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Pescando um futuro melhor

História de: René Schärer
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/07/2005

Sinopse

René Schärer nasceu na Suiça em 1941, durante a Primeira Guerra Mundial, sua lembrança dos refugiados da guerra se deu pelo olhar inocente de uma criança, que desconhecia a proporção do que de fato acontecia. Sua carreira começa aos 20 anos em uma empresa de aviação civil, durante sua trajetória na empresa, mora em diversos países até ser transferido para o Brasil em 1981. René criou um vículo com o país e em uma de suas viagens pelo Brasil, se deparou com a seca do Ceará. Ele mobilizou uma campanha na intenção de arrecadar recursos para ajudar a comunidade de Pitombeira que sofria com a seca. A partir desse primeiro contato com campanhas sociais, soube que gostaria de retribuir a sociedade aquilo que havia conquistado. É então, que em uma viagem a pequena comunidade de pescadores, Prainha do Canto Verde, René se evolve com as problemáticas da comunidade e pode desenvolver o trabalho de empreendedor social. Seu objetivo é grandioso, contribuir para que a pesca artesanal seja reconhecida, como fator importante não só de geração de emprego, mas também pelo impacto social, a partir da exploração racional e sustentável dos recursos do mar.

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História completa

P – Então, começar nossa entrevista?

R – Hum, hum.

P – Vou pedir para o senhor falar de novo: nome completo, local e a data de nascimento.

R – Ok. Bom, meu nome é René Schärer, eu nasci em Berna, na Suíça. Em 1941, durante a Primeira Guerra Mundial.

P – Ah. E assim, o que é que o senhor lembra como marcante da infância do senhor?

R – Olha, tem uma lembrança interessante, porque era no final da guerra, eu estava com quatro anos, quatro ou cinco anos. E a gente costumava brincar, os meninos brincavam na escola. Mesmo eu nas férias, porque lá tinha campo de futebol, a gente brincava lá. Mas aí num dia chegamos lá e lá tinha um caminhão enorme. E aí chegavam pessoas, muitas pessoas, sujas, mal vestidas. E eles entravam num lado desse caminhão e do outro lado eles saíam era tudo limpo: lavado, com roupa nova. E a gente achava aquilo engraçado. Esse caminhão aqui lava gente. (riso) A gente não se dava conta que eram refugiados da guerra que foram acolhidos lá no campo. E receberam roupa nova e exame médico, etc. Mas talvez nessa questão a gente lembra um pouco da guerra. Lembra assim, às vezes, da noite que se acordava com alarme de antiaéreo, porque quando tem algum avião sobrevoando a Suíça, etc... Mas não se dava conta assim da gravidade. Achava engraçado. O pessoal ia entrando sujo e saia limpo do outro lado.

P – Como se fosse uma maquininha. (riso) E me fala uma coisa, na infância do senhor quem é que é a figura marcante? Tem alguma pessoa que marcou, professor, ou alguém assim, pai ou a mãe do senhor?

R – Eu acho assim mais que me marcou e talvez eu estou aqui, fazendo hoje o que eu estou fazendo, tem muito a ver com a minha mãe. A nossa família era pobre, hoje o pessoal acha: “Não, a Suíça todo mundo é rico.” Mas na época a Suíça não era um país rico. Então a gente estava passando dificuldades, pai estava desempregado. Mas a mãe era uma pessoa muito, muito sensível. Muito sensível pelas injustiças, também pelas... com as pessoas ou com os animais, os bichos. Então meu pai era mais... como ele tinha passado dificuldade, desempregado durante a guerra, estava na fronteira da Suíça. Então ele era mais a pessoa que estava, queria avançar, né? Queria ter uma vida melhor e não estava tão preocupado com as injustiças, etc. Então isso realmente me marcou. Acho que a minha mãe sempre deixou, deixa uma marca muito profunda. E tinha essa questão de sempre se preocupar com as outras pessoas e com a natureza. Então vem muito da minha mãe. Fora disso realmente os professores não deixaram uma marca muito importante, também porque eu não era muito ligado à escola. Eu não estava, preferia jogar o futebol do que ir para a escola. (riso) E não era muito estudioso. Também por isso eu não fui, a minha educação era o primeiro grau. E só mais tarde quando cresci, aí que comecei a ser um pouco mais sério.

P – (riso) Qual o  nome dos seus pais para a gente estar registrando?

R – A minha mãe, o nome dela é Margareth e o meu pai é Walter.

P – Certo.

R – E os dois já faleceram. A minha mãe faleceu, realmente um pouco por tristeza. Eu acho que ela sofreu muito. Ela nunca se recuperou dessa, dessa pobreza. Até quando a coisa já estava melhorando, ela ainda se sentia assim muito pobre, muito, estava com medo que um dia ia chegar a penhorar as coisas em casa. Então ela começou a ser depressiva e morreu jovem.

P – Ai. E o senhor tem irmãos?

R – Tenho uma irmã que mora na Suíça, que é cinco anos mais velha do que eu.

P – E como que o senhor veio ao Brasil? O que é que te trouxe ao Brasil?

R – Bom, aí é um caminho muito complicado.

P – É. (risos)

R – Quando terminou a escola na Suíça, eu fiz uma aprendizagem profissionalizante na área de comércio. E depois, sempre na Suíça você costuma da parte alemã, e então você passa um ano na parte francesa, para aprender o idioma. A Suíça tem quatro idiomas oficiais. Então você costuma pelo menos aprender mais um idioma. E depois pouco, com 20 anos, eu entrei na SwissAir, que era a empresa de aviação civil da Suíça. E realmente de anos, começou nos anos 1960 e só terminou em 1992, essa carreira na SwissAir. E eu, depois em 1964, eu saí da Suíça, eu fui transferido para Nova Iorque. A gente queria sair da Suíça, era muito pequeno. E, claro, os Estados Unidos era uma grande atração. Aí eu fui para os Estados Unidos e de lá comecei a criar juízo, né? Ganhar juízo, achar importante de que trabalhar era uma atividade muito, muito interessante. A aviação estava começando, os primeiros jatos, avião a jato, era nessa época. Então era uma indústria que crescia de uma forma muito dinâmica e era muito interessante. E de Nova Iorque, eu passei três anos em Nova Iorque. Depois, eu mudei para Boston e lá passei cinco anos. E de lá, voltei para a Europa, já para a Itália. Bom, em Boston minha filha nasceu, Michele. Em 1969, lá eu tinha casado com uma menina de Porto Rico. Aí, eu muito internacional.

P – (risos)

R – Mas aí, fui para a Itália e da Itália depois - já como diretor comercial da empresa, para a Itália. E depois de lá, fui transferido para Madrid, na Espanha. Aí comecei subir, subir, a carreira profissional. E em 1981 eu fui para São Paulo e assumi a Diretoria da SwissAir para o sul do Brasil. Então esse foi o meu primeiro encontro com o Brasil e lá passei uns quase 4 anos, nesse posto de carreira. E aí que eu comecei a conhecer o Brasil todo. A Amazônia, o Pantanal, o sul do Brasil, o norte. Aí que se criou, assim, primeiro laço, né, laço afetivo com o Brasil, realmente. E também a primeira, talvez as duas primeiras experiências com o outro lado da vida. Já estava morando nos aviões, nos hotéis cinco estrelas. Lá em São Paulo eu tinha um carro com motorista, muita mordomia. Mas aí foi bom que eu encontrei, a primeira vez que eu encontro com as favelas. Ver como estava....

P – Em São Paulo mesmo?

R – Em São Paulo e também no Chile. Eu tinha família no Chile que eu ajudava, na época. E depois em 1982, eu visitei o Ceará. Esse foi uma das grandes secas no Ceará e eu realmente queria ver como que era essa seca. Eu conheci a seca do Ceará e realmente isso mudou, eu acho que deixou um impacto muito grande.

P – Como que o senhor fez para conhecer o Ceará no meio dessa seca? Pintou umas férias? O que é que o senhor...

R – É, foi. Não, uma semana que tirei de férias. Peguei um avião, fui para Fortaleza e eu tinha alguns contatos com uma organização da sociedade civil. Inclusive o Fundo Cristão para Criança, que trabalhava com esses programas de apadrinhamento. Então, era um programa de assistência social. Então com eles eu comecei a aprender como funcionava esse... esses programas, projetos para sobretudo com criança. E também, eles já começaram a trabalhar com desenvolvimento comunitário. Então foi assim, a primeira, uma aprendizagem de graça, ao mesmo tempo, vendo esse impacto da seca. E realmente, deixa uma marca. E ao voltar a São Paulo, eu consegui mobilizar os meus funcionários lá em São Paulo – primeiro na SwissAir – para a gente fazer uma campanha de arrecadar recursos para ajudar uma comunidade no Ceará. E essa campanha até pegou, assim, contagiou as outras companhias aéreas em São Paulo. E foi uma campanha muito bonita. A gente achou que uma comunidade nesses tempos muito, muito difícil.

P – Foi uma das primeiras percepções do senhor da questão social assim?

R – Isso.

P – Ou teve alguma outra...

R – Isso, foi a primeira vez que eu tomei alguma atitude assim. E então, e foi bom porque como foi uma atitude positiva, com uma resposta positiva de muita gente que ajudou na  campanha. Então claro, esse foi um passo importante, eu acho, para o futuro.

P – E o que é que aconteceu nesse ponto? Porque vocês fizeram essa campanha, né...

R – Isso.

P – E depois, o que é que aconteceu?

R – Bom, aí a gente ajudou essa comunidade com um programa de merenda para as crianças. E no final, aí quando a seca já estava acabando, quando começou a chover, o dinheiro que ainda tinha lá na conta, compramos umas canoas. Com as canoas eles começaram a pescar nas lagoas, nas paragens. Aí a coisa melhorou. E a comunidade, como chama? Pitombeira, a partir dessa experiência eles também se organizaram e hoje é uma comunidade bem organizada. Depois, uns vinte anos mais tarde, eu voltei lá para conhecer, para ver o que é que, como tinha sido a comunidade. E eles estão bem organizados.

P – Agora, me fala uma coisa: começou com a campanha, tudo. Quando que isso virou um projeto de vida? O que é que você montou, uma organização? O que é que aconteceu?

R – Na época, eu já assim, tinha pensado muito sobre, né? A gente chega um momento que começa a dizer: “O sentido da vida. O que é que eu vou fazer? O que é que eu vou fazer com a minha vida?” E realmente já tinha chegado à conclusão que eu queria um dia, eu não queria trabalhar até chegar a aposentadoria e ficar velho sem fazer alguma coisa nova. Então já tinha decidido que algum dia, se pudesse permitir do ponto de vista financeiro que eu queria fazer alguma outra, alguma coisa diferente. Ter um objetivo diferente. Não para ganhar dinheiro ou para acumular dinheiro, mas para devolver alguma coisa do que eu tinha. Eu achava que eu tinha sido muito privilegiado, de sair de uma família pobre, ter todas as oportunidades. Ter, né, que muitas outras crianças não tiveram. Só porque nasceram no lugar diferente, no momento errado. Então essa idéia sempre estava. Mas eu não fixei assim o que é que eu ia fazer. Eu só disse: “Não, quando chegar o momento eu vou fazer.” Mas estava bastante decidido que queria voltar para o Brasil. Em 1984, eu fui transferido pela empresa para a Espanha. Voltei para a Espanha como diretor, mas já com essa idéia de manter os laços com o Brasil. Manter também a minha permanência no Brasil para poder voltar algum dia no futuro. Assim, eu sempre passando as férias no Brasil. E então, e em uma dessas viagens, em uma dessas férias eu conheci a comunidade onde eu hoje moro. A pequena comunidade de mil habitantes, chama Prainha do Canto Verde. E é uma comunidade de pescadores. Pescadores artesanais, que nessa minha primeira visita, que foi 1987, praticamente era uma comunidade totalmente esquecida. Ela não tinha movimento, não tinha ninguém de fora. Os políticos tinham, bastante, abandonado essa comunidade. E os pescadores estavam sendo explorados pelos atravessadores. Então a comunidade realmente estava totalmente subdesenvolvida. E depois de uma, duas visitas lá, aí eu comecei a pensar: “Bom, já que você quer fazer alguma coisa diferente então talvez seria uma oportunidade.” E aí, já você se envolve com a comunidade. De repente leva uma mulher para o hospital para ganhar nenê ou algum outro problema que acontece. E a comunidade nessa época estava se organizando, estava criando uma associação dos moradores, porque eles sofriam uma agressão de uns grileiros que queriam se apropriar da terra. Porque de fato já tinham feito usucapião da terra da comunidade. E a comunidade estava se defendendo na justiça contra essa especulação. Então por isso, a comunidade estava praticamente, se viu obrigada de organizar e de tentar lutar para manter o direito da moradia. E então esse foi um pressuposto muito bom. Porque tendo um parceiro com quem conversar, e conversar, trocar idéias a gente viu que precisava, precisava. Tinha vontade na comunidade de um grupo que queria melhorar, que queria mudar. E então, se podia pensar em fazer um projeto. Então, em 1990 nós resolvemos que a primeira, o primeiro trabalho para se fazer, era controlar a comercialização do pescado. Porque com esses atravessadores, os pescadores pescavam, pescavam, pescavam e nunca ficou nada. Eles sempre ficaram devendo o atravessador. E a gente achou que seria fácil de resolver. Era só, precisava de uma infraestrutura, precisava um transporte, uma caminhonete para, e um pouco de capital de giro. E uma pessoa para administrar a compra de peixe. Então esse foi o primeiro projeto, a gente fez junto. Aí eu me comprometi com a comunidade que se eles estavam dispostos a trabalhar eu ia ver se eu conseguia arrecadar o dinheiro para financiar esse projeto.

P – O senhor já estava morando ali?

R – Não, não. Aí eu estava morando em Atlanta, nos Estados Unidos. Ainda na SwissAir. Aí quando nós decidimos tomar essa decisão, depois quando eu procurei os meus amigos no mundo inteiro. Na Suíça, no Brasil, no mundo inteiro procurando ajuda, procurando recursos para financiar esse projeto. E isso não foi muito difícil, realmente.

P – Não?

R – Tenho muitos amigos. (riso) Então muita gente ajudou, e aí em 1992 eu pedi as contas na empresa e eu fui morar lá. Aí começou a segunda vida.

P – A segunda etapa, né? E me fala uma coisa, seu René: como é que foi a recepção da comunidade assim? O senhor veio de fora, estrangeiro. Como é que se deu essa?

R – Bom, foi uma coisa que assim, não foi de um momento ou outro, entendeu? As primeiras vezes que eu passei lá, era realmente só para passar as férias lá. E pouco a pouco a gente vai se conhecendo. Eu acho que as pessoas estavam vendo que eu era sincero. E então, já existia assim um laço. Um laço de amizade, de confiança. Não é que eu cheguei lá dizendo: “Bom, vamos mudar o mundo.” Essa foi uma coisa assim que realmente evoluiu. Então não tinha, claro que tinham pessoas na comunidade que na época tinham a situação de liderança, mas não liderança no sentido positivo, que dominava certas coisas ali. Esse atravessador da pesca, por exemplo. Outras pessoas, que os representantes dos políticos, etc… esses tinham poder na comunidade. E com a minha vinda, com esse primeiro projeto então quem... Houve uma mudança do poder na comunidade: dos caciques para a associação dos moradores. Então foi uma mudança importante. Porque, de repente, aí eram pessoas que estavam com o interesse de melhorar a qualidade de vida da comunidade, dos moradores, que estavam lutando contra essa ocupação especuladora da imobiliária. Então essa foi uma mudança importante. E as falsas lideranças, realmente, não tinham como opor. Eles tinham que aceitar, realmente. E, bom, participar do jogo.

P – E nessa época o senhor já se via assim como um empreendedor social?

R – Bom, eu não conhecia a expressão, né? Mas realmente eu sempre, com a minha experiência de empresário… então quando eu analisava os problemas, eu analisava como fazia isso na empresa. Então era realmente, eu era um empresário social sem saber. Sem saber que era. Mas então, também eu vi que tudo que eu tinha aprendido nesses trinta e um anos de carreira profissional, tudo estava servindo. A questão de trabalhar em grupos, de delegar para as pessoas. A questão de comunicar, de divulgar, né, os resultados. E tudo isso ajudou na hora, na gestão dos projetos. E era interessante para passar essas experiências. Um capital de conhecimento para a comunidade local.

P – E hoje o senhor continua na comunidade ali, trabalhando.

R – É. Então, aí depois quando nós começamos em 1992 essa experiência, a primeira positiva. Só que, a cada vez que você resolvia um problema, aparecia outro. Aí tinha a pesca, esses problemas da terra. Especulação imobiliária. Depois tinha a pesca predatória, que é um problema seriíssimo. A pesca da lagosta que é um recurso de muito valor. Mas a cada ano que nós conseguimos melhorar a renda, porque nós tiramos o atravessador, mas ao mesmo tempo pela sobrepesca, pela pesca irresponsável a captura estava cada vez diminuindo, né?

P – Hum, hum.

R – Então, aí tinha que combater essa pesca predatória. E a gente começou a tentar trabalhar com o governo para fazer um ordenamento da pesca. Para que a pesca não acabasse, etc. Então logo, logo a gente viu que esse era um problema que não se resolvia na comunidade. Já precisava juntar, levar os pescadores para dizer: “Agora você tem que chamar os outros pescadores, das outras comunidades.” E isso levou, em 1993, nós fizemos lá uma dessas iniciativas espontâneas. Nós resolvemos, para chamar a atenção da opinião pública, o governo e tudo sobre esse problema, nós organizamos uma viagem de protesto.

(pausa)

P – E senhor estava falando como isso foi criado para outras comunidades.

R – Isso. Então aí, a gente organizou, uma viagem de protesto contra todos esses problemas. E contra a falta de providência do governo, contra a pesca predatória, contra a especulação imobiliária. O momento na época: se estava começando a desenvolver o turismo de massa, com grandes intervenções do governo, com o Banco Interamericano de Desenvolvimento. E então a gente já com aliados, com jovens estudantes, professores das universidades lá de Fortaleza, a gente achou que precisava fazer alguma coisa para alertar a sociedade sobre esses problemas. Então a idéia foi de levar uma jangada com quatro pescadores. Saíram no dia 4 de abril de 1993 pelo mar, até o Rio de Janeiro. E por terra tinham duas mulheres da comunidade. Uma da comunidade que era a presidente da associação dos moradores, e a minha filha, a Michele, que tinha se juntado a mim lá para ajudar no projeto. Então as duas acompanhavam essa viagem por terra, com um carro, no meu carro. Levaram o meu carro e foram embora. E essa foi uma ação com vários parceiros, várias organizações não governamentais. A Universidade Federal do Ceará, os pesquisadores de pesca apoiavam essa campanha, porque eles também estavam, achavam que precisava fazer alguma coisa. Então essa viagem demorou setenta e quatro dias para chegar no Rio, em junho de 1993. E realmente chamou muita atenção. Na imprensa no Brasil, na televisão, até no exterior. E durante a viagem então, nós elaboramos vários seminários sobre esses temas do protesto. E elaboramos soluções, propostas para resolver esses problemas. Propostas para políticas públicas para ordenamento da pesca. Propostas para um modelo diferente de desenvolvimento do turismo. Medidas contra a especulação imobiliária, que estava afetando muitas comunidades. E continua afetando muitas comunidades do litoral, que era um alvo fácil para os especuladores que se apropriaram das terras de forma ilegal. E o que o efeito, o primeiro efeito disso, foi realmente que começou a criar uma aliança entre as comunidades de pescadores. O segundo foi esse, que eu acho, até hoje nós temos essa parceria entre pescadores, as comunidades, e pesquisadores da pesca e pesquisadores da Geografia, por exemplo. Então, viraram parceiros de luta contra esses modelos insustentáveis de desenvolvimento no estado do Ceará. Não deu uma resposta muito, muito boa do governo. O governo não gostou. Mas ao mesmo tempo nós, como resultado da viagem então, criamos o Instituto Terramar, uma ONG que hoje é - tem doze anos - e é considerado a maior Ong que trabalha com a questão do desenvolvimento sustentável na zona costeira do Brasil. Então, aí vem o trabalho das organizações da sociedade civil, vem as comunidades começar a se fortalecer. Aí se começa a trabalhar a questão da educação na comunidade, mas também entre as lideranças das comunidades do Ceará todo. Durante 3 anos, esse foi um projeto com o apoio da Fundação Abin, então nós capacitamos, formamos mais de cem líderes das comunidades do litoral do Ceará, onde nasceu o Fórum dos Pescadores e das Pescadores, porque trabalhou a questão do gênero também. Então hoje, toda nessa discussão das políticas públicas, então os pescadores têm o seu lugar. Que há 15 anos os pescadores não tinham nem voz, nem sabiam que estava sendo discutido. Então essas mudanças, realmente, fazem parte de um trabalho de conscientização dos próprios pescadores de aprender, de ser mais responsável na pesca. E aí, a primeira vez se começou a discutir modelos de desenvolvimento de um turismo alternativo. Então, nós começamos em 1998 a desenvolver um projeto de turismo comunitário. Então, na comunidade da Prainha do Canto Verde, hoje você vai visitar, você vai se hospedar na pousada domiciliar da dona Mirtes, ou na Pousada Sol e Mar. Você vai comer no restaurante O Navegador. Você vai fazer as trilhas nas dunas com os jovens condutores de trilhas da comunidade. Você vai comprar o artesanato que está sendo produzido na comunidade. E todo isso acontece em uma forma de uma cooperativa.

P – Ah.

R – Então, tem setenta pessoas que fazem parte. Todos que prestam algum tipo de serviço para turistas, então se juntam nessa cooperativa e desenvolvem um novo modelo de turismo. E que já está sendo replicado em outras comunidades.

P – Ah, fantástico. Deixa eu perguntar, depois eu quero voltar à essa questão do turismo. Mas que é que foi assim imprescindível para a implantação desse projeto, desse trabalho com as comunidades de pescadores? O que é que foi imprescindível assim? Que é que o senhor acha que não podia deixar de...

R – Bom, eu acho que foram três coisas. Primeiro, foi a própria comunidade. Sem a comunidade, sem esse grupo que não era a maioria. Nunca é a maioria da comunidade que trabalha, que luta, que quer mudar as coisas. É uma minoria, mas uma minoria engajada. Então sem esse grupo nada teria mudado. E também foi esse grupo que muito antes de eu chegar lá tinha a própria, arriscado a sua vida, lutando contra a especulação imobiliária. O segundo foram esses parceiros, que com essa viagem de protesto, com essas, né? Que tem um alô muito grande no meio universitário, etc. Nós conseguimos toda essa turma jovem e através da criação do Instituto Terramar, então primeiro você tinha um instrumento para trabalhar para passar pelas comunidades e mobilizar. E o terceiro foram os meus amigos no mundo inteiro, que hoje são conhecidos como os Amigos da Prainha do Canto Verde, é uma associação filantrópica. Hoje registrada na Suíça.

P – Ah, é?

R – Então que durante esse tempo vem financiando essas experiências, esses projetos. E hoje embora ainda tenha o nome Prainha do Canto Verde, mas hoje financia projetos em outras comunidades do Ceará. Então virou uma financiadora de projetos para o desenvolvimento sustentável do Ceará.

P – Tá. Da trajetória do senhor, que momento que o senhor começa a se ver como empreendedor social?

R – Bom, eu acho que a partir do momento que, eu acho que 1994, foi que o Stephan Schmidheiny criou a Fundação Avina. Que tinha esse mesmo conceito que a Ashoka tem, da parceria entre a sociedade civil e os empresários. A questão da responsabilidade social e empresarial etc. Então eu acho, a partir desse momento, como eu estava trabalhando com a comunidade, formando, empoderando os líderes local. Ao mesmo tempo arrecadando dinheiro. Então realmente me senti como empresário social. (riso)

P – E quais são as características de um empreendedor social?

R – Bom, eu acho que é uma pessoa, que tem uma visão, que sabe o que está errado com o mundo. E que quer mudar, que assume isso como uma missão da vida. Ele não é que: “Não, eu vou fazer alguma coisa para...” Não, para mim isso virou a ser a razão de ser da minha vida. Então você assume risco, você assume riscos. Tenta de calcular os riscos mas nem sempre consegue. Aí você tem que, obviamente, trabalhar com a comunidade. Você não pode ir na frente da comunidade, senão você vai perder ela. Então você tem que dividir, não ser quem manda na comunidade, mas quem facilita. Aí você usa a sua criatividade, você usa seu poder de divulgação, de motivar as pessoas. Tudo que você faz em uma empresa. E ao contrário dos empresários da pesca, então você tem uma visão a longo prazo, dez anos. Eu hoje sei como a pesca artesanal deveria ser daqui a 10 anos. Ou realmente, pelo menos sei onde que a gente quer chegar.

P – Quais são hoje os principais desafios da Terramar?

R – Bom, eu acho que um é consolidar experiências positivas, e replicar essas experiências em outras comunidades. Dois, partir de um trabalho de formação e de um trabalho de conscientização de educação ambiental. Agora, para o desenvolvimento econômico local. Porque a um certo ponto você pode falar muito sobre como o mundo deveria ser, mas chega um ponto que você tem que mostrar resultados. Então você tem que pensar quais são as atividades econômicas, no caso do litoral do Ceará, que possam complementar a pesca. A gente sabe que sem a pesca as comunidades vão desaparecer. Então a pesca é fundamental. Mas para a sustentabilidade, nós precisamos desenvolver então esse tipo turismo comunitário, a arte, a cultura, o artesanato, como uma fonte de valorização do próprio ser, do próprio passado. Mas também como a geração de renda, você vai trabalhar com a agricultura, agroecologia. Hoje, nós temos parceria com outros fellows implantando um modelo de agricultura ecológica. De novo como alimentos, mas também para comercializar e melhorar a alimentação da comunidade, da escola. Aí você hoje sabe, que você tem que abrir o mundo. Os jovens querem ver o mundo mas eles não necessariamente querem ir para Fortaleza para morar em uma favela. Eles querem ficar na comunidade. Mas aí você tem que introduzir o que tem de moderno, o que tem de tecnologia. A comunicação, a internet, a informática. Então tudo isso, para você criar uma qualidade de vida que possa permitir aos jovens de continuar morando na comunidade. Ou máximo sair da comunidade para melhorar. E talvez um dia voltar para trazer essas experiências para a comunidade.

P – Qual que é o sonho do senhor, assim, para realizar ainda?

R – Bom, ainda tem muitos sonhos. Realmente o sonho, talvez nem tanto o sonho, é um, é uma... é o objetivo. O objetivo é contribuir para que a pesca artesanal seja reconhecida como um fator importantíssimo, não só de geração de emprego, como um fator, uma atividade social importante, mas como o pescador artesanal pode assumir a responsabilidade para a exploração racional e sustentável dos recursos do mar. No mundo inteiro, a gente assiste a esse problema da pesca industrial que acaba com os recursos beneficiando poucas pessoas. Muitas vezes até subsidiado pelo governo. O governo do Brasil gastou milhões e milhões de dólares para financiar a pesca industrial no Brasil e foi um fracasso total. E o resultado hoje é todos os recursos de valor, como a lagosta, como o camarão, o pargo, a sardinha, são todos sobre-explorados. Alguns deles são perto de um colapso.

P – Nossa.

R – E a gente sabe das experiências no mundo inteiro que a solução é de cuidar dos recursos na zona costeira. Onde 80% dos recursos do mar se encontram na faixa de quarenta, sessenta milhas da costa. E é lá onde os pescadores artesanais vivem. Eles conhecem esse mar como a palma da mão. E eles sabem o endereço do peixe que mora lá. Sabe como chegar lá. Diz: “Não, você aí no coqueiro você vai para baixo e levanta a vela e vai.” Então eles tendo a responsabilidade, tendo a educação, tendo uma educação para os jovens pescadores, então, você vai criar um exército de pessoas lá que vão vigiar pelo mar. E hoje, já se está assistindo uma reartesanalisação da pesca. Esses famosos barcos, essa frota de barcos que foi construída com o dinheiro do governo está todo quebrado. Está todo sucateado no porto de Fortaleza. As empresas estão começando a quebrar. Inclusive eles se auto-destroem por uma competitividade absurda. Que você quando cuida dos recursos naturais não tem espaço para competição. Tem que ser cooperação. Trabalhar junto para preservar esses recursos para que nunca acabe. E então nosso sonho realmente é criar áreas marinhas protegidas onde os pescadores vão ser os zeladores do mar. Com o manejo dos recursos marinhos, com as comunidades, com técnicos, com pesquisadores, para que se acabe com essa destruição em massa. E ao mesmo tempo, claro, o litoral está sofrendo muitas pressões. Está sofrendo pressões demográficas, porque hoje mais de 50% da população mundial mora na praia. E a tendência é nos próximos cinquenta anos vai a 75%. Aí você tem as atividades turísticas, grandes resorts sem respeito pelo meio-ambiente. Você tem carcinicultura, que é criação de camarão em viveiros, em áreas onde se desmata o mangue, que é a mãe do mar. Se acaba com esse ecossistema de novo para criar camarão. O camarão. você dá sete quilos de farinha de peixe para o camarão chegar um quilo. Então você tira proteína da população pobre que depende desse. E ao mesmo tempo você vai destruindo a terra usando antibiótico. Para cada vez aumentar a densidade do cultivo. Até que um dia chega um vírus e acaba com tudo.

P – Bem catastrófico.

R – Como já aconteceu na Tailândia, como acontece no Equador e vai acontecer no Brasil. Está acontecendo atualmente.

P – Nossa. Deixa eu, infelizmente nosso tempo está acabando. Senão a gente conversaria mais sobre esse assunto. A gente está aqui hoje, está coletando algumas histórias, experiências dos fellows da Ashoka, né? O que é que o senhor achou assim de ter falado um pouco para a gente da experiência, da trajetória toda. Como uma pessoa que vem de uma carreira de dentro de uma empresa, de uma multinacional e de repente dá uma virada. Como que o senhor vê essa trajetória do senhor? O que o senhor achou de ter dado essa entrevista para a gente?

R – Bom, eu, quando eu tomei a decisão de começar uma segunda vida eu nunca me preocupei muito. Foi um certo risco calculado. Eu estava começando a me sustentar das minhas economias da vida profissional. Mas era, nunca me preocupei muito, muito assim a chegar até lá. Mas quando a Ashoka me achou, (riso) quando a Ashoka me achou, eu acho através da Nina, então foi no momento certo, porque as minhas economias já estavam (riso) estavam acabando.

P – (riso)

R – E realmente então, e foi em uma fase muito crítica. Porque realmente foi quando nós tínhamos conseguido muitos resultados. E realmente precisava, era o momento que eu precisava dedicar todo o meu tempo para esse trabalho. Era um momento que eu começava a viajar muito. Porque a gente também tem essas cooperações, parcerias internacionais, seja na pesca artesanal, seja no turismo comunitário. Então realmente precisava uma dedicação 100%. E aí era, se não chegava a Ashoka eu teria que ter procurado um emprego lá para me manter durante esses anos. Então chegou no tempo certo. Agora, e fechou o ciclo e agora eu estou recebendo a minha aposentadoria da Suíça.

P – Mas esse fato do senhor ter dado essa entrevista para a gente, ter olhado essa trajetória toda do senhor? O que é que o senhor considera dessa experiência, de ter deixado registrado a trajetória do senhor?

R – Não entendi.

P – O que é que o senhor considera? É bom, foi interessante, é importante...

R – Ah, essa experiência?

P - ...deixar a experiência do senhor registrada?

R – Ah, bom. Eu acho assim que é muito importante porque eu acredito, eu sei dos meus amigos, dos meus colegas dos tempos da SwissAir, e então tem uma certa admiração. Por que é que eu tomei essa decisão de mudar de vida. E até uma certa inveja. Eu acho, muita gente queria ter tido a oportunidade de fazer a mesma coisa. Mas não podia por uma série de fatores, pela família. Porque ainda tinha filhos na escola, etc. Mas eu acho que tem muita gente fora, hoje lá, que ainda tem a possibilidade de chegar à conclusão: “Pô, eu posso devolver alguma coisa do que eu aprendi na vida, do meu capital valioso que não custa nada, e devolver o que você aprendeu.” Então eu acho importante que as pessoas veem que cada um na sua forma pode contribuir um pouco para melhorar o nosso mundo. Que está em sério perigo.

P – (riso) Tá jóia seu René. Obrigada pela entrevista.

R – Tá bom, nada.

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