distensão, quebrou o menisco. Já levei no médico várias vezes, foi lá para Peruíbe, tirei três radiografias, e ela teve distensão no menisco. Só existe um japonês na USP que opera. Mas e o repouso, como é que faz depois com a cachorrinha? Você vê o jogador de futebol opera, depois tem que fazer o repouso, fazer terapia. Aí o médico lá aconselhou deixar assim. Ela manca um pouco, mas depois ela põe os pezinhos no chão, anda um pouco, só que ela tem que por o pezinho assim, não põe (bem?). E eu levo ela para passear.

 

P/1 - E depois do passeio, como é que é?

 

R - Ah, almoço, deito lá no sofá vendo... vejo muito jornal agora, fico lá, dou um cochilo. [risos]

 

P/1 - E a pescaria acontece quando?

 

R - Ah, não vou sempre não. Vou, talvez... às vezes vou três dias seguidos, porque a gente tem que ver como é que está o mar. Porque o mar não está todo dia bonito não. A gente vai, pesca dois, três dias, depois fica talvez 20 dias sem ir.

 

P/1 - Mas sai de barco?

 

R - Não, não. Eu só fui duas vezes com S. Di Pieri, mas não vou mais não. É mais fácil andar de avião do que de barco. [risos]

 

P/2 - Conta rapidinho como é que foi essa saída com S. Di Pieri no barco dele?

 

R - Ah, no barco... o chefe da manutenção era meu compadre, o (Vicente?), ele já tinha ido pescar algumas vezes, com o seu Di Pieri. Aí ele falou: "Vamos levar o velho um dia." Eles falaram. Lá era tudo velho. "Vamos levar o velho junto com nós." Aí ele me convidou. Aí fomos eu, o Vicente e mais um indivíduo que faz punção da máquina que faz os comprimidos. E nós fomos, chegamos lá, ele tem o marinheiro dele lá, que comanda o barco. E nós fomos pescar. Foram duas horas e meia. Você não via mais nada. Só se via água e o céu. [risos] Mas pula que... nossa! O barco levantava para cima, assim, parece que quando ele ia descer, assim, eu falava: "Não volta mais não." Teve gente que passou muito mal.

 

P/2 - E o senhor pegou peixe?

 

R - Peguei. Peguei uma garoupa só, desse tamanho aqui, seis quilos. E na segunda vez que nós fomos o marinheiro dele lá não quis entrar, porque eles conhecem o tempo. Ele só olha para o tempo, assim, e fala: "Não dá para ir." Mas o seu Di Pieri insistiu, e de frente, assim, tem o canal, tem o clube, tem o canal que a gente sai, que é a marinha, que é a entrada dos navios. Aí você não pode passar de 20 quilômetros por hora. Conforme passou, que ele ligou o motor, a água veio, cobriu nós. Ah, ele virou para trás, voltou. Falou: "Não dá para ir não." Também não foi mais. 

 

P/1 - O senhor falou que o seu Vicente era compadre?

 

R - Era compadre meu.

 

P/1 - Teve boas amizades lá no Aché?

 

R - Ah, deixei muitas amizades...! Todo o povo do escritório lá... o Toninho contador ligou para cá: "Tem mais um vagabundo do Aché na rua... folgado...", ele falou, o contador do Aché. E ele já foi para lá desde a rua Nova dos Portugueses, o Carlão é formado químico, acho. O Carlão, o Almir, chefe do laboratório... do controle de qualidade. Uma série de gente. Se eu vou lá um quer que eu almoce junto com ele, outro: "Não, você vai almoçar no meu horário. Vai dar um pulinho na minha sala." Mas é chato, a turma está trabalhando, e você ir lá e bater papo com eles.

 

P/1 - E as netas do senhor e os bisnetos vão lá na praia também?

 

R - Ah, vai. O menininho esteve lá, os dois estiveram lá há umas duas semanas.

 

P/1 - Como é que chamam as netas do senhor?

 

R - Luíza e o Mateus. 

 

P/2 - Bisnetinhos esses? 

 

R - É, bisnetos. 

 

P/2 - Ah, bisnetos?

 

R - É, dois pequeninos. As meninas é a Juliana, Luciana e Carolina. E de parte do filho é o Derik e Glauco. 

 

P/1 - E o senhor é um avô bonzinho?

 

R - Ah, eu sempre fui. Eu pegava os meninos, apanhava no meu carro, às vezes o pai ia no mesmo lugar que eu ia, eles não iam não: "Eu vou com o avô." Que eles tinham certeza que o avô chegava lá mesmo. [risos] Ah, eu sempre gostei dos meninos. Os meninos até hoje ainda gostam muito de mim. Até essa que vai, que se formou agora em Direito, que eu tenho que dançar a valsa com ela, eu falo: "Arruma um rapaz, eu não quero." A professora concordou. Mas a Carolina disse que não, tem que ser o avô. [risos]

 

P/2 - Está difícil de convencer o netinho a torcer para o seu time agora?

 

R - Ah, é. Mas esse não vai ter jeito não. [risos] Com o pai como o que ele tem, nem a menina nem o menino. 

 

P/2 - O senhor queria que ele fosse o que?

 

R - Ah, que ele estivesse para o meu lado, palmeirense, ou que fosse... menos corintiano. [risos] Se tem corintiano aí não leva a mal não, hein?

 

P/1 - Eu queria perguntar para o senhor assim: depois de tanta coisa que o senhor viveu, qual o sonho que o senhor tem na vida?

 

R - Como?

 

P/1 - Qual o sonho que o senhor tem, o que o senhor sonha realizar?

 

R - Olha, eu sonho que as meninas se formassem. Porque do jeito que elas vieram lá para casa, pequenininha, e nós lutamos muito, eu e ela. Já a minha esposa levava na mão para passar a Avenida Ceci, pagamos colégio particular no primeiro ano. Depois uma diretora lá da nossa rua arrumou para ela, ou eu com ela pegava, se chovia muito... Aí onde era o canal sete aí, a rádio Record... ou a minha esposa ia buscar. E eu sempre, olha, a Carolina deu um bocadinho de trabalho para a gente, mas quando ela falou: Vô eu  entrei na faculdade, eu vou fazer Direito, eu falei: "Então eu pago a faculdade sua todinha." Bom, eu ajudei todas elas. Ajudei essa que se formou professora, mas a Carolina eu paguei do começo ao fim, agora está fazendo a Ordem dos Advogados, para tirar carteirinha, e eu falei: "Eu pago." Até ela pegar a carteirinha dela na mão, aí depois cuida da vida, né? E eu fiquei muito contente com isso.

 

P/1 - E a outra estudou o que?

 

R - A outra é professora de Educação Física. Essa já se formou há dois anos.

 

P/1 - E agora que elas já estão formadas, qual o próximo sonho que o senhor tem?

 

R - Ah, sei lá. [risos] Os meus bisnetos, sempre pode fazer alguma coisa. Mas mesmo para as meninas, se elas passarem por algum probleminha na vida eu ajudo. 

 

P/1 - Por último eu queria perguntar para o senhor o que o senhor achou de ter dado essa entrevista, contado um pouco da sua história.

 

R - Eu gostei, gostei muito.

 

P/1 - Por que?

 

R - Ah, recordar o passado, é bacana, né? Coisa que você perguntou que eu não estava nem mais ligado nisso. Agora que eu lembro o nome da finada avó, viu? Fortunata. Naquela hora eu não...

 

P/1 - Vai lembrando coisas que vai esquecendo.

 

R - É. A memória da gente parece que vai ficando mais, mais difícil para recordar. A gente lembra bem o passado. O presente é mais difícil.

 

P/1 - E é gostoso lembrar desse passado? 

 

R - Ah, dá para lembrar bem, é gostoso, né?

 

P/1 - Muito obrigada, seu Braulino, pela participação. Fiquei muito contente com o depoimento do senhor. Foi ótimo.

 

R - Obrigado vocês. 

 

(continuação)

 

P/2 - Vamos lá, então, seu Braulino? Então, seu Braulino, eu queria que o senhor contasse da sua experiência como garoto propaganda de medicamento?

 

R - [risos] Garoto propaganda! Esse dia me deixou muito chateado. Eu estava nervoso, que deram lá para mim fazer a propaganda desse Geriatran. Aí a gente ensaiou antes como ia fazer, e tal, o fotógrafo ia tirar umas fotografias. Aí passou uns dias, eles me chamaram lá na sala, aí estava o seu Tavares lá, com o joguinho de dama, o (whisky?) lá, o (whisky?) de mentira, para nós tomar, fomos jogar dama. Aí fomos jogar dama. E o seu Tavares e o fotógrafo lá . [risos] Aí eu bati com a dama de seis lá, e bater com a dama de seis, é difícil. E eu bati, então aí eu ri. Então eles fecharam a propaganda, depois lançaram lá uma porção de mil exemplares, com a minha foto. Até em Goiânia o médico de lá, que era conhecido, telefonou: "O seu Braulino é garoto propaganda agora? [risos]

 

P/2 - E para que era esse remédio, seu Braulino?

 

R - O Geriatran é para rejuvenescer. Eu tomei muito dele. Eu acho que até foi bom, viu? Eu era magrinho, pesava 56 quilos, agora estou com quase 80. Bom, também salvou a vida o cigarro que eu deixei.

 

P/1 - O senhor se achou bonito na propaganda?

 

R - É, não saí tão mal, [risos] saí com uma cara de velho. Aí depois a outra... aí foi em duas partes, com aquela cara triste, tal. Depois na segunda parte, quando eu bati o dob de seis, aí eu dei uma risadinha e então saí melhor um pouco. [risos]

 

P/2 - E o senhor sabe quem teve a idéia de convidar o senhor? Quem fez o convite?

 

R - Ah, o seu Vítor. Aquela parte de propaganda é tudo com o seu Vítor.

 

P/2 - E o senhor gostou de ter participado, no final das contas?

 

R - Gostei. Quando eu vi o lançamento, que saiu todos aqueles livrinhos lá da propaganda, as fotos minhas, eu achei engraçado. Na hora de fazer eu fiquei nervoso. [risos]

 

P/1 - O senhor falou que usou o Geritran, a família do senhor usou muitos medicamentos do Aché?

 

R - Não, nós não usamos muito não. Porque depende do que o médico receita, às vezes não receita do Aché. Às vezes eu falo com um indivíduo do Aché, o indivíduo não conhece. Porque o Aché é novo. Tem 30, agora 35 anos. Tem muito médico que não sabe a história do Aché. Mesmo a farmácia. Agora, se passar alguma coisa do Aché, ou a gente compra ou ela traz alguma coisinha para a gente.

 

P/2 - O senhor falou de um médico de Goiânia, né? O senhor tinha contato com médicos?

 

R - Ela. E eu conhecia ele, porque eu ia passear na casa dele, eu fiquei conhecendo ele. E depois um dia ele veio para São Paulo, ele e a esposa dele, eu estava hospedado na avenida Paulista e eles vieram lá em casa. Depois eu levei eles de volta lá. Então ficamos conhecendo. Então, quando ele pegou essa propaganda, telefonou para ela: "Ô, Beth, o seu pai é garoto propaganda agora?" 

 

P/2 - Aí o senhor ficou mais conhecido ainda?

 

R - É.

 

P/2 - Está bom, obrigada.






Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+