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História

Petrobras, uma história de coração

História de: Lilian
Autor: Lilian
Publicado em: 06/06/2021

Sinopse

Revelando a relação intrínseca entre sua carreira e a história familiar, Hugo Aloy conta a origem humilde de seus pais e os esforços que o levaram a se formar em economia, ser admitido na Petrobras. Fala da inesperada mudança para o departamento de comunicação, pesquisa e marketing, onde deixou uma marca na empresa.

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História completa

P/1 – Hugo, boa tarde.

R – Boa tarde.

P/1 – Gostaria de começar a entrevista pedindo que você nos diga o seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Meu nome Hugo Vilardo Aloy, data do nascimento 2 de maio de 1938, no século passado [riso], nasci aqui no Rio de Janeiro, em Santa Teresa e, enfim.

P/1 – E o nome dos seus pais?

R – Eu sou de origem italiana, meu pai italiano, chegou aqui ao Brasil em 1904, com 14 anos e mamãe, filha de italianos. Nome dele Salvador Aloy, nome dela Florinda Vilardo Aloy.

P/1 – Seu pai era da Itália de que região?

R – Região, ele era do sul da Itália, da Calábria, uma cidade chamada Cidade de Paula, onde nasceu São Francisco de Paula, portanto está lá o corpo dele na Catedral de Paula.

P/2 – Da família lá dos seus pais você chegou a conhecer seus avós?

R – É algo que a gente inclusive até registra, porque naquele tempo, quando papai veio para cá, as comunicações eram muito difíceis; era por carta, levavam dois, três meses, então meu pai chegou aqui em, como eu disse, 1904. Aliás, 1908, eu quero retificar. É que ele é de 1894 e chegou em 1908, ou seja, com 14 anos. E a gente dizia assim: “Ora, como é que pode?” Ele foi rever a mãe dele e eu conheci a minha avó em 1948, quando ela veio da Itália para passar os últimos anos dela de vida aqui no Brasil, e eu tinha dez anos e papai, 40 anos depois de deixá-la é que foi revê-la, quer dizer, hoje você tem internet, fala com todo mundo, eu falo com minha filha todo dia, mas é algo que realmente marca no relacionamento que existia em termos, das famílias naquele tempo. Então da parte de meu pai, os meus avós, quer dizer, eu só conheci a minha avó com dez anos de idade, ela faleceu dois anos depois, mas guardo dela essa lembrança, lembrança relacionada com meu pai, que ela só foi vê-lo 40 anos depois de ele ter vindo para o Brasil.

P/1 – Que emoção, né?

R – É. E da parte da minha mãe, que os meus avós, né, eu sei da história um pouco da família, porque sempre gostei dessa parte de pesquisa, de ver as raízes...

P/1 – Mas você também não conheceu?

R – Não, eu não conheci minha avó, ela faleceu no mesmo ano que eu nasci e meu avô sim. Meu avô, quando ele faleceu eu tinha seis anos de idade, me lembro ainda dele, na minha memória o que eu guardo dele é ele quebrando aquelas avelãs [riso] num degrau da cozinha da minha casa em Santa Teresa. Ele me dando aquelas avelãs, é o que ficou dele. Mas é importante dizer, por exemplo, que no que diz respeito à colônia italiana existia uma relação muito grande com a minha avó e depois com a minha tia, filha mais velha da minha avó. Que a minha avó era parteira, era parteira da colônia italiana aqui no Rio de Janeiro. Então, às vezes eu encontro com amigos e eles dizem assim “Eu nasci pelas mãos da sua avó”, ou então “Eu nasci pelas mãos da sua tia”, eram parteiras.

P/1 – Que ótimo. Como é que era o nome da sua avó?

R – Minha avó, Concheta Ceta. E a minha tia que deu segmento, Angelina Vilardo Boderone.

P/1 – Atividade do seu pai e da sua mãe também que você...

R – É, eu até nesse depoimento é uma maneira até, eu diria até de resgatar aquele sentimento de reconhecimento com meus pais. Eram de origem humilde, o meu pai, como eu disse, era imigrante italiano e se fixou no comércio e mais precisamente; diz assim: o italiano quando vinha para cá ou era jornaleiro ou engraxate, né, os imigrantes. Papai era um engraxate e, vamos dizer assim, mal sabia assinar o seu nome, mas tinha uma visão do que era importante para os filhos, tanto ele quanto a minha mãe, que era costureira modista, de que não podiam nos dar nada material, mas podiam e nos davam todas as possibilidades de educação. E assim nós conseguimos, eu consegui chegar onde cheguei graças ao esforço de meus pais. Com humildade deles, com a profissão dele, uma profissão humilde, mas honesta e muito trabalhador nesse sentido e da minha mãe, que eu acordava às vezes de madrugada e eu via ela costurando, aquele barulho de máquina, e ali eu tive um primeiro contato com o Cassino do Chacrinha, que era o que embalava a madrugada dela [riso]. Ouvindo o Cassino do Chacrinha, lá do Abelardo Barbosa. Então isso é... Falar nos meus pais eu falo com muita, com muita saudade e diria com muita gratidão.

P/1 – Hugo, você também teve irmãos, como é que é?

R – Eu tenho um irmão, tenho uma irmã já falecida, ela era professora de música e eu diria que eles investiram muito na minha educação e na educação do meu irmão. Na minha irmã também porque eu me lembro dela, ela era minha madrinha de batismo inclusive...

P/1 – Ela era mais velha. R – Era mais velha, existia uma diferença grande, quase de 17 anos entre ela e eu.

P/1 – Você é o caçula.

R – Não, eu sou do meio, vamos dizer assim, caçula é o meu irmão Reinaldo. Ela era professora de acordeon, então, na época do Mario Mascarenhas ela fazia parte da academia do Mario Mascarenhas dando aulas de acordeon. E ela, também tem uma passagem muito, eu vou dizer, muito, como eu poderia dizer isso... não quero dizer triste, eu quero dizer algo que também marcou muito a nossa relação dela ser, além de minha irmã mais velha, ela ser a minha madrinha de batismo, mas eu vi o sofrimento dela nos últimos anos de vida; que ela teve um tumor, operada e enfim, pelo Dr. Niemeyer aqui e ela em momento algum ela se queixou do sofrimento dela e aí eu digo, ali estava também um pouco do dedo do, vamos dizer assim, do espírito dos meus pais, porque ela dizia que queria ver o filho dela formado. Ela formou os três filhos, mas o filho mais novo, o caçula e a diferença nossa, quer dizer, nos tratamos quase como irmãos, nós somos, apesar de sermos, ter um relacionamento de tio para sobrinho, é como irmãos porque a diferença de idade nossa é de um, dois anos entre nós e eu sei que quando a minha irmã... quando a minha mãe estava esperando o meu irmão, a minha irmã, no final da gestação da mamãe, já estava esperando o meu sobrinho, quer dizer, então a diferença do meu irmão é de... ele nasceu em 40, o meu sobrinho em 41. Mas voltando, então a minha irmã, disse que queria, vamos dizer assim, porque queria ver a formatura do meu sobrinho, médico, né, e eu guardo também com muito carinho essa lembrança. Ela já nos últimos dias de vida ela foi para o Hotel Glória, se hospedou no Hotel Glória, porque o baile de formatura era no Hotel Glória, então ela já estava com dificuldades até de se locomover e o que vem à minha lembrança é aquela valsa de formatura e os amigos do meu sobrinho fizeram uma volta e ela no meio com uma, ela se levantou de uma cadeira de rodas, dançou com meu sobrinho ali, a valsa, dentro das possibilidades dela e dois dias depois ela faleceu. Então eu tenho essa lembrança da minha irmã.

P/1 – Qual o nome dela, por favor?

R – Luiza Aloy, Luiza Aloy Iglesias Lopes. Meu sobrinho, esse que é médico, ele seguiu a carreira depois na Aeronáutica, chegou a ser diretor do Hospital da Aeronáutica no Campo dos Afonsos, chefe do gabinete do diretor médico da Aeronáutica, enfim, hoje ele já está, vamos dizer assim, não é aposentado, afastado, né, no caso, da Aeronáutica, mas está aí clinicando, estamos juntos aí. Meu irmão, minha irmã e meu irmão mais novo, é o caçula, ele fez uma trajetória também que seria interessante colocá-lo porque tem muita coisa para falar, porque ele foi diretor da Petrobras [riso].

P/1 – Olha.

R – Então eu brinco sempre, e quando ele entrou em 1968 ele era...

P/1 – Qual é o nome dele?

R – Reinaldo Aloy. Ele era conhecido como irmão do Hugo Aloy. Depois, no meio do caminho eu passei a ser conhecido como irmão do diretor Reinaldo Aloy [riso]. E depois que nós nos aposentamos nós somos os Aloys [riso]. Então essa, quer dizer, de uma certa forma a nossa relação, pais, irmãos e você provavelmente vai me perguntar dos filhos.

P/1 – A gente chega nos filhos, antes da gente chegar lá vamos também seguinte então a sua trajetória. Me conta um pouco da sua infância em Santa Teresa.

R – Ah, isso aí é muito gostoso [riso]. É muito gostoso a gente recordar o nosso tempo de infância porque eu digo, os meus filhos que já não são adolescentes, ele não tiveram a liberdade que eu tive como criança e como adolescente. A minha infância, em Santa Teresa, é infância de rua. Eu chegava da escola, almoçava e rápido para a rua, brincar na rua, então eu ia jogar bola na rua, morava numa ladeira, eu jogava bola numa ladeira. Soltar pipa, nunca soltei pipa, não gostava de pipa, não sei o quê, mas a minha brincadeira, aquelas brincadeiras todas de infância que a gente não vê mais, eu me lembro que a noite a gente se reunia assim numa porta de uma das casas e ficava brincando de, como é que a gente chama, sentinela, como é o nome? Aquela brincadeira de...fazia assim...

P/1 – Pique.

R – Não, não, não, era uma brincadeira que cada um tinha uma, vamos dizer assim, uma patente, então aí ficava um, dizia assim: “Tô sentindo falta do sargento”, aí outro dizia assim: “Sargento não falta, quem é que falta?”, “É o cabo.”, aí outro dizia: “O cabo não falta, quem é que falta?”, não sei o quê... E aí, quando chegava lá em cima, até chegar general, até acabar. Aí quando voava, vamos dizer assim, aí voltava aí ia ser soldado outra vez. Brincadeiras assim de criança, bola de gude, então. E agora me lembrando, nós tínhamos, posso dizer que eu fui “surfista de asfalto”, porque as brincadeiras eram improvisadas, nós não tínhamos tanto recurso quanto hoje para você brincar, então você criava, criava brincadeiras. Então agora, quando eu falei “surfista do asfalto”, ali não era nem asfalto, eram aquelas pedras. O que que nós fazíamos? Nós pegávamos uma prancha daquelas de construção e ensaboávamos a parte de baixo com aquele... com sebo, com graxa e lá em cima, no alto da ladeira nós sentávamos e ficávamos com a mão no meio-fio e ficávamos impulsionando aquela prancha até chegar um paralelepípedo maior, a prancha batia ali e todo mundo saía por cima, então... Era uma brincadeira criada por nós ali, garotos. Outra que hoje você fala em autorama e outras coisas mais, o nosso autorama era desenhado numa calçada e nós ficávamos com uma chapinha com uma casca de banana por cima para dar peso e dando aqueles petelecos, vamos dizer assim, e aquilo ia alcançando pontos, né, quer dizer, então, eram brincadeiras. Infância, me lembro muito das festas juninas, que não existem mais agora em termos de rua, festa junina. Em Santa Teresa a gente ia buscar bambu lá para cima, para o caminho do Silvestre, que é o final da linha do bonde, dali do Silvestre você vai para o Corcovado. Então nós íamos lá, caminhando até lá em cima e aquela festa, porque você vai, corta o bambu e vem pela rua puxando aquele... Quer dizer, então, eu posso dizer, eu tive uma infância em Santa Teresa tão boa que nós continuamos, isto é também uma índole minha, de tentar agregar aquelas amizades, né? Então eu tenho meu grupo de infância hoje... Essa infância depois, na medida em que nós fomos crescendo e o futebol sempre foi o agregador da minha relação com todo esse pessoal, quer seja em Santa Teresa, ou fora de Santa Teresa, mas eu tenho um grupo de infância que nós jogamos nossas peladas ainda aos sábados.

P/1 – Hum, que delícia.

R – Então nós temos esse nosso grupo de infância. Eu tenho... Bom, aí tem outros grupos aí que a gente vai falar mais para frente [riso].

P/1 – Deixa eu te perguntar também da escola também. Você...

R – Eu estudava...

P/1 – A escola era perto, qual foi o colégio?

R – Não, eu estudava perto; é bom você ir puxando isso aí, porque a gente vai buscando lá no nosso computador. Eu estudei numa escola de padres, essa escola, como eu morava em Santa Teresa, mas ali próximo ao convento dos Carmelitas existia no Largo da Lapa, que não existe mais, junto à igreja da Lapa, um colégio chamado Escola Carmelitana Santo Alberto. E nessa escola eu fiz minha alfabetização. A minha mãe dizia que como eu era muito levado, ela conversou lá com o frei, eu me lembro, frei João Moreira, conversou com o frei porque eu tinha cinco anos e ela me colocou, conseguiu me colocar com cinco anos na escola porque disse que eu era muito levado [riso]. Então eu tenho muitas boas lembranças também do colégio, da escola, eu tinha, eu gostava, como eu disse, eu sempre gostei muito de esporte, sempre pratiquei muito esporte, sempre joguei futebol. E eu, na minha cabeça, eu não me convencia como criança que eu tinha, que eu era obrigado ir a uma missa aos domingos, deixando de jogar um futebol [riso]. Então eu faltava às missas, e chegava na segunda-feira e como punição eu só podia ir para o recreio depois de escrever 200 vezes, numa folha de papel lá, “não devo faltar à missa aos domingos”, “não devo faltar à missa aos domingos”. Aí entrou a minha criatividade: Porque escrever 200 vezes se eu posso escrever 100? Então eu aprendi a escrever com dois lápis [riso].

P/1 – Ótimo.

R – Então, eu usava dois lápis e escrevia 200 vezes, quer dizer, escrevia 100 vezes, então 200 vezes, então tudo bem, aí eu saía mais rápido para o recreio [riso].

P/1 – Ô Hugo, e esse lado de família italiana, colégio religioso. Tinha um certo peso a religião em casa também?

R – Eu diria que... É, em casa, porque quem tem... Vamos dizer assim, a criação, a nossa criação, a minha criação, ela foi uma criação dentro daquele espírito do italiano, né, a matriarca é que educava, o patriarca ia trabalhar para botar a comida dentro de casa. Então essa foi a formação, a minha educação, quem estava em cima de mim e do meu irmão o tempo todo era a mamãe, tá?

P/1 – Era a autoridade da casa.

R – Era a autoridade máxima, era uma autoridade máxima que eu guardo até hoje aqui um [riso], não sei se dá para ver, uma cicatriz aqui, porque eu e meu irmão, aquele negócio, a gente brigava às vezes, normal de criança. Brigava não sei o que e ela: “para, para”. Tinham umas escadarias para a cozinha e não parava, e não parava, e ela pegou, estava com o bule na mão, ela jogou o bule lá de cima e acertou minha cabeça [riso]. E o sangramento, o que que aconteceu? Quando ela viu o sangramento, quem apanhou foi o meu irmão [riso]. Então, apesar de tudo, e ela chorava muito por causa disso, né, quer dizer, me machucou, tal, mas... Nós apanhávamos, a minha educação era assim, a gente apanhava, apanhava, se não fizesse as coisas direito a gente apanhava. Então a gente vai puxando coisas assim, eu me lembro que ela tinha um chicote, um cabo de bambu envernizado, com aquelas duas, como se fossem dois cintos, aquilo ali machucava.

P/1 – [riso].

R – E até que um dia, eu e meu irmão resolvemos acabar com esse sacrifício que a gente tinha, em apanhar. Aí passava um caminhão de lixo e naquele tempo o caminhão de lixo ele abria assim pelos lados. Então, quando ele parou na porta de casa, nós dois, pegamos os dois juntos e jogamos aquele chicote fora [riso]. Então, pelo menos de chicote nós deixamos de apanhar [riso].

P/1 - Deram sumiço.

R – É, mas a educação eu posso lhe dizer com toda certeza, a educação para época foi uma educação muito rígida, mas com, eu digo rígida, mas com liberdade também. Eu fico muitas vezes até me perguntando e aí eu digo, cada vez mais eu me lembro de certas coisas, eu reconheço a importância dos meus pais na nossa educação. Apesar, como eu disse, daquela educação rígida, nós tínhamos uma liberdade que, eu diria, eles acreditavam na gente, então, saía, eu era escoteiro do mar também naquela altura, fomos ser escoteiros, a gente saía com dez anos para fazer acampamentos, naquela altura, quer dizer, você não tinha celular, você não tinha telefone, você não tinha nada para se comunicar e nós estávamos lá e eles tinham certeza que estavam fazendo o melhor para nós. E fizeram o melhor.

P/1 – E ia sempre você e seu irmão.

R – É, nesses eventos assim de escotismo íamos os dois, na hora de jogar o futebol também jogávamos, mas depois chegou um ponto que, aí começou a época de namoro de um, de outro, não sei o que, então aí...

P/1 – E as turmas se separaram.

R – Aí acaba, porque, apesar de nós termos diferença de dois anos, né, mas isso, por exemplo, eu tinha 17 anos, a minha turma já era diferente da turma do meu irmão de 15 anos. Aí ele já era garoto, vamos dizer assim, eu já olhava como garoto [riso].

P/1 – E aí a juventude também foi muito solta, muito estudo...

R – Olha, bem solta e olha, não fumo, não bebo. Por que que eu não fumo? Porque naquela altura, na minha cabeça, ninguém me disse que era para eu não fumar, mas eu, com 15 anos eu já sabia que se eu queria praticar esporte eu não podia fumar, alguma coisa, eu ouvia assim: “O esportista não fuma, o esportista não bebe.” Então a minha vida, como eu disse, foi sempre paralelo, tudo que eu fiz tinha um paralelo na área esportiva. Até hoje, até hoje eu tenho o esporte me acompanhando, tá? E muitas lembranças e muitas referências que a gente tem aí nos dois segmentos. A juventude, como você me perguntou, a infância a gente lembra muito e tal, a juventude também, aí na juventude a gente tem que estabelecer a faixa etária, porque tem a época da juventude que você começa a enfrentar as, vamos dizer assim, você começa a ser chamado à responsabilidade não é, ou seja, o serviço militar está lhe chamando, então era o serviço militar obrigatório.

P/1 – Você serviu?

R – Eu, tanto eu quanto o meu irmão seguimos o mesmo caminho. Nós fizemos prova para o CPOR [Centro de Preparação de Oficiais da Reserva], cursamos o CPOR, fizemos o mesmo curso de artilharia, eu fiz estágio de um ano, de três meses de, era um estágio, de um estágio regular obrigatório e depois um estágio de serviço, que era de um ano. Fiz, o meu irmão também fez a mesma coisa, eu saí como primeiro tenente da reserva de artilharia. Também tem muitas lembranças, e para você ter uma ideia, ontem eu tive um jantar que a gente faz na segunda quinta-feira de cada mês, um jantar, que isso, graças a minha perseverança eu consegui reunir de uma turma de 120; 105; 118 para ser mais preciso, de 118 aspirantes à oficial da turma de artilharia do CPOR do Rio de Janeiro, eu consegui reunir 80 em 1984 para comemorarmos os 25 anos da nossa turma.

P/1 – Imagina.

R – E agora, daqui a dois anos nós vamos comemorar os 50 anos. E ontem, como eu disse, e nós criamos uma confraria, quer dizer, a partir daqueles 25 nós criamos uma confraria e hoje as esposas vão também participam dos nossos encontros uma vez por mês e isso também é uma forma da gente lembrar o nosso passado, resgatar, revermos aí, e nesse momento eu estou desenvolvendo, estou coordenando também o encontro do final do ano para os 50 anos da minha turma de científico do Colégio Anglo-Americano [riso].

P/1 - Que ótimo. Aí você...

R – Juventude. Então tem lá, que que marcou na minha juventude aí já entrando já nos meus 18, 19 anos. Entrada numa faculdade, quer dizer, terminando um curso, um curso científico no Colégio Anglo-Americano, entrando numa faculdade e fazendo o CPOR e começando a namorar minha esposa, que estamos até hoje [riso]. E até por sinal, aproveitando essa deixa, né, eu sempre gosto de fazer uma analogia da minha vida familiar com a Petrobras, porque, para mim, faz parte também da minha família. Digo o seguinte, quando entrei na Petrobras eu namorava a minha mulher. Eu saí da Petrobras e tinha feito 25 anos de casado, já tinha feito 25 anos de casado, eu já tinha quatro filhos e três netos, quer dizer, isso dentro da Petrobras. Para mostrar a importância da companhia com relação à formação também da nossa vida familiar.

P/1 – E sua esposa você conheceu na escola...?

R – Não. P/2 – Festinhas....?

R – Eu era lambretista.

P/1 – Hein?

R – Eu tinha uma lambreta [riso].

P/1 – [riso].

R – Nós estamos falando aí do início, né, do rock and roll, do Elvis Presley, e, como é, aquele que morreu?

P/1 – James Dean.

R - James Dean, né? Eu ia para os cinemas naquele... o “Bill Haley e seus cometas”, do filme, fui lá, levantei da poltrona, dancei, fiz tudo que aquela turma, que a turma da minha época fez. Inclusive passeei até numa lambreta, meus pais me deram uma lambreta, que eu gostava e achava bom, achava bonito não sei o quê, então eles me deram, me deram uma lambreta, então eu fui lambretista. Então eu tenho foto em casa da minha lambreta, comigo na lambreta. Apesar de não parecer, mas o meu cabelo a gente penteava e dava aquela puxada aqui assim, ficava aquele topetão.

P/1 – Topete.

R – Então, com aquela jaqueta James Dean, jaqueta de couro também, passando e morando em Santa Teresa, andando com a minha lambreta eu conheci a minha mulher na porta de casa, na casa dela, aí ela olhou aí eu fui até lá na frente, voltei, demos outra olhada, não sei o quê, e eu consegui chegar a ela.

P/1 – Que bonitinho [riso].

R – E foi interessante porque eu era muito inibido [riso] e eu cheguei um dia para ela já conversando, aquele negócio, você já batia papo e não sei o quê e eu não me manifestava, né? Até que um dia eu cheguei para ela e perguntei: “Você quer namorar ou quer flertar?” E ela me respondeu. E a gente, até hoje a gente brinca e lembra dessa coisa. Aí ela me disse: “Eu não sou menina de flertar” [riso]. E isso foi no dia 2 de abril de 1958, é. Então nós já fizemos aí, estamos com; 1958...

P/1 – Vão fazer 50.

R – Vamos fazer 50 anos de...

P/1 – Conhecimento...

R – Namoro...

P/1 – Namoro.

R – Noivado, casamento no ano que vem. Só que aconteceu o seguinte, eu estava entrando na faculdade, então era o meu primeiro ano já de faculdade, ela esperou eu terminar a faculdade, eu terminei a faculdade em... 1958, 1959, 1960, 1961, em 1962 eu fiz um ano de pós-graduação no Conselho Nacional de Economia, em 1963 eu entrei na Petrobras e só casei em 1964, depois de um ano, porque na época, você quando entrava na empresa você assinava um contrato e eles diziam assim: um estágio probatório durante 12 meses. Então após os 12 meses nós ficamos noivos, nós ficamos noivos em abril e casamos em junho. E casamos no dia 13 de junho de 1964, dia 13 de junho é dia de Santo Antonio, daí você pode imaginar porque que eu casei no dia de Santo Antonio, né, santo casamenteiro [riso]. “Tem que ser nesse dia.” “Tá bom!” [riso].

P/1 – Hugo, me diga também, da escolha você já está até falando aqui da entrada da Petrobras. Me diga como é que foi também a escolha da sua faculdade.

R – A escolha da faculdade foi algo também assim interessante. Eu digo sempre, nada na vida acontece por um acaso, existe sempre uma razão de ser. Eu lá na frente eu vou lhe contar algumas coisas, você anota e me cobra sobre a questão de coração, tá? Eu estudava no Colégio Anglo-Americano, científico e eu fiquei para uma segunda época. Naquele ano de 1957 eu, como disse, sempre desenvolvi atividades esportivas e foi um ano que começou a dar certo, vamos dizer assim, de uma certa maneira, para mim, a questão do futebol. Joguei no infantil do Flamengo, no infanto-juvenil do Flamengo, depois no juvenil do Fluminense e em 1957, com idade para ser da categoria de juvenil, eles me puxaram para um time de aspirantes e eu disputei inclusive até, um torneio, início de profissionais no Maracanã em 1957, com 18 para 19 anos. Quer dizer, então eu estava muito, muito, vamos dizer assim, ligado ali à parte do esporte e o estudo ali, quer dizer, não é que esteja relegado ao segundo plano, mas era exatamente um ano de prestação de vestibular, não é... você teria que fazer uma prova para entrar numa faculdade, era um negócio muito difícil, naquela altura existia um gargalo enorme. E eu fiquei para uma segunda época no colégio e perdi, vamos dizer assim, alguns vestibulares. E um dia eu estava assim, já, tipo janeiro, aí já tinha feito a prova lá de segunda época, já tinha passado e tudo, mas não tinha tido a oportunidade de prestar o exame para a faculdade. E eu estava no final do ponto do bonde lá de Santa Teresa, que já não existe mais, era no Lago da Carioca, onde existe um prédio da Seda Moderna. O bonde passava por dentro e nós, rapazes, né, nós ficávamos do lado de fora e ficávamos sempre ali na paquera, tá, paquerando as meninas que vinham do colégio, tal, trocando olhares e conversando com um amigo meu, aí falando ele perguntou: “Tu fez algum... fez algum exame para alguma faculdade e tal, não sei o quê?”, “Não, não fiz não porque...” Aí expliquei. Aí ele disse: “Olha, lá na faculdade...”, que era onde ele estava cursando contabilidade ele disse que a faculdade, porque não tinha conseguido preencher todas as vagas, ia ter um outro exame de vestibular, e era na área de economia. E aí eu fui fazer no dia seguinte esse exame vestibular e passei. Este rapaz que falei comigo, (Rubenina?), lembro bem porque eu fui reencontrá-lo dentro da Petrobras, ele trabalhava na Reduc [Refinaria Duque de Caxias], ele era contador lá na Reduc [riso].

P/1 – Imagina.

R – Então, quer dizer, nada acontece por um acaso. Quer dizer, de certa maneira o fato dele dizer: “olha, na faculdade está existindo um segundo, está criando um segundo vestibular”, eu poderia não ter encontrado com ele ali e não ter prestado e não sei o que seria, teria sido o caminho da minha vida. Então eu entrei por um acaso, vamos dizer assim, em função desse novo vestibular na área de economia.

P/1 – Mas aí você escolheu economia, já era uma coisa que você pensava em fazer?

R – Vamos dizer assim, não é que a gente pensava, hoje você tem tanto, tem um leque enorme de áreas de especialização, de estudo, né, na época a gente dizia assim: engenharia e medicina era o que estava sempre na cabeça, engenharia, medicina, direito...

P/1 – Direito.

R – E a economia estava começando, sabe? E aí eu fui para, eu digo, eu fui fazer economia pela oportunidade do vestibular. E aí, nessa aí acabei gostando e me aprofundando na área. Não que eu tivesse sido uma escolha premeditada para entrar na carreira, aconteceu por um acaso do (Rubenina?) [riso].

P/1 – E aí você cursou qual faculdade?

R – Eu cursei a Faculdade de Economia do Rio de Janeiro, hoje é a Universidade Cândido Mendes.

P/1 – E aí, Hugo, você fez a sua faculdade também sem trabalhar...?

R – Sem trabalhar, e aí o que que aconteceu? Eu fiz, a faculdade era à noite e como eu fiz o CPOR, depois eu pude fazer um estágio de um ano, fiz um ano e três meses de estágio e era estágio remunerado. Eu nunca ganhei tanto dinheiro naquela altura como ganhava como segundo tenente, né? Então, durante o dia eu tinha as minhas obrigações de estágio e à noite a faculdade. Como eu disse, eu só fui trabalhar praticamente... A Petrobras, eu diria que a Petrobras foi o meu primeiro emprego.

P/1 – O seu primeiro emprego.

R – Porque durante a faculdade tinha o Exército, mas foi um ano e três meses, inclusive no final; o meu estágio foi, eu terminei em dezembro de 1959, dezembro de 1959. E a minha faculdade... Não, peraí, desculpe, em dezembro de 1961, dezembro de 1961. E foi quando eu terminei a faculdade, quer dizer, durante o dia eu estava servindo no Forte São João, na Urca, e nada melhor do que o Forte São João porque ali é a escola de educação física do Exército, então, como eu gosto de esporte, eu dizia sempre: “Isso aqui para mim, eu estou de férias aqui” [riso]. Aí depois, no ano seguinte, 1962, eu fiz o Conselho Nacional de Economia, foi um ano e aí o professor Mario Henrique Simonsen, meu professor, o João Veloso meu professor também...

P/1 – João Paulo...

R – João Paulo...

P/1 – João Paulo dos Reis Veloso.

R – João Paulo, meu professor lá dentro também.

P/1 – Esse Conselho Nacional de Economia era ligado ao quê?

R – Era... Eu não sei hoje inclusive... Eu diria que ele hoje poderia ser um Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada], vamos dizer assim.

P/1 – Era um instituto...

R – Era um instituto...

P/1 – Autônomo.

R – Era um instituto de, vamos dizer assim, de aprofundamento, vamos dizer assim, da formação de um economista. Então você tinha que fazer também uma prova lá, para você poder fazer esse curso, que era um curso de pós-graduação e o título era: análise matemática. Era um curso de análise matemática dentro do Conselho Nacional de Economia. E esse análise matemática nada mais era do que todo um estudo de economia, de aprofundamento de economia. Ali você tinha pesquisa operacional, você tinha planejamento, enfim, existia um leque de cadeiras ali, com professores, vamos dizer assim, de renome na época dando esse curso. Então foi o minha pós-graduação [pausa].

P/1 – Bom, retomando, Hugo, terminou então sua pós...

R – No Conselho Nacional de Economia.

P/1 – Conselho Nacional de Economia e aí você foi fazer...

R – Não, aí aconteceu o seguinte, enquanto eu estava fazendo pós, como eu disse, na parte da tarde eu fazia uma espécie, vamos dizer assim, um estágio. Até porque eu não tinha, não dava tempo integral no escritório de consultoria econômica e aí outra vez o dedo do meu pai, porque ele tinha as cadeiras de engraxate atrás do Clube Naval, ali na Avenida Rio Branco e ele tinha, vamos dizer assim, os fregueses dele eram vereadores. Eram, naquela altura, já gente da Marinha que já estava já quase como que almirante, que começaram fazendo a Escola Naval e ali eles trocavam de roupa, papai dizia: “Não, tem aqui uma espécie de um vestiário que aí eles trocam a farda, botam a roupa à paisana e não sei o quê...” E ele foi e essas pessoas ficaram conhecidas dele, um relacionamento de muitos anos. E ele conversando com um comandante lá, esse comandante tinha um escritório ali próximo do trabalho de papai e falou que eu poderia procurá-lo pra fazer um estágio de economia. E eu fui para esse escritório de consultoria onde passei a conhecer um pouco mais a área de mercado, de pesquisa, de estudos assim, de mercado e foi onde eu comecei, né, exatamente a minha área de especialização e eu tinha, vamos dizer assim, dentre as minhas atribuições e eles faziam projetos para obtenção de financiamentos dentro da antiga Cacex (Carteira de Comércio Exterior), Banco do Brasil, antiga Cacex e depois tinha na superintendência de Moeda e Crédito, que hoje é o Banco Central. Então o projeto tinha que passar por essas áreas e na Cacex eu tinha lá de um diretor de uma carteira, um diretor lá na Cacex, que tinha assim um relacionamento com comandante e eu conheci o... e os processos entravam também pra lá, pela Cacex e eu fazia o acompanhamento desses processos. E eu um dia, conversando com o secretário desse doutor, era doutor (Wilk Moreira Barbosa?), que depois foi presidente da Acesita [atual Aperam South America], parece. Isso mesmo, presidente da Acesita. O secretário dele me perguntou assim, torno a dizer, nada acontece por um acaso, uma palavrinha dele: “Vem cá, você está satisfeito lá no escritório lá do comandante e tal?” Eu disse: “Estou fazendo um trabalho, tal, mas não é nada assim de futuro”. Aí ele me disse assim: “Você teria interesse em trabalhar na Petrobras?” Em 1962. Eu digo:“teria interesse, porque não?” Aí ele me deu um cartão para eu procurar um amigo dele na diretoria da Petrobras, na assistente, na diretoria da Petrobras, que me encaminhou para o departamento de pessoal para eu poder fazer um teste, uma prova, porque na época você fazia uma prova. E eu fui fazer uma prova que eu posso fazer. Então, naquela altura você entrava ou como datilógrafo, ou auxiliar de escritório, né, e eu não sabia datilografia, não sabia, depois ou ajudante administrativo, ou assistente administrativo. Para você entrar como assistente administrativo você não fazia prova, era exame de currículo, essas coisas assim. Eu digo: “Não, vou fazer a prova. Eu confio na minha capacidade, eu vou fazer essa prova.” E eu fiz a prova e eu me lembro muito bem que estavam fazendo pós-graduação comigo dois companheiros, dois amigos que vieram a trabalhar na Petrobras, Silvio Massa de Campos e Gilbert Prates. Silvio Massa de Campos chegou a ser presidente do que hoje é a BR, na época chegou a ser superintendente da antiga Sudist, que deu origem a BR, que era superintendência de distribuição e o Gilbert Prates chegou a ser o gerente financeiro do departamento comercial da Petrobras. E aí quando eu conversei com eles: “Não, porque você que você vai fazer prova, não sei o quê, prepara um currículo que nós estamos preparando um currículo para nós entrarmos como assistente administrativo, é acima do que você quer...” Bom, resultado, eu fiz a prova em agosto de 1962 e quando foi em fevereiro de 1963, 18 de fevereiro, eu fui admitido na empresa como ajudante administrativo. E eles ainda não tinham sido admitidos. Eles só foram ser admitidos quase que um ano depois. O que que aconteceu? Aconteceu o seguinte, em dezembro de 1965 a Petrobras... e aí fomos trabalhar os três juntos, tá, quando eles entraram, eles quando entraram nós nos reencontramos na antiga tesouraria geral da Petrobras e ocorreu o seguinte, em dezembro de 1965 a Petrobras abriu o primeiro concurso interno/externo para técnico de importação e câmbio. E uma das exigências era de que o empregado interno tinha que ter pelo menos 18 meses de casa. Eles não puderam fazer a prova. Porque eles entraram como assistente administrativo muito depois, eu entrei como ajudante fazendo aquela prova, entrando num nível inferior e pude fazer a prova e passei em primeiro lugar nesse concurso e fui reclassificado para técnico de importação e câmbio, depois a reclassificação para economista mais pra frente. Então, voltando lá, então 1962 já entrando aí em tempo em 1963 com Petrobras, meu ingresso na Petrobras.

P/1 – E aí esse técnico de operação e câmbio era ligado à tesouraria?

R – Tesouraria geral, tesouraria geral. Eu quando entrei, eu fui lotado no chamado “grupo da lei 4.131”, que era a lei de remessa de lucros. Eu tenho uma participação em uma porção de coisa, de unidades aqui da Petrobras, porque todos os contratos que a Petrobras fazia naquele tempo com geólogo, com técnico, com qualquer tipo de contratação e que gerasse pagamento em moeda estrangeira, tinha que ter um certificado do registro dentro da antiga Superintendência de Moeda e Crédito, da Sumoc. E eu entrei dentro desse grupo, eu fiz parte desse grupo que trabalhava em cima da certificação. Vamos dizer assim, dos contratos com esses técnicos e empresas estrangeiras. Era extremamente difícil e muito trabalhoso, demorado a obtenção dos certificados. E aí eu volto, por força do meu esporte, lá dentro da Superintendência de Moeda e Crédito eu tinha, que aí já não era mais futebol, já era futebol de salão do Fluminense, eu tinha lá dentro meu técnico [riso], Ivan (Fialho?), trabalhando lá dentro. Eu tinha o meu, vamos dizer assim, o diretor também da Petrobras, Carlos Marengo, como chefe da divisão de fiscalização dos contratos e tinha num outro estágio o amigo meu do Conselho Nacional de Economia, Henrique, e o que que acontecia era o seguinte: eu tirava todos os certificados, eu levava em mãos; o que teria que circular por protocolo, quando se tratava de assunto de Petrobras eu levava, carregava. Até chegou a um ponto de termos um volume de trabalho tão grande para emitir os certificados, que eu levei um datilógrafo da Petrobras para lá para ajudar nessa certificação. Então eu digo, contratos aí para construção do oleoduto de Belo Horizonte, o Orbel, o contrato com a Marubeni, no Japão, coisas assim que eu me lembro e tudo. Nós conseguimos lá o contrato, né, certificação, contrato para construção da refinaria para Regap [Refinaria Gabriel Passos] e a Refap [Refinaira Alberto Pasqualini], o contrato de financiamento nós conseguimos lá dentro os certificados, quer dizer, então, e eu carregava aquilo. E me lembro muito bem que era uma época, que hoje falasse em apagão, né, mas na época era o corte de energia. Toda hora faltava energia e eu me lembro que eu voltava às vezes lá da Sumoc, como a gente chamava, como era o nome do órgão, com os certificados na mão e aquilo me dava tanto, vamos dizer assim, tanta satisfação, como se fosse uma vitória alcançada e nós trabalhávamos no oitavo andar e não tinha elevador, eu subia aquilo, eu subia aquelas escadas até o oitavo andar para poder chegar e entregar isso, depois de 6h da tarde entregar aqueles certificados e dizer assim: “Ô, olha o que eu consegui hoje.”

P/1 – Isso ainda não era o Edise, né?

R – Não...

P/1 – Onde é que vocês estavam, onde é que era aquela tesouraria?

R – Eu tô falando de Presidente Vargas, 534, Edifício Barcelos [riso].

P/1 – E, Hugo, você está me contando aqui de uma Petrobras que ainda está ainda, né, fazendo a Regap, Refap...

R – Uma Petrobras...

P/1 – Como é que era essa Petrobras?

R – Era uma Petrobras, eu diria assim, com os órgãos muito separados, porque você tinha concentração às vezes de dois, três órgãos num prédio, o outro lá na Rua Buenos Aires, na Candelária. Então os processos circulavam na época com o pessoal do protocolo, então carregava aquilo, ia levar para o outro órgão, quer dizer... esses facilitadores todos que a gente vê aí, pô, você bota pela intranet, aquele tempo carregava debaixo do braço. Então, era uma época, eu vou te dizer, uma época de muita dificuldade, muita dificuldade até de ordem administrativa, porque os recursos que nós tínhamos àquela altura eram recursos muito primitivos, vamos dizer assim, dentro do que existe hoje, não é? Máquina de calcular era Facit, aí você puxava uma alavanca para sair aquilo registrado numa ficha, a máquina de datilografia ainda não era, naquela altura, a máquina elétrica. Então você fazia um expediente com várias cópias, errava, coitada das datilógrafas, aí tinha que corrigir aquilo, ia corrigir com borracha, depois colocar tudo certinho no mesmo lugar, olha, pioneirismo em todos os sentidos [riso].

P/1 – E era uma Petrobras menorzinha, né?

R – Era uma Petrobras menorzinha.

P/1 – Que ainda está fazendo refinaria...

R – É, uma Petrobras menorzinha, como eu disse, eu entrei em 1963, minha matrícula é 1825, então você vê, a Petrobras ainda crescendo ali, mas...

P/1 – E foi uma década das refinarias mesmo, 1960?

R – É, eu diria que sim. Agora, na verdade eu não teria, vamos dizer assim, muita ligação com essa operacional, para poder, inclusive...

P/1 – Hum, hum. Não, mas assim, das construções que você estavam...

R – É. Bom, a Reduc já existia naquela altura, né?

P/1 – Hum, hum.

R – A Rlam [Refinaria Landulpho Alves] também já existia, mas o que eu posso dizer daquilo que eu vi, que eu participei e quando, que era, por exemplo, o caso do Orbel, oleoduto Rio-Belo Horizonte, quando chegou o primeiro navio da Marubeni, vindo do Japão com os tubos, né, eu fui convidado para ir lá na Praça Mauá e eles deram um cocktail no navio e eu fui convidado para participar desse cocktail. Foi o recebimento dos primeiros tubos para o oleoduto Rio-Belo Horizonte, porque eu tinha participado da certificação.

P/1 – A Marubeni é...

R – Marubeni era uma empresa japonesa.

P/1 – Dos tubos?

R – É Marubeni (Witchel?), alguma coisa assim.

P/1 – Desses tubos?

R – É, foi ela fornecedora dos tubos, dos tubos para o oleoduto Rio-Belo Horizonte e aí nós fomos lá, participamos e depois teve um cocktail que eles deram dentro de um navio e depois um outro cocktail, se não me falha a memória, acho que o museu; não, no Copacabana Palace. E foi quando pela primeira vez eu tive o contato com o sushi [riso].

P/1 – Bem cedo, né?

R – É. Muito cedo, que aquilo eu não conhecia, aquilo ficou na minha boca circulando um tempo até eu me ver livre ali, num negocinho lá, uma lixeirazinha da época [riso].

P/1 – Hugo, e sua ida para a comunicação, como é que foi?

R – A minha ida para a comunicação também aconteceu por um acaso. Como eu lhe disse, a minha formação economista, eu dali da tesouraria geral, eu fui ser assistente do chefe do gabinete da presidência da Petrobras por força do meu pai também, porque o chefe o gabinete era freguês do meu pai. E um dia, papai falando que tinha um filho que trabalhava na Petrobras não sei o quê, ele mandou eu procurá-lo. Eu fui procurar e depois então, quando ele assumiu a chefia do gabinete do presidente na época Marechal Ademar de Queiroz, então saí da tesouraria geral para o gabinete da presidência, onde eu fui assistente, foi criado um cargo de assistente do chefe de gabinete, eu fui o primeiro ocupante dessa função, desse cargo. Depois fiquei ali ainda com o presidente Irnack Carvalho do Amaral, aí, quando veio o general Candal, da Fonseca eu fui requisitado pelo Lloyd Brasileiro para ser o chefe do gabinete do diretor financeiro do Lloyd Brasileiro, que era da Petrobras, o Julio Jofre da Silva Costa, que foi para o Lloyd e me convidou para ser o chefe de gabinete dele no Lloyd. Bom, no Lloyd Brasileiro fiquei lá seis, sete meses e aí quando houve a mudança do diretor financeiro eu fiz uma carta pedindo demissão do cargo, até por sinal, algo que não era normal dentro de uma empresa estatal, ali no Lloyd, né, eu recebi alguns telefonemas desaforados naquela altura, porque você...

P/1 – Por causa da demissão?

R – Por causa do pedido de demissão.

P/1 – Por causa do pedido de demissão?

R – Porque isso não era norma lá dentro, então quem chegasse é que decidia se continuava ou não. E eu achei...

P/1 –Mas porque você decidiu pedir demissão?

R – Porque eu fui para lá a convite do diretor, quer dizer, o meu relacionamento era com o diretor financeiro. Na medida em que ele saiu eu me senti no dever de acompanhá-lo, tá, mesmo ele dizendo “Não, Hugo, você permaneça”. Eu digo “Não, eu vim para cá a seu convite, então eu vou pedir demissão também”. E aí assim eu fiz, recebi uma carta de agradecimento, para ser portador de uma carta de agradecimento para o presidente da Petrobras e aí, quando eu trouxe essa carta no gabinete, entreguei a carta e como eu tinha ainda um período de férias fui para casa para tirar um mês de férias e aí em casa eu recebi um telefonema lá da presidência, porque eu tinha trabalhado lá no gabinete da presidência em um ano e tanto, né? Recebi um telefonema me convocando para uma entrevista lá com o chefe de gabinete, que era um coronel, na época general, coronel; eu estou falando aí do ano de 1967 para 1968, início de 1968. E existiu um assistente do presidente e esse assistente era o responsável, vamos dizer assim, ele tinha dentre as suas atribuições a área de relações públicas da Petrobras, era (Arpub/Serpub?). E nessa mudança de Arpub [Assessoria de Relações Públicas], para [Serviço de Relações Públicas]. Isso nada mais foi do que, vamos dizer assim, a criação de uma divisão dentro do organograma da antiga Arpub, que era uma divisão de pesquisa e planejamento. E eu vou tentar até me lembrar das palavras e tudo, mas entre outras coisas, disseram: “Ô, temos ótimas referências a seu respeito, que não sei o que, pa-pa... e gostaríamos que você assumisse essa área”. Esse “gostaria” não era, vamos dizer assim, um pedido para eu... Aquela altura “gostaria” é quase que uma ordem, né? E assim eu fui para a área de, para o serviço de relações públicas naquela altura, o Serpub para assumir a área de pesquisa. Eu digo, que eu olhei, bom pesquisa, planejamentos não sei o que, planejamento de relações públicas, eu digo: “Pô, eu não tenho nenhuma familiaridade com RP, não sei o que, mas pesquisa de opinião, pesquisa de mercado, eu digo, isso aí está dentro da área de economia e tal”. Eu digo: “tudo bem, eu aceito, eu vou para a área de pesquisa”. Porque na minha cabeça eu estava indo para uma missão temporária, então eu até pedi que o assistente do presidente, quando me colocasse, quando fosse feito o despacho para lá, mantivesse a minha lotação, a minha lotação fosse mantida no serviço financeiro. Então eu fui emprestado para o serviço de relações públicas naquela época, minha lotação permanecia no serviço financeiro. Então foi aí que nós tivemos, vamos dizer assim, que nós começamos a respirar a comunicação, né, àquela altura.

P/1 – O Serpub era o equivalente a comunicação?

R – Para você ter uma ideia, então era Arpub-Assessoria de Relações Públicas, cresceu com a inclusão de uma divisão, aí virou Serviço de Relações Públicas, Serpub. Quando chegou em 1980 eu até fiz parte do... fui representante do Serpub junto ao Serplan para a reorganização do serviço. E ali, e até o nome depois foi dado até por mim, eu sou padrinho do Sercom, Sercom foi o nome que eu disse: “Não...” Quando eles perguntaram qual seria o nome, a sigla que nós daríamos para esse serviço, aí eu digo: “Sercom - Serviço de Comunicação Social.” Aí: “Por quê?” Porque existia na presidência da República um Secom-Secretaria de Comunicação. Comunicação Social. Por quê? Porque ali dentro não era só relações públicas, você tinha os três ramos da comunicação, você tinha relações públicas, você tinha publicidade e propaganda, você tinha a área de imprensa. Então você tinha a área de comunicação, então não era mais relações públicas, então em 1980 virou Serviço de Comunicação Social, Sercom. Depois que eu saí passou a ser Serinsti - Serviços de Relações Institucionais, depois voltou a ser Sercom outra vez e hoje a Comunicação Institucional. Então essa é a linha, né, das siglas.

P/1 – E aí então no Serpub aí você começou lá nessa parte de pesquisa, a “tomar pé”, com o é que foi?

R - Olha, eu diria que para falar de pesquisa nós teríamos que ter mais algumas fitas, mas vou tentar...[riso]. Porque, o que acontece é o seguinte, eu acabei me especializando na área de marketing e pesquisa, eu sou professor titular da cadeira de marketing e pesquisa em diversas universidades, eu sou sócio-fundador da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, palestrante em seminários onde você tem a pesquisa como uma ferramenta de apoio a uma decisão de marketing, então eu tenho praticamente com pesquisa, de 1961... Quase 40 anos de pesquisa.

P/1 – E era uma área que estava começando aqui, né, no Brasil?

R – Era uma área que estava começando. Eu fui o primeiro chefe, quer dizer, eu estruturei, quer dizer, eu cheguei não tinha ninguém, tá, eu chefiava a mim mesmo, então, fui, montei esse setor com quatro assistentes administrativos já de outras áreas, pegando currículo de um, vendo quem tinha familiaridade com essa parte de economia, que eu pudesse inclusive dar um treinamento, né, porque eu também me treinava, eu tinha que me... E nesse particular, eu quero colocar também outra coisa, que a Petrobras, quando eu disse: “eu entrei na Petrobras solteiro e saí com a mesma mulher, com quatro filhos...”, eu também usava, a gente acaba sempre usando algumas analogias para os mais novos, e eu sempre dizia assim para o pessoal: “Olha, na Petrobras você entra, você entra numa alfabetização. Agora, você pode sair um doutorado. Se você souber aproveitar todas as oportunidades que essa empresa te dá, que ela te dá todas as condições para você se desenvolver”. E assim foi. Eu posso dizer que eu saí um doutorado de pesquisa de mercado, pesquisa de opinião. Então, criei um setor, eu tinha uma necessidade de uma bibliografia, que aqui não existia, nos primeiros livros que eu consegui aqui traduzidos eu vi bibliografias interessantes, entrei em contato com, na época com o (Snor?), do escritório da Petrobras em Nova York, para que eles entrassem em contato com o Instituto Americano de Opinião Pública e pegasse na bibliografia lá a respeito desse assunto, eles me mandaram, eu selecionei, disse o que queria, eles me mandaram esses livros. Quer dizer, eu tinha todas as... passei a receber publicações do Instituto Americano de Opinião Pública, pesquisas, novas metodologias de trabalho, então eu fui me formando em termos de formação, quer dizer, a minha formação eu diria que ela foi através de livros de literaturas a respeito do assunto e de aplicações práticas. Então a Petrobras nos dava inclusive recursos para que a gente fizesse estudos, trabalhos de treinamento. Em 1968 nós começamos a fazer pesquisas com estudantes, começava a fazer um trabalho dentro dos colégios, distribuindo questionários, e eu fui dando treinamento. Fui treinando, me treinando e treinando também o meu pessoal nessa atividade. Eu lembro que em 1968, ainda em 1968, nós fizemos um primeiro estudo de opinião pública sobre a imagem da Petrobras em Manaus, utilizando inclusive a Codeama [Comissão de Desenvolvimento da Amazônia], que nos deu um apoio naquela altura através de mapas da cidade, onde nós pudemos aplicar uma amostra e fazer a distribuição da amostra por um, que nós chamamos, por uma técnica que se chama de “Quarteirões”, né, clusters, tá, então nós fizemos uma segmentação da população através da divisão nos bairros, quer dizer, então já começamos a dar os primeiros passos naquela altura, de um instituto de pesquisa independente, como instituto você tem hoje os Ibopes da vida, nós tínhamos um (Sepeq?) dentro da Petrobras, que depois virou (Sepem?). Que era um instituto, eu tinha um instituto dentro da Petrobras. Com... depois, quando eu me aposentei com um acervo de mais de 300 estudos aqui, enfim, com muitas técnicas pioneiras dentro do Brasil, eu posso lhe adiantar que nós fizemos, eu fiz parte de um grupo de trabalho chamado Projeto Atlântico, eu fui o indicado para a Petrobras para fazer parte desse grupo junto com; naquela altura era IBE, mas hoje é o IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]. Você sabe, o senso você faz de dez em dez anos e hoje você tem o que se chama Pnad, né, porque é Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar, para você não esperar até daqui a dez anos. Você tem informações a respeito de alguns indicadores de população, de formação de renda, outras coisas mais, feitas em cima de pesquisas que são feitas trimestralmente através do que a gente chama Pnad. Então o Pnad, ele nasceu naquela altura, com esse Projeto Atlântico. E nós, Petrobras, fomos os primeiros, tirando o Ibge, diria que a primeira empresa nesse país a usar os setores de amostragem do Ibge. Os setores que eles usavam no Pnad, nós tínhamos cópias desses setores todos por força de um convênio que nós provocamos lá, naquela altura, com o Ibge e recebemos todos esse material. Então eu tinha todo material do Ibge para poder desenvolver os meus estudos de opinião pública e mercado, utilizando, por exemplo, já de forma também pioneira, um questionário só, mas eu ia para o campo com o que nós chamamos de um porta-punch. Porta-punch é um perfurador manual, aquela o cartão para perfuração você tinha 80 colunas, no porta-punch ele tinha o mesmo tamanho, mas com 40 colunas, porque ele tinha que ser perfurado. Então nós montávamos um gabarito em cima daquele porta-punch e as perguntas eram feitas, colocadas no cartão e o entrevistador no campo já ia perfurando. Velocidade, recebia-se o material, já existia um programa para apuração eletrônica para isso, através da Divisão de Processamento de Dados da Petrobras, então a gente tinha resultados rápidos com essa técnica que nós colocamos aí. Pioneira. Se quiser ouvir mais um pioneirismos da Petrobras, tá bom. Primeira empresa nesse Brasil que tinha uma estrutura formal de relações públicas, no Serpub, como nós tivemos, como a divisão inclusive de pesquisa e planejamento, nenhuma outra empresa tinha, era a Petrobras. Outro pioneirismo, aí já ainda dentro da própria pesquisa, a metodologia técnica de entrevista você utiliza questionário, você utiliza para levantamento quantitativo o questionário para informações de natureza quantitativa, você usa discussões de grupo ou entrevista de profundidade, que é exatamente o que hoje eu estou fazendo aqui internamente. Mas discussão de grupo é o group discussion, você tem um pessoal em volta de uma mesa com moderador; isso hoje é uma metodologia muito utilizada, mas em 1974, por aí, quer dizer, estamos falando aí de mais de 30 anos, não existia essa técnica sendo utilizada no Brasil e nós fomos um dos primeiros; eu não posso dizer que fomos os primeiros, mas eu diria que nós fomos um dos primeiros no país, quer dizer, nós, Petrobras, fomos um dos primeiros no país a utilizarmos a técnica da discussão de grupo para uma pesquisa com motoristas de caminhão. E eu fui o moderador.

P/1 – E você tira uma avaliação das pessoas que estão participando?

R – É. O que que é a discussão de grupo? Aí não sei se cabe aqui uma explicação...

P/1 – Cabe uma explicação bem rápida para quem não conhece.

R – É, bem rápido. A discussão de grupo você tem um roteiro, como você tem aí um roteiro e você coloca para o grupo debater. Então há um debate no grupo em torno daquele assunto. A discussão de grupo hoje... eu vou falar já hoje como é que funciona, você tem uma sala de espelho, aqui do lado eu estou assistindo, o grupo não está me vendo, eu tenho lá um moderador que tem o roteiro, essa reunião ela é gravada, ela tem um vídeo para você acompanhar depois a discussão para pegar pontos e etc. E muitas vezes a gente coloca também dentro da sala uma pessoa para ir registrando as informações mais significativas, mais interessantes em relação ao que está sendo debatido. Depois existe, vamos dizer assim, uma análise da discussão e ali você pega pelo consenso do grupo. Então o que que o grupo está pensando a respeito de um determinado assunto? Se usa muito hoje isso nas pesquisas eleitorais, você faz o pré-teste das campanhas eleitorais utilizando a discussão de grupo, onde você joga o filmete lá e o grupo vai discutindo, ou você acompanha um programa eleitoral com um grupo com características, você estabelece para esse grupo e vai discutindo com o grupo o que gostou, o que não gostou, o que ficou, o que não ficou e tal, de modo que a área de criação lá na agência possa até mudar alguma coisa, dar um outro enfoque. Então, você tem, você direciona inclusive a própria comunicação com o eleitorado em função do que foi apontado através da discussão de grupo.

P/1 – Hugo, deixa eu só voltar um...

R – Vamos voltar que senão a gente se perde [riso].

P/1 – Não, só voltar uma questão até por interesse até do trabalho também que a gente está fazendo agora.

R – Hum.

P/1 – Você me falou dessa pesquisa feita em 1968...

R – 1968. P/1 – Em Manaus....

R – Manaus.

P/1 - Sobre a imagem da Petrobras, lá.

R – Sobre a imagem da Petrobras. Nível de conhecimento.

P/1 – Qual foi o resultado dessa imagem, perdão, dessa pesquisa? O que vocês constataram, você consegue se lembrar mais ou menos?

R – Eu diria o seguinte...

P/1 – E porque que foi feita especificamente em Manaus, ou foi feita em outras cidades...?

R – Não, aí nós passamos a ter um programa... Por que Manaus? Por causa da Reman-Refinaria de Manaus. Eu só não posso precisar se naquela altura a Petrobras já estava passando para a Petrobras a Reman. Mas a pesquisa, ela queria saber o nível de conhecimento que as pessoas tinham a respeito da empresa, a imagem da Petrobras em função de toda uma expectativa também que foi criada quando foi descoberto o petróleo lá em...

P/1 – Nova Olinda.

R – Nova Olinda, imaginavam-se ali um “Eldorado” naquela altura e tal e não foi exatamente o que aconteceu, como é que isso de uma certa forma repercutiu na própria imagem da Petrobras, como é que viam a Petrobras naquela altura, né, no que diz respeito a sua, vamos dizer assim, a sua capacidade em descobrir, produzir, não é? Eu posso dizer que, o que eu posso dizer não posso precisar a respeito dos resultados, eu teria que recorrer o próprio relatório, porque eu ainda tenho esse relatório [riso]. Mas eu me lembro perfeitamente que em cima dos resultados foi feito uma campanha em Manaus, uma campanha de divulgação da Petrobras em Manaus, uma campanha junto aos estudantes, campanhas nas escolas com projeção de filmes, palestras, enfim, foi feito uma campanha, eu diria, bem forte da Petrobras lá no sentido de levantar sua imagem junto à opinião pública de Manaus.

P/1 – Então tinha toda essa preocupação já com a questão da imagem também nessa época...

R – Hum, hum.

P/1 – Já da década de 1970 já.

R – Hum, hum.

P/1 – De ser avaliado em pesquisa...

R – Claro, nós tínhamos... veja bem, nós tínhamos uma série histórica sobre a imagem da Petrobras...

P/1 – Em cima de pesquisas?

R – Em cima de pesquisa, em cima de pesquisa. Campanhas que...

P/1 – Você acha que essa de Manaus foi a das primeiras...

R – A primeira que nós fizemos de opinião pública foi em Manaus, mas como treinamento, mas já, a partir daí já passamos a ter uma metodologia que nós utilizamos já em 1969, no Rio de Janeiro. Uma pesquisa de opinião pública no Rio de Janeiro, em 1969, porque eu tenho também esse relatório ainda mostrando qual era o nível de conhecimento que tinham a respeito da Petrobras, a questão do monopólio, a favorabilidade em relação ao monopólio estatal; quer dizer, nós tínhamos perguntas, indicadores, né, que passaram a ser acompanhados ao longo dos anos através de pesquisas, pesquisas sistemáticas, através dessa nossa área de pesquisa. E ela foi estruturada, até 1980 eu tinha uma estrutura formal de pesquisa. A partir de 1980 nós passamos a ter esse acompanhamento através de contratação de pesquisa, já aí junto ao instituto de pesquisa. Mas tendo aqueles mesmos balizadores que nós tínhamos anteriormente. Então nós temos aí uma série histórica a respeito da imagem da Petrobras.

P/1 – E elas eram, mais ou menos elas se mantinham estáveis, você se recorda?

R – Eu diria o seguinte, quando fazia, por exemplo, uma segmentação por estado havia uma reação muito maior em São Paulo contra a Petrobras do que no Rio de Janeiro e localizada no segmento de classe A, vamos dizer assim, uma classe A e uma classe B alta. Isso eu me lembro com muita clareza. Como eu disse, falar em pesquisa, falar em estudos que nós desenvolvemos, “n” estudos, a mudança da marca...

P/1 – Isso eu queria perguntar para você, vocês fizeram em 1972?

R – Fizemos em 1972 a pesquisa da mudança da marca, do losango para o hexágono, naquela altura. Foi uma pesquisa interna e externa, nós criamos pranchas onde colocávamos o losango dentro de, sei lá, deviam ter 200, 300 marcas dentro daquela prancha, que era para colocar e pedir para a pessoa identificar onde estava, onde ele percebia o losango da Petrobras e aquilo era cronometrado para a gente ver o tempo de visualização e tal. Que era uma coisa, foi feito internamente e depois, interna e externamente também e depois colocamos o hexágono também junto daquelas mesmas marcas para ver qual era o tempo de percepção da marca, a marca antiga e a marca que estava sendo proposta.

P/1 – Hum.

R – Logicamente a percepção passou a ser muito maior com relação ao hexágono naquela altura. [pausa]

P/1 - Então retomando, Hugo, você estava me contando então da pesquisa que vocês fizeram para a troca da...

R – Para a troca...

P/1 – Da marca, em 1972.

R – Da marca de 1972.

P/1 – E aí as pessoas escolhiam, olhavam...

R – Exatamente, olhavam, nós fizemos um estudo de opinião pública, né, para ver o público externo como percebia e fizemos com o público interno também, como percebiam essa mudança de marca e medindo também o nível de aceitação da mudança da marca também, isso junto ao público interno. E se restringiu apenas aqui na Cidade do Rio de Janeiro. Havia um interesse de ter uma resposta muito rápida, fizemos na administração central, com o público interno da administração central e com público externo, na cidade do Rio de Janeiro.

P/1 – Com a marca você chegou a fazer alguma outra também?

R – Não. O que nós fizemos depois com relação, por exemplo, a BR, foram estudos para determinar a questão da notoriedade da marca, até para que o Cenpes [Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello] pudesse obter, vamos dizer assim, o registro da marca, essa marca precisava ser notada. Ela precisava ter o que eles chamam de “notoriedade”. O que que é notoriedade? É ela ser, vamos dizer assim, identificada junto à opinião pública num percentual 60, 70% . “Não, eu conheço essa marca”, “eu sei o que que é”, “não sei o que”... Então esse estudo é o estudo da “notoriedade”. Esse estudo foi, inclusive, acompanhado por mim, foi desenvolvido pelo Ibope, em termos nacionais, mas com o nosso acompanhamento. A coordenação do estudo foi, a pesquisa foi... A coordenação foi minha, nessa pesquisa nacional quanto sobre a notoriedade da marca. Inclusive eu tenho, eu tenho aí que eu trouxe dos documentos, eu tenho até cópia do documento lá da BR para a Petrobras, para a Petrobras... BR Distribuidora para a Petrobras e do Cenpes também, e a minha indicação para desenvolver o estudo sobre a notoriedade da marca.

P/1 –Quero ver aquela outra também da mudança da marca. Da que você... Você tem ainda a que mandava apontar e tudo?

R – Ah, não. Essa prancha eu fico lhe devendo porque eu tenho quase que certeza que eu tinha um eslaide, porque, o que acontece? Nós também éramos palestrantes e nós fazíamos as palestras a respeito da Petrobras, a palestra sobre a área de relações públicas da Petrobras e no caso também da pesquisa e nós tínhamos... Porque nós usávamos o eslaide para mostrar o organograma e eu me lembro que eu tinha até, tô procurando, devo encontrar isso... que eu tenho certeza que está na minha casa em algum lugar lá guardado, os eslaide dessas pranchas, porque certeza eu tenho do Lubrax. Foi uma pesquisa que nós fizemos também para determinação do nome, existiam seis nomes para serem testados e o Lubrax foi o nome escolhido. Eu tenho foto inclusive de postos com latas que aparece o nome dos diversos; uma área com um determinado tipo de nome, né, com determinado nome; vamos supor, o nome que eu me lembro que era o que estava sendo testado ali: ultra, plus, brut, multi e mais um outro que eu não me lembro, que eram seis nomes e mais o Lubrax. Então esse eu tenho, com certeza eu tenho fotos do Lubrax e dos outros nomes que foram testados.

P/1 – Tá ótimo, vou te pedir depois. E você então, chefiando, você ficou durante quanto tempo chefiando esse setor de pesquisa?

R – O que acontece é o seguinte: o setor de pesquisa; eu chefiei de 1968 a 1980. Foram 12 anos porque ele era Sepeq depois passou a Sepen, em 1980 houve aquela reorganização que eu coloquei, de Serpub para Sercom. A mudança de Serpub para Sercom implicou na reorganização, a reorganização implicou em mudanças de algumas atividades, formalizou outras que estavam sendo desenvolvidas e atividade de pesquisa ela deixou de ter a estrutura de um instituto e eu passei a ser, naquela altura, o assistente da chefia, o assistente de pesquisa. Então, de 1980 até 1985 eu fui o assistente de pesquisa. De 1985 a 1990 eu chefiei o setor de programação e controle, que seria um planejamento e controle orçamentário e com a atividade de pesquisa ali dentro também.

P/1 – Da área de comunicação.

R – Tudo dentro da área de comunicação. De 1990 até 1993, quando eu me aposentei, eu fui chefe da assessoria de relações internacionais, com a área de pesquisa comigo. Quer dizer, então a pesquisa ela me acompanhou de 1968 até quando eu me aposentei, em 1993. E aí você quer saber o que que aconteceu quando eu me aposentei [risos]?

P/1 – Não, eu quero saber também da parte, que você queria falar também da parte internacional, dessa parte de assessoria internacional, como é que também foi, era uma atividade nova para vocês...?

R – Para mim ela, vamos dizer assim, ela era uma atividade nova em termos práticos. Não era uma atividade que eu desconhecia, porque ali você desenvolvia o marketing internacional, tá? A Petrobras participava de eventos, congressos, seminários, vamos dizer assim, feiras, exposições com a presença de um estande, então eram ferramentas nessa altura, ferramentas de marketing, marketing internacional, a imagem corporativa da Petrobras, vamos dizer assim, mostrada no mundo. Então isso, de uma certa forma, não era uma novidade para mim. Novidade era eu estar ali participando diretamente, coordenando e nos eventos onde existia a presença da Petrobras no exterior, naqueles que eu podia ir eu ia para fazer o trabalho de ponta de lança, recebendo visitantes dentro do estande com um corpo de gerentes também ali dentro de áreas específicas da Petrobras, de exploração, produção, refino e tudo, que em contato com fornecedores estrangeiros, quer dizer, nós fazíamos ali um “meio de campo”, vamos dizer assim. Participamos de eventos muito significativos para a Petrobras, eu diria que um deles foi em 1992, maio de 1992, na OTC, Offshore e Technology Conference, em Houston, nos Estados Unidos, quando a Petrobras, pela primeira vez foi agraciada com prêmio, da excelência da sua tecnologia águas profundas.

P/1 – Foi o primeiro prêmio, né?

R – Foi o primeiro prêmio que a Petrobras recebeu. E eu estava presente lá e fui portador, eu trouxe esse prêmio comigo na minha bagagem, eu trouxe de lá, recebi das mãos do gerente, superintendente do Cenpes que estava lá presente, que era o doutor Estrela, que é hoje é diretor e trouxe comigo, e no outro dia, inclusive, eu vi esse prêmio afixado lá na sala de espera da presidência da Petrobras. Então eu olhei e disse assim: “Eu carreguei, minha digital está ali” [riso]. Tivemos na área internacional, vamos dizer assim, coordenando um congresso mundial de petróleo, em Buenos Aires, lá a Petrobras é que fez as honras e vamos dizer assim, um jantar inclusive oferecido às grandes empresas lá em Buenos Aires. Nós estávamos lá presentes também e vários outros. E eu diria que, entre outros, a presença da Petrobras em Teerã, no Irã, eu consegui, quando chefe, ainda na chefia da assessoria, eu recebi a incumbência de coordenar junto com o Otacílio, que era o superintendente do serviço de material da Petrobras, naquela altura, a visita de uma missão iraniana, aqui no Brasil, que estava vindo ao Brasil com o objetivo fazer compras aí e tinha uma carteira de não sei quantos milhões de dólares aí, para compras e etc. E eu me lembro que eu levei esse grupo para São Paulo e de São Paulo uma parte foi à Usiminas em jato fretado e a outra parte ficou na cidade e tudo. Mas o importante que eu queria dizer é o seguinte: eu coloquei um assistente meu acompanhando esse grupo que foi à Usiminas, esse grupo, ao retornar, parou em Guarulhos para fazer uma visita a uma empresa, se não me falha a memória, Cofap, e o meu assistente me ligou de Guarulhos, isso assim, tipo quatro horas da tarde, dizendo o seguinte: “Hugo, tem uma missão impossível para você”, eu digo: “Qual é?”, “Olha, eles souberam que vai ter um jogo de futebol hoje e eles querem assistir o jogo”. Acontece o seguinte, esse jogo era a final de uma melhor de três, São Paulo e Corinthians e a lotação estava esgotada.

P/1 – Hum...

R – E aí é aquele negócio “mensagem a Garcia”. E aí eu digo, “Bom...” Entrei em contato com o (Espau?), o escritório da Petrobras em São Paulo, falei com o gerente de comunicação, Mario Divo, que depois veio a ser superintendente também na área de comunicação do (Sercom?), aqui, falei qual era o problema para o Mario Divo. Conseguimos junto à Federação os ingressos para essa comitiva, consegui colocá-los no Morumbi, lá no camarote especial junto à presidência da Federação e aí me deu um estalo, eu digo: “Pô, esse pessoal gosta de futebol, esse pessoal gosta de esportes”. Eu sou amigo do Zico, e o Zico naquela altura era secretário de esportes em Brasília. Eu digo:“eu vou fazer uma surpresa para esse pessoal”. Eles iam embora na terça-feira seguinte. Então na segunda-feira nós íamos dar um jantar de despedida para eles no Rio Palace. Isso, é bom colocar esse caso porque você vai ver lá na frente o que que aconteceu. Aí, na segunda-feira aí eu liguei para o Zico e expliquei a ele que ia ter um jantar com uma missão iraniana e tal, se ele poderia estar presente nesse jantar e tal... Ele disse:“ó, não posso estar presente no jantar, mas eu passo no Rio Palace, porque eu passo por lá na segunda-feira, eu tenho um compromisso aí no Rio, eu passo por lá e tal, não sei o que...” E aí eu fiquei balizando o horário da chegada dele, mas ao mesmo tempo eu mandei comprar camisa dez da seleção brasileira, fita do Zico e arrumamos um fotógrafo, e na hora da sobremesa eu disse para eles que tinha uma surpresa, aí o Zico já estava lá e fui com Zico lá para o jantar. E aí deixaram de ser... Eu tinha Ministro da Indústria e Comércio, eu tinha o Ministro da Previdência, eu tinha diretores de empresas petroquímicas iranianas, enfim, eu tinha só gente de altíssimo nível, né, gerencial, ali presente e eles deixaram de ter essa função, de ter esses cargos e passaram a ser chefes de família. Aí: “o nome do meu filho é esse assim, assim, assim, assina um autógrafo para ele e tal, não sei o que...” Fomos fazendo isso, tirando foto e ele autografando, bom, tudo bem. No dia seguinte, no aeroporto lá no Galeão, o Ministro reuniu todo o pessoal ali, junto comigo ali naquela, à hora da despedida e me disse o seguinte: “Eu quero lhe agradecer em nome de todo grupo aqui presente pelo dia mais feliz que você nos proporcionou aqui no Brasil”. “Tudo bem, muito obrigado e tal...” Não sei o que, viajaram, aí, alguns meses depois eu estou em Teerã participando da feira, eu recebo um telefonema numa quinta-feira, lá são sete horas a mais do que aqui, recebo um telefonema quase no final da tarde de lá do Fragomeni, que era o chefe do escritório da Petrobras em Londres, e ele me dizia o seguinte: “Hugo, Motta Veiga, presidente da Petrobras, me ligou, pediu para eu entrar em contato com você para você agendar para ele uma reunião dele com o Ministro de Petróleo do Irã, (Redyar Sader?), o nome é esse – em qualquer dia, em qualquer lugar do mundo, porque ele precisa ter um contato urgente com o ministro do petróleo iraniano”. Porque a Petrobras ela importava do Irã, naquela altura, 200 mil barris de petróleo. Aí é que eu digo, vamos lá, voltei a pegar aquela pontinha. Vou ligar para quem para tentar agendar esse contato? Liguei para o Ministro da Indústria e Comércio que tinha estado aqui comigo e liguei para o filho o presidente do Irã, que também tinha estado aqui, que chamava-se Moshe Rafsanjani, presidente do Irã naquela época, chamava-se Rafsanjani. Eu expliquei qual era a situação e eles me disseram que iam ver o que poderiam fazer. No dia seguinte eu recebo um telefonema lá do Palácio do Governo dizendo o seguinte: “Diga ao seu presidente que na segunda-feira agora o Ministro do petróleo vai para Londres, ele vai estar em Londres na segunda-feira, às nove horas da manhã e recebendo o seu presidente lá na NIOC [National Iranian Oil Company], lá em Londres. É aquele negócio, então lá fui eu também para Londres e lá, na segunda-feira conseguimos reunir o Ministro do Petróleo iraniano, através de que? Através de um relacionamento que não era um relacionamento que ficou profissional, ficou um relacionamento de afetividade, de amizade, porque eles acharam que aquilo que nós fizemos aqui foi uma deferência para eles, nós saímos do lado profissional da coisa e fomos para o lado família, o lado da pessoa, como pessoa. Então, na hora que eu os procurei, na cabeça deles: “Bom, vamos dar um retorno”. E conseguiram agendar praticamente em dois dias a ida de um ministro para Londres para uma reunião com o presidente da Petrobras. Que redundou porque a Petrobras naquela altura... posso estar errado em alguma coisa, mas o que eu posso dizer é o seguinte: a Petrobras pagava a importação dia e passou a pagar a cada 30 dias. Então houve um ganho financeiro para a Petrobras muito grande em função da mudança da forma de pagamento. Em função de quê? Em função da presença do presidente com o ministro do petróleo e, vamos dizer assim, articulada pelo seu modesto entrevistado aqui. Mas isso é um caso para mostrar a importância que você tem, quando você exerce uma função você tem que estar atento sempre com essa perspectiva de que você em algum momento você pode precisar daquilo, não sei o que, você tem que olhar para frente, olha para o presente, mas tem que olhar também para o futuro. Então, quando nós estávamos ali fazendo aquele trabalho de relacionamento, de relações, vamos dizer assim, relações públicas, né, com esse pessoal dessa missão iraniana, nós estávamos visando esses... que é uma das funções do estreitamento da relação da empresa, são clientes, empresa, fornecedores, empresas de públicos de interesse, quer dizer, nós estamos ali fazendo a... Nós éramos a figura da empresa nesse relacionamento. E isso redundou num facilitador lá na frente para o agendamento dessa reunião lá em Londres.

P/1 – Muito bom. Hugo, também você falou, já até adiantou, se aposentou em 1993...

R – É, eu me aposentei...

P/1 – Nessa... Ainda nessa, quando você estava nessa assessoria internacional?

R – É. Eu inclusive quando perguntei a você: “você não vai me perguntar o que aconteceu com a pesquisa” [risos]? Então, o que que acontece com a pesquisa? Eu vou dizer o seguinte: eu procurei um superintendente na época e disse: “olha, estou me aposentando, eu queria que você destacasse uma pessoa que pudesse receber não só o acervo físico dessa área de pesquisa, mas também um ensinamento, uma formação. Eu me proponho a colocar uma pessoa do meu lado e ir passando conhecimento, tá, para que isso não morra”. Aí: “não tem ninguém interessado, não sei o que, papapapapa...”. Porque você falar de pesquisa está falando com um homem de relações públicas, lá, publicidade e propaganda... Quer dizer, eles têm a pesquisa como uma ferramenta, não como um coordenador ou executor da atividade em si. Então aquilo, vamos dizer assim, deixou de existir, tá, até que um belo dia eu recebi um telefonema do chefe do setor administrativo, que já tinha trabalhado em pesquisa comigo dentro, lá na minha área, e ele me ligou e disse: “olha, Hugo, eu tenho uma notícia para você, não sei se você gostar”. Eu digo: “o que que é”? Ele disse: “Olha, mandaram jogar fora todo o acervo de pesquisa que estava arquivado aqui, né, todo acervo de pesquisa”. Eu digo: “não faça isso! Eu vou aí e vou pegar esse material”. Então fui lá, foram colocadas em algumas, duas ou três caixas, relatórios, os relatórios de pesquisa e eu levei para a minha casa. Quando a minha mulher me viu chegando com aquilo, você pode imaginar você ter tudo no lugar e de repente aparece duas caixas enormes, com material de Petrobras. E aí eu disse o seguinte, na minha cabeça eu disse: “Em algum dia vão precisar desse material”. Um ano depois que isso aconteceu, eu fui chamado lá pelo superintendente da Petrobras, que eu não me recordo se foi o Luiz Antonio ou Mario Divo, tenho impressão que deve ter sido o Luiz Antonio Vargas, porque tinha sido criado um setor novo lá, o setor Seplape, Setor de Planejamento e Pesquisa e gostariam que eu desse um treinamento de pesquisa para esse grupo. E assim eu fiz. Então preparei os módulos desse treinamento, que eu transformei o que eu dava em dois anos na faculdade em um ano, dentro da Petrobras, então durante um ano eu preparei esse pessoal em termos de pesquisa. Quando terminou o treinamento nós fizemos, eu fiz até com eles uma pesquisa interna para que eles pudessem perceber como é que funcionava, fiz eles tabularem os resultados, analisaram, não sei o que, aí depois que terminou esse curso, eu digo: “bom, agora eu já posso devolver”. Conversei com o chefe do setor na época, que era o Luiz Eduardo Bastos, eu disse: “Luiz Eduardo, eu vou devolver o material que está comigo”. E aí fiz uma correspondência, está aí, que eu trouxe, relacionando todos os relatórios que eu estava devolvendo à Petrobras, alguns duplicados eu mantenho comigo, então eu devolvi para a Petrobras esses relatórios que iam jogar fora.

P/1 – Imagine.

R – Então, só para você ter uma ideia.

P/1 –Ainda bem que guardou. E, Hugo, você...

R – Bom, voltando, só para não perder...

P/1 - Então da sua aposentadoria, que você estava falando, você se aposentou, continuou dando aula?

R – Não, eu me aposentei no dia 31 de março de 1993 e eu sempre brinco que eu digo que o meu dia primeiro de abril, o dia primeiro de abril seguinte foi o meu dia da verdade [riso], não o dia da mentira, né, então foi meu dia da verdade. Mas eu não parei, eu continuei dando meus cursos, dando aula, eu fui chamado por um amigo meu para assessorá-lo e assumir, por exemplo, fui convidado para ser vice-presidente da Associação Brasileira de Relações Públicas. E queriam incrementar outra vez a atividade, então nós começamos a tocar isso juntos e ele tinha um escritório de comunicação. Eu fui, ele disse: “ó, tem uma mesa lá para você e tal”... Então fui ocupando aquela mesa lá, fazendo os meus contatos de trabalho e aí eu me lembro que os meus primeiros trabalhos de pesquisa já, vamos dizer assim, como profissional autônomo. Nessa altura eu usava a assessoria de, como é, conselho não, não era o (Correp?), ô meu deus do céu, agora está me faltando...

P/1 – Consultoria?

R – Não, não. Era o órgão regional aqui de relações públicas que eu era o vice-presidente, né, de vez em quando dá um...

P/1 – Daqui a pouco volta.

R – Daqui a pouco volta. Eu usava a instituição para desenvolver os nossos trabalhos, né, e aí inclusive com resultado... que a pesquisa inclusive a gente cobrava, tinha as notas e ali um delta “x” eu colocava dentro da Associação Brasileira de Relações Públicas, eu colocava na Abrp, Rio de Janeiro, um percentual dos resultados financeiros da pesquisa, para financiar os cursos internos, para, enfim, até em certos casos até para pagar aluguel. Quer dizer o seguinte, era uma renda que a associação tinha através dos nossos trabalhos. Até que depois a coisa foi crescendo, tivemos mudanças na presidência da associação e aí eu resolvi criar o meu instituto. Primeiramente com nome de Aloy Consultoria e Pesquisa e depois então com nome de Sensor Pesquisas. E aí temos aí uma gama enorme de trabalhos durante esse tempo todo aí, já de aposentado, com essa atividade de um instituto privado de pesquisa.

P/1 – E continua também prestando serviço para a Petrobras...

R – Sim.

P/1 – Com o Sensor...

R – Não, não, não. Aquilo que eu estava comentando, pela nossa familiaridade com a cultura da empresa, com a organização da empresa, com os serviços que existem nela, as unidades de serviços da Petrobras, alguns estudos dentro da empresa, que são estudos muito voltados para o público interno, de avaliação de imagem de um órgão... quer dizer, você pode imaginar o seguinte: imagem da Petrobras para o público externo, imagem da contabilidade para os seus clientes internos. É o que acontece, porque você tem o seu plano estratégico, você tem que desenvolver o seu plano, o seu plano estratégico melhorando a sua performance dentro da empresa e para isso você precisa conhecer como é que você é percebido pelos seus clientes internos, não é?

P/1 – Hum hum. R – Então nosso trabalho tem sido muito em cima de imagem do órgão, avaliação da qualidade dos serviços e do atendimento dos órgãos internos, dos órgãos junto ao seu público interno, junto aos seus clientes internos. Isso a gente tem feito com uma certa freqüência, na área de comunicação institucional a gente tem uma série aí até muito interessante de expectativa, porque aí nós criamos o que nós chamamos “índice sensor de avaliação da qualidade do atendimento”, com estabelecimento de atributos, com a fixação de atributos de atendimento e você mede esses atributos através de notas. E aí, qual é a sua nota em termos de expectativa, como é que você espera que você seja atendido e qual é a avaliação que você faz do que é feito. Então eu tenho expectativa e avaliação. E hoje a gente tem inclusive já um desdobramento. Hoje eu tenho condições de pontuar, não só pontuar, mas como também dar o grau de significância que cada atributo desse tem em relação ao todo. Então esse é mais importante, vamos dizer assim, numa escala de um a três, qual é a importância que você dá? Então a gente tem condições, inclusive, de fazer também, dar um equilíbrio com relação a esses atributos de avaliação.

P/1 – Tá certo. Hugo, a gente está encaminhando a nossa entrevista para o final, eu queria perguntar também nome dos seus filhos...

R – Ahhhhh!

P/1 – Você falou aqui quatro filhos...

R – Hum hum. É, isso aí é importante.

P/1 – E dos netos.

R - Se você não falasse eu ia falar [riso].

P/1 – Não, eu quero dos filhos e dos netos.

R – Bom, quatro filhos, eu segui a linha do meu pai, ou seja, educação acima de tudo, formação e procurando o melhor em termos de formação para cada um. Petrobras, hoje, o pessoal diz assim, não, bons salários, nós tínhamos bons salários, mas vivemos uma... Eu vivi, como todos na minha época, nós vivemos uma época de muito aperto de salário dentro da Petrobras. Quando eu entrei nós tínhamos um aumento em março e outro em setembro, depois passamos a ter num determinado momento, só um aumento em setembro. E aí chegamos a ter momentos de não ter nenhum aumento, tudo crescendo, o custo de vida aumentando e o nosso salário apertado. Apertado mesmo.

P/1 – Hum, hum.

R – Eu fui para o magistério naquela altura. E eu coloquei na minha cabeça o seguinte: o que eu ganhasse dando aulas, eu iria utilizar para dar educação para os meus filhos. Então eu fazia, ____ à noite eu dava aula, eu saía da Petrobras seis horas e sete horas eu estava dentro de uma sala de aula. Dava aula...

P/1 – Você dava aula em qual....

R – Eu dava aula, no primeiro momento eu dava aula de segunda à sexta, eu sou titular da cadeira de marketing e pesquisa em algumas universidades, hoje não dou mais aula. Eu estou mais naquela de palestras, tudo porque a aula é muito sacrificada, você tem que se preparar, tem aquele negócio não pode faltar, não sei o que, e a minha vida, por exemplo, em termos de Petrobras nos últimos anos era uma vida quase que assim, de viagens contínuas, ali eu já tinha dado uma freada no magistério, a nível de universidade. Mas eu dava aula de segunda à sexta, sou titular da Universidade Gama Filho de marketing e pesquisa, eu sou titular da cadeira de marketing e pesquisa da Unisuam, eu sou titular da cadeira de análise de mercado na universidade lá de Belfod Roxo, então eu dava aula de segunda a sexta, então tinha dias que eu saía, por exemplo, dava uma aula uma vez por semana lá em Belford Roxo, eu saía da Petrobras seis horas com o meu carro dali, levava uma hora, quase uma hora e meia, não existia linha vermelha, não existia nada, Avenida Brasil, depois Dutra, Belford Roxo. A minha aula começava às sete horas e meia, sete horas e meia eu estava lá, terminava 11 horas da noite, eu pegava o meu carro de volta, onze horas da noite, meia-noite eu estava, meia-noite e pouco eu estava em casa, seis horas da manhã já levantando para deixar meus filhos no colégio. Estudavam no Colégio Sion, de alfabetização até o terceiro ano todos os quatro estudaram no Colégio Sion, somos lá conhecidos pela família Aloy [riso]. Então meus quatro filhos, a formação de cada um deles, que é o nome deles também: Monica, Adriana, Hugo Junior e Taísa. Monica com formação em administração, hoje ela... começou como hobby, ela acabou se desenvolvendo na parte de fotografias também, então fotografa eventos e a fotografia dela é com relação ao meio ambiente também, então vai lá e tal, não sei o quê, então faz o que gosta. E além disso ela, eu disse para ela que a melhor profissão era a que ela tinha, que era empresária da minha neta, tá, que a minha neta mais velha, agora nem tanto, mas quando mais jovem, hoje ela está com 18 anos, mas quando mais jovem ela trabalhou na Globo, na Malhação, naquele Mulher... O nome se não me engano, trabalhou na Malhação, trabalhou numa série sobre mulher, novela, então...

P/1 – E qual é o nome dela?

R – Flavia Aloy. Tem lá, tem o seu book, tem o seu vídeo-book [riso], tem essas coisas todas, hoje DVD, né, então, na TV Globo, ela trabalhava na TV Globo e fez seu pé-de-meia, ganhou seu salário lá, tem dinheiro aplicado lá na sua poupançazinha e tal, mas hoje também ela gosta de esporte, ela fazia ginástica olímpica no Fluminense e gostava de jogar futebol e ela joga futebol...

P/1 – Que ótimo.

R – Ela é da seleção de futebol de praia.

P/1 –Que ótimo.

R – Então gosta de futebol, joga futebol e está fazendo faculdade de comunicação e disse que vai fazer a área de cinema, teatro e cinema, que é a área que ela sempre gostou de trabalhar e tudo, então está lá já na faculdade. Renatinha vai fazer 15 anos agora, ainda está fazendo...

P/1 – É a caçula?

R – É a caçula, neta caçula dela. A minha segunda filha Adriana é engenheira de segurança do trabalho e tem o pós-graduação em gestão de meio ambiente, está trabalhando, mas está procurando alguma coisa melhor e espera que o pai arrume também [riso]. E a gente tem sempre preocupação com o filho mesmo já crescido e tudo, trabalha, trabalha numa empresa de assistência médico hospitalar para condomínios e ela que faz os laudos de segurança nesses condomínios. Meu neto, Thiago, filho dela, então com esse aí estamos com três netos, Thiago termina esse ano, estuda no Colégio Pedro II, é excelente aluno, com redação já premiada lá dentro do Colégio Pedro II e disse também, aí eu não sei se é por causa do avô, que quer fazer também faculdade de comunicação e publicidade e propaganda. P/1 – Que ótimo. R – Meu filho, o Hugo, esse tem um capítulo especial, porque é o único homem que eu tenho, mas é um capítulo especial não só por ser o filho homem, né, mas porque foi aquele que a gente investiu mais, eu investi mais em cima dele do que dos demais. Não porque tivesse que ter um tratamento diferenciado, foi porque ele teve a sorte de na época dele a gente estar numa melhor condição de poder, inclusive, participar desse investimento. E o investimento começou quando ele estava já faculdade, análise matemática, ele é professor, quer dizer, ele tem o título de professor de matemática, também tem o título, tem vários títulos ele, mas de professor de matemática e o meu irmão foi para Londres para ser o gerente financeiro do escritório de Londres, isso em 1989. E aí o meu irmão... Não, o meu irmão foi antes. Mas em 1989 o meu irmão falou: “Você quer que o Hugo passe uma temporada conosco aqui fazendo cursos”? Eu digo, pô, eu não ia pedi, foi oferecido, eu digo: “ele vai”. Então o meu filho passou um ano lá, morando com meu irmão em Londres, fazendo todos os cursos possíveis lá na área dele, na área de informática, que estava naquela altura um negócio se desenvolvendo bem, ele veio de Londres, eu consegui junto a um amigo meu do CPOR, dessa confraria que eu falei, que era o diretor de marketing da IBM, consegui o estágio do meu filho, queria que ele fosse estagiar na IBM e fosse contratado como trainee na IBM, né, depois de um ano de IBM, isso aí 1991, 1992, por aí, o meu filho chegou para... 1992, 1993, por aí, a data não posso precisar, mas eu sei que depois que ele veio de Londres, terminou a faculdade, até que ele tinha trancado a matrícula para ir para lá, para Londres, concluiu a faculdade de matemática, aí consegui que ele fosse admitido como trainee na IBM e um ano depois ele chegou para minha mulher e disse: “Olha, a IBM está querendo me efetivar, mas eu recebi um convite de um amigo meu e eu vou aceitar esse convite”. “E qual é o convite, meu filho”? “Ele quer que eu vá para Bali para ser o responsável pela produção das cangas”. Que aquilo que estava começando, aqueles produtos de Bali e esse amigo dele foi um dos primeiros a trazer produtos de Bali e lá ele produzia e precisa de alguém lá para poder administrar a produção desses produtos lá, de camisas, roupas de Bali, não sei o que. Aí eu falei para ele, eu digo: “meu filho, a gente investiu tanto em você para você estar dentro de uma IBM, não sei...”. “Pai, se eu quiser ganhar dinheiro eu tenho que ganhar dinheiro é no comércio, eu não vou ter que ganhar dinheiro como funcionário de uma IBM”. Eu digo: “bom, tudo bem, você tem casa, comida, você é solteiro, então a hora de tentar é agora. Tá, então você vai tentar e depois você vê”. Bom, ele foi para Bali e tem uma coisa interessante nisso tudo, porque você vai ver o que que aconteceu em função disso. Ele foi para Bali, aprendeu o indonésio, ele fala fluentemente o indonésio, né, além do inglês, ele fala fluentemente o indonésio, por lá ele passou a conhecer todas aquelas feiras existentes lá em Pequim, feira de Tóquio, não sei o que, ele circulava por aquelas feiras, por aqueles países todos por ali e aí ele fez o capital dele, e trouxe da China para o Brasil um primeiro painel eletrônico de alta-resolução e esse painel ele trouxe aqui para o Rio e instalou esse painel lá na Barra da Tijuca, depois ele trouxe da Barra da Tijuca colocou ali perto do Pinel, em Botafogo, painel, igual outdoor...

P/1 – Sei.

R – Aquele eletrônico, né? Até que chegou o momento que o Conde baixou uma lei acabando com os painéis de rua e ele teve que embalar, encaixotar aquele painel. E aí, o que que ele fez? Ele disse:“vou investir na minha educação”. Então ele bancou o sua pós-graduação, ele bancou, ele fez uma prova para a faculdade de comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, cujo diretor era aquele amigo meu que abriu as portas para quando eu me aposentei, já estava como professor e diretor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Meu filho fez a prova lá e foi, em um ano ele completou as matérias que precisava para ter a titulação em publicidade e propaganda. E mais do que isso, ele foi fazer o Copead, né, o Copead de marketing. E nesse Copead de marketing, ele conheceu o diretor comercial da Light que o convidou para ser o gerente comercial da Light. Muito bem, ele está como gerente comercial da Light, ele recebe, depois de terminado o Copead ele recebe um convite da Copead para mandar um currículo para a TV Globo, que a TV Globo estava procurando um profissional para a área internacional e havia uma seleção de 200 candidatos lá, não sei quantos candidatos, mais de 200 candidatos e aquilo foi feito, foram fazendo uma triagem até que no final ficaram dez e dentre esses dez estava ele e foi para uma entrevista, dessa entrevista iam tirar cinco para uma fase final ainda. Só que depois da entrevista dele, a diretora internacional da Globo disse: “Para o processo, que o homem que eu estou procurando é ele. Porque ele conhece o mercado”. Porque ele estavam procurando um profissional para ser o gerente de negócios da Globo para a Ásia e Oceania e ele tinha completa familiaridade com aquela área toda, ele falava, fala o indonésio e fala, vamos dizer assim, de uma certa forma indo-mandarim, porque ele já tinha quase 5 anos de curso de mandarim, né? Então hoje, esse meu filho é o gerente da Globo, até está chegando hoje, porque a Globo internacional passou para São Paulo, então ele teve que ir morar em São Paulo, mas toda semana, quando possível ele vem, ele vem esse final de semana por causa do dia dos pais, no domingo, mas ele é o gerente de vendas da Rede Globo, da TV Globo internacional. Então já nesse final do mês já está voltando para a China, vai passar um mês por lá, então ele já foi o responsável para venda, outra vez de Escrava Isaura para a China, Pecado Capital, ele que colocou os produtos da Globo já agora no mercado da China, da Indonésia, Singapura. Então, esse é o meu filho [riso].

P/1 – Muito bom [pausa]

RT –Bom, finalmente...

P/1 –Aí falta a sua filha...

R – Taísa, a Taísa, a formação dela ela é formada em publicidade e propaganda na PUC [Pontifícia Universidade Católica de São Paulo] e jornalismo também pela PUC, ela trabalhou sete anos na área de produção da Globo, ela era responsável pela parte de produção dos programas aí, como Linha Direta, então ela é que estava atrás das câmeras agilizando todos esses processos de produção, durante sete anos ela esteve na área de produção da Globo, pediu demissão da Globo para poder, aí é uma questão do coração, poder se casar com um americano, meu genro, que ela conheceu um ano antes dela pedir a... dela sair da Globo, ela pediu uma licença da Globo para fazer um estágio em Indianápolis numa empresa que trata de imagem das pessoas, que essa empresa, inclusive, era responsável pela imagem, por exemplo, da Marilyn Monroe, Sophia Loren, então, o que que é isso? É, vamos dizer assim, se você quiser botar a imagem da Marilyn Monroe em algum produto, em alguma coisa, você tem que pagar um royalty, tá? Então os direitos de imagem estão lá com essa empresa. Então ela passou durante seis meses fazendo um estágio nessa empresa para ver como é que funciona, enfim, uma área que ela gostava também, mas aí acabou conhecendo o meu genro, morador de Indianápolis, então ela voltou, depois quando ela voltou ficou mais um ano da Globo e aí meu genro, durante esse período veio para pedir a mão dela em casamento e depois ela foi, no final ela pediu demissão e foi para Indianápolis, onde ela está morando, né?

P/1 – Casada.

R – Casada. Indianápolis e tem, como é que se diz, brasileiro você é safo, a verdade é essa, a expressão ela explica. Ela por lá, ela fez, vamos dizer assim, supervisão de eventos, ela já fez lá... o meu genro é técnico do maior laboratório que existe em Indianápolis, ele é biólogo e chefia uma área de biologia desse laboratório lá em Indianápolis, mas nem por isso ela fica em casa, até porque ela tinha uma vida muito ativa quando era da Globo, ela chegava às vezes duas horas da manhã, porque gravação, você sabe como é que é, né, “pára, vamos repetir, não sei o que...” Chegava às vezes duas horas, seis horas, sete horas já estava outra vez o carro da Globo pegando ela, sempre teve uma vida muito ativa nesse sentido. E lá ela não ficou parada, então entrou na área de eventos e a área de produção de material para filmes de publicidade, filme de propaganda, chegou com uma amiga, elas chegaram, as duas fizeram uma sociedade para lançamento de um chá do... como é, um país lá do, era o antigo Sião, né?

P/1 – Sri Lanka.

R – Sri Lanka, porque o pai dessa moça era o maior importador de chá dos Estados Unidos, ele morava na Califórnia. Então elas começaram e montaram embalagem, uma coisa lindíssima e tal e começaram a vender chá e fez dinheiro lá [riso], depois disso, no final ela, independente disso, ela começou sua aula de português.

P/1 – Muito bom.

R – E um dos alunos dela foi campeão daquela liga americana, liga de futebol americano, que depois, no ano passado, esteve na minha casa, hospedado na minha casa.

P/1 – Hugo, vamos só acelerar um pouquinho...

R – Tá, então vamos... Tudo bem.

P/1 – Porque a gente... E ela agora está fazendo o quê?

R – Não, ela continua lá, ela está com projetos lá de trabalho também, recebeu convites até de uma empresa fora do estado, mas aí a ela não interessou, porque ela teria que se deslocar e o marido não, então ela continua lá, vamos dizer assim, como freelancer [riso].

P/1 – Muito bom. Hugo...

R – Não, antes de terminar eu só queria colocar uma coisa que eu pedi até para...

P/1 – Do Parapan.

R – Parapan. Porque quando a gente fala em termos de Petrobras tem muita gente que não imagina as coisas que a Petrobras patrocinou e que ela participou, né? Então eu começo dizendo o seguinte; eu vou ser muito rápido nisso aí. Eu tinha e tenho um amigo que sofreu um acidente, ele jogava comigo no Fluminense, sofreu um acidente e ficou paraplégico e ele era o presidente da Sadefi [Sociedade dos Amigos do Deficiente Físico], aqui no Rio. E eu e Zico ajudávamos muito nos eventos do final de ano para arrecadar recursos para essa instituição que atende os deficientes físicos, né, que estão em cadeiras de roda e tal. Pois muito bem, esse amigo me procurou uma vez na Petrobras pedindo para ver se eu poderia conseguir um patrocínio da Petrobras para a delegação brasileira de deficientes físicos, deficiente físico em cadeira de roda. Hoje eles usam até um outro termo para isso, cadeirante, hoje é o termo que eles usam para o deficiente físico, para esse deficiente físico. E a Petrobras patrocinou a ida dessa delegação brasileira aos jogos de Mandeville, na Inglaterra. Ganharam muitas medalhas, não sei o que. Aí isso os animou e eles me procuraram outra vez e por meu intermédio, nós encaminhamos lá um pedido de patrocínio para a delegação brasileira participar da Paraolimpíada de Seul. Então hoje, quando você vê um Parapan aí cheio de patrocinadores eu queria dizer que a primeira empresa a acreditar e a dar um apoio ao deficiente físico foi a Petrobras. A Petrobras patrocinou a ida da delegação brasileira, vamos dizer assim, da seleção brasileira, a seleção para a olímpica brasileira na Paraolimpíada de Seul, em 1988 e na Olimpíada de Barcelona, em 1992. Eu queria deixar isso registrado em se tratando de memória Petrobras, porque hoje tem muitos padrinhos, mas a primeira empresa a acreditar nesse segmento de público e dar o seu apoio foi a nossa empresa, Petrobras.

P/1 – Hugo, eu adoraria continuar com você aí, mas é...

R – É, eu também ainda tem muita coisa aí que a gente deixa para uma outra ocasião [riso].

P/1 – Mas eu acho que a gente ainda pode ter outra chance, ainda vem história da comunicação aí. Queria só terminar perguntando se você gostou de ter participado da entrevista.

R – Eu diria o seguinte: gostei, adorei. Eu sempre fico no lugar, no seu lugar, né, na minha atividade, perguntando, mas no íntimo sempre com a minha cabeça assim: “quando é que vão perguntar sobre a minha vida? Quando vão me perguntar sobre aquilo que a gente tem de conhecimento guardado aqui sobre uma empresa que fez parte da nossa vida e faz parte ainda da nossa vida, não quero que isso se perca”? E eu queria só encerrar a minha participação, quando eu falei para você, “me lembra do coração”, porque eu em 1992, em maio de 1992, não, em 1991, maio de 1991, eu estava a caminho da OTC e sofri um enfarto em Miami. E eu vou lhe dizer que talvez em dez segundos eu vi o filme da minha vida, quando me levaram para o hospital enfartado, eu me vi, naquele negócio que falam que está num túnel e vi lá no final do túnel alguém me chamando, não sei o que. Eu me senti dentro de um túnel, só não vi essa luz, só não ouvi ninguém me chamando, mas eu, quando estava na UTI aí tive um enfarto, me fizeram uma angioplastia... Petrobras me atendeu em todos os sentidos, não me deixou faltar nada, eu lá em Miami, dentro de Jackson Memorial Hospital, que era considerado o melhor hospital público dos Estados Unidos, mas coincidentemente foi para onde me levaram e lá eu escrevi numa UTI algo para não esquecer, e que volta e meia eu chego e consulto aquilo. Eu digo: “pensar na vida, ou repensar a vida” e eu digo o seguinte: naquela fração de segundo eu vi o filme da minha vida, eu me vi criança... Tudo isso que nós conversamos aqui eu vi naquela fração de segundo, eu não vi nada material, eu só vi pessoas. E eu dizia o seguinte no final: eu tenho que deixar, vamos dizer assim, aquela rigidez que a gente tem muitas vezes, até dizer pô, eu não vou chorar, não vou me abrir, não vou dizer muito obrigado, você é importante para mim na minha vida, mas eu não sei me expressar para dizer isso, né, não uso nenhuma expressão para manifestar o sentimento que eu estou tendo. Eu posso até manifestar, mas não da forma como deveria ser manifestado. E eu passei, eu mudei a minha cabeça a partir dali, ao ponto da minha mulher ter dito para mim: “não, você realmente mudou a tua cabeça”. Porque quando você me pergunta “você gostou”? Eu digo: “gostei, adorei de estar aqui”, tá, e quantas vezes for possível nós participarmos de uma situação como essa conte com a minha colaboração, com a minha participação e nós estamos abertos, coração aberto para tudo aquilo que for no sentido positivo da vida.

P/1 – Tá certo, Hugo, a gente que agradece você ter vindo aqui colaborar com a gente.

R – Tá. P/1 – Muito obrigada.


--- FIM DA ENTREVISTA ---

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