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História

“Planejar é você passar para o papel toda a sua experiência adquirida.”

História de: Maria Lúcia Villas Bôas de Faria
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2005

Sinopse

Maria Lúcia Villas Bôas de Faria nasceu em Rezende, no estado do Rio de Janeiro, no ano de 1956. Mudou-se para Foz do Iguaçu no ano de 1981 após se formar em Engenharia Elétrica na Universidade Federal de Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais. Conta sobre sua experiência de trabalho vinculada a Usina Hidroelétrica e sobre os momentos marcantes de sua trajetória.

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História completa

P – Por favor, diga qual é seu nome, local e data de nascimento. Nome completo.
R – Maria Lucia Vilas Boas de Faria. Nasci em Resende, no estado do Rio. 
P - E data. 
R – Em 7 de maio de 1956. 
P – Qual é o nome dos seus pais, por favor. 
R – Carlos Sampaio Vilas Boas e Josefina Rosemburg Vilas Boas. 
P – Qual era a atividade deles?
R – Meu pai era contador e minha mãe professora. Minha mãe fez Educação Física e pra época dela também se considera que foi também, pela atividade que ela exercia, também uma pioneira na época, né. Ela foi muito ativa nas atividades dela. 
P – Como é que você chegou em Foz do Iguaçu e porque? Como é que foi isto?
R – Eu cheguei à Foz do Iguaçu em 1981. Eu me formei em dezembro de 80.
P – Formou em que?
R – Formei em Engenharia Elétrica. 
P – Onde?
R – Em Juiz de Fora. Na Universidade Federal de Juiz de Fora. Em Minas. Em dezembro. E depois comecei a procurar emprego, ne. E a minha família tinha um amigo que estava trabalhando aqui na usina. É o Francisco Fortes. E conversando com o Chico surgiu a oportunidade de vir pra cá. Então eu vim por intermédio da indicação dele, e vim pela Logos, que na época não tinha o funcionário Itaipu, empregado Itaipu. 
P – O que era a Logos?
R – A Logos era uma empresa de consultoria que fazia a fiscalização da construção e montagem da usina. Então eu vim pra ficar exatamente pela Logos.  E uma coisa que eu sempre trouxe comigo foi a minha conversa com o Chico, né. Porque era uma época onde pra conseguir algum emprego já tava entrando naquela crise dos anos 80, começando, e não tinha muita oportunidade. E aí o Chico falou pra mim: “Olha, eu estou te dando a oportunidade. Mas daqui pra frente tudo vai depender de você.” Então isso trouxe a minha vida profissional até hoje, ne. Então a oportunidade foi dada, ne. 
P –Que foi trabalhar na Logos.
R – É, foi meu primeiro emprego. Que sempre um recém formado, pra conseguir um primeiro emprego é difícil, né. Então eu tive a sorte de ter esta oportunidade. E aí vem aquela, é em Foz do Iguaçu. Então aquela, vieram os questionamentos. Mas o que que você vai fazer em Foz do Iguaçu sozinha naquele fim de mundo? Que não tinha nada, ne. Eu falei: “Ó, eu vou enfrentas estes desafios porque senão será que eu vou conseguir um outro emprego?” Então foi aí que eu aceitei vir enfrentar este desafio que era trabalhar na usina, na construção da usina e vir sozinha morar em Foz do Iguaçu. Então foi assim que eu cheguei. 
P – E qual foi a receptividade?
R – Olha, eu fui muito bem recebida. Tinha sempre, a gente via né aquele momento da chegada. Como seria uma mulher aqui, a primeira mulher, como que seria. Então eu via as pessoas olhando assim e imaginando, ne, na hora que olhavam pra mim, ficavam naquela. Acho que faziam uma outra idéia de quem seria a pessoa. Mas fui muito bem recebida. 
P – E você veio trabalhar num canteiro de obras?
R – Vim, vim trabalhar no...
P - E ficava hospedada onde?
R – Nós morávamos num hotel. Os solteiros, nós morávamos no hotel todos juntos, todas as áreas. O pessoal...
P – E você lá era a única mulher?
R – Não. Tinha mais mulheres. Porque aí tinham as assistentes sociais, tinha médicas também.
P - Só na parte de engenharia que era única?
R - É, na parte da obra em si que ficava aqui dentro. E assistente social tinha. Eu até conheci uma assistente social que coincidentemente era amiga da minha cunhada de Juiz de Fora. E que namorava na época um rapaz da minha cidade que era engenheiro. Então tinha as mulheres. 
P – Você era solteira?
R – Era. Eu era solteira. Então nós morávamos no hotel e o ambiente era excelente né. Aí todos aqueles que vinham sem a família também, até conseguir uma casa. E ficávamos todos nesse hotel. Então foi muito bom o trabalho aqui. 
P – E você teve algum... Conta alguma coisa marcante no trabalho, quer dizer, na vida profissional.
R – No trabalho assim o que eu considero marcante pra mim foi a chegada, né. Que eu saí de São Paulo, eu estava na Logos em São Paulo e lá tava tudo encaminhado pra eu vir trabalhar na parte de engenharia do departamento de montagem. Estes seriam serviços de engenharia de campo, né. E quando eu cheguei aqui eu não fui para essa área. Por eu ser mulher o chefe do departamento na época disse que não aceitaria, que não queria mulher trabalhando lá na montagem. Então foi aí que eu, pelo organograma da Itaipu na época da superintendência de obras, o planejamento da montagem das máquinas ficava assim fisicamente no local onde ficava o departamento de montagem. Mas pelo organograma ele era ligado diretamente á superintendência da obra. Então eu passei pra área de planejamento.  Então fui pra área, tudo bem e tal, e ainda demorou alguns dias para que o chefe fosse me conhecer. Até que o engenheiro com quem eu trabalhava na época ___________ hoje nós vamos lá, ne. O Henrique me levou pra conversar com o Zé Luiz e para conhece-lo, ne. Então começamos a conversar e tal e de repente o rumo da conversa que ele levou foi sobre máquina de costura. Então ele só conversou comigo sobre máquina de costura.  Aí ele virou pra mim e me perguntou: “Você sabe o que é planejamento?” Aí eu fiquei meio assim, ne, e ele falou: “Planejar é você passar para o papel toda a sua experiência adquirida.” E eu pensei comigo. Eu recém formada, nunca trabalhei. Então quer dizer que eu sou um zero a esquerda, como que eu venho pra trabalhar num planejamento se eu não tenho experiência nenhuma. Então essa foi meu primeiro choque, o contato com ele. Mas eu sempre tive uma persistência, uma vontade de ____, sempre gostei de desafios, ne. De vencer desafios.  E como o passar dos tempos, como eu não sou uma pessoa acomodada, eu sempre fui, apesar de eu trabalhar no planejamento, eu ia pra área de projeto, eu rodava o campo direto, ficava nas frentes de serviço. Então eu sempre fui ativa. E com o passar do tempo ele foi me aceitando. Aí então ele viu que não era a questão de uma mulher ta...
P – Mas você ficou só no planejamento. 
R – Fiquei, mas a gente ficava no mesmo local. Então nós tínhamos reuniões, eu participava, tudo, né.
P – E com o tempo o que aconteceu?
R – Com o tempo até no caso quando o Henrique saía, viajava, não estava presente, e ele precisava de uma informação sobre o andamento da obra, todas as questões ligadas ao planejamento, então ele me chamava, já passou a chamar. Então eu vejo com isto que eles foram me aceitando, me respeitando até como profissional, né. Que eu fui aos poucos mostrando que uma mulher poderia, tinha capacidade de fazer o serviço igual a um homem. 
P – Você com esta nova fase, vieram outras ou não?
R – Demorou pra vim outras, sabe. _______passou até chegar uma outra engenheira demoraram anos e vinham estagiárias. Então tinha épocas que tinha estagiária e a gente acompanhava.  Então eu fiquei aqui na obra até 1987. P – E depois? 
R – Depois eu fui para Itaipu no Rio. Eles estavam abrindo um novo serviço ligado à área de planejamento empresarial da Itaipu. Aí eu fui convidada para fazer parte dessa equipe. Foi quando eu fui para o Rio.
P – E você ta lá?
R – Não. Aí nós ficamos no Rio até 1990 quando encerrou o escritório do Rio, né. Do Rio São Paulo e nós fomos transferidos para Curitiba. E lá em Curitiba ficamos também a nossa área até 1995. E 95 retornei a Foz. Nessa época eu trabalhava já na área de engenharia, ne. Superintendência de engenharia e em 1998 eu retornei para a área de obras. E hoje estou aí fazendo parte da equipe que ta montando as duas novas unidades. Então nós fazemos parte da equipe de gerenciamento, da fiscalização dessas máquinas. 
P – Então você está realmente na...
R – Então eu trabalho, vamos falar assim, você trabalhou, exerceu de fato a engenharia elétrica? E não. Eu vi a oportunidade do planejamento me abrir as frentes. Então você quando trabalha num planejamento desse porte você tem acesso a praticamente todas as áreas.  Então isso te dá uma visão global de um empreendimento. Então isso para o meu crescimento profissional foi muito bom. Então veja, esta oportunidade foi o espaço que eu consegui dentro da Itaipu, até por ser mulher, tudo, eu até gostei, vamos falar assim, de ter ficado nessa área porque te da uma visão muito boa do que é um empreendimento. 
P – Agora eu queria para terminar a entrevista que já estamos infelizmente na hora. O que você achou deste projeto de resgatar a memória através da fala dos funcionários? O que você achou de falar dessa sua vida?
R – Olha, eu achei que foi uma experiência fantástica. Quer dizer, isso aí porque justamente é um pouquinho da história de cada um que fica registrado porque a gente só ouve, ne. Já saiu um livrinho dos causos. Então aquelas são as pessoas que viveram em diversas etapas e áreas da empresa e tão mostrando ali o que foi esta construção da maior usina do mundo. Então isso eu vejo como um trabalho sensacional. 
P – Certo. Muito obrigado pela entrevista. 

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