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História

"Pilantra, solta esse leite, Pilantra!"

História de: Hilda de Lima Trainote
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/05/2021

Sinopse

Nascida em três de fevereiro de 1929. Filha de trabalhadores da roça. Da infância lembra-se do trabalha na fazenda. Foi benzedeira do seu bairro. Casou-se, teve um filho dois netos e duas bisnetas.

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História completa

P/1 – Primeiramente, dona Hilda, quero agradecer pela participação da senhora, por ter dado o tempo e a disposição de contar a sua vida aqui para o Museu da Pessoa. Primeiro, gostaria de pedir à senhora falar o seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.

 

R – O nascimento é 03 de fevereiro de 1929. 

 

P/1 – E qual cidade a senhora nasceu?

 

R – Socorro.

 

P/2 – E o nome completo da senhora?

 

R – O meu nome completo é Hilda de Lima Trainote.

 

P/1 – E o nome dos pais da senhora?

 

R – O nome do meu pai era Francisco Dionísio de Lima. Da minha mãe era Eugênia de Araújo.

 

P/1 – E qual era a profissão deles? O que eles faziam?

 

R – Trabalhavam na roça.

 

P/1 – Eram agricultores?

 

R – Lavoura de café. Eles plantavam milho, feijão, arroz, mas tinham que sair longe porque não tinha lugar certo para o arroz. Então, tínhamos que ir longe para trabalhar.

 

P/1 – Mas eles eram trabalhadores?

 

R – Trabalhadores da roça desde criança.

 

P/1 – Eles tinham propriedade?

 

R – A propriedade era da fazenda.

 

P/1 – Eles eram empregados da fazenda?

 

R – Eram empregados, não tinham que pagar aluguel e nem nada, mas as casas eram do patrão da fazenda, o administrador. Então é isso aí.

 

P/2 – Em que cidade?

 

R – Socorro.

 

P/1 – Eles também são de Socorro ou vieram de outro lugar?

 

R – A minha vó era de Varginha, Minas Gerais.

 

P/1 – A senhora tem lembrança dos avós?

 

R – Tenho um pouco da minha avó.

 

P/1 – Qual o nome dela?

 

R – O nome dela era... Como era? Faz muitos e muitos anos, não estou lembrada do nome dela. E eu tenho um sotaque um pouquinho de mineiro, que muita gente já me falou, por causa da minha avó. Eu sei o nome dela, não estou lembrada agora. Quase que veio na minha mente e voltou para trás. Acho que é Eliana, alguma coisa assim. Não estou bem certa porque não estou bem lembrada. Quando se pega a idade o negócio vai piorando.

 

P/1 – E a senhora tinha irmãos?

 

R – Tenho! Dos nove somente eu e uma irmã minha, que está em Socorro ainda. O resto já morreram todos: pai, mãe, irmão, irmã. Estou só eu e a minha irmã, em Socorro. Então dos meus, a minha sogra, Dona Amabi, tem três só dos 12. Foram todos também. Essa minha cunhada mora em Campinas.

 

P/1 – E como era a fazenda que a senhora nasceu e foi criada?

 

R – A fazenda era uma casa grande e o nome do proprietário, que era o administrador, era Firmino Fernandes. O nome dele eu tenho na lembrança até hoje. O nome da minha vó é Eliana mesmo! Agora me veio na ideia. Vou fazer 84 anos em fevereiro. O negócio muda. Porque muitos pensam que a idade não influencia em nada. Só quem vive é que sabe, viu? Ainda se tivesse saúde. Eu não tenho saúde. Tem sempre uma coisa ou outra. Olha o remédio ali.

 

P/1 – E moravam todos na casa?

 

R – Moravam todos nas casas. Foram saindo quando foram se casando. Quando saiu, repartiu. Mas depois foram casando, um sai para cá, o outro para lá e, por isso, espatifou tudo. Depois foi juntando um perto do outro, outra vez. Já os meus irmãos que moravam aqui já foram todos embora. Eu tinha uma cunhada que era um amor de gente. Ela teve dois casais de filhos, que são vivos ainda. Não, tem uma que já faleceu. Os outros três estão vivos ainda. Ela tinha uma saúde que só vendo. Depois, ela ganhou o último filho e não sei o que aconteceu com essa mulher. Ela não teve mais solução na vida. Ficou mais de 30 anos sofrendo. Ela saía para qualquer lugar, abria o portão e não tinha a mentalidade certa. Ficava sozinha na casa dela, na rua de baixo e vinha aqui. Ela chegava e tirava o meu sossego, “Hilda, leva-me para me curarem”. Ela falava assim. “Leva-me para um lugar que cure Hilda”. Eu ficava desesperada e não sabia o que fazer com ela. Certo dia, saí com ela, fui num lugar longe daqui, tomava condução, naquele tempo era diferente, mas agora tem ônibus toda hora aqui. Descia lá embaixo para tomar a condução para Santo André e, de Santo André, tomava outro. Me deu aquele desespero, peguei ela, saí e fui lá na igreja de um frei, que hoje tem a igreja aqui em Mauá. De primeiro eu sempre ia lá. Agora que eu quase não posso sair sozinha. Então, quase não tenho ido mais à Igreja São Judas Tadeu. Ele é o Frei Vidal. Em muitos causos que aconteceram comigo aqui, a minha defesa era ir lá. Ele é vidente, é psicólogo e tem mais uma coisa lá que ele atende as pessoas. Ele sabe das coisas meio atrapalhadas. Ele sabe. Tinha sempre os causos que eu sentia aqui comigo, no prazo de dois dias eu fui lá. Cheguei lá, ele me conhece há muito tempo. E falou: “Oi, Dona Hilda, o que foi?” Eu sentava na frente dele, como estamos aqui, e ele abaixava a cabeça e eu ia falando. Ele falava: “Ih, Dona Hilda, o negócio está feio na sua casa?” Aí, contei um causo para ele, que falou: “Não era para você ter comido”. Eu falei: “Nem pensa nas coisas que não prestam. Quer dizer, vai para o esgoto”. Eu saí, não sei se estava no quarto, saí aqui e tinha dois pãezinhos em cima da mesa. Estava na hora de tomar o café e eu gosto de comer pão assim, feito em casa. Deu-me aquela vontade de comer, você sabe como é, quando acontecem essas coisas com a gente? Falei: “Ah, vou comer um pãozinho”. Parecia que tinha uma coisa que dizia: “Não come”. Falei: “Isso é só impressão”, e pensava comigo, “não come, não”. E fui comer. Mas para quê? No outro dia levantei da cama, andei cambaleando e quase caindo. Pensei, fui lá e contei a ele, que falou: “Não era para você ter comido, Dona Hilda. Aquele pão não estava bom”. Falei: “Frei, como eu iria saber?” Ele reza a missa, atende o pessoal agora, e tem mais freis que rezam a missa lá. Ele atende de segunda, quarta e sexta-feira, no horário da manhã. Não estou bem certa se o horário dele da manhã é das sete ao meio-dia. Sei que à tarde, quando eu ia lá, ia sempre na sexta-feira. Ele chega às três horas para começar a atender o pessoal.

 

P/1 – A senhora foi criada como católica?

 

R – Eu fui criada como católica.

 

P/1 – A família era religiosa?

 

R – Eu sou.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Mãe, pai e a família todinha. E sou católica até hoje. E já falei para uma crente aqui no portão: “Não vem com essa história de querer mudar a minha cabeça. Vocês perdem o tempo à toa. Eu nasci católica, fui batizada e casada na mesma igreja. Não é porque meu pai e minha mãe morreram que vou virar a minha cabeça, não. Vocês estão muito enganados. Vocês viram a cabeça de muita gente, mas eu vocês não vão virar”.

 

P/1 – A senhora ia na igreja quando criança?

 

R – Sim. A minha mãe assistia a missa. E nós morávamos longe da cidade. Mas lá na vila tinha uma Igreja de Santo Antonio, que de onde nós morávamos enxergávamos a igreja grandona. Quando tinha festa o padre ia lá celebrar a missa. Era uma coisa tão gostosa. Agora vão mudar a minha cabeça? Sabe o que me falaram na semana passada? Vieram duas, uma senhora já de idade e uma mais nova. E começaram a falar. “Olha, pára por aí. Pára porque eu não gosto disso. Eu não tenho nada com a vossa vida, vocês sabem o que querem fazer e eu sei da minha. Então, não adianta querer teimar comigo.” Começou a falar que os velhos de agora vão voltar a ser como crianças. Eu falei: “Quem falou isso? Quem é que falou isso.” “Está na bíblia.”. Eu falei: “É papel, minha filha, qualquer um risco que você faz ele aceita. Você vem me falar isso? Quem sabe é Aquele que está lá em cima. Não um de nós aqui. Nós, que somos velhos, vamos virar criança outra vez? Vira criança porque já fica de idade e já não é aquelas coisas que eram. Mas não que vai ficar novo e que vai virar criança. Ficar normal outra vez. Vai falar para outro isso daí, vai”. Falei a ela. “Mas, Dona Hilda, está escrito aqui”. Eu falei: “Já falei para você, o papel aceita o que você põe, minha filha. Não me venha com conversa. Se quer conversar comigo em outros assuntos, pode conversar, porque gosto de conversar. Menos sobre isso daí”. A Testemunha de Jeová é que faz isso. Ô bicho teimoso, viu?

 

P/1 – Dona Hilda, lembrando da infância, que festas eram essas celebradas na igreja?

 

R – Era festa de Santo Antonio, de São João, e a outra, meu Deus, qual é? São três santos... Nossa Senhora do Socorro! A igreja lá é Nossa Senhora do Socorro. Todo ano, no mês de agosto, tem a festa, só que eu nunca mais fui. Eu morava tão longe, eram sete quilômetros. Você acredita que quando eu cismava de ir, pegava o sapatinho na mão e ia à pé? Ia na igreja e vinha de madrugada. Serrote era o lugar onde nós morávamos na roça.

 

P/1 – E tinha mais famílias que moravam na fazenda?

 

R – Tinha bastante gente que morava lá, como uma colônia. Falava-se colônia aquelas casas encarrilhadas. Cada um tinha a sua casa. E cada um tinha o seu pedaço de café para tomar conta, tudo igual. Lata de leite, animal, nós tínhamos. A minha mãe tirava o leite. Eu era muito curiosa e, quando ela saía para algum lugar e ficava uns dois dias fora, era eu quem tirava o leite. E tinha uma vaca que ela chamava de Pilantra. Ela tinha os dois chifres assim, ó. Só que era muito mansa. Eu ia pela manhã, tinha aquele capim para cortar e dar para comer. Picava a mandioca e tudo. Ia tirar o leite dela. Já colocava o bezerro, um tento deixava só para o bezerro. Daquele não se tirava o leite. Só de quatro tetas. Ia tirar o leite e, no começo, tudo bem. Daí a pouquinho ela escondia todo o leite. Não adiantava. Você ficava puxando e não tinha leite nenhum para tirar. Ela escondia o leite! Eu falava com ela assim: “Pilantra, solta esse leite, Pilantra!” E colocava a peia trançada na perna dela. A peia não soltava. Quando eu a soltava, tirava a peia, soltava o bezerro porque ela não soltava o leite mesmo, daí ela soltava o leite para o bezerro. Ah, eu ficava brava com ela! E colocava-a de novo no lugar. E ela escondia o leite. Todas essas coisas eu passei. Porque na roça tinha uma doença que dava no casco das vacas. Como se chama meu Deus? Até hoje eles falam na televisão, que dá no meio do casco. A minha mãe e o meu pai faziam o remédio, que se chamava unto, que era gordura de porco. Misturava com tabaco de fumo e torrava em cima do fogão de lenha. Colocava numa folha e torrava ali. Depois fazia aquele tabaco, moía bem e coava numa peneirinha, como uma paçoquinha, e depois misturava aquilo. Aí, no outro dia cedo, ela falava: “Hilda, leva lá na cocheira que eu vou tirar o leite e você passa o remédio no casco da vaca.” “Está bem, mãe”. Ia lá tirar o leite e, enquanto ela ia tirando, eu pegava e passava aquele remédio no casco dela. Aftose que chama o que dava no casco. E era assim. Aí, o meu pai, que ia às vezes à cidade,  tinha um animal e pegava no pasto psra colocar o arreio em cima e ir. Quando ele pegava o cabresto eu já ficava rodeando: “Ô pai, me dá o cabresto para eu pegar o cavalo para o senhor”. E ele falava: “Não, você vai pegar o cavalo e montar, eu lhe conheço. Você é arteira”. Eu falava: “Pai, não vou montar. Não é o Pilantra que você vai? Pilantra é mansinho”. Ele pegava e dava. Uma vez eu peguei um cavalinho pequeno que tinha lá, a coisa mais linda, um cavalinho pequeno. E caiu de cima. Ai meu Deus do céu! Aquele cavalinho corria e eu escorreguei pelo pescoço do cavalo e fiquei de pé, de tanto que ele correu. Mas ele não fez nada a mim, nem me derrubou. Eu aprontava mesmo, viu! Eu não era moleque, mas eu aprontava mesmo! Ele falava: “Mas você é triste mesmo. Se sua mãe pega!”. Porque minha mãe era brava que nem não sei o quê. Uma vez sabe o que eu fiz? Posso falar?

 

P/1 – Pode!

 

R – A minha mãe tinha um moinho de moer milho para fazer fubá, aquele que faz polenta, você sabe o que é isso? Então, ficava bem retirado. Uma família lá tinha. Aí, ela falou: “Hilda, eu esqueci. Você precisa ir lá à Benedita buscar o fubá”. Eu falei: “Ah mãe”. Eu tinha tomado umas aquele dia. Tinha o multirão da fazenda numa roça lá que eles faziam com o pessoal e todos os colonos iam ajudar, dar uma mão. Aí, então, ali nas horas do almoço, eles levavam umas pinguinhas para quem gostava. Tinha uma moça lá que era triste. Era a levada da breca. Foi ela e um neto do patrão que tinha lá na fazenda, que se chamava Firmino, esse que eu falei para você. Natália, ela se chamava. A Natália era triste, era a levada da breca. Ela foi e falou: “Valdo, eu vou falar uma coisa para você. Você não é capaz de abrir uma garrafa de pinga e tomar tudo aqui”. E ele falou: “Você está louca, Natália? Não vou fazer isso. Pinga deixa bêbado.” “Deixa nada”. Esse copinho fundo, alto assim, acho que tomamos uns três cada um. Tinha a pinguela de córrego para passar, que tocava moinho! Eu passei, cheguei a casa e ficava longe da minha mãe para ela não perceber. Ela falou: “Hilda, precisa buscar o fubá que está na hora de fazer o janta”. Falei: “Mãe, estou sem coragem de ir ao moinho hoje”. Sabe o que eu fiz? Passei a mão no cabresto e fui pegar o cavalo. Arriei do meu jeito, fui montar no cavalo e virou o arreio com tudo. O cavalo, coitado, não saiu do lugar. Eu falei: “Mãe, eu não acerto sentar o arreio em cima aqui e afirmar”. E eu ficava longe dela para ela não perceber. Porque se ela percebesse... Ela arriou o cavalo, segurou bem. Eu tinha trilho para passar no meio do cafezal e para ir ao moinho era longe. Chegou lá na porteira o cavalo encostava, ele encostava sozinho para se abrir a tranca, tão ensinado que já sabia de tudo. Ele encostava assim, abria e passava. Chegando no moinho, chamei a mulher, a Benedita. Ela falou: “Já vou”. Ela veio. Aí, quando chegou a hora de despejar o milho para medir, pois se media o milho pela mesma quantia do fubá, ela me falou: “Hilda, estou sentindo um cheiro de pinga. Da onde vem esse cheiro de pinga?” Eu olhei para ela assim e dei risada: “Benedita, sou eu!” “Você está ficando louca!? Minha Nossa Senhora, o que é isso Hilda? O que você fez?” Aí contei o causo para ela. “Ah, se sua mãe percebe ela te mata!”. Ela sabia que a mãe era brava. Eu falei: “Quando ela conversa comigo eu esto lá não sei onde já, para ela não perceber”. E lavava a boca, e tomava uma coisa e outra para ela não descobrir. E ela não percebeu. Eu tinha roupa para remendar, porque a roupa da roça rasgava. Ela lavava e depois separava tudo para que eu remendasse. Fui lá para remendar, fazia cada pontão assim, falei: “Vou parar porque o negócio não está dando certo, não”. Amontoei lá: “Mãe, estou com muita dor de cabeça, amanhã eu faço, tudo bem? Não vai usar mesmo a roupa hoje, nem amanhã, nem depois de amanhã.” “Ah, está bem”. Ela não percebeu, foi Deus que me guardou naquele dia. Até isso eu aprontei (risos).

 

P/1 – E com os irmãos da senhora? Tinha brincadeiras?

 

R – Nós brincávamos, à noite. Às vezes tinha estala de fumo e nós íamos. Estala de fumo. Outro dia o meu pai ia ajeitar as cordas de fumo, colocava uma com a outra, colocava a munheca lá, e era eu que lidava lá. Eu aprendi tanta coisa. Meu pai sempre me chamava. “Tudo o que eu mando fazer você faz direitinho. Os outros começam com brincadeira”, ele falava. Ele era muito legal e paciente. Ele me avisava: “Toma cuidado com a sua mãe, porque ela é brava. E se eu fico bravo com ela, ela fica contra eu, e aí é pior. Não faz isso, não faz coisa errada, não”. Ele me falava: “Está bom, pai”. Tadinho. Morreu nos meus braços no hospital. Ele estava esperando a hora de eu chegar. Fui visitá-lo no hospital, no Beneficência Portuguesa, em Santo André. Ele estava muito mal. Fui pela manhã, e essas duas irmãs minhas que tinham ido, eu as encontrei no pátio, pois elas iam embora. Aí entrei lá, e quando eu ia sair, fui cedo, ele me falou: “Você vai voltar, Hilda?” Eu falei: “Pai, tem outro horário, se der eu volto.” “Volta mesmo, viu?” Eu voltei. Cheguei lá, foi a conta de falar umas duas palavras com ele, já foi a termo para morrer. Eu estava com a mão embaixo da cabeça dele e ele morreu em cima do meu braço. Deu o seu último suspiro. Meu irmão estava no corredor e eu o chamei: “Antônio, vem cá.” “O que foi, Hilda?” “O pai vai indo. Já foi”. Aí ele ficou desesperado, eu falei: “Não se desespera, que isso é coisa que acontece aqui no hospital. Não faça isso. Essas coisas acontecem mesmo, temos que aguentar firme”. E aquela vontade de chorar, de abrir, segurei um pouco as pontas por causa dele. Depois, fui chamada no hospital. Falaram: “Ele não tinha salvação”. A doença dele era câncer na garganta. Eu nunca me esqueço dele. Quando ele morreu, ele nos falou para não deixarmos faltar água a ele. Um dia, no caminho a pé, sempre quando eu ia no cemitério, achava garrafinha por lá. Senão, levava daqui mesmo. Enchia de água e deixava lá. Depois, quebraram todo o oratóro, até a fotografia que tinham lá. Está tudo abandonado, nem fui mais lá. Agora não tem mais jeito, nem a fotografia tem mais lá para beijar. Eu sei que está morto, mas nós conversamos. Não tem mais nada disso: acabou tudo. A vida não é fácil. Eu até lembro-me de muita coisa. Até que me recordo de muita coisa. Só o nome da minha avó não estava lembrando e lembrei. É a Eliana.

 

P/1 – E a senhora lembra-se das comidas que sua a mãe fazia?

 

R – Comida era feijão, arroz, polenta, carne de porco, que meu pai engordava naquele chapadão. Aquele torresmo. Ele matava capado assim, e depois ele mesmo destrinchava os pedaços todos. Ele tinha a prática e lanhava todo toucinho com a faca e depois colocava para enxugar em um pau atravessado. Ficava enxutinho. A minha mãe salgava. A minha mãe ia fazer a mistura e picava com esse torresmão assim. Lavava na água quente e fritava, aí não colocava mais sal porque já estava curtido e dava aqueles torresmos. Com feijão, arroz e salada, era aquilo. Ela fazia bolo de fubá, aqueles que eu não consegui pegar a receita, aqueles biscoitos de polvilho, que ela emendava um no outro. Era a coisa mais gostosa.

 

P/1 – A senhora aprendeu muita coisa com a mãe da senhora?

 

R – Aprendi. A fazer pamonha, canjica, e tanta coisa... Bolo.

 

P/2 – E tem algum prato preferido?

 

R – Não tinha nada desse negócio lá. Essas coisas sempre eram só mesmo o bolo de fubá, tudo simples. Fazia canjica, paçoca de amendoim, que até hoje eu faço. Tem duas netas que vieram aqui hoje. Passei como um susto, pois ela não me liga de jeito nenhum. De repente, fazendo o almoço, o celular tocou. Eu falei: “Será que é o Valnei, porque ele falou que vinha hoje embora”. Era ela: “Dona Hilda, nós estamos descendo, a Cláudia vai chegar aí”. Eu entendi que era a minha Cláudia, as meninas e a nora dela que vêm no dia 9. Ela falou assim: “A Cláudia está chegando aí e nós já estamos descendo”. Eu entendi isso. Era a mulher que ia fazer a limpeza. Ela não podia falar: “É a Cláudia que faz limpeza aí”. Nada. “A Cláudia vai chegar aí”. Eu fiquei alegre que as crianças fossem chegar. Eu fiquei tonta. Saí, vi a minha vizinha e fui bater um papo com ela: “Eu estou meio passada, meio esquisita, porque a Vera, que nunca ligou, falou que a Cláudia está chegando”. Ela não explicou qual Cláudia era. Tem bastante Cláudia. A moça me falou: “Ah, não fica decepcionada não, senão você fica doente. Não faz isso”. Falei: “Alegria. Sabe o que é alegria?” Quando meu filho chegou, que tinha ido ao mercado para comprar a mistura e eu falei: “A Cláudia está vindo aqui?” “Não, a Cláudia vai vir dia nove, mãe. Ela me falou que é no dia nove.” Eu até fiquei quieta e não falei nada pra ele. Não comentei nada com ele. Eu fiquei tão alegre que eu não sabia nem se eu almoçava, perdi até a fome. Saí no portão e falei: “Vou esperar eles chegarem”. Em vez, era outro causo, falou e não explicou que Cláudia que era. Ela falou e me deu um susto, de repente.

 

P/1 – Dona Hilda, além dos pais existiam outros familiares que moravam perto da senhora na fazenda? Alguns tios?

 

R – Sim. Tinha um tio que morava pertinho de nós e que se chama Sebastião. Ele tinha um problema que dá no olho e que escorre muita água e dói. Era só correr lá e a minha mãe falava: “Vai lá no tio”. Ele benzia, eu não sei que jeito ele fazia. Sei que ele colocava uma toalha na nossa cabeça, um copo de água e, não sei as palavras que ele falava. Sei que era como se tirasse com a mão.

 

P/1 – Ele era benzedor?

 

R – Ele benzia. Eu benzo criança, de susto, quebrante, lombriga, assustada. De mau olhado. Já veio criança aqui de mau olhado, criança que fica ruim e, se não acudir, morria. E com isso aí ninguém me ensinou. Isso entrou na minha cabeça. Já benzi crianças de mau olhado que é o mesmo que tirar com a mão.

 

P/1 – É a senhora quem benze?

 

R – Eu benzo crianças. Benzia adulto também, mas precisei parar porque eu fui ao frei e ele falou: “Dona Hilda, a senhora deve parar. A senhora não pode continuar. Vai ficar de cama porque isso aí é muito pesado. Tem adulto que tem coisa muito pesada e não pode. A senhora não tem como se defender.” Ele, que é psicólogo e é estudado, tem como se defender. Eu já não tinha e, então, parei. Falei: “Frei, só que criança é difícil de parar de benzer. Chega uma mãe com uma criança no meu portão e pede para eu benzer. Não tenho coragem de dizer: não. Sabendo benzer, não tenho coragem de dizer não.” E criança, tudo bem, continuo, benzo até hoje.

 

P/2 – E onde a senhora benze?

 

R – Aqui dentro mesmo. Não faz muito tempo que veio uma criança aqui, um menino. Ele mora não sei se no Belenzinho, nesses lugares, lá por São Mateus, por aí. A avó dele veio, ela mora lá embaixo, e me falou: “Dona Hilda, dá para a senhora benzer o meu netinho que o menino está ruim. Ele só chora, não dorme, não quer saber de mamar e está cada vez pior”. Falei: “Pode trazer”. Quando foi mais tarde eles trouxeram, veio ela e o menino. Quando bati os olhos no menino ele já mexeu comigo, mas fiquei quieta. Eu estava benzendo o menino normal e precisei parar, fiquei ruim, precisei segurar na pia para não cair. Deu tontura e mal estar. Aí precisava buscar arruda lá fora e não pude ir. Não sei nem quem chegou e foi buscá-la. E chegou falando assim: “Deixa dona Hilda, eu vou buscar”. Eu falei a ela: “É no cantinho ali do jardim que tem.” “Está bom”. Ela foi buscar. Peguei, benzi o menino de mau olhado, colocava a mão na cabeça dele, que estava com muito quebrante também. Precisei respirar fundo. Puxar a respiração lá do fundo, para depois ir voltando devagar. Ela falou: “Dona Hilda, a senhora está ruim?” Eu falei: “Não é nada. Da criança passa para mim e, daqui, vai embora e some. Eu tiro da criança e vai embora com as palavras que falo. Pode ficar sossegada”. E foi mesmo.  

 

P/1 – O que a senhora usa para benzer?

 

R – Água e ponho três punhadinho de açúcar, pontinha de colher de açúcar. E falo o nome da criança e cruzo nove vezes, e falo que, benzendo de quebrante, lombriga e lombriga assustada, três coisas, em cruz. Depois aquela água que eu benzo eu passo na testa primeiro, depois eu passo na mão. Depois, passo nesse pé, nessa mão, e cruzo. Dou três golinhos para tomar. E pronto.

 

P/1 – Arruda serve para quê?

 

R – Arruda serve para isso aí. Tem que ser arruda ou alecrim. Eu sempre conservo arruda aqui. Veio uma menina um dia que eu fiquei com medo. A mulher veio no posto com gripe forte, e a menina tomou a vacina. A vacina, quando dá febre e ainda mistura com a gripe... A menina ficou ruinzinha. Trouxe no posto e puseram medo na mulher. Quase mataram a mulher e a criança. De tardezinha, acho estava aí fora: “Dona Hilda!”, chamou alto. Atendi. “Pera aí, que eu vou buscar a chave.” Entrou a menina e ficou largadinha no colo dela. Fui benzer a menina, fiquei ruim e parei. Falei: “Ih, o negócio está feio.” “Dona Hilda, a enfermeira me falou que a minha filha está com meningite e que tem de ir ao Hospital Nardini, pois senão ela vai morrer.” Falei: “Tira isso da cabeça minha filha! Tira isso da cabeça! Não é nada disso, não.” A menina estava largadinha mesmo: “Isso não é nada. Eu já estou sentindo o que a menina tem.” Benzi a menina, cruzei a água, depois tornei a fazer o sinal da cruz, o nome de Deus, pedindo pra Deus. A menina despertou um pouquinho, foi voltando a cor da mulher, que estava amarela, parecia que ia ter um troço. Falei: “Calma que não é nada do que falaram para você. Não é nada disso.” Quando saiu para ir embora, que abri o portão para ela sair, a menina deu aquela olhadinha e deu uma risadinha para mim. Falei: “Ela está melhor. Já está melhorando.” Daqui uns dois dias eu vou saber da menina, se está melhor da gripe. E fui. Cheguei lá, ela tem mais dois moleques: “Vou benzer ela outra vez, e vou procurar saber se ela encontrou alguma pessoa na hora que foi ao posto.” Cheguei lá e falei a ela assim: “Eu vim ver a menina.” “Ela ainda está com gripe, mas está melhorzinha, dona Hilda. Ela está mais espertinha agora, mas está com gripe.” Peguei, tirei ela do carrinho e falei: “Posso pegar?”. Ela disse: “Pode”. Tirei ela do carrinho, comecei a carregar ela, brincar com ela. Falei: “Vou benzer ela”. O moleque já veio: “Você me benze também, Dona?” “Benzo”. Dois moleques. “Primeiro vou benzer a neném e depois eu benzo vocês”. Aí falei a ela: “Olha, vou fazer uma pergunta a você. Aquele dia eu não falei nada porque a menina estava ruim daquele jeito e você estava ruim também. Eu também não fiquei legal. Você encontrou alguém na hora que saiu para levar a menina no posto?” “Encontrei.” “Com quem?” “Tal de fulano assim e assim”. Era a mulher que pôs o mau olhado na menina.

 

P/1 – Dona Hilda, a senhora contou que esse dom de benzer veio desde criança. A senhora benzeu o tio da senhora? Tem alguma outra história que envolve esse dom da senhora desde a fazenda?

 

R – Esse dom... Eu ia benzer com o meu tio, isso que eu falei. É um ramo de ar que se pega. Ele benzia e sarava. Eu era criança ainda. Aí, quando casei, depois que vim pra cá, pois eu morei por 12 anos na Avenida Alfredo Maluf. Depois de oito anos eu engravidei dele, do meu filho. Aí, depois de seis anos, engravidei da menina, e essa faleceu. Eu sofri muito a gravidez inteirinha. Tanto que fiz o pré-natal umas duas, três vezes só. E falei ao médico: “Eu não vou voltar mais, não”. Ele falou: “Mas você precisa voltar, isso precisa acompanhar”. Eu falei: “Eu preciso tomar ônibus, não tenho carro”. E muita gente, aquilo parecia rodar tudo. Não sei como é que foi até o fim a minha gravidez. Aí, quando foi para nascer, a menina foi cesárea, lá em Santo André. Nasceu a menina e tudo e veio uma tosse que não dava sossego. Estourou o ponto e o médico não estava nem aí com nada. Eu reclamava e nada. Chegou uma mulher lá no quarto que ficou internada e ela que chamava. Acho que nem campainha tinha na cabeceira da cama. E eu ruim. Quando foi de madrugada eu levantei, ruim mesmo, lá na Pro Matre, era um corredor comprido. Quando elas me viram eu estava lá na enfermaria. “Dona Hilda, a senhora vai levantar, não pode!”. Eu falei: “Não pode? Não pode é me deixar chamando, pedindo, e não vai ninguém lá, não dá as caras nem de jeito nenhum para ver o que está acontecendo conosco. Você fala que não pode vir aqui?”. Fiquei brava e falei mesmo. “Daqui a pouco vamos lá”. Aí vieram de madrugada e aplicaram a injeção. Passei para o soninho. Depois, o médico deu alta para vir embora com a minha filha para casa. Era um defunto, não tinha cor. Meu marido trabalhava de noite, em três horários. A minha irmã trabalhava até às dez horas da noite. Quando, um dia, me deu um febrão que me jogou na cama. Sozinha, eu e Deus. Caí lá na cama e não conseguia levantar. Quando foi certa hora da madrugada, não me lembro, sei que era madrugada, estourou a barriga aqui. Um buraco assim. Aquilo era pus e sangue. Fiquei num poço só naquela cama. Sujou a coberta e tudo. E eu fiquei no meio daquela lama, não podia levantar de jeito nenhum. Aquilo esguichava tchu, tchu. Eu falei: “Vou morrer sozinha mesmo aqui agora. Não tem jeito”. Foi Deus que mandou. Estava escurecendo, duas criaturas, uma que eu sei que já foi embora, minha comadre, e a outra eu não sei da vida dela, nunca mais fiquei sabendo. Chegou na porta me chamou: “Comadre”, já era comadre naquele tempo. Eu falei: “Entra porque eu não posso levantar. Vocês não vão assustar com o que está acontecendo comigo aqui, pois o negócio aqui está feio”. Quando elas descobriram. “Nossa Senhora do céu, o que faremos?” No banheiro, tinha que sair da porta e descer, pois não tinha banheiro dentro de casa. O que as coitadas fizeram? Pegaram uma vasilha com água, tacaram no fogo para esquentar bem. Tinha uma bacia grande. Puseram aquela água na bacia e me colocaram como uma criança. Derrubaram como se eu fosse uma criança e limparam tudo. Tiraram a roupa suja da cama e colocaram roupa limpa. E todo dia ela vinha fazer um curativo e tirar aqueles panos velhos que ela colocava embaixo para não sujar o colchão. Que Deus a tenha em um bom lugar, por que ela merece muito. Eu a agradeço sempre. Coitadinha. Ela que cuidou de mim. Depois voltou lá no hospital para o médico ver. E olhou e disse. “Ainda bem que estourou, senão teria que operar de novo”. Não passou uma gota de água. “Põe uma gota de água aí que é bom”. Nada. Virou as costas e foi embora. Fez isso comigo. Eu não sei como eu estou aqui. Por certas coisas que passei, parece mentira, mas é verdade o que eu estou contando. Já passei por cada uma que só por Deus mesmo. Cinco vezes. Deu um negócio aqui que era como uma fisgada. Se eu estivesse no sofá lá eu ficava. Tentei vir uma vez para cá e caí. A perna endurecia e não dobrava de jeito nenhum. Ali eu ficava gritando. O vizinho que escutou. Cinco vezes. A última vez eu estava estirada aqui. Ele escutou. Ele tem a chave do portão e da lavanderia. Quando ele chegou, já foi na casa deles aí: “Vocês não estão escutando, não? A sua mãe está no chão, tenho certeza absoluta. Eu não vi, mas tenho certeza que é ela”. Chegou aqui e eu já estava molhadinha de suor. E não levantava, não. Fui ao hospital de madrugada e quase que vim morta de lá. Cheguei à maca e fiquei lá no hospital. Não tem cama para ninguém lá. A visita não pode ficar com o paciente. Aí ele aplicou um remédio lá e acalmou. Na maca mesmo. Quando de madrugada tinha uma senhora lá, uma japonesa. Pegaram a japonesa e foram fazer um raio-X. Eu fiquei só. Estava voltando a dor e ele falou assim: “A senhora está gemendo. Está voltando a dor?” Eu falei: “Está voltando”. Eu não sei o que ele pos no soro. Só sei que ele mexeu no soro e deixou. Se não é o rapaz que estava passando na sala, eu tinha ‘sapichado’ da maca. Era aquela ânsia da morte, aquele suor que descia e escorria que nem água. Eu já estava com as duas mãos no ferro da coisa para pular. Ele falou: “Não! Pelo amor de Deus! Fica quietinha aí que vou chamar o médico”. Aí foi, vieram correndo, desligou e foi acalmando. O remédio era forte. Eu ia morrer lá na maca. Outra vez, tem uns remédios de por embaixo da língua aqui. Quando foi no convênio a enfermeira me disse: “Dona Hilda, quando chegar lá, a senhora avisa que está com o remédio embaixo da língua, viu?” “Tá bom”. Quando foi para entrar na sala eu falei e meu filho falou: “Não vai passar remédio de pressão que ela já está medicada”. Escutou por aqui e soltou por aqui. Quando foi de tardezinha eu estava lá na enfermaria, ruim, largada e veio o rapaz com o remédio de pressão. Eu tomei. O médico deu a saída para vir embora e, quando chegou a uma altura do caminho o meu filho precisou voltar correndo. Eu estava espichada dentro do carro. Batia ou não batia, não tava nem aí. E ele na direção, sozinho. Aí ele falou: “Mãe, eu vou voltar para o hospital”. Eu falei: “Se você chegar a ir para casa eu não vou chegar viva. Não vou aguentar mesmo”. Chegou lá e fui direto para a enfermaria. Não voltava a pressão de jeito nenhum, a pressão foi embora para baixo e não voltava. E o rapaz lá comigo o tempo todo, não vinha ninguém. Depois, quando quis voltar à pressão, escutei o rapaz falar ao outro assim: “E aí rapaz, como é que está?” “Não tenho palavras para responder a você. Sabe o que é nada?” E a pressão não voltava.

 

P/1 – Dona Hilda, conta como a senhora conheceu o marido da senhora, o nome dele, o nome completo.

 

R – O nome dele é João Trainote. Ele era um homem muito bom, muito legal. Ele era muito calmo, tinha muita paciência. Ele nunca me prendeu em casa. Quando saía de casa ainda falava: “Não vai levar só o dinheirinho do ônibus. Leva um dinheirinho a mais porque às vezes tem fome, vê qualquer coisa e tem vontade de comer. Não vai fazer isso”. Era assim que ele fazia. Saía daqui e ia ajudar a minha irmã a cuidar da minha mãe na cama. Eu dava banho pois ela me deixava dar banho. A outra irmã ela não deixava, não sei por quê. Cuidamos dela, que morreu no hospital, mas não foi por falta de cuidado, não. E ele fazia comida, lavava a louça, chegava e não tinha uma colher suja, tudo limpinho.

 

P/1 – Mas vocês se conheceram quando, onde?

 

R – No interior. Eram em 12 moços. Tinha as mulheres, a Amábile, a Conceição, a Maria, a Palmira, e os outros eram todos homens. Nos conhecemos no interior, em Socorro. Morávamos perto deles. Depois ia fazer destalo de fumo ali de noite. E nos conhecemos assim. E depois continuamos. Ficamos bastante tempo namorando. A minha mãe era brava. Tinha a reza, o terço lá na igreja, o meu pai era o rezador e quando partia o terço e rapaz o chamava: “Não falte que você reparte o terço”. Aí ele ia. Eu falei: “Pai, vou ao terço hoje”. Batia o sino, que gostoso, mas a mãe não me deixava. Aí, eu falava a ele: “Pai, vou ao terço com o senhor hoje”. Ele falava: “Sua mãe é que não deixa, minha filha. Ela fala que não deixa e é brava que nem não sei o quê. Eu não quero ver você apanhar”. O meu pai apontava, saía, e eu vupt, atrás. Aí foi indo, e começamos a namorar. Começamos a namorar e ele falou: “Olha, cuidado Hilda com a sua mãe”. Falei: “Ela não está vendo nada. O senhor não vai falar nada para ela, não”. Aí teve festa lá, de Santo Antônio, que é o padroeiro de lá. Tinha bastante gente na festa. E eu estava no cruzeiro lá, conversando com ele, e ela de pé na porta da igreja. Ele falou: “Sua mãe está lá na porta da igreja. Acho que ela vai descer aqui”. Eu falei a ele: “Se ela descer, deixa que desça. É melhor se separar porque se ela desce de lá vai brigar com você. Eu não vou sair daqui”. Parece que ela escutou eu falar. Foi ele falar e ela desceu mesmo, foi direitinho lá onde estávamo. “Você já está com namorico por aí?” Eu falei: “Já faz tempo”. Ela era brava, mas eu ainda abusava. “Agora que a senhora está sabendo, o pai sabe e nunca falou nada, e nunca achou ruim.” “Ao chegar em casa vamos ver isso.” “Está bom”. E não deixei-o sozinho. Continuei lá. Quando fui embora, foi um sururu dentro de casa. Papai falou: “Calma! Ela já é mocinha, tem coisa que precisa deixar. É gente boa”. Começou a falar... Parece que ela se acalmou mais. Certa vez disse a ele: “Quando quiser chegar lá em casa pode chegar”. Ele falou: “Enfrentar a sua mãe? Eu hein...”. Eu falei: “Pode ir que ela não vai fazer nada.” “Eu vou esperar mais um pouco.” “Pode esperar”. Começamos a namorar e logo casamos.

 

P/1 – Teve noivado?

 

R – Sim.

 

P/1 – Como foi?

 

R – Noivado foi tudo uma maravilha.

 

P/1 – Teve festa?

 

R – Não. Naquele tempo não tinha esse negócio de festa. Fazia-se o casamento. Casou e pronto. Não é como hoje que o pessoal faz festa. Lá era diferente, fazia o que é necessário somente e pronto.

 

P/1 – E depois que vocês se casaram vocês se mudaram? Foram morar juntos numa casa?

 

R – Ficamos um pouco tempo juntos, mas depois separamos a casinha. Depois desocupou uma outra casa lá e passamos a morar sozinhos.

 

P/1 – Isso era na fazenda?

 

R – Sim, na fazenda. Só que era outro dono. É ali mesmo, mas já pertencia a outro. Aí, fomos morar naquela casa, que é a lavoura de café. Ficamos mais quatro anos lá e depois viemos pra cá.

 

P/2 – Como foi vir pra cá? Vocês vieram para o Sônia Maria direto?

 

R – Não. Eu morava no quintal da minha irmã, lá na Alfredo Maluf. Ela deu o lugarzinho lá e levantou dois cômodos para morarmos. E ficamos 12 anos por lá. Depois, quando ele trabalhou na Bridgestone, falaram que estavam mandando gente embora e ele achou que ia para o corte também. Eu falei: “É bom mesmo que eles mandem você embora para você pegar uma graninha lá e comprar um terreninho. Porque nós temos um filho e estamos morando aqui, mas não é nosso”. Então, a minha ideia foi essa. Mandaram-no embora mesmo, mas era dinheiro... Não era real, era cruzeiro naquele tempo. Ele saiu e não me disse nada. Falou: “Eu vou dar uma saída por aí”. Sei que ele veio desse lado, viu o terreno ali embaixo, na descida, mas não gostou porque era para baixo e sempre tem descida. E para esse lado aqui também. As duas melhores ruas que têm aqui são essa e essa de baixo. A (rua) Noel Rosa também não era ruim. Achou o corretor, mostrou o terreno lá embaixo e falou: “Lá em cima tem um terreno que é todo assim”. Veio aqui e fechou o negócio na hora. Aí fiquei toda contente. Ele chegou, naquele tempo tinha a menina pequenina no braço. Eu fui ver. Cheguei a trazê-la aqui quando era tudo mato, mas ela não chegou a vir morar aqui. Quando nós estávamos construindo ela morreu. Ele empreitou a um japonês. Fez cômodo, banheiro e a área na frente. E só. Não, na frente nem tinha área. Era só para morarmos. Depois que fez aqui, com o primo e o irmão dele que ajudaram. Ele trabalhava na Volks e não trabalhava no sábado. Ficava o dia inteiro aqui trabalhando com o irmão e o cunhado. Ajudaram a levantar essa outra parte aqui, que é onde nós temos.

 

P/1 – A senhora trabalhava na época?

 

R – Sim.

 

P/1 – No quê?

 

R – Em casa só. Em fábrica não. Uma vez ele ficou desempregado, eu também estava. Tirei a carteira e falei: “Vou procurar serviço”. Depois aconteceu que eu fiquei grávida e falei a ele: “Agora você se vira porque eu já arrumei serviço”.

 

P/1 – E a senhora trabalhava com o quê em casa?

 

R – Trabalhava ajudando a minha mãe quando estava em casa. Lavava louça, passava as roupa que precisam, pois roupa de roça não precisava. Remendava, ajudava ela, varria terreiro e essas coisas aí.

 

P/1 – Mas quando a senhora já estava casada, morando aqui em São Paulo?

 

R – Aqui? Só trabalhei em casa.

 

P/1 – Só em casa.

 

R – Só. Não trabalhei em fábrica.

 

P/1 – Em casa trabalhava com o quê? Só cuidava da criança?

 

R – Só cuidava de criança e fazia o servicinho da casa. Sempre foi assim. E criei o meu filho, coloquei ele na escola quando chegou o tempo certo. Só que depois ele teve um probleminha e eu fiquei sem saber o que fazer. Levava para cá, para lá e não adiantava nada. Ele ia para a escola e vinha chorando. Às vezes precisava ir à escola para trazê-lo porque ele começava a chorar e não parava. Acho que isso aconteceu umas três vezes. Falei para o pai dele: “Olha, você deita para dormir e não vê o que está acontecendo”. Ele veio chorando lá de fora, num choro só. Chegando em casa eu conversava com ele, que disse: “Mãe, deixa eu chorar’”. Aí, certo dia ele estava dormindo e escutou o menino chorar e se levantou. Eu falei: “Olha, é isso aí que estou falando a você que está acontecendo. Não sabemos o que é. O menino não pode nem estudar, eles pedem para ir embora porque ele fica chorando lá”. Vocês ouviram falar naquele Marinheiro, de centro? Não chegaram a ver? Isso faz muitos anos. Isso era na Oratória. Tomávamos o ônibus aqui e, depois, tínhamos que entrar numa travessa e ir embora. O Marinheiro que falava. Era mulher, mas tinha que falar Marinheiro.

 

P/1 – O que é Marinheiro?

 

R – É centro.

 

P/1 – Centro?

 

R – Centro, mesa branca.

 

P/1 – Centro espírita?

 

R – É. Mesa branca. Desci numa conhecida e falei: “Maria, você vai lá comigo em tal lugar? Eu preciso levar o Valnei lá, para ver se o menino se endireita, se faz o menino sarar.” “Vou sim. Só que eu tenho que fazer a janta porque o povo chega às oito horas e tem que ter comida para jantar, pois chegam com fome.” “Pode fazer a janta que vamos depois”. Chegamos lá e ele falou: “Eu não posso atender porque hoje é dia de operação”. Contei o caso pra ela, que disse: “Eu não podia atender, mas vou atender”. Conversou comigo e, ao lado dele, falou: “Ele não pode escutar, está com água no coração”. Quando ela falou isso: “Não fica nervosa”. Ela conversou comigo: “Amanhã você traz ele bem cedinho”. Quando ela chegou para atendê-lo já era tarde. Cheguei a não sei que horas da tarde. O meu marido ficou preocupado e foi atrás. Chegou lá, acho que às três horas, quando o operaram. Aí contei o causo a ele e tudo.

 

P/1 – Foi uma operação espiritual?

 

R – Espiritual. Disse que tava com água no coração. Eu não sei do que foi isso, acho que foi do sentimento da irmã que morreu. Acho que isso, porque ele não chorou. Não o via chorar. Ele guardou para si. Acho que foi isso. Aí operou, explicou tudo o que tinha que fazer, que precisava tomar muito cuidado com ele e que ele ia ficar bom. Cuidei direitinho e, até pouco tempo, ele tinha sinal ainda. Graças a Deus, nunca mais.

 

P/1 – E a senhora criou o seu filho aqui, no Sônia Maria?

 

R – Criei aqui.

 

P/1 – Ele estudava aqui no bairro?

 

R – Estudou aqui no Sônia.

 

P/1 – Você lembra o nome da escola?

 

R – Do tempo que ele estudou eu não estou lembrada.

 

P/1 – A senhora levava ele na escola?

 

R – Sim.

 

P/2 – E como foi para a senhora ser mãe? O que a senhora sentiu quando foi mãe?

 

R – Senti alegria de saber que ia nascer o neném. Passei por cesárea. Não. Dele não, foi da menina a Cesárea. Dele foi parto normal. Ele demorou um pouco porque era muito grande, mas conseguiu. Até a enfermeira que estava lá, as duas, e o menino não nascia. Vieram aqui para ajudar, ajoelhar em cima da minha barriga. Eu falei: “O quê? Vai ajoelhar na barriga da sua mãe! Não na minha. Já estou com dor na barriga e você vai ajoelhar em cima da minha barriga?” Falei mesmo, estava nervosa. E não deixei. Falei: “Ele vai nascer, tenho fé em Deus que ele vai nascer! Ele é grande, mas vai nascer”. E nasceu, graças a Deus. Elas acharam ruim comigo: “Ô mulherzinha ruim.” “Sou ruim mesmo. Vê lá se vou deixar fazer isso comigo”.

 

P/2 – O que a senhora achou do bairro quando mudou-se pra cá?

 

R – Eu gostava de todo mundo, me dava com todo mundo, e me dou até hoje. Graças a Deus. Tenho alguma coisinha diferente, mas é por causa dela.

 

P/1 – E qual é a lembrança da senhora dessa época? Como eram as ruas, as casas?

 

R – Não tinha movimento nenhum, era tudo quieto. Era muito difícil passar um carro. Agora são  duas linhas de ônibus, carro a toda hora, um movimento danado.

 

P/1 – Já tinham muitas casas aqui na rua?

 

R – Não. Só tinha essa vizinha que morava aqui, outro um pouquinho à frente e tinha uma casinha aqui em cima. Era tudo mato. A Petroquímica era um eucaliptal, tinha só aquele trilho para passar pelo meio. Pra descer a Santo André era um trilho que ia lá embaixo até tomar a condução. Era difícil. O ônibus era demorado. Tudo era mais difícil, mas depois que melhorou. Porque às vezes a pessoa reclama. Qualquer coisa já estão reclamando. Têm tudo na mão, hoje em dia, mas às vezes, porque aumenta um pouquinho a passagem, já estão reclamando. Ah, não é tanto assim também, né? A pessoa tem porque tem gasto. Um carro quando corre tem gastos para fazer. Qualquer coisa que desmancha, o dinheiro vai. Precisa olhar essas coisas também. Sou uma pessoa assim... As pessoas falam que aumentaram as coisas, e é claro que aumentou. Não aumentou os outros também? Eles são obrigados a aumentar, e vem com aumento para eles. Precisa aumentar. E que se vai fazer? Não está certo?

 

P/1 – E quando a senhora veio, já conhecia alguém aqui do bairro?

 

R – Não conhecia ninguém. As únicas pessoas que conheci quando comecei a vir aqui, eram eles dali. Eram pessoas muito legais, como são até hoje. O marido dela é muito nervoso, mas em vista do que era, melhorou muito. Já tive amizade com ela, tudo, porque qualquer coisa que acontece comigo ela vem procurar e até já trouxe uma sopinha quando estou na cama. A outra não faz nada. Sabe o que é nada? Nem perguntar se estou melhor, se estou ruim, ou como estou. Nunca peguei uma colher de água da mão dela.

 

P/1 – E como era o comércio aqui? Onde se faziam as compras, a comida e os alimentos? Tinha que comprar fora, em outro bairro?

 

R – Aqui mesmo tinha a venda. Sabe as vendas que tinham primeiro? Que tinham mantimentos, essas coisas? Feiras. Na feira tinha feijão, arroz e tudo. Era isso aí. Às vezes tinha. Não era mercado que se falava, era a venda. Nós chamávamos de venda. Hoje em dia é mercado.

 

P/1 – A senhora lembra do nome de uma venda, ou das vendas?

 

R – Ah, isso não lembro, não guardei na cabeça. Não me lembro de nenhuma. Não tenho recordação.

 

P/2 – A senhora lembra do contato dos primeiros vizinhos? O que começou a conversar, a conhecer?

 

R – Primeiro foi essa daqui, depois foi outro que morava ali. Eu tinha amizade com ela também, que desapareceu e nunca mais a vi. Agora é outra que nós somos muito colegas. 

 

P/1 – Qual o nome dela?

 

R – Terezinha. Porque ela tem a mesma idade minha, só que ela foi registrada atrasada, então ela fala que é mais nova do que eu e brincamos muito uma com a outra. Eu falo: “Você fala que é mais nova, mas não é nada, é de 29, a mesma coisa que eu. Só porque registraram você atrasada” (risos). Brincamos uma com a outra.

 

P/1 – E ela já morava aqui? Chegou depois?

 

R – Ela não morava aqui, não.

 

P/1 – Ela chegou depois da senhora?

 

R – Ah, bem depois. Demorou muito. Ela se casou. O marido dela morreu com 27 anos, de repente. Depois ela arrumou outro, que era um vagabundo e ela pôs para correr, pois era um espírito de porco. Ela tinha os filhos e procurou o serviço, arrumou, trabalhou na Volks, não sei quanto tempo, trabalhou em outros lugares que não me lembro. Mas não sei. Se você conversar, ela lhe conta tudo. E depois arrumou outro, que não é casada com ele até hoje, mas é o companheiro dela. Ele já esta com 88 anos e vive com ela. Ela tinha dois filhos e uma filha mulher. O filho dela é um moço que já estava trabalhando e tinha um colega dele que andava de moto e corria como um louco. E o outro irmão dele falava para ele: “Roberto, para com isso que aquele cara corre muito, é perigoso, larga a mão disso! Você tem dinheiro para pagar a condução, não precisa fazer isso!” E ele falava: “Morrer? Só um dia”. Quando foi uma semana, morreu aqui na Oratório, embaixo de um caminhão. Não foi ele que estava dirigindo a moto, mas o colega dele, que morreu na hora. Ele ainda ficou sofrendo um pouquinho para morrer, mas morreu. Um rapaz bonito que só vendo. Tem foto lá no cemitério que dá até dó. Um rapaz tão bonito. O Wilson, que é o filho dela que é vivo até hoje, o mais velho. Tinha família em Pinhal e fui com ela umas três vezes lá. É bem longe daqui. Tomávamos esses ônibus aqui de Mauá, o que ia para o Tietê. Ele vai até lá pertinho. Chegando lá era tomar outro ônibus e descíamos pertinho da casa da cunhada dela, que já faleceu também.

 

P/1 – Dona Hilda, a senhora morava na casa da irmã quando compravam o terreno aqui?

 

R – Sim.

 

P/1 – Como foi o período da construção? Continuaram morando lá?

 

R – No período da construção nós ficamos morando lá mesmo. Aí quando levantou os dois cômodos e que rebocou, nós passamos pra cá.

 

P/1 – A senhora se lembra da mudança?

 

R – Sim.

 

P/1 – Como foi? Conta.

 

R – A mudança foi com os ‘trens’ da casa que tinha lá. Acho que foi um caminhão que trouxe. Ele trouxe aqui e estava tudo cimentado. Era um cimento rústico porque não podíamos fazer piso nenhum, não dava para fazer. Fomos fazendo devagar. E quando chegava o fim de semana eu pegava aqueles panos e lavava-os. Depois comecei a ficar doente, chegava em casa era ele mesmo que lavava tudo e eu ficava no hospital. A vizinha também pedia para eu lavar a roupa. Eu lavava. Ela ajudava em muitas coisas. Tenho um certo sentimento num causo que aconteceu aí, mas não foi por ela, foi por causa de outra pessoa.

 

P/1 – O que tinha no bairro pra fazer naquela época? Tinha festa, igreja?

 

R – Tinha a igreja, era pequenininha e hoje é grandona. Não era essa daí. Era lá embaixo, na última rua. No passado tinha que descer atravessando aqui. Passa na padaria lá embaixo, não sei se vocês passaram ali. Desce na outra rua de baixo e já se vê a igrejinha de São Sebastião. Era lá. Mas era um lugar muito caído. Depois a turma, eu mesma pensei, um lugar tão bom aqui, fica no centro, é perto da Silvia Maria e perto da Ana Maria. Não, Silvia Maria. E lá em cima. Essa aqui é a Ana Maria, e a outra tem outro nome. Os nomes são três moças.

 

P/1 – Nós estamos no Sônia Maria.

 

R – Isso, Sônia Maria. Aquela outra é que é o problema, a Ana Maria. Sônia Maria e Sílvia Maria. Os nomes de três moças, porque o homem que era dono daqui pôs o nome das filhas dele: Ana, Sônia e Sílvia.

 

P/1 – E como foi para a senhora ter a casa própria? A senhora contou que já tinha um filho e aí o marido da senhora recebeu e disse que queria ter uma casa própria.

 

R – Sim. Ele recebeu aquele dinheirinho da Bridgestone, que naquele tempo era em Cruzeiro, não era Real.

 

P/1 – Aí ele voltou a trabalhar em seguida?

 

R – Voltou. Ele arrumou um serviço, não sei se na Arno. Ficou um ano só e depois arrumou na Bridgestone e ficou por lá 18 anos e meio. De lá ele se aposentou. Aconteceu que ficou doente, era um homem forte que só vendo.

 

P/2 – Ele vem visitar a senhora?

 

R – Quem?

 

P/2 – O seu filho?

 

R – Quando?

 

P/2 – No dia a dia.

 

R – Vem sempre, a toda hora ele está aqui. Hoje ele chegou, conversei com ele aí fora e depois ele pegou o carro e desceu. Acho que foi no barzinho. Ele conhece o rapaz. Sei que chegou, deu um tempinho, tinha feito um arroz e um feijão. Eu desci e fui falar a ela: “Se você não tem feijão eu tenho feijão temperadinho”. E ela estava no telefone e não quis falar nada, para atrapalhar. Ao invés de dar atenção a mim e falar o que eu queria, pois não tinha nem cumprimentado, ela disse que tinha a lavanderia dela, que vira ali no fundo. E foi embora e nem falou nada comigo. Nem procurou saber se eu estava querendo alguma coisa, se não estava. Cumprimentar ela não cumprimenta mesmo.

 

P/1 – Dona Hilda, na época que frequentava a igreja a senhora participava de alguma organização, ajudava na igreja aqui?

 

R – Não.

 

P/1 – Nunca?

 

R – Não, nunca ajudei na igreja. Ajudei assim: pagava o dízimo por bastante tempo. Depois desse problema, não tenho nem ido à igreja mais. Assisto à missa do padre Marcelo, de domingo, que tem a televisão aí na frente. Ele pos uma televisão aí porque não tinha onde guardar na casa dele. A minha cama é do lado de lá. Eu fico deitada na cama e assistindo a missa. E de manhã, às oito horas, tem a missa de Aparecida do Norte. Só se eu não estiver em casa, mas caso sim, ela não fica sem ligar. E na hora da benção eu esto lá. Eu cozinho, faço café, dau a sopa dele, do louro, e dos passarinhos que trato. São três gaiolas. E depois a vizinha, que é a Terezinha, todo domingo vou almoçar com ela, que insiste para eu almoçar com ela. Aí, vou almoçar com ela e depois volto para casa. Se não saimos para algum lugar eu fico deitada no sofá. Quando saimos é bom porque se distrai com os outros.

 

P/1 – E para onde as senhoras vão?

 

R – Para o aquário, na Estrada do Pêssego. Senão vamos à casa de algum conhecido. No domingo fomos à casa de uma senhora, que mora lá na baixadinha. Fomos duas vezes e não conseguimos achar a casa dela. Ela me disse: “Ela foi outro dia na casa dela, no Rio Grande da Serra”, que sempre vou com eles lá, na chácara. E agora, a última vez que eles foram, ela me chamou, mas eu falei: “Ah, não estou legal. Não estou com vontade de sair”. E falei: “Fala para a Cida, dá certinho o número para irmos à casa dela. Eu quero ir.” No domingo eu disse: “Eu não to disposta para sair muito.” Ela falou: “Para onde você está destinada a sair?” “Não sei, mas eu não estou com vontade de ficar em casa”. Falei: “Vamos na casa da Luzia, então?” “Vamos”. E descemos. Falei: “Você perguntou para a Cida onde fica mais ou menos?” “Ela falou que é depois dos predinhos, a terceira casa. “E o número”?” “Tenho certeza absoluta que é 206”. Aí fomos à direita, depois que passa os predinhos. Chegamos na terceira casa: “Tem que ser aqui”. Bati os olhos no número. “Olha o número aí”. Era a casa dela mesmo. Ela se chama Luzia. Ela é irmã daquela que mora em Rio Grande da Serra, e que fui lá uma vez e ela perguntou: “Dona Hilda, a senhora benze erisipela?” Eu falei: “Benzo.” “A minha irmã está muito mal. Tem uma dor naquela perna que não aguenta”. Eu falei: “Dá uma ligada a ela e diz para ir lá em casa. É em frente a Terezinha, 436, na Carmem Miranda. Não tem no que errar, é pertinho do posto”. E certo dia ela apareceu. Aí ela falou: “É aqui mesmo? A senhora benze erisipela?” “Benzo”. Benzi e está sã. Só que tem uma coisa. Temos de descer no piscinão e achar a tal da mamona. Tem que fazer três rosarinhos, benzer com os três rosarinhos e, depois que termina, tem que pendurar e deixar secar. A mulher está com a perna limpinha.

 

P/1 – A senhora já ficou conhecida aqui no bairro por causa da benzeção?

 

R – Já sim. Um fala para o outro. Às vezes, chegam aí, apertam a campainha: “É a senhora que benze? Chama dona Hilda.” “Sou eu”. Eles dão o endereço. Às vezes vem gente de longe para benzer. E não é só isso. Às vezes é criança que vai no posto com disenteria, vomitando... Porque, primeiro, eu pergunto à mãe: “Qual a idade da criança?” “Está com um ano e pouquinho.” “É uma criança que está apanhando dente, não pode dar remédio para cortar. Se for de dente, não pode dar remédio por três dias. Ele pára sozinho. Não pode. Corta a disenteria e prejudica a raiz do dente. Tem que ver isso aí”. E no Posto, é tudo virose para eles. Eu falei assim: “Conforme a idade que a criança está, pode ser os dentes”. Eu tenho remédio, mas não vou dar. Tem que esperar passar. Quando tem febre, pára sozinho. Caso tenha disenteria, pára sozinho. Nunca são os dois juntos. Se é disenteria, é só disenteria. Se é febre, é só febre. Mas no Posto, o que acontece? Eles dão antibiótico, que estraga o dente da criança. O que eu dou? Rosa branca. Dependendo da idade da criança, isso tem uma quantia. Você faz esse tantinho, eu coloco num pezinho. Você ferve, coa e dá aquela água. Não põe açúcar. E dá aquela água para a criança que corta tudo. Se voltar tem de vir falar, porque se põe todos os dentes, se é muito novo, não está pondo dente ainda. Aí a mãe vem toda feliz, diz que ficou boa, sarou. Essas coisas. Porque quando eu era criança a minha mãe era muito brava, ela sempre foi brava. Ela avisava: “Quando chegar uma visita você não fica na frente dos outros que eu não quero. Se vocês teimarem, depois que a visita vai embora vocês vão ver comigo”. Mas eu era curiosa e ficava de longe com a antena ligada, escutando o que ela falava para as mães. E com isso, muitas coisas eu peguei pela minha cabeça mesmo. Já veio criança aqui de noite, às nove horas, que essa hora é ruim para se abrir o portão. Abri o vidrinho da porta, perguntei quem que era e a moça disse: “Dona Hilda, não precisa ficar com medo não. Aqui é a filha da Zilda, aquela que trouxe a menina para a senhora benzer na semana passada”. Aí tudo bem, pegava a chave e abria. A menina estava ruim, fazia quatro dias que não evacuava. Quando vinha a dor, aquela dor que dava vontade de fazer e não conseguia e a menina gritava. Ela sentou, acho que a mãe dela que veio junto, e eu estava explicando a ela como fazer o remédio. Falei que iria fazer o seguinte. Esqueci até o nome dela, a Zilda é a mãe dela. “Vou fazer o remédio aqui e vou dar. Você espera um tempinho aí”. Dei o remédio à menina, ela  bebeu com gosto. E falei: “Larga a menina um pouquinho para ela soltar pelo menos um ‘ventos’, que já alivia um pouco e ajuda”. Ela deixou a menina, que começou a soltar pum. Aí eu falei: “Já está melhorando”. Quando foi a segunda vez, a menina fez tanto que ela disse que não sabia como limpava essa criança, porque chegou até no pescoço. Acabou o sofrimento da menina. E o que era? Não evacuava, estava tudo parado. Quando vi a mãe dela, perguntei e falou: “Dona Hilda, nunca mais aconteceu isso. Aquilo foi uma benção”. Pois quando é para purgante é de um jeito; quando é para cortar a disenteria e vômito e de outro jeito. Não pode por açúcar.

 

P/1 – Dona Hilda, a senhora tem quantos netos?

 

R – Eu tenho dois netos só, um casal. Uma menina e um menino.

 

P/1 – Eles moram onde?

 

R – O rapaz mora em Goiânia e ela mora na rua de baixo, a Juliana. É esposa desse homem que dei o negócio a ele.

 

P/1 – Os dois netos foram criados aqui?

 

R – Sim. Foram criados aqui. Depois que ele casou, morou em Mogi das Cruzes, fez um sobradinho lá e ficou morando. Depois começou a trabalhar na Nestlé. O serviço dele o mandou pra lá. Começou a trabalhar em Brasília e, depois, foi para Goiânia. Parece que são uns sete quilômetros de Brasília até Goiânia. Então, passaram-no para Goiânia. É difícil acostumar lá, porque é muito calor.

 

P/1 – A senhora já foi para lá?

 

R – Nunca fui. Meu filho queria até, mas falei: “Não vou de jeito nenhum. Não gosto de calor. Calor demais eu não me sinto bem. E lá é direto”. Ela já foi umas três vezes. “Para Goiânia você não vai me levar. E de avião? Cai fora de avião”.

 

P/1 – A senhora já tem bisnetos?

 

R – Tenho, duas bisnetas. A mais velha fez sete anos no dia primeiro de março. A pequena fez três aninhos no dia 16 de março. 

 

P/1 – Elas moram aonde?

 

R – Lá também, é filha dele. E a mulher é goiana. Ela vai vir aqui dia nove. Por isso que eu estava ansiosa. Atendi com o almoço no fogo, e ela falou de repente e não explicou qual era a Cláudia. Porque tem essa que faz a limpeza e ela se chama Cláudia. Falou: “A Cláudia está chegando, já está descendo”. O que eu ia pensar? Só tinha que pensar na outra. Ela não explicou. No entanto, não vi Cláudia chegar. Acho que ela trabalha em mais casas. Não é coisa para falar daquele jeito: “É a Cláudia que faz a limpeza”, não podia ter falado assim? A Cláudia que ela falou eu senti que era outra.

 

P/1 – Como é o dia a dia da senhora?

 

R – Agora que eu estou melhor e tenho mais coragem de sair, converso com um e com outro. Cuido das minhas plantas, lavo o quintal quase todos os dias, quando ela não está aí ficam dois, três dias, pois não lavo todos os dias.

 

P/1 – A senhora passeia, faz caminhada?

 

R – Caminhada eu não faço. Não faço mais porque tenho artrose, sinto dores na perna. Então, saio no domingo para algum lugar e, por aqui, estou sempre pra lá e pra cá. Ou cuidando das plantas, molhando-as e podando. Venho aqui dentro devagarzinho e faço o meu serviço. Quando limpo esse quarto aqui, na outra semana eu limpo o outro e, na outra semana, limpo a sala. É assim que eu faço, devagarzinho. E subo na escada para limpar o guarda-roupa. Pego a escadinha de cinco degraus e subo. Outro dia limpei o vitrozão lá de fora, esse aqui. Um pouco de cada vez. Porque muitas vezes ela tem costume de passar sabão com aquela esponja e depois tacar água, escorre tudo na parede, fica um lodo na parede. Eu falei: “Não. Se for para limpar desse jeito, eu limpo fácil também. Não é assim”. Depois que o meu marido faleceu o vizinho pintou a casa e precisou tirar todo o reboque daquela janela. Estava um lodo. Ficou tudo preto. Vai penetrando a água, que molha tudo e fica encharcado. Tem que tirar. Uma coisa é azulejo na cozinha. O meu é até essa parte aí, no banheiro e no corredor. Quando vou limpar, o que eu faço? Faço água e sabão, pego um pano com sabão, passo, depois passo outro com água limpa. É isso que eu faço. Não jogo água com mangueira. Nunca soltou. Quantos anos faz isso aí? Nunca soltou um azulejo. Na casa dela agora também está caindo os azulejos. E por quê? Porque passa sabão com a mangueira, com a força da água e tudo. Aquilo acaba com tudo.

 

P/1 – Dona Hilda, o que significa para a senhora, ou significou, morar no Sônia Maria? Vir para cá, criar o seu filho e os netos?

 

R – Gosto demais daqui. Adoro o Sônia Maria. Toda a vida eu gostei. Morei na Alfredo Maluf, mas não gostava muito de lá. Esse lugar, quando eu vi o terreno aqui, adorei. Gosto até hoje. Saio daqui só quando Deus chamar. Não tenho vontade de sair daqui.

 

P/1 – A senhora tem alguma lembrança de algum fato, um evento, que marcou a vida da senhora com relação ao Sônia Maria? Uma mudança de ver o bairro crescer, os comércios?

 

R – Eu acho gostoso, acho bonito o que aumentou. Tem bastante movimento, duas linhas de ônibus, uma de Santo André e outra de Mauá. Tem ônibus a toda hora. Carro, tudo quanto é coisa passa aqui. Nesse tempo de política então, não vejo a hora de passar as eleições, porque é papel que não acaba mais. Tem que saber o que é isso. Mas é um lugar gostoso, sossegado. Ela morou aqui até agora. No dia que discuti com ela, foi motivado por ela mesmo. Que aquilo ruía tudo aqui, que eu não esquecia daquilo hora nenhuma. Teve um dia que chamei a atenção e ela achou ruim. Eu falei o que era a verdade, porque ela quebrou a minha planta do vaso? Aquilo foi roendo e me machucando. Certo dia eu falei a ela. Aí quando ela falou: “É, o vaso virou!” Eu falei: “Mentira! É muito feio mentir, sabe? Fale a verdade que é mais bonito”. Aí nós viemos discutir aqui. Ela escutou coisas do arco da velha. O que eu tinha que falar, falei. Joguei tudo e falei mesmo. Quando o meu marido morreu, acho que depois de uns dois meses, mais ou menos, ela jogou na minha cara: “O seu João morreu e você não ajudou com nada”. Eu falei: “É, gracinha, é o pai do meu filho e você vem falar uma coisa dessas?” E convênio também. “Eu vou falar para o Valnei parar de pagar esse convênio, que é caro demais”. Eu falei: “Já estou pensando em fazer um convênio. Você não precisa ficar preocupada com isso”.

 

P/1 – Qual o aprendizado da senhora, morando aqui no Sônia?

 

R – O que eu mais aprendi aqui foi viver e ter contato com o povo. São pessoas legais, gente que se conhece, e que gosta de conversar. E também gostei do lugar. Não tenho nenhum arrependimento. Outro dia, falei a ele estava falando que não gosta mais de morar aqui porque vê ela, por isso e aquilo. Eu falei: “Você pegou o mesmo ramo dela? Eu não tenho nada do que falar daqui. Seu pai se foi, mas eu nunca reclamei nada a ele. Não tenho o que falar daqui. O terreno que ele queria comprar ele comprou e construiu. Sair daqui só quando Aquele lá chamar. Do contrário, ninguém vai me tirar daqui”.

 

P/1 – O filho da senhora mora onde?

 

R – Aqui. Eu falei: “Você tem lugar para morar”. Eles estão morando num apartamento. A minha neta, nós vamos conversar, eu vou falar a ele: “A Juliana está pagando aluguel, mora numa casa apertadinha, vocês estão morando lá, então passa ela aí, pelo menos eu não fico sozinha”. Não é? Eu não vou cobrar aluguel nenhum dela, não quero dinheiro nenhum dela. Ela é minha neta. Se for gente de fora, estranho, é outra coisa. Mas sendo a neta, não tenho coragem de fazer isso.

 

P/1 – Ela é casada?

 

R – Casada. Com esse um que pegou o documento aí. Ele é muito bonzinho. Eles não são casados ainda, mas pretendem se casar.

 

P/1 – Ele também é do Sônia Maria?

 

R – Não, ele não é do Sônia Maria, ele morava em Campinas, esqueci o nome do lugar. Morava para aqueles lados. E ela tinha um colega que tinha conhecido e foi passear. Conheceu o rapaz e resolveram viver juntos. E se gostaram. Ele é muito bonzinho. Ele chega aí às vezes: “Dona Hilda, tudo bem com a senhora aí?” Ele pergunta. Também, por causa de remédio de pressão, que eu fiquei três dias sem tomar. Estava me sentindo bem e não estava sentindo nada. Eu vi, eu nasci de novo. E quando foi de noite, sozinha aqui, estourou sangue pelo nariz e pela boca sem parar. Aquilo chegava até a espumar. Quando acordei, já estava saindo da cama e não vi. Senti que nem aquela aguinha de quando se tem gripe, sabe? Levantei de pressa e fui ao banheiro. Quando levei o papel higiênico, aquilo veio a bica. E continuou. Eu falei: “Nossa, o negócio está feio. E agora o que eu faço?” Peguei um pano grande que estava na tábua de passar roupa, nem sei que pano era para segurar um pouco. Fui à casa da vizinha, não consegui chamá-la por causa do sangue. Desci a viela e fui parar na casa da minha neta, lá embaixo. Cheguei ao portão e os chamei. Ele abriu a janela e falou: “O que está acontecendo, Dona Hilda?” Eu falei: “Socorro, meu filho. Corre que o negócio está feio”. Aí correram, me segurando, levaram no posto, enquanto estava lá ele veio e pegou o carro. Deu o carro a ela, que tem carta, mas tem medo de dirigir. Enquanto estava medindo ele já pegou o carro, levou no posto, estava com 25 por 11 a pressão. Estava quase dando um infarte. Quando cheguei ao hospital, que estava descendo na enfermaria veio uma coisa ruim para cima e saiu uma pelota. Estava coalhado já. Quando passei pelo médico ele falou: “Você nasceu de novo. Não sei como você não morreu na cama. Se você não acordasse, ia morrer na cama”.

 

P/1 – Dona Hilda, fechando nossa conversa, a história da senhora, como foi para a senhora contar, lembrar dos eventos da infância, do casamento e do marido? Da infância das crianças e do Sônia Maria. Como foi?

 

R – Foi tudo bem, graças a Deus. Você quer ver a foto da menina?

 

P/1 – Sim, vamos fazer uma exposição com as fotos.

 

R – Só para vocês verem ela... Pode? 

 

P/1 – Sim. Então, em nome da Braskem e do Museu da Pessoa, agradecemos a senhora por ter participado e dado o seu depoimento.

 

R – Está bom.

 

P/2 – Muito obrigada.

 

P/1 – Muito obrigado.

 

R – De nada. Obrigada a vocês.   

 

FINAL DA ENTREVISTA



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