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Petróleo e política

História de: Heitor Manoel Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/02/2015

Sinopse

Heitor nos conta sobre sua infância no Recife, suas brincadeiras e a vida nas festas do Dia de Santa Luzia e no carnaval, além dos clubes. Fala de sua experiência, ainda criança, na Intentona Comunista e sua formação escolar em meio a um período de muita conturbação política. Fala sobre sua militância política na Campanha "O Petróleo é Nosso", sua entrada na universidade de engenharia em 1947, e na Petrobras em 1957. Nos diz sobre sua experiência viajando por Maranhão, Pará, Amazonas e Rio de Janeiro. Vemos sua experiência de cassação e prisão na ditadura militar, sua anistia em 1979, e sua aposentadoria em 1990 pela empresa. Heitor termina falando sobre o governo FHC e suas privatizações, e sua preocupação com a manutenção da memória do Brasil e da Petrobras.

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História completa

Frente a minhas preocupações – também não sei por que razão me levaram a ter essas preocupações – eu fiquei curioso em tomar conhecimento de alguns problemas. Às vezes são coisas que aparentemente são muito secundárias. Por exemplo: Monteiro Lobato ajudou muito a juventude a pensar no problema de petróleo. E eu li toda a literatura daquela época sobre petróleo. Aí veio a briga em duas teses no Brasil. Por quê? As grandes companhias de petróleo naquela época eram sete. Chamadas Sete Irmãs. Cuja coordenação era norte-americana. Era dos anglo-saxões. Eu costumo chamar anglo-saxões porque este é que é o inimigo da humanidade, se chama a elite anglo-saxã. Que é a elite norte-americana e a elite inglesa. Elite inglesa. A Inglaterra é uma Federação. Tem quatro nações a da Inglaterra, da Grã-Bretanha. A elite inglesa é que domina. A elite inglesa e a elite norte-americana. Norte-americana com a Esso. Que tem outros nomes: Mobil e tal. E a inglesa tinha uma companhia de petróleo fundada por um holandês chamada Deterlin. E o holandês disse: “Não, para eu avançar eu tenho que ter uma nação forte que me dê um apoio.” E essa nação forte naquela época era a Inglaterra. E a então Deterlin, que fez o tal Shell, se associou com o império britânico, com a Casa Real Inglesa, império britânico, e a Shell passou a ser anglo-holandesa. Mas quem manda são os anglo-saxões. E não interessava a essas companhias que se descobrisse mais petróleo no mundo. Porque o que ela tinha no momento controlando era suficiente. Então desenvolveram campanha intensa de que no Brasil não tinha petróleo. O Brasil não tinha petróleo. O Brasil não tinha petróleo. Não adianta procurar petróleo. Não tinha petróleo. E nós ficávamos, nós que éramos jovens naquela época, preocupados. Porque se na Argentina tinha petróleo, na Bolívia tinha petróleo, na Venezuela tinha petróleo, tinha na fronteira, por que não tinha para o lado de cá? Que mistério é esse? Nós não entendemos de geologia, mas que mistério danado, tem lá e não tem cá? Aí nessa época se desenvolveu, a discussão alcançou a área militar através do Clube Militar. Esse da Praça da Cinelândia. E um general que foi da Coluna Prestes, cearense de nascimento, Juarez Távora, do qual os amigos dele são meus camaradas hoje. São colegas meus engenheiros. Os filhos do general Juarez Távora. Juarez Távora, que foi da Coluna Prestes, fez a revolução de 30, defendeu uma tese de que realmente o Brasil não tinha capacidade nem técnica, nem financeira, nem econômica, nem de qualidade nenhuma para desenvolver uma pesquisa de petróleo. Um outro general que depois passou, foi promovido a marechal, chamado Horta Barbosa: “Não, o petróleo ou é do Brasil ou é das grandes companhias. Porque é uma indústria que requer capital e requer maturação demorada etc e tal. E o Brasil tem que ter, ou ele é o dono do seu petróleo ou ele passa a ser das grandes companhias internacionais.” E essa tese chamada de Tese de Horta Barbosa foi empolgando toda a sociedade. Foi daí que apareceu o movimento “O Petróleo é Nosso”. E nós, como estudantes em Pernambuco, nos engajamos nesse movimento do “O Petróleo é Nosso”. E “O Petróleo é Nosso” foi feito uma campanha nacional como nunca tinha visto na história do Brasil. Comícios, caravanas, apareciam lá coronéis, brigadeiros etc e tal e professores universitários, estudantes, líderes trabalhistas, e foi uma campanha, naquela época se fazia escrita nos muros, né? Oxe, foi pouco. Pegava cal, fazia uma lata de cal; saía um com a lata de cal, outro com o pincel pintando os muros: “O Petróleo é Nosso. O Petróleo é Nosso.” E como sempre os estabelecimentos, o poder estatuído, estabelecido achava que aquilo era um negócio subversivo. Que o petróleo não podia ser nosso. E prendia a gente. A gente saía pintando; de vez em quando tem um bocado de polícia na esquina quando a gente chegava: “Pega todo mundo! Leva para o xadrez.” Então como é que é? Muitas vezes eu e outros colegas fomos presos nessas condições. Aí os estudantes, os diretórios acadêmicos faziam aquelas caravanas - iam na delegacia, tiravam a gente da delegacia etc e tal. Geralmente a gente saía de lá para ir para uma festa. Saía do xadrez para ir para uma festa de estudante. Então essa luta continuou. A Tese de Horta Barbosa foi vitoriosa porque Getúlio Vargas mandou um projeto para a Câmara Federal e esse projeto efetivamente não atendia ao que nós defendemos, chamado Estatuto do Petróleo. Permitia a entrada de empresas estrangeiras no Brasil, e esse projeto foi discutido com uma pressão do povo nas ruas, etc e tal. Houve muito tiroteio nos comícios. Eu participava de muitos comícios. O comício que me marcou mais foi o comício em que os estudantes mataram um dos colegas nossos, estudante de direito, chamado Demóstenes de Souza Filho na Praça da Independência, em 1944. Getúlio no poder. Demóstenes de Souza Filho. A polícia chegou, deu uns tiros lá para cima; o rapaz levou uma bala e morreu. Era um líder estudantil. Ficou marcante esse negócio do Demóstenes de Souza Filho, porque foi um dos pretextos que incentivaram a derrubada de Getúlio Vargas em 44. Então o que acontece é que o movimento foi, mas lá no Congresso houve a coisa mais interessante - é que a bancada da UDN, que era mais conservadora, resolveu apresentar, com birra com Getúlio Vargas, resolveu apresentar um substituto. E foi o substituto do deputado, um personagem interessante, que era Olavo Bilac Pinto, o substituto dele foi aprovado e foi aqui que nasceu a Petrobras com o monopólio estatal do petróleo. Getúlio Vargas sancionou a lei no dia 4 de outubro de 1953, e a Petrobras como empresa foi instalada no dia 10 de maio de 1954. E Getúlio Vargas naquela competência política que ele sempre teve pegou um inimigo do monopólio e botou na Presidência da Petrobras. Botou um cidadão da UDN, general Juarez, Juarez não, aquele baiano... Juracy Magalhães como presidente da Petrobras. Mas botou a diretoria de gente muito boa. Hélio Beltrão, uma grande figura. Um outro que era um funcionário do Ministério da Fazenda muito bom também e um outro que era um paraibano também, estudioso da economia etc e tal, então uma diretoria muito boa. E a Petrobras montou e se criou. A juventude brasileira, regra geral, participou da construção da Petrobras. Porque era um desafio. Os americanos diziam que nós não tínhamos competência de formar uma empresa petrolífera. E nós dizíamos: “Nós temos competência.” E formamos a empresa. Ela saiu de zero, aí apareceu petróleo na Bahia. Uma gotinha de petróleo no subúrbio de Salvador chamado Lobato e a partir daí se impulsionou a campanha do petróleo. “Tem em Salvador, tem em outros lugares do Brasil.” Então nós íamos para a Petrobras não atrás do salário, que era muito bom àquela época, mas não era isso que nos preocupava. Mas formar uma grande empresa competente. E conseguimos fazer.

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