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Periferia em verso e prosa: o Sarau da Brasa

História de: Sonia Bischain
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

Sônia Regina é de 1957 e é da periferia de São Paulo. Acostumou-se, criança, a ouvir o pai contando histórias do bairro que ele viu nascer. Assim, a Brasilândia é o cenário de sua infância e inspiração para os textos iniciados na adolescência. É dessa época, também, a sua militância em favor da região e de sua gente simples. E necessitada. Coleciona conquistas e lutas, desafiando a ditadura, burlando a censura, esquivando-se da repressão. Um dia, reuniu toda a sua produção num espaço de cultura a que chamou Sarau e, alternando literatura e fotografia, saiu com seus poemas, seus romances, suas imagens a mostrar ao mundo as especificidades, as carências e a simplicidade da periferia que conhece como ninguém. No Sarau, criou as bases para fortalecer as mensagens que a necessidade tem a transmitir; fez de sua escrita a voz que faltava à gente do lugar.

História completa

Minha mãe contava que Sônia Regina era nome da moda na época em que eu nasci: 19 de junho de 1957. Sou da Capital e sou da periferia - Brasilândia. Também contavam que era uma noite chuvosa, rua sem asfalto, carro atolado, e quando minha mãe chegou ao hospital, eu já estava nascendo.


Minha mãe era mineira, meu pai do interior de São Paulo. Acabaram se encontrando na Brasilândia… e casaram. Deles se dizia que eram eternos namorados, ficaram casados por cinquenta e um anos, até a morte de minha mãe.

 

Minha história sempre teve como cenário aquela região - Brasilândia, Freguesia do Ó, Vila Penteado. E é lá que eu moro até hoje. Meu pai praticamente viu o bairro nascer, contava muitas histórias: como começou, por que as pessoas foram para lá, as dificuldades, as carências. Daí, certamente, o meu interesse em pesquisar e escrever sobre isso. Enfim, aquela parte de São Paulo é depositária de todas as lembranças da minha infância e adolescência: a família, as brincadeiras, a escola, o lago, o rio, as árvores no quintal, os campos de várzea, as trilhas até o Pico do Jaraguá. E as coisas típicas dos bairros de periferia - as praças, a igreja, o cinema, as procissões, as festas juninas.


E, às vezes, a gente se reunia, sentava no quintal, ficava olhando as estrelas, ficava contando história… O pessoal se reunia, os vizinhos iam conversar no portão.


Curioso é que, menina, eu nunca pensei seriamente no que seria quando crescesse. Eu gostava  de áreas diversas - Química, Literatura, Desenho - mas não me decidia por nada. Com dezesseis anos, fui trabalhar em uma loja de departamentos. Dois anos depois, eu fui para a Editora Abril: editoração, fotolito, fotocomposição… Enfim, toda essa parte de arte-final. Com o dinheiro, eu comprava minhas roupas, meus discos, meus livros - só precisava ajudar em casa em eventuais emergências. E viajar. Desde os dezoitos anos, literalmente, coloquei o pé na estrada - na estrada mesmo, que avião era muito caro. A primeira viagem foi para Recife e Olinda, de ônibus, quarenta e oito horas.

 

“Ah, o São Francisco, o São Francisco!” Como se fosse uma coisa sagrada mesmo. (...) A única coisa que dava vida para o Nordeste, era o rio. (...) Tinha lua e o reflexo da lua brilhou no rio (...).


Talvez nessa época, com viagens assim, eu buscasse sobretudo conhecer. Conhecer os lugares, as pessoas, os hábitos, a origem geográfica daquela gente que me cercava, porque é sabido que a maioria dos nordestinos que chegam a São Paulo tem um destino certo: a periferia. Então, ver “in loco” o que eles contavam de sua terra, de sua pobreza, de seus rios, de sua vegetação. Porque desde cedo, desde o tempo de estudante, eu me interesso pela história do bairro: sua ocupação; suas carências históricas; a questão cultural - a criação de grupos culturais; a montagem de eventos artísticos em locais públicos; a ação comunitária visando melhorias, conquistas; a interação com a Igreja e com as Comunidades Eclesiais de Base. E tudo isso culminou na participação de movimentos reivindicatórios, inclusive no tocante aos direitos individuais e coletivos, em plena época de ditadura militar. E aí, as questões próprias do período: a censura, a repressão… Porque eu tinha, é óbvio, contato com outros pontos da cidade, até por força do meu trabalho, meu emprego. Além de almoçar no centro, ocasionalmente ir a um cinema, eu tinha, digamos, uma agenda cultural por ali, em bibliotecas, sindicatos e onde mais houvesse eventos gratuitos. E ainda, o Plínio Marcos vivia pelo Centro - depois o Centro Cultural Vergueiro - trocando a venda de seus livros por ingressos em peças de teatro. Porém, o meu foco era mesmo o meu bairro, a minha periferia, o trabalho em prol de equipamentos urbanos, creches, vida cultural, projetos com menores, enfim, tudo o que pudesse significar benefício para aquela população.

 

Às vezes dava certo, às vezes conquistava. Às vezes ficava lutando, lutando, não conquistava. Mas não desanimava.


Desde 2008 eu participo do Sarau da Brasa - eu sou uma das coordenadoras. Brasa porque é da Brasilândia - “Eu sou da Brasa, eu sou da Brasa, eu sou da Brasilândia”. A gente queria montar um Centro Cultural, só deu para fazer um Sarau. Em um bar da periferia. Mas já são dez anos. Hoje, São Paulo tem mais de duzentos Saraus, o nosso foi o quarto a ser criado. O primeiro livro que publicamos - com incentivo - foi um de minha autoria, em parceria com Bárbara Lopes. Um livro de poemas e contos, a minha parte tem o título de A Rua de Trás. E, posteriormente, teve um outro - só meu - intitulado Nem Tudo é Silêncio; está na segunda edição.

 

Bom, diante disso, só me restou assumir a condição de escritora. Que escreve desde os quatorze, quinze anos. Esse segundo livro, um romance, acaba contando histórias da formação do bairro. Como o próprio Sarau já faz parte dessa história. Na verdade, ele foi fundado por amigos do meu filho. Eu sou casada com um músico e tenho três filhos. Mas o Sarau não se vincula apenas à Literatura; ele abrange música, ‘grafitti’, fotografia - eu mesmo alterno entre escrever e fotografar - dança e, de uma maneira geral, toda e qualquer manifestação artística. E, além de cultura, ele é, obviamente, lazer. Lazer de que o bairro é tão carente. Agora, o Sarau é, como não poderia deixar de ser, um espaço de debate, de informação, de aprendizado. Mas tem regras e uma delas é não fazer prosperar discussões - principalmente com o sentido de tentar convencer o outro - sobre religião e política.

 

Frequentemente eu me vejo refletindo sobre o rumo que as coisas tomaram na minha vida por causa da Literatura. Ou seja, até onde ela me levou. E, também frequentemente, me surpreendo. Em 2015 foi lançada uma antologia bilingue - Português e Espanhol - em Buenos Aires, durante um evento, e dessa antologia faz parte o meu poema A Rua de Trás. Em 2016, idêntico lançamento no México. Depois, a Primavera do Livro, no Chile. Em seguida, Havana, Assunção e Santiago de Compostela, na Espanha. Por fim, a Sorbonne, onde apresentei um poema sobre refugiados - Travessia. E em alguns desses locais, minha participação acabou sendo um pouco além de escritora, pelos convites que recebi para palestras.

 

Ora, diante dessa trajetória, que considero sobretudo gratificante pelo que acaba significando para a periferia e para todos os segmentos representados - miseráveis, excluídos, refugiados, etc.- costumo dizer que não tenho propriamente um sonho, no sentido de almejar alguma coisa que já não esteja fazendo.


Eu gosto das coisas que faço. E quero simplesmente continuar fazendo.

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