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História

Pioneira na criação do Incor

História de: Íris Fenner Bertani
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2004

Sinopse

Em seu depoimento, Íris conta como foi escolher a sua profissão, Assistente Social, sobre os trabalhos comunitários, estudar na PUC-SP, como foi trabalhar com o pai no banco Safra, na área de psiquiatria no Hospital das Clínicas e como se tornou Diretora do Serviço de Assistência Social do Incor. Relata como foi o começo da construção do prédio do Incor, sobre as ambições e diferenciais deste novo Instituto, além de falar sobre a importância de fazer um tratamento de qualidade para o paciente e também com os familiares, apesar de muitas vezes não conseguirem dar a assistência que gostariam. 

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História completa

P/1 – Seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Iris Fenner Bertani. 13 de novembro de 44, em Curitiba, Paraná.

 

P/1- Como foi a escolha da profissão, foi a sua primeira opção?

 

R – É, uma das múltiplas primeiras opções (risos). Na época, não precisava escolher  tanto como hoje em dia. Você podia fazer vestibular em uma porção de lugares, desde que você não casasse o mesmo dia, mesmo horário. Quer dizer, não tinha Fuvest assim. Eu achava que era legal, foi em 63 que eu comecei a faculdade, então a minha idéia do Serviço Social era assim... Eu estar em cima de um banquinho, com os operários… Aquela coisa de conscientização, cidadania, aquelas coisas que acabou todo o mundo na cadeia (risos), mas era a idéia que a gente tinha de que o Serviço Social faria um trabalho com populações, tal, e a gente inclusive trabalhava em trabalhos comunitários, com alfabetização, na época era o método Paulo Freire, o sistema de construção... Acho que vocês conhecem o sistema de construção do universo vocabular e era muito interessante isso, era apaixonante mesmo, e era bem de exclusão. História, eu achava que nunca ia ter um emprego, e apesar de que eu achava lindo, adorava, tal, biblioteconomia eu… Fiz, fiz um monte de vestibulares por influência. Um que a minha irmã queria que eu fizesse, essas coisas. Eu comecei e não gostei, achei muito parado, e assim foi. No fim fiz o Serviço Social, que eu gostava, e foi onde fiquei.

 

P/2- Você chegou a fazer parte de alguma organização estudantil? Porque você falou que desenvolvia o método Paulo Freire…

 

R – Não, era um processo comunitário feito no Jardim São Luiz. Quando começou mesmo, eu comecei a fazer parte do estágio, porque no começo, primeiro e segundo ano era mais a parte teórica. Quando a gente começou a fazer estágio, esses lugares logo foram desativados e o pessoal sumiu. A gente muito novinha também, não sabia direito, cada um foi achar um outro estágio e pronto. Eu fiz estágio no Juizado de Menores, na época, depois mudou de nome, virou uma empresa… Fui aonde era possível.

 

P/1 – Porque esses centros todos que ficavam foram fechados e as pessoas... É isso?

 

R – Pelo menos nos comunitários estava mais complicado.

 

P/2 – Isso em Curitiba?

 

R – Não, aqui em São Paulo. Estudei na PUC. Nesses bairros operários não existem mais. A gente era muito entusiasta. Todo o mundo era entusiasta na época. Acho que os jovens ainda são, né (risos). Que… Uma das coisas que a gente achava era que podia mudar o mundo, melhorar. Uma ilusão, mas a gente continua iludida ainda. Se não, não vale a pena...

 

P/1 – E como era a PUC? O clima estudantil?

 

R – Bem, na época que eu fiz faculdade a PUC era diversas faculdades isoladas. Não era ainda todo o mundo lá na [Rua] Monte Alegre. Só quando eu fui fazer o mestrado que era já todo mundo junto. Aí era bem político mesmo, porque era muita política, e... De repente entrava gente na sala de aula e começava a fotografar a gente, sabe, uma coisa assim, bem nessa linha de aterrorizar, a gente vivia apavorado. Ai, meu Deus. Até pra estudar algum tema a gente já ficava preocupada de ter material no carro, porque foram dias em que sumiam colegas, né, e a gente tinha que ir tocando. E eu casei muito cedo,  então tinha filho já e ficava sempre um compromisso a mais, uma responsabilidade, não era tão simples pra mim.

 

P – Ser só estudante, né?

 

R – Ser só estudante. Medo que acontecesse alguma coisa com as crianças. Todo o mundo falava não, quando acontece, acontece com a família inteira,  tal ... Mas é isso.

 

P – E na faculdade, como eram os professores, os cursos?

 

R – Era bem estimulante a faculdade, as disciplinas, a gente não tinha ainda muita crise, se a gente tava sendo colonizado ou não, a gente não tinha muito essas crises. Quase todo o nosso material era do Chile ou dos Estados Unidos, quase tudo. Tinha a “Aliança para o Progresso”, na época, era um programa americano que dava ajuda pros programas de auxílio a populações carentes, então era uma coisa muito tranquila essa relação. Não tinha... Também foi muito depois  de guerra né, porque apesar de ter passado muitos anos, já era 64, ainda nós estávamos vivendo os respingos da vitória dos Estados Unidos na guerra. A gente ficou muito em cima dessa... E… Esqueci. Perdi a linha. (risos)

 

P/2 – Você estava falando do curso…

 

R – Então era estimulante, porque tinha muita variedade. A gente tinha muita coisa. Tinha Sociologia, História, Economia, Direito, então tinha um pouco de cada coisa, e era interessante. Era menos ruim do que ficar só numa linha, por exemplo, se eu fizesse Engenharia, quer dizer,  não fiz, não estou falando mal de Engenharia, mas não sei (risos). Depois eu trabalhei como Assistente Social num cursinho de Engenharia. Como era muito… Só aquelas disciplinas, eu achava um pouco... Eu gostava um pouco mais aberto.

 

P/2 – Como é o currículo de um curso de Assistência Social?

 

R – Mudou um monte de vezes, já. Ih, nossa! Na época que eu fiz eram essas disciplinas básicas, apesar de que não tinha, na época, um curso básico que nem comunicações. Mas eram as disciplinas básicas e depois estatística, essas coisas. Depois a gente começava com as disciplinas próprias do serviço, que eram as técnicas de entrevista, dinâmica de grupo, trabalhos de grupo e trabalhos comunitários. Como tinha todo esse incentivo pra trabalhar as comunidades - através desses programas que a gente importava - trabalhar com a população, então a gente... E era uma época que isso era efervescente trabalhar com comunidades, também foi na época em que começou o sindicato dos metalúrgicos, todo o mundo começou a tentar se agrupar. E a época que a gente era, por exemplo, apesar de jovens, a gente ia aos comícios, né. Eu nunca vi meus filhos irem a um comício. Depois que não tem mais nenhum jogo, que não tem nada mesmo, aí vai ver um  comício. Mas a gente ia a comício. Eu fui a um comício do Jango… Lá na praça da Avenida da Consolação, Praça Roosevelt, com a Maria Thereza (risos). Eu passei férias num lugar que também foi a Maria Thereza, e os filhos, chegaram de aviãozinho, tal...

 

P/3- E ela era bonita?

 

R – Linda, novinha, bem novinha também. A gente fez muita cobrança pra ela. Mas hoje, quando eu olho, ela era tão novinha, acho que tinha dezenove, vinte anos, coisa assim, ela era muito novinha. Mas as cobranças... É que o  papel histórico dela era importante. Então era isso. A gente participava de tudo, queria tudo, queria mudar o mundo, mas...

 

P/3 – E a parte prática?

 

R –Ah, então. Daí gente começava com a parte prática, o estágio, e aplicando conforme o lugar que  você conseguisse estágio. Na época, quase não existiam assistentes sociais. Acho que tinha umas poucas turmas antes da minha, não sei nem quantas. Sei que de mestrado eu fui a segunda. De doutorado eu fui a primeira. Então, quer dizer, eu vim... Tinham poucas turmas antes. É uma profissão bem recente. E a gente tinha possibilidade de emprego assim, praticamente onde queria. Tinha muito emprego, tinha  muita procura, e acho que também vinha com aquelas coisas do americano, que assistência social era muito forte lá. Até hoje é. Então vinha com aquele papel dela de, mais ou menos, uma administradora, coordenadora de assuntos comunitários. Ela administra vários recursos. A gente não tinha os recursos, mas… (risos). Uma das funções nossas era desenvolver recursos. Desenvolver, incentivar a população a criar seus próprios recursos. E assim, eu fui trabalhar numa empresa - depois de formada - a minha supervisora me convidou. É que eu queria trabalhar perto de casa, meio período... Aquela época ainda era assim, e podia. Depois foi mudando. No fim eu trabalhava o dia inteiro, de noite dava aula, e no fim eu parei, falei chega, já é demais. Trabalhava só de dia, se não a gente...

 

P/3 - Que empresa era?

 

R - Era uma empresa em Santo Amaro. Se chamava Empresa Brasileira de Relógios Hora. Ela fechou, já. Acho que ela foi engolida pela Dimep, que é uma de relógios de ponto também.

 

P/2 - É uma empresa nacional também.

 

R – É. Faz relógios pra carro. Painel de carro.

 

P/1- E essa coisa de ter um serviço social dentro de empresa era uma coisa que estava surgindo nesse momento…

 

R – Estava surgindo. Eu entrei no lugar da minha supervisora, que queria sair. Ela tinha três empregos e não aguentava mais. Ela me pôs no lugar dela, e só tinha eu. O serviço social era eu. Não tinha muito essa idéia de estrutura de serviço. Era meio complicado, né, porque você sozinha dentro de uma empresa, é bastante complicado. A gente chegou com um monte de teorias e tinha uma empresa com um monte de teorias pra outro lado. Quer dizer, um sistema capitalista bem claro, bem claro, né, e nós quase que num sistema baseado que nas encíclicas papais, da Rerum Novarum, nessa linha. Então era realmente meio complicado acertar, mas dava numa boa. Dava pra trabalhar, montar alguns programas, não sei da eficácia dos programas, mas a gente sempre tinha a sensação de estar fazendo coisas que estavam construindo. Coisas de construção.

 

P/2 - Quanto tempo você ficou nesse trabalho?

 

R – Ahn... Fiquei acho que dois anos e meio, depois eu parei de trabalhar no serviço social, fui trabalhar com o meu pai, e depois parei de trabalhar com o meu pai e...

 

P/2- O que o seu pai fazia?

 

R – Meu pai era diretor de um banco. Era muito ruim trabalhar com o pai, porque (risos) era no banco Safra. Essa coisa de trabalhar com o pai não dá certo, né. Aí eu fui trabalhar em psiquiatria aqui. Fiz concurso no HC e fiquei na psiquiatria.

 

P/2- Nossa, mas por que a senhora decidiu pela área hospitalar?

 

R – Eu não decidi, decidiram por mim. Eu não conseguia emprego (risos) porque eu tinha dois filhos pequinininhos, e todo o lugar que eu ia, já na ficha eu já era descartada. Quando eu escrevia, porque a minha experiência era empresa, tinha trabalhado em empresa. Então quando chegava na ficha e eu colocava que tinha dois filhos pequenos, aí pronto. Já era possível que eu tivesse um terceiro, e tive mesmo. Já era possível que eu entrasse em licença maternidade, aquelas coisas todas, e eu era dispensada na ficha. Então tive que fazer concurso público. Fiz concurso e entrei aqui. Na época abriu e eu tinha pavor de hospital. Eu tinha tanto medo, eu morava na Oscar Freire e eu dava a volta inteira pra os bichinhos não me pegarem. (risos) Depois, passei minha vida inteira aqui dentro.

 

P/2 – E antes disso a senhora não tinha tido contato com a área hospitalar, na faculdade?

 

R – Não, nem queria, nem queria. Passava longe. Mas aí precisava trabalhar, fiz concurso, e daí passei.

 

P/2 – Em que ano foi isso?

 

R – 72. Aí...

 

P/2 – Que função a senhora  exerceu quando entrou?

 

R – Assistente social. Assistente social.

 

P/2 – E o que você fazia naquela época?

 

R – Lá na psiquiatria a gente trabalhava muito junto com a equipe, até porque não dava pra equipe fazer de conta que não existia família, problemas sociais... Porque problemas psiquiátricos, problemas emocionais não estão soltos assim. A gente trabalhava muito com a equipe, fazia muitas entrevistas em conjunto, reuniões de grupo com os pacientes, sempre trabalhando a parte social, a parte da família, relacionamento com a família, rede de relacionamentos sociais, a questão do emprego... Quando o paciente ficava com algum problema a ponto de ser internado no hospital, a psiquiatria nunca teve pronto socorro. Ele é um hospital de crônicos. Então, a ponto de o paciente ser internado num hospital pra ficar uns três meses, já tinha sido internado em vários outros lugares também, já tinha uma história de família meio complicada, história de trabalho também meio complicada, e o único paciente que todo o mundo agradece quando morre é o paciente de psiquiatria. Porque ele incomoda muito, dá muito trabalho, tem surtos, tem crises, tem depressões, a família fica muito em função dele. Acho que fica para todo o doente. Mas acho que psiquiatria é um pouco mais complicado.

 

P/1 – Preconceito muito grande, né?

 

R – Não é só preconceito. É pesado, mesmo. Quem tem um doente psiquiátrico em casa sabe. É pesado mesmo. A gente foi conhecer Franco da Rocha, na época. Nós mandávamos muitos pacientes nossos para Franco da Rocha e era para lá que iam depois que saiam da psiquiatria. Não tinha mais pra onde ir, e era Franco da Rocha. Franco da Rocha tinha uma capacidade de atendimento, vamos dizer, de nove mil pacientes, e tinha uns quatorze mil. Não sei se vocês se lembram dessa fase. Então, a gente foi lá. E aí aqueles pacientes,  meus recuperados, com quem eu tinha trabalhado, feito umas quarenta mil entrevistas com a família inteira, lá no chão, deitado, pelado, com mosca, babando, foi uma coisa que me desiludiu. Eu fiquei muito decepcionada. Eu achei que… Esse paciente estava recuperado. O paciente estava bem, a família estava bem, a gente já tinha encerrado o caso… Aí fiquei meio desanimada. E tinha resolvido sair. Sair do HC. E comecei a procurar.

 

P/2 – Você chegou a conhecer a Bellkiss nessa época?

 

R – Conheci, claro. Nessa época ela estava lá. Ela era acho que estagiária da Psicologia. E aí...

 

P/2 – Vocês chegaram a fazer algum tipo de trabalho juntas?

 

R – Juntas, não. A gente se conheceu. Mas não... E aí resolvi ir embora, fui fazer concurso na prefeitura, fiquei esperando me chamar. E enquanto esperava me chamar, chamaram aqui do Instituto do Coração, era pra chamar uma pessoa de cada prédio. Como eu estava com o  pé na estrada mesmo, a minha chefe achou que eu podia vir aqui. Porque ela não queria liberar ninguém do pessoal da equipe. Então, eu vim pra cá fazer o teste, quando eu cheguei o dr. Humberto, que era o diretor, me entrevistou e, acabou a entrevista. Falou que não entrevistava mais ninguém, que tinha resolvido, que ia ficar comigo.

 

P/2 – Que bacana, a senhora foi muito bem na entrevista.

 

R – É. Acho que foi mais uma questão de empatia. Acho que a gente achou que dava pra sincronizar bem. E eu tinha aquela coisa que eu estava saindo mesmo. Eu não tinha vínculo com o meu trabalho, porque eu estava cortando os meus vínculos de trabalho. Eu nunca tinha pensado no Instituto do Coração. Não era nem o que eu tinha imaginado trabalhar nem nada. Mas como eu já estava me desvinculando e ele falou para eu ficar, fiquei pra fazer a organização. Ninguém sabia que eu ia ficar diretora aqui. Nós não tínhamos a menor idéia disso. A gente veio pra trabalhar. Então, a pessoa que pra minha chefia não era muito complicado dispensar, eu estava aguardando chamar no concurso da prefeitura que era meio período...

 

P/2 – Você tinha passado já?

 

R – Tinha. Já estava tudo resolvido. Só estava esperando. E nunca consegui mais trabalhar meio período. (risos). Aí fiquei e fui aprendendo. É legal aprender. Fui ficando, ficando, e ficando. Fiquei.

 

P/3 – O hospital estava se constituindo, nessa época?

 

R – Ah, sim. Ficamos todos numa sala só. A Bellkiss ficava na minha frente. Depois, do lado tinha a bibliotecária, e aí tinha uma meia parede, assim, que ficava o dr. Jorge, da farmácia. Então ali era o nosso cantinho. E tinha outros cantinhos assim. Todos no primeiro andar aqui agora, era o único andar que tinha. A gente ficava lá trabalhando, e os operários também trabalhando. E eles cantando... Bilu-bilu tetéia… Bum, bum! E a gente ali trabalhando (risos). A gente tinha que trabalhar com aquele barulhão todo, da obra. Mas a gente sonhava muito também. Pra nós, o Incor era a possibilidade de tornar real tudo aquilo que você tinha sonhado na tua profissão. Porque o dr. Humberto dava essa porta pra gente. Você vai e vai escrever o que é a tua profissão aqui dentro. Tudo o que você sonhava, você vai fazer, e agora vai ou racha ou a tua profissão dá alguma coisa e acontece, ou então, né… A gente viveu muitos sonhos e trabalhou muito juntos. Todos discutindo cada passo. Então é assim: O paciente vai entrar, não tinha onde ainda, mas a gente imaginava. O paciente vai entrar, e entra por onde? Entra por esta porta. E quem atende primeiro? Tá, então a gente imaginando, imaginando, fizemos manuais, inauguração dos manuais, foi até o governador, é, inauguração dos manuais (risos). E depois teve a do prédio. Aí a gente ficou fazendo esses manuais, com esses fluxos, rotinas e tudo. Tudo definido. A gente sempre se reunia numa mesa grande, com a enfermagem também, tinha um médico, e aí cada um dizia, agora entra você, e aqui entro eu. Era uma maravilha nosso hospital. Funcionava muito bem. Mas demorou, foi demorando pra se concretizar. Tava o prédio, aí até que resolveram de uma vez por todas começar, e começamos com o ambulatório, e aí era pra começar com cinco pacientes por dia. E a gente acreditou, né. Porque era assim. Nós íamos contratar um grupo de pessoas que iam trabalhar, nós íamos de hospital fechado, portas fechadas, trinta dias treinar esse pessoal. Na hora que o Incor abrisse as portas iria ser o hospital mais ajeitado da face da Terra. Você veja. Todas as pessoas que estavam na organização eram mais do que profissionais fazendo um trabalho. Nós já éramos amigos, trocando idéias. Era uma complementaridade. E um fazia muitas vezes o papel do outro, quando precisava. O dr. Macruz, que estava na época na direção, disse que iríamos começar com cinco por dia, pra testar. Bom, não era o que a gente queria, não era hospital fechado, a gente treinando, contratava todo o mundo, treinava, delírio mesmo, porque pelo estado… Contratava todo o mundo, treinava, e quando abria, abria pra população. Bom, não contratamos ninguém, ficamos só nós, e abrimos as portas. E aí foi uma loucura. Porque ele ia ajudar o Sami fazer ficha, depois vinha por trás,  pra minha área pra entrevistar o paciente, a gente mudava de lugar. A idéia nossa era essa, sempre foi. Era fazer um hospital bem dinâmico, e que nós andássemos e o paciente seria tratado como uma pessoa muito especial mesmo, como deve ser. A gente é que correria por trás, a gente corria mesmo. Mas era assim, pra suprir. No Sami, na hora de fazer registro, não tinha ninguém… Tinha uma diretora chamada Cora, que dizia socorro, e a gente ia. Ai, não sei o quê e a gente ia tocando. Aí o governador autorizou a contratação de um pessoal mínimo, pra mim foram três assistentes sociais e tenho a impressão que foram três psicólogas também. Era o mínimo pra iniciar. Sempre ambulatório, só, que estava vindo do HC. E aí começamos. Foi ampliando, depois dessas três a gente já pegou estagiárias, depois foi autorizado mais gente, e a gente sempre brigando pra...

 

P/2-  Foi sendo implantado, mesmo.

 

R – Foi sendo implantado. Serviço com psicologia, farmácia, fisioterapia… Nós fomos só ampliando. Daí a nossa idéia inicial. A gente mudou mil vezes. Acho que até hoje a gente está constituindo esse trabalho, buscando ainda aquele sonho, aquele ideal de trabalhar tudo certinho, com satisfação plena. Não falava em problema de qualidade, não. Eu acho que o Incor tem essa vocação pra qualidade, independentemente dos programas agora de qualidade. Acho que sempre teve. Sempre quisemos que o atendimento fosse assim, acho que é uma vocação mesmo. Mas então fizemos trabalho de qualidade, apesar de todos os empecilhos e coisas que foram aparecendo, não foram programadas. Agora é que estão sendo programadas, agora é que tem programa de qualidade.

 

P/4 - Na época em que os serviços começaram a ser implantados aqui, quais eram os diferenciais que vocês queriam ter em relação às empresas privadas da época?

 

R – Olha, o serviço público sempre tem um espaço a mais do que o de empresa. Porque  na empresa é mais ou menos um cardápio que você tem que executar. O que se espera, principalmente se for multinacional, o que se espera é que cada um faça certas funções. E não é mais que aquilo, apesar de que aquilo é bastante, né, é aquilo que se espera. E você não tem muito espaço pra inventar. E nós aqui tínhamos todo o espaço pra inventar, nós podíamos criar à vontade. Se não desse certo, tudo bem, mas dava pra criar. Então nós inventamos de tudo. Criamos programa de, logo de cara, programas de congênitos, crianças, os pais de crianças congênitas, foi em grupo com todos os serviços, e começamos a inventar onde mais podemos fazer. Podemos fazer um trabalho conjunto com  a farmácia, a farmácia vinha procurar o serviço social, a psicologia... Desde o começo a gente tinha esse espaço de criação, mesmo, que era básico pra gente. Acho que foi o que nos seduziu, no Incor, e também as novidades. Aqui tem muita novidade. Você tem sempre muito estímulo. Porque tudo o que acontece na área da saúde, na área de cardiologia, e não sei se é tudo o que acontece ou é pretensão nossa, a gente tem a impressão de ter notícia, sabe, então a gente começa a ter notícia das coisas, vem gente aqui pra dar palestra, um sai no jornalzinho, mostrar, e a gente fica tendo sempre muito estímulo, e isso é muito bom. As pessoas quando saem daqui, tem algumas assistentes sociais que saíram daqui e foram trabalhar em empresas, foram muito bem colocadas, tudo bem. Mas o que elas mais sentem é a falta de estímulo, de possibilidades de inventar, de criar... Se você criar uma coisa e justificar, você manda ver. Não tem problema não. Se você achar meios de financiamento, maravilha.

 

P/2 – Como  era, nessa época, o trajeto de um Assistente Social aqui no hospital? Como era feito o atendimento ao paciente?

 

R – Nós temos um atendimento… Bom, nós já mudamos muitas vezes também, o que nós achávamos que seria o certo ou o possível, por causa do número de pessoal. Você imagina um negócio, mas como você tem uma pessoa só, não dá. Nós temos um atendimento acompanhando, mais ou menos, o ambulatório. Entrando por baixo, lá. Entrando no ambulatório, o paciente tem ambulatório geral, é o funcionamento do hospital. Eu acho que vocês já devem estar sabendo, né? Então. No ambulatório geral nós temos assistentes sociais para essa parte, chamamos de demanda espontânea. São os pacientes que pedem pra falar com o serviço de assistência social ou eles precisam ser encaminhados para outros lugares. Aqui é um hospital terciário e o paciente tem que vir com encaminhamento, o que a gente chama de pacientes referidos. O paciente, mesmo sendo referido, pedindo uma avaliação, ele pode ser dispensado. O médico pode avaliar e dizer não, não é aqui, ele vai pra um posto. Então ele encaminha pro serviço social. Esse se chama serviço de referência, em que a gente manda de volta, referência contra referência, a gente manda ou de volta pro lugar que foi ou pra outro lugar, onde ele vai ser atendido por um cardiologista. Começamos a se preocupar muito em ter um cadastro correto e atualizado de para onde mandar, pra não fazer a pessoa de boba. Ficar andando, e aí você não estaria encaminhando, estaria só tirando a pessoa da sua frente, pra fazer isso não precisa ter amor ao seu trabalho.  A gente procura ver se lá, onde ele vai, tem um serviço de… Isso é muito dinâmico, viu, às vezes você está pensando que está mandando direitinho, e aí, naquele dia, o único cardiologista que tem na região tirou férias ou licença, então é muito difícil estar sempre atualizando e mantendo essa informação. Além desse encaminhamento, quando o paciente é mandado de volta pra comunidade ou então quando ele vem, o médico pede alguns exames, e ele tem que voltar, e não tem como voltar, ele vai ao serviço social pedir ajuda. Esse é um dos nossos ambulatório geral. No ambulatório especializado, que fica lá no fundão, você sabe, onde vão as cardiopatias lombares, coronarianas, e tal, aí já as assistentes sociais trabalham por equipe. Elas têm agendamento e trabalham... Tem uma Assistente Social em cada equipe. É um pouco diferente, já, o sistema. Então, dentro da programação da equipe, o que a equipe combinou que vai fazer, como é que vai ser o trabalho, se vai ter, por exemplo... Se é um paciente que a gente acha que ficaria bem em casa, a gente vai verificar qual é o recurso que ele pode utilizar, se não vai utilizar a NAD, por exemplo, que é o Núcleo de Atendimento Domiciliar, se ele vai ser atendido em casa, por que grupo, como, quantas vezes, que recursos que ele precisa, então elas trabalham conforme o grupo. Se é um paciente que faz um serviço muito pesado, tem paciente que apesar de fazer serviço pesado não adianta falar, né. Mas tem os que ainda acham que querem alguma coisa ou pensam em, e a gente então discute e encaminha pra onde ele pode desempenhar alguma  função leve um pouco… E agora... Ah, nas unidades de internação. É a mesma coisa. Trabalham por grupos, por equipes. Da mesma forma como é estruturado o hospital. As psicólogas também trabalham por equipes.

 

P/2 – E aí paramos nas unidades.

 

R – Então, as unidades também atendem por equipes, o atendimento é voltado para as famílias e pro paciente, como ele se relaciona dentro da família, como é a questão dele em relação ao seu trabalho, como a família toda serve de suporte, quem é o cuidador, se o cuidador está orientado, enfim...

 

P/2 - Em algum momento, por parte dos pacientes, existe uma “confusão” entre os trabalhos que vocês exercem e o trabalho das psicólogas?

 

R – Ah, acho que eles confundem todos os papéis, não só esses. Mas também das enfermeiras, das atendentes, todo mundo. Isso aí é... Até os funcionários. Hoje encontrei um funcionário que me perguntou se tinha recebido um material - era pra dona Líris, da enfermagem - e respondi que tinha recebido. Depois de trinta anos acha que ainda vou explicar? (risos). Entreguei pra Líris e disse que tinham se enganado de endereço. Toda a hora, isso é muito comum, confunde mesmo. Outra hora você está andando e pensam que você é enfermeira e pedem pra ver tal remédio... E a gente pede pra esperar um momentinho, chama a enfermagem... Antes, o crachá a gente falava que não dava pra ler. Agora também, é meio estranho, porque dá pra ler o nome, mas Dir Tec, pro doente, isso aqui é complicação. Outro é Ch. Chefe, Sup, devia estar mais clara a profissão, Fisioterapeuta, Assistente Social, só que precisa saber ler, mas já melhora. (risos).

 

P/2 – E como é essa interface com o serviço de psicologia?

 

R – Olha, é muito chamado uma a outra. Pegar a infantil que ficou muito tempo sem Psicóloga e ficou todo mundo desesperado, porque no atendimento das mães… A criança vai ser internada, tem a família, muitas vezes precisamos do parecer da Psicóloga. A Psicóloga vai ter que atender a mãe, então a Assistente Social chama a Psicóloga e, às vezes, é o contrário. A Psicóloga que chama a Assistente Social pra ver o caso. O pessoal das unidades trabalha muito junto e chama muito uma a outra, porque pra nós não tem muito mistério. Acho que mais misterioso é explicar, do que a prática, porque na prática não dá problema nenhum, porque quando a questão começa a girar muito no emocional, elas chamam a psicóloga e estas chamam a gente para as questões da família.

 

P/1 – Questões de família?

 

R – A estrutura da família, a rede de relacionamentos familiares, como a família se configura, que nível ela tem, de compreensão, de entendimento, de... Porque não é só o nível de escolaridade, pra nós [conta] mais o nível de compreensão, porque, às vezes, a escolaridade é bem baixa, mas o nível de compreensão é ótimo. Colabora... E isso pra nós é muito importante, mas a gente configura essa família, esse doente veio de onde, se ele é de São Paulo ou de fora, se está numa instituição ou na favela, e depois ele vai pra onde, qual é a programação, se ele está recebendo visita ou não,  como está a articulação dessa família?

 

P/2 – Quer dizer, então esse contato é preenchido no prontuário, esse material será de grande valia também para o trabalho de outros?

 

R – Esperamos que sim, mas às vezes o Psicólogo até atendeu antes. Depende do esquema de trabalho, não tem quem é primeiro. Mas normalmente, quando você sobe pra atender o doente já tem a parte médica e a da enfermagem. Já dá para dar uma baseada, mas a gente espera realmente que o prontuário sirva pra um acrescentar o conhecimento do outro, pra melhorar o atendimento ao doente, não o serviço, atendeu, não atendeu, isso aí é… Não tem nada a ver, nada com o nosso ideal de trabalho.

 

P/1 – Isso só é dentro do hospital ou também no emprego?

 

R – Ih, não. A gente faz contato com o patrão, a gente faz contato com prefeituras, porque tem prefeitura que manda doente só com passagem de vinda, né. Manda tratar no Instituto do Coração e… A gente liga pra prefeitura, conversa com o prefeito, conversa de tudo o que é lado. Às vezes, briga com o prefeito, fico boba de ver (risos). E aí como é que essa pessoa vai retornar? Como manda desse jeito? Às vezes manda uma família inteira, né. E essa família chega aí e não tem onde ficar. Vamos supor que esse doente vai internar, e muitas vezes, não vai, porque tem vários critérios pra ele ser internado, e às vezes o caso dele não é o mais emergente e fica em atendimento no ambulatório...Vamos imaginar que ele chegue e realmente fique internado. O que faz com o resto da família? Então, você precisa orientar a família a voltar pra a terra deles, aguardar, dependendo do caso um fica, mas fica onde? Os albergues… As americanas mandam pra os Recursos. Daí a nossa inveja. Nós temos albergues. Você não pode mandar uma esposa jovem pra um albergue, você tem que ter critérios pra mandar, sabe. Porque é muito público, é muito evasivo. Até dentadura de acompanhante roubam lá… Tira a dentadura pra dormir, de manhã não tem mais dentadura. É um risco mesmo. Como não dá pra mandar pra albergue nós temos convênio com pensão, onde a gente paga menos, e aí a gente… No programa da mãe acompanhante, que é um dos programas infantis, nós pagamos a pensão. Nos outros a gente manda pra obras sociais, tem umas obras espíritas que a gente manda, de vez em quando a gente troca alguma coisa, se eles precisam de um exame tentamos apoiar essas famílias, porque em São Paulo o Incor ficou sendo o único centro de referência em cardiologia pra vários tipos de especialidades. Aí o pessoal vem mesmo, não adianta. Vai pra onde, né? Se bem que muitas vezes poderia ficar em Salvador, Recife, podia ir ficando em outros lugares, mas não. Vem todo o mundo pra cá... Fortaleza, por exemplo, tem um excelente hospital, público também, mas vem tudo pra cá. A gente faz um esforço muito grande para fazer contato com a área que encaminha, dizer se não tem uma área mais próxima, pela comodidade do doente. Só a viagem, às vezes, é muito difícil. O doente fica muito mal de viajar tanto, e não tem necessidade tanta viagem. Às vezes vem pra fazer um exame, não tem cabimento isso. Quando a gente fala, é até mesmo ofensivo. Pôxa, mas vocês não querem receber? Não é isso, é outro enfoque. Agora nós montamos uma associação, uma Associação Amigos do Coração, é feita entre os próprios pacientes. Nosso trabalho é feito junto com os pacientes. A diretoria da associação é dividida . A diretoria executiva são os pacientes, a diretoria técnica por enquanto é o pessoal técnico, tem uma médica daqui, tem assistente social, e tem uma enfermeira. Faz mais ou menos um ano que a gente vem trabalhando junto com os pacientes, mas não os pacientes mais diferenciados economicamente. Temos trabalhado com os pacientes que têm condição de crítica e de contribuição. Alguns outros pacientes que vieram já às reuniões, mas não entenderam direito o que significava uma associação assim. Porque qual é a vantagem que eu posso ter e precisa estar sempre colocando que não é pra ter vantagem, ao contrário, é pra trabalhar. Então o  pessoal fica falando que é o grupo da Terceira Idade, porque tem muitas pessoas que já estão aposentadas, e que têm horas livres. Tinha gente que me procurava e dizia que não queria emprego, queria fazer qualquer coisa, trabalhar. Então a gente, com a associação, dava coisa pra fazer até não poder mais, trabalho não falta. É nessa linha que o pessoal trabalha pra conseguir medicação, medicação devia falar no fim, porque não consegue. Alojamento pra quem vem de fora, passe de ônibus para as mães que vêm visitar os filhos, porque muitas vezes elas não conseguem vir visitar a criança, porque não tem passe, não tem dinheiro pro ônibus. Às vezes a família fica sem ter o que comer, porque o pai está internado, então damos a cesta básica, e estamos transferindo pra associação toda essa parte assistencial. Estamos trabalhando junto com associação, até porque é um sonho antigo nosso, nós tentamos várias vezes, agora é pra valer, criar esse coletivo crítico. Já vi que não adianta mesmo ficar esperando que tenha política de saúde de presente, mas nós vamos construir a nossa política de saúde em cardiologia. É um pessoal muito bom, interessado, acho que a gente está caminhando, acho que a gente vai conseguir. Eu sou otimista demais, sempre acho que vai dar tudo certo (risos), inclusive porque os pacientes estão muito motivados. Nós temos um grupo de sessenta pacientes profundamente motivados, não dão sossego. Se a gente por acaso desistir, eles tocam (risos). Nossa, eles empurram, mandam material, a gente manda pra eles, e agora a gente está batalhando pra nossa sede, e enquanto não tem sede, saiu na Isto É a História da Amigos do Coração, e saiu com o meu ramal. Eu atendia Serviço Social, e aí perguntavam se era Amigos do Coração... Gente, eu precisava trabalhar um pouco, não é possível. (risos). Mas está muito gostoso. É uma parte muito boa, um espaço de criação que a gente tem, e a direção é muito aberta a isso, a ter esse interlocutor, claro. O interlocutor é o paciente, e ele é um construtor também. Até no discurso de inauguração da Associação foi falado muito do casamento. As duas partes têm responsabilidades e vão construir uma coisa juntas, mas não ficar dependendo uma da outra, nem se apoiando demais na outra, porque não dá certo. Acho que é uma alternativa legal de se trabalhar, porque recursos há cada vez menos, né, antigamente a gente tinha verbas do estado pra trabalhar, pra preparar os doentes. Depois acabou e nós começamos a criar as nossas próprias verbas, você desvia da sua vocação profissional, porque você fica comerciante. Se eu fosse boa comerciante não ia trabalhar de empregada, ia abrir uma loja no shopping, ia ganhar dinheiro, enfim. Se você trabalha de empregada é porque não é boa comerciante. Então não é nossa vocação profissional, é atendimento de pacientes e familiares. A gente está terminando essa fase, que foi duríssima. Entre a fase que o governo amparava e essa fase que a gente está pensando que a associação vai amparar, mas foi muito duro porque tivemos que criar nossos próprios recursos. Aquelas coisas de fazer bazar, tudo, tudo... rifa, mas é meio estranho porque a gente fica sendo pessoa física, conseguindo verba dentro de pessoa jurídica. Estranho, né? Estou tentando mudar um pouquinho. Realmente é demais o espaço de criatividade. Não precisa ser tanto assim. (risos).

 

P/2 – Como foi a sua ascensão no Incor?

 

R – Eu já vim diretora. Prestei concurso na psiquiatria, a gente veio trabalhar, aí saiu no Diário Oficial que nós éramos diretoras. Achamos estava errado, uma vergonha. E aí fomos perguntar pro diretor e ele disse que era isso sim. Ah, é? Puxa, que chique. Aí ficamos diretoras. Algumas, durante esse período foram embora, aposentaram, tiveram outros caminhos, e algumas ficaram. Esse grupo aí que vocês estão tendo contato. Bellkiss, eu, cada uma tem uma orientação, mas também porque pôde escolher um pouco como orientar o seu trabalho. Tudo são resultados das escolhas.

 

P/2 – Como vocês organizaram o manual de orientação? Tinha um modelo?

 

R – Não, tinha sido encomendado da Artur Delito, uma empresa americana que fazia manuais pra todas as áreas. Nós fomos convocados pra olhar os manuais e, se fosse o caso, acrescentar alguma coisa, sugerir, tal. Quando chegamos, não tinha nada a ver aquilo lá. Nós olhamos e... Mas que  que é isso? Era completamente fora. Então nós começamos... A idéia de fazer um manual já estava concretizada, mas nós começamos do zero. Não, pera aí. Vamos fazer como tem que ser. Como é o nosso paciente... Nós discutimos muito, muito, em reuniões, os problemas dos pacientes, não só os problemas sociais, mas também os médicos falavam dos problemas médicos,  a enfermagem falava dos seus problemas, tinham reuniões que a gente desperdiçava horas discutindo coisas que não tinham muita importância, depois a gente se tocava, voltava de novo pra ver o que era mais importante, teve reunião que discutimos o guarda-chuva do paciente (risos). Ficamos umas duas horas, quem que pegava o guarda-chuva (risos) porque não tinha armário. O paciente chegava com o guarda-chuva, e quem que ia guardar? Não, o Serviço Social não tem nada com isso, Psicologia também não (risos), Enfermagem também não está aí pra guardar guarda-chuva, tem que administrar medicação, então o médico nem pensar. E quem vai guardar o guarda-chuva? Eram coisas assim, a gente delirou bem, mas depois, peraí, vai. Vamos fazer de conta que não existe o guarda-chuva, né… E guarda-chuva você compra no camelô, né? (risos).

 

P/2 – E a relação com os médicos? Como se dá, mudou muito?

 

R – Não, porque começamos juntos. Nós éramos uns, referência dos outros. Apesar de que os médicos já atuavam juntos, no HC, e eles só mudaram de casa , a gente já morava aqui. Nossa  relação sempre foi muito boa, mas muito boa 100%, isso é uma bobagem. Sempre tem os mais queridinhos, os que a gente trabalha melhor, e aqueles que a gente tem mais dificuldade, mas aí não é por causa de trabalho, porque é difícil mesmo. Eu sempre falo. Olha, trabalhar é o de menos, difícil é o inter-relacionamento. É complicado essa coisa da relação sair harmônica, principalmente quando se trabalha numa área de tensão, uma área de morte. A gente está acompanhando o doente e aí chega no dia seguinte e ele se foi.

 

P/2 Como é que é isso?

R – São pacientes graves, nós só temos pacientes graves aqui. É uma área de muita tensão. Você está acompanhando, mas você fica assim torcendo pra dar tudo certo, pra que ele saia. Outro dia estava contando, um paciente, era um velhinho já, até a gente chegou num dia e ele falou: “Ah, que bom que vocês chegaram”... No outro dia a gente chegou lá e ele faleceu. Que chato, que ruim! É uma área de tensão. Tem dias que não está tão bem e aí fica mais difícil. Aqui no Incor é assim, não sei se eu estou fantasiando isso aí, mas eu acho que todo mundo se esforça muito pra atender o doente, muito. Isso que sobra da relação, aquilo que você trouxe, que você está meio mal, você acaba gastando com o colega, certo? Leva pra casa, às vezes fica um pouquinho...

 

P/2 – Escapa pelo ladrão.

 

R – É, mas isso é em todo o lugar, em todas as empresas. Depende até do nível de pressão nas empresas, e nas empresas deve ser bem mais. Como exige que saia cinquenta parafusos, se sai 49, deve ser bem mais. A gente, de humanas, tem um espaço que dá pra arredondar mais, dá pra voltar atrás...

 

P/3 – E como funciona essa coisa de triagem, dentro do trabalho como é que se discute isso?

 

R – Olha, primeiro a gente não tem esse poder todo, de segurar o paciente ou não. Até pra encaminhar, ver onde a família vai ficar, algumas coisas, mas o que é mais pesado, quando você falou em triagem, é, por exemplo, a avaliação pra transplante. Ela tem alguns requisitos em todo o lugar do mundo, mas é muito pesado, precisa ter bastante amadurecimento e fazer uma avaliação e dizer que não tem condições de fazer transplante, porque a situação social dele é péssima. Os casos em que houve uma avaliação positiva o paciente até teve um bom resultado. Depois a gente tem também até  uma aula sobre isso aí, e os casos que a gente mostrou que tinha alguma situação social pendente ou muito negativa, o paciente não consegue superar, porque ele tem gastos, ele precisa de cuidados, ele precisa morar com condições mínimas de saúde, não pode ser casa que corre água pela parede, então tem uma porção de critérios. Uma vez eu vi na televisão que estavam metendo o pau na Assistente Social do Hospital da Criança, porque ela tinha desaconselhado um transplante de fígado numa criancinha e mostrou que a casa era dentro do lixão. Era um barraco dentro do lixão, corria água, e tal, não tinha condição, não tinha condição. É muito pesado. Você precisa tomar um solzinho de vez em quando, se energizar e não levar muito, porque é muito pesado. Mas aí todos os profissionais discutem e também tem a contra-indicação da psicologia, principalmente em caso de depressão, não saber lidar bem com emoções, e tal, então é complicado, difícil. Você tem a sensação de estar impedindo essa pessoa de ter acesso a um tratamento, de ficar boa. Ao mesmo tempo, você sabe que não é bem assim porque ela tem um monte de riscos.

Em outros países é diferente a discussão do transplante. Em algumas regiões dos Estados Unidos, antes do transplante, é feita uma reunião com o diretor financeiro do hospital pra mostrar gráficos de custos que a pessoa vai ter. Ela precisa ter 10 mil dólares no primeiro ano, pra remédios, ela precisa ter isso, aquilo, e são critérios dados pelo Diretor Financeiro e não pelo Assistente Social. Se a pessoa pode, vai em frente, se não pode, desiste ali. Pra nós, isso... Nós somos um país sentimental (risos). Nós somos sentimentais, a gente gosta dos pacientes, e pensa: “puxa, por causa de dinheiro”, mas não é só o dinheiro, é a estruturação de toda a nossa estrutura triste de desigualdades aqui, que fica muito, muito complicado pra pessoa acompanhar, comprar os remédios, comprar as comidas, né? Ter alimentação correta, ter a casa, ter o cuidador, então... Mas, é difícil pra o Assistente Social, mas também pra qualquer profissional.  Até quando a gente não tem que mandar metade da família embora. Não, fica só um… Dá, não dá, a pessoa quer muito que fique alguém, não dá. A gente tem que ser objetivo.

 

P/2 – Qual é o desafio da sua área de atuação aqui no Incor? Alguma meta ainda para ser alcançada?

 

R – Ih! Tem tantos… Olha, acho que a gente está só no começo, em termos de projeção histórica. Você falar que nós temos 25 anos dentro de uma instituição, e dentro de uma linha de trabalho, quer dizer, nós estamos nos primeiros 25 anos. Estamos começando a criar a nossa história, começando a trabalhar e definir nosso papel e nosso trabalho, a gente já mostrou  algumas faces do possível, acho que nós temos um possível mais amplo que isso, condições de desenvolver outras coisas, e nem sempre foi possível também porque entram outras questões no meio. Agora não dá, porque vai acontecer não sei o quê, o espaço não dá, a sala foi desativada, o governador... Você tem coisas que interferem no que a gente pretende fazer. E tem, por exemplo, bolsa de estudos para estagiária. Corta. Aí você fica sem estagiária. No ano passado foi cortada a bolsa de estudos para estagiária, você não pode ter  estagiária voluntária, você tem que ter estagiária remunerada. Agora estão brigando por problemas de aprimoramento, são nossas residentes, não é? Você não sabe se corta ou não corta. Então essas são coisas que impedem um pouco, sabe, o bom era ter sempre o recurso disponível, mas eu queria uma coisa mais, sabe, por causa do sonho. Eu queria ter alguém que ia pesar o custo/benefício de todas as fantasias de todo mundo do Incor, porque todo mundo aqui é cheio de minhocas, assim. Então que fosse ver e olha, isso aqui vocês vão gastar muito tempo, mas o benefício vai ser esse, esse, esse, vocês já pensaram nisso? Às vezes a gente embarca numas decisões, a gente acha que agora vamos e de repente você vê que não é bem isso, não. Isso aqui está matando a gente de trabalhar e não estamos atendendo o doente. Volta. Então é isso aí.

 

P/4- Doutora, o perfil das pessoas que o serviço tem atendido nesses anos todos, o perfil tem mudado?

 

R – Olha, a gente tem um levantamento que a gente faz a cada cinco anos do perfil do paciente do Serviço Social. Ele surpreende em algumas coisas. De todos os prédios do HC, o nosso é o mais pobre, nosso paciente é atendido no ambulatório e todo o mundo acha que é o mais rico, mas não é, porque em geral ele já está aposentado ou aposenta por invalidez. E ele... Esse nosso perfil mostra assim: Infraestrutura básica, São Paulo tem muito boa, e é um dado que você observa em outras pesquisas feitas pelo SEADE ou por outros órgãos de pesquisa que mostram que infraestrutura é 99% água corrente, esgoto, essas coisas, que é surpreendente. Quando a gente vê na TV aqueles esgotos nas ruas, mas quando você vê as pesquisas, não é essa a realidade. A gente percebe isso pelos doentes. Infraestrutura quase todos têm. Outra coisa é casa própria, é um dado que a gente também não esperava quando começou a fazer os levantamentos com os nossos pacientes, não interessa o que chama de casa, mas é própria. É bem alto o número. Agora, o que a gente está observando é um empobrecimento muito grande, né. Mas isso a gente não precisava nem perguntar pros doentes, é só olhar pros salários, e a gente vê que vai empobrecendo. Cada vez mais. Eles estão precisando cada vez mais de ajuda, também tipo cesta básica, coisa assim.

 

P/3 – A senhora fez mestrado, doutorado, quais foram os temas de trabalho?

 

R – Mestrado, eu fiz avaliação de trabalho. Meu tema foi esse. E doutorado foi o acesso dos pacientes ao Instituto do Coração. Eu estava usando a lei do SUS que é a acessibilidade, um dos critérios se o recurso é acessível para a população, já que o SUS é atendimento universal,  então aí eu estudei se o Incor era ou não acessível, e de que maneiras e quais as estratégias que a população utilizava para ser atendida. Eu gostei, curti muito (risos), porque brasileiro é muito esperto. É que eu não esperava esse caminho, eu estava estudando acesso, se vem de que, de ônibus ou de carro, quanto tempo leva, se foi custoso ou não, e aí eu comecei a observar que tinha muita coisa que não era bem assim. Então eu fui ver e todo mundo achava um caminho torto pra entrar. Procurava achar algum parente, amigo ou conhecido, alguém pra poder conseguir matrícula, era uma forma de acesso que estavam procurando. Agora isso já mudou, porque tem o 0800, nem a gente consegue. Tem o 0800, é telefonar e marcar a consulta.

 

P/2 – Foi na PUC?

 

R – Foi. O mestrado e o doutorado. Depois eu fiz estágio no exterior,  na Mayo Clínic, e depois, que mais, essas coisas, estudo, pesquisa, hoje eu tenho umas duas pesquisas, e tenho mais uns trabalhos feitos para um congresso internacional, a gente está se preparando e eu tenho esse espaço pra isso. É, tenho.

 

P/2 – Essas duas pesquisas você está desenvolvendo aqui pelo Incor?

 

R – É, e estou pedindo bolsa da Fapesp, aqui tudo a gente tem que pedir subsídios. E depois que você tem o doutorado você tem mais condição de pedir. Inclusive um dos objetivos de fazer o pessoal se doutorar é conseguir ter acesso às financiadoras de bolsas e tudo o mais. Você tem que ter essa titulação, mas também pode desenvolver os trabalhos, os projetos, passa pela comissão científica, analisa o interesse e daí pronto, você manda pra frente. Depois você publica, e assim vai. É uma coisa que dá esse caminho. Eu falo pela minha experiência de trabalhar na Relógios Hora, não tinha a menor chance de nada. A menor chance de desenvolver alguma coisa assim, porque não tinha esse espírito de pegar uma informação e começar a guardar essa informação e a achar que ela realmente pode ser importante, e destrinchar os conteúdos.

 

P/2 – Agora só uma perguntinha. O que você achou de estar contando essa sua  experiência aqui no Incor pra esse Projeto Serviço de Psicologia 25 anos?

 

R – Acho legal, acho importante essa iniciativa do Serviço de Psicologia. Bem de Bellkiss, bastante garra, bastante visão pro futuro. Acho legal. Só que… Gozado a gente ser entrevistado. Legal falar do passado (risos). Eu achava mais legal se fosse o grupo todo, acho que daí era difícil gravar. Reunia a turma do começo, acho que seria muito divertido, um poderia acrescentar à experiência do outro, não sei… A gente se dá muito bem, o grupo todo. Acho que até seria mais legal. Não ficaria só eu, eu, eu, falando.

 

P/Todos - Obrigado, obrigado (risos).

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