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Política e militância

História de: Jacó Bittar
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/12/2014

Sinopse

Jacó fala de sua infância no interior de São Paulo, a ascendência de sua famíla e a experiência em trabalhar no Porto de Santos. Conta-nos sobre sua entrada na Petrobrás em 1962, onde logo começou sua militância sindical, frente ao Sindicato dos Petroleiros de São Paulo. Diz sobre como se tornou umas das principais lideranças sindicais no Brasil. Além disso, discorre sobre a sua vida política com o PT, por onde se elegeu prefeito de Campinas em 1989. Fala de seu casamento com Terezinha e a vida de seus três filhos.

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História completa

GREVE de 1983

Nós estávamos integrados ao processo do movimento sindical da greve geral. Então eu tinha por compromisso e por obrigação a mobilização dos trabalhadores da refinaria para a greve geral, que aparentemente estava marcada para o dia 25, ou coisa parecida, de julho. E nós começamos a mobilizar. Só que ela chegou num ponto que eu chamei o pessoal no Rio de Janeiro, todos os sindicatos, e disse o seguinte: “Não há mais como segurar a greve, o pessoal está no ponto de fazer a greve”. E você vai ver pelos recortes todos que depois várias categorias se integraram no processo da greve em Paulínia. Na reunião com os sindicatos eu falei: “Nós vamos fazer greve, lá nós estamos na iminência de fazer greve”. O entendimento que o pessoal tinha é que era um blefe, mas não era, a categoria estava ansiosa. A nossa reivindicação era estabilidade no emprego, e existiam uns decretos-lei, que eu não me lembro o número mais, que a gente combatia e que depois da nossa greve foi o primeiro decreto que nós conseguimos derrubar no Congresso Nacional. E nós não fazíamos uma reivindicação... Nós sabemos, olha, empresa não pode perder, ou melhor, não quer perder o poder de mando, então o que nós propusemos: “Vocês vão manter a mesma rotatividade dos últimos dez anos.” Quer dizer, então ela ficava com a faca e o queijo na mão para poder admitir. Quer dizer, a estabilidade absoluta é o que eles não querem, o poder de mando. E o pessoal não acreditava que a greve fosse sair. Os metalúrgicos estavam num congresso em Piracicaba e na passagem eles passaram por Campinas e passaram no sindicato. Estava quase toda a categoria no sindicato. Quando ia acontecer a greve aqui. Aí discursaram, tal. Então, no dia 5 eu fui a Brasília para conversar com o ministro Murilo Macedo, e ficamos de voltar a conversar.

Conversamos, mostrando para ele que não era nada absurdo o que nós estávamos pedindo, está certo? Nós estávamos simplesmente reivindicando uma estabilidade no emprego, melhores condições de trabalho e tal, e que isso a Petrobras podia dar. Aí nós fomos, e o ministro Murilo Macedo ficou de ligar de volta. Ele ia fazer uma intervenção na Petrobras, fazer um acordo com a Petrobras. Só que não houve retorno. Então o que nós fizemos? Nós pegamos o grupo que ia entrar meia-noite, nós chamamos todos eles para o sindicato, e foram todos do grupo para o sindicato, o grupo que ia entrar meia-noite, em todas as unidades. E nós dissemos o seguinte: “Estamos aqui, não estamos em greve, e vamos negociar. Esse grupo só volta a trabalhar se houver um atendimento ou se houver negociação!” E nada de vir notícia de negociação, nada. Aí o Shigeaki Ueki, que era o presidente da Petrobras, começou a radicalizar, para dar exemplo. Começou a radicalizar. E até uma jornalista falou o seguinte: “Mas eles podem dizer que vão negociar e você põe outro grupo lá dentro e fica com dois grupos, aí não pára mais a refinaria.” Mas eu falei: “Não, a rendição vai ser feita no sindicato, de cinco em cinco pessoas.”

Isso significava que eu punha cinco lá dentro e tirava cinco dentro da refinaria. Porque se eu mando um grupo de uma vez só, eles seguravam os dois grupos, descansava um e partia a refinaria. E o pessoal continuou. A rendição ia ser feita no sindicato. A rendição do grupo que passou no sindicato, que ia entrar às sete horas da manhã, ou oito horas da manhã, veio para o sindicato, e nós dispensamos o pessoal para ir para casa. Quando foi às três horas da tarde, isso já no dia 6, houve uma queda de tensão, coisa muito difícil de acontecer, combinado com a Paulista de Força e Luz, e o Caravante estava dentro da refinaria. “Jacó, caiu a refinaria, o que é que faz?” “Segura.” E todo pessoal pegou e fez a refinaria partir novamente, não deixaram cair a refinaria com a queda de tensão. Vinte minutos depois veio ordem para paralisar a refinaria. Deles. Não foi uma ordem nossa, foi deles; eles paralisaram a refinaria.

Nós queríamos ter o poder, o controle da produção, isso é que nos interessava, não interessava parar a refinaria. E o poder nós obtivemos. Tanto é que nós obtivemos, que eles tiveram que paralisar a refinaria. E tiveram que usar um subterfúgio para paralisar a refinaria, que era a queda de tensão da Paulista de Força e Luz: “Ah, caiu por uma queda” E a palavra de ordem que nós demos lá dentro: “Não, segura a refinaria”. Nesse dia mesmo já houve a intervenção no sindicato, à noite houve a intervenção, chegou o interventor. E a partir dessa data nós começamos a comandar o processo fora do sindicato, o sindicato estava com interventor. Foi aí que saíram aquelas fotografias que você viu lá no Teatro de Arena, depois no Parque Taquaral.

A greve durou seis dias. E eu pedia para o movimento sindical decretar a greve para o dia 15. Aí o movimento sindical decretou a greve geral para o dia 21. Ninguém agüenta uma refinaria paralisada mais do que 10 dias. Aí paralisou a de Mataripe.

As duas refinarias que paralisaram. Outras decretaram a paralisação, mas recuaram. Houve muito recuo das refinarias que decretaram. Naquelas pastas que vocês vão ver depois, eu não tenho toda lembrança, mas você tem todas as informações, todos os detalhes. E eu achei que foi um erro decretar a greve geral para o dia 21. E a greve tinha um cunho político, claro. A campanha das Diretas, essa coisa todo, esse troço todo, tinha um cunho político. Evidentemente que não se admitia isso na época, de jeito nenhum. O pessoal da refinaria ganhando o que ganhava, tendo a quantidade de salário que ganhava, fazendo uma greve para manter uma mesma rotatividade. Era para desafiar mesmo, era um pouco de.... pôr a liderança para fora, porque aproveitava o momento... Eu considero que foram os grandes movimentos do ABC que aceleraram o processo de abertura no Brasil, a luta dos trabalhadores. Depois a elite política puxou para si. Mas essa é que é a verdade, essa é que é a verdade. Aí imediatamente se abriu um inquérito para apurar justa causa, afastou os 24 diretores. Os 24 diretores foram afastados com processo de justa causa. E nós criamos uma Associação dos Demitidos e um Centro de Estudos para dar um pouco de sustentação à estrutura que passava por fora do sindicato.

Não teve mobilização dentro da refinaria, o pessoal estava fora, estava fora, quase todo o pessoal. Você vê, pela quantidade de gente que você tem ali e pelo número de pessoas que trabalham numa refinaria, aí a grande parte que estava ali é a parte da operação, não é a parte da administração. Mas começou uma guerra pela imprensa. A Rádio Bandeirante foi obrigada a sair do ar por uma entrevista que eu dei. Quer dizer, só se noticiavam coisas que o Shigeaki Ueki falava. A mobilização era o dia-a-dia. A gente se reunia, eu dava as palavras de ordem, essa coisa toda, e saía fora, porque senão me prendiam. A primeira noite eu não dormi em casa, a primeira noite andaram me procurando, mas eu fui dormir no melhor hotel de Campinas e lá não me procuraram. Naquela época era o melhor hotel, o Vila Nova.

Em Campinas a gente se reunia no Teatro de Arena. Depois, quando nós passamos para o Ginásio Taquaral, as pessoas... porque a pressão era muito grande, a pressão era na família, entende? Telegramas, comunicados. Forjaram passar vapor por uma torre, foram lá filmar para dizer que a refinaria estava partindo, entende? Não estava, a gente tinha todo o controle da refinaria. E tem mais: a greve acabou numa assembléia, não se esvaziou a greve, a greve acabou numa assembléia.

Aquela fotografia com todo mundo dando as mãos, e que o Caravante está com cara de choro, se você observar bem você verifica isso. E terminou. E aí continuou o processo de luta. 

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