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Pesquisas e descobertas

História de: Bernardo Lichewitz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/11/2004

Sinopse

Nesta entrevista Bernardo Lichewitz contra sobre sua carreira: como caminhou da Anatomia Patológica para a Endocrinologia. Conta sobre suas pesquisas e descobertas realizadas e que foram publicadas. Bernardo discute também sobre o diagnóstico e tratamento da diabetes, o avanço da insulina, hipertireoidismo e hipotireoidismo, a utilização de hormônio de crescimento e sobre diversos medicamentos. Além do mais fala de sua amada filha, a qual vive em um kibutz em Israel, pretendendo visitá-la novamente. 

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História completa

R – Então, quando chegou no quinto ano eu fui convidado para ser monitor da cadeira, e nesse tempo eu fui. Durante o sexto ano eu continuei também frequentando o departamento, e quando tinha problemas mais complicados... Sempre existiu uma grande rivalidade entre o Departamento de Anatomia Patológica e o Hospital das Clínicas. Então, lá do Hospital das Clínicas por quê? Porque os patologistas mostravam os erros, por exemplo, cirúrgicos, os erros clínicos.

 

P/1 – Que tipo de erro?

 

R – Erro clínico era, por exemplo: eu vejo um doente e examino, se eu for um bom médico eu vou ter uns 70% de acerto; e a gente via os 30% que eram erros. Erro de diagnóstico. O cara achava que era uma coisa, ia lá pra autópsia e era outra. Complicações cirúrgicas. Às vezes, o doente, hoje não, mas na época a gente achava complicações cirúrgicas, pontos que abriram, alguma falha. Então, existia uma grande rivalidade entre os dois lados. Existia uma grande rivalidade. E, quando eu comecei a perceber, e muitas vezes essas reuniões que a gente tinha todo dia eram marcadas para o Hospital das Clínicas e ia alguém do Departamento de Anatomia Patológica pra discutir lá o problema. Eu comecei a ver que o escolhido pelo Departamento era eu. Eu tinha mais linguagem, tanto pra discutir com os cirurgiões quanto com os clínicos, porque eu vinha de uma outra geração, do mesmo jeito que se hoje alguém me mandar apertar um botão num computador eu não acerto um... Não sei nem fazer funcionar o videocassete. E o meu menino de doze anos, quando tinha cinco, achava esquisito, porque pra ligar o videocassete eu o chamava. Ele com cinco anos tinha que ligar o videocassete, tinha que ligar... E eu, mal e mal, hoje eu sei ligar aqueles botões lá no carro pra ouvir rádio. Do mesmo jeito que hoje tem essa geração que está altamente ligada na tecnologia, eu já estava, nesse sentido, mais na frente do que os médicos que estavam só no Hospital das Clínicas, vendo só o doente, sem ver a anatomia patológica, e mais na frente do que os médicos que faziam só anatomia patológica e não sabiam o que estava acontecendo com o doente lá. Entendeu? Então, eu comecei a ver que eu era o sujeito que ia lá discutir. E fiquei nisso... Tanto é que o professor do Departamento de Anatomia Patológica queria: “Olha, você vai fazer residência de anatomia patológica pra ser patologista”. Eu falei: “Não. Se tiver que fazer residência eu não vou fazer de anatomia patológica”. E eu impus. Eu senti que a minha nomeação foi mais imposta do que era o desejo na época. Um dia o professor chegou pra mim – era o professor Constantino (Milhomen?) – e falou: “Olha, então quando você se formar você vai escolher: se quiser fazer residência, você vai fazer, se quiser ser assistente, vai ser assistente”. E eu, com outro colega que hoje vive nos EUA [Estados Unidos da América], o Tito (Cavado?)... Então, quando nós saímos da sala do professor: “A ideia não amadureceu, já apodreceu. É lógico que eu não vou fazer residência, eu quero ser assistente”. Porque isso era uma vaidade minha. Não era correto, não estou achando que fosse correto, mas era uma vaidade da época. Eu estava vendo que se eu fosse fazer residência, coisa, não sei o quê... E eu lá, fazendo as contas das vagas que tinha. Até eu acabar as coisas, as vagas iam ser ocupadas e depois eu podia ser o maior do mundo e não ia ter vaga pra mim. Em primeiro lugar, eu quis a vaga, para mim não era um problema econômico, a vaga, ser contratado como assistente, tanto é que eu e esse colega, o Tito (Cavado?), quando apareceu a... Existia uma vaga e a outra ia aparecer depois de alguns meses. Então o professor falou: “Eu não tenho preferência por nenhum de vocês, vocês vão decidir”. E eu ganhei o sorteio – nós resolvemos sortear. Eu cheguei para o professor e falei: “Olha, o sorteado fui eu, meu nome é tal”. Quer dizer, ele passou esse negócio pra reitoria e eu fui nomeado.

 

P/1 – O senhor foi nomeado assistente?

 

R – Assistente. E o outro ficou esperando. Mas eu falei: “Puxa, eu sorteei com ele, isso aqui não é justo”. Eu vivia na casa dos meus pais, eu não dependia desse ordenado pra viver, pra nada. O que eu queria era o título, não era o ordenado. Eu falei: “Puxa, o negócio é injusto, eu fiz um sorteio, ele que é o cara, ele era filho de sapateiro, então ele está precisando mais do que eu”. E cheguei pra ele e falei: “Bom, nós vamos dividir o ordenado até surgir a sua vaga”. E a vaga dele apareceu depois de uns seis meses. Até lá nós dividimos.

 

P/1 – E o senhor continuou próximo da área de anatomia patológica, a parte prática, como foi?

 

R – Não. A anatomia patológica... Eu larguei em 1971, de lá pra cá progrediu de tal jeito que hoje não é mais possível eu fazer endocrinologia e anatomia patológica, de jeito nenhum.

 

P/1 – Naquela época como era?

 

R – Naquela época ainda dava. Mas eu já estava prevendo que seria impossível, porque, dentro da endocrinologia os progressos eram muito rápidos e foi uma opção. Eu achava que quem fosse fazer anatomia patológica teria que fazer anatomia patológica em tempo integral. Começaram a aparecer novas técnicas, começou a microscopia eletrônica e outras técnicas de coloração específica. Eu mesmo cheguei para o professor e falei: “Olha, quem quiser fazer, de agora em diante, vai ter que fazer em tempo integral, não vai ser possível ficar com um pé em cada canoa”. Na minha época isso era possível. Você tinha grandes clínicos que eram radiologistas muito bons... Olha, tem um colega meu, de turma, que é o Jacyr Pasternak, que escreve na Folha [Folha de S.Paulo], ele e o Vicente Amato Neto – o Vicente Amato é mais velho do que eu, mas o Jacyr é meu colega de turma. O Jacyr faz muito bem moléstias infecciosas e faz muito bem hematologia, e uma especialidade não tem nada a ver com a outra. Mas, mesmo assim, hoje isso é difícil.

 

P/1 – Mas o senhor chegou a conhecer bem a área de anatomia patológica?

 

R – Mas sem dúvida. Eu publiquei muita coisa. Eu tive até trabalhos publicados no exterior. Escrevi muito sobre o assunto. Depois eu resolvi parar. Logicamente, hoje, se eu entrar numa sala de autópsia, ou se eu for ao microscópio, tudo que eu conhecia na época, não tenho dúvida nenhuma, está mantido, porque é uma atividade que na cabeça é usada toda hora.

 

P/1 – Do que trata exatamente? Eu queria que o senhor explicasse um pouco melhor do que trata exatamente a anatomia patológica. Quais as técnicas utilizadas na época? Como era?

 

R – Olha, ainda tem uma hora...

 

P/1 – Pode ficar à vontade...

 

R – O que acontece é o seguinte: antigamente se chamava anatomia patológica, porque existe na faculdade de medicina, ou mesmo na veterinária, uma cadeira básica que se chama Anatomia Descritiva e Topográfica. Então, o que é que aprende na cadeira de anatomia? Na cadeira de anatomia você aprende a forma normal de todos os órgãos, quer dizer, é a mesma coisa que se você desmontar o motor de um carro e você sabe todas as peças, e onde fica cada peça, você é capaz de montar, de desmontar, mas eu não sei como funciona isso. Se alguém me mostrar cada peça eu sei... Mas, se amanhã o carro estraga o pistão, se você me mostrar um pistão normal e um pistão um pouco estragado, eu não sei se está estragado, isso eu vou aprender na anatomia patológica. Na anatomia patológica eu vou aprender todas as alterações de forma determinadas por uma doença. Então, eu vou olhar um coração que, ao invés de pesar 120 gramas, pesa 300 gramas, pesa 350 gramas. Um coração, por exemplo, tem quatro câmaras, quer dizer, cada câmara tem um determinado volume, fica grande. As válvulas... Têm válvulas no coração; eu vou olhar essa válvula que deve ter uma determinada textura, deve ter uma determinada forma, está com a forma mudada. Isso eu aprendo na anatomia patológica. Por exemplo, eu vou analisar um tecido de uma mama de mulher, então eu vou saber se tem uma doença ou tem um câncer de mama porque as células mudaram. Isso eu aprendo na anatomia patológica. É lógico que a anatomia patológica tem a endocrinologia, mas na anatomia patológica eu não estudo a coisa dinâmica. Por exemplo, dentro da endocrinologia nós temos a tireóide. Você me dá uma tireóide e eu vou dizer que a tireóide está doente. Agora, se você me perguntar que hormônio produzia, como... Eu não sei nada disso. É como se você me mostrar o motor: está montado, eu monto, desmonto, mas como funciona isso eu não tenho ideia. A função a gente aprende numa outra cadeira que é fisiologia. Mas, já na época, eu começava a ser pioneiro nessa área. Eu sabia a morfologia, quer dizer, a anatomia patológica, e sabia a fisiologia patológica. Eu sabia como é que funcionava o anormal. Eu conseguia ligar, a partir dessa forma alterada, dizer como a função estava alterada. Você entendeu? Porque no Hospital das Clínicas a turma sabia a função alterada; no Departamento de Anatomia Patológica conhecia a forma alterada, mas não conseguiam ligar as duas coisas e eu já conseguia.

 

P/1 – Havia alguns produtos utilizados nessas análises?

 

R – Não, porque o que acontecia era o seguinte, vamos supor: um doente morria no Hospital das Clínicas, ele estava internado havia dez, quinze dias, morria, ia lá para o Departamento de Anatomia Patológica – lá a gente fazia a autópsia. Então, se retirava os órgãos, pesava esses órgãos, você descrevia a forma, descrevia com detalhes a parte macroscópica, o que você estava vendo por fora do órgão. Você cortava esse órgão, você descrevia a superfície de corte. Isso tudo é macroscopia. E é lógico, não é como hoje. A gente ditava nuns intercomunicadores e lá na salinha estava uma mulher feito doida tentando pescar, batendo à máquina. Então, depois disso, de cada um desses órgãos você cortava um grande número de fragmentos, colocava em formol e o resto, quer dizer, o que sobrava, era colocado dentro do cadáver com serragem. O cadáver era suturado por uma auxiliar e era entregue pra família.

 

P/1 – Se pesquisavam doenças com isso?

 

R – Doenças.

 

P/1 – Quais as doenças que o senhor lembra?

 

R – É, então, aí, eu já coloquei esses pedacinhos dentro do formol. É diferente. No formol esses fragmentos podem ser conservados por muitos anos, sem mudar nada. Então, eu colocava no formol, mas estava mole. Eu precisava ter um tecido mais consistente pra cortar. É a mesma coisa que um fígado: você vai cortar, coloca ele numa mesa e ele não tem uma forma determinada, então ele vai assumir a forma da superfície. Então, se você colocar esse fígado no formol, ele vai ficar duro, mas duro de tal jeito que permite que você corte com uma faca. É a mesma coisa que se você pegar esse fígado de boi, você coloca no formol, ele fica duro, você vai lá e corta. Aí a gente conseguia cortar uns cubinhos. Esses cubinhos iam pra uma técnica que eram processados. No início era manual. Então, passava por uma série de corantes, porque se você olhar um tecido sem corar você não consegue ver nada no microscópio. Depois tem que ser feitos cortes muito finos, de algumas micra. Esse corte fica mais fino do que um papel de seda. Então, esse tecido é cortado num micrótomo, é como se fosse uma micromáquina de cortar presunto. Isso é um micrótomo, que corta esse tecido. Então, fica mais fino do que um papel de seda. E esse tecido é colocado em cima de uma lâmina de vidro. Depois é processado, passa por uma série, vai passando por uma série de vidros até adquirir uma determinada cor. Quer dizer, você vai olhar e está azul, misturado com cor-de-rosa. Depois é colocado em cima disso uma lamínula, que eu não sei como é hoje, mas era grudado com albumina de ovo. Então, se colocava e ia com esse negócio para o microscópio. E isso você guardava pra não deixar ao sol, porque se deixar ao sol acaba desbotando depois de meses. Mas isso pode ser guardado pra sempre. Isso os cortes normais, então, depois chegava no microscópio e você estudava as alterações microscópicas. Quer dizer, eu fiz a macroscopia, aquela coisa grande, e depois eu ia estudar a microscopia. E na microscopia eu dava o diagnóstico. Depois o que é que eu fazia? Eu juntava o que eu vi na macroscopia com o que eu vi na microscopia e fazia um comentário; se aparecesse alguma coisa rara isso era publicado. Eu publiquei muita coisa, inclusive em revista estrangeira, e muita novidade também.

 

P/1 – O senhor pesquisou quais doenças?

 

R – Na época não tinha nada específico. Quer dizer, tudo o que aparecia de interessante eu estudava aquele assunto e publicava.

 

P/1 – Por exemplo...

 

R – Um dos trabalhos que eu publiquei foi carcinoma do esôfago. Esse daqui foi feito um levantamento muito grande de 30 mil autópsias e deu cento e tantos casos de câncer no intestino grosso, aliás. Mas tem coisas que eu deixei de publicar e que depois apareceram como novidades. Eu deixei de publicar. Absurdo... Quer dizer, preguiça. Um dia nós ajuntamos uns casos e eu fiz uma autópsia, eu olhei, não sabia direito o que era, eu mostrei para o professor, o professor olhou e falou: “Olha, esse negócio aqui eu tenho mais quatro autópsias iguais a esta e a gente não sabe direito o que é. Você ajunta isso, estuda e publica”; “Tá bom”. Eu embrulhei e não fiz nada. Bom, anos depois isso foi descrito como leucemia de cerdas cabeludas.

 

P/1 – Nessa época?

 

R – Não, não, já bem pra cá. Acho que de uns quinze, vinte anos pra cá.

 

P/1 – Desse material?

 

R – Não, não especificamente desse. Ele foi publicado por coisas semelhantes que encontraram em outros lugares. Por exemplo: eu publiquei um dia o que se chamava de amiloidose. Eu cheguei para o professor... Eu era mais atirado, ele era um homem mais decente, mais... Então, eu fiz uma autópsia e encontrei uma amiloidose. Amiloidose é a deposição de uma substância de uma determinada coisa em todos os órgãos. Eu nunca tinha visto isso antes em esquistossomose, mas eu fui ver e achei ovos de esquistossoma no fígado da doente. Esquistossomose é uma doença nossa, aqui. Mas não estava escrito em lugar nenhum que esquistossomose desse esse depósito que eu tinha visto em todos os órgãos. Tinha alguma coisa que não deveria estar ali, mas isso não era descrito na época. Eu cheguei para o professor e já uni fácil, falei: “Olha, tem ovo de esquistossoma, é esquistossomose, tem esquistossomose do fígado e encontrei uma amiloidose, que chamava amiloidose secundária...”. Isso aqui já era descrito, esse problema com outras doenças crônicas: tuberculose, hanseníase, artrite reumatoide, mas não esquistossomose. Eu falei: “Professor, encontrei aqui um caso, eu fiz a autópsia, isso aqui é amiloidose secundária esquistossomose”. Ele falou: “Não, espera aí, você é muito atirado, como amiloidose secundária esquistossomose? Você vai escrever isso? Não, não, você vai pôr amiloidose secundária e esquistossomose. Fica mais prudente, sem dizer se é secundário a isso ou não é”. Mais tarde foi mostrado que existe, que é secundário mesmo. É o primeiro caso descrito.

 

P/1 – E o senhor encontrou outros casos de primeiras descrições, doenças descritas pela primeira vez?

 

R – Ah, sim. Isso aqui era um... O Departamento de Anatomia Patológica, na época, era um verdadeiro garimpo.

 

P/1 – É? Quais doenças novas foram descobertas naquela época?

 

R – Olha, não é que naquela época... Quando apareceu a AIDS, eu me perguntei: “Puxa, será que a gente não sabia o que era? E eu acabei jogando fora a coisa sem saber o que era?”. Então, eu fui ver agora esse material que a gente vê de anatomia patológica. Não, nunca vi antes coisa igual. Nunca.

 

P/1 – Quais eram as mais comuns na época?

 

R – O que tinha muito comum na época era tuberculose, doenças valvulares reumáticas, porque febre reumática altera a válvula cardíaca. Isto aqui não deve ter mudado, era assustador a mortalidade infantil.

 

P/1 – Quais causas, por exemplo?

 

R – Desnutrição. Desnutrição, e a criança morria de broncopneumonia. Desnutrição. Alcoolismo. Esquistossomose, doença de Chagas. E, naquela época, era a época da Guerra do Vietnã, e isso aqui eu não vou nem contar o nome pra não ser antiético. Eu me lembro do primeiro transplante... Eu fiz a autópsia do João Boiadeiro que foi o primeiro... Isso foi em 1968, o primeiro transplantado de coração aqui no Brasil. Era o João Boiadeiro, quer dizer, o apelido dele era João Boiadeiro. Agora, fez vinte e tantos anos, até saiu no jornal quando fez 25 anos do transplante cardíaco, saiu no jornal e falava, o apelido do receptor do transplante era João Boiadeiro.

 

P/1 – E o senhor fez a autópsia dele?

 

R – Eu fiz a autópsia e essa autópsia foi filmada, nunca mais ouvi falar. Na época foi filmada pelo J. B. Duarte que, na época, fazia filmes científicos. Nós entramos... Não lembro se era feriado ou domingo, nós entramos em dois patologistas, eu e o Jamil (Salung?). O Jamil (Salung?) já faleceu, faleceu, acho, há uns dez anos. Nós fizemos essa autópsia e era nítido, era na época em que a gente estava despreparados pra fazer, não na parte técnica, quer dizer, porque esse transplante cardíaco foi feito pelo professor Zerbini; tecnicamente era uma pessoa extraordinária, era capaz de dar ponto em alguns milímetros. Então, sob o ponto de vista técnico, nós sempre tivemos competência pra fazer, mas nós não tínhamos competência imunológica, porque na época ainda não se conheciam as drogas que se conhecem hoje pra evitar a rejeição, e era natural, aconteceu o esperado, não podia ter sucesso isso.

 

P/1 – Quais drogas eram usadas na época?

 

R – Ah, não me lembro. Tinha o soro antilinfocitário. O que possibilitou pra gente hoje os transplantes foi a ciclosporina, que trouxe um avanço muito grande. Os corticoides já eram usados na época. Mesmo antes disso, nós acabamos vendo coisas que na época eram desconhecidas. Eu vi um doente que tomou corticosteroide e morreu com estrongiloidose maciça, isso na época não se sabia o que era. (Estrongilóide?) é um verme intestinal e nas pessoas tomando corticoide sofre disseminação, pode sofrer disseminação. E essa pessoa morreu com disseminação. Tanto é que, a partir daquela época, todo indivíduo que vai tomar doses maciças de corticoide tem que passar por um exame de fezes pra ver se não tem (estrongilóide?), porque o (estrongilóide?) acaba matando o doente.

 

P/1 – E o que aconteceu com esse paciente transplantado?

 

R – Esse paciente transplantado de coração morreu de embolia pulmonar. Quer dizer, isso foi a causa imediata do óbito. Formou um trombo dentro do coração, um coágulo sanguíneo, esse coágulo se desprendeu e ele entrou na bifurcação das artérias pulmonares, quer dizer, formou um êmbolo a cavaleiro. Ele morreu disso. Mas o que levou a ter essa trombose mural foi uma miocardite imunológica por rejeição.

 

P/1 – E não se usou nenhum tipo de medicamento?

 

R – Foram usados, mas eram deficientes. E não era só isso, os nossos... As pessoas que mexiam na época com imunologia não tinha o conhecimento que existia na África do Sul; porque na África do Sul, onde foi feito o primeiro transplante cardíaco, pelo Christiaan Barnard, na época...

 

P/1 – Na mesma época? Em que ano isso?

 

R – Foi, antecedeu... Acho que 1967 ou 1968. O nosso foi feito em 1968. O da África do Sul foi feito pouquinho antes, alguns meses antes. Porque o Christiaan Barnard tinha feito estágio nos EUA junto com o Zerbini, aprenderam no mesmo local e tinham ligações. Mas quem fazia a parte imunológica para o Christiaan Barnard era o (Blota?), que era um grande imunologista.

 

P/1 – Já havia então no exterior essas técnicas, essa tecnologia?

 

R – Não era o que é hoje, mas já havia...

 

P/1 – No Brasil...

 

R – Não, não. No Brasil a parte imunológica estava engatinhando. Tanto é que mesmo o doente do Christiaan Barnard, o primeiro, sobreviveu meses.

 

P/1 – Quanto tempo sobreviveu esse primeiro transplantado?

 

R – Ah, esse daqui? Uns quinze dias, quinze, vinte dias, no máximo. Depois, olha, em mil novecentos... Eu também participei, mas aí não como patologista, porque aqui eu fiz a autópsia, mas eu participei do terceiro transplante pancreático feito; feito num diabético. O primeiro transplante de pâncreas no Brasil foi feito no Rio de Janeiro. Depois, o segundo, foi feito aqui no Hospital das Clínicas pelo Pinotti, não o Pinotti ginecologista que foi o...

 

P/1 – Candidato?

 

R – Candidato, que é deputado federal, mas pelo primo, aquele que operou o Tancredo. Ele fez o segundo transplante pancreático. Eu participei do terceiro, mas eu participei do terceiro como endocrinologista. Esse terceiro transplante pancreático foi feito pelo professor Edmundo Vasconcelos e a equipe. Esse que hoje é o nome desse hospital no Ibirapuera, o Hospital Edmundo Vasconcelos, que é do Bradesco. Ele fez, era um homem de alta tecnologia. O transplante, sob o ponto de vista técnico, foi brilhante, mas me aconteceu uma coisa interessante: no primeiro dia me chamaram pra ver o doente depois do transplante, porque aconteceu uma coisa... Eu não sei se era um juiz ou um promotor, tinha se suicidado e entrou no Hospital das Clínicas com morte cerebral; entrou com a parte circulatória intacta, mas já estava com morte cerebral. Foi um tiro na cabeça. Então, desse doente foram usados os dois rins pra transplante renal, foi usado o pâncreas, e quem recebeu o pâncreas era um diabético, chamado na época de diabetes juvenil, diabetes tipo um, era um padre. Esse pâncreas foi colocado na região inguinal, como se fosse uma hérnia inguinal, foi colocado na região inguinal e quando me chamaram o doente já tinha saído da sala de cirurgia e a glicemia era alta, era seiscentos e tanto. Aí nós aprendemos uma coisa muito interessante, porque esse doente, como a gente não tinha certeza, a gente já achava que o transplante não ia funcionar. Mas não se tinha muita certeza, nós não usamos insulina no doente e, apesar de não se usar insulina, ele era mantido hidratado, comendo, normal, e ficou com esse pâncreas uns dez dias, depois ele acabou eliminando pela incisão cirúrgica. Isso valia como pioneirismo, porque o doente sobreviveu, não teve nenhum problema, ele continuou sendo diabético, continuou precisando da insulina. Na época eu fui contra o transplante pancreático, só que eles não me ouviram. Primeiro eu tinha pouca idade, em segundo lugar era uma discussão filosófica. Eu falei: “Olha, eu sei muito mais dar insulina para o diabético do que controlar drogas pra evitar rejeição”.

 

P/1 – Quais drogas eram usadas já nessa época?

 

R – Não tenho ideia. Quer dizer, eu não lembro, eu sabia... Não lembro mais que drogas eram usadas. Mas eu falei: “Essas drogas são muito mais difíceis de controlar, são muito mais tóxicas, dão leucopenia, então se vocês vão ter que usar essas drogas durante a vida toda para o doente, é melhor dar insulina, porque a insulina nós temos uma experiência grande, a gente sabe usar; nós não sabemos usar essas drogas”. Mas resolveram fazer, porque é lógico que existia na época, em todos esses transplantes, um interesse político muito grande. Por exemplo, o InCor [Instituto do Coração] nasceu às custas do transplante cardíaco, porque o InCor... Nessa época era o governo do Abreu Sodré. É lógico que muita gente se promoveu a essas custas. E foi jogada uma cartada decisiva sob o ponto de vista político. Era a época da ditadura militar e isso daqui promovia, promovia o governo e... Eu lembro até hoje a fotografia dos que fizeram o transplante, o de coração, porque o de pâncreas não foi dada importância nenhuma, o de coração apareceu no terceiro andar do Hospital das Clínicas, que é onde está a rampa, a fotografia de cirurgião, de clínicos, não sei o quê. Essa fotografia deu até nos jornais. No Estadão, se vocês forem ver, em 1968 tem essa fotografia. É lógico que promoveu. Na época o governador Abreu Sodré lançou a pedra fundamental e nasceu o InCor. E isso daqui tudo eu contei porque eu lembro de uma frase de um professor que eu não vou citar o nome, e era a época da Guerra do Vietnã, então ele falou: “Puxa, encontramos o método de tratar os chagásicos”, porque o que tem doença de Chagas morre de problema cardíaco, então ele achou que era um método bom de trocar o coração. Mas onde é que vai arrumar... Eram milhões de brasileiros com Chagas, onde é que vai arrumar? Então, eu falei: “Eu acho que é uma solução muito mais fácil: ao invés de mandar gente sadia para o Vietnã e esperar morrer, a gente pode mandar os doentes pra lá que vão morrer de qualquer jeito. E não vai ter que passar por esse transplante”. Lógico, isso aqui não servia nem como piada, mas era tão ilógica essa afirmação, ainda mais vindo de um professor de medicina. Ia resolver o problema dos chagásicos? Onde é que ia arrumar tanto cadáver pra doar esse coração ainda vivo? Tinha que matar gente em massa.

 

P/1 – Doutor Bernardo, depois o senhor acabou optando pela área de endocrinologia, não é? Eu queria que o senhor falasse como foi essa sua opção. Por que o senhor escolheu a endocrinologia?

 

R – Olha, foi outra vez casual... Não faz mal se eu falar outra coisa agora?

 

P/1 – Não, fica à vontade.

 

R – Eu vou sair daqui às duas e meia. Quando faltar dez minutos, precisa alguém chamar um táxi.

 

P/1 – Fica à vontade.

 

R – Por que eu optei pela endocrinologia? Na verdade eu estava pensando em fazer cardiologia. Então, por que eu fui fazer endocrinologia? Porque na endocrinologia... Quando eu fui nomeado assistente do Departamento de Anatomia Patológica, o professor do departamento pensava em fazer de mim um pesquisador, mas eu logo vi que pesquisador eu não era. É muito importante uma pessoa olhar e saber pra que serve. Então, o professor chegou pra mim e falou: “Olha, já que...”. Eu não queria ser tempo integral, me foi oferecido o cargo de assistente em tempo integral, mas eu não queria; primeiro porque não ia resolver a minha vida, segundo lugar eu não queria ficar fazendo anatomia patológica só, eu queria fazer clínica. Então, o professor de Anatomia Patológica falou: “Olha, como o Bernardo Léo...”. O Bernardo Léo que era do HC [Hospital das Clínicas] e aposentou faz pouco tempo como professor titular de endocrinologia, ele era um pesquisador. Então, ele falou: “Olha, como eu quero fazer de você um pesquisador, você vai ao HC na parte da manhã trabalhar com o Bernardo Léo”. E, por coincidência, o Bernardo Léo era endocrinologista. E chegou lá, eu comecei a gostar de endocrinologia. Logicamente que nas pesquisas... Eu publiquei muita coisa nas pesquisas feitas conjuntamente com ele, mas isso eu tinha certeza. Eu só consegui... Esses resultados das pesquisas só conseguiram sair por causa dele, eu não acrescentava nada.

 

P/1 – Com endocrinologia?

 

R – É, tudo de endocrinologia.

 

P/1 – E quais pesquisas eram essas? Eram doenças que vocês pesquisavam?

 

R – Olha, porque na época o professor Bernardo Léo estudava alterações no metabolismo de cálcio. E era nisso que a gente trabalhava.

 

P/1 – O senhor desenvolveu esse tema?

 

R – Naquela ocasião.

 

P/1 – Naquela ocasião? Em que ano era isso?

 

R – Isso era entre 1964 e 1968, eu trabalhei com ele quatro anos. Mesmo assim, a gente se preocupava mais com a parte de pesquisa. Eu não achei que nessa época... É lógico, eu achei que eu estava, eu era... Na verdade eu era na endocrinologia um principiante. E nós publicamos muita coisa. E o próprio Bernardo Léo... Chegou em 1968 eu resolvi fazer concurso no Hospital do Servidor Público e saí, porque eu estava precisando tocar a minha vida.

 

P/1 – Aí o senhor foi medicar, foi trabalhar como médico no Hospital...

 

R – Fui trabalhar como médico do Hospital do Servidor Público. Aí eu já fiz concurso como endocrinologista. E onde realmente eu desenvolvi mesmo foi lá, apesar de eu não estar cercado. Era diferente, no Hospital das Clínicas eu estava cercado de gente altamente competente, no Hospital do Servidor não tinha comparação de nível entre aqueles que podiam me assessorar num lugar e no outro, mas eu aprendi muito mais endocrinologia no Hospital do Servidor, porque no Hospital do Servidor eu senti que ou eu era eu mesmo e procurasse as coisas por mim... Eu senti que eu tinha que me educar já sem assessoria de gente superior, embora tivesse gente mais velha do que eu. Eu senti que eu precisava estudar cada vez mais. Eu tive um desenvolvimento muito grande lá.

 

P/1 – O que o senhor estudava exatamente? Quais doenças nessa área?

 

R – Nesta fase eu me interessava por tudo que era da endocrinologia, mas mais especificamente diabetes e, atualmente, o que mais especificamente eu estudo são lipídios. O colesterol (triglicérico?), as complicações das hiperlipidemias.

 

P/1 – O senhor poderia falar mais sobre isso? Os medicamentos usados pra cada situação, o que caracteriza cada situação dessas?

 

R – Tanto de diabetes quanto...?

 

P/1 – Sim.

 

R – Bom, então, falando em diabetes, vamos supor, de modo grosseiro, a gente tem dois tipos: o diabetes tipo I que é um diabético totalmente insulinodependente, se você deixar ele 48 horas sem insulina ele vai entrar em coma diabético, e tem o diabetes tipo II, é o diabetes que aparece no indivíduo depois dos quarenta anos, em geral são indivíduos obesos. Em geral, 80% dos diabéticos tipo II, quando é feito o diagnóstico da doença, são obesos. Quando é feito o diagnóstico da doença, embora hoje a coisa seja muito mais precoce, isso é interessante, muita gente fica sabendo que é diabético por acaso. Porque a assistência médica atual é muito mais difusa, quer dizer, todo mundo tem direito a algum lugar. E hoje o sujeito tem uma gripe, ele vai ao médico, o médico pede hemograma, glicemia, uréia, não sei o quê, e você é capaz de descobrir muito diabético precocemente também. Mas na época, não. Na época você já fazia diagnóstico de diabetes com complicações da doença, com doença de retina, doença renal. Então, o tratamento do diabético tipo I é essencialmente insulina. E, sem dúvida nenhuma, teve um grande impulso nos últimos anos com as novas insulinas, porque na época que eu comecei a insulina que nós usávamos era a insulina de boi. A insulina de boi, embora fosse uma insulina muito boa, quando ela dava alergia você não tinha como resolver. Ela dava alergia... Felizmente não era frequente, ou às vezes dava resistência imunológica. A gente precisava fazer um tratamento imunológico no doente; tinha que dar corticoide, durante uma fase piorava. Depois, mais moderna, apareceu a insulina de porco. A insulina de porco era muito menos anti-higiênica do que a do boi, porque, por mais que a gente não queira, a insulina de porco é a mais parecida com a humana, só tem diferença de um aminoácido. Então, a situação para o homem que tomava insulina e passou a tomar insulina de porco... A primeira insulina de porco que eu vi... Eu vi inclusive da Lilly uma; isso antes de ser comercializada. A gente usava só de modo experimental, era da Lilly. A primeira insulina que eu conheci de porco aqui no Brasil era dinamarquesa, era da Novo [Novo Nordisk]. Era a ______, que era uma insulina mais purificada, monocomponente. E mais tarde se percebeu que se podia, a partir dessa insulina de porco... Era como se a gente pegasse... Se a gente comparar a insulina de porco com a humana, o trem é inteirinho, só que a diferença é de um vagão. Os laboratórios começaram a perceber que se trocassem esse vagão por um outro ficava uma insulina humana, e começaram a produzir insulina humana. Lógico que a insulina humana ficou mais cara, mas trouxe grandes avanços. Hoje nós temos mais liberdade pra usar. E essa insulina humana não tem a anti-higienicidade grande. Você nota que não dá mais alergia, não tem resistência à insulina. Esses foram os progressos. O resto já existia. Existia a insulina de ação prolongada, média, rápida, como existe hoje. Mudou o jeito de tratar esse diabético tipo I. Antes a gente dava uma dose só de insulina; hoje nós usamos várias doses. No mínimo se usa uma dose de manhã e outra à tarde. Hoje nós combinamos insulinas. Então, nós combinamos insulina de ação lenta com insulina de ação rápida, tanto de manhã quanto de noite. Já existem as pré-misturas. Existem insulinas que são misturadas lenta com rápida. Tem umas que são 70-30, quer dizer: 70 % de lenta com 30% de rápida. Já tem a 80-20, já tem a 90-10. Quer dizer, tem uma série de combinações. Isso foi uma coisa muito boa. E na forma mudou, quer dizer, nós passamos a usar mais de uma dose, já tem gente usando várias doses. Tem o que também se chamava... A outra coisa que foi muito importante e que mudou a nossa vida de endocrinologista no tratamento do diabético, foram os aparelhinhos de fazer glicemia digital. Isso aqui mudou a nossa vida porque, antigamente, por mais avançado que fosse o hospital, por melhor que fosse o pronto socorro, a única coisa que eu tinha acesso e que eu podia fazer na hora as dosagens, e eram semi-quantitativas, eram os exames de urina. Sangue eu tinha que pedir para o laboratório, o laboratório colhia, demorava umas duas ou três horas pra ficar pronta a glicemia do doente. Então, se eu tinha que tomar uma decisão, eu tinha que esperar todo esse tempo. Hoje não, hoje eu vou lá no aparelhinho, não me importa que ele não seja exato, mas eu vou estar usando o mesmo aparelho para aquele doente, eu vou tratar muito mais rápido, a evolução do doente é muito melhor. E outra coisa que aconteceu foi o acesso do público às informações. O diabético hoje que vem pra gente já não é tão grave quanto o diabético que eu pegava no Hospital das Clínicas. No Hospital das Clínicas o diabético entrava extremamente desidratado e em coma. Esses comas que eu vi no Hospital das Clínicas hoje não se vê mais. Por quê? Porque o público era desavisado. Hoje tem na mídia falando de diabetes, cada um tem acesso, se fala sobre o assunto.

 

P/1 – Diabético o senhor está falando dos dois casos, tipo I e tipo II?

 

R – Os dois, os dois. É lógico... Agora, para o diabético tipo II, o que é fundamental é a dieta, porque ele é sempre um indivíduo obeso. Se ele fizer uma dieta que dê perda de peso, isso já é, por baixo, por baixo, 70% do tratamento. E depois as drogas orais. Eu não acho que na parte de droga oral teve um avanço tão grande, porque as drogas orais que nós usávamos na época eram a clorpropamida; o nome comercial é Diabinese.

 

P/1 – Isso em que época?

 

R – Isso daqui, olha, até vinte anos atrás, acho que até um pouquinho mais de vinte anos, era a droga mais usada o Diabinese. Mas aí se começou... É lógico, a própria indústria farmacêutica... Na indústria começou a aparecer... O Diabinese é uma droga de ação prolongada, é uma droga de metabolização hepática, é uma droga cujos metabólicos são eliminados na urina, ativos. Quer dizer, então, se começou a ver que dava muita hipoglicemia em idosos, dava muita hipoglicemia em indivíduos com insuficiência renal. E começaram, nessa fase, a aparecer drogas de ação curta e de metabolização hepática com os produtos, os metabólicos não ativos. Então, você podia usar. Primeiro, era ação mais rápida. Se o indivíduo tivesse algum problema de hipoglicemia, essa hipoglicemia era tratada mais rapidamente e era menos grave. A primeira delas que eu lembro foi a glibenclamida que é o ______. Mais tarde apareceram outras drogas, mas nenhuma novidade com relação a isso. Apareceram também outras drogas que não são essas que eu falei, são sulfas. Apareceram as biguanidas, mas as biguanidas ficaram afastadas do mercado por muito tempo, porque as biguanidas são de síntese europeia e demorou muito tempo pra entrar nos Estados Unidos. Mas começaram a aparecer uns trabalhos mostrando que dava acidose láctica, dava complicações. Atualmente tem uma outra, que é o metformin. É o... Glucoformin, é o nome comercial, e esse Glucoformin é desse laboratório brasileiro que faz insulina, Biobrás.

 

P/1 – As sulfas eram de laboratórios brasileiros também?

 

R – Não, nenhuma delas.

 

P/1 – Nenhuma delas? O senhor não tem ideia de quais laboratórios...?

 

R – Não. Mas, apesar dessa ser de laboratório brasileiro, não é de síntese nacional o metformin. O metformin é de síntese europeia. E o metformin começou a ser usado nos EUA, eu acredito, de uns dois anos pra cá. Nós usamos aqui há mais de dez. Metformin, sobre as outras drogas que nós vimos, as sulfas, tem uma vantagem para o diabético gordo, porque o diabético gordo, muitas vezes, já tem níveis de insulina que são altos; se a gente vai dar sulfa e aumenta, muitas vezes ele ganha peso, e o metformin ajuda a perder peso, essa aqui é uma grande vantagem. E mais recentemente entrou no mercado o Glucobay. O Glucobay eu ainda não tenho grande experiência, mas é uma droga de inibição enzimática que retarda a absorção intestinal de hidratos de carbono. Sob o ponto de vista teórico, é uma droga boa. É de uso recente, quer dizer, nós estamos usando essa droga aqui há uns seis, oito meses. Então, eu não posso, não tenho nenhum retorno pra poder falar com experiência própria. É previsto que ela tem como efeitos colaterais meteorismos, quer dizer, dá muitos gases no intestino, exatamente porque sobra hidrato de carbono pra ser trabalhado pela flora intestinal. Isso aqui dá gases. Sobre a parte benéfica eu não posso dizer, mas logicamente não é uma droga que vai ser de grande novidade. Ela é uma droga que tem um uso restrito: só pode ser usada pra diabéticos obesos, pode ser usada pra diabético leve como droga húmica. Na maioria das vezes a gente vai ter que usar como coadjuvante junto, ou com sulfa. Não como a metformina, não, mas com sulfa ou insulina. Ela pode ser usada pra diminuir as subidas da glicemia depois do almoço, depois do jantar.

 

P/1 – E os outros casos dentro da endocrinologia que o senhor disse?

 

R – Bom, dentro... É lógico que todo endocrinologista tem uma grande clínica de obesos, mas não é o nosso caso. Quer dizer, os nossos casos são mais de doenças mesmo. Em primeiro lugar são os diabéticos, em segundo lugar aparecem as doenças ______. As doenças tireoidianas nós temos os casos de hipertireoidismo, quer dizer, que a tireoide funciona demais; ou de hipotireoidismo. O hipotireoidismo hoje é tratado com muito mais facilidade que antigamente, porque eu sou de uma época em que a gente usava tireoide dissecada de boi, quer dizer, era um remédio mais grosseiro. Hoje nós usamos hormônios tireoidianos sintéticos com grande grau de pureza. E os controles são melhores, principalmente por causa da melhora do laboratório. O laboratório ______ trouxe um avanço muito grande dentro da endocrinologia. Hoje nós usamos até hormônios hipotalâmicos, nós injetamos hormônios hipotalâmicos. Mas na tireoide, as drogas mais comuns... Você gostaria de saber as drogas?

 

P/1 – Sim, eu gostaria de saber nomes.

 

R – Antigamente nós usávamos o prolóide, que era a tireóide dissecada, que já não existe mais no mercado. Depois apareceu o cynomel, que é triiodotironina. Mais tarde apareceram associações de drogas, como triiodotironina e tiroxina, que o nome comercial era Tyroplus. Tyroplus número um e três. O número três tinha o triplo da dosagem do número um. Tinha Tyroplus e Levoid. O Levoid e o Tyroplus eram semelhantes na composição. E só mais recentemente apareceu a tiroxina, que é uma forma de hormônio de ação mais lenta e mais prolongada; um misto de ação mais lenta e mais prolongada. E as drogas usadas hoje são o Puran T4 e o Tetróide, que nós usamos nacionais. E nós usamos muito também... Agora existe, principalmente esses importadores estão usando Synthroid. Eu não acho, quer dizer, vamos supor, vendem o Synthroid. Eu não acho que com vantagem sobre os nossos produtos, vantagem nenhuma. Mas sabe que hoje o médico também tem esse problema de marketing, então, é chique receitar... “Olha, eu vou te receitar uma droga estrangeira, que você vai mandar, vai buscar...”. Isso também é muito “engana-trouxa”. Mas disso daqui nós temos usado o Tetróide e o Puran T4, com total agrado, não tem nada que o Synthroid... O Synthroid tem a composição igual. A única diferença é que o Synthroid, esse importado, é mais subdividido. Mas isso aqui também não traz grandes problemas.

 

P/1 – A eficiência é a mesma?

 

R – Nenhum, nenhum problema. O hipertireoidismo, para o hipertireoidismo nós contamos com um arsenal terapêutico pequeno. Antigamente nós tínhamos o perclorato de potássio, mas é uma droga muito tóxica que parou de ser fabricada. Hoje nós contamos só com o Tapazol e o Propiltiouracil. São drogas muito bem difundidas aqui e dão resultado excelente. Mas o hipertireoidismo, dependendo da idade, nós contamos com uma outra forma terapêutica que é o iodo radioativo. O iodo radioativo é muito mais usado nos EUA do que entre nós. Nós usamos bastante, mas nós usamos mais para o doente hipertireoideo com mais de cinquenta anos. Nos doentes jovens nós fazemos primeiro um tratamento clínico, com droga Tapazol ou Propil, e só se a doença ______ nós damos o iodo radioativo. Por quê? Porque nós temos diferenças muito grandes com os americanos; primeiro o povo americano é mais instruído do que o nosso, e depois ele tem muito mais facilidade de acesso ao médico do que o nosso. E eu sei que quando eu dou o iodo radioativo, 10% dos doentes a tireoide entra em falência de cara, entra em hipotireoidismo. E se eu descuidar ele vai ter uma doença crônica grave, um hipotireoidismo que se não for tratado vai até o óbito. Quando eu dou iodo radioativo ou operava, hoje se opera muito pouco hipotireoideo, depois de dez anos, metade dos doentes estão com hipotireoidismo. Então, a gente tendo mais uma chance terapêutica, isso pode ser, às vezes, metade dos doentes que eu tratar com droga, a doença nunca mais vai voltar. Então, não é interessante a gente correr esse risco. Nos Estados Unidos é diferente, o indivíduo está muito mais ligado ao médico, as condições socioeconômicas do povo são diferentes das nossas; aqui o sujeito tem grande dificuldade de chegar ao médico. Então, o grande receio nosso é, às vezes, ter um doente que não vai ter acesso ao médico. Então, esse daqui... Hoje, mais frequentemente, também nós tratamos nódulos tireoidianos. Os nódulos tireoidianos, primeiro precisam ser investigados. A grande preocupação do nódulo é se ele era um nódulo frio, como era classificado antigamente. Hoje não importa mais isso. Era considerado nódulo frio um nódulo que não capta material radioativo. Então, se achava que uma boa parte dele podia ser câncer de tireoide. Hoje é quase... É procedimento obrigatório em nódulo de tireoide fazer biópsia. Uma punção desse nódulo. Então, é colocada uma agulha, aspirado o material e feito um anatomopatológico. Aí você examina essa lâmina e vê; se for câncer de tireoide é operado, é tirada a tireoide toda. Na grande maioria das vezes a evolução do doente é muito boa. E esse doente tem que ser tratado clinicamente; ele tem que receber hormônio tireoidiano pelo resto da vida, porque foi tirada a tireoide.

 

P/1 – E ele também recebe outros medicamentos além desse hormônio?

 

R – O hipotireoideo? Não necessariamente. Ele vai receber outros medicamentos se, quando foi feita a retirada da tireoide, foram lesadas as paratireoides, que são glândulas que produzem paratormônio e, quando retiradas, vão produzir um cálcio baixo no sangue, com fósforo alto. Então, o indivíduo tem tetania, começa a formigar, tem cãibras. Cãibra na verdade não é cãibra, é uma tetania. Então, ele precisa ser medicado com cálcio. A gente dá cálcio e vitamina D. E a vitamina D, hoje tem que dar uma forma mais ativa que é o Rocaltrol. O Rocaltrol já é uma forma ativa de vitamina D, que é muito usada também para indivíduos com insuficiência renal crônica, porque o renal crônico não consegue formar no rim a forma ativa, que é o 25 de hidróxido e vitamina B3. Então, esses... Além disso, nós temos casos, também entra com um contingente grande, mulheres que têm irregularidade menstrual, quer dizer, menstruam a cada dois, cada três ou quatro meses, são obesas, têm muito pêlo e são inférteis. Mas nós recebemos essas mulheres... Quando querem ter filhos procuram o ginecologista. Mas nós recebemos as mulheres com esse problema que são solteiras, nós recebemos por causa dos pêlos.

 

P/1 – E que hormônios agem nessa característica da doença?

 

R – O que elas têm, na maioria das vezes, é uma desregulação hipotalâmica com... Então, ao invés de elas terem uma secreção dos hormônios hipofisários cíclicos, como acontece na mulher, o hipotálamo delas não tem ciclicidade como acontece com a mulher nos períodos ovulatórios, e funcionam como um hipotálamo de homem. Então, o que acontece é que esse ovário estimulado constantemente de modo irregular vai formar pequenos cistos, e a parede desses cistos produz mais hormônio masculino. Com o tempo, ela vai ter mais quantidade de hormônio masculino. E daí esse hirsutismo, quer dizer, esse aumento de pêlos. É uma obesidade resistente. O tratamento aqui tem várias formas. Outras vezes esses ovários policísticos, esses pequenos cistos ovarianos... Isso aqui é chamado de síndrome do ovário policístico, não é uma doença. Então, às vezes, tem pessoas que têm um defeito de produção hormonal das suprarrenais. E tudo começa aqui. Então, essas suprarrenais produzem mais hormônio masculino do que deviam, esse hormônio masculino age no hipotálamo, o hipotálamo dessa mulher, por excesso de hormônio masculino, passa a se comportar, sob o ponto de vista de reprodução, como se fosse um hipotálamo masculino, e a sequência da doença é diferente. Agora, quando isso ocorre, então o tratamento é com corticoide. A gente dá corticoide. Quando não existe esse defeito de síntese adrenal, nós temos outras formas de tratamento. Uma delas, a forma mais simples, é de dar só progesterona durante um determinado número de dias do ciclo menstrual. Essa é a forma mais simples. Outras formas mais complexas, quer dizer, vamos supor, a gente usa antiandrógenos também. O antiandrógeno a gente usa, quer dizer, vamos supor, o exemplo de uma pílula anticoncepcional que também é usado pra essa finalidade é o Diane. O Diane é usado pra essa forma de tratamento. Isso aqui eu estou falando de um tratamento não na fase de reprodução. Outra droga usada que ela é sozinha é o Androcur. Androcur é usado, pode ser usado junto com uma pílula anticoncepcional. E o Diane já tem esse ciproterona que é o componente do Androcur. Outros, mas esses daqui são muito raros, quer dizer, já um deles que eu já citei é o hipoparatireoidismo, que a gente tem que dar cálcio e vitamina D. O hiperparatireoidismo, a paratireoide funciona demais; aí o cálcio no sangue sobe muito e isso pode dar convulsões e óbito. Então, a doença aqui é cirúrgica. Em geral é um tumor benigno de paratireoide que tem que ser operado...

 

P/1 – E não há medicamento para ela?

 

(PAUSA)

 

P/1 – O senhor estava falando...?

 

R – Existe o nanismo hipofisário. Hoje a gente consegue fazer diagnóstico, porque você dosa hormônio de crescimento, você estimula a secreção de hormônio de crescimento. E nesses casos você faz o tratamento com hormônio de crescimento. E a resposta, especificamente nesse nanismo, por falta de hormônio de crescimento, é uma resposta terapêutica muito boa. E hoje o hormônio de crescimento que nós temos é recombinante. Antigamente o hormônio de crescimento que nós tínhamos era extraído de hipófise de cadáver; isso aqui no meu tempo em que a gente fazia anatomia patológica: a gente guardava as hipófises dentro de potes de vidro, depois essas hipófises iam pra um laboratório mais ou menos experimental, era feito um macerado e era extraído o hormônio de crescimento dessas hipófises de cadáver. Existia, e ainda se fala, uma doença neurológica transmitida por esse sistema de produção hormonal.

 

P/1 – Qual doença?

 

R – ______. Então, era uma doença neurológica séria transmitida por essa via. Mas hoje não existe mais esse problema, porque os hormônios, tanto o hormônio de crescimento quanto a insulina, são produzidos por DNA recombinante, por ______, produzido em laboratório, não existe mais nenhum, não existe mais esse risco. E hoje se conta o hormônio de crescimento em escala comercial. Então, a gente pode tratar. E o que tem boa resposta com o hormônio de crescimento são os nanismos. Quer dizer, falta de hormônio de crescimento ou a Síndrome de Turner, que é uma baixa estatura, mas é uma doença genética, porque falta um cromossomo sexual. ______ com 46 cromossomos xx, tem 46 x0. Então, falta um cromossomo. Nesses casos o crescimento é melhorado também com hormônio de crescimento. Mas hoje está se começando também a usar, eu vou citar, mas eu não aprovo, o uso de hormônio de crescimento para crianças normais de baixas estaturas, quer dizer, crianças que são normais, mas os pais acham que o filho está baixinho, tá cheio de gente usando.

 

P/1 – Que tipo, que produto é?

 

R – É o hormônio de crescimento, é o próprio hormônio de crescimento injetado. Quer dizer, começa, o tratamento todo é caro. Se a gente usar durante o tempo necessário é coisa de vinte, trinta mil dólares.

 

P/1 – Quais os laboratórios que produzem esse hormônio?

 

R – Um dos produtos é o (Sizer?). Eu não me lembro qual é o laboratório. O outro... Eu não me lembro... Bom, isso aqui com relação a hormônio de crescimento, mas tem outros... O tumor mais frequente de hipófise, que pra sorte é um microtumor e hoje não está indicado cirurgia, se indica só o tratamento clínico, são os prolactinomas. Então, as mulheres com esse problema, o homem também pode ter, mas é raro, na mulher ele é muito mais frequente, principalmente depois do advento da pílula anticoncepcional. Começaram, não sei se foi por causa da pílula ou se começou a dosar, pelo fato de a gente dosar prolactina, nós estamos achando mais, só mulheres que fora do período de amamentação têm lactação, têm parada de menstruação. Nós fazemos dosagem de prolactina, a prolactina está alta. E o produto específico pra isso é a ______, quer dizer, o nome comercial é o Parlodel ou (Baglen?). Parlodel eu não lembro o laboratório, nem do (Baglen?). Então, isso aqui é usado e com ótimos resultados. As mulheres tomam, voltam a menstruar, para a lactação, engravidam. Isso é espetacular nesse sentido.

 

P/1 – Bom...

 

R – Tem outras coisas, por exemplo, suprarrenal é raro. Quer dizer, insuficiência suprarrenal... É usado pra insuficiência suprarrenal o corticoide, principalmente o Meticorten, o Decadron e 9-alfa-fluor, que é o flúor em neve, quer dizer, isto aqui ainda é um produto comercializado no Brasil, mas ou é importado com o próprio nome de flúor em neve ou existem essas farmácias de manipulação que fazem o produto.

 

P/1 – Doutor Bernardo, eu gostaria de perguntar: o senhor mudaria alguma coisa na sua vida hoje? O que o senhor espera ainda?

 

R – Olha, profissionalmente, não. Profissionalmente eu acho que não só isso, a profissão, para mim, como você viu, foi escolhida por acaso, mas me deu muita coisa. Quer dizer, primeiro eu acho que o médico... Eu até hoje tenho residentes que estão aprendendo comigo especialidades. Isso aqui eu venho fazendo há mais de trinta anos. E quando a turma se queixa, eu falo: “Nós temos ainda o privilégio, porque, para nós, a medicina é o divã do psicanalista”. Nada mostra tanto para o homem quanto a medicina. Para quem gosta do contato humano, você aprende mais com o doente do que o doente lucra com você. É um ganho humano fora do comum. Você ouve coisas que só o médico pode ouvir. Todos os dias você ouve coisas que você não imaginava nem que existia, sob o ponto de vista humano, sob o ponto de vista humanitário. Então, isto aqui eu não mudaria não. Eu acho que a medicina – e eu entrei na faculdade de medicina com 21 anos – trouxe um engrandecimento pessoal tal que eu não teria em nenhuma outra profissão. Em todos os níveis. Agora, eu tenho planos futuros. Quer dizer, vamos supor, a minha filha vive num kibutz em Israel. Eu vi, eu estive lá em 1993, ela casou agora em agosto do ano passado e eu devo voltar agora porque eu vou ficar avô. Mas ela mora nesse kibutz e trabalha fora porque é profissional liberal, quer dizer, ela é arquiteta, formou aqui na USP [Universidade de São Paulo], na FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo]. Mas eu vi a convivência. É o sistema ideal quando não existe corrupção. Então, você fica imaginando... E aconteceu uma coisa interessantíssima: eu estive lá... Quando a minha mãe... Depois de a minha mãe vir aqui para o Brasil, uma prima dela, que está viva até hoje, morando num kibutz, essa senhora hoje está com 84 anos, na primeira vez que eu fui lá, em 1993... E ela tinha formação socialista e foi embora, foi pra Israel no tempo em que Israel não era Israel, era Palestina, um domínio inglês, ela foi lá pra construir uma pátria, e essa mulher me chamou e falou: “Olha, ouça uma coisa, você viu cair o muro de Berlim, acabou a União Soviética, você tem impressão que o socialismo fracassou, mas o socialismo não fracassou, o que fracassou foi a ditadura”. Então, o meu ideal futuro, quer dizer, se os meus filhos –eu tenho mais três filhos além dessa filha – quiserem um dia viver nesse sistema... Logicamente que esse sistema não é difuso em todo o país, lá convive o sistema capitalista com esse sistema, o mais puro socialista. Por exemplo: minha filha é arquiteta, trabalha num escritório de arquitetura, mas ela não vê nem a cor do holerite; o holerite dela vai direto para o kibutz. Mas um dia a minha filha balançou um pouco: “Olha, pai...”. Eu disse: “Dá uma olhada no seguinte: aquele fulano que é o chefe da indústria – porque lá tem indústrias grandes dentro do kibutz –, aquele fulano que é o diretor da indústria, lá no Brasil esse homem era um homem pra ganhar no mínimo, por baixo, dez mil reais por mês, e ele recebe igualzinho ao jardineiro e à cozinheira”. Mas só que o que acontece é o seguinte: quatro horas da tarde o homem para de trabalhar e a turma se encontra, se encontra a cozinheira, a faxineira e o grande mestre da fábrica, eles se encontram e conversam de igual pra igual à beira da piscina. Eles se conversam de igual pra igual porque não é uma... Aqui, não, aqui é falso quando você chega e conversa de igual pra igual com o pedreiro; ele sabe que ele não é igual, ele sabe que ele está inferiorizado socialmente, que os filhos dele nunca vão atingir nada. Os filhos daquele, sim, porque o filho daquele fulano que é o grande mestre da fábrica vai ter o estudo gratuito até o final do colegial e o filho da cozinheira, igualzinho. Então, esse daqui é o ideal. Agora, eu não sei nem se esse ideal vai sobreviver lá.

 

P/1 – Doutor Bernardo, eu gostaria muito de agradecer pela sua entrevista, foi muito importante para nós, e encerramos aqui.

 

R – Eu espero ter dado informações...

 

P/1 – Com certeza, foi muito importante.

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