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História

PET, uma escola da vida

História de: Maria dos Remédios de Moura Gomes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/09/2015

Sinopse

Nesta entrevista, Remédios nos conta sobre sua infância e família em Piripiri e sobre como trabalhava no roçado, na rapadura e na mandioca desde pequena. Nos conta as dificuldades de se conseguir um ensino de qualidade na época, mas também sobre as brincadeiras que a alegrava, as festas juninas e suas diversões de juventude. Além disso, ouvimos sua história de emigração para São Paulo por causa de seu casamento: o conflito criado dentro de sua família, a viagem para a capital paulista e o deslumbramento vertiginoso com a chegada. Sabemos um pouco também sobre a história da Comunidade São Remo, local onde Remédios mora até hoje e os desafios de ser mãe e trabalhar ao mesmo tempo. Remédios nos conta a história de como entrou para o PET em 2000, a participação de seus filhos nele e as mudanças internas nos objetivos e visões de mundo do projeto ao longo de 15 anos. Ao final, Remédios fala o que achou de ser entrevistada e sobre seus sonhos pessoais para o futuro.

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História completa

Eu me chamo Maria dos Remédios de Moura Gomes, nasci numa cidade do Piauí chamada Piripiri, aos 7 de novembro de 1959. Quando eu nasci, já tinha irmãos casados, né, então eu tenho um sobrinho que ele é quase da minha idade hoje, né, ele tá vivo, mas é muito bacana, porque, como eu já fui lá dos últimos, então os mais velhos já cuidavam dos mais novos. Mas, como toda criança que nasce na roça, muito cedo, e cedo que eu digo é aos três, quatro anos, já sabe fazer alguma coisa, já tem sua enxadinha desse tamanhinho, mas tem, e já vai pra roça junto com os mais velhos, não tem jeito. Piripiri é uma cidade que ela é muito acolhedora, até porque ela, quem vai, por exemplo, pro Ceará, tem que cortar Piripiri, não tem jeito. Em Piripiri tem um açude que se chama Caldeirão, que é o que abastece a cidade, então atrai muitos turistas pra banho, essas coisas, não tem mar, mas o mar do Piauí é Parnaíba, então é uma cidade turística, até por ter também sete cidades, que é do lado, que é dentro do município de Piripiri, que atrai gente de todo o país, que não é uma cidade, é pedras, é parque, é um parque lá, coisa mais linda. A gente plantava o milho, o arroz, feijão, mandioca e também a cana-de-açúcar, meu pai trabalhou mais de 40 anos com fabricação só da rapadura, então ela ia de julho a outubro, esse período era um período que a gente tava enfiado lá nas, na rapadura. A gente trabalhava muito, mas a gente também tinha os momentos de brincadeira.

 

A minha vinda pra cá pra São Paulo se deu numa situação de casório, nós casamos eu e Raimundo dia 26 de dezembro de 86. Eu vim de ônibus, não vim sozinha, porque eu vim com um sobrinho e pra minha salvação, quando eu cheguei na rodoviária, meu marido não estava me esperando, porque a carta não tinha chegado, ela chegou uma semana depois, e daí esse meu sobrinho que veio comigo tinha uns primos dele esperando ele, que não eram meus sobrinhos, mas a gente era tudo família, porque era do mesmo interior. E aí eles me trouxeram aqui pra São Remo, onde eu moro há 27 anos, que quinta-feira faz 27 anos que eu tô, que moro aqui. Eu só tenho dois filhos, uma coisa muito gostosa, porque eu já tava indo pra 28 anos, então muito bacana, meu marido trabalhava sozinho e teve mais um complicador, como ele tava morando de aluguel, ele ficou desempregado, aí foi um período bem difícil, lá nessa casa, a gente teve que sair da casa, moramos dois, um mês e meio com uma amiga dele. Aí que a gente conseguiu vir aqui pra Comunidade São Remo, porque aqui tinha dois primos do meu marido, então a gente teve essa oportunidade em 88, vir pra São Remo, onde eu moro até hoje, através desses primos do meu marido. Mas ser mãe é uma coisa, assim, que toda a mulher quer ser mãe, é difícil talvez ter uma na vida que não queira, porque a maternidade é uma coisa que não tem preço, não tem preço.

 

Quando o meu filho tava com um aninho, aí eu arregacei as mangas e fui trabalhar e foi muito engraçado, porque eu tava na porta de casa, na rua, a São Remo ainda era, se você hoje você for lá, ela cresceu muito, então são 27 anos, agora em julho faz 27 anos, as ruas eram tudo de terra. Eu trabalhava na Odonto, na limpadora, e conhecia uma moça do administrativo que era muito minha amiga. Daí ela saiu desse local e foi pro departamento pessoal, tava na semana de inscrição pra admissão de duas pessoas pra limpeza aqui do CEPE, isso em 94, aí ela foi logo, ela ficou sabendo no último dia, ela falou assim: “Vá lá e leva teus documentos, vá lá!". E daí passei, e como eu voltei pra sala de aula num projeto da USP mesmo pra escolarizar seus servidores, eu tive essa oportunidade de vir pra cá, e aí um belo dia, eu já sabia do projeto, mas não tinha muito entrosamento com eles, porque eu tava lá, aí quando foi em janeiro de 2000, 20 de janeiro, me chega, o Marcos Vinícius e o Professor Paulo, que eram os dois coordenadores, o Paulo Martins, que depois ele saiu, numa reunião com o diretor técnico. E aí eu ia preparar a mesa pra eles. “Hum, eu vou preparar o café”, aí ele falou assim: “Não, eu não tô pedindo café, tem uma cadeira vazia aí pra você”, aí eu gelei, eu falei: “Meu Deus”, mas quem não deve não teme, eu sei que eu não fiz, eu não fiz nada, as crianças falam assim: “Mas eu não fiz nada”. Aí eles passaram o assunto e aí eu fiquei pensando, eu falei: “Olha”, fui bem sincera pra eles, eu falei: “Meu serviço aqui é cabo de rodo, eu sei que indo pra lá a minha função vai mudar, eu vou fazer outras coisas, mas a minha experiência é cabo de rodo”. Lembro que o Marcos segurou no meu braço e olhou pra mim, falou assim: “Com a gente você vai aprender” e aí acho que é isso, que eles tão me aguentando até hoje.

 

Bem no comecinho, quando eu vim pra cá, ainda era pelo teste, fazia o teste nas três modalidades, nas quatro, basquete, handebol, futebol, basquete, handebol, canoagem e futebol, então tinha essas quatro modalidades, então era por teste, na época ainda era teste. Depois foi mudando e foi mudando muitas coisas, mas a escolha era por teste e tinha um, não, nessa época não entrava o fator do socioeconômico, era por teste mesmo. Nessa época eles tinham vale-transporte, ah, eu ajudava a cuidar também do vale-transporte, eu que ia comprar, era uma aventura, eu saía de carro oficial pra ir comprar esses lá na cidade, o vale-transporte deles, aí depois foi acabando, acabando, até chegou a acabar mesmo. Mas você tinha bastante coisinhas, eu vim pra fazer isso, mas aí ia surgindo as coisinhas e eu tava aqui pra isso mesmo, como tô até hoje, enquanto eles me aguentarem Em 2009, começou a se procurar um jeito pra manutenção do projeto, pro PET, Esporte e Talento, não acabar, que ele é como, ele é o atendimento às crianças, por isso que agora são dois, e aí a gente aqui, nossas colegas de trabalho: “O PET acabou”, não, o projeto não acabou, ele tá aí, ele tem, ele tá presente no atendimento com a garotada com um número menor, são três coordenadores que estão em campo. A gente já teve oportunidade de ter nove bolsas, mas a gente não consegue estagiário da universidade pra ocupar essas nove bolsas, o semestre passado a gente tava com três, esse semestre, graças a Deus, semana que vem, vão seis pessoas, seis estagiários, graças a Deus, cruzando esses campos, trabalhando, dando atividade pra essa garotada, seis, de três foi pra seis, graças, mas ainda faltam três. A gente não consegue preencher, não sei se a demanda que é grande, mas esses estagiários que vêm, que trabalham com a gente aqui, eles têm uma bagagem que a faculdade, a universidade não dá, é tanto, tal, que se cria n projetos aí fora de estagiários que já saíram daqui, e com essa bagagem bacana que sai daqui.

 

O projeto, mesmo com, a coordenação enxugou muito, mas a gente tá aí com uma qualidade muito bacana, então eu acho que é isso. As mudanças foram grandes, inclusive, no número de crianças que se atende hoje, de crianças e adolescentes, o número enxugou muito, porque também é o que a gente, é o que dá pra ser atendido, isso já é uma mudança radical. Por isso que se tem essa coisa, essa fala: “Ah, o projeto acabou”, “Não”, “Ah, mas eu não vejo mais criança”, sim, há anos atrás eram 300 crianças que circulavam aqui nos dois períodos, hoje você vê, o grupo da manhã tem 25 crianças, mas estamos aqui, tá aqui, e o trabalho que é feito com essas 25 crianças é um trabalho com qualidade, não é um trabalho qualquer, elas se doam, os professores e estagiários se doam pra isso. É tanto, tal, que você vê um estagiário que chega, passa por uma semana de capacitação, na outra semana as crianças já tão aqui, eles já são capazes de ir pro campo sozinhos, sem o educador, no mínimo o educador tá ali mais ou menos por perto pra dar um suporte, mas eles são capazes de dar conta e essa bagagem que esses estagiários levam daqui é uma bagagem boa, com qualidade e riquíssima pra eles, eu caracterizo assim. E aqui é uma faculdade, que eu não tive oportunidade de fazer. E por n coisas, não é nem talvez só condições, mas talvez por outras, as condições não é talvez só em dinheiro, ah, pagar uma faculdade, porque na USP jamais eu entraria, mas é por deficiência. Eu costumo dizer, a minha deficiência está em não ter sido alfabetizada no tempo certo, na hora certa, mas não, me sinto uma pessoa privilegiada por não ter, me sentir pequena, eu sou pequena no tamanho, mas eu sou grande, eu sou privilegiada aqui. Aqui é um lugar que é muito bacana de trabalhar.

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