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História

Pioneirismo feminino nas plataformas de petróleo

História de: Rosilene Silva
Autor: Thalyta Pedreira de Oliveira
Publicado em: 29/06/2021

Sinopse

Nasceu no Ceará, em 1965. Cursou escola técnica e entrou para a Petrobras em 1984. Trabalhou com análises químicas. Foi uma das poucas mulheres nessa época a trabalhar em plataformas de petróleo. Também participou do movimento sindical. Trabalhou em diversos setores da empresa.

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História completa

Projeto Memória Petrobras Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Rosilene Silva Entrevistada por Jorge Moreira Mossoró, 15 de fevereiro de 2005 Código: RNCE_CB009 Transcrito por Charles R. Silva Revisado por Érika Gonçalves P/1: Boa tarde, senhora R: Boa tarde. P/1: Rosilene. Eu queria começar esta entrevista com a senhora falando o seu nome completo, local e data de nascimento. R: Rosilene Silva, nasci em Fortaleza, Ceará, no dia 30 de agosto de 1965. P/1: Senhora Rosilene, eu queria que a senhora falasse pra gente como foi seu ingresso na Petrobras. R: Eu tava fazendo escola técnica, isso em 1984, quando apareceu o concurso internamente lá na escola. Aí foram os químicos e representante do setor pessoal, aplicaram a prova num dia de semana e na semana seguinte a gente soube o resultado. Pediram que a gente se apresentasse em Natal, em 24 horas, então peguei tudo que eu tinha e fui falar com a minha família que eu iria sair de casa pra trabalhar na Petrobras e dividiu a família, foi divisor de água. “Ela não vai, ela não vai”, aí a minha mãe bancou e disse: “ela vai sim”. Aí eu fui pra Natal e gente, chegando em Natal, nesta época a coisa era, a UO RNCE [Unidade de Operações de Exploração e Produção do Rio Grande do Norte e Ceará] ainda era pequena, então a gente não teve hotel, não teve passagem, então chegou literalmente como uma boa retirante nordestina com uma mala na cabeça. Chegou num domingo à noite e na segunda foi assinar a carteira profissional, então eu nunca tinha trabalhado, eu tinha tirado o CPF e identidade e carteira profissional, então chegou lá, que na época já era um.... a maior da América Latina e tudo, e você entra e vai começar trabalhar e pronto, aí foi a primeira experiência. P/1: Queria que a senhora falasse um pouquinho sobre o trabalho da senhora e locais que a senhora trabalhou. A senhora só trabalhou aqui? R: Eu entrei na Petrobras, em Natal, fiquei doze anos em Natal e oito anos eu estou aqui em Mossoró. Eu trabalhei inicialmente no laboratório, passei dezenove anos fazendo análise, nos últimos dois anos agora eu já estava na parte de contratação, compras e fui convidada pra trabalhar com o gerente do ativo. Atualmente eu estou exercendo a função de secretária do gerente do ativo, tá sendo uma experiência nova. P/1: Eu queria que senhora falasse um pouquinho sobre a Petrobras aqui no Rio Grande do Norte. R: Quando eu entrei na Petrobrás do Rio Grande do Norte, em 1984, era assim uma coisa muito grande. Era sonho de todo mundo que terminava a escola técnica, era passar num concurso da Petrobras, porque era uma oportunidade de emprego imediato, uma remuneração muito boa e mundo de experiência. Você saia da escola e entrava numa empresa grande que te dava curso, que fazia você viajar, conhecer outras realidades e que investia muito em pesquisa. Mesmo a gente estando aqui no Nordeste, e o Centro de Pesquisa sendo no Rio, a gente tinha um intercâmbio muito grande, você trocava informações muito rápidas porque os meios de comunicação sempre foram uma busca de tecnologias da Petrobras, então a gente tinha ramal que falava com o Rio, uma das primeiras empresas a ter rede de informação integrada e tudo, foi a Petrobras aqui do Rio Grande do Norte, então isso era, a gente sempre tava na frente. P/1: Queria que senhora falasse um pouquinho sobre as lembranças mais marcantes que a senhora tem aqui da Petrobras. R: Eu lembro, eu entrei em 1984, em julho e próximo do final do ano eu tive que embarcar pra uma plataforma e eu fui pra plataforma e eu não sabia nada como era, tinha o briefing, você via como eram os primeiros socorros se acontece algum acidente, e fui, cheguei na plataforma, eu era a única mulher. Embarcada tinha eu na área todinha de Ubarana e a enfermeira e quando eu cheguei foi assim uma recepção de princesa, me ofereceram água mineral pra eu tomar banho, leite condensado como sobremesa e eu não entendia nada, porque eu fui toda paramentada pra trabalhar e achando, e os rapazes assim ficavam..., eu era muito franzina, “a senhora”, “a senhora”, “a senhora” e me botaram... Eu ia ficar 15 dias, acabei ficando 18, porque ia tirar férias de uma pessoa e não sabia que a minha função de técnico químico era o condutor da baleeira, que era a parte que fazia salvatagem. Eu não tinha feito este treinamento, mas tava lá escrito no procedimento que quem era o técnico químico da área ia conduzir o motorista da baleeira, eu não sabia dirigir, muito menos uma baleeira. Aí juntou toda equipe, “vamos fazer um simulado” e botam dentro baleeira e os homens todos atrás, eu lá com a responsabilidade. E eu: “mas quem vai me ensinar a mexer nisso daqui?”.E foi muito interessante porque aí, uns começaram a enjoar e na frente de mulher, homem não quer perder nunca, então ficava, “se ela não enjoa, a gente não vai enjoar” e eu ia e dizia: “calma, a gente vai”. Eu cedi meu lugar, terminei me transformando em enfermeira e foi bastante interessante, porque a gente ficou lá, fez todo esse treinamento, demorou umas duas horas, subimos e tal, aí os comentários no almoço era que tinha sido herói. Começaram a passar rádio, “ela fez isso, ela fez aquilo”, eu achando que na minha frente era tudo muito sério e começaram a me botar pra falar no rádio. Eles botaram todos os rádios no mesmo canal e eu ia passar as informações das análises que ia fazendo, terminando. E terminado de fazer as análises estão me chamando no rádio de novo pra passar, “não deu certo” e eu: “como que o rádio não dá certo?”, aí foi que eu escutei o comentário na cozinha: “já é a terceira vez que ela vai no lá rádio e tá todo mundo usando o mesmo canal pra escutar a voz dela”. Então era assim, era um tratamento bem especial, bem interessante essa fase. P/1: Rosilene, a senhora se lembra de alguma história, algum caso engraçado que aconteceu, de famosos casos da Petrobras? R: Ah, tinha assim uns casos de que o pessoal pescava na plataforma, são tantos a gente fica assim, tem que puxar na memória mesmo. Assim um bem específico acho que daqui a pouco eu lembro, na hora. Teve esse do meu embarque. Ah, teve um assim, eu embarquei tanto, eu tirava férias dos outros técnicos e eu era a única mulher da turma, devia ter uns dez técnicos e eu era a única mulher, aí quando esse do mar ficou de férias eu fui, teve um outro que foi aqui em terra, nessa região aqui de Mossoró e deu uma chuva muito grande e entre o acesso ficou totalmente é..., rompeu estrada e tudo, então o que é que aconteceu? Eu vinha com uma caixa de isopor cheia de reagentes químicos pra levar pra um gerador de vapor, que ficava lá no Ceará e a estrada rompida, não passava ônibus, caminhão, nem nada, o que eu fiz? Descemos do carro eu e o motorista, me acomodaram numa canoa, num barquinho mesmo, aquela coisa improvisada, eu botei os reagentes, atravessei, virou um rio caudaloso e aí atravessei, fiz as análises, deixei os reagentes que eu tinha que deixar, era eu que iria, tipo, é, repor estes reagentes que se acabavam lá, nesse ponto de apoio e ia fazer as análises, checar lá. E aí deixei, na volta, voltei, botei tudo no carro e fui. Quando eu tava no caminho de Natal, com a chuva muito grande, a polícia rodoviária me parou e eu vinha, como eu ia fazer as análises eu voltava com as amostras de água e eram cinco recipientes de vidro de 20 litros e eu cansada e sonolenta, umas nove horas da noite, numa sexta feira, um policial rodoviário me parou. “A senhora tá conduzindo combustível?”. Eu disse: “não senhor”. “Mas a senhora não trabalha na Petrobras? Esse líquido aí deve ser gasolina.” Eu disse: “Não senhor, isso é água.” Aí eu tive que abrir, ele foi cheirar vasilhame por vasilhame. Eu disse: “senhor, eu sou técnica química, tô fazendo análise de água”, porque ele não acreditava, ele achava que eu tava conduzindo combustível e queria dar uma multa ou fazer qualquer coisa assim e eram essas coisas, aconteciam sempre, por ser mulher, por ser muito jovem na época e tá com um peso da Petrobras no crachá. P/1: A senhora é sindicalizada? R: Sou. P/1: Já exerceu algum cargo? R: Já, eu fui..., eu participei de uma chapa de oposição, na época de 1986, mais ou menos, acho que a época foi essa e nós fizemos uma chapa pra um sindicato mais democrático, na época, e nós vencemos, a nossa chapa era oposição sindical e fizemos um trabalho muito interessante aqui em Natal e nas cidades aqui do Rio Grande do Norte, porque a gente tinha uma proposta de gente jovem, que não tinha muitos vícios e foi no final da Ditadura, já no final do Governo Figueiredo, a gente teve que enfrentar..., a gente vinha com todo aquele receio, mas ao mesmo tempo com uma vontade muito grande de acertar. Participamos também da Campanha “O Petróleo é Nosso”, eu fui lá pro Alecrim recolher assinaturas, isso a gente fazia assim com um ideal a flor da pele, era bastante interessante. P/1: Essa nova chapa era..., basicamente a senhora era a única mulher ou não? R: Tínhamos duas ou três mulheres, era eu, Míriam e Evânia, acho que mais ou menos isso. A maioria era de homens e na época da eleição a gente teve que enfrentar certos vícios que tinham na época, de não de compra de votos, mas aquela coisa viciada, você vota no amigo, então a gente queria que as pessoas votassem na idéia, na proposta, então a gente teve, pra ter essa democracia, a gente teve que ir pros locais de votação, nós da chapa dormíamos com as urnas e um representante nosso da oposição e um representante da situação. Então era uma coisa que era vigiada vinte quatro horas por dia, a gente queria que essa eleição fosse realmente bem séria e representasse esse novo ideal que a gente trazia na época. P/1: A senhora saberia dizer quais são as principais conquistas do sindicato aqui em Mossoró? R: Aqui em Mossoró? Nesses anos todos a gente conseguiu unir a categoria, o sindicato do Rio Grande do Norte por um bom tempo foi uma grande referência nacional. Quando íamos para os congressos, então, o Rio Grande do Norte chegava, a gente puxava sempre novas idéias e tal, a gente tinha um ímpeto assim , acho que muita gente vinha do movimento estudantil, tinha muito geólogo, engenheiros e técnicos, um ou outro já era político de carreira, digamos assim, mas a maioria vinha do movimento estudantil, então o que aconteceu é que a gente fazia tipo assim, a gente teve uma época na campanha salarial que ninguém tava aguentando mais, então elaboramos o quê? Fizemos uma grande fogueira e queimamos nosso contracheque, então parece coisa de gente que tá em faculdade e enfrenta a reitoria, essas coisas. A gente tinha esse ímpeto e as conquistas foram essas, a gente mostrava sempre pra categoria que as ideias eram importantes e foi uma coisa legal. P/1: Como que a senhora vê hoje a relação da Petrobrás e o sindicato? R: Ah, ela tá muito bem construída, eu acredito que assim e nesse atual Governo, eu consigo visualizar assim uma conquista muito grande, dá gente confiar de que as estão mudando. A gente, de uma certa forma, não teve greve, não teve certos movimentos ditos de vanguarda, mas a gente tá contribuindo pra um governo que a gente acredita. P/1: Dona Rosilene, o que a senhora acha de ter participado do Projeto Memória Petrobras? A senhora quer deixar alguma coisa pra gente? R: Ah, interessante que a gente resgate e vê que a gente participa como um belo jardim, como uma florzinha a gente tá lá e contar isso aí, não deixar se perder, que eu já estou com vinte anos, mais quinze eu me aposento, então nunca fica registrado nada, então fica essa oportunidade, legal. P/1: Então eu agradeço a participação da senhora, queria encerrar esta entrevista, obrigado. R: Falei demais. P/1: Nada FIM DA ENTREVISTA
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