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História

Por toda vida, professora

História de: Maria Amélia Nunes Soares
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2015

Sinopse

A piauiense Maria Amélia relembra os primeiros anos de sua vida na cidade de Bom Jesus da Gurgueia, conta como chegou à São Paulo junto com sua mãe; uma longa viagem que incluiu até cavalo como meio de transporte. Aos sete anos, foi sozinha até uma escola do bairro de São Miguel Paulista fazer sua matrícula e, a partir de então, lutar pelo seu sonho em ser professora. Estudou Pedagogia, Artes, e hoje vive sua aposentadoria da faculdade de Direito. Maria Amélia tem quatro filhas, todas professoras e um marido que a acompanha nessa jornada na área da educação. Ela narra o emocionante momento em que, após a morte de sua mãe, viajou até o Piauí para conhecer seu pai.

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História completa

Eu nasci em Bom Jesus da Gurgueia, no Piauí. Lembro de muita coisa de lá. O riacho era uma coisa maravilhosa, o barulho do rio, da chuva. Aqui em São Paulo, quando chove, nós abrimos o guarda-chuva, lá não, quando chove, vai todo mundo pra rua festejar a chuva. Eu saí de lá eu quando tinha cinco anos. Minha mãe ficou noiva três vezes e nenhuma vez deu certo o casamento. Sempre as vésperas do casamento, ele acabava. Não era para ser. Aí, um belo dia, numa festa de São João ela foi para a cidade festejar, encontrou o meu pai e ele falou: “Vamos casar?”, ela falou: “Só se for hoje”, e casaram. Eles moravam em cidades próximas, mas não se conheciam. Eles foram para a casa dos meus avós maternos e eles falaram: “Agora você vai embora”, e eles foram morar na casa dos meus avós paternos. Quando estava próximo do meu nascimento, a minha mãe falou: “Eu vou ter o meu bebê na casa da minha mãe”, e o meu pai falou: “Se você for você não volta mais”, e ela falou: “Então, eu vou”, e foi. Eles se separaram e nunca mais ficaram juntos.


Quando eu ia completar cinco anos, meu pai esteve na região onde a minha mãe morava e avisou: “Eu vou mandar buscar a menina para botá-la na cidade para estudar”, minha mãe falou: “Pode vim buscar”. Pegou uma trouxinha nas costas e veio-se embora para São Paulo e não deu mais o endereço para ninguém da família dela e nem da família do meu pai. Eu lembro de muita coisa dessa viagem para São Paulo, nós saímos de Parabatins de noite a cavalo, eu, a minha mãe e o meu tio, que nos levou até Bom Jesus. Lá, nós pegamos o ônibus que nos traria até a Bahia. Chegamos na Bahia e pegamos um outro ônibus que nos trouxe até São Miguel Paulista, na casa dos meus tios. Ficamos lá pouco tempo e minha mãe começou a trabalhar de diarista. Eu fiquei durante um ano nessa casa com a minha mãe e no ano seguinte completei sete anos e estava construindo uma escola perto da minha casa. Quando ficou pronta, eu vi o movimento na rua, todo mundo fazendo matricula. Cheguei lá e fiquei na fila esperando e aí perguntaram: “E aí, cadê seus documentos? Cadê sua mãe?” “Não tenho, minha mãe tá trabalhando, ela não pode faltar no serviço”, “Que documento?”, ”Tem que ter certidão de nascimento”. “Escreve aí que eu vou levar para a minha mãe para perguntar se tem”. Minha mãe falou: “Tem que mandar buscar no norte”. No dia seguinte eu fui lá para a escola e moça falou: “Aquela menininha tá aí de novo”. “E aí, cadê a certidão de nascimento?”, eu falei: “Não tenho, minha mãe mandou falar que eu não tenho, que tem que mandar buscar lá no norte”. Uma professora chamada Malvina tava na escola nesse dia e disse: “Deixa ela na minha classe. Eu vou ficar com ela”, essa professora depois foi na casa da minha mãe e a minha mãe mandou buscar o documento.

 

Quando eu estava no quarto ano minha mãe conheceu um senhor e eles se juntaram. Em seguida minha mãe já estava grávida esperando a minha irmã, o maior presente que eu ganhei nesse período. Minha mãe parou de trabalhar fora. Esse período foi o pior da minha vida, porque eu conheci uma coisa chamada padrasto; inclusive, quando eu me casei, eu falei para Deus: “Eu nunca vou dar um padrasto para as minhas filhas”. Meu padrasto levou uma filha dele, um amor de criança. Ele chamava Antônio, trabalhava a semana inteira, mas sábado e domingo ficava em casa. No sábado, ele ficava em casa. Por volta de umas dez horas, ele falava: “Vou ao bar tomar uma branquinha. Volto logo pra gente almoçar”. Ele chegava duas, três horas da tarde, caindo de bêbado; pegava os pratos e jogava na rua, xingava, era terrível. Quando a minha irmã tinha uns sete, oito meses, eu a levava para passear de carrinho na rua. Eu tinha uns 11 anos e descobri que eu podia levar ela para passear na hora que ele ia chegar. Foi nessa época que eu fiquei conhecendo a igreja. Passando na frente da igreja um dia, uma moça chamada Marli falou: “Menina, eu vejo que todo dia você passa aqui na frente da igreja com esse bebê. Onde você vai?”. “A gente só fica passeando”. “Em vez de ficar passeando, vem pra cá”. Eu comecei a frequentar a igreja e eu acho que ali foi a minha salvação. Um belo dia o meu padrasto pôs tudo num caminhão que tinha dentro de casa, ele tava bêbado e falou: “Eu quero mudar”. Depois, ele pediu desculpa, queria voltar e minha mãe falou: “Não. Aqui você não põe mais os pés”. Nós precisamos sair da casa que nós morávamos porque não tínhamos como bancar. Fomos morar de favor no fundo da casa de uma pessoa que eu conheci na igreja, o José Anis.

 

Eu tinha 13 anos, parei de estudar e fui trabalhar no Brás em confecção de roupas. Entrei numa oficina para cortar a ponta das linhas, terminar o serviço, cortava a ponta, dobrava, passava a ferro, dobrava e deixava pronta pra deixar na embalagem. Eu gostava do trabalho, aprendia depressa; passou um tempo, eu comecei a pregar botões, passou mais um tempinho, eu tava costurando. Quando eu tinha 15 anos comecei a namorar o meu marido, que eu já conhecia há muito tempo, ele frequentava a igreja. Nunca saí para passear com o namorado. Eu namorei quatro anos e casei. Eu ia fazer 19 anos. Fomos morar em dois cômodos, nós morávamos em São Miguel e alugamos uma casa próxima da minha mãe. Quando tivemos a nossa primeira filha compramos um terreno. Nós construímos; eu construí literalmente, porque eu cavei os alicerces da casa com uma enxada, e ajudei a fazer massa para construir aquilo ali. A gente tem essa casa até hoje.

 

Eu voltei a estudar. Fiz o tal do Madureza que tinha na época, em questão de meses. Eu fazia aqueles exames da secretaria da educação estadual para o ensino fundamental, porque eu aprendia rápido. Fui fazer Magistério e realizar o meu sonho de ser professora. Nessa época, eu tinha feito um concurso para a secretaria estadual de educação e tinha passado e tinha sido chamada. Eu tava trabalhando como inspetora de alunos. Eu fiquei dois anos e pouco nesse cargo e quando eu tava concluindo o meu curso de magistério, tinha um concurso e passei. Falei: “Não é que eu sou inteligente? Eu vou para a faculdade, agora”. Eu fiz Artes, depois Pedagogia e agora tô fazendo Direito. Eu passei no concurso e fiz Magistério. Prestei o concurso público para professor do estado como professora e aí eu entrei no paraíso. Fui trabalhar na educação e lá eu fiquei durante 30 anos. Trabalhei como professora, coordenadora e encerrei a carreira como diretora de escola. Trabalhei como diretora de escola 17 anos. Eu não tinha me preparado para assumir a direção, mas passei primeira chamada e então, caí lá de paraquedas. E essa escola tinha ficado vários anos sem diretor titular. Na primeira semana que eu assumi, eu falei para a supervisora: “Eu vou embora daqui, eu vou apresentar um projeto na secretaria de educação porque isso aqui é um hospício”. Naquela semana eu fui pra igreja e voltei com um olhar diferente. Eu olhei todos os lugares, pedi as chaves de onde estava fechado, abri e esquematizei o que essa escola precisava. As portas das salas de aula estavam todas deitadas no chão, tudo quebrado, vídeo não tinha, lâmpada também não. Nós começamos a trabalhar, chamamos para nós, os problemas, juntamos com os assistentes e a minha escola ganhou o primeiro prêmio do MEC como uma escola. Quando eu pensei na ideia de me aposentar eu falei: “Quem sabe ainda posso aprender, mesmo que não seja para o meu uso, mas para beneficiar uma outra pessoa. E eu vou me aposentar e não vou aguentar ficar parada, aí fiquei três anos, mas fiquei meio adoentada, era puxado, eram oito horas de escola e você só tem hora para entrar, não tem hora para sair. A escola é de responsabilidade do diretor 24 horas por dia, inclusive sábado, domingo, feriado. Eu parei e retomei agora, depois que eu me aposentei. Tô lá. Minha profissão acabou interferindo tanto que eu tenho quatro filhas professoras. Então, cada uma numa área diferente e algumas fizeram pós-graduação e tudo.

 

Há mais ou menos 14 anos minha mãe morreu. Antes dela morrer eu falava: “Mãe, eu gostaria muito de conhecer o meu pai”, “De jeito nenhum, ele não vale nada, te abandonou, porque ele deveria ter ido te buscar e ele nunca foi”. Passando aquele período do luto eu falei: “Eu vou ver o meu pai”, obedeci ela viva. Agora, ela se foi. Eu só sabia que ele chamava Aderli e que morava numa cidade próxima a Bom Jesus. Quando chegamos em Bom Jesus, tinha um taxista, o Curió, ele falou: “Vocês querem ir para um hotel?”. “A gente tá pensando”, “não pensa muito porque só tem esse taxi na cidade e se você ficar pensando muito, eu poso ir embora”. Ele levou a gente para um hotel e no meio do caminho, perguntou: “O que que vocês vieram fazer aqui?”. “Eu vim procurar uma pessoa que chama Aderli. Já ouviu falar?”. “Claro! Aderli tem dois aqui na região. “Tem um que bebe bastante, chama Aderli Conceição, ele deve ter uns 37, 40 anos”, eu falei: “É o outro”. “Ih, esse outro então, não é fácil de chegar até ele”. A família dele é toda politica e eles têm umas reservas, mas tem uma sobrinha dele que eu tenho algum contato. Vou falar com ela”, aí a gente abriu a situação para o Curió: “O Aderli é meu pai”. No dia seguinte ele tava lá para nos pegar. Nos levou para essa outra casa. Uma mulher veio na nossa direção e falou: “Virgem Maria, é Maria Amélia”, e aí já me abraçou, me levou pra dentro, já conversando: “A senhora não sabe como o meu titio procura pela senhora, ele já rodou o mundo procurando a senhora”. Eu descobri que tenho 22 irmãos e que todas as meninas dessa família se chamam Maria. Meu pai não estava lá e no dia seguinte Curió nos levou de novo até essa cidade de Palmas e lá estava a cidade inteira me esperando, inclusive o meu pai, com 70 anos na época e com um filhinho de dois anos, que era o meu 22º irmão. O meu pai me recebeu muito bem. Mataram um monte de coisa lá e fizeram um almoço gostoso. Quando o meu pai contou o lado dele da história, ele disse que nunca mandou a minha mãe embora, nunca brigaram. Quando eu vou lá é impressionante, todos eles se juntam e fazem, praticamente, uma festa. Ganhei uma nova família.

 

Os meus sonhos são sonhos para a posteridade, eu acredito que Deus foi maravilhoso comigo, de uma menina pobre, filha de uma família que não tinha nenhum conhecimento, de um sertão do Piauí, e me amparou, me ajudou a estudar, a me formar e a casar e ter um marido abençoado, uma família bela e ter os amigos maravilhosos que se preocupam comigo. Eu quero me formar, quero a carteirinha da OAB, esse é o meu sonho particular. Eu sonho com um lugar em que a gente possa viver, em que os meus netos, meus filhos, que as pessoas que vêm depois de mim, encontrem um lugar melhor para se viver e não um lugar pior. 

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