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História

Por trás dos espinhos há rosas

História de: Alcinda Ferrari de Ulhôa Cintra
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/10/2019

Sinopse

Em seu relato, Alcinda costura as memórias de sua vida passando por sua infância repleta de mudanças de cidade graças ao trabalho do pai, seus tempos de estudo e trabalho como psicóloga do Estado e, por fim, comentou sobre o “grande golpe” de sua vida, que foi a morte prematura de seu filho Jaime, que, em suas palavras, foi um espinho que fez seu coração sangrar.

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História completa

P/1 - Para começar eu gostaria que a senhora me desse seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Alcinda Ferrari de Ulhôa Cintra, nasci no dia 6 de setembro de 1912, estou recordando a data porque falei a data anteriormente (risos).

 

P/1 – Agora é hora da verdade...

 

R – Agora é hora da verdade... (risos)

 

P/1 – O local de nascimento da senhora?

 

R – Botucatu.

 

P/1 - Agora os seus pais também...

 

R - Papai é de Botucatu, mamãe é de Piracicaba. Eles casaram-se por amor, muito amor, tanto que nos transmitiram o legado deles que foi muita harmonia, muita amizade e muita justiça, não fosse papai um juiz, né? Depois, eu poderei falar sobre os pais dos meus pais que ficam em uma memória mais antiga. Vamos dizer [sobre] papai, a mãe dele chamava-se Alcinda, daí a razão do meu nome e nasceu em Portugal. Por sua vez, ela era filha de um advogado do Porto. Eles moravam numa chácara muito bonita, uma quinta muito bonita, que chamava Nossa Senhora da Hora, a família constava dos pais, dois irmãos e sete irmãs... É, sete irmãs... Em uma ocasião morreram os pais, os pais da minha avó, portanto, os meus bisavós e o meu irmão mais velho ficou dirigindo a casa e chamava-se Joaquim. E o segundo irmão que chamava José chegou um dia e disse : “Meu irmão, eu vou para o Brasil, o Brasil é uma terra muito promissora, eu garanto para você que com o dinheiro que nós recebemos do dote, eu vou para o Brasil e ficarei rico, muito mais rico do que eu sou hoje”. Dito e feito, veio para o Brasil, fixou-se em Botucatu, lá casou-se, teve quatro filhos homens e, por sua vez, escreveu para Portugal: “Meu irmão, eu queria que você mandasse Alcinda para me ajudar, Alcinda é muito inteligente, é muito organizada, vai me ajudar a educar meus filhos. Você sabe, minha mulher é brasileira, não tem aquela formação europeia...”, ele dizendo “Eles estão precisando de uma orientação mais firme como Alcinda tem. Além disso, ela é moça, bonita, ela vai gostar dessa viagem, vai aproveitar”. Ela se achava em Botucatu. E a Alcinda resolveu vir para Botucatu, ele foi espera-la em Santos, trouxe-a para Botucatu, lá ela ficou ajudando a cunhada a dirigir os seus filhos que eram quatro meninos.  Ela tinha um sistema interessante todas as tardes ela os punha numa mesa e ensinava-lhes as lições. Quando terminava a lição iam brincar na rua, na calçada, como era costume naquele tempo, mas a complicação dela era o dia de chuva, o que que ela resolveu fazer foi comprar um bastidor para cada sobrinho e à moda portuguesa os ensinou a fazer tapeçaria, ficaram todos eles fazendo tapeçaria, ficaram grandes homens, inclusive, a Rua Cardoso de Almeida era de um desses sobrinhos que ela criava, que ela ajudou a criar com tanto carinho. Todos eles políticos. E Alcinda, o que aconteceu com uma moça bonita, cheia de vida em Botucatu? Casou-se, casou-se aqui com o vovô Estevão, que por sua vez, era italiano, mas também vindo muito antes da Proclamação da República do Brasil, casaram-se, foram muito felizes, só dois anos porque quando pai tinha dois anos ela faleceu. Ela faleceu, ele casou uma segunda vez com uma brasileira, por sinal, era até uma tia do Ademar de Barros, quer dizer, não era prima de papai era, apenas, sobrinha da madrasta. Essa foi a história da minha avó Alcinda, de quem eu herdei o nome.

Em seguida, o meu avô, o meu avô Ferrari, o meu avô Ferrari foi uma história, mais ou menos, parecida, morava em Toscana, em uma cidade chamada Corfino, e tinha dois irmãos padres, o Pascoal e o Luiz, esses dois irmãos e três outros que tinham [outras] profissões, eram jovenzinhos ainda e nisso, um dos padres foi chamado para Botucatu, para ser o páraco em Botucatu. Ele veio, como os pais já tinha morrido, ele mandou buscar os irmãos, ‘Vendam tudo que vocês têm aqui e venham comigo, vocês ficam muito sós aí’. Eles venderam tudo que tinham, chegaram em Botucatu, um deles era o meu avô, o Estevão, esse meu avô comprou uma fazenda que ainda está lá em Botucatu, Fazenda Araquá, não é mais deles, mas agora ficou uma estação experimental tão linda, mas tão bem cuidada era a fazenda. E o padre ficava dirigindo os irmãos que estavam aqui no Brasil, um dos outros não veio porque era professor da Universidade Gregoriana de Roma, então ficou lá e os outros vieram para cá. Daí meu avô Estevão casou-se com a minha avó Alcinda e depois ela morrendo anos depois, casou-se novamente. Isso era do lado do meu pai.

Agora do lado de mamãe, a vovó Laura Correia Pacheco era uma moça criada com toda a finura no colégio de Itu, fez curso completo lá em Itu, era descendente de Bandeirantes e casou-se com o vovô Antônio Augusto Conceição que era barão do Império. E há uma história muito interessante na vida dele, ele gostava tanto da natureza que ao morrer, tinha uma árvore numa fazenda tão bonita, tão copada que ele dedicou que era piracicabana, então ele deixou para prefeitura uma fazenda para que fizessem um parque, com a condição de conservar a árvore, tanto que o Thales de Andrade, lembra-se? O escritor Thales de Andrade cultor da natureza tudo, ele foi homenageado e quando ele foi homenageado, ele disse “Como não hei de amar a natureza, se eu tenho um conterrâneo meu, o piracicabano Conceição Barão de Serra Negra que doou uma fazenda para que se conservasse uma árvore. Eu hei de amar sempre a natureza por isso”. Falou essas palavras. Esse é meu avô. Eu acho que as recordações mais antigas seriam essas.

 

P/1 – E seus pais?

 

R – Papai foi um homem muito importante, não importante por ser advogado porque era muito alegre, era interessante como ele conquistou Botucatu, nasceu lá, estudou no Colégio Arquidiocesano, depois da Faculdade de Direito de São Paulo, depois foi à Botucatu onde a minha mãe... Os pais dela tinham fazenda, lá se conheceram, se casaram e foram muito felizes, tiveram sete filhos. E papai tem uma profissão bonita, porque ele disse que ele era muito avesso à política, basta dizer que ele foi eleito vereador pelo partido contrário da família porque lá importantes eram os Cardoso de Almeida, que ele era filho, e os Amaral, e ele foi votado pelo pelos Amaral para vereador, então, ele disse que viu que o espírito dele não era político, que ele era juiz, ele gostava e fez concurso de juiz, papai foi o primeiro juiz de Direito de concurso, primeira turma.

 

P/1 – Agora conta pra gente como foi a sua infância.

 

R - A minha infância foi muito feliz, foi muito feliz porque eu tive além do... Foi o seguinte, primeiro nasci, eu sou primogênita, segundo nasceu minha irmã, com um ano diferença e essa irmã foi minha amiga e ainda é minha companheira, foi minha colega, em seguida veio meu irmão, meu único irmão, por isso foi o queridinho de nós todos. Depois vieram umas quatro irmãs, aí para essas minhas irmãs todas eu dediquei um amor maternal, dizem que é a sina do primogênito dedicar aos irmãos menores esse tipo de amor. Depois lá em Botucatu. Papai sempre deu muita importância aos filhos, lembro-me que quando eu fui estudar as primeiras letras, com uma professora que chama Dona Ester Portela, moderníssima, basta dizer que eu aprendi a ler com sistema atual, a primeira frase que eu escrevi foi “A menina chama-se Alcinda” nada de cartilha AB, AB nada disso, a segunda foi “Alcinda tem uma irmã que chama Lourdes”, era essa que foi minha colega. De maneira que papai tanto nos protegia, e tudo, que ele fez uma gentileza com a minha professora que era descendente de espanhol: o primeiro pagamento que ele fez ao nosso colégio, ao nosso curso dela, foi em moedas espanholas. Depois, o primeiro presente que demos à professora foi um grande ramo de flores colhidas no jardim público que o jardineiro de Botucatu fez questão de nos oferecer. Papai era muito querido mesmo lá, tanto que o Fórum de Botucatu tem o nome dele é Alcides de Almeida Ferrari.

Tive amigas de infância que me acompanharam até hoje, uma delas é Nadir Kfouri que foi a reitora da PUC, Nadir Gouvêa Kfouri, que foi uma amiga de infância e até hoje é minha amiga.

 

P/1 – Dessa lenda de brincadeiras de infância, como é que era?

 

R – Nós brincávamos, brincávamos muito, brincávamos de passar anel, brincávamos de casinha, fogãozinho no meu quintal. Mamãe fazia quando era meu aniversário, eu me lembro, que no quintal mandou armar umas mesas, uns bancos fixos, estava fazendo nossa festa.

 

P/1 – Qual é a melhor lembrança que a senhora tem da sua infância?

 

R – A melhor lembrança?

 

P/1 – É... A lembrança mais forte?

 

R - Uma lembrança mais forte da infância. Acho que foi o primeiro dia que eu entrei na escola, levando aquele ramo de flores feita pelo jardineiro de lá à minha professora. Aquele fato me comoveu, nós duas, eu e minha irmã levando buquês para ela, tinha uma novidade íamos aprender a ler, toda aquela história. Essa foi a lembrança mais forte.

 

P/1 – Alguém contava histórias para a senhora?

 

R – Contava, a vovó que foi criada... Ela não foi do tempo de escravatura, mas ela foi criada com os avós dela que tinham escravos. Quem contava mais histórias era uma ex escrava da fazenda de vovó, contava as histórias todas, eu me lembro que ela contava uma história que terminava com “Pedra mármore ficaras”, só me lembro dessa frase... Tã, tã, tã, pedra mármore ficaras, toda história que ela contava terminava com essa frase. Eu me lembro disso, e me lembro que vovó tinha cachorros. Muitos cachorros e me lembro que quando eu comecei a aprender ler, uma das frases que escrevi, uma das primeiras que eu escrevi era: “O cachorro de Alcinda chama-se Fido” que era o nome do cachorro de vovó. Tinha esse nome Fido, foi uma das primeiras frases que eu escrevi.

 

P/1 – Então o cachorro foi importante também?

 

 R - É o cachorro foi importante, mas pela vovó porque papai e mamãe quando se casaram, ambos tinham tido casas grandes, com cachorro, mas de comum acordo eles resolveram não ter cachorro, então eu em casa nunca tive cachorro, os cachorros da minha vida foram todos da minha vó. Tinha um gatinho chamado Mimi que tinha um olho verde outro azul, lembro-me do gatinho bem branquinho. E o Fido, e outro cachorro que se chamava Folete, tudo da casa minha avó.

 

P/1 – A senhora me contou que mudou várias vezes por causa da profissão de seu pai, conta para gente como foram essas mudanças.

 

R – Foi o seguinte, o primeiro lugar que papai foi, depois que fez concurso de juiz... Em Botucatu, ele foi promotor, primeiro vereador, depois promotor e advogado, depois fez concurso para juiz, em primeiro lugar foi em Itapeva,  em Itapeva fomos muito felizes, porque inclusive um dos tios avós, irmão do meu avô morava em Itapeva, chamado João Conceição, cujo os filhos foram todos os fundadores dos colégios lá de Itapeva, os donos do ginásio, aliás, os diretores de ginásio foram eles lá, tinham um ramo da minha família lá em Itapeva. Lá fui muito feliz, tive um período em um grupo lá, muito pouco, enquanto esperava vaga no colégio.

 

P/1 – A senhora tinha?

 

R – Devia ter uns oito anos, saí pequena de Botucatu, fomos para lá então devia ter uns oito anos. Me lembro que na escola, no grupo que nós estivemos, uns seis meses apenas, eu minha irmã, eles cantavam no Dia da Arvore canções sobre a árvore, inclusive eu sempre recitei em festa, tomei parte em festa sempre homenageando árvores e pássaros.

 

P/1 – E os poemas eram de algum autor?

 

R – Eram. Os poemas eram de algum autor que eu não me lembro quem, me lembro que nós cantávamos um canto que dizia o seguinte “A quer dizer andorinha, B quer dizer beija-flor, C quer dizer canarinho, quando não diz caçador” cantando lá.

 

P/1 – Já era ecológico?

 

R- Já era ecológico, meu tempo foi ecológico.

 

P/2 – E aí, dona Alcinda, a senhora morou em várias cidades e como é que a senhora veio morar aqui em São Paulo?

 

R – Depois, de várias cidades depois, mas eu sempre vinha à São Paulo porque meus avós moravam em São Paulo, a minha avó, aliás, porque meu avô já tinha falecido, a minha avó materna morava em São Paulo. Depois de Itapeva fomos para Itaporanga, Itaporanga é uma cidade muito interessante, era uma cidade que não tinha estrada de ferro, perto do Paraná, nós chegávamos em Itararé, em Itararé o trem parava e tomávamos carro para ir para Itaporanga.

 

P/2 – Como é ainda hoje. É o mesmo caminho que a gente faz para ir para lá.

 

R – Ah, é? Deve ser, eu não fui mais lá. Mas Itaporanga era uma cidade interessante. Tinha o céu mais bonito que eu já vi, tão cheio de estrelas. Talvez fosse falta de indústrias, não sei, mas era um céu todo estrelado muito bonito. Não havia água encanada, a nossa casa era a casa do juiz, então era a casa melhor da cidade, me lembro que o chão era ligeiramente inclinado porque lá havia tido um cinema, que já não havia mais quando eu fui. Me lembro que era ligeiramente inclinado. Tanto que eu tenho irmã que nasceu lá, que andava só correndo e costumavam falar que andava só correndo porque começou a andar numa sala inclinada (risos).

 

P/1 – Das cidades que a senhora morou, qual marcou mais?

 

R - Depois de lá eu fui para Itapetininga, não Capivari, Capivari é uma cidade perto Piracicaba, uma cidade agradável, uma cidade com paulistas antigos. Papai e mamãe encontraram lá pessoas das antigas relações deles lá em Botucatu, em Botucatu não, em Capivari. A casa que morávamos, a casa do juiz era uma casa muito interessante, me lembro que na volta toda da casa havia lugares para pendurar lanternas, não seriam lanternas, seriam lampiões em volta tudo da casa, era uma casa muito interessante. A casa toda, o interior, por dentro era rodeada por murinhos. Não sei qual seria a razão dos murinhos.

 

P/2 – Quantas cidades a senhora morou até chegar à São Paulo?

 

 R- Eu morei em Botucatu, Itapeva, Capivari, Itapetininga, São Paulo.

 

P/2 – Quando a senhora chegou, então, a senhora já era mocinha?

 

R – Já era mocinha, quando cheguei definitivamente. Depois, havia esse grupo em Capivari, faziam aquele tipo de festas antigas, eu me lembro, esse meu único irmão homem ele foi o rei da Festa do Divino, tinha Santa Isabel, que era uma outra mocinha, festas antigas, aquele tipo de festa antiga havia lá em Capivari

 

P/1 - Como é que era a festa, a senhora lembra?

 

R - Me lembro que tinha Santa Isabel.

 

P/1 – Era uma encenação?

 

R – Era uma encenação. Era uma das meninas lá da época, meu irmão que foi o rei da festa, Santa Isabel era uma outra mocinha, uma procissão terminando lá na igreja. Depois iam para casa, na casa do doce, tinha distribuição de doces para todos que apareciam. Isso foi Capivari, depois fomos para Itapetininga. Itapetininga já pegou uma época de minha mocidade em que estudei o Normal, tive amigas muito queridas, o paraninfo da minha turma, foi o seu Tônico Alves, o pai do Murilo Alves, exatamente igual ao Murilo Alves um homem de princípios, um homem correto e bom, que até escreveu uma coisa tão bonitas no meu álbum de formatura, podia ter trazido, mas não trouxe, mas ele escrevia coisas muito bonitas sobre otimismo, me achando otimista. Naquela ocasião mocinha, né? Me lembro disso lá, lá foi um tempo muito alegre, muito feliz, era bem jovenzinha de 17 anos. De lá vim para São Paulo.

 

P/1 – Em São Paulo que a senhora conheceu o seu marido?

 

 R – Foi em São Paulo. Em São Paulo, fiz curso, fiz faculdade, depois conheci meu marido.

 

P/1 – A senhora estudou antes de casar?

 

R – Antes eu fiz. E eu tive muita sorte, que eu vou lhe contar, eu fiz os cursos todos quase comissionados, eu tive uma cadeira no interior que não tomava posse em São Paulo, fazia concurso, ganhava o concurso e ficava comissionado em São Paulo. Assim eu estudei na faculdade de (ge...?), depois estudei na Psicologia, comissionado.

 

P/2 – Naquele tempo era muito comum as mulheres fazerem esses cursos? Ou a senhora foi uma das poucas?

 

R – Eu acho que não era tão comum não, não era tão comum, eu tenho amigas que ainda me acompanham e que foram minhas colegas de trabalho, de turma. E daí depois de formada, conheci meu marido.

 

P/2 – Como a senhora o conheceu?

 

R- Eu conheci meu marido numa festa, como papai era desembargador, eu conheci meu marido nos 25 anos das bodas de prata do Dr. Manoel Gomes de Oliveira, um desembargador, colega de papai, lá eu conheci meu marido e daí já nos namoramos, nos casamos e eu sempre digo que eu tive muita sorte. Casei-me por amor e com uma família igual a minha, os mesmos de ideais de união, de harmonia. Depois vieram meus cunhados, meus cunhados que foram verdadeiros irmãos. Depois vieram meus sobrinhos muito queridos, de lado a lado, dentre eles meus diletos afilhados, que foram meus sobrinhos. Depois de 30 anos de casada, meu marido faleceu. Daí continuei a luta, mas nunca me senti só porque meus filhos foram muito bons. Todo jardim tem seus espinhos, eu fui muito feliz, mas nessa felicidade teve espinhos que perfuraram meu coração, como a morte do meu filho, perfuraram meu coração, que até hoje sangra. Mas a gente sempre passa por morte, depois o marido, mas o meu filho morreu com 19 anos, um menino forte, sadio, campeão de natação no ano que morreu, tinha sido campeão universitário de natação, estudava Engenharia, depois o meu marido morreu, mas eu tenho que lembrar que atrás dos espinhos há sempre rosas.

 

P/1 – E o seu trabalho como era? A senhora continuou trabalhando depois de...

 

R – Continuei. Continuei, eu era psicóloga. Trabalhava tinha sede, mas eu trabalhava junto a escola, e na escola e eu tinha várias funções, reajustamento das crianças, aplicava teste, selecionava aqueles que são classes especial, orientava as mães e tudo isso. Apesar de eu trabalhar de três a quatro horas por dia, não trabalhei em tempo integral, nem poderia porque tinha cinco filhos, nem poderia. Apesar disso, eu achei muito difícil, mesmo gostando, achei muito difícil conciliar trabalho e filhos, mas procurei conciliar, tanto conciliei que me aposentei.

 

P/1 – A senhora teve uma ocupação na vida toda?

 

R – Até eu falei que tive, mas antes de fazer o curso de psicóloga, eu fui educadora sanitária. Fiz o curso educadora sanitária, depois o diretor da seção de Elemental escolheu pessoas com nível universitário, nós educadores tínhamos nível universitário. Daí nos convocou e nós fizemos o curso de psicólogas para trabalhar com ele na seção de Elemental. Foi essa história.

 

P/1 – E qual é a atividade que a senhora considera mais importante a familiar, a política, a religiosa?

 

R – Familiar, sem dúvida, eu sempre dei um destaque especial a família. Eu sou muito unida a família. Tenho meus netos que são muito queridos. Esse meu neto mais velho é muito querido, a minha neta. Vai esperar, né? Vou ficar bisavó em novembro.

 

P/1 – Que bonito!

 

R - Bonito, né?

 

R- E depois que a senhora aposentou como é que foi essa passagem de trabalhar para não trabalhar?

 

P - Eu quando me aposentei, logo depois perdi meu filho, então, eu não pensei mais em trabalhar, eu ao contrário, dei todo meu material, incluindo meus testes, meu kit todo de testes, livros de psicologia para uma sobrinha que também cursava psicologia. Não trabalhei mais, só me dediquei à família mesmo. Eu não quis mais. Trabalhei muitos anos, cheguei me aposentar, portanto, achei que cumpri meu dever. Aconteceu uma coisa muito interessante, que de vez em quando ouve-se alguma palavra bem interessante de pessoas que são mais simples, quando eu era psicóloga havia na minha seção de Elemental uma servente Dona Ana, uma lutadora, ela trabalhava o dia todo, quando terminava seis horas da tarde, ela ia em casa de cliente para tomar conta de neném à noite. Depois, no dia seguinte, levantava cedo, voltava novamente para o trabalho, uma lutadora, que teve filhas, educou todas as filhas dando risada, todas com diploma de Escola Superior, de valor. Em uma ocasião, eu estava muito preocupada, eu tinha tido com meu filho, aquele que morreu, era muito sadio tudo, mas estava difícil, ele era o quarto filho e estava tão complicado continuar trabalhando que eu cheguei até a secretaria e falei “Não tem um jeito de pedir uma licença, um afastamento, nem que seja sem vencimento?”. Ele disse “Não tem, agora não há nada fazer” e eu disse eu lhe disse então: “Mas se não há nada a fazer, eu vou ter que deixar, eu não posso, eu tenho menino pequeno, não tenho gente pra deixar em casa, está complicado, acho que vou deixar”. Chegando na seção de Elemental, a sede era separada da seção Elemental e falei com a servente: “Dona Ana, acho que eu tenho que largar o meu trabalho. Não estou conseguindo, o Jaime tá pequenininho, não tem jeito não. Não tenho coragem de deixá-lo”. Ela disse a única coisa contra “Que pena, Dona Alcinda, quando seus filhos ficarem moço dirão ‘Coitada de uma mãe que não levou sua função até o fim’”. Não foram as palavras dela que me fizeram mudar, mas fizeram estremecer, eu julgando que eu estava dando um exemplo para o meu filho de dedicação, estava lhe dando, segundo a opinião dela, um exemplo de largar a missão no meio. Mas você acredita, eu sou tão feliz, tive tanta orientação da vida, tive muita sorte na vida. Quando eu ia entrar com pedido demissão, uma minha prima telefonou me dizendo ‘não faça isso vai sair uma licença de dois anos sem vencimento’. E podendo ficar mais um ano depois. Quando saiu, eu pedi imediatamente esse afastamento, fiquei três anos afastada. Conciliei as coisas e pude continuar meu trabalho. E quando eu cheguei o secretário do meu trabalho disse “Ô Dona Alcinda, me explica uma coisa, quem que conseguiu isso?”. Doutor Alcides que era meu pai, desembargador, ele foi presidente tribunal também, esqueci de dizer, papai chegou a ser presidente Tribunal de Justiça e presidente do Tribunal Eleitoral. “Foi doutor Alcides ou Doutor Sílvio?” que o marido era procurador do Estado, eu disse: “Nem um, nem outro, saiu espontaneamente porque Deus me ajudou” e pedi aquele afastamento. Conclusão, consegui levar minha posição até o fim, me aposentei depois de 30 anos de trabalho, com função de horário e dei graças a Deus.

 

P/1 - Conta para a gente, como é que é o cotidiano da senhora?

 

R - Agora eu moro com filho. Aliás, o filho mora comigo, meu filho é arquiteto e gosta mais de pintar, ele é mais pintor, ele é artista plástico, prefere, embora formado arquitetura. Eu acho que eu procuro ajudar muito a minha família, muito mesmo, não financeiramente porque, graças a Deus, eles não precisam, mas auxílio. Levo, às vezes, meus netos ao colégio quando há algum impedimento pra mãe, outras vezes, vou busca-los no colégio. Vejo alguma coisa de que que precisem, como costura, tudo, não só faço como levo para costureira fazer, leio, escrevo, são essas atividades.

 

P/1 – O que a senhora escreve?

 

R – Eu escrevo sobre minha vida, mas não guardo. Não guardo alguma coisa que escrevo, devia guardar, né? Eu escrevo cartas, eu tenho um neto que tá estudando em Estados Unidos, tá na faculdade, em Los Angeles, escrevo cartas para ele. Meus netos quando estão viajando, eu os escrevo e mando também. Atividades desse gênero, tenho muitos sobrinhos, tenho muitos irmãos, sou muito ligada a todos eles.

 

P/1 – O que se transformou mais na sua vida?

 

R - Eu acho que o golpe maior da minha vida foi a morte do meu filho, eu acho que depois que eu procurei... Sou muito ligada à família, a todos eles, meus netos, meus filhos, sou ligada também aos meus irmãos, aos meus sobrinhos.

 

P/1 - Esse golpe, essa peça, transformou a vida da senhora em alguma coisa...

 

R- Não, não transformou porque no primeiro ano, nos dois primeiros anos, eu fiquei muito... Chorava, chorava muito, fiquei muito magoada, depois o marido morreu. Quando meu marido morreu, de repente, de infarto fulminante, eu disse: “Agora eu preciso reagir”. Porque antes eu contava com ele, nós dois recebíamos os filhos, mas contando com ele, depois quando ele morreu dois anos depois, acredito até que como consequência da morte do meu filho, que era extraordinário, eu reagi e comecei dar o apoio que dou até hoje. Realmente comecei. Esse meu filho que morreu era extraordinário, eu ainda hoje, revendo meus papéis, porque eu estava inutilizando, como eu estou pintando minha casa, estava retirando tudo, jogando documentos, coisas antigas de Imposto de Renda, jogando fora, depois de muitos anos não precisa mais, parece que fez anos. Comecei a jogar e a ver as coisas do Jaime, esse meu filho que morreu, extraordinário, eram coisas, cadernos e cadernos escritos por ele que não vi nenhum aluno fazer tal, ele não deixava página em branco, todas escritas, todas com trabalhos executados de tudo, ele era um menino tão perfeito que ele teve nos Estados Unidos fazendo aquele programa de intercâmbio. E quando ele voltou tive uma festinha em casa, e ele mostrando o álbum que ele teve lá, os colegas, que ele foi com outros colegas. Esses colegas que tinham ido lá, falaram a ele “Jaime como é que você conseguiu esse álbum e nós não?” O Jayme disse... Ele era muito simples, sabe? “Provavelmente, o meu colégio fazia isso e o seu não”. Mas o álbum eram coisas assim: “Jayme, eu não conheço o Brasil, mas por você eu imagino que país maravilhoso é esse o seu”. Os colegas dele falavam, mas o que eles não sabem é que ele era exceção. Os coleguinhas dele falavam e outro escreveu assim: “Jaime, como é que você consegue ser tão suave e tão másculo?”, o professor “O aluno que eu já tive que mais aproveitou na faculdade”, professor americano escrevendo para ele, tudo assim, de maneira que foi, realmente, para os irmãos, para todos um golpe muito forte.

 

P/1 – Qual um sonho que a senhora tem?

 

R - O meu sonho não é um sonho, além de que minha família se realize bem, que tenha saúde, tudo isso, é uma coisa pessoal que eu nem devia dizer: morrer suavemente e não ficar doente porque até hoje em minha vida nunca fiquei doente. Nunca. Tanto que tenho uma irmã que costuma dizer que só me imagina morrendo de desastre... Ela fala até em desastre (risos). Eu queria ir sem dar trabalho porque eu sempre ajudei, não gostaria agora de ser tão ajudada, entendeu? Esse seria meu sonho.

 

P/1 - E o que que a senhora diria para gerações futuras?

 

R- Eu acho que o que eu direi para gerações, eu acho que nós temos de amar muito próximo, e lembrar que o próximo tem uma sequência, o primeiro próximo são nossos filhos, são nossos irmãos, são todos que nos rodeiam, seguindo essa linha de continuando, mas sempre dando, dando amor a eles e procurando não ser egoísta. Trabalhando por eles sempre. Eu acho que é aquela velha história, procurar andar corretamente. Eu ainda acho que errar é humano, mas o erro mostra...  Muitas atrapalhações é... Procurar andar bem.

 

P/1 - A senhora acha importante deixar gravado o seu depoimento da sua trajetória de vida?

 

R - Não sei se compensa.

 

P/2 – A senhora gostou da experiência?

 

R - Gostei, gostei, gostei muito, vocês são muito amáveis.

 

P/2 – O que a senhora gostaria que fosse feito com esse depoimento?

 

R -  Não sei, nem sei se interessa aos meus filhos, não sei o que eu falei é tão... Naturalmente, né? Não sei se não sei se interessa aos meus filhos, não sei.

 

P/1 - Muito obrigada, tá bom?

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