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História

Pobre do Seu Mazhar

História de: Lindinalva Felismina Vaz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/12/2012

Sinopse

Identificação, cotidiano em Pedra. A mudança para a cidade e o início de trabalho no comércio. O período na roça, as dificuldades para as compras e o longo percurso transposto a pé. Decisão de migrar para São Paulo. O processo de chegada à cidade grande e o de conseguir trabalho. A atuação no ramo de comércio de loja de rua e vestuário. As mudanças que orquestrou na loja, as transformações no bairro da Penha e a configuração de uma rua das noivas: a Padre João.

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História completa

“Quando morava no sítio, eu era um bicho do mato. Você não via ninguém, não conversava com pessoas diferentes. Então uma vez, quando eu tinha 11 anos, uma conhecida nossa falou que precisava de alguém para ficar brincando com a filhinha dela na cidade. Nessa altura, eu já estava querendo sair dali. E eu sou assim: quando eu quero uma coisa, eu fico insistindo, insistindo, insistindo... Eu fiquei atormentando minha família até eles me deixarem ir. Lá na cidade de Pedra foi que eu tive meu primeiro contato com o comércio e comecei a trabalhar numa loja. Aí, com o tempo, começou a formar a ideia de vir para São Paulo. Eu vim primeiro para Itaquaquecetuba e batalhei para conseguir emprego. O problema é que eu não tinha registro e ninguém queria me dar uma chance. Trabalhei um tempo em São Miguel e depois fui para a Penha. A Penha era o forte. Aí fui à loja do Senhor Mazhar Haddad, porque tinha lá uma plaquinha e estava precisando de vendedora. A Sueli, que trabalhava lá, gostou de mim, mas o Senhor Mazhar não. A Sueli estava falando comigo e ele falava por trás, fazia assim que não era para aceitar. Mas a Sueli teimou: ‘Eu gostei da moça.’ Tanto teimou que eu fui contratada e estou lá há mais de 20 anos. A Penha era forte, mas, depois que abriu o shopping, o movimento diminuiu. E aí você tem que se adaptar, porque comércio é assim: às vezes você tem uma mercadoria e a procura é outra. Aí um dia, conversando com meu patrão, eu falei:‘Senhor Mazhar,não pode continuar desse jeito.’ Ele sempre teve medo de mudanças; ele não queria sair daquele ramo, porque vinha da mãe, da avó. Mas eu fui falando, falando até que ele perguntou o que podia ser. Eu falei: ‘Vamos colocar enxoval de bebê.’ ‘Mas eu não quero sair do uniforme.’ ‘Continua com uniforme e enxoval de bebê. Tem que tiraré a moda adulto que não vende nada.’Depois de muito custo, ele aceitou, e nós começamos forte com enxoval de bebê. Vendeu bem; foram uns cinco anos bons mesmo. Só que aí abriu muita loja de bebê na Penha e a gente caiu. ‘Precisamos fazer alguma coisa, Senhor Mazhar.’E ele: ‘Não vem com ideia, porque jáperdeu aquela característica familiar da Casa da Sogra.’Ele queria continuar com aquela lojinha pacata de 1900 e bolinha. Aí, o que aconteceu? Eu teimei: ‘Vamos pôr moda infanto-juvenil, Senhor Mazhar.’ Com muito sacrifício ele concordou. Colocamos, deu certo. Vendeu bem, mas o movimento teve uma queda geral. Um pouco por causado shopping, mas também porque os bairros próximos foram montando seu próprio comércio: Tatuapé, Ponte Rasa, Ermelino Matarazzo; até Cangaíba já tem alguma coisa. Então ficou difícil e aí eu de novo: ‘Senhor Mazhar, precisa fazer alguma coisa.’Ele falou: ‘Ah, nem inventa!’, ‘Mas a loja está feia, está velha!’Para o homem aceitar a reforma foi uma briga, viu? Mas no fim fez. Reformou a loja, tudo, e ainda teve outra mudança, porque as pessoas sempre falavam: ‘Você não aluga vestidinho para batizado?’ Eu falava: ‘Não, meu anjo, só vendemos.’ Aí, de tanto ouvir isso, lá fui eu falar com o homem de novo: ‘Senhor Mazhar, tive uma ideia.’ E ele: ‘Não abra a boca. Não fala nada que eu não quero escutar!’Eu falei: ‘Vamos alugar roupas?’E ele: ‘Não, depois a pessoa não devolve, é um problema.’ Nisso eu fiquei dois anos atormentando. Hoje o forte da loja é o aluguel. É uma das lojas que mais aluga vestido de daminha e noivinha da Padre João. Nós temos modelos diferentes, não é igual às outras lojas. Parece que o Senhor Mazhar está gostando.”

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