Busca avançada



Criar

História

Ponto de coragem

História de: Lenice Silva Viegas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/10/2021

Sinopse

Lenice rememora a infância no Parque União, hoje pertencente ao bairro da Maré (RJ), onde desde criança frequenta, com a família, a Primeira Igreja Batista do bairro e ali fez suas primeiras aulas de dança, canto e música, além de aprender a tocar violino. Interessada especialmente por dança, fez diversos cursos em diferentes academias e escolas do Rio e deu aulas na Maré. Em abril de 2017, criou o projeto social BalleTransforma, e que durante a pandemia interrompeu as aulas presenciais, mas os alunos recebiam vídeos semanais com aulas de ballet, incluindo exercícios de chão, barra e centro. Conta também sua trajetória peculiar até  se tornar Maquiadora profissional em 2020 e sua  dedicação em orientar meninas e mulheres a preparar maquiagens para os diferentes tipos e tons de peles. Escreveu o e-book “Um guia passo a passo para se auto maquiar”. 


Tags

História completa

Meu primeiro contato com a dança foi na igreja, no ministério com 5 anos de idade, e logo depois eu tive o meu primeiro contato com o balé, e o balé ele chegou na minha vida por causa do divórcio dos meus pais. A minha irmã teve que assumir a casa porque a minha mãe teve depressão e eu era muito nova. Então a minha irmã assumiu as pontas da casa, e eu lembro que ela e minha mãe me colocaram, procuraram o balé para eu poder melhorar e crescer tranquilamente porque eu tive dislexia, desenvolvi dislexia, desenvolvi anorexia, então desenvolvi a anemia também por conta de toda situação emocional, a gente criança acaba não lidando com as situações, então foi através das dores que o balé surgiu na minha vida. A dança foi a partir da igreja, e o balé foi a partir de dores, mas foi a melhor coisa que me aconteceu, eu comecei a fazer balé clássico aqui na Vila Olímpica da Maré com a professora Patrícia e não fiquei por muito tempo porque surgiu uma oportunidade de fazer uma prova para bolsista na Eslava Golenco na Ilha do Governador, fiquei eu acho que 3 meses aqui na Vila Olímpica fazendo balé clássico, fiz a prova de bolsista na Eslava Golenco e passei. Então fiquei muito feliz.

 

Isso influenciava muito, porque eu estava em uma escola particular na Ilha do Governador, e eu vim, eu sou da favela, eu já era bolsista em escola paga, pelo menos no período que eu estava dentro da escola existia um certo distanciamento, eu lembro que apresentações, por exemplo, em uma das apresentações, a minha mãe e a minha irmã ouviu um dos pais reclamando com a professora de que aquela bolsista ia dançar mais uma coreografia e a filha pagante dela não iria dançar, isso era uma reclamação que ela tinha porque existia muito isso, poxa ela é bolsista já é para baixo, mora na favela mais baixa ainda, não tem nem carro para levar para os festivais, precisa de carona. Então isso eram coisas que eu ouvi dentro da escola, não dos meus professores, nunca dos meus professores, e eu digo que eu tenho um privilégio com isso porque a gente sabe que muitas escolas não são assim, então eu agradeço por ter tido a oportunidade de crescer com dois professores sábios, que importava mais a técnica, independente de onde ela vinha, mas nem todos os pais da escola tinham esse pensamento, então a gente escutava, eu escutava muitas coisas até das alunas e uma das coisas, e eu vou chegar lá que me fez sair da escola e eu me arrependo hoje, mas faz parte do amadurecimento foi esses embates dentro da escola. Eu comecei a duvidar da minha capacidade, do meu potencial por causa do que eu ouvia, mas isso influenciava cem por cento, eu ser da favela e eu ser bolsista. Eu não tinha dinheiro para pagar minha roupa inteira, não tinha dinheiro para pagar mensalidade inteira, isso influenciava as minhas amizades, não era à toa que eu me tornei muito amiga do pessoal que era bailarina de lá e era da favela da Ilha do Governador, porque eles também se sentiam assim. Então a gente se aproximou um do outro, a gente foi criando esse laço mais forte de bolsistas dentro de uma escola pagante, e a gente aprende a lidar com isso. 

 

Teve um tempo de pausa até eu ter a iniciativa de iniciar o projeto, eu saí da escola por volta de 2012, e eu só iniciei o projeto do Balé Transforma em 2017, o processo dele começou em 2016, e deu iniciativa em 2017. Eu acho que esse período que me deu a coragem de dar iniciativa em um projeto social. Esse período foi para eu me redescobrir e redescobrir o meu potencial, que saindo da escola eu acabei perdendo um pouco. Saí da escola por duvidar do meu talento, duvidar da minha coragem e nesse meio tempo eu comecei a experimentar outras vertentes dentro da dança, fui para as danças urbanas, apareci na dança 2, hoje eu tenho muito presente o zouk brasileiro que é uma dança 2. Então esse período me fez desenvolver o lado professora da Lenice Viegas que ainda não estava presente, eu só era bailarina e era dançarina, mas ser professor é algo muito distante para mim.

Eu posso dizer que a vontade de ter um projeto social como eu tenho hoje, de ter o Balé Transforma, nasceu pela transformação que a dança fez em mim, e na capacidade que eu vi que podia transformar outras vidas através da dança. Esse período foi o que me encorajou a fazer isso, eu comecei a perceber que eu tinha capacidade para ensinar, eu sempre tive muito forte dentro de mim que assim como pessoas me ensinaram, assim como pessoas se disponibilizaram para me ajudar, eu não podia deixar ensinamentos morrer em mim, eu tinha que passar ensinamentos para outras pessoas. 

Foi aí que eu vi que eu gostava de uma coisa que eu fugia muito, porque eu dizia que eu nunca ia ser professora de dança porque eu queria ser bailarina. Meu sonho era ser bailarina, mas eu me vi por um outro lado, eu vi que eu seria diferencial nesse lado, que eu podia ser referencial por esse lado que é ser professora de dança.

 

A maquiagem é outro ponto de coragem, o primeiro ponto de coragem foi o projeto, depois que eu já passei, depois que eu enfrentei o que enfrentei com o Balé Transforma, eu acho que eu sou capaz de um monte de coisa. A maquiagem ela já estava presente na dança, eu comecei a maquiar dentro dos meus espetáculos, não tinha dinheiro para pagar maquiadora profissional, eu tinha que aprender a me maquiar sozinha, então me maquiava sozinha nas apresentações, foi daí que já começou e eu só não dediquei mais o meu tempo na maquiagem antes, porque eu entrei na faculdade e comecei o projeto Balé Transforma junto, eu não conseguia ser muita coisa ao mesmo tempo, ele apesar de tentar até hoje, e eu precisei estacionar, eu me formei em maquiagem antes de entrar na faculdade, me formei em maquiagem em 2016, eu já estava formada como maquiadora profissional, mas só voltei a atuar mesmo firme em 2019. Na pandemia foi quando eu vi a minha capacidade de maquiadora porque parou tudo o presencial, meu projeto parou, minha faculdade parou, meus atendimentos, minhas aulas presenciais pararam, e eu só tinha a maquiagem e a dança dentro de casa. A maquiagem me manteve, a dança me manteve viva no que eu podia fazer, dançava sozinha, dava aula para as minhas alunas, e eu comecei a praticar mais a maquiagem e entrar no mundo da internet profissionalmente, que eu ainda não usava, já que eu era cem por cento presencial. Comecei a gravar vídeos porque eu sou um pouquinho descarada, minha mãe diz que eu não tenho vergonha, aproveitei isso para tirar um ponto positivo. Eu comecei a gravar vídeos, praticar muito mais, e começou gente procurar para poder aprender. No ano passado, na pandemia, eu formei mais de 90 alunas em automaquiagem, mulheres entre idades de 11 anos até 40 e poucos anos, que estavam em casa também com ansiedade a mil, e que queriam algo para poder trabalhar, e eu desenvolvi o meu primeiro curso de automaquiagem para poder fortalecer a autoestima e redescobrir o potencial da mulher dentro de casa, da mulher em si. E aí eu comecei a fazer um curso primeiro com a minha irmã, com a minha amiga Eline, que ela está presente em tudo, ela se  jogou lá também, e comecei a formar as mulheres tecnicamente e comecei a relembrar tudo que eu aprendi na minha formação e estudar mais sobre a maquiagem. Fiz a minha primeira turma com 7 meninas, na outra turma tinha 17 meninas, na outra turma tinha mais 17, e as meninas pediram o módulo 2, e as meninas pediram o módulo 3, e eu fui criando e aquilo foi me desenvolvendo, foi me fazendo estudar mais a maquiagem, foi me fazendo praticar mais a maquiagem, e eu entrei no mundo do empreendedorismo digital, porque querendo ou não o projeto Balé Transforma é um empreendimento, só que de uma forma muito mais social, e todo o aprendizado que eu tive de documentação e de estrutura, eu usei para estruturar meus cursos e meu trabalho digital. Eu falo que nada na nossa vida é atoa. Tudo que a gente passa nos ensina alguma coisa e se eu não tivesse aprendido a estruturar o projeto, hoje eu não saberia estruturar o meu E-book. Eu não saberia o que fazer no meu E-book, e começou daí a minha maquiagem profissionalmente, eu decidi cair muito mais a fundo, hoje eu tenho 3 pontos de trabalho, que é a minha maquiagem pelo meio digital e também com atendimentos, o Balé Transforma que é um trabalho que eu nunca quero parar, e o zouk brasileiro que é uma aula presencial que eu ainda dou. Na maquiagem, depois dessa formação eu fiz o meu primeiro curso completo, depois que eu formei as meninas, que foi o “Do zero ao degradê perfeito'' que eu botei na plataforma da Hotmart, meu primeiro investimento digital. 


Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+