Busca avançada



Criar

História

Pinóquio e o sapato

Sinopse

Em sua entrevista, Irene nos conta a respeito de sua infância e adolescente itinerante, na qual sua família acompanhava as grandes construções no norte do Brasil (como a Transamazônica), que empregavam seu pai. Fala também sobre seus estudos e sua escolha por Pedagogia. Em seguida, Irene versa sobre seu casamento e como ele lhe levou para Barcarena, onde se dedicou pela melhoria da educação da cidade, missão que carrega até hoje.


 

Tags

História completa

Ah, brincadeira com os irmãos, essa aí fica na memória. Porque, no nordeste, em cada casa você tem sempre um quintal, com uma mangueira. Você tem sempre aquelas brincadeiras de andar nos pés de lata, cavalo de pau, bambolê, carrinho. O teatro, as roupas de papel crepom, eram construídas por nós, os atores. Então, eu tinha ali uma mania de colocar os irmãos para ser atores. E eu era a atriz principal, né? Então, ali, nesse movimento de construir as roupinhas de papel crepom para apresentar... apresentava para o papai e para a mamãe, inicialmente, as peças de teatro. Depois, com a escola, a gente conseguia juntar os grupos da comunidade e aí inserir vários nessa brincadeira de faz de conta, onde se levava do papel de história para o teatro. Era a brincadeira que a gente mais gostava. De representar, de construir, de mudar.  

Olha, a gente encenava até a história das brigas das casas que aconteciam. Porque aí os colegas chegavam contando que aconteceu isso e isso em casa e a gente transformava aquilo em um roteiro de teatro. O problema, às vezes, era apresentar depois quando aquele, aquela família que aconteceu aquele incidente lá, estava lá para assistir. Uma vez, era Sete de Setembro e aí o meu pai ficou responsável de fazer o meu sapato, para desfilar. E ele foi - ele era dependente de álcool, bebia - fez o sapato, mas parou numa quitanda e bebeu e esqueceu de levar o sapato. Dois dias depois ele chegou com o par de sapatos. Chegou dois dias depois do dia sete de setembro. E aí eu chorei muito por isso, né? E eu lembro que uma das meninas que participavam: “Não, mas a gente vai resolver isso não com choro, a gente vai resolver mostrando para as pessoas, para ver se não acontece de novo”. Porque todo mundo era muito carente, então aquela não era uma história só minha. E nós transformamos numa peça, e o meu pai resolveu ir assistir. 

O nome da peça era Pinóquio, mas nós estávamos falando do sapato. Eu não sei por que o nome era Pinóquio. E o meu pai resolveu ir, e foi onde a gente pegou o personagem do Pinóquio e falou que ele pedia para o pai dele, que construía as coisas, que ele queria um sapato para desfilar. Na verdade, eu era o Pinóquio. Essa foi uma situação constrangedora, porque foi eu que incentivava, que motivava o grupo a fazer teatro e estava ali falando sobre uma situação que foi muito desgastante para a gente. E isso acontecia com os outros também, com as outras famílias. Então, aquele encontro de crianças ali, era um encontro também de desabafo de uma série de coisas. E a forma que a gente tinha de falar com as famílias, na época, era essa. Porque dificilmente a gente ia ter coragem de dizer para um pai: “Olha, eu precisava, eu queria e você não veio”. De jeito nenhum. A gente ficava caladinho. Não discordava e não falava nada. Mas o teatro é uma forma de falar. E eu acho até que era uma forma de conter também a repetição dessas questões, porque nunca mais ele fez isso lá em casa. O sapato chegava antes!

 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+