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História

Por trás do autoritarismo, gente que não tem amor na vida

História de: Maria Augusta Lós Reis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/05/2022

Sinopse

Pai na guerra. Separação e criação dos avós italianos. Conversas com o espanhol anarquista. Chegada da televisão. Cinema. Curso de Secretariado. Philips em Guarulhos. Trabalho de sociologia. Demissão. Aulas de estenografia. Cursinho Grêmio da USP. Passeatas. Morte do cunhado. Pai militar. Ciências Sociais no ISS. Professora de Economia no Colégio 12 de outubro. Visita do agente do DOPS em sala. Manifestação contra a morte do estudante Edson Luís. Entrada no Beatíssima. Aulas de Educação Moral e Cívica para complementar a história do Brasil. Assembleia Constituinte e banda de rock na escola. Pesquisas das notícias e discussão em sala. Aula de Sociologia. Visão da classe média. Aposentadoria e psicopedagogia. Oficina de memória na PUC. Histórias no asilo. Casamento, separação, filhas e netos.

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História completa

0:17 (P/1) Qual é o seu nome completo, onde você nasceu e que dia que foi?

R - Meu nome é Maria Augusta Los Reis, eu nasci aqui em São Paulo, no Cambuci, nasci em casa, no dia 13 de julho de 1946.


0:38 (P/1) Você nasceu em casa, como é que foi, seus pais te falaram?

R - Sim, porque eu sou a quarta filha, os partos da minha mãe, os três primeiros foram muito difíceis, quem fazia os partos era meu tio, irmão do meu pai, com uma parteira. E aí mamãe resolveu, ao invés de ir para maternidade, vamos nascer em casa, vamos tentar nascer em casa, e foi assim. Então o parto foi feito em casa, com meu tio, uma parteira, e claro, o resto da família aguardando. E é uma coisa muito bonita, porque eu acabei de nascer e meu pai entrou no quarto, e disse o seguinte: é uma menina e vai te chamar Maria Augusta. Então eu tenho o nome da minha mãe e do meu pai.


1:41 (P/1)  Seu pai se chama Augusto?

R -  João Augusto.

(P/1)  A família dele vem de onde?

R -  Família nordestina, uma família nordestina, meu pai Sergipe, Aracaju, e a família veio de lá. E a minha mãe é uma família italiana, totalmente italiana.


2:07 (P/1) Eles faziam o que, a família do seu pai e da sua mãe?

R - Bom,  a minha avó materna ficou viúva, perdeu o marido e veio para São Paulo, e ela era professora. E a família da minha mãe, é uma família que descende de imigrantes italianos, que se estabeleceram na zona leste. Meus avós trabalharam muito porque eles queriam… o desejo deles era formar os filhos, que os filhos tivessem uma excelente formação. E eles conseguiram, eles formaram dois filhos médicos, um dentista e a minha mãe que também estudava na época, fazia o antigo normal e estudava piano. E tem um dado interessante da minha avó, minha avó foi uma feminista, porque ela colocava os filhos para lavarem a louça, porque a minha mãe não podia, porque a minha mãe estudava piano não podia estragar as mãos, entendeu? Então uma baixinha, siciliana, muito brava, muito brava, mas super afetuosa, minha vó. Minha mãe não, minha mãe um doce de coco, meiga, doce, um amor.


3:37 (P/1) Você sabe como é que eles se conheceram, seu pai e sua mãe?

R -  Existe uma história romântica. Na verdade o meu pai era amigo do meu tio, irmão da minha mãe, e um dia ele foi visitar, foi a casa dos meus avós, justamente no momento em que a minha mãe estava tocando piano, então foi nesse momento, que ele dizia, que se apaixonou por ela.


4:03 (P/1) Seu pai trabalhava com o que?

R -  Meu pai era militar, ele foi para guerra, ele foi oficial do Castelo Branco.

(P/1) Foi para a Itália?

R - Foi para Itália.


4:25 (P/1) Quando você nasceu ele tinha acabado de voltar?

R -  Sim!

(P./1) Você nasceu no Cambuci, sua família morava lá?

R - Morava lá!

(P/1) E o que você lembra de início, primeiras lembranças que você tem?

R -  De lá, nada, não me lembro de nada, de nada! Porque quando eu estava com dois anos meus pais se separaram, foi um processo extremamente doloroso e eu fui criada na casa dos meus avós, italianos. Então a minha vivência foi com a família da minha mãe.


5:07 (P/1) Você moravam onde?

R -  Morava no Belenzinho.

(P/1) E você tem irmãos?

R -  Quatro irmãos: um irmão e duas irmãs do primeiro casamento de meu pai e uma irmã mais nova do segundo casamento dele.

(P/1) Então você foi criada com os seus avós, como é que foi sua infância?

R -  A minha infância, foi uma infância maravilhosa, muito afeto, família italiana, tá sempre junta, meus tios foram maravilhosos, fora de série, afetuosos, minhas tias também, é a família extensa, os irmãos dos meus avós, tanto do meu avô, quanto da minha avó, nós vivemos juntos, nós visitávamos muito. Houve muito aconchego, muito afeto, muito respeito e muito trabalho também, muitas exigências, é claro.


6:21 (P/1) Com quais irmãos você cresceu? Com a sua mãe?

R -  Depois a minha família foi separada, eu fiquei separada dos meus irmãos por um tempo e só depois que nós voltamos a nos reunir.

(P/1) Com que idade?

R -  Eu já tava… houve momentos que nós ficávamos juntos, momentos que nós estávamos separados, mas isso só depois do final da adolescência.


7:03 (P/1) E você cresceu no Belenzinho, então? Como que era o bairro nessa época?

R -  Sim! Olha, era um era uma pequena família, nós tínhamos um vizinho muito querido, senhor José Moreno, casado com a Dona Catarina, senhor José Moreno era um anarquista, uma espanhol anarquista, que tava aposentado e cultivava orquídeas, então ele tinha um terreno enorme, um capricho enorme, e ele me ensinou muitas coisas relativas a cidadania, aos direitos. Eles nos chamavam para tomar lanche na casa deles, e a gente trocava ideias. Antes de eu prestar vestibular, com quem eu fui conversar? Foi com o senhor José Moreno. Era um tempo que se escutava a hora do Brasil todos os dias, as pessoas eram bem informadas, meu avô escutava a voz do Brasil todos os dias, na família se falava muito sobre política. Eu me lembro que naquela época estavam construindo a ponte da Vila Maria, aí um dia o meu avô se arrumou todo, “vô, onde o senhor vai?” “Eu vou ver como é que está a construção da ponte da Vila Maria, porque nós que estamos pagando essa construção.”


8:50 (P/1) Vocês ouviam muito rádio nessa época?

R - Sim, escutava muito rádio. E depois chegou a televisão, aí foi um evento. Meu tio Antoninho, uma graça, uma paixão, ele era dentista, e ele era muito moderno, era muito avançado para época, logo que saiu da televisão, ele comprou. E meu avô ficou apaixonado, aí resolveu comprar uma televisão também, aí a família inteira se reunia ao redor da televisão e era mais um motivo para estar todo mundo junto.


9:34 (P/1) E vocês ouviam o que no rádio, música, notícia, como você falou?

R - Sim, mas aí na hora que chegou a televisão, aí o rádio ficava para escutar música, e à noite a família toda se reunia para ver televisão.

(P/1) E vocês assistiam o que?

R -  Olha, a gente não tinha muitas opções. Eu me lembro de espetáculo de balé, depois logo começaram as novelas, eu não tenho muita lembrança, eu não era assim tão ligada.


10:11 (P/1) E você gostava de fazer o que nessa época? Quando você era criança você brincava muito na rua?

R -  De andar de bicicleta, impressionante. Ia para escola, voltava, fazia as lições e andava de bicicleta. E havia também, uma pessoa muito importante na minha formação, que foi a minha madrinha, a famosa Lili, paixão da minha vida também. Eu digo que eu tive duas mães. E a Lili adorava cinema, e a gente ia muito ao cinema, muito ao cinema, tanto é que ela me comprava uma revista da época, que era Filmelândia, eu tinha coleções da Filmelândia. As quartas-feiras a gente ia para o cinema, no final de semana a gente ia para o cinema, ir ao cinema era uma atividade… a gente se arrumava para ir ao cinema, botava a melhor roupa, se arrumava. Eu me lembro, Cine Olido, quando foi inaugurado, havia um pianista tocando antes da apresentação do filme.


11:41 (P/1) E tinha cinema na Zona Leste?

R - Sim, havia, no Belenzinho havia um cinema no Largo São José, passavam dois filmes, e tinha seriado, era intensa atividade, viu.

(P/1) E teve algum filme, algum seriado que te marcou mais, que você viu nessa época?

R -  Olha, eu sempre gostei de musical, e nessa época eu me apaixonei pelo Mario Lanza, você nunca nem deve ter ouvido falar, você nem imagina quem seja. É um cantor de música italiana, música clássica, um tenor, ele era um tenor, então havia filme do Mario Lanza, minha madrinha me levava.


12:43 (P/1) E levava mais alguém, ou ia só vocês duas?

R - Não, íamos só nós duas, as vezes minha mãe ia, mas nós éramos aficcionados por cinema. Eu me lembro quando eu completei 10 anos, que aí também já ficou mais fácil para ela, “agora você, nós podemos ir ao cinema à noite”. Ela me levou ao Cine República, eu não me lembro o filme que ela me levou. Mas a emoção de estar na fila do cinema de braço dado com a minha Lili, foi uma coisa muito linda, foi uma coisa muito especial.


13:25 (P/1) E o bairro na época era como é hoje?

R -  Eu acho que o Belenzinho entrou num processo, ele passou por um processo de decadência, mas continua a mesma vidinha, eu tenho uma relação muito grande de afeto com aquele bairro. Quando eu saí de lá eu já estava com 20 anos, 19 para 20 anos, aí nós mudamos de lá, mudamos para o Campo Belo.


14:04 (P/1) Quando você tinha uns 20 anos?

R -  Mais ou menos, por aí, não sei exatamente, entre 18 e 20 anos mais ou menos.

(P/1)  E como que era a rotina da sua casa nessa época?

R -  Em que sentido?

(P/1) Vocês acordavam que horas, quem fazia o que? Você falou que trabalhava muito.

R -  Eu comecei a trabalhar muito cedo, comecei a trabalhar muito cedo. E a orientação da minha mãe, era a seguinte, você tem que estudar, e minha mãe também era feminista, ela falou assim: olha, o melhor marido é um diploma na mão, então trata de estudar. Eu estudei numa escola de freiras, escola religiosa, Nossa Senhora Auxiliadora, entra burra e sai professora.


15:08 (P/1) Era isso que eles falavam na época?

R -  Era, entra burra e sai professora, era o slogan. E quando eu terminei o ginasial, na época era ginasial, minha mãe falou assim: e agora, o que você vai fazer? Você não quer fazer normal? Aí eu falei: não, eu jamais serei professora, jamais. “Você tem certeza?” “Absoluta!” “Então é o seguinte, você vai ter que trabalhar, se você não fizer normal, você vai ter que fazer secretariado”. Tá bom, lá fui eu fazer secretariado, fui para o Álvares Penteado, e na época o Álvares Penteado ficava no Largo São Francisco, ao lado da faculdade de direito. Então toda aquela efervescência, da década de 60, tudo isso fez parte da minha vida. Eu pegava os livros na biblioteca da São Francisco, tempinho bom. Fazia inglês no Instituto Roosevelt. Mas a mamãe falou, você tem que trabalhar, você tem que se virar. Então já quando eu estava no secretariado, a gente tinha aula de estenografia, vocês imaginam o que é isso? Você vai ser secretária, a secretária tem que fazer as atas, as entrevistas, e o pessoal falava muito rápido, então a gente aprendia um tipo de linguagem, um tipo de escrita, um tipo de registro, onde você facilitava.


17:05 (P/1) Datilografava também?

R -  A gente tinha aula de datilografia também. A professora de estenografia, gostou de mim, então e falou: olha, você está querendo trabalhar, tem uma menininha que está no primeiro ano, ela não está bem, você vai fazer o seguinte, você vai dar aula para ela, aqui na biblioteca. E foi assim que eu comecei.


17:39 (P/1) A dar aula?

R - Foi a minha primeira aluninha. E eu gostei da coisa, eu gostei, poxa, comecei a obter os meus primeiros resultados, retorno, coisa boa.


17:59 (P/1) E isso tudo você ia acabar trabalhando aonde?

R -  Bom, quando eu terminei secretariado, eu arrumei um emprego na Philips, lá em Guarulhos, como secretária do chefe de fábrica, era um empregão para época, era empregão, eu entrei com um salário muito bom, mas na hora que eu me vi como secretária, eu não me senti secretária, você ficar presa numa sala, depois houve uma época de crise também, a empresa passou por uma crise etc e tal. Quando meu chefe viajou, meu chefe era um espanhol, eu trabalhava com espanhol, quando ele viajou eu pedi as contas, pedi demissão, mesmo porque no terceiro secretariado, nós tivemos aula de sociologia e de repente parece que uma cortina se abriu, o professor era ótimo, ótimo, tranquilo, apaixonado e nos pediu um trabalho de pesquisa, então meu primeiro trabalho de pesquisa eu fiz com professor de sociologia, por incrível que pareça, no terceiro secretariado.


19:45 (P/1) Que anos mais ou menos, você se lembra?

R -  Eu fiz a colinha das datas e deixei em casa. Isso aí era o quê, década de 60. E ele era encantador. Eu tinha uma grande amiga, aliás, tenho uma grande amiga até hoje, e nós ficamos apaixonadas, eu falava, “mas eu tenho que fazer um trabalho de pesquisa, como é que eu vou fazer?” Numa visita que eu fiz a minha tia, eu falei, “tia eu tenho que fazer um trabalho de sociologia, é um estudo de casa”. Ela, “humm!” “Eu tenho que procurar uma coisa que seja diferente, por exemplo, uma pessoa que tenha problema de adaptação”. Expliquei para ela em linhas gerais, ela falou assim, “nossa Maria Augusta, eu tenho uma empregada aqui que eu estou treinando, ela tem dificuldade, ela não conhece nenhuma enceradeira, nem nada, nada nada”. E foi assim, com a entrevista dessa empregada, e o relato da minha santa tia, que eu fiz o meu primeiro trabalho de sociologia. E qual não foi a minha surpresa, quando eu tive a nota máxima nesse trabalho, eu me encantei. Bom, voltando, depois de terminado, então ficou essa coisa da paixão pela pesquisa, pela busca pela informação, quando eu terminei o secretariado, fui trabalhar como secretária, não deu certo, não era o que eu queria para minha vida, pedi demissão. E essa minha colega do secretariado, falou assim: Maria Augusta, vamos prestar vestibular? Eu falei assim: o quê? Vestibular? Mas como? Como é que eu vou pagar uma faculdade? Não vamos prestar vestibular. “Olha, tenho curso maravilhoso, já vi”. “Que curso é esse?” “Ciências Sociais Maria Augusta, olha que maravilha, você já pensou, nós vamos poder voltar a estudar sociologia”. Tem que dar certo! Cheguei em casa falei para minha mãe, “mãe eu vou pedir demissão e vou prestar vestibular”. “O quê?” “Pode ficar sossegada que eu aguento o tranco”. Aí eu comecei a botar a placa lá fora, para dar aula particular, eu dava aula particular em casa, preparava molecadinha. Comecei a dar aula particular de estenografia, eu saia do cursinho e ia dar aula de estenografia. Eu acho que naquela época se me pedissem aula de sânscrito, eu ia dar, porque eu precisava da grana, entendeu? E assim eu consegui… eu tinha uma reserva, que eu havia trabalhado, consegui pagar o cursinho, eu fui fazer o cursinho do Grêmio da USP. E aí foi a sopa no mel, poder voltar a estudar, voltar a ler, pesquisar.


23:23 (P/1) O que você pensava ou sentia na época com relação à política que estava acontecendo no Brasil? Vocês discutiam?

R - Em casa se falava muito sobre política, família italiana, se falava muito sobre política. Havia naquele momento, uma efervescência, eu pelo menos senti assim. Estudando no Largo São Francisco, e vendo as manifestações da faculdade de direito, e depois entrando na faculdade, aí ficou uma coisa muito forte, não dava, as pessoas todas estavam muito inflamadas, estava todo mundo lutando por uma coisa melhor, existia um sonho, existia a mobilização. Quando eu vejo um marasmo, tanta coisa acontecendo e as pessoas assim, “mas… eu com isso?” Eu acho que naquela época existia um engajamento maior, eu não vejo a molecada, o que está acontecendo? O que nós vamos fazer? Não, hoje em dia a melhor saída para o brasileiro, é o que? Aeroporto, poxa! Não deu certo aqui, vamos embora. “Mas por favor, não me atrapalhe que eu estou mandando mensagem e entrando nas redes sociais”. É terrível, é terrível! Eu acho que existia uma paixão, existia uma paixão, eu sentia isso na minha família, eu senti isso nos meus amigos. Talvez fosse a idade, talvez fosse os hormônios, eu não sei, mas eu sentia isso.


25:54 (P/1) Mas era uma vontade, pelo o que, mudança em que sentido?

R - Era uma vontade de mudança, de acabar com essa desigualdade, entendeu? De se ter um sistema democrático.


26:15 (P/1) Nessa época você ou alguém que você conhecia se envolveu com partido, sindicato, movimento estudantil, como é que foi isso?

R - Olha, vários conhecidos, eu tinha uma colega que se envolveu em um dos grupos, eu não me lembro exatamente qual, era minha colega de faculdade, que depois acabou sendo presa, mas saiu. Houve casos de pessoas próximas a mim, o filho de uma amiga de minha mãe, que foi preso, foi torturado, teve a vida toda desestruturada. Então não foi uma fase fácil, não foi!

27:06 (P/1) Você, a sua família, vocês imaginavam que ia acontecer um golpe militar, ou isso estava completamente fora do horizonte?

R -  Não! Se falava, se falava muito! Como é que eu poderia explicar, existia alguma coisa no ar, na verdade não era no ar, era nas notícias. Mas todo mundo dizia: bom, mas não vamos chegar a isso! E até parece que a história se repete. Não, jamais vamos chegar a isso. Uma pena! 


28:01 (P/1) Depois que aconteceu vocês se viram num regime governado por militares. O que você pensou, o que você sentiu dali para a frente, como é que você levava o seu dia a dia?

R - Olha, nessa época a gente não imaginava que se pudesse chegar aos extremos que realmente nós chegamos, fechamento, perseguição, direito de expressão, a censura. Foi uma época muito difícil! E o medo, porque a gente saía para as passeatas, a gente sabia que a gente saía, a gente não sabia se voltava. Até que chegou um momento, que não deu mais, chegou um momento em que realmente não dava mais para sair, não dava mais para sair. E que culminou também, com um momento na minha família, em que nós tivemos um problema muito sério, porque o meu cunhado faleceu num acidente, e minha irmã ficou viúva com duas crianças, então isso também foi uma quebra nas atividades. Tem que sobreviver, chega um momento que você fala agora não dá, mais para sair, para fazer manifestação, etc, agora não dá mais.


30:06 (P/1) Seu cunhado morreu mais ou menos quando?

R - Foi em 69.

(P/1) E enquanto isso, seu pai, qual a relação que você tinha com ele? Ele era militar.

R -  Meu pai era militar, de direita, só que meus contatos com meu pai foram muito limitados, eu vi a meu pai muito pouco, muito pouco. Ele depois foi morar fora de São Paulo, aí ficou mais difícil ainda.

(P/1) Vocês não conversavam sobre a ditadura?

R - Não, porque não havia possibilidade de diálogo.

(P/1) Você já sabia o que ele pensava?

R -  Já!


30:57 (P/1) Conta pra mim, como que era a USP nessa época?

R - Eu não estudei na USP. E eu entrei no Sede Sapientiae que era da PUC. Tinha a minha amiga. A USP, as Ciências Sociais da USP, era na Maria Antônia, então era perto do Sedes, então às vezes eu até ia assistir aula lá, me lembre de ter ido uma vez assistir aula de sociologia lá na Maria Antônia. Depois houve todo aquele problema da briga da Maria Antônia com Mackenzie. Mas entre nós também havia separação, quem era do Mackenzie você rosnava. E sempre o CCC, que era dos mackenzistas, do qual os mackenzistas participavam, Comando de Caças Comunistas. Então aquele slogan, se você pensa diferente, você é o que? Você é comunista. Aí eu pergunto, você sabe o que é ser Comunista? O que é socialismo? Não! Ser diferente é ser o quê? E ser vermelho, é ser comunista, é o perigo comunista, é um negócio, era uma… 


32:28 (P/1) Você foi fazer o Sedes?

R - Sim! Sede Sapientiae.

(P/1) Que curso que era?

R - Ciências Sociais, eu fiz no Sede.

(P/1) E ficava onde?

R -  Era numa travessa da Consolação, daqui a pouco eu lembro o nome, tá bom?

(P/1) Você se formou?

R - Me formei! Terminei Ciências Sociais, e quando eu estava terminando Ciências Sociais, já comecei a procurar trabalho em escola, aí nós já estamos em 69. Aí que eu comecei a trabalhar em escola, e por causa da minha formação eu tive quatro anos de economia, no curso. Aí a primeira educação formal da qual eu participei assim, vou trabalhar numa escola organizada, tal. Foi para dar aula de economia, economia, política e finanças.


33:43 (P/1) Você foi dar aula aonde?

R -  Num colégio em Santo Amaro, Doze de Outubro. E o meu curso era voltado para professores que faziam administração escolar, então era aquelas classes enormes 52, 53 alunos, na sala de aula. E foi exatamente numa dessas aulas, nesse período, em que eu entrei para dar aula, e quando você olha assim, aquela classe enorme, eu me lembro do pessoal estar mais quieto que o normal, eu comentei isso com você, lembra? Pessoal estava mais quieto, “oi, tudo bem?” “Tudo bem!” “Olha, hoje nós vamos falar sobre…” Eu estava dando a história do pensamento econômico, “hoje nós vamos falar sobre socialismo”. E dei minha aula e tal. E eu percebi alguma coisa diferente, sempre fui muito distraída, havia um cara no fundo da sala de aula, um cara que estava de terno. Mas naquela época todo mundo andava com gravata etc e tal. Professor dava aula de gravata, então os professores iam de calça jeans, camisa e gravata e punha o guarda pó por cima. E quando eu saí da sala de aula, o coordenador terminou a aula, bateu no meu ombro, e falou assim: o cara do dops já esteve na sua aula? Eu falei: o quê? Tô ferrada! Mas acho que a minha aula não foi tão boa assim, porque não aconteceu absolutamente nada.


35:33 (P/1) Depois você pensou nisso, o que você achou, o que você sentiu?

R - Eu falei, bom, vou tomar cuidado, vou tomar cuidado. Mas continuei com meu trabalho normalmente.

(P/1) Isso tinha acontecido com você antes, algum sentimento de cerceamento, de vigilância?

R - Bom, cerceamento a gente sentia, não dentro da faculdade, mas também a gente não sabia… não era com todo mundo que você conversava. Você não sabia o que podia acontecer, de uma hora para outra, um ou outro desaparecia, depois voltava. Então existia um medo no ar? Existia! Não posso nem falar em medo, aquela coisa, mas existe um temor.


36:39 (P/1) E você tinha colegas… como que eles se posicionavam, eram mais contra ditadura, ou favor, ou nem reconheciam que tinha ditadura?

R - Não, não, geralmente eram contra. Era muito difícil encontrar quem fosse a favor, no sistema ditatorial, sobretudo no curso de Ciências Sociais. Mas em alguns professores a gente sentia, por exemplo, professor que eu tive de política no quarto ano, não me lembro o nome dele, era direitona mesmo. Mas tive um excelente professor de política, que era de direita, mas de direita, mas dialogava, Nicolas Boer, ele era redator do Estadão. Todo domingo saiu um artigo de uma página inteira, do Nicolas Boer. E eu nunca me esqueço que eu fiz um trabalho, ele mandou a gente fazer um trabalho sobre a intervenção dos Estados Unidos na América Central, eu fiz o trabalho, ele ficou bravo comigo, me lembro dele falando: Augusta, você me faz perder a vontade de dar aula. Mas ele era gente boa, mas me deu uma nota ótima.


38:15 (P/1) Mas por que foi foi contrária no trabalho?

R - Sim, atacando, mas sempre procurando justificar o meu ponto de vista, mas ele ficou bravo.


38:34 (P/1) Quando ocorreu esse caso do agente do DOPS na sua sala, o que você fez depois? Você falou com algum colega?

R -  Não! Eu falei gente… Existe quase que uma lei do silêncio, era uma lei do silêncio, quanto menos se falasse, melhor. Havia um professor de Filosofia que falou, “opa!” Porque a turma tinha filosofia também, “opa!”


39:18 (P/1) Você acha que no geral as pessoas pensavam muito em política, pensavam muito que estava numa ditadura, ou não? Viviam a vida normalmente, como era esse cotidiano? 

R - Olha, nós vivemos uma crise econômica muito grande. Então a luta pela sobrevivência foi o negócio muito complicado, a inflação chegando lá no espaço, e uma desorganização, um sentimento de insegurança. E de repente as pessoas começam a se manifestar, começa ao raiar do novo dia, as coisas precisam mudar, precisa haver uma mudança, porque não dava, não tava dando. Nós tivemos inflação, um negócio assim, absurdo, absurdo.


40:33 (P/1) Você sentia isso na sua casa, ou para comprar coisas, como que era isso?

R -  Você não tinha a mínima segurança, não existia a mínima segurança. Essa insegurança  e a falta de perspectiva, e a propaganda maciça em cima, “Brasil ame-o, ou deixe-o!” As pessoas que sumiram, depois voltavam, algumas voltavam, outras não voltavam. Foi uma época muito difícil, foi uma época muito sofrida. E o pior é que caiu no esquecimento, né?

(P/1) Você acha?

R -  Eu acho, eu acho que caiu no esquecimento. Hoje eu fico me perguntando, com as coisas que estão acontecendo atualmente, o que que aconteceu com a consciência das pessoas? Será que elas não percebem o que está acontecendo?


41:54 (P/1) Você acha que hoje é pior ou melhor?

R - Olha, é ruim, é muito ruim, é muito ruim. Só que hoje o que acontece, fica todo mundo vendo sua mensagenzinha no celular, participando da sua rede social, trocando idéias, passando notícias falsas. Ninguém verifica se aquele é verdade ou não! A minha amiga falou é verdade. Então você vê absurdos, absurdos. Pessoas boas, não são pessoas ruins, mas que estão o que? Simplesmente mal informadas. E se você falar alguma coisa, já tem um rótulo para você, então eu falo, gente como a história se repete. Mas de forma, eu diria que hoje a coisa é bem pior, bem pior, porque o sustentáculo da sociedade, o sustentáculo legal da sociedade está sendo questionado, entendeu? O que é lei, é o marido da lainha? Pelo amor de Deus!


43:33 (P/1) Como que era os seus colegas da faculdade, eles se arriscaram, você se arriscou de alguma forma? Como que eram as passeatas, como que era essa organização, você fizeram passeatas por o que, como que foi isso?

R -  A primeira grande passeata foi quando o estudante, Edson Luís, foi morto, no Rio de Janeiro. Então todo mundo foi para rua, então a gente se organizava, e a gente ir para as passeatas. E sabia o que ia acontecer, no final era uma correria geral, porque aí vinha os caminhões, aqueles espinhas de peixe, os soldados todos um sentado com as costas para o outro, aí as bombas de efeito moral, quando elas estouravam, aí não havia esquema de segurança que evitasse que a gente saísse correndo, pelo menos no meu caso. E até que chegou o momento, fomos a várias passeatas, chegou o momento que não deu mais, porque era muito perigoso, era muito perigoso. Eles colocavam aqueles caras da polícia marítima, é uma coisa que eu me lembro, os caras não tem bíceps, os caras devem ter o quê? Pollicipes, os caras abriam os braços assim, a roupa. E culminou também, como eu já falei, que exatamente nesse momento, no auge mesmo, eu tive um problema familiar, aí realmente, agora eu vou ter que parar, agora não vai dar.


45:45 (P/1) E você se lembra do AI5?

R - Não dá para esquecer.

(P/1) Onde é que você tava quando aconteceu isso? Como é que você recebeu, como que você soube?

R -  Foi quase que um atentado, um atentado à democracia, foi o fechamento, censura, os extremos. Foi um período muito complicado.

(P/1) Você se lembra do dia por acaso?

R -  Não, não, não me lembro exatamente, onde eu estava na hora do anúncio do AI5, não.


46:37 (P/1) Você virou professora em 69?

R -  Eu comecei a lecionar quando eu estava terminando Ciências Sociais, depois em 70, eu entrei oficialmente, quer dizer, eu fui registrada como professora. E daí para frente, eu continuei trabalhando, trabalhei nesse colégio. Depois a orientadora de uma outra escola, me chamou para trabalhar no Beatíssima, Instituto de educação Beatíssima Virgem Maria, que é depois onde eu acabei ficando até o final, até me aposentar.


47:24 (P/1) Qual que era o nome desse primeiro colégio, professora? 

R -  Doze de Outubro.

(P/1) Como é que eram os alunos desse colégio? Teve algum que te marcou, alguma sala, alguma coisa que você se lembre?

R - Olha no Doze de Outubro eu dei aula para esses cursos de administração escolar. E eram professores formados, então normalmente professores.com já 5, 6 anos de magistério. Porque de acordo com a legislação da época, quem fizesse dois anos de administração escolar, depois da entrava direto na faculdade de pedagogia, já entrava no terceiro ano de pedagogia. Que dizer, eles queimavam a etapa do vestibular, que naquela época vestibular era um negócio complicado, quer dizer, continua sendo. Mas tudo bem! Então eu continuei tendo contato com esses alunos, porque inclusive, duas alunas, depois quando eu me casei, elas eram minha vizinhas, mas eles continuaram na vidinha deles. Agora depois eu acabei perdendo o contato.


48:41 (P/1) E você foi para o Beatíssima em que ano?

R - Eu entrei no Beatíssima em, espera um pouquinho, você me faz cada pergunta tão difícil.

(P/1) Foi nos anos 70?

R -  É!

(P/1) E como que era escola quando você chegou? 

R - Era uma escola tradicional, mas onde você trabalhava com liberdade, embora fosse tradicional. Eu entrei, porque a orientadora educacional, ela era casada com meu orientador lá do Doze de Outubro, e aí, no Doze eu comecei a dar aula à noite, e depois eu comecei a dar aula à tarde também. Para o pessoal que também estava fazendo esse curso de administração escolar. Nesse caso era um mininotas, tinham acabado de fazer normal, então eram bem mais jovens. E a coordenadora do curso, gostou do meu trabalho e quis me levar para outra escola, levar para o Beatíssima, e acabei indo para lá.


50:12 (P/1) Dava aula de sociologia?

R -  Não, não comecei com Sociologia. Ela falou assim: olha, você só vai poder entrar dando educação moral e Cívica, “poxa, mas educação moral e Cívica?” “Você vai ter liberdade!” Então o que que aconteceu? Na verdade, a gente usava essas aulas de educação Moral e Cívica, para dar aula de história do Brasil, para complementar a parte de História.

(P/1) Por que complementar?

R - Complementar, porque no currículo eles tinham história geral, então ela queria que desse história do Brasil também, então a gente aproveitava as aulas. Cumpria algumas das exigências, mas procurava puxar o planejamento já para a história do Brasil.


51:06 (P/1) Se vocês não tivessem feito isso eles não teriam uma parte da história, é isso?

R - Ou não teriam a chance de aprofundar. Tem que da organização social e política, então vamos ver essa organização social e política através dos tempos, como é que foi? Aí você dava a parte de história do Brasil, você embutia a parte de história do Brasil .

(P/1) Você entrou para dar aula para que ano, que idade? 

R - Eu comecei dando aula, seria agora a 6ª série, eu não sei agora na nova legislação o que corresponderia, então era uma molecadinha de 11, 12 anos. 12, 13 anos. E depois 14, 15.


52:11 (P/1) Eles tinham essas duas matérias que hoje a gente não tem?

R - Não tem! Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política do Brasil.

(P/1) Eram quantas aulas por semana?

R - 2 aulas por semana

(P/1) No total?

R - No total.


52:26 (P/1) E como é que foi então? Você tinha que lhe dar com material oficial, ou não?

R - Na escola existia um programa, a gente fazia um planejamento, que atendia a exigência legal e você embutia a parte do que? De história do Brasil.

(P/1) Mas o que vinha do ministério para vocês darem, quais eram as diretrizes, por exemplo? Vamos começar com Educação Moral e Cívica.

R - Na verdade o objetivo da matéria, era o que? Era dar os valores numa sociedade o que? Uma sociedade de direita, capitalista, moral cristã, e por aí vai. Era bem isso, tudo certinho, bonitinho e redondinho.


53:28 (P/1) E você se lembra mais ou menos os termos que eles usavam?

R - Então, o Brasil era uma democracia, então a ideia principal é essa. Os direitos são respeitados, a economia está fluindo, nós estamos lutando por um Brasil grande. E em plena crise do petróleo se constrói o quê? A Transamazônica. Uma política econômica maravilhosa, a inflação indo lá para o espaço, a desigualdade aumentando. E o milagre brasileiro. E se você não tiver contente, “Brasil ame-o, ou deixo-o”.


54:55 (P/1) Então essa era a diretriz para os alunos?

R -  Essa era o que o poder instituído desejava. Mostrar o Brasil como uma coisa que funcionava.

(P/1) Será que isso funcionou de certa forma hoje? Tem muita gente que fala que a ditadura era assim.

R - Olha, eu ontem vi uma entrevista, com jornalistas e o jornalista alemão, que está trabalhando aqui agora, ele falou assim: como é que a gente pode explicar o que está acontecendo agora? Ele falou: durante tanto tempo se falou que o Brasil estava dando certo, tava dando certo tudo, tava dando certo, estava tudo certo, que a gente estava crescendo, que era uma maravilha. E na verdade não, porque para a maioria da população não é isso que acontece. A maioria da população tá o quê? Tá desempregada, ta passando fome, não tem acesso a boa educação, não tem acesso à saúde, não tem absolutamente nada. Então no que esse pessoal que não tem nada, no que que ele vai apostar? Quem sabe o que está aí possa resolver o meu problema. Ele não parou para questionar, ele não tem nem condições de questionar. Agora, quem está ganhando muito dinheiro com isso, também não tem interesse nenhum em mudar. Quem está recebendo os milhões que vão para as campanhas políticas, não têm interesse em mudar. Quem está recebendo os milhões para ter sua igrejinha maravilhosa, não está preocupado com isso.


57:06 (P/1) Mas eu digo essa ideia de que não havia corrupção na ditadura, que a economia ia bem. Tem pessoas que defendem isso hoje, né?

R -  Sim, sim! Como se não houvesse problema. E quando eu vejo essas pessoas falando isso, eu me pergunto, onde estão os professores de história?

(P/1) Mas na época, os seus alunos, por exemplo, você acha que eles percebiam essa discrepância do que se falava, dos meios de comunicação, dos materiais de didáticos e do que elas viviam?

R - Uma coisa que eu aprendi no meu trabalho, foi o seguinte, faça os seus alunos pesquisarem. Então o que eu pedia, eu pedia para eles, na verdade a escola era feminina, eu pedia para as meninas, vocês vão ler jornal, vocês vão ler revistas, o trabalho de vocês vai ser de pesquisa. Eu montei uma assembleia constituinte com o colegial inteiro, eu quase enlouqueci, eu peguei o colegial inteirinho e montei uma assembleia constituinte, vocês vão ter o seu projeto, que leis vocês querem mudar, vocês vão defender o seu projeto. Eu fazia eleições dentro da escola, o que que vocês querem? O que vocês pensam, o que vocês defendem, é isso que vocês querem? “Professora, o que a senhora acha?” “Eu não estou aqui para achar nada, eu quero saber o que vocês acham”. “Mas se a gente não pensar como você”. “Você não é obrigado a pensar como eu, eu só quero que você justifique seu ponto de vista, porque que você escolheu isso? O que que você quer?”


59:39 (P/1) Essas eleições eram para eleger o que, quem?

R -  Bom, primeiro elas tinham Centro Cívico lá, que era uma instituição, que era uma determinação. Então tempo de eleição lá, a escola fervilhava, porque as chapas se formavam, defendiam, sabe, eram coisas assim, eu quero um lanche de tal jeito, não sei o quê. Mas percebe, o espírito de participar, de tomar uma decisão, de escolher. A gente fazia as urnas com caixa de sapato, e a escola inteirinha se mobilizava. E a direção da escola me deixava trabalhar. Mas não fazia só isso, eu fiz inclusive um festival de música. Quando eu lembro, meu Deus do céu Maria Augusta, onde é que você estava com a cabeça? Você acredita que houve um Centro Cívico que se elegeu e para comemorar, “professora, eu tenho um amigo que tem uma banda de rock, ele falou que pode tocar aqui no intervalo, você deixa?” “Eu vou falar com a direção”. Aí eu fui falar com a freira, a diretora, “irmã, eu posso trazer uma banda de rock?” “Olha, se você conseguiu colocar a turma dentro da sala de aula depois da apresentação da banda de rock, você pode!” Nunca trabalhei tanto na minha vida. A banda de rock se apresentou, depois foi embora. Gente, vocês precisam ir embora. A molecada. Pelo amor de deus, eu vou perder o meu emprego. Mas foi muito bom, foi muito bom, foi uma delícia.


1:01:36 (P/1) As suas alunas pesquisavam o que, como é que elas pesquisavam, para onde eles iam?

R - Bom, eu fiquei conhecida como a professora que mandava pesquisar a revista Veja. E jornais, Folha, Estadão. E aí elas faziam, durante uma semana elas pesquisavam, escolhiam artigos de jornal. “Olha, é pouca coisa gente, é um artigo por dia, que pode ser econômico, político, ou social, seu trabalho não pode ser exclusivamente social, ou político, ou econômico, tem que ter os três. Então são sete notícias, que você vai fazer? Você vai fazer o resumo da notícia e você vai fazer um pequeno comentário do que você achou.” “Mas e se eu não achar nada?” “Então procura outra notícia.” E elas faziam os relatórios, os relatórios eram individuais.


1:02:49 (P/1) Mas ai elas acessavam essa noticias?

R -  Acessavam essas notícias, faziam relatório, comentavam e depois a gente se reunia e discutia.

(P/1)  A questão era discutir o que estava acontecendo na realidade?

R -  Exatamente! O que está acontecendo no Brasil nessa semana. No Brasil, ou em São Paulo, eram notícias nacionais.

(P/1) Mas não tinha o perigo delas esbarrarem na censura?

R - Não, nós nunca tivemos problemas! Os pais as vezes reclamavam, era uma piada que corria na escola, que foi uma mãe reclamar, “eu vim reclamar aqui, porque minha filha estuda mais OSPB que matemática”. OSPB, conhece OSPB? Matéria nova no currículo.


1:03:50 (P/1) Mas eu digo assim, de esbarrar na censura no sentido assim, se os jornais eram censurados…elas percebiam isso?

R - Assim, agora que eu entendi sua questão. Elas sabiam também que nem tudo podia ser relatado. Eu também tomava cuidado.

(P/1) Mas elas sabiam como?

R -  Elas acessavam as notícias, comentavam… Agora, o mais importante é o que acontecia depois, era os comentários que vinham depois. Isso acontecia em aula, e isso não estava registrado, entendeu? E aí elas tiravam as conclusões delas. Fora isso eu procurava passar filmes. Outro dia a orientadora de um período, nós ficamos vários anos afastadas, “ah eu lembro quando você passava aqueles filmes!” Queimada, com o Marlon Brando. Foi um período muito fértil, muito fértil. E depois o professor de sociologia saiu e eu assumi as aulas de sociologia, aí a coisa ficou bem melhor, aí já dava para gente introduzir textos, aí ficou bem melhor.


1:05:50 (P/1)  E como que era essa educação feminina?  Elas queriam ser o que na época?

R -  Eram sonhadoras, determinadas. Tenho contato com elas até hoje, uma das minhas alunas é uma das maiores especialistas em Direito ambiental, fez mestrado e doutorado na Sorbonne. Tem a Silva em educação, tem a Lisandra que tem uma editora, tem a Carla, que faz um trabalho magnífico, então, muita gente boa! Advogadas, entendeu? Foram para o direito. As turmas de exatas, que já eram mais reticentes, mas as turmas de humanas, foram maravilhosas. As turmas de exatas tinham as melhores notas, mas as turmas de humanas, eram as que davam um retorno maior.


1:07:10 (P/1) Você se lembra de algum caso que te marcou nessa escola?

R -  Olha, houve vários. Eu dava aula de Sociologia, no primeiro ano, e eu me lembro, lá no fundão da classe, havia três meninas, uma com cabelo vermelho, já naquela época, com aquele olhar assim, primeira semana elas sentaram lá atrás, na semana seguinte elas vieram para o meio da sala, um tempo depois elas sentavam onde? Na primeira fileira. Aí o primeiro ano, eu ensinar para fazer pesquisa, primeiro ano vamos dar umas aulas sobre orientações, para vocês montarem a pesquisa, vocês vão montar o seu projeto de pesquisa, então vocês têm que estabelecer uma hipótese de trabalho, vocês vão ter que estabelecer onde vocês vão querer aplicar. Segundo semestre vocês vão montar o questionário, terceiro bimestre vocês vão aplicar pesquisa e quarto bimestre vocês vão fazer as conclusões, esse vai ser nosso trabalho desse ano. E elas fizeram. Aí a turma começou a se movimentar, começaram a montar questionário, os temas eram quase sempre os mesmos, nessa fase o termo comum ela sexualidade, fazer questionário sobre sexualidade. E esse grupinho aqui, nada! Aí eu chamei, como é que é? Como é que vocês vão fazer? Vocês são ótimos alunas, vocês vão ter que tirar zero no trabalho? “Não professora, é que nós gostaríamos de trabalhar com velhos, nós gostaríamos de ir para um asilo.” “Muito bem! Então vamos combinar, vamos fazer o trabalho, tá bom?” “Tá bom!” Bom, elas organizaram a visita, aí eu falei: tá bom, vocês querem ir sozinha, ou vamos levar a turma inteira? A turma inteira se interessou, “professora, nós podemos ir?” Eu vou perguntar…. E eu, louca como sempre, botei a molecada toda num ônibus e levei para um asilo. Chegando lá elas fizeram as apresentações, conversaram com os idosos, foram maravilhosas. E o grupo, aqui nós vamos fazer um espetáculo, professora, nós vamos imitar a Carmen Miranda. E lá se foi, foi de Carmen Miranda. Os velhinhos adoraram, foi uma tarde maravilhosa. No ano seguinte… agora eu me refiro ao fato que foi especial. No ano seguinte, uma lá chegou pra mim, lá pelas tantas, “professora, você não falou que a gente ia voltar para o asilo?” “Gente, é mesmo, vamos combinar?” “Nós já combinamos tudo professora, agora você vai ser nossa convidada”. “Vocês arrumaram o ônibus também?” “Não, então deixa o ônibus comigo.” Aí nós voltamos no ano seguinte e foi de novo aquela festa. Mas iniciativa de quem? Iniciativa delas, entendeu? Uma coisa de tanto afeto, de tanta consideração. Só que tem o seguinte, dessa vez vocês vão levar o lanche, mas não é o lanchinho que a mamãe faz, vocês vão fazer. Aí elas fizeram um sanduíche do jeito delas, era aquela forma meio torta, não sei o quê, mas os velhinhos adoraram. Foi aquela coisa que faz o seu coração dizer, puxa vida, dá até para acreditar. Que trabalhos bonitos! Eu tive uma orientadora, essa minha amiga orientadora, nós fizemos um trabalho em Cubatão, nós entramos na Vila Socó. Vai ser um estudo do meio e nós vamos para Cubatão. E eu levei as minhas alunas, elas entraram na Vila Socó. Depois pegou fogo, teve aquele incêndio todo. E elas andaram no meio da favela, olha, isso aqui é favela. O esgoto correndo no meio. É uma coisa que não se fazia na época, é uma coisa que o brasileiro não faz, o brasileiro não põe o dedo na ferida, o brasileiro, sobretudo a classe média, se coloca naquela postura e não vê as coisas como realmente são.


1:12:54 (P/1) E você trabalhava com elas essa ideia de que elas viviam num regime militar?

R - As famílias, de uma certa forma, procuravam amainar a atenção, entendeu? Mas elas sentiam, elas sabiam que não existia, todo mundo sabia, que precisava tomar cuidado com que falava. Não era grande maioria, a classe média parece que se fecha quando acontece alguma coisa, ela se fecha e não quer discutir. A classe A não vai discutir mesmo, porque não é do interesse dela, e a classe média também. Tinham noção, elas sabiam, elas só não sabiam, por exemplo, a extensão do dano. E a gente está sentindo os efeitos disso até hoje, a coisa perdurou.


1:14:35 (P/1) Você acha que tem alguma conexão da ditadura com um conservadorismo de costume, um certo machismo?

R -  Eu acho que sim! As pessoas tem um saudosismo, “mais no tempo da ditadura militar, no tempo dos militares”. Ninguém usa a palavra ditadura. “No tempo dos militares”, pessoal evita essa palavra. Por exemplo, agora dou aula para idosos, e eu tenho uma aluna, ela é muito simpática, muito sincera, “bom, mas eu vivi no tempo da ditadura militar, meu marido tinha um bom emprego, eu não senti nada, eu não passei nada, foi um período muito bom da minha vida, que que eu posso falar contra a ditadura militar?” Será que houve crise? Não, não houve crise na minha casa, então portanto não há crise para as outras pessoas. Aí eu fico pensando, como é que uma pessoa passa por um período desses sem ter noção do que está acontecendo, se coloca aonde? Dentro de uma concha.


1:16:31 (P/1) Tiveram muitas pessoas que foi assim, não perceberam, né?

R -  Não perceberam, e a outra, que diz… outro dia eu tive que escutar isso, “mas no Brasil morreu pouca gente, morreram o que, 400 e tantas pessoas.” Quer dizer, deboche, o que que é o que é que aconteceu com o Herzog, os caras ainda tiram fotografias, o cara se suicidou, pô.


1:17:16 (P/1) Os seus alunos hoje, você conversou muito com eles sobre isso?

R -  Os mais velhos? Agora tá complicado, atualmente eu tenho uma turma só, estou trabalhando muito pouco, mas nas outras universidades abertas que eu trabalhei, eu trabalhava exatamente a parte de memória, então eu não abordava essa parte. E agora há muito conservadorismo, há muito conservadorismo, sabe, não tem nada a ver com meu umbigo então..


1:18:10 (P/1) Você sente isso no meio deles?

R -  Sinto! Bom, mas meus filhos estão criados etc e tal. Mas geralmente eles têm filhos, ou netos que estão fora do Brasil, se tivesse tão bom assim, não teriam ido embora.

(P/1) Você ficou no Beatíssima até que ano? Quando você se aposentou?

R -  Eu me aposentei e eu continuei ainda dois anos lá. Aí um dia eu acordei, e falei assim: bom, hoje eu não estou com vontade de dar aula, tá na hora de parar, porque se não eu vou fazer besteira. Aí eu entrei na sala da diretora, falei: irmã eu vou parar! “Você vai parar Maria Augusta?” “Vou, vou parar porque eu tô precisando voltar a estudar”. “Tá bom, mas a senhora não fala para ninguém, mas você fica até o final do ano?” “Claro, eu fico!” Terminei o meu trabalho e no final do ano elas fizeram uma festa linda para mim. Eu saí e voltei a estudar, aí eu fui fazer psicopedagogia, agora quero trabalhar com as crianças pequenininhas que tem dificuldade de aprendizagem, quero fazer um trabalho diferente. Adorei o curso, meu curso foi muito bom, tive professores excelentes, eu fiz lá nos Owaldo Cruz, aí eu resolvi, montei um espaço para mim, agora eu vou trabalhar com crianças. Aí uma amiga minha falou, “olha Maria Augusta, como você está, você esta aí na zona leste? Eu estou atendendo uma idosa, cheguei a comentar isso com você? Não né? Eu estou atendendo uma idosa, mas a família não quer ter o trabalho de vir para zona sul e como você está na zona leste, você não quer atender essa idosa?” “Eu acabei de fazer psicopedagogia para trabalhar com quem? Para trabalhar com criança, você me vem com quê? Com idoso, com idosa?” “Maria Augusta, ela está precisando de uma reaprendizagem, ela precisa reaprender nesse novo estágio da vida, mas se você quiser eu estou indo para PUC fazer um curso de memória, de oficina de memória, você não quer ir?” “Vamos embora!” Aí nós fomos fazer o curso de oficina de memória, começamos a trabalhar, tinha um projeto da gente fazer um trabalho juntas, etc. Ela como psicóloga, e eu como pedagoga, psicopedagoga. E aí eu me interessei por memória e comecei a estudar, estudar e comecei a montar curso. Aí eu comecei a dar aula sobre isso. Mas que droga que é magistério, não sai da nossa corrente sanguínea da gente. Comecei a fazer um trabalho, e estou nisso até hoje. Por causa dessa oficina de memória nós participamos de congresso, apresentando trabalhos. E aí uma colega e eu montamos essa oficina de memória num asilo, um asilo que eu fiquei, trabalhei 9 anos como voluntária.


1:22:13 (P/ 1) Como é que funciona essa oficina?

R - A oficina, é o seguinte: a gente monta um trabalho com os idosos, a gente escolhe os temas, a gente começa pela identidade, quem sou eu, a família, depois a gente pode fazer com música, com cinema. Vai depender da característica do grupo. E aí você monta os textos com eles, eles vão escrevendo, eles vão escrevendo, vão respondendo e depois a gente monta um álbum, com o trabalho que eles fizeram. É um trabalho muito bonito, e eles adoram. Agora, nesse intere também, numa das escolas, eu me deparei com aluninhas que escreviam poesias, e uma delas uma gracinha, o nome dela Pérola, ela já não está mais entre a gente, eu a chamava de Pérola Perolina, porque era uma poetisa. Ai eu falei: você tem que publicar isso aí! "Ah professora, não”. “Você tem que publicar!” Aí eu fiz a revisão das poesias e saiu o livrinho dela, de poesias. E depois uma outra resolveu fazer também e foi uma coisa muito bonita. 


1:23:53 (P/1) E como é fazer essas pessoas lembrarem?

R - Em alguns casos, sobretudo quando envolve família, há uma diferença, se você faz esse trabalho com os idosos que estão apenas frequentando as aulas, é uma coisa, se você faz com os idosos que estão asilados, é outra. Então no idoso asilado aparece muita mágoa, tristeza, mas também coisas muito boas, coisas muito divertidas. é gostoso. Aí começamos o trabalho no asilo e quando eu terminar oficina, os velhinhos olharam para gente falaram assim… “agora nós terminamos o trabalho nós vamos embora”. “Vocês vão embora?” E para dizer tchau. “Vocês não podem continuar?” Continuar fazendo o quê? Aí você volta a estudar, você prepara material, e aí os anos vão passando.


1:25:25 (P/1) E tem alguma história deles que você lembra, que você ouviu?

R - Há histórias lindíssimas! No asilo, havia um senhor, o senhor José, que era barulhento, e que conheceu lá uma cadeirante, a Zizi,  e os dois começaram a namorar. Então era um afeto, uma coisa tão bonita. E tem um fato, um dia ele chegou atrasado, “o seu José?” “Estava na feira, olha o que eu comprei para minha Zizi.” Ele tinha comprado espelhinho, pentezinho, tudo bonitinho, que ele arrumou num pacote lindo para dar para ela. Há muitas histórias, muitas histórias. Havia uma senhora, que era cadeirante, tinha uma dificuldade de expressão, e quando me reunia com os idosos, ela vinha com a cadeira, às vezes ela entrava, depois saía, e o pessoal blabla. Calma gente, calma! Ela entrava, depois saía, aos poucos ela foi se aproximando, foi se aproximando, mas ela não conseguia participar porque tinha dificuldade de expressão. Aí eu comecei a entender um pouco mais o que ela dizia. “Olha, eu vou explicar para vocês o que ela está dizendo.” O nome dela era Helena, e um dia eu cheguei, cadê Helena? E eles assim. “Cadê Helena gente?” “A Helena partiu professora”. Sabe quando você toma um murro no meio do estômago. Aí, imediatamente, um dos senhores, “ela deixou uma coisa para você professora”. Aí ele me pegou pela mão, me levou para o quarto dele, foi remexer no armário dele, “ela deixou isso daqui para você professora”. Afeto puro! Eu gostaria de partilhar isso daqui com vocês porque foi uma coisa muito bonita. Eu trabalhava numa Universidade aberta, onde o diretor era um maestro, ele trabalhava com música, então elas tinham o coral, e o coral era maravilhoso, era uma gracinha o coral. Eu então levava esse coral para cantar no asilo, para o pessoal do asilo, então reunia na hora do café, os internos tomavam o lanche, o café da tarde, e aí a gente fazia a apresentação. E as minhas alunas adoravam cantar, elas vinham preparadas, era um acontecimento. E eu ficava lá de trás, e eu me lembro que eu sentei com uma das internas, e perto estava uma senhora numa cadeira de rodas, e quando ela viu aquelas senhoras cantarem, ela falou assim: aaaaaa. Aí eu peguei as mãos delas e falei assim: canta, canta. Ela pegou a minha mão e cantou. E eu fiquei tão feliz, eu fiquei tão feliz! Semana seguinte eu voltei. Aí a gerente chegou para mim e falou assim: Maria Augusta, você lembra daquela senhora que cantou com você? Ela partiu naquela noite, ela partiu feliz! Dá para aguentar? Eu avisei que eu sou chorona, não avisei. Mas não quero falar de tristeza.


1:30:48 (P/1) Você se casou?

R -  Eu me casei, eu fiquei 30 anos casada, depois eu me separei. Tenho duas filhas lindas, as duas estão no Magistério, tenho dois netos maravilhosos, que são a paixão da minha vida. Essa é a felicidade da vida, é a vida que segue.


1:31:34 (P/1) Como é que foi o nascimento da sua primeira filha?

R -  Eu acho que ela não nasceu, ela estreou. Foi uma coisa lindíssima, foi um bebê muito esperado, muito amado. uma delícia. Da segunda também, sem sombra de dúvida, a maternidade completa a gente.

(P/1) Qual que é o nome delas?

R -  Paula, a mais velha se chama Paula e a mais nova se chama Roberta.

(P/1) Elas nasceram em que anos?

R - A Paula nasceu em 77, a Roberta nasceu em 80.

(P/1) E o que mudou na sua vida com o nascimento delas?

R - A vida ficou mais rica, a vida fica mais completa, sem sombra de dúvida. Mas também mais complicada, porque aí você tem que pensar em tudo. Mas foi uma benção. São bênçãos que a gente recebe.


1:32:55 (P/1) E ser mãe é diferente de ser avó ou não?

R - Olha, ser mãe é muito bom, mas é complicado. Agora, ser avó é uma delícia, como diz uma amiga minha, ser avó é a cereja do bolo.

(P/1) Por quê?

R -  Porque você imagina a sua netinha chegar para você e falar assim: vovó eu te amo! Eu posso te dar um beijinho? Você imagina o seu netinho chegar para você e falar assim: vovó você é legal. Uma diferença bárbara de idade, é uma maravilha, é uma delícia, completa a vida da gente.


1:34:05 (P/1) Você teve suas filhas com qual idade?

R - Com 31 e depois…

(P/1) Você tinha planejado com o seu marido?

R -  Sim! Esperamos para ver… achar que as coisas iam dá certo, mas tudo bem, foi bom enquanto durou..


1:34:33 (P/1) E hoje tem algum plano de vida, algum sonho, o que você está pensando para o futuro?

R - Bom, eu gostaria de continuar o meu trabalho, só que agora eu estou na marcha lenta, até alguns anos atrás eu estava trabalhando em duas escolas, mas depois com o nascimento dos netos, então alguns dias da semana eu fico com eles, e curta bastante. E tem muita coisa para a gente ler, para estudar, para conhecer, tem muita coisa. Não faço planos a muito longo prazo, por exemplo, eu não quero morrer sem conhecer o Metropolitan, então, esse é um dos meus sonhos, vamos ver quando vai dar.


1:35:42 (P/1) E como que foi a pandemia para você? Claro que não acabou, mas…

R -  Como está sendo, né? Foi muito ruim, por causa da situação de isolamento, minhas filhas foram muito cuidadosas, muito atenciosas. Eu moro sozinha, então elas foram assim, maravilhosas, mas o mesmo tempo a preocupação. Essa reabertura me deixou muito preocupada, porque elas trabalhando, as crianças voltando para escola. E a forma como essa pandemia foi conduzida também, a falta de cuidados, os desmandos, a não aceitação, o uso político disso. Eu não sei o que é pior, se foi a pandemia, ou a política, porque aí está um páreo duro. É um páreo duro mesmo, meu Deus do céu.


1:37:14 (P/1) Você achou que ia viver alguma coisa desse tipo?

R -  Não, jamais imaginei! Eu sou uma eterna otimista, mas estou ficando pessimista agora, estou realmente muito preocupada, estou realmente muito preocupada, nunca me senti assim. Estava vendo uma entrevista também, o que vai acontecer? O Brasil está virando um país de velhos, população idosa está aumentando. Eu tenho dois netos, a minha preocupação maior é com eles. Será que a saída para eles vai ser também o aeroporto? Mas ir para onde? Nós estamos vivendo uma fase muito pesada, essa guerra, essa destruição, existe uma guerra lá fora, existe uma guerra aqui dentro. Onde é que vai dar tudo isso? Será que nós vamos conseguir chegar até o final do ano sem uma guerra? Tá difícil!


1:39:08 (P/1) O que você diria para os mais jovens que não viveram um período autoritário, como você viveu. E alguns jovens que até desejem isso hoje, o que você diria para essas pessoas?

R - Bom, primeiro que eles não me escutar. Eles iam dizer, bom, “essa senhora aí é o que? ela é comunista!” Eles não sabem! Eu diria para eles, estudem, leiam, busquem informação, não busquem a resposta, onde? No seu celular. Conheçam Paulo Freire, conheçam Bauman, busquem informação. Talvez o que me incomode mais é essa coisa da ignorância, é o não conhecer, é o não saber, é o descaso que existe nesse país com a educação e com a cultura, é descaso, é desrespeito. Todo mundo tem a solução, mas na hora de colocar em prática. E outra coisa também, o que me incomoda profundamente, é essa desigualdade, essa desigualdade gritante, todo mundo vê, mas não se faz absolutamente nada. Não é dando uma esmola, que se acaba com desigualdade.


1:41:30 (P/1)  Tem alguma coisa que eu não perguntei, algum aspecto da sua vida, alguma história, alguma pessoa que você gostaria de falar?

R -  Nossa, eu falei tanto, né? Deixa eu ver! Eu queria deixar aqui a minha homenagem a Paulo Freire. E a os historiadores, eu gosto muito da Lilian Schwarcz, eu acho que o beabá, se eu voltasse a dar aula, seria o livro dela sobre autoritarismo no Brasil. Ela é maravilhosa, maravilhosa.


1:42:27 (P/1) Como é que foi contar um pouquinho da sua história hoje?

R -  Para mim foi muito bom, eu fiquei preocupada foi com vocês (risos).

(P/1) Mas foi bom, foi ruim?

R -  Foi muito, foi muito bom, partilhar é muito bom. Acho que eu nunca havia pensado nessa possibilidade, foi muito bom, foi muito gostoso poder partilhar.

(P/1) Você ouviu muito a memória das pessoas?

R - Ouvi, ouvi muitas memórias, trabalhei muito com memória.

(P/1) E como é que está do outro lado?

R -  Haja coração! Eu acho que por trás de todo esse autoritarismo, por trás de todo esse preconceito, por trás de toda essa maldade, o que existe é um monte de gente que não tem amor na vida. Não é querer ser uma romântica incurável, entendeu? Sabe, tá todo mundo precisando de terapia, vai se cuidar, vai fazer anos e anos de terapia para se ver no espelho gente. É isso aí!

(P/1) Brigado viu, professora! Brigada pela sua entrevista, obrigado por estar aqui, não se preocupa com a gente não, a gente adorou, tenho certeza que o Alisson gostou também.


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