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"Pô, cadê São Paulo?"

História de: Luiz Marinho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2005

Sinopse

Luiz chegou em São Paulo, vindo do interior com a família, e foi morar no Parque São Rafael, na periferia da zona leste. Em vez de encontrar a pujança da metrópole, com prédios, asfalto e carros, assustou-se com as ruas cheias de lama e buracos. As coisas começaram a melhorar quando passou a trabalhar na Volkswagen, tornando-se metalúrgico. Mas ele não sabia ainda que iria se envolver com o Sindicato dos Metalúrgicos a ponto de participar de greves e se tornar diretor no futuro.  

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História completa

P/1 – Marinho, a gente queria começar a entrevista perguntando para você seu nome completo, local e data do seu nascimento.

 

R – Luiz Marinho. Nasci no dia vinte de maio de 59 na cidade [de] Cosmorama, São Paulo.

 

P/1 – E qual o nome dos seus pais?

 

R – Lourenço Marinho e Massimina da Silva Marinho.

 

P/1 – Eles também são nascidos na mesma cidade? 

 

R – Eles nasceram no Estado de São Paulo. A cidade e data eu não saberia neste exato momento, posso até pesquisar.

 

P/1 – E Marinho, você sabe a origem da sua família?

 

R – Meu pai é de origem italiana. Acho que os avós dele, se não me engano, vieram da Itália. A minha mãe eu não consegui exatamente saber da origem, mas eu acho que ela tem, talvez os bisavós… Talvez sejam descendentes, tenham alguma ascendência de índio.

 

P/1 – E você chegou a conviver com algum dos seus avós?

 

R – Muito pouco. Era muito pequeno, tive uma convivência com a mãe do meu pai. E a mãe da minha mãe também - um pouco à distância, na medida que ela morava em Rio Preto [e] nós morávamos bem no interior do estado. Pouco contato. 

 

P/1 – E na sua casa são quantos filhos? 

 

R – Nós somos em quatorze irmãos, dez homens e quatro mulheres. 

 

P/1 – E qual é você? A sua numeração?

 

R – Eu sou o décimo. Depois de mim tem quatro, dois homens e duas mulheres. 

 

P/1 – E vocês moravam onde? Era sítio, era na cidade? 

 

R – Nasci em Cosmorama, depois nos mudamos por torno de um ano, um ano e pouco para a cidade de Santa Fé do Sul. Eu nem me lembro desta passagem, era muito criança, muito pequeno, bebê. Eu me lembro a partir de um sítio num lugar chamado Aparecida do Bonito; na verdade, é um município de Santa Rita do Oeste. Foi onde eu cresci. Eu me senti andando, correndo, crescendo, na escola, essas coisas, quando garoto. Indo pra roça a partir dos sete anos, essas coisas todas. 

Nasci em Cosmorama, mas praticamente não tenho nenhuma referência da cidade, a não ser saber que nasci lá. Cresci mesmo na cidade de Santa Rita do Oeste, que é uma cidade bem próxima da divisa de Mato Grosso e da divisa de Minas.

 

P/2 – Como era a casa na sua infância?

 

R – A a primeira casa era uma casa bastante simples. Na verdade, [era] uma casa de barro. E onde tinha a chamada “chupança”, o bicho de Chagas. Nós moramos talvez pouco tempo, em torno de um ano e pouco nesta casa, até construir uma casa no sítio que o meu pai havia comprado. Mas comprado meio na faixa, porque ele tinha torrado praticamente o dinheiro da venda do sítio que ele vendeu quando ficou na cidade de Santa Fé. E acabou gastando aquela grana toda ali. 

Ele comprou esse sítio, eram sete alqueires e 3/4. Na verdade ele teve muita sorte, as primeiras colheitas foram muito boas, praticamente pagaram tudo. Nós passamos um período de crescimento, de aquisição de terras, até entrar num período de decadência posterior e ir para São Paulo.

 

P/2 – Toda sua família trabalhava no sítio?

 

R – Todos nós trabalhávamos. Era uma molecada danada, quatorze pessoas - dez homens e quatro mulheres. Até que começaram os casamentos, aí as pessoas, os irmãos mais velhos casavam e se separavam da… Iam cuidar da vida. Na verdade, nós… O primeiro filho mais velho é um irmão, depois tem uma mulher, um homem, uma mulher, aí nove homens, e as outras duas meninas no final. 

 

P/2 – Nessa casa de barro morava, dormia todo mundo ali? 

 

R – Não tinha todos ainda. Eu era o mais novo, era o bebê, então faltavam quatro. Na medida que foram casando, [se] casaram as duas meninas, [elas] saíram de casa. Depois casou meu irmão mais velho, que ficou um período e depois veio pra São Paulo. Veio [e] entrou na Rhodia. 

Ele influenciou muito na vinda nossa pra cidade, pra São Paulo, senão talvez nós estaríamos por lá ainda, ou em outro lugar. Porque quando meu pai quis vir pra São Paulo a molecada não queria. Nós não queríamos vir pra cidade, fazer o que em São Paulo? Nós defendíamos a ideia de ir pra Mato Grosso, se era pra sair de lá, [já] que estava meio saturado com o local, mas: “Vamos pra Mato Grosso, não São Paulo. Fazer o quê em São Paulo?”       

 

P/2 – Lá plantava o quê? 

 

R – Nós plantávamos… Inicialmente, quando meu pai comprou esse sítio de sete alqueires, ele tinha bastante café, mas um café decadente. Ele mandou derrubar tudo e plantou algodão de cima a baixo. Foi o que, na verdade, acabou pagando o sítio, porque foi uma colheita boa e um preço bom, aquelas coisas. Mas plantávamos algodão, [no] outro ano plantávamos amendoim, [no] outro ano plantávamos milho. Teve ano que nós plantamos milho e mamona de cima a baixo, só o pedaço de arroz para o gasto, mas o resto foi milho e mamona, então diversificava. Dependendo pra onde... Às vezes, sem muito planejamento, mas na base do palpite, não tinha muita orientação naquela época.  

 

P/2 – E você chegou a trabalhar na roça? Como é que era?

 

R – Eu trabalhei na roça a partir dos sete anos de idade. Ia à escola de manhã ou à tarde e o restante do período ia pra roça, não tinha muita moleza naquela época, né? Você nem aguentava com o peso da enxada, mas tinha que ir pra roça. Esse era o costume natural das famílias que trabalhavam no campo.

 

P/2 – O que você fazia durante o dia? Que era esse trabalhar na roça, o que você fazia?

 

R – Trabalhar é carpir, esteira. Na verdade, era somente isso. Na época que você plantava o milho ou o… Especialmente o milho e o algodão, chama-se ralhear. Você planta e tem que arrancar os menores, deixar os espaços para que ele cresça adequadamente na hora da colheita ou na hora de limpar a roça. Disso tudo a gente participava. Só não trabalhava com animal; os menorzinhos não trabalhavam com animal, só a partir de uma determinada idade.

 

P/2 – E brincar? 

 

R – Para quê brincar? (risos)

 

P/2 – Não brincava?

 

R – Brincar era de domingo, né? Domingo estava liberado pra brincadeira. A depender do período do ano, porque se tivesse trabalho atrasado teria que trabalhar o domingo até a hora do almoço, pra dar conta da roça. Mas brincar era um mero detalhe. 

 

P/2 – Você não se lembra de nenhuma brincadeira que você gostava?

 

R – Não. 

 

P/2 – Nadar no rio, não tinha rio pra nadar?

 

R – Tinha. Minhas brincadeiras eram nadar no rio ou brincar de esconder, jogar bola, a molecada gostava muito de jogar bola. Tinha um terreiro muito grande [na] frente da casa. O jogo de bola era com bola de meia, não bola... O dia que o pai comprou uma bola de verdade foi uma festa danada. Dia de Natal, não me lembro [em] qual ano foi isso.

 

P/2 – Você se lembra de algum fato nesse período que marcou sua vida, que tenha recordação?

 

R – Não. Nada de muito especial.

 

P/2 – Como era a relação com seu pai e sua mãe? Como era essa relação da família?

 

R – Era uma relação bastante razoável. O pai era uma pessoa muito severa e os irmãos mais velhos também eram muito severos - severos na responsabilidade, nas tarefas que eram distribuídas, seguidas à risca. O meu pai, num determinado período, deixou de ir pra roça; ele somente cuidava das coisas, administrava, e a molecada que trabalhasse. Parece-me que nunca foi um forte dele gostar de trabalhar. Ele trabalhou muito, mas por um período muito curto, pelo histórico que se conta, ele próprio conta. Trabalhou muito, mas por um período pequeno, de ir pra roça, pegar no cabo da enxada. Segundo ele, antes do casamento ele praticamente não trabalhou e só foi trabalhar mesmo depois que se casou e deixou… Eu não me lembro de ter compartilhado com ele algum trabalho na roça. Quando eu me lembro de ir à roça, aos sete anos de idade, ele já não ia. Quem ia era a molecada.

 

P/2 – Sua mãe cuidava da casa?

 

R – Minha mãe cuidava da casa. Pelo fato das duas meninas mais velhas terem se casado cedo e separado da casa antes de ter as duas menores, ou por ser muito pequena, tinha alguns irmãos homens que ajudavam, compartilhavam o trabalho doméstico. Eu por alguns anos compartilhei esse trabalho, em especial aos sábados. Aos sábados, dois dos meninos não iam pra roça trabalhar, para ajudar a mãe limpar terreiro, limpar as louças, limpar a casa, deixar no jeito as coisas. Essas coisas de domésticos, que todo mundo sabe do que se trata.     

 

P/2 – Qual foi a igreja? Como foi a relação da sua família com outras, vizinhos? Como era ali o ambiente?

 

R – Você tinha isso em especial nas festas. [No] período de festa junina você tinha muita celebração, época das novenas, época das... Então você tinha nas várias casas, eventualmente, algum tipo de oração. Na época das festas juninas, fogueiras, a reza e a fogueira, um pouco de brincadeira, essas coisas todas. E no final de semana, eventualmente - na verdade, você tinha missa uma vez por mês lá mais próximo, então no dia da missa do mês o pessoal costumava ir, sim. O divertimento principal era o jogo de bola mesmo, era esse o divertimento principal da molecada. 

 

P/2 – Ainda sobre os seus pais: você sabe como eles se conheceram, como é que foi o processo de namoro, de casamento deles?  

 

R – Não sei, não sei muita coisa disso. Sei que minha mãe casou extremamente jovem, eu acho que aos quinze, dezesseis anos de idade, por aí. Mas não sei exatamente como se deu essa aproximação e o casamento. Não foi por… Como se diz no passado? 

 

P/2 – Indicação dos pais.

 

R – Parece que não, não foi um casamento prometido pelos pais. Pelo menos parece, que eu tenha conhecimento não foi.

 

P/2 – O que vocês comiam lá? Como era a alimentação, era coisa só que vocês plantavam, tinha pela cidade?

 

R – Teve vários momentos. Tanto meu pai como minha mãe contam que teve um período da vida deles, período de racionamento de alimentos, que foi muito duro. Um período muito difícil pós-casamento, crianças pequenas, doenças na família. Mas eu não convivi, não compartilhei isso, então [é] difícil falar. Dizem que foi muito difícil. 

Do que eu me lembro quando criança não foram momentos de dificuldades extremas, nunca faltou alimento em casa. Nós tínhamos o básico, era colhido na roça, então milho… O café se comprava, mas nunca teve problema. Você tinha as misturas que se colhia também: mandioca ou abóbora, quiabo, verdura, essas coisas. E frango, que nunca faltou. Na verdade, eram as misturas básicas, porco... Carne de vaca era menos, mas também existia. Na verdade, a gente comia pouca carne, comia mais produtos colhidos na lavoura mesmo.

 

P/2 – Você conheceu eletricidade lá ou na cidade? 

 

R – Não, conhecemos ali, no ano de… Acho que no final dos anos 60, talvez, início dos anos 70.

 

P/2 – Antes era...?

 

R – Antes era na base da lamparina, como diziam, lamparina na base da querosene. Nós tivemos nesse sítio de sete alqueires, instalaram energia, aí nós vendemos esse sítio e fomos morar num sítio de vinte alqueires, onde não tinha eletricidade - aliás, nós saímos de lá e ainda não tinha eletricidade. Ou já tinha? Não sei, não me lembro direito. Mas nós montamos luz na base do gás.

 

P/2 – E a escola, como era?

  

R – A escola era… Tinha que se andar sete quilômetros para chegar à escola. A gente fazia isso a pé até a 4ª série; da 4ª série até a 8a ia de ônibus. No ginásio estudava à noite, então trabalhava o dia todo na roça, depois andava um quilômetro... Em torno de dois quilômetros para pegar o ônibus e ir até a cidade para fazer o ginásio.

 

P/2 – A escola primária, como ela era? Como é que você se lembra das professoras...?

 

P/3 – Quando você entrou, Marinho, na escola primária?

 

R – Escola primária? Entrei na idade normal. Eu reprovei o 1o ano na escola primária e reprovei o 1o ano no ginásio - parece que era de praxe reprovar o 1o ano. Mas era uma escola normal, como... Era uma escola até razoável.

 

P/2 – Era um sítio?

 

R – Era nessa vila, chamada Aparecida do Bonito. A escola não existe mais, já fechou, mas era uma escola razoavelmente grande. É que diminuiu muito a população que tinha lá, hoje muito menor, porque os pequenos sítios viraram todos fazendas, diminuiu muito a população do local e praticamente… Me parece que não tem mais essa escola lá, mas era uma escola razoavelmente grande. Eu acho que era uma escola razoável, até.

 

P/2 – Você fez o 4o ano, aí foi para o ginásio à noite? Em que local era?

 

R – Na cidade de Santa Rita do Oeste, que era o município-sede. 

 

P/2 – Aí você voltava pra casa...

 

R – Aparecida do Bonito pertencia à Santa Rita, mas era um… Você tinha várias vilas: Aparecida do Bonito, Aspásia, Santa Albertina, várias.

 

P/2 – Chegava à noite,  a que horas em casa?

 

R – Chegava em casa a uma hora da manhã para estar às sete de pé. Era essa a rotina.

 

P/2 – Você fez até...?

 

R – Eu fiz até a 7ª série lá, porque em 75 nós viemos pra São Paulo. A família veio no mês de julho e eu fiquei até o final do ano, para terminar a 7a série.

 

P/2 – Quantos anos você tinha, quando veio pra São Paulo?

 

R – [Em] 75, dezesseis.

 

P/2 – Uma parte da adolescência então você ficou lá? O que você fazia nesse período de adolescência? Você saía, se divertia, como é que era?

 

R – Não, você trabalhava de dia, estudava à noite e de domingo ia jogar bola. Eventualmente, à noite ia pra essa cidade de Santa Rita d’Oeste fazer o footing, andar na praça, paquerar as meninas. Coisa de adolescente do interior antigo, hoje não sei como se… (risos)

 

P/2 – Conseguiu alguma namorada nesse período?  

R – Sim, claro, algumas.

 

P/2 – Você se lembra assim de alguma que marcou?

 

R – (risos) Não, duas que me lembro. Uma era vizinha de sítio, outra era mais distante, em períodos diferentes. 

 

P/2 – E como era o namoro? Como é que se namorava?

 

R – O namoro? Não era avançado como o de hoje, mas era um namoro razoável. (risos)

 

P/1 – E quando seu pai resolve vir a São Paulo, por que vir para São Paulo?

 

R – O meu irmão estava já há alguns anos em São Paulo. Estava razoavelmente bem, trabalhava na Rhodia e sempre que ia pro interior e meu pai vinha pra São Paulo ele insistia na ideia: “Pô, tira os meninos da roça! [É] muito sofrimento, trabalham demais. Vamos pra São Paulo, vamos arrumar serviço lá!” E o meu pai colocou na cabeça que deveria vir. 

Mas ele, nós chegamos… Eu disse que tinha aquele sítio de sete alqueires; ele adquiriu outro, de nove alqueires, num lugar chamado Fazenda Boa Vista. Era uma grande fazenda que se transformou em vários sítios. Nesse lugar tinha, era um lugarejo; tinha lá a igreja, venda, os bares, campo de futebol, essas coisas; até o campo de futebol era dentro do nosso sítio. Comprou um outro sítio de vinte alqueires, então nós tínhamos trinta, soma dos três aí. Nesse de vinte alqueires a terra era muito boa; nesse de nove a terra não era lá grande coisa, era mais pra pasto; tanto o de vinte como o de nove não tinham escritura, era uma terra ainda irregular e somente o de sete alqueires é que tinha tudo regularizado. 

Nesse período ele acabou fazendo… Se endividando no banco e precisava vender um pedaço de um dos sítios para colocar as contas em dia. Bom, o meu pai queria vender justamente o sítio de sete alqueires, onde a gente morava e onde começou praticamente e queria mudar para a vilinha lá no de sete alqueires que dos três era a pior terra que tinha. 

A minha mãe não queria de jeito nenhum ir pra esse lugar, primeiro porque ela desconfiava que ele tinha um caso lá nesse lugarejo, nessa vila. E ele se comprometeu [que] se vendesse o sítio de sete alqueires iria morar no de vinte alqueire. A minha mãe acabou concordando e vendendo o sítio de sete porque, a princípio, tanto a mãe como a molecada queriam que vendesse o de nove - não por conta do caso que eventualmente ele tinha, que eu não sei se é verdade, se não é, até hoje, mas porque era a pior terra que tinha nos três, a que menos agregava valor. Mas acabou vendendo o sítio de sete alqueires. 

Pra você vender uma terra totalmente regularizada e uma terra que não está regularizada você tem dificuldade também.  A mãe concordou em vender, mas com a condição de morar nesse sítio de vinte alqueires; depois de vendido ele impôs a condição, porque teria que fazer a casa no outro sítio, de ir pra lá pra (risos) esse sítio de nove alqueires. 

Bom, as coisas não entraram totalmente no eixo. E depois, acho que de dois anos, ia sair as escrituras das terras, mas a gente ainda [estava] numa condição meia complicada no banco, não estavam totalmente sanados os problemas. O que é normal, qualquer cidadão faria: vende o sítio de nove alqueires, fica com o de vinte - aliás, é onde a gente tinha praticamente o sustento, onde tinha as roças com qualidade. Mas ele estava... Queria vender o de vinte alqueires e ficar com o de nove. Bom, aí a molecada se rebelou toda e ninguém aceitou. Foi o momento mais complicado na relação da família, acho que foi esse momento. 

Ele acabou se curvando, vendendo esse sítio de nove alqueires. Tirou a documentação do outro sítio, botou as coisas mais ou menos em dia e nós fomos para lá. Nós tocávamos esse sítio de vinte alqueires, ainda arrendávamos um pedaço de terra fora, porque era uma molecada danada, todos bons de trabalho.

Nesse momento a gente já tinha trator, tinha uma condição razoável; tinha um pedaço do sítio que era pasto, então tudo com gado, tudo ocupado, usando menos mão de obra pra tocar um pedaço maior de terra, então tocávamos terra arrendada fora. 

E ele botou na cabeça que queria sair de lá. Tomava muita cachaça nesse momento, ao ponto de vizinhos nossos procurarem meu irmão mais velho pra dar um toque, dizendo o seguinte, chamando atenção: “Olha, vocês tem que tomar cuidado. Esses dias eu fui pagar uma conta pro seu pai porque ele tinha me emprestado um dinheiro, ele não se lembrava de que tinha me emprestado. Mas como eu sou honesto, não vou me aproveitar dessa situação, paguei. Quantos que eventualmente podem não estar pagando, né? Então vocês tem que tomar cuidado.” 

Foi um momento de muito conflito. Ele botou na cabeça que ali não dava mais, queria sair, queria vir pra São Paulo. Nós, a molecada, não queríamos de jeito nenhum: “Se for pra ir pra… Querem sair daqui, então podemos sair, mas vamos pra Mato Grosso, porque em São Paulo muito provavelmente o senhor não vai se acostumar.” Ele dizia que nós estávamos com medo. “Não, nós somos jovens, a gente se adapta em qualquer lugar, inclusive em São Paulo” - apesar de, a princípio, ser totalmente diferente, não ser o que a gente está acostumado, não querer. Mas ele insistiu, nós viemos pra São Paulo. 

Foi quando eu fiquei terminando o ano de escola e a família veio. Nós vendemos o sítio, inclusive vendemos o sítio num período crítico. O Geisel era o Presidente da República, tinha feito desvalorização das terras, tinha desvalorizado a moeda, essas coisas todas. Nosso sítio era cobiçado pelos fazendeiros ali e eu me lembro que dois anos antes eles tinham feito uma oferta; mesmo a gente não vendendo eles ofertaram valor de… Nem me lembro qual é a moeda da época, mas valor de quatrocentos mil à vista. Nós vendemos em 75 pelos mesmos quatrocentos mil à prazo, pra ver a ideia do que aconteceu aí nesse período. Foi o momento, o ano que teve aquela grande geada, seguida de seca e com o gado perdendo, tendo problema porque ninguém queria comprar pasto pra botar gado, então ele estava bastante desvalorizado. Mesmo assim, vendemos o sítio. 

[Com] a parte que ele recebeu ele comprou um mercadinho no Parque São Rafael, que tem até hoje; e [com] a outra parte que recebeu depois comprou 25 alqueires em Figueirópolis, no Mato Grosso. E viemos pra cá. Não deu três meses que estava aqui ele não aguentava mais ficar aqui na cidade e queria voltar pra roça, queria porque queria. Aí todos os meus irmãos falaram: “Não. Nós estávamos lá, falávamos que topávamos ir pro Mato Grosso, tínhamos trator, tínhamos uma tropa de burro boa. O senhor quis vir pra cá. Agora nós vamos para Mato Grosso derrubar pau a machado? Não vamos, vamos ficar por aqui mesmo. Se o senhor quiser, vai.” Ele falava: “Eu vou com a Maximina”, que é a minha mãe. Minha mãe falou: “Eu não, você quer ir? Vai sozinho, vou ficar com os meninos.” Ele de raiva foi lá e vendeu os 25 alqueires que tinha em Mato Grosso. (risos)  Rompeu totalmente a relação com a roça e se aquietou. 

Foi um período que ele voltou a beber muito, aí teve um pré-infarto e depois parou, se acalmou e se transformou num outro homem, inclusive. Muito mais calmo, muito menos… Ele era uma pessoa muito rígida e mudou totalmente o comportamento. Quem conhece hoje e vê o relato de quem ele era, com rigidez com as crianças… Hoje os netos deitam e rolam; é uma outra pessoa, totalmente diferente.

 

P/3 – E ele continua com o mercado? 

 

R – É, tem dois irmãos que tocam. Ele está só cuidando.

 

P/2 – Você trabalhou no mercadinho também?

 

R – Trabalhei dois anos. Trabalhei em 76, setenta e… Dois anos e pouco, até entrar na Volkswagen, em 78.

 

P/3 – Você chegou aqui em São Paulo, você passou a fazer o quê? Você estava no mercadinho...

 

R – Fui trabalhar no mercadinho, trabalhei lá até 78.

 

P/3 – E o que você fazia além de trabalhar?

 

R – Aí nós nos demos conta, bom, não dava pra ficar, estávamos em quatro no mercadinho; não tem condições, o máximo tem que ficar dois aqui, os outros tem que trabalhar. Tinha o meu irmão mais novo que ficou trabalhando, ficou ajudando lá até completar a idade para ir cuidar da vida também, eu e o meu irmão que é dois anos mais velho que eu ficamos discutindo: “Bom, quem vai procurar trampo fora?”. Bom, ele quer ir, eu falei “não, de jeito nenhum”. Aí fui aventurar aí, procurar trampo, acabei caindo na Volkswagen.

 

P/3 – Nesse tempo, o que você fazia? Você se divertia, ia em baile? 

 

R – Foi um período de adaptação. De transição do interior para a cidade, para a periferia da cidade de São Paulo, então eu trabalhava - o mesmo esquema: trabalhava de dia no mercado, estudava à noite e eventualmente tinha os bailes. Tinha um salão de baile lá no bairro, então eventualmente, aos sábados à noite ou domingos, ia para esse bailinho. Na verdade, neste período acho… Não sei se [foi] antes de entrar na Volkswagen, mas eu iniciei uma militância na Igreja, mais na Pastoral Operária que qualquer outra coisa. Vem daí o processo de formação política, mesmo antes do sindicato.

 

P/2 – Qual igreja era?

 

R – Igreja de São Marcos, no Parque São Rafael.

 

P/3 – Você tinha amigos? Como foi essa adaptação que você falou que fez, de vir do interior pra São Paulo? Você tinha amigos, tinha um círculo de amizades, como era isso?

 

R – Foi tranquilo, apesar do choque. 

Quando eu cheguei aqui, no dia 25 de dezembro de 75, na Luz estava chovendo. Fazia uma imagem de São Paulo e cheguei de trem na Luz - não sei se foi na Luz ou se foi em Santo André, não lembro, acho que na Luz. Bom, quando chego no Parque, viemos de trem da Luz até Santo André e de ônibus, de Santo André até o Parque São Rafael. 

Chegamos de ônibus, [estava] chovendo. Na verdade só tinha asfalto na avenida no [Parque São] Rafael, o resto era uma barrão danado. Eu jamais imaginava que o São Paulo que eu iria morar era um buraqueiro danado, um barro danado. (risos) Foi um choque a primeira vez: “Pô, mas cadê São Paulo? Eu ia morar em São Paulo...” Pensei que os prédios, tal, asfalto... (risos) Um barro danado, um choque. Uma certa decepção com o tal do São Paulo que a gente deveria morar.

 

P/1 – Por que seu pai escolheu esse bairro? Seu irmão morava nesse bairro? Como é que é, por que vocês vieram especificamente para este bairro?

 

R – Meu irmão morava no Jardim Ana Maria, em Santo André. O bairro foi por conta do negócio, ao comprar o mercadinho no Parque São Rafael. 

 

P/3 – Você sempre trabalhava em função da família, seja na roça, seja no mercadinho. Você tinha algum ganho seu, algum dinheiro que era passado pra você?

 

R – (risos) Não, isso nunca. Essa relação nunca existiu...

 

P/3 – E como você fazia pra ganhar o seu trocadinho, pra ir ao cinema lá?

 

R – Bom, lá não tinha cinema, na roça não tinha cinema. O trocadinho quem garantia era a minha mãe, lá no interior, com a venda dos ovos, das galinhas e com a venda dos frangos. Ela sempre criou muita galinha e muito frango; ela vendia os ovos e os frangos pra comprar alguma coisa e pra dar pra molecada, porque meu pai nunca falou: “Você precisa de uma moeda pra comprar alguma coisa?” Nunca teve isso. Aqui, como éramos nós que tocávamos o mercado, então... Mas nunca teve a relação de salário, de ganho mesmo, essas coisas nunca existiram.

 

P/3 – Como vocês faziam?

 

R – Eventualmente, a gente sempre foi… Aprendemos esse negócio da economia, da responsabilidade. 

O cinema não foi nesse período. Ia ao cinema depois que eu estava na Volkswagen, a gente não... Pra ir, por exemplo, no baile [no] sábado ou domingo a gente pegava lá… Não me lembro qual valor, mas tinha uma mixaria lá, suficiente pra tomar uma cerveja. 

 

P/3 – Qual tipo de música você gostava? Como eram essas coisas de jovem? O que você gostava de dançar, de ouvir?

 

R – Na roça não tinha outra música, a não ser o forró tradicional. Aqui a juventude tem muita facilidade para se adaptar ao que está no momento, então você tinha desde a discothéque às músicas lentas, chamadas...

 

P/3 – E o Santos?

 

R – O Santos? Sabe que eu não sei, Bargas? Por que o meu time é o Santos? 

Na verdade, acho que por influência dos irmãos mais velhos e talvez pelo momento [em que] o Santos esteve na crista da onda. Os jogos lá chegavam via rádio e os comentaristas muito... Eu nem ouvia, nunca gostei de ouvir o jogo por rádio, acho isso meio esquisito, mas meus irmãos mais velhos ouviam muito os jogos – Santos e Palmeiras, Santos e Corinthians, Santos e São Paulo… E eram todos santistas, [foi] um pouco no barulho dos irmãos mais velhos.

 

P/2 – Nesse período, você tinha...

 

R – Na verdade, os dez homens são santistas, todos os dez. As menina não ligam muito, os homens todos viraram santistas. E meu pai não torce pra ninguém. Eu acho que ele é meio corintiano disfarçado, mas diz que não torce pra ninguém. 

 

P/2 – O Santos é um bom time. 

 

R – Com certeza vai voltar a ser. Por enquanto, está meio esquisito.

 

P/2 – Sim. Em relação à política nacional, você se preocupava com a política do país nessa época, você lia o jornal, como era isso?

R – Onde?

 

P/2 – Aqui em São Paulo, quando chegou aqui.

 

R – [Em] São Paulo, na medida em que a gente foi militar na Igreja aí começa, né? Tem alguns textos de leitura. Eu me lembro do Jornal da Diocese de São Paulo, O Estado de São Paulo, O São Paulo. Na verdade, uma das minhas militâncias foi propagandear esse jornal na fábrica, no bairro, adquirir, convencer pessoas a fazer assinatura, ajudava no processo de entrega no bairro de São Paulo. E, em especial, a partir desse grupo de reflexão a gente começava a discutir as questões nacionais, adquirir alguns livros de leitura, como um livro que eu nem me lembro quem é o autor, [se] chamava “O ABC do entreguismo”. Era um livro muito interessante que eu li na época. A gente começava a discutir um pouco essa questão, mas antes disso, na roça, sequer chegava noticiário do que estava acontecendo no país. 

 

P/2 – Como é que você foi até a Igreja? O que levou você até a PO, ou até participar da Igreja, antes de mais nada?

 

R – O meu irmão Brás veio pra São Paulo um pouco antes de nós, antes da família, e ele estava militando na Igreja um pouco antes. Ele acabou convidando pra ir e eu acabei indo e gostando, participando desse processo. Na verdade, foi um convite do meu irmão.

 

P/3 – E onde você… Nesse tempo você já estava namorando aqui em São Paulo, arrumou uma namorada ou não?

 

R – Não, era uns namoricos na escola, nada muito sério.

 

P/3 – E a sua ex-esposa, você começou a namorar onde?

 

R – Eu a conheci na Igreja, como muitos, e acabamos casando. 

 

P/3 – Você namorou e casou rápido? Como é que foi?

 

R – Namoramos, não me lembro exatamente quantos anos, mas namoramos um bom tempo antes de casar. 

P/3 – E a família veio de onde? Ela também veio de lá do... 

 

R – A família dela é lá do Paraná. Não me lembro exatamente o nome da cidade do Paraná, mas veio do Paraná.

 

P/3 – Também tinha origem camponesa?

 

R – Sim, também era do campo, e era acho que mais ou menos na mesma época que nós, talvez um pouco antes. 

 

P/3 – Você tinha quantos anos quando se casou com ela?

 

R – O ano passa tão depressa que a gente até perde referência. Muitas vezes, tem que lembrar mais ou menos o ano e fazer as contas de quantos anos tinha. Eu casei em 81, isso foi… Acho que namoramos uns dois anos e pouco.

 

P/2 – Então você já estava na Volkswagen?

 

R – Sim.

 

P/2 – Quando você entrou você estava solteiro?

 

R – Sim, entrei em três de julho de 78; fui casar em 81.

 

P/2 – Você ficou casado quanto tempo?

 

R – Fui casado até 89.

P/2 – Oito anos de casado. Aí não deu certo, separou; teve quantos filhos?

 

R – Dois, um casal.

 

P/2 – Qual o nome dele?

 

R – Marcos e Heloísa. Marcos é de 83 e a Heloísa, de 88.

 

P/2 – E a sua esposa o nome era?

 

R – Yolanda.

 

P/3 – Como é que foi a entrada na Volkswagen?

 

R – Eu estava procurando serviço, A Volkswagen nunca tinha me passado pela cabeça; fui algumas vezes à GM, algumas vezes à Mercedes, em outras empresas... E um dia um vizinho meu lá: “Vamos à Volkswagen?” “Vamos.” 

Pegamos um monte, tinha… Acho que um monte de gente. Aquele riozinho, em frente ali à Volkswagen, tinha um cercadinho que eles botavam todo mundo dentro e [iam] perguntando por função. Primeiro eles pediram algumas funções: me lembro de eletricista, mecânico, essas coisas. “Quem tem experiência de “x” tempo de carteira pode ficar, com exceção de carteira branca o resto está dispensado.” Mas acho que eles estavam pedindo… No meu caso, acabei ficando porque eu tinha o ginásio. E fui contratado exatamente por ter o ginásio, em 78 já começavam, para algumas funções, exigir grau escolar, porque não estava muito claro ainda, pro sindicato, pra ninguém, né? 

Tinha uma função, para a qual fui contratado, que era desenvolvida por técnicos em laboratório. Eles tinham tirado e colocado trabalhador comum para manusear isso e parece que não tinha, que não estava dando muito certo por falta de instrução escolar. Aí eles contrataram uma quantidade de pessoas para fazer exatamente essa função que era… O nome técnico da função [era] “operador de equipamentos”;  na verdade, o conhecido, popular dentro da fábrica era “controlador de banho”. Antes do carro, da carroceria ou de uma peça ir para pintura ela passa por um processo de preparação antes. Você vem, eventualmente, na base com óleo ainda, então tem que lavar, precisa passar o desengraxante, que eles chamavam na época. O processo de lavagem, fosfatização, cristalização, antes de ir pro primeiro, para a pintura primer, aquela pintura de fundo. Eu controlava essa instalação: temperatura, qualidade do produto, então tinha que fazer a análise do produto. Por essas razões eles exigiam a formação escolar. 

 

P/3 – Isso que ano foi?

 

R – 78.

 

P/2 – Marinho, você veio da roça, trabalhou no mercadinho, entra na Volks. Qual a sua expectativa quando entrou na Volks, o que você pensou?

 

R – Nada. (risos)

 

P/3 – Não tinha nenhuma expectativa em relação à...

 

R – Não tinha muita expectativa. (risos) A expectativa era… Bom, nós precisamos buscar sustento pra sobrevivência, né? Você precisava ter um emprego que precisava transformar em salário, era essa a única coisa que estava colocada. Tinha nenhuma expectativa além do emprego em si, formal. 

 

P/3 – Você trabalhava em dois turnos ou um turno só?

 

R – Dois turnos. Naquela época a entrada era às cinco e meia da manhã, das cinco e meia às três e quinze e das quatro e quinze às duas e vinte da manhã. 

 

P/3 – Como era essa coisa de turno lá?

 

R – Era terrível, quinze dias num turno, quinze dias no outro. Isso era terrível.

P/3 – Quais eram os sintomas, o que tinha de pior nisso?

 

R – A falta de… Trabalhar de turno só quem trabalhou pra saber o que significa isso,  saber o que significa essa virada para o organismo. Quando levantava de… Entrar às cinco e meia não era o grande problema, mas entrar às quatro e quinze com o sol quente no rosto e sair às duas e vinte da manhã era bastante terrível. Depois mudou pra entrar às seis. Melhorou um pouquinho, meia hora de madrugada faz uma diferença danada; mas a mudança de turno, ela judia do corpo.

 

P/3 – E aí você trabalhou nesse departamento, nessa seção quanto tempo?

 

R – Trabalhei até 84, quando eu me afastei para a atividade sindical. Na verdade, teve um período que eu fui fazer o que eles chamavam lá de escrevente, que era trabalhar junto com a chefia pra fazer um certo… Fazer o apontamento do setor: controle, justificativa de pessoal, controle do primeiro cartão de ponta antes de ir pra ponta do livro, essas coisas.

 

P/2 – O que você fez com o seu primeiro salário da Volkswagen?

 

R – O que eu fiz com o primeiro salário?

 

P/2 – Lembra?

 

R – Era tão pouco. Era quatorze, acho que era quatorze… Como é que era mesmo? Nem me lembro mais dessas mudanças de moedas. Mas era muito pouco, não me lembro não.

 

P/3 – E o décimo-terceiro [salário]?

 

R – Também não, lembro não.

 

P/3 – E as férias?

R – [Nas] primeiras férias eu fui pro interior, rever os amigos. (risos)

 

P/1 – Marinho, na sua casa vocês recebiam salário, vocês ajudavam em casa ou o dinheiro era só pra vocês?

 

R – A gente ajudava. Nós fizemos um processo de poupança para investimento no mercado por um período, porque era alugado, aluguel de um cubículo, bem pequeno. Nesse processo, meu pai comprou um espaço, então hoje tem um espaço próprio.

 

P/1 – A casa que vocês moravam era de aluguel ou era própria?

 

R – Aqui? Inicialmente era de aluguel, porque meu pai comprou esse mercadinho – na verdade, só o ponto –, comprou uma casa de dois cômodos e tinha que aumentar. Enquanto não aumentou nós moramos numa casa de aluguel - que, aliás, antes de trabalhar no mercado fui ajudar exatamente a fazer a casa. Tinha um barranco deste tamanho pra tirar, cortar. Como eu estava acostumado não foi… Estava acostumado à enxada, aquilo lá foi ‘baba’. Se fosse hoje, o sofrimento seria grande. (risos)

 

P/1 – Nessa época quantos moravam ainda em casa, quantos filhos?

 

R – Ah, morava bastante gente. Acho [que] morávamos… Acho que tinha bem uns dez lá. Cida, Maria, o João, o Antônio e o José: nove. Tinham cinco casados, cinco fora. Aí foram esvaziando devagar, hoje só tem os velhos.

 

P/2 – Você estava na Volkswagen trabalhando. Quem é que teve a ideia de você se sindicalizar e fazer sua sindicalização? Como é que foi isso?

R – Ninguém. Na verdade, um dia eu fui ao sindicato porque… Bom, [em] 78, 79 eve a greve; eu e o Brás, meu irmão, participamos dos piquetes.  

 

P/2 – Mas não era sócio?

 

R – Não, eu fui no sindicato para ficar sócio... Eu não sei, acho que foi em 80 ou 79. Acho que foi em 80. Fui lá pra ficar sócio, não consegui porque a secretária lá falou: “Você precisa trazer a carteira profissional.” “Profissional? Mas pô, não...” “Não, tem que trazer a profissional, se não não pode”. Não pode, tudo bem, né? “Tem que olhar.” “Fala com diretoria alguma coisa, né?” “Não.”

Tinha que tomar dois ônibus para ir pra lá, eu fiquei um tempão para ir, aí lá não pode; eu não voltei, fui voltar sei lá daqui quanto tempo. O sindicato não era assim, do ponto de vista de você encontrar dirigente. Você não tinha, nem na gestão do Lula que, na verdade, depois foi expulso - eu fui tomar conhecimento depois. E mesmo na gestão de 80-83 já do Jair [Meneguelli] também não. Natal, Falcão, Gilmar, você não tomava conhecimento, não sabia quem era. Eu fui conhecer o Natal na intervenção do sindicato, durante a intervenção... Não, antes, fui conhecer em 82; ele foi me procurar porque alguém tinha falado pra ele que tinha uma pessoa na pintura que discutia muito o sindicato, defendia o sindicato lá na pintura. Ele tomou conhecimento e foi me procurar pra pedir pra eu ser candidato na CIPA [de] 82. 

 

P/2 – Até então você tinha participado de greve, você… Em 79, 80...

 

R – Participado das greves de 79, 80. [Em] 80 a gente organizava nas assembleias na Vila Euclides a gente, o pessoal… Greve longa, vai acabando o dinheiro de todo mundo, então a gente organizava um pessoal pra ir à assembleia e depois repassava no bairro nas assembleias que a gente fazia lá no bairro - eu, o Cândido, Avelar, o Brás. Aí o Natal foi à minha procura, foi assim que tomei contato mais direto com o sindicato, se deu dessa forma.

 

P/2 – Aí você se candidatou pra CIPA.

 

R – Inclusive eu não queria, acho que eu contei isso já. Não queria e Natal contou que o sindicato, a diretoria tinha tomado a decisão de fazer investimento; porque a visão que se tinha da CIPA [é] que era uma instituição empresarial, uma instituição da empresa. Mas teve toda essa conversa, o pessoal do setor: “Não, vai nessa.” 

Acabei me candidatando. Entrando na CIPA em 82.

 

P/2 – Eleito?

 

R – Fui eleito em 82...

 

P/2 – Tinha outros candidatos, não?

 

R – Até 83 e reeleito de 83 para 84. 

 

P/2 – Você disputou com outros candidatos?

 

R – Tinha. 

 

P/2 – Quem era?

 

R – Nem cheguei a conhecer, não.

 

P/3 – Eu queria retomar uma questão. Você falou numa entrevista que tivemos anteriormente que foi transferido da pintura em função de um episódio. Como foi isso, lembra?

 

R – Isso se deu [quando] eu já estava na CIPA. Nesse momento, eu fazia manutenção de uns eletrodos que hoje não [se] usa mais, e você precisava… Você o colocava dentro das carrocerias e ligava na parte elétrica para, a partir do choque eletrostático, [dar] aquele banho de imersão, pintura por imersão; se não colocasse aquilo a carroceria entrava e saía do outro lado sem um pingo de tinta. Eu fazia a manutenção desses eletrodos e um dia eu deixei faltar, porque tinha poucos eletrodos à disposição lá; acabou faltando e uma linha parou por alguns minutos. Eles pediram se eu podia trocar de setor, ser transferido para a produção, porque eu trabalhava num setor de manutenção da pintura. Eu teria mais liberdade no processo de atuação, porque lá a função exigia que eu desenvolvesse, desempenhasse a função importante, sobrava pouco tempo para atuar na prevenção dos acidentes. Foi esse episódio que fez com que… Eu aceitei o processo de mudança de setor. Na verdade eu provoquei, né? 

 

P/2 – Com a questão da CIPA você passa a ter uma atuação mais polêmica no sindicato?

 

R – Sim.

 

P/2 – E como foi isso?

 

R – Não sei se está satisfeito [com a resposta] anterior...

 

P/3 – Tranquilo.

 

R – Na CIPA, na verdade, a gente acaba desempenhando uma função bastante sindical, não meramente do ponto de vista da segurança no trabalho, que também fizemos, mas também uma ação bastante sindical. A gente acabava dando um suporte, ajudando a comissão de fábrica nos períodos de dirigentes sindicais. 

Veio a intervenção no sindicato, o processo de intervenção no sindicato. Os dirigentes da época foram bastante perseguidos, o Natal lá dentro, Falcão, o pessoal [foi] amarrado ao pé da máquina e quem acabava dando… Estava crescendo a participação da comissão e da CIPA junto nesse período, inclusive foi após a história da comissão que a fábrica tentou impor, a representação sem a participação do sindicato durante a intervenção... Então a gente tinha uma ação bastante sindical no processo.

 

P/3 – Nessa época quem era do sindicato que é uma referência pra você?

 

R – O Lula era uma referência, a maior referência; depois você tinha o Meneghelli como presidente do sindicato, uma referência. Mas o Lula continuava sendo a grande referência para todo mundo lá.

 

P/2 – O que esse episódio, antes de você ir pro sindicato… Qual é a coisa no sindicato que sempre lhe marcou, que então levou, que incentivou você?

 

R – Acho que também eu comentei isso, na greve de 79 o retorno foi muito duro para o sindicalismo em si, porque a visão dos trabalhadores como um todo, com raríssimas exceções, era de que o sindicato tinha se vendido, tinha traído, vários comentários. Eu me lembro, inclusive, de um episódio: eu estava trabalhando na oficina nesse momento, o pessoal criticando muito o sindicato, e eu dizendo que não, que pela análise da direção do sindicato, do ponto de vista econômico, era impossível você avançar, que nessa visão o Lula propôs retornar ao trabalho, propôs a trégua. Mas o pessoal não aceitava essa visão de jeito nenhum. O pessoal só foi aceitar essa lógica como correta depois do retorno da greve de 80. Isso [foi] o que mais me marcou no período, foi essa evolução de visão que o pessoal teve de 79 para 80. 

 

(pausa)

 

P/1 – Vamos retornar agora a nossa entrevista. Eu queria que você falasse um pouco da intervenção do sindicato em 83 e como é que você começa então como dirigente do sindicato, a partir dessa chapa de 84.

 

R – Bem, dizia que de 82-84 fui eleito na CIPA por duas gestões, de 83 para 84 inclusive fui o mais votado na fábrica - a eleição era geral na fábrica. Veio a intervenção em 83, a partir daquela greve de solidariedade. 

É uma greve muito interessante porque ela se deu… A tomada de decisão [se deu] no congresso, um congresso que acabou não terminando, porque o final do congresso ia se dar em dois fins de semana; veio a greve, veio a intervenção, a cassação da diretoria e o congresso não se encerrou. Eu era inclusive delegado naquele congresso e acabei não participando. Meu menino foi internado na véspera do dia de viajar para o congresso e acabei não participando daquele momento ali. Na intervenção nós acabamos tendo uma atuação importante na fábrica, tanto a comissão que estava atuando como a CIPA, dando sustentação para a diretoria cassada, pressionando o interventor por várias vezes... 

Quando [o sindicato] vai sair da intervenção eu não esperava, mas fui convidado pelo Humberto Domingues, que era diretor cassado e no momento era vice-presidente da CIPA, para compor a chapa. Eu não esperava aquilo, até discuti se não teriam outros companheiros mais preparados porque eu, pessoalmente, não sentia preparado para compor a diretoria do sindicato. 

Mas a minha surpresa maior foi quando… Bom, passou o processo das convenções; quando a chapa vai discutir a distribuição de cargos, a proposta onde eu estava colocado [era] para uma função na diretoria. Se eu discutia, questionava se estava preparado ou não para compor a diretoria, imagina pra responder pela tesouraria do sindicato, quando Meneghelli lia a proposta de chapa. Aliás, o Lula lendo a Folha e o Meneghelli perguntando se alguém tinha proposta de distribuição de cargos: [era] evidente que a maioria, com a exceção do Meneghelli, do Vicentinho, do Lula e do Cândido, ninguém vai ter proposta de distribuição de cargos, muito pelo contrário. Aí o Meneghelli lê a proposta de distribuição, onde... Só que o Guiba sabia que estaria colocado na secretaria geral, o Barbosa sabia que estaria indicado pra vice-presidente. Eu não sabia que ia ser indicado para tesoureiro, ninguém tinha me falado absolutamente nada e consultado. Barbosa estava do meu lado e eu disse: “Olha, eu vou dizer que não aceito. Tesoureiro?! Nunca fui tesoureiro de nada na minha vida, vou ser tesoureiro do sindicato?” Ele falou: “Fica quieto aí, depois a gente... Isso se aprende.” Bom, assumi portanto a tesouraria do sindicato e assumi em seguida como membro da direção da CUT estadual, porque me colocaram meio assim também, né? Então: “Vai lá ser, você é o tesoureiro, você precisa estar junto na direção estadual.” Aí o Bargas… Você participou da direção estadual, você era o secretário-geral, né?

 

P/2 – É.

R – Depois foi pra secretaria geral da nacional, mas na primeira você estava na estadual. Também assim, sem muita discussão: “Tem que ir.” Na verdade, a diretoria cassada discutia as coisas e ia impondo pra quem estava chegando a distribuição das tarefas e como ia se dar. (risos) Então o Bargas, o Meneghelli, o Paulo Okamotto tomavam as decisões e diziam pra gente como é que tinha que ser. 

Esse é um período rico num aspecto, difícil por outro. A intervenção cassou muita gente com experiência, mas provocou uma mudança muito grande e, portanto, a necessidade de muita gente crescer no processo, que talvez fosse levar alguns bons anos. Tiveram que, rapidamente, construir, acelerar esse processo de crescimento. Talvez eu tenha sido um que passou por esse processo no momento da intervenção.. 

 

P/2 – Essa decisão de ir pro sindicato, você compartilhou isso com a família? A família apoiou, não apoiou, como foi isso?

 

R – A discussão foi bastante com a militância na fábrica, o pessoal do setor que apoiou muito. Eu discuti com a Yolanda naquele momento, que não entendia exatamente o que seria, mas apoiou, a família acabou apoiando esse momento.  Mesmo meu pai, que durante as greves de 79 e 80 se preocupava muito e brigava muito comigo e com o Brás, meu irmão, porque dizia que a cavalaria ia nos pisotear, que a ditadura era feroz, que os militares, poderia morrer gente... Ele tinha muito medo dos piquetes, da greve. Ele não falava contra a greve, mas queria que a gente ficasse em casa, não fosse para as assembleias, para os piquetes, porque ele [temia] muito pela repressão militar ser muito feroz. Aliás ele, não sei se de forma meio inconsciente, lá no interior ele sempre trabalhou contra o PDS, que ele falava que era o partido dos militares, que era o fim do Brasil. Tinha um compadre dele que era prefeito pelo PDS sempre e ele brigava muito com o compadre dele, apesar de manter a amizade até hoje.

 

P/2 – Arena, na época.

 

R – Arena, na época. Apesar de preservar a amizade até hoje, ele brigava muito com o compadre dele. Falava: “Esse partido seu vai acabar com o Brasil, os militares vão acabar com o Brasil.” E ele era MDB, daqueles ferrenhos.

 

P/2 – Quando você chega ao sindicato, você é o tesoureiro, começa a ver as contas, receita, despesa… Como foi aquilo na sua cabeça?

 

R – Eu tive bons professores, então facilitou. A primeira aula que o Paulo Okamotto me deu foi mostrar o salário do Dr. Maurício e comparar com o meu salário. E dizer: “Olha, não é por essa diferença que você...” Para ver: “Olha, tem profissionais que ganham isso no sindicato, apesar do seu ser isso. O mercado é assim, faz parte do processo de qualificação das pessoas.” E com uma facilidade que você tinha uma administração, você tinha o Sadao [Higuchi] como administrador, que era muito profissional, muito sério, muito fiel, então isso facilitou muito as coisas. Vamos dizer que não tivemos grandes dificuldades.

 

P/2 – E no início da sua carreira de dirigente, qual foi a primeira vez que teve que enfrentar uma situação que as canelas tremeram?

 

R – Teve uma passagem que eu fiquei muito preocupado; foi na greve de 85, se eu não me engano, onde nós estávamos com a campanha da redução da jornada de trabalho e queríamos as quarenta horas de qualquer jeito, e meio sem flexibilidade para negociar o meio termo - era quarenta horas e não tinha conversa. Teve uma fábrica pequena que ofereceu 42 e meia, ou coisa parecida. Eu não aceitei de jeito nenhum, a fábrica ameaçou fechar. “Fecha. Quer fechar? Fecha. Isso é blefe puro e simples”. 

Bom, eu chego na segunda-feira lá tem um aviso: “Fábrica fechada até segunda ordem”. Aí eu fiquei muito preocupado de ser a pessoa responsável de ter fechado a fábrica. (risos) Como os trabalhadores vão ver esse negócio, todo mundo desempregado por minha responsabilidade. (risos) Ficou fechada [por] três dias e no terceiro dia ele foi lá no sindicato para negociar; não queria negociar comigo porque disse que eu era muito radical. (risos) Sentou o Barbosa e acabou fazendo… Eu passei a bola pro Barbosa e conseguimos fazer o acordo de quarenta horas semanais, aí a fábrica reabriu no dia seguinte. (risos) Mas eu fiquei com muito medo naquele momento de ser responsável por uma fábrica ter fechado. Foi um choque, um choque bom.

 

P/2 – E coisa boa nesse mandato como tesoureiro, o que marcou você?

 

R – Além de ter sido o tesoureiro que mais comprou bens (risos), acho que foi um aprendizado muito importante. Não só como tesoureiro, eu fiz duas gestões como tesoureiro, depois fui secretário geral, fui vice-presidente; considero que fui bastante preparado, inclusive para assumir a função por que respondo hoje. Mas de fato eu acabei como tesoureiro, propondo e convencendo a diretoria a adquirir vários bens que o sindicato até então não tinha. Tinha um rico patrimônio em nome, conceito, mas o patrimônio de bens do sindicato era pequeno. 

Tinha a sede do sindicato, a sede Piraporinha, a antiga sede e as salas em Santo André. Nós adquirimos aquele terreno onde é a sede regional de Diadema hoje, outro terreno aqui no Taboão, em São Bernardo. Além de se dependesse… Se o Lula não tivesse permitido teriam comprado um grande terreno para fazer o clube, que seria algumas vezes maior do que é o atual, porque tinha plena condição de fazer, mas o Lula nos convenceu que deveríamos reivindicar junto à prefeitura para que cedesse o terreno para nós. Nós fizemos, a prefeitura concedeu, mas não concedeu; no final, nós tivemos que pagar o terreno que tem o clube hoje. Mas foi uma coisa que eu acho importante também ser valorizado. 

Uma coisa importante que acabei ajudando a decidir junto com o Bargas, com o Lula, Meneghelli e companhia limitada foi a aquisição do Cajamar. O nosso sindicato comprou o imóvel do Cajamar para colocar à disposição da classe como um todo, pra formar o Instituto Cajamar, a participação efetiva na facilitação da consolidação da CUT. A CUT, nesse momento, exigiu muito da participação do nosso sindicato, inclusive do ponto de vista financeiro, então era preciso ter cabeça sintonizada para colocar, pra fazer o investimento necessário para consolidar a CUT. Não era preciso falar do Meneghelli, porque desempenhava a função de presidente da Central e de presidente do nosso sindicato, mas [se] tivéssemos um tesoureiro que não entendesse corretamente qual seria o papel da Central, talvez não teríamos feito todos os investimentos que fizemos na construção da Central.

 

P/2 – Você falou que o patrão havia dito que você era muito radical. Você tinha um apelido na diretoria nessa época, né?

 

R – Não.

 

P/2 – O pessoal falou em “galinho de briga”, alguma coisa assim.

 

R – Ah, não chegou a ser um apelido. Um ou outro faz alguma referência. 

 

P/2 – E se refere a quê, por quê? Se você quiser contar, é óbvio. 

 

R – Talvez seja bom de briga. (risos) Não, não tem nenhuma… Um ou outro fala, mas não chegou a se transformar num apelido. Meu único apelido é ser conhecido pelo meu sobrenome Marinho o tempo todo. Um ou outro fala, falava, que eu parecia um galinho de briga, mas não. Nada de coisa espetacular, não. 

 

P/3 – E sobre você ser explosivo?

 

P/2 – É, se referiam a isso.

 

R – Pode ser. Eu desempenhava um papel na diretoria de fazer as maiores controvérsias e de forma mais rápida.

 

P/3 – O chamado “pavio curto”?

 

R – É, até assumir a função que ora assumo. O pessoal: “Pô, você se transformou!” Não, é que hoje tenho outras tarefas, né? Hoje eu tenho que controlar outros “pavios curtos”. (risos) Você tem que saber qual a função que está desempenhando. E também você vai aprendendo, vai aprendendo a controlar o tamanho do pavio.

P/3 – Bom, você foi tesoureiro por dois mandatos, depois você vai ser secretário geral. Isso foi em que ano?

 

R – Isso foi de 90 a 93.

 

P/3 – 90 a 93. E aí, como secretário geral o que marcou nesse mandato?

 

R – Isso foi… Esse período, em 90-93, foi um mandato bastante rico. Nós tínhamos um coletivo que funcionava, tinha um funcionamento praticamente de forma perfeita, não tinha grandes problemas. Tinha um coletivo bastante razoável, funcionamento bastante azeitado. Foi um momento onde nós investimos bastante nas discussões com as instâncias de base, organizações, como consolidar as comissões, essas coisas todas. Foi momento onde preparamos toda a discussão para o processo de unificação do sindicato, que foi uma preparação bastante rica. Depois, com os problemas todos que foi a unificação, mas foi um momento muito importante do sindicato. Eu vejo assim.

 

P/2 – A câmara setorial foi nesse mandato ou foi no mandato seguinte?

 

R – Foi nesse mandato, foi de 90 a 93. O acordo… Você pega 91, Collor, 90, economia em queda brutal em 91, ameaça de demissões gigantescas, não somente no segmento, mas na conjuntura da economia. E o acordo da câmara, em março de 92, e um processo de retomada da economia, acompanhando um pouco o setor, que acabou contribuindo para puxar a economia pra cima. Se for pra falar de participação pessoal, na verdade acabei desempenhando o papel de fazer todo o processo de negociação que o Vicentinho concluía, o que se chama de preparar a bola para o pênalti. Então a gente preparava e o Vicentinho ia lá e chutava.

 

P/2 – (risos) Certo. Bom, no mandato seguinte o Vicentinho ainda continua em função da unificação e você foi ser o vice-presidente. Você ficou na secretaria geral?

 

R – De 93 a 96 eu fui para a… Com a unificação criamos três vice-presidências. Eu fui ser vice-presidente em São Bernardo, tinha a vice-presidência de Diadema e a de Santo André e região.

 

P/2 – E o Guiba era...?

 

R – Nesse período, o Guiba [Heiguiberto Navarro] foi ser diretor executivo. O Grana foi ser secretário geral e o Guiba respondia pela confederação, um diretor executivo.

 

P/2 – Quando o Marinho se afasta...

 

R – Quando o Vicente se afasta...

 

P/2 - Quando o Vicente se afasta teve uma… Os candidatos para preencher a vaga do Vicentinho, quem eram?

 

R – Tinha na diretoria muita gente que queria que eu me colocasse pra assumir o final do mandato do Vicentinho; tinha o Guiba, que se colocava, e tinha o Martinho que se colocava, então você tinha os três nomes colocados nesse processo. Individualmente, meu nome é o que tinha mais companheiros da diretoria, tinha um número maior de adesão, vamos chamar assim, para assumir a presidência.

Nós fizemos um processo de discussão; eu não tinha absolutamente nenhuma disposição de assumir o final do mandato, mas eu me colocava pra ser eleito, numa eleição normal do sindicato, para presidir. 

Aliás, desde a eleição.. Se não tivesse tido a unificação, meu nome já estava colocado numa eventual para encabeçar a chapa em 93. Estaria meu nome e o do Guiba, a gente ia ter que ver quem seria. Eu tinha conversado com o Guiba antes, dizia pro Guiba se ele fosse – porque não estava dada a unificação ainda – se eventualmente ele estava disposto poderíamos acertar ali para assumir a cabeça da chapa de 93 a 96, até pela minha idade e tranquilidade para esperar. 

Veio a unificação e, pela unificação, exigia[-se que] o Vicentinho continuasse, encabeçasse a chapa. Depois [ele] se afasta para assumir a presidência da CUT, aí o Guiba assumiu. 

 

P/2 – E aí ficou o compromisso de que você seria o candidato?        

 

R – Não, nem ficou esse compromisso, um acerto, acordado. As coisas naturalmente apontaram para isso.

 

P/3 – Tinha atrito, teve atrito com o Martinho na indicação para 96?

 

R – Não. [Em] 96, a diretoria decidiu por consenso num seminário que nós fizemos, não me lembro em qual hotel no interior. Foi por consenso essa decisão de que eu deveria encabeçar a chapa. Os problemas se deram depois, no processo de convenção, onde os trabalhadores começaram dizer quem devia [e] quem não devia continuar na diretoria, aí que se deu...

 

P/2 – E como foi esse processo? 

 

R – Nós estávamos trabalhando um processo de renovação gradual. Nós tínhamos um problema muito sério com pessoas ligadas a Santo André, Martinho - o pessoal que acabou puxando a dissidência, o racha. Mas nós trabalhávamos no sentido de ir fazendo isso numa forma mais de médio prazo e não construir um rompimento. Tinha problema de cultura, tinha problema de ética, tinha problema de várias ordens aí, mas os trabalhadores não entenderam dessa forma e no processo de convenção quiseram fazer uma renovação maior do que a diretoria indicava, inclusive. Na convenção da Cofap a convenção indicou que dos que estavam ficaria somente o Chicão e o Pirano e que todos aqueles que eram ligados ao pessoal do Martinho tinham que sair. Foi uma decisão dos trabalhadores numa convenção e a partir daí resolveram não aceitar o resultado e puxar um processo de dissidência, de rebelião - a situação que está colocada hoje.

 

P/2 – Então você vai ser presidente do sindicato. Como é que foi essa gestão, como é que foi ser presidente?

 

R- Bom, uma gestão que… Primeiro tem desde… Tem vários pontos de interrogação. Como seria na gestão do sindicato dos metalúrgicos do ABC, acostumados com lideranças fortes, carismáticas como do Lula, Vicentinho e o próprio Meneghelli, passando pelo Guiba e o Marinho, que não tem esse viés do discurso carismático, das massas inflamadas. 

O Lula, inclusive, numa reunião dizia: “Olha, Marinho, não se chateie, mas você não é uma liderança de discurso forte como eu, Vicentinho, Meneghelli, portanto você precisa – não quero que você chateie com isso – você precisa valorizar o coletivo.” Bom, de maneira alguma me chateei. O Lula de vez em quando repete, fala: “Não sei se o Marinho ficou chateado, mas foi assim...” Desnecessário porque de maneira nenhuma me chateei com isso, porque eu tenho plena convicção, conhecimento, tenho sensibilidade pra isso. 

Na verdade, eu acabei impondo um valor coletivo maior do que tinha. Não que não tivesse, mas... Precisou reforçar esse lado da participação e da responsabilidade coletiva de todo mundo, coisa que o próprio Lula diz que - por ser uma liderança muito forte na categoria - acabavam não observando isso. Juntando com o problema da tentativa de racha do sindicato, então imagina o grau de dificuldade. Mas eu confesso - acho que não é falta de modéstia - que nós demos conta do recado, tanto do ponto de vista de responder às várias demandas que a conjuntura tem colocado no nosso caminho, seja do ponto de vista da ameaça do desemprego, seja do ponto de vista de apontar alternativas na organização da categoria, de mudança, seja do sindicato adequado para um funcionamento que busque responder para a necessidade de mudança da estrutura sindical, de mudança da ordem, da maneira de atuação do sindicato no chão da fábrica e tudo mais. Acho que estamos dando conta do recado.

 

P/2 – Quais foram as principais negociações que você fez nesse período, que você considera importantes?

 

R – Olha, tem várias negociações. Antes de eu pegar a presidência do sindicato tem várias negociações que eu participei. Uma delas é a própria câmara setorial do setor automotivo, o acordo da câmara. O processo de elaboração, de preparação dos seminários, a construção e o acordo em si, ajudamos a construir isso; passando pelas negociações da Autolatina, reestruturação de salário, adequação da estrutura de salário, passando [por] várias negociações com a Mercedes Benz, negociações intrincadas, difíceis. E na presidência nós temos as negociações com Volkswagen e Ford no processo de ameaça de demissão, dos vários acordos. Você tem negociação com o próprio governo, agora no acordo emergencial. Esperamos que vingue o acordo da renovação da frota. Para destacar, acho que seriam essas negociações.

 

P/2 - E realizações do seu mandato?

 

R – Você tem também o processo regional. O sindicato teve uma mão muito forte na constituição da câmara regional do ABC. Aliás, eu acho que o sindicato seja o principal responsável pela constituição da câmara regional, porque tem que costurar os vários partidos existentes na região, junto com o governo do Estado, trazendo movimento sindical, trazendo alguns empresários. Acho que isso também destacaria como importante papel do sindicato e a liderança do sindicato nesse processo.

 

P/3 – Você listou uma série de coisas que o sindicato, na sua gestão como presidente, aprofundou, nessa concepção do sindicato cidadão - que é uma coisa que se inicia lá no Vicentinho, mas que vai aprofundar muito na sua gestão. Você tem a necessidade da superação da situação financeira do sindicato, que passa a enfrentar problemas sérios em função da queda do número de trabalhadores e, portanto, queda na receita. Você tem a mudança em toda a estrutura e organização de forma de funcionamento da direção e da regulamentação do sindicato; e você tem a questão da renovação da frota, você tem a questão das câmeras…. De fato, você implementou uma série de coisas no sindicato, de novidades; eu creio que num futuro breve isso vai ficar muito mais claro pro conjunto da sociedade. Mas hoje qual vai ser o grande desafio do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC? Qual é a bola da vez, a grande questão que o sindicato vai ter que enfrentar?     

 

R – Eu vejo assim: acho que tem um grande desafio do movimento sindical brasileiro, é transformar a estrutura sindical que está aí. É um desafio que já passou da hora de ser viabilizado, na medida [em] que a gente fala isso desde o nascimento da CUT. Mas infelizmente, a partir… Nós rompemos, de certa forma, com a estrutura sindical, com a ditadura militar, tudo mais; criamos a Central e, na verdade, nós paramos aí. Nós não conseguimos, a partir da visão que queríamos… Queríamos que a Central fosse avançar além daí. Rompemos, mas de certa forma nós demos uma parada e se for pra tirar um extrato disso, talvez nós, enquanto visão geral, até tenhamos nos burocratizado, de certa forma, nesse estágio. 

Acho que o desafio nosso é romper esse processo de burocratização, vamos chamar assim, e construir a mudança de fato da estrutura sindical brasileira. Nós precisamos que a gente de fato implemente um processo de organização a partir de liberdade e autonomia sindical, num processo de organização do local de trabalho.  É isso que nós procuramos fazer no sindicato do ABC, com a construção dos vários comitês sindicais. 

Eu acho que a nossa tarefa é convencer o conjunto do movimento sindical a implantar isso, juntamente com a construção dos vários sindicatos,nacionais, mas ramificados a partir do local de trabalho e nisso acho que precisamos evoluir. Precisamos, acho, compreender até como a lógica do rompimento do atual conceito de categoria hoje; por que nós precisamos ter químicos, metalúrgicos, construção civil, têxtil, tudo mais? Talvez nós tenhamos que começar a debater agora para daqui a quinze anos avançar nesse conceito e buscar outras categorias que possam se unificar. Pode unificar químicos e metalúrgicos, por exemplo; aliás, nós já temos grande parte da categoria dos químicos que trabalha exclusivamente para o setor automotivo - [no] setor de plástico, por exemplo, não é? Grande parte do setor de tintas, grande parte do setor químico acaba trabalhando exclusivamente pro setor automotivo. Por que tem que estar em sindicatos diferentes, categorias diferentes, conceitualmente em ______ diferentes? Então essas coisas acho que cabe… Está faltando ao movimento sindical refletir, pensar, e como nós podemos organizar melhor para enfrentar, não só do ponto de vista da globalização, mas do ponto de vista da organização patronal no Brasil. 

Nós precisamos dar continuidade a uma visão de disputa da hegemonia. O que eu estou querendo dizer com isso? Quando nós organizamos, forçamos e fomentamos a formação das câmaras setoriais, na verdade, nós estamos falando de democratizar a gestão pública. Se nós tivermos a sociedade participando, as categorias participando ativamente da gestão pública, certamente nós vamos criar dificuldade para o processo de corrupção, para o processo de desvio de objetivo de gestão pública. Acho que o sindicato tem responsabilidade nisso, ele precisa interferir na gestão pública, porque você está falando de como investir os recursos públicos, que seja, voltados para interesse não só da categoria, mas da sociedade como um todo, do ponto de vista da segurança, da educação, da geração de emprego e tudo mais. Se o sindicato fica fora disso, você facilita que os outros segmentos possam interferir nessa gestão pública e, portanto, interferir do ponto de vista de outros segmentos da sociedade. 

Acho que é por aí que você consolida a visão do sindicato cidadão, não meramente olhando pra gestão pública, mas também como interferir - seja nos vários programas que o sindicato hoje participa, seja do ponto de vista da alfabetização dos jovens e adultos, seja do ponto de vista de criar oportunidade para os trabalhadores de baixa renda a se preparar para participar, ter condições de ir para as universidades conforme os cursos que nós estamos fazendo nesse momento, entre vários programas que poderíamos comentar. 

Resumindo, o sindicato precisa aprofundar a discussão do sindicato cidadão. Ele precisa aprofundar sua participação na gestão pública, através de mecanismos regionais, porque é o que está mais próximo, portanto com maior condição de influenciar. Ele precisa continuar elaborando alternativas para interferir não só regionalmente, mas em nível nacional, nas várias questões como renovação da frota, por exemplo, e precisa, acima de tudo, consolidar a mudança da estrutura sindical brasileira, para bem representar o pessoal a partir do local de trabalho.

 

P/3 – Você, com o seu mandato, a sua história, teve oportunidades de viajar e participar em fóruns internacionais. Recentemente, você esteve nos Estados Unidos em dois eventos, né?

 

R – O último não foi.

 

P/3 – Você foi a um na Califórnia e o outro?

 

R – No outro eu não fui.

 

P/3 – Como foi essa experiência internacional? Como é representar os trabalhadores do Brasil nesses fóruns, nessas viagens? 

 

R – Olha, são experiências às vezes ricas, às vezes não tão ricas, mas sempre você acaba tendo um processo de aprendizado. Primeiro aprendizado: de que os dirigentes precisam se preparar melhor, até do ponto de vista de falar outras línguas que não somente a nossa, porque as dificuldades por aí se colocam. Você teria maior facilidade se falasse outras línguas que não somente a língua portuguesa. Um aprendizado que… 

Nosso sindicato goza de um determinado respeito muito grande lá fora, não é? Talvez seja por essa razão que eu tenha sido uma das lideranças homenageadas pela CNN e pela Times, na passagem do milênio, como uma das cinquenta lideranças da América Latina, pelo que o sindicato tem conseguido fazer, especialmente na defesa do emprego do Brasil. E talvez tenha sido esse o motivo dos convites com maior incidência no último período para participação internacional - aliás, não temos respondido a todos os chamados, vamos dizer assim. 

A experiência também de que a chamada globalização exige um desafio maior ainda para o movimento sindical brasileiro, no sentido de entender o que está passando no mundo. Nós temos uma parcela da população mundial totalmente excluída da condição de cidadania, e acho que cobra a necessidade de nossas centrais se colocarem nos fóruns internacionais, no sentido de cobrar das grandes economias uma mudança de visão - talvez a necessidade de um novo momento, de uma nova ordem, onde o desafio seja como vamos conseguir dar direito à alimentação para o conjunto da população mundial. Isso se reflete no Brasil também. 

Acho que o movimento sindical deve interferir no fórum internacional, mas deve também interferir em nível do nosso país e no mundo, no sentido de dar conta das coisas. Eu acho que acaba colocando também que essa discussão, de que a classe operária internacional tem suas dificuldades também de tradução dessa questão de classe operária internacional. A gente assiste nos fóruns internacionais muita gente tentando colocar para você qual deve [ser] sua posição, mas não vai beneficiar os trabalhos que você representa [e sim o] trabalho de outros países. Esses cuidados têm que ser tomados. Você não vai defender a bandeira que seja contra seus próprios interesses, mas também não será [uma] bandeira que seja totalmente incompatível com interesse de trabalho de outras partes do mundo; esses cuidados todos têm que ser tomados e os fóruns internacionais são importantes para isso. Como unificar uma determinada atuação em nível internacional sem colocar em risco essa própria articulação internacional, mas, em contrapartida, sem entrar de gaiato no navio. 

 

P/3 – Voltando agora um pouco pro pessoal, Marinho. Você foi casado por oito anos, é isso? Teve dois filhos, se divorciou e casou novamente. Com quem, como foi isso?

 

R – Estou casado na prática, não no papel, há dez anos com a Nilza Aparecida de Oliveira. Nasceu também no Paraná, em 24 de outubro de 62. Trabalha na prefeitura de Santo André como assessora do gabinete desempenhando um papel na... Ajudando a coordenar um projeto chamado Eixo Tamanduateí, um projeto importante da cidade de Santo André. Aliás, acaba de ser acusada da prática do nepotismo por ser minha esposa, nepotismo cruzado, disfarçado. Aí eu perguntava: “Mas quem eu contratei no sindicato, parente do prefeito pra completar a prática do nepotismo?” Na medida que não existe ficou acusação barata por parte da imprensa, mas isso faz parte da vida.

 

P/3 – Você não tem nenhum filho?

 

R – Não. 

 

P/2 – Como você conheceu a Nilza?

 

R – A Nilza eu conheci no bairro. Ela morava no Parque São Rafael, [a] conheci bem garota. Ela participava da comunidade também, depois veio trabalhar no sindicato; saiu do sindicato, acho que no começo de 89. Foi pra Alemanha, [passou] sete meses na Alemanha, retornou. Depois que ela retornou da Alemanha nós acabamos indo morar junto e [passamos] esses dez anos de relacionamento. 

 

P/1 – Marinho, esses prêmios que você tem recebido, essas homenagens, esse fato de você ter sido considerado uma das maiores lideranças do próximo milênio… Pessoalmente, o que é isso pra você? Você veio lá do interior, toda essa trajetória profissional, pessoal e sindical, e como é isso, de repente ser indicado para para prêmios assim?

 

R – Eu vejo que essa indicação é mais ao sindicato em si. Como neste momento eu estou representando o sindicato, a luta do sindicato, acaba [se] personalizando na minha pessoa, mas poderia ser uma outra pessoa qualquer que estivesse recebendo esse prêmio. Evidente que se pode eventualmente combinar perfil pessoal com essas questões, mas eu acho que a maioria do mérito é da coletividade, da direção e da militância, das lutas que o sindicato tem encaminhar. Nós temos vários quadros na categoria que poderiam perfeitamente bem estar no meu lugar, dando conta da tarefa como eu estou dando, sem absolutamente nenhum problema. 

[É] evidente que é uma honra muito grande, né. Eu não planejei inicialmente fazer parte da diretoria do sindicato ou ser presidente do sindicato; ser chamado, apesar de não termos colocado… Mas houve um chamamento muito grande para que eu me colocasse como alternativa da presidência da Central. Não estar colocado, isso não se dará com certeza nesse momento; isso é uma honra muito grande. O fato inclusive de ser presidente de um sindicato, sem medo de errar, o maior do ponto de vista político, o mais importante do nosso país, isso é uma satisfação pessoal muito grande, não é? É isso.

P/2 – Você entrou no sindicato em 84, experimentou várias gestões. Qual a importância do sindicato na sua vida pessoal? Qual a importância desse sindicato pra você, que o viveu tanto?

 

R – O sindicato, por ser tão importante, o mais importante do país, politicamente falando, pra mim ele é, como diria, a minha vida até aqui. Talvez ele tenha tomado uma grande parcela da minha vida. 

Eu tenho dificuldade de dizer exatamente o que seria sem essa passagem pelo sindicato que um dia se consolidará, um dia ele vai passar, como essa passagem que nós estamos vivendo. Difícil conceber, talvez só depois, daqui a alguns [anos] falar: “olha o que significou”, exatamente. Mas tem importância grande, tem todo um significado, que eu inclusive tenho dificuldade de expressar. Exatamente o grau, como... Vamos esperar mais alguns anos, aí quem sabe.

 

P/3 – E por que você voltou a estudar?

 

R – Quando eu parei, eu parei a contragosto, lá em 76, e nunca consegui voltar. 

Nos últimos anos, tem duas pessoas que tiveram muita influência nesse meu retorno. Uma pessoa é a Nilza, é a minha companheira. Outra pessoa é o Julinho de Grammont, que insistia muito que eu deveria voltar a estudar. Talvez o Vicentinho retornar também tenha dado a sua parcela de contribuição nisso, somado com a constatação que [o mercado] está exigindo para qualquer trabalhador, que precisa se preocupar com a parte da formação, da preparação em si para o momento. 

Talvez o processo de discriminação que o Lula tenha sofrido, também isso tenha eventualmente pesado - acho que nem tanto, mas poder ter de forma inconsciente pesado também. Quando no final de… Tipo setembro de 98, quando eu tomei a decisão, fui à escola, fiz a inscrição para fazer o colégio - eu só tinha o ginásio - o colégio à distância, estudando sozinho em casa, marcando de fazer as provas. 

O Julinho queria noticiar para a imprensa que eu estava fazendo e o Vicentinho, nesse momento, estava fazendo o Telecurso Segundo Grau. Eu disse: “De jeito nenhum. Eu vou fazer o colégio porque é uma necessidade, mas não vou fazer disso nenhum marketing pessoal ou coisa parecida. Eu quero meramente fazer o colégio, depois, se for o caso, fazer a faculdade.” Quando eu me inscrevi para prestar o vestibular, o Celso Horta queria avisar a imprensa. Eu falei: “De jeito nenhum, não vai avisar coisa nenhuma. Deixa a imprensa tomar conhecimento de forma natural.” Até porque será feio se eu presto vestibular, não passo no vestibular, já pensou a propaganda contra? Então... (risos)

Mas a importância é de se preparar mesmo, né? Até porque eu estou no mandato no sindicato, eu não vou ficar no sindicato eternamente. Vamos fazer o que depois? Conhecimento nós temos muito, mas do ponto de vista profissional, se você não tiver a faculdade… Hoje, pra dar aula, [tem que ter] o tal do mestrado, doutorado, então você tem dificuldade, e eu acho que as pessoas têm que se preocupar. É essa constatação que me fez a voltar a estudar. 

 

P/3 – Como é que você combina a vida de dirigente sindical, de estudante, pai, marido, as necessidades de lazer? Como é que faz?

 

R – É duro. Confesso que é muito difícil, é um sacrifício grande, porque é pesado. A falta de prática do banco escolar já acaba pesando, com o retorno depois de uma longa data, somada com uma atividade intensa sindical e que cobra muito da cabeça. Estudando à noite, [quando] você chega tem dia que dá trabalho pra desligar os botõezinhos e ligar os outros; eles ficam se misturando, atividade com a necessidade do estudo. É uma dificuldade, mas a vida é feita de dificuldades. Eu acho que tem que ser encarado e por essa razão eu acho que é possível segurar. [É] evidente que precisa de muito sacrifício, né? Sair às onze da escola, ter que eventualmente levantar às quatro, quatro e quinze pra fazer assembleia, inventar tarimba o dia todo. Afinal de contas, não sou mais um jovenzinho de dezoito, vinte anos, então essas coisas vão pesando, mas eu acho que é um sacrifício que será recompensado. [É] evidente que precisa contar com a compreensão de muita gente, inclusive da família. Em especial, da família.

 

P/1 – Marinho, se você pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, você mudaria? O que seria isso?

 

R – Talvez eu teria sido mais teimoso no momento em que terminei o ginásio e não iniciei o colégio e parei por um grande período. Talvez essa fosse a grande mudança que eu faria.

 

P/1 – Você ainda tem um grande sonho, alguma coisa que você queira realizar, seja pessoal ou mesmo no sindicato?

 

R – O grande sonho eu acho que é um sonho de todos nós, que é ver nesse país dias melhores, ou pelo menos promessa melhor para nossa juventude, não é? Hoje, uma grande preocupação é com a falta de esperança que a nossa população vem sofrendo, vem sendo atacada constantemente. Nós temos um estado hoje paralelo na sociedade, na base do narcotráfico, da corrupção. Meu grande sonho é ver a população brasileira - em maioria eu estou dizendo, [na] totalidade isso é praticamente impossível em qualquer lugar do mundo, mas uma grande parte vindo a participar da vida política, social do país para transformar isso. Ou nós derrotamos esse estado paralelo ou o Brasil não terá futuro. Essa promessa do Brasil eu enxergo como possibilidade de [se] transformar num grande país, numa grande economia, com muita distribuição de renda; mas para isso nós precisamos derrotar esse estado paralelo.

 

P/1 – A gente está finalizando o nosso depoimento aqui. Você gostaria de falar alguma coisa que a gente não tenha perguntado?

 

R – Eu não sei se registrei uma passagem, uma greve de 85 na Asbrasil. Falei naquele depoimento anterior, não? 

 

P/2 – Não.

 

R – Nós estávamos… Aquela greve durou 54 dias - o movimento todo, porque ele pegou autopeças, montadoras, vários segmentos da categoria. A empresa individualmente que fez mais dias de greve foi a Maxion, Pexmaxion, que foi 48 dias.

E teve uma empresa, Asbrasil… Tinha um senhor que era presidente da empresa, o senhor Joaquim - cabelo branco, altão, descendente de alemão, se eu não me engano. Um dia, ele bateu na mesa, gritou alto. Eu bati, gritei mais alto que ele; a partir dali ele me falou que eu era mal educado. E falou: “Você tem idade pra ser meu filho.” Eu falei: “Apesar de você ter idade pra ser meu pai, você não é meu pai. Eu represento aquele pessoal que está lá embaixo e o descontentamento está colocado na mesa.”

Um dia eu chego lá - no domingo tinha assembleia no Estádio do Baetão -, os trabalhadores da fábrica chegam lá e falam que a fábrica tinha conseguido uma liminar de reintegração de posse da fábrica. “Mas como, se a gente não estava acampado?” O pessoal entrava de manhã, saía à tarde; o pessoal entrava à tarde, saía de madrugada, nos horários específicos; a greve era dentro da fábrica. Essa era uma greve que a gente só ia, chegava lá tipo nove, dez horas do dia, porque a militância segurava as pontas lá, então você ia às fábricas mais frágeis, depois ia pra lá. 

Bom, então eu vou logo de manhã. [Quando] chego lá tem uma viatura da polícia. Perguntei pra um dos policiais qual era a orientação e ele disse o seguinte: “Olha, a orientação é que a empresa tem a liminar. Entrou, tem que trabalhar – por bem ou por mal.” Falei: “Tá bom.” Aí eu falei com o pessoal: “Olha, a orientação da polícia é essa, então hoje não vamos entrar na fábrica, vamos todo mundo embora.” 

Aí o outro PM veio muito bravo, me chamando de agitador, não sei o quê. Falei “Quê? Estou aqui cumprindo minha obrigação.” Ele tinha trabalhado a noite inteira em São Caetano e foi chamado pra reforço ali. “Bom, você já veio. Eu estou cumprindo a minha obrigação, você também, mas você já veio, já viu que tá tudo… Pode ir embora, dormir sossegado. Eu vou embora também, cuidar das minhas tarefas e você vai dormir, tudo bem.” Ele falou: “Eu vou ali dentro e na hora que eu voltar, se você estiver aqui eu vou te levar preso.” Aí eu falei: “Tá vendo, pessoal?” O pessoal foi embora. 

No dia seguinte, eu ia pra lá de novo pra acompanhar, pra não deixar o pessoal sozinho lá. Tinha um companheiro que atuava comigo na área, o Adalberto Scani - o Malhado, o popular Malhado; ele tinha um bom papo com o presidente da fábrica e achava que por isso poderia convencer o cara a negociar. Ele falou para mim: “Marinho, amanhã vou pra Asbrasil e você vai pra outra fábrica.” Eu falei: “Tá errado, Malhado. No momento de conflito vai quem está brigando com a fábrica; você vai depois, tenta conversar. Mas nessa hora da entrada é hora do conflito. Eu vou, continuo indo.” “Não, não...”, insistiu. 

Talvez tenha sido sei lá o quê que impediu que assim fosse. Ele foi pra Asbrasil e eu fui pra outro lugar. Chegando lá de madrugada, a polícia veio com um caminhão cheio de policiais e soltou na rua da Asbrasil. Tem a Ferrename na Vergueiro, depois a APV, AsBrasil, Termomecânica do outro lado e ali é uma passagem, porque tem uma ponte no rio que atravessa para Santo André, então o pessoal faz de passagem ali. A polícia desceu, aqueles pé-de-mesa assim, botando desde a APV pra dentro já. A APV estava com um acordo. O guarda falou: “Aqui já tem, é dali pra baixo”. Eles desceram, colocando todo mundo pra dentro da fábrica na base do cacete. Mesmo quem estava passando pela rua entrou pra dentro da… Foi colocado na marra pra dentro da fábrica: trabalhador, quem não era, quem estava de passagem.  Esse registro não tem em lugar nenhum no sindicato, nem na Tribuna Metalúrgica, então por essa razão eu estou contando, para fazer parte da nossa história, porque não faz até hoje.

 

P/3 – Mas agora estou curioso: e aí, o que aconteceu?

 

R – Daí a greve acabou, você quer o quê? O pessoal foi colocado no pé da máquina pra trabalhar com a polícia ali. “Vai trabalhar ou não vai?” Depois a fábrica demitiu não me lembro quantos trabalhadores, o Carrara trabalhava lá e foi demitido na época por conta disso. E a greve acabou, claro, com repressão. Acho que é só.

 

P/2 – Marinho, por último, o que você achou desse depoimento, de falar, de contar sua história?

 

R – É difícil falar da gente. Eu percebo assim: tem muita… Falar de alguns pontos talvez seja mais fácil, dependendo do tipo de conversa que está rolando sai naturalmente, mas falar da vida pessoal, do começo ao fim, eu acho que eu sou um dos que tem uma certa dificuldade. Mas acho que talvez possa ser importante para a história, espero.

 

P/1 – Tá bom então, obrigada. 



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