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Plantando por onde for possível

História de: Luís Cirilo Ferrari
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/02/2021

Sinopse

Jaguariúna. Armazém da família. São Paulo. Primeiros supermercados. Informática. Preocupação ambiental. Trabalho voluntário. Doação de alimentos

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História completa

 

P/1 - Bom, Seu Cirilo, vou pedir para o senhor falar de novo o seu nome completo, o local e a data de nascimento do senhor.

 

R - Meu nome é Luís Cirilo Ferrari, nasci em 09 de Julho de 1931, estou com 72 anos.

 

P/1 - Em Jaguariúna o senhor nasceu?

 

R - Nasci em Jaguariúna, Estado de São Paulo.

 

P/1 - Agora, o senhor estava falando que o seu pai já trabalhava no comércio?

 

R - É, meu pai tinha um armazém e depois, tempos atrás, passou para um pequeno supermercado.

 

P/1 - E o senhor chegou a trabalhar no armazém do seu pai?

 

R - Não, porque em 1949 eu vim para São Paulo e fui trabalhar no Mappin da Praça Ramos de Azevedo, no quarto andar, no salão de chá, que naquela época era a coqueluche de São Paulo. Um andar todinho, o quarto andar, com almoço executivo e o chá da tarde.

 

P/1 - E o que o senhor fazia nessa época lá no salão de chá?

 

R - Ali eu trabalhava no almoxarifado, fazia os pedidos e fazia também as compras do material necessário para o restaurante e o salão de chá.

 

P/1 - E aí do Mappin foi para o Peg-Pag?

 

R - Do Mappin eu fui para o Peg-Pag, em 1954. Entrei no Peg.Pag antes da inauguração, e fiquei no Peg-Pag, vamos dizer, até 1978, quando o Pão de Açúcar comprou o Peg-Pag. E aí eu continuei onde estou até hoje.

 

P/1 - Seu Cirilo, o Peg-Pag foi um dos primeiros supermercados de São Paulo?

 

R - O primeiro supermercado de São Paulo foi em 1953, foi o Sirva-se, que hoje pertence ao Pão de Açúcar. E o Peg-Pag começou em 1954.

 

P/1 - O que mudou, assim, do armazém de secos e molhados para o advento do supermercado?

 

R - Ah, mudou muita coisa. O que eu me lembro perfeitamente, quando inaugurou o Peg-Pag o povo, a clientela não estava acostumado com auto-serviço, então, até para entrar num supermercado eles tinham receio de pegar o carrinho, achavam que aquilo era luxo. Porque naquela época o que prevalecia era a venda no balcão, que era os empórios e os atacados e as feiras. Então, me lembro que muitas vezes a gente precisava... Porque eu trabalhava na primeira loja do Peg-Pag, ali na Rego Freitas, que hoje é também do Pão de Açúcar, trabalhava em frente onde que era o hotel que era o escritório. E eu, às vezes, a gente até pedia para o cliente que ficava olhando, porque era novidade naquela época, para entrar, pegar o carrinho. Porque eles tinham receio, achavam que aquilo era luxo. E a primeira loja do Peg-Pag quando inaugurou, em 1954, foi inaugurado, quem cortou a fita foi a Marta Rocha, que era a Miss Brasil. E ela que participou da cerimônia do corte da fita simbólica. Foi muito bonito. Aí continuei no Peg-Pag, até hoje passei por vários depósitos, tanto Peg-Pag, como... Depois 1978, quando o Pão de Açúcar comprou, passei por vários depósitos. E minha preocupação principal nos depósitos, todos os depósitos que eu passei, era primeiro com o verde. Todos os depósitos, primeira coisa que eu fazia foi plantar bastante árvores, mudas, arrumava, comprava. Em 1978 eu me lembro que quando o Peg-Pag foi vendido, que o Pão de Açúcar comprou, eu me lembro que o Seu Santos, a diretoria gostava muito também do verde. Segundo o Seu Paulo Lima me dizia, que foi o meu primeiro gerente, depois diretor, ele falou: “Olha Cirilo, o que der para você pôr de verde, você pode pôr”; Então hoje esses depósitos do Pão de Açúcar que são muito bonitos, você pode ver que são muito verdes. Quem conhece vê que a minha preocupação sempre foi o meio ambiente. Tive uma preocupação com o meio ambiente, então sempre gostei de árvores frutíferas, ornamentais, porque fica a coisa mais linda. Até para o trabalho, coloca uns bancos. Tenho, por exemplo, nesse depósito, tem um recanto lá onde que tem umas carpas, onde tem uns passarinhos, tem uns bancos para os funcionários na hora do almoço se quiserem passar o tempo. E isso daí é muito gratificante e também até para a mente, para você descansar. Às vezes quando a gente está muito preocupado vai naquele, então é uma beleza.

 

P/1 - Agora me explica uma coisa: o depósito é um ponto intermediário entre o fornecedor e o supermercado?

 

R - O depósito nós temos hoje, por exemplo, em São Paulo, o Pão de Açúcar hoje tem o D1, que o depósito de mercearia seca e mercearia liquida; nós temos o D2, que é o depósito de congelados; depois temos o depósito FLV, que é o depósito de frutas, verduras e legumes; e tem o depósito de bazar e eletros em São Paulo. Eu estou no D1, que é o depósito de mercearia líquida e seca. Mas atualmente eu estou mais no departamento que foi criado, o setor de doações, onde a gente atende mais de 120 instituições. Atende-se diariamente. Porque tudo que der para mim aproveitar, eu aproveito. Mercadoria, frutas, verduras, legumes, mercadoria de mercearia, mercadoria modificada do fornecedor. Enfim, faço um trabalho, assim, com bastante amor e carinho, porque a coisa mais importante para você é chegar, por exemplo, visitar uma creche, visitar um asilo, fazer esse tipo voluntário, visitar um hospital e ver uma criança sorrir, vendo aquela alimentação que veio do Pão de Açúcar, então isso é marcante. Quando cheguei numa creche, visitando uma creche e vi o almoço, vi comendo aquela sobremesa, as crianças virem agradecer, e depois saber que aquilo foi doado pelo Pão de Açúcar.

 

P/1 - Isso é fantástico.

 

R - Isso é tão importante, é tão gratificante que o que o Pão de Açúcar  recebe de coisas positivas, orações, é tão importante, qualquer coisa que aconteça. Eu sempre estou recebendo cartas, informações.

 

P/1 - Agora, me fala uma coisa, Seu Cirilo, se a gente for pensar o depósito antigamente, década de 1970 para 1980, né, como que o senhor controlava a entrada e saída de mercadorias antigamente, e como que é hoje?

 

R - Olha, quando o Pão de Açúcar comprou o Peg-Pag em 1978, naquelas alturas o Peg-Pag já estava bem estruturado, já na base da informática. O depósito todo era muito funcional, muito operacional, funcionava perfeitamente.

 

P/1 - Já era informatizado?

 

R - Era tudo informatizado. Localização de mercadoria, programação de entrega, tudo isso. Controle de qualidade eu já fazia. Então, quando o Pão de Açúcar veio para esse depósito aí eu recebi todo apoio da diretoria, toda força para dar continuidade a esse trabalho. E continuei com esse trabalho, no começo foi u pouco difícil porque eles estavam acostumados a trabalhar de uma maneira, então eu queria que trabalhasse daquela maneira que eu aprendi, porque realmente, para mim, foi uma escola o Peg-Pag. Então, a mercadoria, a recepção de mercadoria, a mercadoria tinha que colocar etiqueta de entrada, que não tinha. A primeira coisa que eu fiz quando comecei foi receber mercadoria, colocar etiqueta de entrada para você controlar a saída. Isso foi uma das coisas. Depois outra coisa: a programação. Também não existia uma programação de recepção. Vamos dizer, o comercial comprava lá 50 mil caixas de um produto, o fornecedor ia lá e queira entregar 50 mil caixas num dia só. E assim por diante. Eu precisei fazer um trabalho junto com o comercial. E graças a Deus esse trabalho foi para mim um sucesso, porque eu consegui aquilo e mostrei que era importante para a empresa. Eu sempre perguntava para o diretor comercial: “Vocês querem que eu receba quantidade ou qualidade?” E com isso eu fui colocando. Chegou até um ponto, para você ver, que o comercial naquela época simplesmente chegava a comprar mercadoria e mandava o fornecedor ir lá comigo para fazer a programação da entrega. Eu me lembro que o Senhor Arnaldo, irmão do Doutor Abílio, Seu Peres, Doutor Martinelli, que era o diretor operacional, o Seu Peres era o diretor comercial, todas as sextas-feiras eles iam ao depósito. Aí o Seu Peres um dia chegou e perguntou: “Oh Cirilo, por que o índice de falta está muito alto?” Eu então comecei a tomar nota de todas as perguntas, logo quando o Pão de Açúcar comprou, do Seu Arnaldo, Doutor Martinelli, de qualquer pessoa, comecei anotar. Aí eu montei uma estatística, fiz uma estatística com todas as informações porque eu sabia que na sexta-feira eles iam chegar ao depósito e fazer as perguntas. Montei essa estatística, funcionou muito bem, que hoje funciona normalmente, mas naquele tempo já tinha essa visão. E me lembro que com esse negócio de falta, eu falei: “Bom, para baixar o índice de falta eu vou ter que fazer uma programação de entrega.” Então comecei chamar os maiores fornecedores, que é o caso da Cica, Nestlé, Orniex e outros fornecedores. No final de mês a gente fazia um balanço, todo final de mês era obrigado a fazer o balanço. Então, eu pegava uma listagem do computador, analisava o estoque de cada produto, chamava o fornecedor, vamos dizer, da Cica, que naquela época entregava 150 caminhões, tinha um pedido que dava mais ou menos 100 a 150m caminhões de mercadorias. Eu olhava na listagem e falava: “Bom, prioridades, o que o estoque zerava.” Então, fazia uma programação de tantos caminhões por dia daquela mercadoria que o estoque estava zerado. Segundo, estoque médio e o que estava com estoque suficiente. E comecei a fazer esse trabalho com essas empresas. Aí chegou Seu Peres e Seu Arnaldo um dia e falou: “Cirilo, o que será que aconteceu que o índice de falta diminuiu?” Eu não falei o que eu tinha feito, falei: “Olha, alguma coisa, algum trabalho que a gente está fazendo para melhorar.” E realmente eu me preocupava muito com o índice de falta, e com isso o índice de falta praticamente ficou reduzido, ficou muito baixo. E isso daí então para o comercial e para a diretoria foi muito bom, porque você não perde vendas, né, e tem também a variedade nas lojas. Isso foi marcante.

 

P/1 - E teve, assim, nesse período em que o senhor está aqui, alguma outra inovação que o senhor se lembre? Essa foi implementada pelo senhor, né?

 

R - Foi.

 

P/1 - Teve, assim, alguma outra inovação tecnológica?

 

R - Ah sim, teve. Bom, quando eu comecei a trabalhar praticamente não existia, a mercadoria era toda embrocada.

 

P/1 - O que é isso?

 

R - Embrocada é a mercadoria empilhada uma sobre a outra. E no próprio Pão de Açúcar aconteceu, ele já embrocava no depósito. Então, a mercadoria entrava, eles embrocavam, depois chegava mercadoria nova, ficava na frente, chegava outra. Na hora da saída, saía sempre aquela última a chegar e o produto ia ficando velho. Então, com as etiquetas de localização, com as etiquetas de data de entrada e com a paletização e com a localização toda, com empilhadeiras, com o controle todo, isso praticamente foi eliminado.

 

P/1 - O senhor se lembra quando começou a ter esse uso de empilhadeira?

 

R - Me lembro. Em 1960. Até vou contar um caso para você ter uma idéia. Me lembro que em 1960, quando Peg-Pag comprou a primeira empilhadeira, que foi a empilhadeira Movitec, aqui, nacional, a empilhadeira veio e não tinha o protetor para o operador de empilhadeira. Aí, trabalhando com aquela máquina, o operador foi levantar um parte e bateu no fio da luz e caiu uma caixa na cabeça do... Aí eu falei: “Pôxa, mas tinha que ter um protetor a empilhadeira.” Quando foi comprar a segunda empilhadeira, veio um engenheiro da Movitec e eu falei com o engenheiro: “Olha, na segunda empilhadeira você podiam colocar um protetor, quatro canos e uma tela em cima, porque já aconteceu um acidente desses”. A partir daquela data todas empilhadeiras começaram a sair com o protetor. Quer dizer, aí fizeram a patente em todas as máquinas. Porque durante todo esse trabalho, esse percurso, essa vida, você vai sempre tendo novidade e vai começando a ter idéias do que deve. Então, essa da empilhadeira marcou muito porque evitou muitos acidentes, como evita muitos acidentes. Hoje é por lei, é obrigado a sair tudo com protetor, mas naquele tempo não tinha. Então precisa acontecer um fato, às vezes, para você corrigir um defeito, um erro.

 

P/1 - Seu Cirilo, assim, nessa área, vamos dizer, social, da doação, que o senhor está hoje, ela vem desde quando?

 

R - Olha, a doação praticamente... Eu tenho uma irmã, ela tem 87 anos, que é da Lareira São José, e ela vai toda semana retirar doação. Ela já retirava há mais de 30 anos, 35 anos atrás, quando algum legume, alguma verdura… E ela se lembra perfeitamente do Seu Santos; Seu Santos estava no depósito, lá no antigo depósito do Pão de Açúcar, e ela retirava. Então, ela sempre me diz: “Pôxa, comecei retirar com Seu Santos.” E isso daí me deu mais força ainda para trabalhar nesse ponto. Porque o que se jogava fora, o que eu via ir para o lixo, mercadoria que dá para se alimentar milhares e milhares de pessoas. Então, eu comecei a me preocupar muito. Quando eu voltei, quando eu saí do Tamboré, porque eu fiquei de 1985 a 1990 no Tamboré, depois voltei para o antigo depósito do Peg-Pag, que hoje é o depósito de congelados. Fiquei mais dois anos. Depois de 1992, 1993, eu fui para o depósito hoje, atual, que é da eletro, que é o depósito de mercearia D1, mercearia seca e líquida. E ali eu vi aquela mercadoria que o fornecedor, por exemplo, bonificava, pagava e não levava. Um macarrão, porque estava com um rasguinho, porque estava próximo do - porque aí surgiu o código do consumidor -, porque aí estava próximo do vencimento, ia tudo para o lixo, mandava jogar no lixo. E eu comecei a pensar e ver. Falei: “Com tanta gente passando fome e tanta necessidade!” Comecei a separar isso direitinho, verificar, mandava fazer análise no nosso laboratório. Porque todos esses produtos, antes de eu fazer doações, quando o produto está vencido, quando o produto está numa situação dessas, eu mando fazer uma análise. Se ele estiver próprio para o consumo, faço a doação. E comecei com essa irmã, dei continuidade com essa irmã que até hoje retira. Depois então visitei uma casa de saúde próxima ao depósito, onde tinha 180 leitos e eles estavam passando uma necessidade impressionando, faltando alimentação. Então eu comecei a dar para esses irmãos. Chama-se Casa de João de Deus. São os irmãos que cuidam de doentes, dependentes de drogas, doentes mentais. Um trabalho muito bonito. Aí depois passei a dar para uma outra casa também próxima do depósito, chama-se Casa de Saúde Nossa Senhora de Fátima, que são só para mulheres. Fui visitar, ver.

 

P/1 - Tem quantas instituições?

 

R - Hoje temos mais de 120 instituições. Sai uma média de 250 toneladas de mercadoria por mês. Então, todos os dias têm 10, 15 Kombis, peruas, carregando doações.

 

P/1 - Vocês que fazem a entrega?

 

R - Não, eles retiram. Mas a minha preocupação é saber o que eu estou doando, é fazer análise, é verificar, é analisar. E para se fazer isso foi criada uma estatística. Você tem que fazer uma visita à instituição, analisar, marcar todas as informações, o tamanho, o atendimento, às crianças, quantas pessoas, as acomodações, ver tudo. Isso eu até pedi para um médico, amigo meu, e uma médica, que fizessem a primeira visita, porque eles trabalhavam comigo no depósito. O médico, Doutor Marcos, trabalhava comigo no depósito e a esposa dele também era médica. Eu falei: “Doutor Marcos, dá para o senhor visitar uma creche que está solicitando, e o senhor fazer um diagnóstico se realmente....” Ele foi, ele fez, depois ele fez perfeito. “Olha, Seu Cirilo, o senhor pode dar porque realmente a creche precisa, é organizada.” Então, aí começamos pôr em prática isso. Então visitei. Tanto que eu parando agora dia 31 de outubro, a minha idéia é dar continuidade como voluntário fazendo essas visitar.

 

P/1 - Continuar, né, o senhor não vai parar.

 

R - Continuar fazendo essas visitas porque é coisa... Você ir num asilo, por exemplo...

 

P/2 - É um trabalho social bonito e engrandece o espírito.

 

R - É. Eu fui fazer uma visita em Campos de Jordão, uma Casa Divina Providência, onde tem uns 70, 80 idosos, e são das irmãs. Então, como eu também dou doação, eu fui fazer essa visita. Já fui duas vezes lá. Fiquei impressionado de ver o tratamento que as irmãs dá para os idosos. Tinha uma doente, ela era muda e surda, numa cadeira de rodas. Então chegamos, cumprimentamos, conversamos com os velhinhos, passa a mão, cumprimenta. A gente vê a alegria. Essa mudinha e surda que estava na cadeira, ela só sorria, mas ela entendia tudo o que a gente falava. Conversando você via aquela alegria. E andando pelo corredor, daqui a pouco estava a mulherzinha com a cadeira de rodas atrás. Você voltava por outro corredor, ela de novo. E querendo, e sorrindo, só sorrindo, só sorrindo.

 

P/2 - Fora esse trabalho bonito que o senhor faz junto à empresa, que é dignificante, esse trabalho social junto à comunidade, o senhor tem uma longa vida aqui dentro do Grupo, praticamente a sua vida se mistura com os mesmos anos de história do Grupo. Que fatos marcantes, interessantes que o senhor poderia nos contar, já que o senhor tem tanta vivência dentro da casa? O que o senhor poderia nos dizer do quanto o que mais possa ter marcado?

 

R - Olha, referente a isso daí eu acho que eu faço esse trabalho com amor, porque isso já vem de berço. E pensando no Pão de Açúcar, que eu adoro o Pão de Açúcar, visto a camisa, e tudo que eu puder fazer eu faço. E tudo isso eu faço visando também a empresa, porque o que a empresa recebe eu sinto na conversa que eu tenho com as instituições, com o pessoal que vai diariamente. Eu gosto de conversar, saber como eles usam a mercadoria, orientar como usa aquela mercadoria. E isso daí eu sinto, porque quando acontece uma coisa no Pão de Açúcar, o caso que desabou lá o telhado do Extra, o que eu recebi de telefonemas, o que eu recebi de cartas precisando de alguma coisa. E mandei para o... Então, tudo... Quando aconteceu o acidente também lá do helicóptero. Então, isso daí a gente vê, e eu acho que isso daí enobrece muito. E é por isso que também o Pão de Açúcar é sempre crescendo. Por que é um trabalho que o Pão de Açúcar só faz isso, que as outras empresas não doam não. Por causa do Código do Consumidor, então elas trituram, incineram a mercadoria. E eu, o que eu fiz: na ocasião, então peguei, vim aqui no escritório, vim e procurei Doutor Pedro, falei com Seu Angelo, que era o diretor do Recursos Humanos. Falei com um advogado, Doutor Mário, se não me engano. E também vim na prevenção e trouxe uns produtos do depósito, produtos novos, vencidos, trouxe laudo do laboratório para mostrar se eu podia continuar a doação ou não. Porque surgiu o Código do Consumidor, então aí pediram que eu continuasse fazendo as doações. E graças a Deus, até hoje, todos esses anos, doando 250 toneladas por mês, nunca tive uma dor de cabeça, uma reclamação, nada. Pelo contrário, o Pão de Açúcar, nessas instituições, o que eles passam de mensagem positiva é impressionante.

 

P/2 - Dentro dessa história de doação, que fato histórico da empresa marcou o senhor ao longo desses anos, com  toda a sua experiência de casa? Alguma coisa que o senhor lembre e queira contar?

 

R - O que marcou também, muito, eu sinto uma alegria imensa, que em 1998, quando o Pão de Açúcar fez os 50, anos, eu fui convidado para fazer a entrega do livro do Pão de Açúcar para o Seu Santos. E aquilo para mim foi uma emoção muito grande, entregar, no meio de tantos funcionários e ser o escolhido para fazer essa entrega. Então, foi uma emoção. E também de receber do Seu Santos o livro, e depois o Seu Santos me atender na sala dele e autografar esse livro. Ainda ontem estava vendo esse livro, relendo algumas passagens.

 

P/2 - O que o senhor lembrou olhando para essas passagens, olhando para trás dessa história que o senhor conhece, o que te chamou a atenção?

 

R - O que chamou a atenção foi o Seu Santos, toda vez que ele faz... Ele sempre visitava os depósitos, lojas. Até esse ano eu já estive com ele, que ele foi visitar o depósito. E chegando no depósito, o que chama a atenção é que todo funcionário quer conhecer o Seu Santos, pela simplicidade dele, pela educação. Porque ele chega, ele cumprimenta o funcionário, ele conversa, ele chega desde o faxineiro até o gerente, até o diretor, é “bom dia, como vai? tudo bem?”, e faz sempre aquela pergunta que eu nunca me esqueço: “Quanto tempo você está na empresa?” Então, quanto mais tempo...

 

P/2 - Mais amigo, então, do Seu Santos? Digo amigo do Seu Santos, não só funcionário.

 

R - Virei, e sinto. Ainda esse ano, por exemplo, quando ele esteve no depósito, que ele foi visitar o depósito, como aquele pessoa mais antigo já tinha saído, então o diretor pediu que eu acompanhasse o Seu Santos por ser o mais antigo e ter um conhecimento, mais uma amizade com ele. Então, acompanhei Seu Santos, fiquei do lado dele. E as perguntas, respondendo, ajudando em tudo que foi possível. E nunca esqueço que a mão dele sempre do meu lado, no meu braço. Acompanhei ele até o carro, entrando. Já estive na casa dele também. Então eu tenho uma consideração com Seu Santos como um pai.

 

P/2 - O senhor gostaria de deixar alguma mensagem para ele, aproveitando esse registro do depoimento da história da empresa?

 

R - Eu gostaria, antes de sair, deixar uma mensagem para Seu Santos e conversar pessoalmente, me despedir pessoalmente com ele. Porque ele nunca me esqueceu, sempre pergunta, vendo. Então, isso desde o início, em 1978, quando o Pão de Açúcar... Em 1978, também, quando inaugurou parte de um depósito, que teve a missa. Esse foi um outro fato marcante na minha vida que eu nunca me esqueço. Em 1978 o Pão de Açúcar comprou o Peg-Pag, depois em 1978 teve a inauguração de uma parte do depósito que era da Eletro, onde teve uma missa às 10 horas, mais ou menos. Não sei se vocês se lembram? Teve essa missa que foi muito bonita. E antes dessa missa o Doutor Abílio passou no depósito que eu estava, que era o depósito do Peg-Pag, passou no depósito com a esposa e as crianças, que hoje são os adultos. E nunca me esqueço, o Doutor Abílio entrou com as crianças, visitou o depósito e até falou comigo: “É Cirilo, acho que você sabia que eu vinha aqui.” Eu falei: “Não, Doutor Abílio, o depósito sempre eu mantenho desta maneira, sempre limpo, organizado.” Mas foi também o que marcou. E as crianças devem lembrar dessa visita em 1978.

 

P/1 - Interessante.

 

P/2 - E tem algum caso engraçado dentro dessa história toda de vida, que o senhor possa lembrar?

 

R - O quê?

 

P/2 - Alguma coisa engraçada que o senhor possa ter vivenciado durante esse tempo todo na empresa?

 

R - Mas voltando em 1978, um outro fato também importante. Quando o Pão de Açúcar, a diretoria do Pão de Açúcar tomou posse, Seu Paulo Lima, que foi o primeiro gerente e depois diretor, eu, sendo do Peg-Pag, não sabia se eu ia continuar a trabalhar na empresa, eu fiz o seguinte: peguei toda documentação daquele depósito, o layout do depósito, a planta, toda parte elétrica, alvenaria, hidráulica, tudo, peguei tudo direitinho, entreguei para o Seu Paulo Lima e falei: “Olha, Seu Paulo, aqui tem tudo o que o senhor precisa saber desse depósito - que era o depósito novo -, até onde tem as goteiras eu tenho aqui marcado, até isso.” Seu Paulo ficou...

 

P/1 - Emocionado.

 

R - É, ficou ali, que falou: “Cirilo!” Passei para o Seu Paulo, ele falou: “Você vai continuar, você tem carta branca.” Eu falei: “Então o senhor precisa fazer uma reunião com o pessoal, porque a gente vai fazer essa mudança.” E outra, passando uns dias também, estou na minha sala, chega um dos motoristas dos transportes. Isso é para você ter uma idéia, ver como que é a vida. Chegaram lá uns dez motoristas, entraram sem saber se podia entrar ou não, entraram para me pressionar: “Seu Cirilo, o senhor mandou a gente pôr baú nos caminhões, hidráulico, e agora o Pão de Açúcar diz que não vai ter nada desses caminhões, que o Pão de Açúcar é caminhão aberto. E como é que fica, quem vai pagar as despesas?” Aí e falei para os motoristas: “Olha, calma, porque eu também não sei se eu vou ficar na empresa, mas eu vou mostrar o meu trabalho, o meu serviço, a minha honestidade, vou mostrar, como vocês têm que mostrar. Então vamos mostrar que isso é importante.” Aí desceram e ficaram na... Porque realmente falaram para os motoristas, o chefe do transporte de lá, o encarregado. Falou: “Vocês vão tudo para o olho da rua!” Então ficou aquela pressão. Aí, o que eu fiz? Como Seu Arnaldo ia toda semana no depósito, Seu Peres, Doutor Martinelli, então, numa sexta-feira eu coloquei um caminhão aberto e coloquei um caminhão que era do Peg-Pag, que era caminhão fechado, com hidráulico. E na hora que eles chegaram eu comecei a carregar para mostrar por quanto tempo levava um caminhão aberto e quanto tempo levava um caminhão fechado, e também a vantagem e desvantagem de um e de outro. Dali para frente, o Pão de Açúcar, Seu Paulo também já começou. Seu Paulo já tinha visto que realmente era os caminhões fechados que funcionava. Dali para frente acabou-se os caminhões abertos e todos carros o Pão de Açúcar passou a usar esse tipo de transporte. E hoje, para você ter uma idéia, hoje várias transportadoras que nós trabalhamos, começaram comigo com um caminhãozinho 46, 50. Caminhão, hoje, um dos transportadores começou comigo com um desses caminhãozinho, hoje ele está com mais de 100 caminhões, carreta. Outro está com 60, outro está com 50. Foi onde que eles começaram.

 

P/1 - Beleza. Seu Cirilo, infelizmente nosso tempo está acabando, a gente vai ter que... O que o senhor achou de ter ficado aqui esse tempinho com a gente, ter contado um pouquinho da sua história?

 

R - Ah, isso para mim foi muito importante, porque de poder também conversar com vocês. E é um motivo de alegria porque a gente passa nessa fase na vida por tantas coisas, né, momentos bons, momentos difíceis, e isso eu passei, tanto no Pão de Açúcar como no Peg, de horas difíceis. E, graças a Deus, superando todas essas dificuldades e vendo o Pão de Açúcar crescer e crescer. Então, é muito gratificante você ficar, e ficar tanto tempo numa empresa como eu fiquei. Porque toda vez eu sempre procurei colaborar com o novo diretor que vinha, eu sempre procurei dar todas informações. Porque a gente tem que ser real, tem que ser realista, sabendo que não ou fosse ficar. E isso daí para mim marcou, em ver o Pão de Açúcar crescer também dessa maneira. Porque é uma organização, tem uma direção, uma diretoria, tem uma solidez impressionante. Eu até queria aproveitar a oportunidade, agradecer Doutor Abílio, Seu Santos, toda diretoria pelo apoio que sempre recebi, pelo respeito que eu sempre tive e recebi. Não tenho palavras para agradecer. Porque como o Pão de Açúcar não existe uma empresa. Passei por várias empresas, mas no Pão de Açúcar eu senti a diferença. Porque você tinha liberdade de trabalhar, de conversar, um tratamento todo especial aos próprios funcionários. Eu acho que hoje já mudou, está mais profissional, mas até hoje só tenho que agradecer por tudo que eu tenho, pela minha família, pelo meu trabalho, pela alegria de ter uma diretoria, ter Seu Santos, ter Doutor Abílio, que sempre também respeitei muito. E só tenho que agradecer um obrigado. Não há palavra, não há coisa que possa agradecer a bondade deles.

 

P/2 - Com certeza.

 

P/1 - Então, em nome do Museu e do Grupo Pão de Açúcar eu e a Regina agradecemos a entrevista do senhor. Muito obrigada.

 

R - Eu também quero agradecer Seu Augusto, também, que agora está como presidente, né? Seu Agusto, o meu diretor, Doutor César, e toda diretoria, porque sempre me deram todo apoio. E quero aproveitar e agradecer também o Pão de Açúcar, em nome de todas instituições, que todos eles mandam cartas e cartas de agradecimento. Inclusive eu trouxe uma carta aí, a coisa mais linda, que eu recebi ontem, da primeira instituição. Depois eu vou mostrar para vocês.

 

P/1 - Tá bom, obrigada.

 

R - Então, muito obrigado a todos, desculpe de alguma falha.

 

P/1 - Imagina! Não, não tem falha não.

 

P/2 - Foi super bem.

 

P/1 - É o que eu falei para o senhor, é um pouco a extensão do que a gente estava conversando lá fora, com a diferença que agora a gente está gravando, né?



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