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Por continentes e culturas

História de: Hércules Lira
Autor: Amanda Lira
Publicado em: 05/08/2020

Sinopse

Em seu relato, Hércules fala sobre sua infância em Japeri, na Baixada Fluminense, e sobre as lembranças que tem de sua família. Fala sobre as várias viagens e mudanças de cidade e de país por conta do trabalho de seu pai, ex-militar da Marinha. Fala também sobre os choques culturais em cada lugar em que morou.

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História completa

P - Seu nome, local de nascimento e data de nascimento.


R - Eu sou Hércules Elias Gonçalves Xavier de Lira. Nasci… Na época, era Niterói, em 18 do dois de 1972.


P - Qual é o nome da sua mãe e do seu pai completo?


R - O nome da minha mãe é Neuda Gonçalves Xavier de Lira e pai, Esaú Barreto Xavier de Lira.


P - E o nome dos seus avós? Você sabe?


R - É… O nome dos avós. É… Gardêncio Honório, perdão, Honório Gardêncio [risos] e o nome da avó é Raquel Gonçalves. 


P - E os outros avós?


R - Ah, eu não lembro.


P - E qual é o nome dos seus irmãos?


R - Hermes Gonçalves Xavier de Lira e Hélio Marcos Gonçalves Xavier de Lira.


P - E o que é que você sabe sobre a origem da sua família?


R - A origem da família? Eu sei que minha mãe veio do interior do Rio, meu pai é pernambucano e… Meus avós por parte de pai também eram todos pernambucanos. E tinha portugueses na família, mas aí eu não sei o nome deles, não.


P - E você conhece os outros familiares? Os seus outros parentes?


R - Eu conheço os tios, conheço os primos, conheço… Assim, alguns tios distantes eu não conheço, não…


P - E os seus avós? Você conheceu seus avós?


R - Os avós eu conheci… Eu conheci minha avó por parte de pai. O avô eu não conheci, porque já tinha falecido. Conheci também meu avô por parte de mãe e a avó por parte de mãe também.


P - E o que é que você lembra deles?


R - Ah, era muito legal! O meu avô, ele… Assim, diziam que ele era baiano, né? O jeito dele… Ele era muito trabalhador, de poucas palavras. Era uma pessoa que toda vez que eu encontrava com ele, ele tava fazendo alguma coisa. Sempre trabalhando. E a minha avó eu conheci, quando era menino… Eu conheci ela num sítio. Ela tinha… Eles trabalhavam num sítio, e o sítio, assim, era muito legal. Então quando a gente era menininho assim, tipo, 3, 4 anos de idade, a gente chegava na porteira do sítio e ia correndo eu, os meus irmãos… A gente ia correndo e gritando assim: “Vovó Raquel! Vovó Raquel!”. E ela ficava toda feliz que a gente ia correr na direção dela. Era muito legal.


P - E o que vocês faziam no sítio?


R - No sítio, a gente brincava muito. Brincava de tudo. Lá tinha uma camionete velha, abandonada. A gente brincava de dirigir, a gente brincava de ficar colhendo as coisas também, né? As plantas, as árvores… Era muito bacana. Muito legal mesmo!


P - E o que é que a vó Raquel fazia?


R - A vovó Raquel... A gente chamava de vovó Raquel, não chamava de “vó Raquel”, não. A vovó Raquel cuidava das criações, cuidava da plantação, que tinha plantação de cana, de milho, e criava porco, galinha… Criava um monte de coisa! Ela era uma pessoa que sempre trabalhou nessa parte de criação e de plantação.


P - E você lembra da sua casa de quando você tinha essa idade?

  

R - Lembro! A gente morava numa cidade… Num bairro, né, que atualmente é um município chamado Japeri. E, assim, é… O distrito era de Engenheiro Pedreira. A gente morava numa casa que era do lado de um posto de gasolina. Aí essa casa era muito legal porque ela tinha uma mangueira gigante no quintal. Aí meu pai fez um balanço pra gente lá… E eu me lembro que o primeiro presente que eu recebi lá, que eu lembro, que me marcou muito, foi uma bicicleta. Que eu recebi. E o nome dela era até Peugeot, a marca da bicicleta. E era azul! A bicicleta… Eu não deixava ninguém encostar nela. Eu gostava dela pra caramba. E, assim, eu me lembro também da minha avó por parte de pai. O nome dela era Teilza. Ela morava com a gente. Então ela tinha um quartinho lá nos fundos e ela tinha uma cabecinha branca, mas branca que nem algodão [deglute]. Era muito legal porque ela cuidava muito da gente. Ela gostava muito de tá cuidando dos netos. Então essa casa foi muito legal. A gente fez aniversários lá quando a gente era criança… A gente, quando tinha aquelas festas de Cosme e Damião, a gente pegava bala e levava pra casa… Era uma casa, assim, com um quintal grande, uma varanda muito grande, e ela era espaçosa. Era uma casa bem interessante.


P - E qual foi a festa que mais te marcou nessa casa?


R - Ah, aniversário. Festa de aniversário. Foi feita a festa de aniversário do meu irmão mais novo, Hélio. Foi feita a minha festa também. Foi feita a festa dos meus primos também de aniversário… Foi muito legal. Eram festas assim, que… E era legal, porque a casa era grande, então a família toda ia participar. Ficava cheia a casa! Era muito legal. 


P - E a sua cidade? Como era a cidade nessa época?


R - Ah, a cidade era uma cidade muito carente, né? Assim, é uma cidade que tinha pouco recurso. Na verdade, até hoje, né… A gente, quando tem a possibilidade de ir lá no Rio, a gente passa lá pra visitar a família. Então é uma cidade que tem pouco recurso. Continua tendo uma praça no centro desse distrito, de Engenheiro Pedreira. A praça praticamente num mudou nada. Tem uma igreja em frente à praça. Finais de semana, acho que domingo, tem uma feira que é o que movimenta muito ali o comércio das pessoas que vão vender a produção deles, né, ali na feira. E, assim, ela é uma cidade que praticamente é dormitório. As pessoas moram lá e vão trabalhar em outros lugares do Rio de Janeiro.


P - E o que é que seus pais faziam nessa época da sua infância?


R - Ah, o meu pai, desde quando eu nasci, ele já era da Marinha. Ele trabalhou na Marinha durante 35 anos e, assim, na época, quando eu era menino, ele já tava na Marinha. Então, assim, ele viajava muito. Quando a gente morava nessa casa, ele embarcava muito pra viagens longas, então minha mãe que cuidava mais da gente. Ela que acabava fazendo o papel de homem e de mãe, né? De pai e de mãe dentro de casa. E ela era muito rígida. Preocupada sempre com a nossa educação, com a nossa roupa, com as nossas coisas. Então ela se dedicou a vida toda só pra família. Ela nunca foi aquela pessoa de… De ficar preocupada com ela. Ela não tinha vaidade com ela. Ela se preocupava com a gente. Então ela se doou totalmente pros filhos. Então ela sempre foi do lar. Que, como o meu pai viajava muito, ela não tinha como fazer outras coisas.


P - E você lembra de alguma volta marcante do seu pai pra casa?


R - Ah, lembro! Lembro. Várias vezes. Várias vezes. Inclusive teve uma vez que ele falou que ia pra um país, eu não lembro agora qual o nome do país, mas era lá pro exterior, né? Que ele fazia viagens longas, até pro exterior. Várias vezes. Aí, certa vez eu falei com ele que eu queria um avião! Que lá perto de casa a gente ficava olhando o céu e sempre passavam uns aviões e a gente ficava direto olhando aqueles aviões soltando fumaça em cima, né? Q ue atualmente a gente sabe que é trilha de condensação. Mas era muito legal ver esses aviões! Aí eu falei com ele uma vez: “Ó, pai, traz um avião de controle remoto pra mim?” e tal. Aí ele falou: “Ah, tá bom. Eu vou tentar”. Aí ele, quando chegou, a gente foi tudo pra cima dele: “Cadê nosso presente!” e tal. E era muito legal, porque ele chegava fardado e a gente ficava todo achando que ele era… Que trabalhava naqueles aviões, né? [risos].


P - Você sabe como é que seus pais se conheceram?


R - Sim! Eles contaram pra mim. Meu pai e minha mãe falaram que se conheceram num trem. Indo pra Engenheiro Pedreira [risos]. Pra esse distrito. Ele.. Minha mãe disse que tava sentada lá num banco do trem e aí meu pai foi sentar perto e começou a puxar conversa com ela. Aí eles começaram a conversar e ele falou se podia levar ela em casa. E, na época, ela morava lá nesse sítio, que é onde eu falei que a minha avó trabalhava mais o meu avô. Aí ele foi e levou a minha mãe lá. Daí eles começaram a se ver e tal. E aí começaram a… A morar junto, não, né, começaram a namorar. E aí foi que eles se decidiram depois se juntar e casar.

 

P - E você viajava com seu pai também, quando ele ia para as viagens lá fora?


R - Não. Não porque, como era à serviço, os filhos não podiam ir. Agora, a gente viajou, sim. Dependendo… Por exemplo, ele foi uma vez buscar, trabalhar no projeto de um navio na Inglaterra. Aí a gente… Na época, eu tinha 8 anos. Não, tinha 7. Tinha de 6 pra 7 anos. O meu irmão mais velho tinha de 8 pra 9. E o mais novo ia fazer 5. Aí a gente foi… Nós fomos para o exterior com ele. Ficamos dois anos na Inglaterra. Aí foram dois anos maravilhosos, que a gente conheceu outros lugares. Foi muito interessante.


P - E como é que foi lá?


R - Ah, lá, é... É um choque cultural, né? Porque você sai, imagine, você sai de um distrito esquecido no mapa, que é Engenheiro Pedreira, e vai pra capital da Inglaterra. Que aí a gente foi pra Londres e teve aquele choque cultural todo. Vendo toda aquela urbanização que a gente não via nem no Brasil, né? E vendo toda aquela qualidade de vida que as pessoas tinham… E aí a gente foi morar num bairro chamado São Hampton. Moramos lá esse período. E, assim, era outra civilização. As pessoas entregavam o leite na porta de casa. Deixavam o leite lá e ninguém mexia, ninguém pegava. E era bem interessante. E até hoje acontece isso lá. E, assim, os vizinhos todos sabiam nossos nomes, sabiam de onde a gente veio… As casas não têm muro! Lá, as casa não tinham muro, você podia andar tranquilo na rua… Então era muito, muito diferente do que a gente estava acostumado. E a gente passeava direto lá. A gente ia em muito parque. Fomos na Escócia também, conhecer. Vimos a dança lá dos escoceses, que eles fazem uma apresentação. Foi… Parecia que foi um conto de fadas. Na verdade, parecia um filme.


P - Você e os seus irmãos estudaram lá? Foram pra escola?


R - Eu e o meu irmão mais velho, a gente estudou. O mais novo, não, que ainda não tinha idade. Então eu cheguei a frequentar a escola. Fiz amizade com um colega, frequentava a casa dele. É… O mais velho, ele já tava sendo alfabetizado na escola, mas, assim… Como foi um período curto, né, a gente acabou não aproveitando tanto.


P - E como é que era a escola lá?


R - A escola lá era totalmente organizada. É… As salas de aula eram bem… Com poucos alunos, né? Eram bem divididas. Tinham poucos alunos na sala de aula. Os professores chegavam na sala, a gente ficava de pé. É… Tinha merenda na escola o dia todo. Num faltava nada. E tudo de qualidade. Muito, muito interessante. 


P - E a viagem de volta?


R - Ah, ai a viagem de volta, como eu falei… A gente era muito novo, então a gente num, num tinha muita noção do que tava acontecendo, né? Agora, foi meio traumático, né? Porque, quando a gente voltou, nós voltamos pra Engenheiro Pedreira. Então… Por aí eu acho que já dá pra imaginar que [risos] bateu uma tristeza muito grande, né? [risos]


P - E como é que foi a infância de vocês quando vocês voltaram?


R - É… Aí… A infância… A gente voltou tendo mais ou menos aquela, aquela sequência, né? Que nem eu te falei. Tinha os familiares todos em Engenheiro Pedreira. Então a gente continuou frequentando o sítio da vovó Raquel, né? Aí a gente também já começou a estudar em Engenheiro Pedreira. A gente estudava em uma escola chamada Centro Educacional Universo, que atualmente é chamada de Bernardino de Melo. É uma escola que era particular, mas hoje ela é pública. E a gente estudou nessa escola aí durante esse período. E ficamos lá. Aí depois a gente acabou indo pra Belém do Pará. Meu pai, quando eu tinha 9 anos de idade, meu pai pediu transferência pra Belém do Pará.


P - E como foi lá?


R - Então, mais um choque cultural, né? Então você vê que, assim, a gente é uma família que viajava muito. Foi um choque maior do que voltar pra Engenheiro Pedreira. Por quê? Porque Belém, quando a gente chegou lá, na década de 1980, é… O primeiro choque cultural foi a viagem. A gente não tinha condições de ir de avião, então nós fomos de ônibus. Foram três dias de viagem. E, assim, três dias de viagem… Imagine você que, hoje em dia, as pessoas reclamam da pavimentação das BRs que têm no Norte do país. Imagine àquela época o que é que a gente enfrentou, né? Não foi, não foi uma tarefa fácil. Foi uma tarefa muito difícil, mas, assim, que nem eu tinha falado. A gente era criança. Criança num… Num tem aquela coisa daquela barreira toda, né? Agora, com certeza pra minha mãe deve ter sido uma tarefa muito difícil. Pra gente foi complicado, mas pra ela com certeza deve ter sido horrível. Mas aí chegamos em Belém e fomos morar numa casa que ficava num bairro chamado bairro do Marco. Esse bairro fica próximo a uma avenida que liga a região… Liga o centro de Belém à região metropolitana. Avenida Almirante Barroso. Fomos morar nesse bairro. Então chegamos nesse bairro... Lá em Belém, são muito comuns casas de madeira. Muita casa de madeira! E essa casa era mesclada. Ela era à base de alvenaria e a parte de cima era de madeira. A gente morou ali nessa casa em torno de um ano, um ano e meio, mais ou menos. E foi uma casa que, é, era bem localizada. E não era uma casa ruim. Era uma casa boa. E pra gente também a parte boa foi que a gente foi estudar no colégio da Aeronáutica, que era o Colégio Tenente Rêgo Barros. Esse colégio era muito bom. Aí a gente foi estudar lá. E ficava próximo a esse colégio. A gente andava em torno de um quilômetro pra chegar nesse colégio. Então isso facilitou muito. E o colégio, por ser bom também, a gente acabou gostando mais de lá do que de Engenheiro Pedreira porque foi um ganho muito grande, principalmente na área de educação. Foi muito bom mesmo. Uma base muito boa naquela escola. E Belém também era uma cidade que tava crescendo. Na época em que a gente morou lá não tinha shopping center. Não tinha nada disso. A diversão maior era um cinema que tinha no centro da cidade e a loja (nome não identificado), que nem existe mais. Então foi muito legal. Belém, a gente passou praticamente a juventude lá, né? A juventude não, a adolescência. A gente saiu de lá foi com… Eu saí de lá, eu acho que tinha o quê? Dezesseis pra 17 anos. Então foi um tempinho bom que a gente ficou lá, né? Então foi muito interessante. Aí nós fomos pra lá. É… Meu pai… Depois de um tempo a gente foi morar na casa da Marinha, que aí fica num bairro chamado Marex, que fica próximo ao aeroporto lá de Belém. Fomos morar nessa casa, que era muito grande, mas tinha um defeito também grande, que ela era afastada de tudo. Por ser vila militar, ficava muito afastada. Então a gente acabou sentindo muito porque, lá onde a gente morava, primeiro que já tinha as amizades. Segundo que tinha muito mais coisas, né? Tinha padaria perto, tinha comércio, mercado perto. E essa casa não tinha nada perto. Era muito afastada de tudo. Tudo que você possa imaginar. E, pra você ter uma ideia, o final da rua dela já era, tipo assim, uma floresta. E aí [risos] à noite a gente escutava até tambor. E o pessoal falava que eram os índios lá que estavam fazendo as coisas deles lá. Então você vê o que é que a gente estava passando. Mas, como não era só a gente, tinham vários militares que moravam lá, né, a gente foi se adaptando. Mas o início foi difícil. Ficamos longe da escola também, né? A gente já não conseguia ir a pé. Aí a gente tinha que pegar… A gente pagava um senhor que levava a gente pra escola. Então, assim, foi um período… Foi um período complicado. Não foi um período muito fácil, não.  Mas faz parte, né? E, depois, a gente saiu de lá. Nós fomos morar num bairro chamado Pedreira. Aí, nesse bairro, meu pai comprou um apartamento lá. Comprou um apartamento bom… Esse bairro Pedreira era um bairro muito bom lá em Belém. A gente foi morar nesse bairro e aí o meu pai tinha um carro e comprou outro. Então foi um momento de muita prosperidade na família. Ele comprou um apartamento na praia também. Ou seja, a gente começou a construir um patrimônio muito bom lá em Belém. Foi praticamente o período em que a gente começou a colher mais os frutos do sacrifício de ter ido pra Belém. A ponto de a gente não pensar mais em voltar pro Rio de Janeiro, voltar mais pra nenhum outro lugar. Porque estava tudo muito bem, né?


P - Você ficou o tempo todo na mesma escola, em Belém?


R - Sim. Inicialmente, sim. Foi esse período em que a gente ficou lá e sempre estudou nessa escola. E foi uma das melhores coisas porque, que nem eu falei, a escola era muito boa. Então pra gente foi um ganho enorme. 


P - E como você descreve essa escola? O que é que você lembra dela?


R - Ah, a escola… Primeira coisa que eu gostava muito de lá era a parte do patriotismo. A gente tinha uma escola em que todo dia de manhã, antes de entrar, a gente entrava em forma pra cantar o hino nacional. Cantava o hino nacional. Depois do hino nacional, eram dados os recados da escola, né? O que é que tava planejado praquele dia. A escola tinha um laboratório de ciências magnífico. Tinha até animais empalhados, que eles tinham, né? Recebiam de doação de museu. Tinha laboratório de inform ática. Tinha sala de artes… Lá, era maravilhosa! A sala de artes era tão legal que os alunos fabricavam obras de arte e depois eles mesmos podiam vender. Pra você ver como é que era interessante. E uma coisa que eu me lembro que era muito bacana, que eu nunca vi em nenhuma outra escola em termos de Brasil, é que tinha um… Tinha, assim, tipo um galpão… Mas não era um galpão. Era uma sala grande, né? Que tinha material de cerâmica. Então você fabricava a cerâmica lá dentro. Entendeu? Você tinha aula de cerâmica. Porque a cerâmica era muito comum. A cerâmica marajoara é muito comum lá no Norte. Pra não perder aquele contato cultural com aquela região, a escola incentivava os alunos a fabricarem cerâmica. Então era muito legal. Os alunos fabricavam seus vasos e tal. Aí você fazia aquilo e você participava de todo o processo de confecção, desde o barro até a pintura da peça. É muito legal.


P - E tinham outras disciplinas que tinham naquela época que hoje em dia não tem mais, que você lembra?


R - Tinha. Ó, tinha Educação Moral e Cívica, que eu vejo que até hoje foi uma perda muito grande, porque na época a gente sabia várias, vários artigos essenciais da Constituição brasileira. A gente sabia, por exemplo, o que é que o prefeito tem que fazer, o que o governador é, o que o presidente é, o que é que é Câmara... O que é a Câmara dos Deputados, o que é o Senado Federal, o que é o Congresso. Hoje em dia as pessoas confundem, né, o que é Congresso, o que é Câmara e o que é Senado. Não sabe direito o que é um e o que é outro. Aí tinha também o OSPB, que é a Organização Social e Política do Brasil. Então isso aí era muito interessante também porque você via… Não é uma Geografia Política. Na verdade é uma matéria que é voltada para a cidadania. Então é diferente de Geografia. Geografia também tem esse viés, mas ela já abrange outros assuntos também. Ela não. É focada nisso. Isso aí pra mim foi uma perda muito grande que as escolas tiveram porque eram matérias que formavam a cidadania das pessoas.


P - E algum professor te marcou nessa escola?


R - Algum professor me marcou? É, tinham vários professores muito bons, né? O que me marcou mais foi um período que eu tive que repetir. Que eu fiz… Assim que eu cheguei lá, que a gente tinha sido transferido, né, eu tinha um professor que era de Matemática. E ele era muito bom, sendo que foi a matéria que me… Que me atrapalhou mais, porque eu saí de uma escola muito fraca lá no Rio e fui pra uma escola muito boa lá em Belém. Então eu acabei tendo problemas em Matemática lá.  Eu me lembro que nas provas eu colocava tudo assim: “Não sei”, “não sei”, “não sei”. Mais ou menos que nem aquele seriado do Chris [risos]. Eu colocava “não sei”. Então… Era interessante. Aí meu pai foi chamado na reunião, mostraram a prova pra ele e falaram: “Olha, ele colocou tudo aqui ‘não sei’”. Aí pronto, né? Já viu o que aconteceu… Aí eu peguei… Mas aí eu não fiquei tão complicado porque o meu irmão mais novo também, ele ia no mesmo caminho [risos]. Então foi legal, porque a gente dividiu, né, a culpa. Aí eu peguei e falei assim: “Vamos ter que estudar, né? Não tem jeito”. E aquilo ali marcou. Aquilo ali mexeu comigo porque, dali em diante, eu… O meu pai veio conversar comigo e ele falou assim: “Olha, você não pode agir dessa maneira. Você tem que ver o seguinte: você não vai aprender se você não estudar, se você não se esforçar…”. E aí meu irmão mais velho sempre foi bem nas escolas. Ele sempre foi referências, assim, em notas. Sempre estudando muito. E aí ele falou: “Olha, você tem que se espelhar no seu irmão”, não sei o quê. Aí eu falei: “Ah, eu não me espelho nele, não”, porque eu andava muito com o mais novo, que também era meio da pá virada que nem eu… Acabou que eu falei assim: “Não, eu não vou olhar pra ninguém. Eu vou olhar pra mim mesmo e me esforçar”. E dali em diante nunca mais. Eu só tirava nota boa. Me esforcei. Mas meu irmão mais novo, não. Ele continuou ali naquele ritmo dele. Ele falou assim: “Ah, deixa rolar”. E todo ano ele ficava de recuperação. Eu não. Eu nunca mais fiquei de recuperação, nunca mais fui reprovado. Foi assim.


P - E vocês continuavam tendo contato com a família do Rio de Janeiro?


R - Muito pouco. E isso foi uma coisa que traumatizou muito a minha mãe porque meu avô faleceu no período em que ela estava lá em Belém, né, e aí, como era um lugar longe, como eu falei no início, né? A gente gastou três dias pra ir. Então não tinha como ela gastar três dias pra ir pra o Rio pra o… Pra… O enterro, né, do meu avô. Então… Meu pai não tinha condições de pagar passagem de avião, que, naquela época, avião era luxo. Era muito caro! Não era pouco. Era muito caro mesmo. Às vezes, tinha passagem que custava, assim, praticamente, quase o preço de um carro. Então era muito caro. Então acabou que não teve condições de ela ir. Então isso machucou muito ela. E a gente… E também tinha um outro agravante: naquela época, telefone era caríssimo. Você ter uma linha telefônica era só pra quem tinha muito dinheiro. E aí a gente não tinha telefone. A gente foi conseguir telefone depois de um bom tempo. Então teve um período ali que foi só através de cartas que a gente conseguia falar um com o outro. E a carta demorava pra chegar, né? E ela ficou sabendo do falecimento do pai dela através de carta. 


P - E pra você? Como foi essa distância da família toda?


R - Olha, eu num… No início, assim, a gente sentia… Que nem eu falei, né, que tinha uns eventos lá em casa, que eram os aniversários e as brincadeiras com os primos, né, naquela casa em que a gente morou lá em Engenheiro Pedreira. Então a família sempre estava lá. A família sempre gostava… Porque, como era uma casa que ficava perto do centro do distrito de Engenheiro Pedreira, as pessoas que moravam distantes sempre passavam lá pra conversar com minha mãe… Então a gente sempre estava perto dos primos. E aí, quando a gente chegou lá em Belém, a gente não tinha isso. Então a gente teve que começar do zero. E aí foi que a gente… A sorte nossa é que, como eu não sou filho único, né? Tem mais dois irmãos, então a gente sempre foi muito unido. A gente saía junto, passeava junto… Aí acabou não sendo tão traumático. Mas, se eu fosse filho único, eu teria sentido muito mais. E a gente acabou fazendo as amizades também, né? Então isso aí ajudou muito. 


P - Você ficou lá em Belém até os 16?


R - Até os 16. Belém… Eu me lembro que a gente ficou lá até 1996. Não. 1996, não. Foram… nove? É, até os 16! Que a gente saiu de lá em 1988.


P - E como é que era a sua adolescência lá?


R - Ué, a adolescência era aquilo: quando queria passear, tinha um clube lá chamado… É, Tuna Luso, né? Que era um clube grande. A gente praticava esporte lá. A gente ia na piscina no final de semana. A gente fazia natação. Cheguei a jogar basquete lá também. Então, assim, a gente tinha uma vida social muito boa. Assim, em termos de esporte, em termos de, de passeio… A gente passeava muito também. Tinha um clube chamado Neópolis, que era um, tipo, era uma praia de água doce que tinha lá em Belém. Um balneário, né? E a gente ia final de semana direto pra lá. Tinha Mosqueiro, que era uma praia, que foi onde o meu pai comprou o apartamento. Então, assim, a gente saía bastante. Viajava muito pro interior… Tinha umas amizades que a gente marcava de conhecer o interior do Pará. Então a gente conheceu Paragominas, Santa Isabel, Santo Antônio do Tauá… Tudo lugares longe de Belém. E as estradas que não eram asfaltadas. Então a gente ia pra esses cantos tudo. A gente viajava pra caramba. E era muito interessante porque você conhecia mais o interior, né? Então você conhecia mais a cultura das pessoas ali, entendeu? Então era muito bacana isso. 


P - E como é que eram as pessoas do interior?


R - É… Assim, tinha muita pobreza, né? Porque você chegava no interior, você via, assim, que as pessoas viviam do extrativismo. Então, assim, no Pará, hoje em dia eu não sei como é que está o interior, mas naquela época as pessoas viviam de extrativismo. Seja da seringueira ou então em alguns lugares também as pessoas tinham a castanha, castanha-do-pará, açaí… Era muito açaí. Madeira, então, nossa! Você via… Quando você chegava a Paragominas assim, você via caminhões e caminhões de tora de madeira passando de um lado pro outro. E muita queimada. Tinha muita queimada. E, assim, lá em Paragominas também era interessante porque você tinha muita produção de farinha de mandioca. Então era uma região que tinha muita plantação de mandioca. Aí você lá só via isso. Ou era açaí ou mandioca. Você não via outras culturas. Era muito raro. E quando via, por exemplo, mamão, era japonês que plantava. Entendeu? Não era brasileiro. 


P - E por que é que vocês foram embora de Belém?


R - Então, a gente… Chegou um momento lá em que meu pai estava indo pra reserva da Marinha. Aí ele foi chamado pra dar aula, né? Pra dar aula numa escola de formação lá. Uma Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante. Ele começou a dar aula nessa escola e tal, mas, como ele já estava na reserva, ele tinha uma vontade de morar em Recife. E aí, numa dessas… Num desses períodos em que a gente ficou lá em Belém, a gente foi duas vezes à Recife. E nós gostamos de passear lá porque Recife era uma cidade mais urbanizada que Belém, né? Por estar num lugar mais desenvolvido. E aí aquilo mexeu um pouco com ele e ele achou que seria legal a gente ir pra Recife, morar lá. Sendo que a gente já tinha bastante coisa lá em Belém e nós estávamos numa situação até muito boa, em muitos aspectos. Mas ele achou que seria melhor. E aí nós fomos morar em Recife. Sendo que fomos morar lá, não demorou um ano, a gente voltou pra Belém. Não teve adaptação. Primeiro, a escola lá não era tão boa. Tivemos que estudar numa escola particular que era muito mais cara. O custo de vida em Recife era muito mais caro. A gente foi… Estudamos numa escola particular e meu pai não teve condições de ficar pagando direto. Aí eu acabei tendo de estudar numa escola pública, junto com meu irmão mais novo. E, assim, minha mãe não se adaptou também. E foi um período que a gente viu que foi um erro. E já tinha gasto muito. E aí voltamos pra Belém. Sendo que aí, quando voltamos pra Belém, as coisas foram bem diferentes do que foi da primeira vez. As coisas pioraram muito porque a gente foi morar num bairro… Por ter gasto muito recurso, né, acabou que ficou sem recurso financeiro. E aí fomos morar num bairro muito longe. Muito longe de tudo. E aí, como ele tava na reserva, ele não poderia nem mais morar em casas da Marinha. Então fomos morar numa casa pequena, numa rua ruim, não tinha nada perto. E, assim, ele começou a trabalhar novamente lá naquele centro de instrução, né? Então foi um momento difícil da vida. Foi um momento complicado. Aí a gente passou meio apertado lá. E aí já foi muito mais difícil porque nós já éramos maiores, né? Aí eu voltei a estudar… Não consegui vaga mais na escola da Aeronáutica, nem meu irmão mais novo. Nenhum de nós, porque a gente pediu pra ir embora. Então não conseguiu, porque lá era muito concorrido. Então eu tive que estudar numa escola pública horrível. Eu e meu irmão mais novo. O mais velho, como já estava numa fase mais avançada, meu pai pagou um curso pra ele num colégio particular no centro de Belém. Então ele tinha que pegar ônibus todo dia num lugar longe pra caramba. Então, assim, foi uma vida muito complicada. Foi bem difícil. Muito difícil mesmo. Mas aí depois apareceu a chance... Deu ali em torno de seis meses a um ano, aí meu pai foi chamado pra trabalhar numa missão da ONU lá em Cabo Verde. Aí foi que a gente se mudou de Belém de novo.


P - E como foi essa viagem? Como você se sentiu?


R - É, então, aí: outro choque cultural. Então nós tivemos muitos choques culturais ao longo da… Ao longo da nossa vida aí desde pequeno, como eu já havia falado. O primeiro foi aquele grande choque na Inglaterra. Aí agora foi praticamente um filme, mas um filme mais atual, né? Porque nós já éramos mais… Já éramos jovens, né? Então, na época, eu tava com 16 pra 17 anos. Meu irmão mais velho ia fazer 18 e o mais novo ia fazer 15. Então foi interessante. Foi… Meu pai foi pra entrevista… Nessa época, que nem eu falei, a gente morava nessa casa lá e aí ele falou: “Olha, fui convidado pra trabalhar lá na organização marítima das Nações Unidas em um projeto lá na África, em Cabo Verde”. E a gente nunca ouviu falar em Cabo Verde. Realmente é um arquipélago, né? Então não é muito famoso. Aí ele falou: “Olha, eu tenho que, daqui a um mês, estar em Londres na entrevista”. Na situação em que a gente estava vivendo, falamos: “Ah, beleza”. Ele foi, foi selecionado e falou: “Olha, eu tenho que ir pra lá daqui a um mês e vocês já têm que ir logo em seguida”. Imagine a situação nossa. A gente saiu vendendo um monte de coisa. Saímos… Assim, loucura, né? Imagine uma loucura. Aí, é… Minha mãe, passou um filme, né? Porque, quando ela foi pra Inglaterra, era um pouco diferente. Agora, dessa vez, ela ficou um pouco mais preocupada. Porque, além de estar longe de toda a família… Porque, quando ela foi pra Inglaterra, ela estava no Rio. Então tinha a família pra guardar alguma coisa quando ela voltasse. Dessa vez não tinha nada. Então a gente teve que sair vendendo tudo. Arrumamos uma pessoa de confiança pra resolver o resto das coisas e… A gente teve que tirar passaporte às pressas. Passagem também, porque quem fornecia tudo era a ONU. Ou seja, foi uma coisa doida. E aí, não tem voo, né? Hoje em dia, eu não sei se tem. Mas não tinha voo direto de Belém pra Lisboa. Porque não existia voo direto do Brasil pra Cabo Verde. Então tinha que ir pra capital e, da capital, pegar um voo pra Cabo Verde. Cabo Verde é uma ex-colônia, né, de Portugal. Então a gente teve que ir pra Lisboa. Você imagine: a gente saiu de Belém e voltamos pra Recife, porque o voo saía de Recife. Aí fomos pra Recife novamente e de lá a gente pegou um voo pra Lisboa. Uma coisa que me marcou muito nessa viagem foi que a gente foi embarcar e nesse voo tinha a classe normal e a classe executiva. A gente estava na fila pra entrar na classe normal, sendo que os bilhetes eram diferentes e a gente não sabia. Aí o comissário falou: “Não, por favor, siga a gente aqui que vocês estão na classe executiva”. Aí a gente foi lá na classe executiva. Eu falei: “Nossa, cara”. Mas porque a ONU fazia questão de pagar o melhor pra família, entendeu? Então era muito interessante. E aí chegamos em Lisboa. Chegamos em Lisboa, sendo que lá era só pra passar o dia pra, no outro dia, poder pegar o avião pra Cabo Verde. Então foi interessante porque a gente foi pra Lisboa, passamos esse dia lá. Ficamos hospedados… tipo numa pensão, lá no centro de Lisboa. E um frio danado. Você sai de Belém, que é quente, e em questão de dois ou três dias você tá em Lisboa num frio danado. Tu imagine a cena, né? [risos] É coisa de filme, né? Aí a gente foi, andamos lá no centro de Lisboa, parece casas de… Passou um filme, né? Parecia que a gente tinha voltado pra Londres porque na Europa são muito parecidos os lugares. E, assim, as ruas parecem ruas de boneca. Tem aquelas casinhas todas bonitas, comércio todo bonitinho. Tudo limpo. Então foi muito legal. Muito legal mesmo. Foi fantástico a gente poder voltar na Europa. Aí de lá a gente pegou e… Ficamos aguardando o voo pra Cabo Verde e pegamos o voo pra Cabo Verde. Já foi um baque, porque voltou… Parecia que a gente tava indo pra um lugar em que não tinha nada. E praticamente era isso. A gente chegou pra pegar o avião pra Cabo Verde e o avião era cheio de… Tinha frango, tinham várias coisas que as pessoas levavam da Europa pra lá porque… A gente começou a ficar assustado com aquilo. A gente falou: “Caramba, nós estamos indo pra um lugar que eu acho que não tem nada”. E aí a gente pousou lá na capital de Cabo Verde, que é a Ilha da Praia. Quando você vai chegando em Cabo Verde, você não vê nada. Só mar. Que é um arquipélago e as ilhas são pequenas. Então a gente pousou lá na praia. A gente olhou e falou: “Caramba, meu amigo”. É… Num é um lugar pobre. Não é um lugar em que as pessoas… É, como se diz? É, não tem aquela miséria que a gente vê em alguns países da África, não. E o cabo-verdiano é muito legal. Ele é muito simpático. Então, a gente chegou lá… Eles gostam muito do brasileiro. Então pra gente foi muito legal isso. Mas a gente chegou lá e a gente se assustou. Por quê? Porque no Brasil a gente está acostumado a ver muito verde. E lá as ilhas são de origem vulcânica. Então você não tem muito verde. Você tem umas ilhas, assim, com um clima bem árido. É um lugar até agradável e tal, mas é árido. Não tem muito verde, como no Brasil. Não existe floresta em Cabo Verde. É uma coisa bem complicada. Pra quem tá saindo do… Você tem, assim, pra quem já foi a Brasília e você vê aquele barro vermelho, lá em Cabo Verde é mais ou menos assim. Você tem aquele tipo de solo. Parecido com aquilo. Então foi um baque muito grande. Era a realidade. Então nós fomos pra lá. Aí a nossa ilha não era a Ilha de Praia, que é a capital. A gente ia morar na Ilha de São Vicente, que a capital é Mindelo. Mindelo é onde tem o porto. O principal porto lá de Cabo Verde. Isso ajudava um pouquinho porque sempre tem gente de fora também, né? Mas aí a gente de lá pegou um avião, um Avro… Um Avro é um avião que é antigo. E esse voo aí, a empresa de Cabo Verde, a empresa aérea, ela usava essa avião direto. Então a gente foi pegar esse avião e, nossa, um avião antigo, velho, barulhento… E atravessando o Oceano Atlântico. Porque, pra quem sabe, naquela região ali é onde ficam as fossas abissais, né? Então ali, se você cai, você vai pro fundo do mar e já era. Então era muito doido aquilo lá. A gente foi. Aí chegamos em Mindelo, assim, até chegar lá na cidade tem uma praia no centro chamada, é… Como é que era o nome dela? É… É uma praia que a origem dela, ela mostra muito que é de origem vulcânica, que a areia é bem preta, né? É bem preta mesmo. Você lembra a rocha vulcânica. Então…


- FIM DA PRIMEIRA ENTREVISTA -

 

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