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Percursos na Fundação Bradesco: de estudante à atuação profissional

História de: Adriana Leite de Oliveira
Autor: Ana Paula
Publicado em: 19/06/2021

Sinopse

Adriana nos conta sobre sua entrada na Fundação Bradesco para cursar Turismo. No último ano do curso, foi chamada para trabalhar no Museu Bradesco. Vivenciou todo o processo de ampliação do Museu, que trouxe condições de alocar o acervo que não para de crescer. O relato registra as etapas do desenvolvimento da empresa e de seu orgulho em poder contar essa história.

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História completa

Projeto Fundação Bradesco Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Adriana Leite de Oliveira Entrevistada por Judith Ferreira e Marllon Chaves Osasco, 15 de dezembro de 2005 Código: FB_HV014 Transcrito por Ana Elisa Antunes Viviani Revisado por Cristiane Pessôa da Cunha Lacaz P/1 – Judith Ferreira P/2 – Marllon Chaves P/1 – Adriana, a gente começa pedindo a você que, por favor, nos diga seu nome completo, local e data de nascimento. R – Meu nome é Adriana Leite de Oliveira. Eu nasci em Sorocaba no dia 21 de outubro de 1970. O ano da Copa do Mundo. P/1 – Ano da Copa? Pra comemorar. R – Comemorar. P/1 – Adriana, qual o nome dos seus pais? R – Minha mãe Neusa Caetano de Oliveira e Osmar Leite de Oliveira, meu pai. P/1 – Atividade deles? R – Meu pai fez de tudo um pouco, mas ele trabalhou inicialmente como barbeiro, seguindo a carreira do meu avô, e depois ele foi mecânico de manutenção. Ele foi eletricista de manutenção em várias empresas aqui em Osasco. P/1 – E a sua mãe? R – Minha mãe é cozinheira. Ela foi dona de um restaurante e depois passou a trabalhar na Perdigão como cozinheira. P/1 – Você lembra dos seus avós maternos, paternos? R – Lembro. Meu avô era uma pessoa muito boa. Minha avó faleceu um pouquinho antes do meu irmão nascer e eu não a conheci. Mas o meu avô era uma pessoa muito boa. Por parte do meu pai. Por parte da minha avó... eu ainda tenho bisavó. Meu avô morreu recentemente e minha avó também é viva. P/1 – Por parte de mãe? R – Por parte de mãe. Avó e bisavó ainda estão vivas. P/2 – Você sabe de onde eles vieram? R – Todos do interior de São Paulo, aquela região de Sorocaba, Piedade, Votorantim. Votorantim é a terra do Ermírio de Moraes, como vocês sabem. Terra assim... porque lá tudo se fala de Ermínio de Moraes. P/2 – E as suas avós faziam o que lá na região? R – Meu avô tinha fazenda. Fazenda não. Eles moravam no interior, trabalhavam em sítios. P/1 – Eram lavradores? R – Eram lavradores. P/1 – Você tem irmãos, Adriana? R – Terra de cebola. Eles plantavam muita cebola em Piedade. P/1 – Piedade? R – É. Interior de São Paulo. Minha mãe dizia muito isso, que ela trabalhava de sol a sol. P/1 – Em plantação de cebola? R – Plantação de cebolas. P/1 – E você tem irmãos? R – Tenho. Eu tenho um irmão. Um ano e sete dias mais velho que eu. P/2 – E essa história da sua mãe e do seu pai? Como é que eles se conheceram? Vieram pra cá? R – Olha, vou te falar a verdade. Eles são meio que primos, meio que de longe. Mas eles se conheceram mesmo no interior de São Paulo por serem quase da mesma família. Aí depois eles se casaram. Não lembro o ano que foi que aconteceu isso, mas eles eram primos. P/1 – Se casaram lá? R – Se casaram no interior de São Paulo. Aí vieram pra Osasco, porque aqui era tudo muito mais fácil. A cidade estava crescendo. Osasco, na década de 1970, foi o auge mesmo das indústrias. 1960 e 1970. Então meu pai veio pra trabalhar já na Braseixos, uma grande empresa aqui em Osasco. Trabalhou durante um bom tempo na Braseixos. P/1 – Então a sua infância você passou um pouco em Sorocaba e aqui? Como foi a sua infância? R – A minha infância passei mais aqui, porque o meu pai já veio pra cá pra trabalhar. Então eu já fiquei pra cá. Meu irmão ainda viveu um pouquinho lá. Mas a maior parte da minha infância, todinha, foi aqui. Pouco tempo, pouquíssimo tempo mesmo foi lá. Porque era assim: de voltar um pouquinho pra lá, vir pra cá de novo. P/2 – Você tem lembranças de coisas que aconteceram nessa primeira infância? R – Nossa! Pouquíssima. Pouquíssima porque eu quase... não lembro mesmo. Porque era pequena ainda. Mas a minha infância foi ótima. Minha infância foi excelente. P/2 – Pode falar dela então. R – Minha infância foi humilde, porque minha família é humilde. Meu pai, minha mãe, meus avós, são todos humildes. Então a minha infância foi super simples. Eu, desde pequena, nunca tive nenhuma ostentação. Meus pais nunca tiveram. Então eu trabalhei, estudei em escolas públicas até quando eu cresci que fui parar na Fundação Bradesco. Mas o pré... Fiz o pré em escola pública. Ainda naquela época era o Pil, que chamava. Eu fiz o pré e depois eu passei pra uma das melhores escolas de Osasco. Na época era chamada de Escola Exemplo da cidade. Uma escola muito boa, que era o Professor José Liberatti. Lá eu fiz meu primeiro grau e segundo grau. Aí depois eu parti pra Fundação Bradesco. P/2 – E das casas, você lembra? As casas da infância onde você morou aqui em Osasco? R – Aqui eu morei numa única casa. É interessante que eu falo: hoje em dia a gente tem de tudo. Graças a deus não me falta nada. Mas na época... eu juro pra você: meus pais pagaram 30 anos de aluguel. 30 anos! P/1 – Você veio de Sorocaba, morou numa única casa? R – Vim. Numa única casa. P/1 – Como era a casa? R – A casa era pequena demais. A gente não tinha um quarto. Eu nunca tive um quarto na minha vida naquela casa. Aí eu falei assim pro meu pai: “Pai, a gente precisa ter alguma coisa.” E aí a gente investiu num apartamento. P/1 – Isso jamais em frente? R – É, mais em frente. Aí meu pai faleceu depois. Eu digo só pra explicar o meu passado. Aí meu pai faleceu, mas o sonho eu realizei no futuro. Depois de 30 anos pagando aluguel! P/2 – E como era a casa? Descreve pra gente. R – A casa tinha só 3 cômodos, um quintal grande. P/1 – Você e seu irmão? R – Cachorros e gatos. Tinha de tudo, porque criança... P/1 – Tinha quintal? R – Quintal grande. P/2 – Como era o quintal? R – Era um quintal, era um corredor grande. Interessante que tinha uma coluna no meio. Até lembrei do meu tio que trabalha aqui. Eu estava correndo – porque eu corria muito naquele quintal grande – e de repente tropecei e dei de cabeça naquele muro, naquela mureta. Eu falei: “Tio, vem me socorrer, que eu vou morrer. Eu vou morrer, tio.” “Você não vai morrer porque bateu sua cabeça. Também você quer dar uma de gasparzinho!” P/1 – Quantos anos? R – Eu tinha acho que uns 7 anos na época. Mas fiquei com um galo gigantesco na cabeça. Mas foi muito interessante. P/2 – Do que você brincava? R – De tudo. Eu era muito moleca. Eu sempre fui. Nunca gostei de brincadeira de menina. Então eu gostava de fazer tudo. De jogar bola com a molecada de rua. Eu nunca fui muito feminina nessa parte. Eu sempre gostei de brincadeiras mais estúpidas. Mas o meu irmão sentia muita raiva de mim porque eu saía: “Vou jogar bola.” “Onde você vai jogar bola? Por quê? Jogar bola, eu que tenho que jogar.” P/1 – Você ia junto com ele? R – Eu ia. P/1 – Brincava junto com ele? R – Eu ia. Ele ficava muito revoltado comigo. Falava: “Você vai voltar para casa. Vou falar pro pai que você está indo comigo.” P/2 – Você contou a coisa da sua batida na testa. Tem alguma outra história que você lembra dessa época que você não esquece? Sabe aquelas coisas que acontecem entre irmãos? R – Ah, muita coisa. Eu sempre me dei muito bem com meu irmão, apesar das nossas brigas de infância. Eu ia pra cima dele com se sentisse muita raiva dele, por ele ficar no meu pé. Aí ele chegava pra minha mãe.... minha mãe trabalhava de empregada... Olha só, minha mãe, na época da dificuldade mesmo, trabalhava de empregada doméstica numa casa bem de frente com a minha casa. Então ela trabalhou lá durante um bom tempo. Ela até dirigia o carro do patrão. Minha mãe sempre dirigiu. Então ela trabalhava bem de frente com a minha casa. Então ela recebia os telefonemas lá: “Ô, mãe, a Adriana me bateu.” “Você não sabe reagir não?” Então eram muitas brigas de irmão, mas era muito interessante. Teve uma vez que meu pai consertou um vidro da minha casa. Tinha acabado de consertar. E era um lugar estratégico: sempre que alguém batia palma, a gente colocava a cabeça pra ver quem era. E lá vai ele. Bateu palma lá na frente e acabou de quebrar o vidro. P/1 – De novo? R – E o meu pai tinha trocado. Mas é assim... P/1 – Vocês ficavam sozinhos? R – Ficávamos sozinhos em casa. Sim, porque minha mãe trabalhava em frente, então... E os patrões da minha mãe eram bárbaros. Até, inclusive, a filha de uma delas foi professora aqui da Fundação. Professora de inglês. Muito conhecida daqui da Fundação também. P/1 – E o dia a dia da sua casa? Como era? De manhã na escola? R – De manhã, escola. A gente ia pra escola, eu e o meu irmão, na briga. Um puxando o cabelo do outro. Mas a gente ia pra escola todo dia de manhã. Era eu e ele. Minha mãe criou os dois independentes para poder fazer aquilo que quisesse. Lógico, com um certo limite, mas ela nunca... Então tudo o que a gente fazia, a gente fazia sozinho. Íamos pra escola sozinhos. Os dois iam acompanhados... tudo bem que ia brigando daqui lá, mas... P/1 - ... iam juntos? R - ... nunca, nunca. Teve um episódio que o meu irmão teve um problema de saúde e ele caiu na minha casa. Sabe aquela sensação de perda? Eu falei: “Eu vou perder o meu irmão.” Nossa! Não sabe o que é isso. Não sabe assim a tristeza tão grande que vem na hora. “Poxa, já pensou se eu perco meu único irmão? Briguei a vida inteira com ele, mas eu o amo ele.” P/1 – Companheiro. R – É, meu companheirão. P/2 – O que você fez com ele? R – Ah, daí eu socorri. Vem força... Deus arruma uma força tão grande pra você. Você carrega, leva ele longe. Eu levei sozinha. P/2 – Até onde você levou? R – Até o fim do... Imagina o corredor da minha casa. Eu morava na casinha ainda. Levei até o final do corredor. Mas são momentos na vida da gente que a gente não esquece, que a gente vê a importância das pessoas pra gente. Meu pai faz a mesma coisa. Meu pai sempre foi uma pessoa que... ele não foi tão presente. Porque pai é assim, meio relapso em algumas coisas. Mãe é sempre quem vai nas reuniões da escola. Mãe é sempre quem vai nas festinhas da escola. Pai é sempre aquele lá, “o ocupado”. E o meu pai era assim: mais ou menos o ocupado da casa. Então, quem mais frequentava esse tipo de coisa era minha mãe. Mas meu pai tinha um amor tão grande no coração que... acho que... Posso contar um episódio do meu pai? P/1 – Por favor. R – O meu pai uma vez... Eu falei assim... Todo mundo vivia falando dele, porque ele vivia no barzinho da esquina jogando com os amigos dele – dominó, fazendo palavras cruzadas. Aí, teve uma vez que ele viu um maltrapilho passar na rua e era sempre o mesmo maltrapilho que vivia por lá. Ele levou pra dentro da minha casa, falou pra ele tomar um banho. Tomou um banho dentro da minha casa. Deu a minha toalha pra se secar. Ele secou o rapaz. Como ele era barbeiro, fez um corte de cabelo. Ele falou assim: “O cara saiu daqui bonito.” Limpinho e bonito. Deu uma roupa dele pro rapaz vestir. Então meu pai era uma pessoa muito boa. Ele podia ter o defeito que fosse, ele dizia sempre assim: “Olha, faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço.” Ele era muito assim. Porque ele fumava. O meu pai bebia, mas não era uma pessoa de cair. Ele tinha lá os vícios dele. Ele vivia falando. E nem eu, nem meu irmão, nós não fumamos. Então, não é o exemplo de casa mesmo. Eu acho que cada um cria sua própria forma de viver. Ele escolhe o seu caminho. Então não é o exemplo de casa. P/1 – E como era a cidade de Osasco nessa época? R – As pessoas que moravam aqui na época, logo no início de Osasco, diziam assim que essa parte do Tietê era... Nossos avós – eu chamo de avós -, mas as pessoas que eram donas da minha casa, viviam falando: “Nossa, a gente pescou muito. O seu Antônio [que era o sinhozinho dono da minha casa] pescou muito”. Ele ia no Tietê lá no fundo. Ia pescar ali. Era uma cidade muito... Apesar de estar isolada de São Paulo, era uma cidade que tinha muito a crescer, mas também era assim muito calma. Contrário do que existiu numa certa época. Osasco já foi até a mais perigosa. Hoje já não é mais. Osasco hoje é uma cidade comum, como outras. Mas não é tão perigosa como era. P/1 – E ela era... R – Mas nessa época não. Era tudo muito calmo, tranquilo. As ruas... a gente brincava nas ruas. A gente tinha contato direto com a prefeitura. Era engraçado, porque a gente, se abusasse, a gente conseguia até fechar a rua de fim de semana pra criançada brincar. Então assim... os vizinhos ali perto da minha casa eram muito... porque pessoas antigas daquela rua. Hoje em dia eu passo por lá fico tão triste, porque virou comércio por toda a rua. Saímos de lá, os nossos avozinhos - que nós chamávamos de avós – morreram. Então depois daqui foi morrendo um monte de gente, que era antiga da rua. Aí os filhos já foram casando. Então a rua acabou. P/1 – Tá diferente? R – Hoje tá tudo muito diferente. P/1 – Eram ruas de terra quando você... R – Não, já era asfalto. P/1 – Já era asfaltada? R – Aqui tudo era asfalto. Porque eu sempre morei no centro de Osasco. Só a periferia que era tudo rua de terra. P/1 – E Osasco tinha ainda aquela rotina do interior? Da missa? Do passeio público? R – Você sabe que voltou? Porque hoje em dia até meu tio fala assim: “Ai, meu deus.” Esse meu tio que trabalha aqui no banco mora bem em frente à matriz, da igreja matriz. Aquela igreja não termina de construir. É até engraçado. Se você vê uma foto de 20 anos atrás, está em construção. Hoje, se você for lá, continua em construção. Então meu tio até brinca, porque só consertaram o tal sino lá. E o sino agora toca a cada uma hora. Então aquela rotina – isso de interior – voltou. Porque normalmente é no interior que o padre vai lá e toca o sino. A cada uma hora vai lá e... tudo certinho. E essa rotina voltou. Meu tio fala assim que voltou um pouco a infância dele. P/1 – Sua adolescência como foi? Como foi sua adolescência? R – Foi ótima. Minha adolescência foi a partir da época que estudei em escola pública. A partir daí foi maravilhosa. Eu falo assim: eu vivi uma vida simples. Meu pai com grandes dificuldades. Porque meu pai, quando perdia o emprego, aí vinham aquelas dificuldades que qualquer família tem. Então um ajuda daqui, outro ajuda dali. Mas a gente sempre foi uma família muito unida em relação a isso. Nunca tivemos problemas. Minha mãe criou eu e o meu irmão pra aceitar todo tipo de dificuldade que viesse. Então somos bem esclarecidos em relação a tudo isso. Interessante. Minha adolescência foi ótima. P/1 – Foi nessa casa mesmo? R – Foi nessa casa mesmo. 30 anos que eu morei lá. P/2 – E a turma de adolescentes? R – A turma era muito boa. Muito boa porque a gente lembra disso tudo. Vem na cabeça uma recordação muito boa dessa época, dos amigos. Era, vamos ver, 5 meninas para 30 meninos. Eram poucas, então... É porque a maioria era tudo molecada. Mas era muito gostoso. P/1 – Da rua? R – Da rua mesmo. Lógico, tivemos alguns problemas com algumas pessoas que não tiveram as mesmas... que não pensavam como nós - eu, meu irmão, alguns amigos dali. Outros se desviaram para outros caminhos. Apesar de serem de famílias tradicionais, acabaram entrando em coisas erradas. Mas isso tem em qualquer lugar. P/1 – E você estudou nessa escola até que ano? Como se iniciou seu estudo? R – Quando pequena eu fiz educação infantil no PIL [Prática Integrada do Lar], numa escolinha pública. Por sinal muito boa. Pertinho da minha casa. Aí, por sorte também, eu entrei no Professor José Liberati. Também pertinho da minha casa. E foi uma escola padrão, uma escola excelente também. Ótimos professores. Nunca tive problema com educação. P/1 – Como era a escola? R – Era excelente. P/1 – A primeira? Você lembra da primeira? R – Eu lembro. Lembro até dos parquinhos daquela época que eu quebrei meus dentes, meus dois primeiros dentes naquela gaiolinha que vai subindo. Caí, quebrei meu dente. Mas era muito bom. P/1 – Você ficava o dia inteiro? R – Passava a manhã e depois eu ia pra casa. Mas tinha lanchinho, tinha tudo. Era uma escola muito boa. Escola muito boa. Escolinha. Ah, eu tenho fotos. Eu tenho fotos da... eu vestidinha de índia na época... em abril. Porque eles faziam as festinhas do índio, então eu tenho esse... P/2 – Agora só um parêntese. Você falou da sua adolescência, tem alguma lembrança dessa turma, das coisas que vocês faziam? Vocês brincavam? Bailinho? Namoro? R – Na minha rua a gente tinha mania de fazer bailinho de fim de semana. Aí reunia todo mundo. Aí pegava a vassoura, você lembra? Lembra disso? Aí era a tal da vassoura. Sobrava sempre a vassoura na minha mão. Eu falava: “Poxa vida, viu? Só comigo que acontece essas coisas.” Mas era assim: os bailinhos que a gente fazia de fim de semana e tinha também jogos que a gente fechava a rua pra ficar jogando na frente da casa dos outros até 2 horas da manhã. E o pessoal não reclamava! Incrível! Os vizinhos até preferiam que a gente ficasse todos ali. Porque cada um tinha seu filho que estava ali no meio misturado. Então eles preferiam que a gente ficasse ali do que ir pra fora. A gente saía dali depois que começamos a crescer. Um foi tirando carta, essas coisas. Daí foi modificando muita coisa. Mas a adolescência foi excelente naquela época. Mas eram bailinhos. Às vezes a gente saía pra ir ao cinema junto. Saía toda aquela turma. E sempre foi coisa de turma mesmo. Muito bom! Tenho ótimas recordações. Ah, também tem quando era aniversário do pessoal. Ovo. A gente fazia essas coisas malucas, mas passou. Tudo passa. Mas é sempre uma coisa boa na memória da gente. Isso é bom. P/1 – E aí você foi pra uma segunda escola. R – Aí eu fui pra uma segunda... Ah, tá. Mas isso aí eu digo, isso que eu disse foi já na adolescência. P/1 – Mas essa segunda escola como era? A escola. Você lembra como era a escola? R – A escola era excelente em tudo. Desde diretores. Lembro até o nome dos diretores. Eu falo assim que eu sou meio nostálgica, porque eu lembro de tudo, de tudo, de tudo. P/1 – E era grande a escola? R – Tem episódios da vida que eu vivi ali dentro daquela escola que marcaram bastante, que marcaram mesmo. Inclusive um deles, eu fazia aniversário no mesmo dia que o patrono da escola, dia 21 de outubro. Então eu nunca levava ovadas e nada disso na escola porque era no dia do aniversário do patrono. Então o pessoal esquecia do meu aniversário e eu me livrava daquilo. Era interessante isso, porque no meu aniversário era sempre feriado da escola, então eu ficava livre de tudo. P/1 - E lá você ficou até? R - Até o 2º grau. E o meu sonho era sempre estudar numa escola melhor. Sempre. P/1 – Como era o dia dessa escola? P/2 – A rotina? R – A rotina? P/1 – Tinha atividade extra? R – Tinha educação física. Era uma escola no horário normal e a gente tinha educação física durante a aula mesmo. Eles separavam 2 ou 3 aulas. 2 aulas no final ou no início do período para poder fazer educação física. Era lá mesmo. E era uma escola boa, com professores excelentes. Nunca tive... desde diretores. O contato do diretor com o aluno... Tudo muito bom. P/1 – Algum professor que marcou? R – Marcou. Vários, vários. Teve até... eu tive uma repetência. Mas uma repetência por quê? Porque eu falei pro Marllon aquela hora que eu não tinha muita experiência em matemática. E aí, essa professora, pra ver como aquela professora era boa, ela falou assim: “Eu prefiro repetir você pra você poder melhorar no próximo ano, porque você precisa dessa matéria. Vai precisar dessa matéria.” Eu chorava feito criança, porque só na matéria dela que eu repeti. Matemática. Então foi lá que eu perdi um ano. Mas aprendi muito também. Só foi numa matéria. Mas era a professora que eu mais gostava. P/1 – Como é o nome dela? R – Stella. Até hoje eu lembro. Era uma excelente professora. Tiveram várias, várias, várias. A gente tinha educação musical na época. Levava flautinha pra escola. Muito interessante. Tinha disciplinas diferentes. P/1 - Qual a matéria que você mais gostava? R – Eu gosto muito da parte de humanas. História. História eu gosto demais. Português. Apesar de não ter um conhecimento muito amplo em português, é uma matéria que eu gosto muito. P/1 – O desempenho na escola foi bom? R – Foi bom. Tirando matemática o resto foi ótimo. E estatística. P/1 – E até que ano que você estudou? Lá você depois terminou o 1º grau? R – Terminei o 2º grau... P/1 - ... numa outra escola? R – Eu fiz até a 8ª série lá. Aí, a partir disso, eu entrei no técnico da Fundação. P/2 – Fora a reprovação... R – Fora a reprovação P/2 - ... porque marca mesmo... R – Isso marca. Marcou muito a minha vida. P/2 - ... teve algum evento, alguma coisa que aconteceu lá nessa escola, ou com a sua turma, ou com os professores? R – Aquela época? Ah, teve, mas eu fico com vergonha de falar. P/1 – Imagina! R – Tenho muita vergonha. Quando eu era pequenininha. Daí eu já vou ficar com vergonha de falar. P/1 – E você tem contato com o pessoal que era da sua turma? R – Por incrível que pareça, com algumas pessoas eu ainda tenho, mas são poucos. Encontro na rua. O Walmart e o Carrefour de Osasco são os pontos de encontro do pessoal antigo. Então às vezes eu encontro pessoas que estudaram comigo. “Poxa, Vieira, você tá aqui! Quanto tempo!” Lógico que cada um já com seus filhos, com seus maridos. Tudo bem diferente de hoje. Mas eu encontro, mas é dessa forma. E os próprios vizinhos que eu tinha na minha rua. As meninas estudavam comigo, os meninos também. Então a gente encontra sempre. Ontem mesmo encontrei um rapaz aqui no banco que estudou lá comigo. E trabalha aqui no Bradesco. Então é engraçado. A vida volta. Tudo vai voltando. P/1 – Teve mais gente dessa turma que entrou com você na Fundação? Como foi a preparação pra entrar? R – Olha, na Fundação, quase ninguém da minha turma, porque eles estudaram em outras escolas. Tem uma escola bastante tradicional aqui, só que é escola particular. Grande parte era tudo bem de vida, enquanto eu não tinha muitas condições na época. Mas grande parte estudou em escola particular. Não estudou em escola do governo que nem eu. P/1 – E com quantos anos você começou a trabalhar? Informalmente mesmo? R - Trabalhei assim nova. Foi nova. Com 16 anos. 16 anos comecei a cuidar de criança numa escolinha só pra poder cobrir uma... Entrei pra tomar conta das crianças, pra ajudar a professora a tomar conta das crianças. Só. P/1 – E como foi seu primeiro dia de trabalho? R – Foi ótimo. Foi ótimo. Criança já vem te atropelando, dando trabalho. Uma chorando: “Tia!” “O que que aconteceu? Você está com um corte na cabeça. Que que foi?” “A Bruna me bateu com um pedaço do portão da escola.” E eram essas coisas que aconteciam na época. Mas tudo valeu pra experiência na época. P/1 – Você ficou bastante tempo na escolinha? R – Fiquei 1 ano só, mas valeu como experiência. P/1 – E trabalhou em outros lugares depois? R – Depois trabalhei num bazarzinho como experiência como início de carreira. De carreira não. Primeiros trabalhos antes de fixar em um. Mas, assim, eu comecei a trabalhar num bazarzinho que também era da patroa da minha mãe. P/1 – Era balconista? R – Eu era balconista. Aí teve um episódio muito sério. No fim do ano era Natal e a loja estava cheia. E aí eu fui abrir a vitrine e escapou do trilho. Essa vitrine caiu no meu pé. Levei 10 pontos no meu pé. Véspera de Natal. Então essa é uma experiência que eu conto de lá. Outra experiência que eu conto... porque daí eu falo assim que a gente não pode imaginar uma pessoa de um jeito sendo que ela não é daquele jeito, ela é de outro. Uma senhora chegou lá – e ela sempre fazia compras comigo – e vinha comprar botão. E ninguém suporta vender botão por botão. Quem tem paciência? Só a Adriana para fazer uma coisa dessa. Aí eles falavam assim pra mim: “Adriana, sua cliente!” “Tá bom, pode deixar que eu vou atender.” A loja lotada. Final de ano. “Eu vou atender. Pra quê? Eu vou atender essa senhora.” E ela ficou lá escolhendo botãozinho. De repente ela olhou pro alto assim e falou: “Aquela boneca ali, quanto que tá?” Eu falei: “Tá tanto.” Aí: “Embrulha ela pra presente pra mim.” Eu olhei assim pras meninas, eu falei assim: “Vocês viram o botão que eu vendi? Vocês não têm paciência com ela, no fim acabei tendo e acabei vendendo bem.” Então, essas coisas que a gente não pode fazer com as pessoas. “Só porque eu vou vender botão, final de ano, loja lotada? Eu vendo botão. Por que não?” CD 2 P/1 – Adriana, você contava pra gente do seu trabalho como balconista. Você era balconista mesmo? R – Balconista. Então, a minha mãe, como eu disse, trabalhava de empregada e os patrões dela tinham uma loja que ficava numa avenida importante de Osasco. E eles falaram... Ah, tem um fato interessante, antes da gente lembrar disso que a minha mãe falou assim: “Olha, eu queria que a senhora desse uma oportunidade pra minha filha. Não prestou...” Minha mãe era assim: direta e reta. “Não prestou, manda embora. Não é porque é a minha filha, porque ela pode ou não ser uma boa profissional.” Aí a senhora falou: “Não, pode ficar tranquila que no final do ano ela já vai trabalhar com a gente.” E eu fui. Não fiquei só no final do ano. Fiquei quase 1 ano trabalhando de vendedora. E vinha sempre uma senhora comprar botão comigo. E as meninas viviam sempre falando: “Adriana, sua cliente. Adriana, ela chegou.” Pra eu atender a senhora, porque elas não tinham paciência em atender, porque tinha que ficar escolhendo a cor do botão. Porque lá vai eu: zíper, botão, linha. Aí lá vai eu pra escolher, pegar caixa de botão cheinha pra mostrar pra senhora. E uma época de Natal, foi ela lá, a loja lotada e querendo escolher botão. Aí, foi e as meninas: “Adriana, a sua cliente chegou.” Fui atender com toda paciência. Aí mostrei os botões pra ela, a loja cheia e eu preocupada. Aí, de repente, ela olhou pra cima e viu uma boneca. Perguntou pra mim: “Quanto que tá aquela boneca?” Aí eu falei o preço e ela pediu pra eu embrulhar. Era pra netinha dela. Aí eu brinquei com as meninas, falei assim: “Ó o botão que eu vendi.” Eu tirei sarro delas, porque elas não quiseram atender a senhora por falta de paciência e no fim eu acabei tendo a melhor venda do dia que era aquela boneca. Eu não sei se você lembra era aquela “Meu Bebê”. Uma boneca que parecia mesmo um nenenzinho de verdade. Era cara aquela boneca, era das mais caras. Outro episódio importante também dessa época foi com meu primeiro salário. Minha mãe falou assim: “O que você vai comprar?” Comprei um ursinho de pelúcia. Ela falou: “Adriana, não me conformo. Gastou um dinheirão todo pra um bichinho de pelúcia?” Eu falei: “É, um bichinho de pelúcia, mãe. Eu nunca tive.” Aí ela ficou chateada. Eu falei: “É porque eu tenho vontade. Eu queria ter um ursinho de pelúcia.” E comprei o ursinho de pelúcia e guardei. Até hoje eu tenho esse ursinho. Tirar uma foto dele. P/1 – E aí você continuou trabalhando. O que que aconteceu lá? R – Então, foi no mesmo Natal, depois dessa boneca que foi que aconteceu de ter caído a vitrine no meu pé. Interessante porque naquela época não namorava nem nada. Tinha uma farmácia do lado que era uma farmácia até de uns conhecidos nossos. E tinha um rapaz muito bonito que atendia na farmácia. Aí, quando cai alguma coisa no seu pé, na hora você não sente a dor. Você vai sentir depois que cortou. E eu chorava: "Ahhhhh, meu pé.” E aquele sangue todo. Aí, de repente eu falei: “Chama o moço da farmácia. Chama o moço da farmácia.” Quem era o moço da farmácia? Era uma história bem assim, interessante, meio que de paquera. “Chama o moço da farmácia.” Eu nem sentindo dor estava, mas pedindo pra chamar o moço da farmácia, que era o moço bonito. P/1 – E ele veio? R – Veio. P/1 – Sarou? R – Aí levaram eu lá pro médico pra dar ponto no meu pé. E nisso eu estava com o final de semana programado pra praia e não fui pra praia. Meu final de semana acabou, mas ficou abonada. Meus patrões pelo menos dividiram toda a comissão do dia que eles venderam pra mim. Eles passaram pra mim, então... porque abonaram. P/2 – E fazendo curativo. R – Curativo no meu pé. Mas não foi o farmacêutico que fez o curativo no meu pé. Mas foi interessante. P/1 – E você ficou nesse trabalho... R – Um ano. P/1 – Um ano. Foi pra outros trabalhos? R – Aí depois eu comecei a estudar na Fundação. P/1 – Como você conheceu a Fundação? R – A Fundação sempre foi uma escola muito conhecida em Osasco. P/1 – Você já conhecia ela? R – Já. Meu tio estudou, meu primo estudou. Meu tio fez telecurso aqui. P/1 – No posto que tinha... R – Da Fundação. Ele estudou. E o meu primo fez turismo também na Fundação Bradesco, só que infelizmente meu primo não teve o mesmo desempenho que eu na escola. Ele já era mais despojado. Não se preocupava muito em estudar, nem dava muito valor a isso, infelizmente. Mas eu não. Meu pai sempre sonhava que eu entrasse numa escola boa pra estudar, porque já que ele não tinha condições de me colocar... Ele sempre queria me ver formada. Então o sonho dele era um dia me ver vestida com roupas de formatura. Ele sempre sonhou com isso. Então eu era um orgulho pra ele nesse ponto. P/2 – Você lembra do que as pessoas falavam da Fundação? R – Lembro. A Fundação era o sonho de todo mundo, porque era uma escola que sempre dava de tudo. Assistência, tudo. Eu tinha dentista, eu tinha tudo. Tudo o que eu não tinha na minha vida, eu tive aqui. Então a Fundação era muito conhecida por isso. P/1 – Com quantos anos você entrou? R – Eu, olha... anos... É difícil contar. P/1 – 16, 15 anos? R – É difícil contar. Eu entrei em 1989. Não lembro exatamente a idade. P/1 – Tinha 19 anos? R – 17, 18 anos, por aí. P/1 – E como foi que você resolveu? R – Ah, sim, porque na época, pra você entrar... Eu já tinha feito o 1º grau em escola do governo. E como a Fundação era uma escola conhecida e meu primo já estudava aqui, então a gente sabia como era a Fundação, tudo. E eu sempre sonhei. Aí eu falei assim: “Poxa, mãe, bem que eu poderia prestar vestibulinho.” Porque pra entrar na Fundação tinha que prestar vestibulinho. Não podia entrar... P/1 – Tinha que fazer seleção. R – É, porque você era filho de... Nada disso na época. Porque eu não tinha nenhum vínculo com o banco. Só o meu tio que trabalhava aqui. Então pra eu entrar aqui era meio complicado. Mas eu entrei por méritos... por mim mesma. Eu entrei, eu mesma. P/1 – Você estudou, fez o vestibulinho? R – Eu fiz o vestibulinho. P/1 – Se inscreveu? R - Aí, olha só que engraçado: eu me inscrevi no curso de administração, mas aí eu tive que dar a 2ª opção. Eu dei a minha 2ª opção como turismo. Aí vou eu. Passei no exame, mas tive que ficar aguardando porque administração era um curso muito concorrido. Aí o seu Lair na época ligou pra mim. Ele mesmo, pessoalmente, que era a pessoa que trabalhava aqui na Fundação, ligou pessoalmente para minha mãe: “Adriana, é da Fundação Bradesco. Você quer falar?” “Lógico que eu quero.” Fundação? Imagina. O sonho da minha vida. Aí fui falar com o seu Lair. Ele falou: “Adriana, eu não tenho mais vaga pro curso de administração, mas você colocou como 2ª opção o curso de turismo. Você gostaria de fazer?” Eu: “Pode colocar aí que eu tô aí dentro.” Aí depois ele me chamou pra fazer as minhas fichas e eu comecei a estudar na Fundação, mas só porque eu fiz o vestibulinho mesmo. P/1 – E aí o curso... P/2 – A exigência era só o teste mesmo. R – Era o teste. P/2 – Tinha renda, essas coisas? R – Nada. Eu não me lembro de nada disso, de ter renda. Mas não tinha não. Era só você fazer o teste. Você passou? Tava aqui dentro. Nossa, minha alegria foi tão... O meu pai ficou super emocionado quando ele ficou sabendo que eu ia estudar na Fundação. Porque o sonho da vida dele era esse. O sonho da vida dele. Tanto que quando eu me formei... ele nunca foi em formatura nenhuma minha. Nunca. Nada disso na escola. A alegria dele era tanto que ele foi até no meu baile de formatura da Fundação Bradesco. Então, por eu ter estudado na Fundação, era a alegria da vida dele. P/1 – E você entrou e fazia o curso à noite? R – À noite. P/1 - Você trabalhava? R – Foram 3 anos fazendo o curso à noite. Um curso que me trouxe várias recordações. Os 3 melhores anos da minha vida foram aqui dentro. P/1 – Como era o curso? Como era a sala de aula? R – Excelente, porque eu acho que em todas as escolas, em todas as faculdades, tudo, quem faz a escola é o aluno. Não adianta você falar assim: “Esse professor é bom. Esse é ruim.” Não é o professor, é o aluno mesmo. O aluno que tem que se dedicar, o aluno que tem que pesquisar, o aluno que tem que fazer tudo. Então eu era uma aluna muito esforçada. Até nem podia ter boas notas, excelentes notas, mas eu pesquisava muito, estudava muito. E eu devo a vários professores da Fundação por isso. Tinha até um professor aqui que era chamado Orseti. Ele faleceu, infelizmente, mas era um dos melhores professores nossos. Ele era um italiano bravo e teve uma época que ele era um professor de estatística. Como não gosto de exatas, eu não ia bem na matéria dele. Aí, ele chegou, na hora da prova, final de ano, eu tinha tempo pra fazer a prova, comecei na 1ª aula e não terminei na 4ª. Então era uma prova barra mesmo, pra queimar os miolos. E aí eu chorava e ele na prova: “Senhora, não chore, senhora. Não adianta chorar, senhora.” “Pelo amor de deus, me ajuda.” E eu sempre detestei, sempre detestei a parte de exatas. Mas ele era o melhor professor. Ele era tão inteligente. Eu gostava dele pela inteligência. Infelizmente, foi um professor que morreu cedo. P/1 – Quem dirigia a escola na época? R – Na época era o seu Almir. Nossa, o seu Almir era muito bacana. Uma pessoa excelente, de coração. Ele era amigo dos alunos. Todos gostavam muito dele. Nossa, ele tinha o carinho dos alunos. Ele era uma pessoa muito bacana. P/1 – Algum outro professor que tenha marcado? R – Todos da época. Porque o nosso curso de turismo foi um dos melhores cursos. Acho que foi um dos cursos mais... as turmas, que eu digo, mais participativas do curso de turismo, que eu tenha conhecimento. Não sei se porque foi a minha turma, mas a melhor turma de turismo da Fundação Bradesco foi a nossa. E os melhores professores. P/2 – Você se lembra do primeiro dia de aula? R – Lembro. Lembro porque eu cheguei meio que tímida na sala de aula. Aliás, eu devo ao fato de falar bastante agora, à Fundação. Devo ao curso de turismo que eu fiz, porque você é obrigada a fazer seminários, a apresentar trabalhos. Então eu nunca tinha feito muito isso. Então é um curso bem dinâmico. Trabalha muito essa parte da gente. Eu era uma pessoa muito tímida. Enfiava a cabeça no meio da perna e não queria saber de nada. Morria de vergonha de tudo. Falavam comigo, ficava vermelha. Então o curso de turismo me abriu tudo isso, porque exigia de mim. Ele exigia que eu mudasse. Eu tinha que mudar. Aí eu deixei de ser uma pessoa tímida, acanhadinha. Então meu primeiro dia de aula foi assim. Eu cheguei bem tímida mesmo. Mas depois, eu acho que a dinâmica do curso foi mudando. Foi muito bom. Bom mesmo. Viajamos bastante. Mas não era viajar somente pra passeio. O professor ia com o grupo e fazia com que a gente explicasse em sala de aula tudo aquilo na prática mesmo. Foi bem interessante mesmo o curso. É o que eu falo, quem faz sempre o curso é o aluno. Se ele se dedica, o curso até melhora com ele. P/1 – E as aulas? Como eram as aulas? Como os professores ensinavam? Eram aulas normais? R – O curso tinha muita aula prática, é o que eu falo. O único que não tinha muita prática eram os cursos normais, que seriam matemática, português, inglês, esses cursos tradicionais, essas matérias tradicionais. Mas os cursos técnicos, que falem sobre a técnica de turismo na época eram cursos práticos. A gente tinha que visitar locadoras de veículos, até a Varig [Viação Aérea Rio-Grandense]. Teve um episódio da Varig que nós fomos visitar. A Vasp [Viação Aérea São Paulo], perdão. Nós fomos visitar a Vasp com o professor André. Na época ele era o nosso professor de transporte e nós fomos visitar a Vasp. E lá nós fomos muito bem atendidos por sinal. Só que aí nós fomos sair para fotografar o saguão. Eu fui com a minha câmera fotográfica e fotografei o avião do presidente. Saíram correndo atrás de mim, porque não podia fotografar o avião do presidente. Mas pra gente, a gente não sabia de nada. Foi um episódio interessante. Só saí correndo, escondendo a minha máquina, porque lá estavam meus registros. Tudo aquilo que eu fiz no curso, tudo aquilo que foi feito naquela aula prática eu não podia perder. Então eu saí correndo. “Quem fotografou? Quem fotografou?” Fiquei bem quietinha assim. P/1 – “Não sei.” R – Não sei, não foi comigo. P/1 – Mas teve as fotos? R – Tive as fotos. Tive que guardar porque estava todo o meu curso ali. P/2 – Essas fotos você ainda tem? R – Eu devo ter o negativo, porque sumiu. Por azar sumiu essa foto. Mas eu ainda tenho o negativo de tudo isso, porque nós fizemos aula de simulação de vôo. Entramos num simulador de voo. Sabe aquele simulador? Foi muito interessante, porque as aulas eram assim, práticas mesmo. Então esses alunos que não podiam frequentar esses trabalhos práticos que tinham perdiam. E aí os alunos sempre falavam: “Ah, mas o curso é isso, o curso é aquilo.” “Calma lá, não é isso não. Você não participou da aula, você não foi até lá, você não se esforçou de pedir pro gerente, diretor, liberar você um dia pra você participar dessa aula.” Porque o aluno aprende assim: na prática. O curso de turismo era prática mesmo. Você tinha que desempenhar, você tinha que sair correndo atrás das informações. Foi um curso excelente. P/1 – Como era o controle de notas e faltas? R – Faltas? Era que nem hoje. A gente tinha um limite de faltas e você tinha que respeitá-lo. Então você não podia faltar muito, tinha que ser uma pessoa participativa em aula. Isso que importava: ser participativo em aula. Foi o que eu falei, a minha timidez acabou com isso. Graças a deus. O meu trabalho hoje exige isso de mim, que eu não seja tímida, porque eu atendo tanta gente. De repente, se eu ficar acanhadinha não vou conseguir atender ninguém. Mas melhorou bastante. Nossa! P/1 – Você chegou a assinar a Declaração de Princípios? R – Assinei. Tanto que eu tenho essa declaração. P/1 – O que você achou? Era de próprio punho? R – A próprio punho. Aí eu brincava: “Não posso pular nada?” “Não, não pode pular nada.” P/2 – Como que era isso? Você entrava e já tinha que... Como era essa coisa de assinar a declaração? R – Era no início já, no início do ano. P/1 – Primeiro dia? R – Não lembro se era no primeiro dia de aula. Mas todo ano a gente tinha que fazer uma. P/1 – Não era individual? R – Era individual. Cada uma fazia a sua. P/1 – Eu sei. Mas um dia sozinho? R – Não, todo mundo junto. Eu não sei qual era o critério para aquele que faltava, o que que fazia. Mas pra gente que estava em aula era todo mundo junto. P/1 – Chegava, passava. Como que era? R – Era interessante porque... “Lá vem aquela carta de novo.” Porque era... P/1 – Você já sabia R – Demorava porque você errava no meio do caminho, às vezes. Porque não era que nem computador que você vai lá e deleta. E você tinha que fazer de novo e era muito termo. E não podia pular nenhum. Então eu brincava: “Não pode pular?” Porquê? Pra diminuir pelo menos, pra não precisar escrever tudo aquilo. Mas tinha que escrever tudinho e não podia pular nenhum termo e às vezes você errava no meio do caminho. P/1 – A professora... R – Copiava a mesma coisa... Ai, era triste, porque daí você tinha que refazer tudo de novo. P/1 – Ela ditava? Colocava na lousa? R – Nada. Distribuía a folha, que é aquela que eu passei pra vocês, uma folha. Distribuía aquela folha pra você copiar numa folha à parte a próprio punho. Você não podia deixar nada. P/1 – Copiava e assinava? R – Copiava e assinava. E aquele tinha no banco e tinha na Fundação. Mas era interessante porque eram princípios que acho que fez o caráter, vai formando o caráter do aluno. Acho isso importante. Isso formava bastante mesmo. P/2 – E se desrespeitava? R – Você não podia desrespeitar aquilo. P/2 – E se alguém... R – Olha, eu não conheço nada, nem ninguém que tenha fugido disso pra poder dizer. Mas eu acho que tinham... deveria ter uma forma de... não condenar, mas alguma forma de estar mostrando pro aluno que ele estava errado em relação àquilo. Mas o que eu achei interessante foi que eu saí... o caráter da Fundação Bradesco. Quando eu saí de lá, saí com aquele caráter por causa de tudo isso que foi colocado. 3 anos! Imaginam pra quem estudou desde o comecinho? Então existia muito respeito naquela época por causa disso. Até mesmo no banco. Hoje em dia você vê que muita coisa ainda não mudou. Muita coisa não mudou porque o caráter do funcionário também é visto dessa forma, mostrado dessa forma. Isso tudo que foi plantado ali no início. Não os atuais. Não sei como é hoje, mas os antigos sim. P/2 – E a disciplina? Como que era? R – Era rígida. Apesar do seu Almir ser uma pessoa muito aberta, ele ser uma pessoa voltada ao aluno mesmo, dedicado ao aluno, era uma pessoa séria, mas era uma pessoa amorosa. Não tinha aquela rigidez grande, mas era bem... A pessoa tinha que respeitar mesmo. Você está estudando de graça, tem toda a assistência – assistência médica, assistência odontológica. P/1 – Como que era essa assistência? O aluno passava a ter tudo isso? R – Porque fazer coisa errada pra perder tudo isso? Eu sempre pensei dessa forma. P/1 – Você tinha toda a assistência... R – Tudo isso a partir do momento que você entra. Como eu fui uma pessoa assim... apesar de toda minha dificuldade, eu podia comprar meu uniforme, eu podia comprar meu material escolar, mas se eu chegasse pra Fundação e falasse assim: “Olha, não tenho condições de comprar meu uniforme, não tenho condições de comprar meu material escolar.” Eu tenho certeza, e isso era de fato, que tinha um caixa escolar que o aluno... o aluno tem tudo isso. Eu só não tive porque eu tinha condições de ter. Eu dei oportunidade para ́aquele que não tinha. Eu acho que tem que ser assim. P/2 – Porque essa coisa da oportunidade é uma coisa também que a Fundação ensinava também. R – O próprio caráter da gente é formado assim. P/1 – Preocupação com o outro. R – Preocupação com o outro. Eu acho que você tem que se preocupar. Porque se você tem condições... é que nem o Salvador falava. O Salvador, numa entrevista que eu li a respeito dele, disse que ele não teve condições de estudar, mas na época, quando ele deu a entrevista, “eu dou oportunidade para aqueles que não tinham.” Então é você pensar no próximo. Poxa, vida. A Fundação está aí hoje por quê? Porque alguém pensou no próximo. P/1 – E, Adriana, você estudou esses 3 anos e você trabalhava num outro lugar nesse período? Como foi nesse tempo do curso? R – Do curso? Ah, foi interessante porque o curso me oferecia algumas disciplinas. Uma delas é museologia, que eu fiz. Foi acho que no 2º ano. 2º ano acho que eu passei a ter museologia. Não lembro muito bem. Então essa disciplina, essa matéria, passou a ser útil pra mim. Por quê? Porque o museu, apesar de ter sido criado em 83, ele já existia na escola, tudo, só que já tinha uma pessoa que trabalhava lá. Aí essa pessoa resolveu sair de lá. E tinha que ter alguém pra ficar no lugar. Foi quando eu fui chamada, no ano de 89, no último ano que eu fiz turismo. Eu fui chamada pra trabalhar no museu. Eu fui chamada só pra cobrir as férias dessa pessoa. No fim ela acabou saindo e eu acabei assumindo definitivamente o cargo no museu. P/1 – E você não estava trabalhando então? R – Eu não estava trabalhando. P/1 – Você estava estudando? R – Eu já estava estudando porque a Fundação exigia muito isso de mim, porque eu tinha que fazer aula prática. Eu não queria me dedicar a nada se não fosse nos estudos. Então me dediquei mesmo a isso. Eu trabalhava... eu ajudava muito a minha mãe. Minha mãe, apesar de trabalhar como empregada na época, fazia salgadinhos pra fora, pra festas. Então ela sempre segurava. P/1 – Trabalhava informalmente? R – Eu trabalhava, ajudava a minha mãe em casa fazendo salgadinho pra ela. P/1 – Pra ter mais tempo pra Fundação. R – Pra poder ter mais tempo pra Fundação. Até minha mãe nunca exigiu isso de mim. Eu falo assim que minha mãe foi uma pessoa muito especial porque com o pouco que ela ganhava ela queria até dar tênis de marca pra mim. Por que sabe como é adolescente. Adolescente fala assim: “Ah, não quero este. Quero aquele.” Então minha mãe sempre me deu do bom e do melhor. Minha mãe e meu pai. Tudo o que eles puderam suprir, eles supriam. Nunca faltou nada. Agora, em termos da Fundação mesmo, a alegria deles foi realizada por eu estar dentro da escola. P/2 – Uma coisa assim: você, na sua rua, poucos estudaram na Fundação. Você percebeu a diferença da sua formação com a dos outros? Como que foi a aluna da Fundação na rua? Você sentia diferença do estudo aqui e do estudo em outra escola? R – Eu achei bastante diferença em termos de todo o tratamento que a escola dá pro aluno. Eu achei muita diferença. Apesar de ter estudado em escolas excelentes, mesmo sendo escolas públicas, eu vejo todos os benefícios que o aluno tem a partir do momento que ele entra na escola, que ele entra na Fundação. Então a minha alegria era saber que eu podia ter um dentista, que eu não precisava ficar lá falando: “Pai, preciso ir ao dentista. Você pode pagar um dentista pra mim?” Não, era saber que eu estava com os meus dentes tudo certinho, porque a Fundação... era só marcar lá uma consulta no dentista que eu já tratava os meus dentes ali mesmo. P/2 – E na rua, como que era? R – Na rua as pessoas falavam: “Poxa, a Adriana, aluna da Fundação.” Mas a diferença não foi muita. Porque, como eu falei, grande parte deles estudavam em escolas particulares. Então, assim, esse tratamento também pode ser que... Não assim como o da Fundação, igual você tem toda a assistência, que nem ao da Fundação. Mas estudar em escolas particulares é bem diferente do que estudar em escolas públicas. Então não tiveram muitas diferenças em relação a isso não. P/1 – Adriana, a Fundação tem uma diferença básica, me parece, em relação ao processo educacional todo, que é essa formação de valores, de ética. E há diferenças de você com o pessoal da sua turma? Você, recebendo essas informações novas da Fundação, recebeu um fortalecimento de valores? R – Sim, enquanto caráter sim. Nossa! P/1 – A diferença era grande? R – Muito, muito, muito. Foi o que eu falei pra vocês. Eu percebi que, conforme eles foram crescendo, cada um foi tomando o seu rumo. Alguns tomaram uns rumos tortos na vida. Eu tive várias oportunidades de seguir o mesmo caminho, porque eu convivia com eles. Primeiro aí. Porque você forma o seu caráter. Então porque você vai seguir por esse caminho se esse caminho não vai te oferecer coisas boas? Então eu não segui mesmo. O meu caráter foi formado, lógico, desde... porque minha família também. Eu tenho lá minha família que me deu muito... formou também o meu caráter. Mas basicamente foi aqui. P/1 – A Fundação fortaleceu. R – Fortaleceu bastante justamente por isso. Tinha muito isso também na época quando eles faziam aquelas apresentações, ação de graças, tudo aquilo. Isso tudo fortalece o nosso caráter. Isso tudo é bom. Tudo é muito bom. P/2 – Uma curiosidade: como era vista a figura do seu Amador Aguiar pra turma, na escola, a presença dele? R – O seu Amador Aguiar. Seu Amador Aguiar era visto como uma pessoa séria, mas ele era uma pessoa extremamente amorosa. Ele amava isso, amava demais a Fundação. Ele tinha um carinho específico por isso. Eu não sei até que ponto ele deixaria de tudo pra assumir somente a Fundação Bradesco. Tanto que uma parte da vida dele já pensou em fazer isso, no finalzinho de só se dedicar à Fundação Bradesco. Acho que ele não ia aguentar, porque ele gostava da atividade bancária, mas a Fundação era a vida dele, tudo isso. E os alunos pensavam assim: “Ah, um homem sério.” Mas também eles tinham muito carinho pelo seu Amador Aguiar. Todas as festividades, tudo o que acontecia relacionado, que envolvia o seu Amador Aguiar, era sempre uma homenagem que prestavam para ele. E ele adorava. Adorava o carinho que ele recebia dos alunos. Nossa, a gente tem foto, igual você falou pra mim, que mostram o brilho nos olhos dele quando ele abraçava o aluno. Então eu acho que ele vê a infância dele, tudo aquilo que ele não teve, que ele pôde estar proporcionando a alguém. Então isso pra ele era um orgulho. Isso pra ele era a alegria que ele tinha na vida, tanto que a Fundação era a menina dos olhos dele. Então a vida dele. A vida por conta da Fundação. Aquilo que faltava na parte do banco era suprido com a Fundação Bradesco. P/2 – Você tem alguma lembrança pessoal? R – Pessoal do seu Amador não porque eu entrei em 1989. Eu saí da Fundação em 1989 e em 1991 ele faleceu. Então eu tive pouco contato com isso. Então eu não o conheci. Eu passei a conhecê-lo a partir do momento que eu entrei no banco, que eu passei a trabalhar no museu e eu pesquisei muito a respeito dele. Então a vida dele pra mim é um exemplo, um exemplo de tudo. Eu tenho ele como exemplo até pra minha vida, pelo caráter dele, por tudo aquilo que ele fazia, por toda aquela dedicação dele, por tudo. Pelo trabalho, pela Fundação. Ele é o homem-trabalho. P/1 – Adriana, você não conviveu com o seu Amador, mas você, nesse seu trabalho de... R – Pesquisa. P/1 - ... de pesquisa, de museóloga, você acabou tendo muitas informações da vida dele, de todo o trabalho dele. R – Com certeza. P/1 – O que você colocaria sobre a pessoa do seu Amador Aguiar? Pessoa enquanto idealizador da Fundação Bradesco, de tudo isso que tomou forma e faz 50 anos que existe: a rede de escolas, os benefícios. R – Numa das entrevistas que ele deu, ele falou sobre a gota d' água no oceano e que a gente tem planos pra que aquilo cresça. E a Fundação foi isso pra ele. Começou com uma simples escola. Aqui na matriz ela começou com uma escola para atender a uma necessidade da época. Mas a partir dos anos 1970, quando a ideia da Fundação tomou forma mesmo, que foi o avanço da Fundação Bradesco, pra ele, o fato de estar criando uma Fundação não era pra estar criando uma Fundação, era atingir o Brasil inteiro, era poder proporcionar isso a um monte de gente. Não só a uma cidade, a um local. Ele queria poder estar atendendo a todos. Poxa, afinal de contas o banco podia fazer isso. Então a visão dele com a Fundação Bradesco era maravilhosa. Eu acho que ele, se estivesse vivo... lógico, se ele estivesse vivo hoje... é só o fato dele estar vendo 40 escolas aí como estão hoje, eu imagino a alegria que ele teria de ver um sonho realizado: uma escola em cada estado, que era o sonho dele. Lógico que hoje superaria isso, ele queria alcançar o mundo. Vendo a situação do mundo também. Mas a visão dele pra uma coisa, tudo aquilo que ele sonhou deu certo. Então eu acho até que, mesmo depois que ele faleceu, as coisas aconteceram de acordo com o desejo dele. P/2 – Uma curiosidade: ... qual o motivo principal, o que que fez ele... você sabe, conseguiu pegar? R - Assim, pra saber se ele... P/2 – Por que ele fundou a Fundação? R – Porquê? Foi basicamente por isso mesmo. Foi pela necessidade que ele sempre teve, pelas dificuldades que ele teve na vida. Sair de casa como ele saiu lá do Cervo, viver as dificuldades do dia a dia, de ter que trabalhar pra poder se sustentar, tudo isso, todas essas necessidades e a ausência de estudos, pra ele isso foi predominante para que ele pudesse despertar essa vontade nele. “Poxa vida, eu não tive oportunidade. Por que eu não posso dar essa oportunidade a alguém?” E outra: por ver as necessidades dos locais que ele visitava. Ele ia para lugares carentes, ele via cenas e isso foi mudando a forma de pensar dele em relação à assistência social. Foi quando despertou nisso a vontade dele. Foi quando despertou mesmo a vontade dele de estar atuando em direção a isso. P/1 – Através da educação. R – Através da educação, porque a educação é tudo. Educação é tudo. Eu tenho amigos que trabalham, fizeram USP [Universidade de São Paulo], até trabalham aqui no Bradesco e são pessoas simples de tudo. Não tem dinheiro pra nada, mas fizeram USP, porque foram lá. Apesar das dificuldades estão ali. Eu vejo ele dessa forma também. Apesar de todas dificuldades ele foi e fez o que queria. Pode não ter estudado – ele não estudou – mas ele não queria isso pra ninguém. Ele queria o contrário, queria que as pessoas se formassem, que fossem alguém. P/1 – Adriana, você cresceu, viveu aqui, você tem um grupo seu que é uma comunidade sua. Quais as influências da Fundação nessa comunidade que você convivia? Muitas influências? R - Bastante, bastante. Bastante mesmo, inclusive a seriedade como a gente leva os assuntos ou as coisas. É engraçado isso, mas o caráter do funcionário, seja ele funcionário, aluno, o que for, é sempre visto lá fora de uma outra forma. E eu também. Eu vejo minha avó, meus parentes falando: “Poxa vida, Adriana, você trabalha na Fundação Bradesco!” Sabe essa coisa, a importância disso pra tua família, pros seus amigos você estar lá até hoje. “Poxa vida, 18 anos quase trabalhando na Fundação!” 18 anos prestando serviços ali. Então isso tudo é visto de uma outra forma pelas pessoas, a importância disso. P/1 – Durante seus estudos, qual era sua expectativa de uma carreira futura? R – Eu sempre quis estar voltada para área de turismo, apesar de gostar muito de arquitetura, porque também é um dos sonhos que eu tenho. São dois: a área de turismo, patrimônio, tudo isso que eu trabalho hoje, mas também a área de arquitetura que também envolve patrimônio. Então a minha dúvida era essa: continuar turismo ou não? Por que não continuei turismo? Ah, porque que eu não fiz e fiz secretariado executivo? Porque secretariado executivo era uma forma de eu estar atuando na minha área, fazer o que eu faço, de cuidar de um local. Então fazer tudo aquilo que eu faço, pra mim o secretariado executivo estaria me dando um auxílio naquilo que eu estava fazendo, que seria aquilo que eu faço hoje. Então por isso eu fiz. Mas o meu sonho ainda é continuar. Eu vou continuar. Se não for na área de turismo eu vou continuar fazendo na área de arquitetura. Ainda vou fazer. P/1 – Qual a diferença entre as outras escolas e a escola da Fundação Bradesco? R – É essa. É toda essa assistência que a Fundação dá. É toda a preocupação da Fundação com o aluno. Pode ser visto isso em todas as escolas, não só aqui. Nas escolas, nas outras ainda, eu vejo até mais evidente. Por quê? Porque o aluno ali é preparado para uma atividade do local. Vamos supor: se ali é um lugar de pesca, o aluno vai aprender a pescar; se ali é um lugar de manejo de gado, o aluno vai aprender a mexer com gado. Então é isso. A diferença de escolas é da assistência que a Fundação dá. P/1 – E o que significou a escola da Fundação Bradesco para sua formação e para sua atuação profissional, quer aqui ou fora da entidade? O que significou essa escola pra você? R – Tudo. É o que eu falei pra você, a Fundação foram os 3 melhores anos da minha vida. 3 melhores anos, assim de estudar. P/2 – ... e pro resto? R – Tudo. É porque acabou me levando ao profissional também. Porque eu estudei na Fundação. A partir do momento que eu fiz o curso, tudo, eu tô dentro da área que eu estudei. E eu não fujo disso. P/2 – E você tinha essa perspectiva de trabalhar na Fundação ou foi uma surpresa? R – Eu tinha. Sabe por quê? Na época, todos os alunos – eu acho interessante isso – todos que estudam aqui, muitos deles sonham em trabalhar no Bradesco. Entrou aqui, trabalha no Bradesco. Então tinha muito isso. Aquele que entrava de fora, principalmente. Esses aí como eu que fizeram curso técnico: “Ah, eu vou entrar no Bradesco, porque eu sei que se eu entrar no Bradesco eu vou ter um emprego garantido.” E era assim bastante na época. E até hoje, porque os alunos são os primeiros a serem contratados pelo banco. Hoje tem o aprendiz, tem bastante... bastante oportunidade pro próprio aluno aqui na Fundação. Então na época era muito isso: “Vou entrar lá que eu sei que vou ter um futuro melhor lá dentro.” Era essa também a visão que as pessoas tinham do Bradesco lá fora. Desde que você se torne um aluno, você já vai trabalhar lá dentro. É só se esforçar. Sendo bom aluno você tá lá dentro. P/1 – E se for trabalhar fora, pro mercado, é um currículo já... R – Excelente. A Fundação é vista em outros lugares dessa forma. P/1 – Ela é referência? R – Ela é referência. Isso eu vejo em todos os lugares que eu vou. Até, vamos supor, pra fazer pagamento de alguma coisa, de repente: “Onde você trabalha?” “Trabalho na Fundação.” “Ah, tá. Aqui por perto?” “Eu trabalho no Bradesco.” “Ah, não. Tudo bem.” Eu fui por gasolina no meu carro esses dias, o rapaz: “Ah, não aceita cheque.” “Ah, por favor, vai aceita, porque é a única forma de pagamento. Eu não sei onde eu coloquei meu cartão.” Aí ele falou assim: “Olha vou aceitar.” “Eu trabalho aqui na matriz, no Bradesco.” “Ah, você trabalha aqui? O dono daqui foi diretor do Bradesco. Pode deixar então.” Ai, meu deus, olha só como é a visão que as pessoas têm da instituição. Isso é bom. P/1 – Credibilidade. R – Credibilidade. P/2 – Antes da gente entrar no seu trabalho mesmo, que a gente daqui a pouco vai, - você falou do Salvador – têm outras figuras na Fundação que são inspiradoras pra você, que você admira? R – Têm. P/2 – Pode fazer a lista. R – Todos ali. P/2 – Mas os especiais mesmo. R – Os especiais? P/2 – Aquelas pessoas que você queria ser quando crescesse? R – Olha, se eu for falar eu vou ficar aqui até amanhã, porque o seu Antônio Carlos foi uma pessoa que me apoiou muito. Desde o começo foi uma pessoa meio paizão na Fundação para mim. E apesar do nosso pouco contato hoje, porque eu fico um pouco distante de lá, ele é uma pessoa especial pra mim. Eu sempre, quando tenho oportunidade... teve até uma vez falei assim pra ele: “O senhor é especial.” Porque ele é uma pessoa especial. Agora tem todos ali. A dona Denise uma vez... Eu vou contar uma vez um episódio que eu acho interessante isso. Ela chegou no museu – era aniversário de 50 anos do banco. E foi pedido que eu passasse um quadro, porque eles iam fazer um bolo comemorativo dos 50 anos com a foto da primeira agência. Ela foi até o museu entregar esse quadro pessoalmente pra mim. O que isso significa pra mim? Isso significa que ela é uma pessoa comum, comum pra mim, é importante. Por que quem faz isso? “Ah, manda entregar.” Não, ela foi pessoalmente entregar o quadro. “Eu peguei o quadro, eu vou devolver o quadro.” Bateu na porta do museu, porque eu estava em organização porque era aniversário de 50 anos, então eu tinha que deixar tudo organizado. Chegou lá, entregou o quadro pessoalmente pra mim. Sabe, isso pra mim, pode não significar muito pra muita gente, mas pra mim, só o fato dela ter ido lá, entregado pessoalmente isso pra mim, me chamado pelo nome, coisa que eu nunca... “Poxa, ela me chamou pelo nome.” Isso é importante pra você. Qualquer pessoa que te chame pelo nome é importante pra você. “Ah, fulano!” “Ô, cara, vem aqui.” Cara não. Você tem nome. Então eu acho que a pessoa que te chama pelo nome é importante pra você. E ela é uma pessoa importante. Dona Ana, fantástica. Ana Luisa é uma pessoa presente mesmo. Ela é uma pessoa muito importante pra mim ali dentro. Uma pessoa enérgica, às vezes, quando ela quer alguma coisa, fala, fala mesmo, mas eu acho isso bom. Porque você precisa aprender com os seus erros, quando você está errada, você tem que aprender. E ela é uma pessoa assim: ela vê muitas coisas boas suas também. Teve um fato que eu sofri um acidente uma vez e eu cheguei na sala dela lá perto. Ela falou: “Vem aqui, Adriana, senta aí. Conta como que foi.” Poxa, alguém que chega assim e fala: “Me conta. Como que foi?” Isso pra você... são pequenas coisas, mas que vão formando o que você sente pela pessoa. Poxa, eu sinto um carinho muito grande por elas. Por todos ali. Seu Jefferson, Nivaldo, todos eles. São pessoas importantes pra você. P/2 – A relação então é boa. R – É. E hoje em dia está sendo bom também. Eu tive muitas dificuldades ali, mas dificuldades do dia a dia. Dificuldades do dia a dia eu tive, de uma rotina de trabalho. Mas hoje em dia eu também estou tendo uma participação boa das pessoas que trabalham comigo. P/1 – Adriana, você está citando pessoas que são presidentes, diretores, superintendentes, gerentes, pessoas que têm essa relação com as outras pessoas que têm suas funções também importantes dentro do banco. Esse relacionamento diferenciado você acha que revela que essas pessoas incorporaram o espírito do seu Amador Aguiar de trabalhar com os funcionários, com as pessoas? R – Cada um tem o seu jeito. Cada um tem o seu jeito característico ali. Eu vejo assim: todo mundo formou o seu caráter inspirado naquilo que o seu Amador era, com certeza. Mas é o que eu falo: cada um tem o seu jeito. Ali é cada um, cada um. Mas um pouquinho de cada um ali dentro foi importante pra mim, pra eu ter minha forma de pensar em relação a ele. E eu gosto muito deles mesmo. Adoro o seu Mário. O seu Mário é também uma pessoa muito... eu não o conhecia até ele entrar na Fundação. Tive oportunidade de 2 vezes ter contato com ele. Uma pessoa também muito boa, como eu sou simples também. Todo mundo ali dentro começou lá embaixo, vai crescendo, crescendo. E aquele que preserva o caráter, vai até o final com ele e não muda. Então são pessoas que eu admiro. E o seu Mário é também uma pessoa muito bacana e ele guarda um pouco disso. Guarda. Teve uma vez... ele não foi ainda entrevistado? P/1 – Ainda não. R – Não? Então, teve uma vez que ele foi no museu e eu comecei a olhar um quadro com ele e ele lembrou da infância dele. Da infância não, da vida que ele levava na cidade de Piraju, São Paulo. Piraju é uma cidade que eu conheço porque os meus parentes moram lá. E o fato dele ter comentado isso tudo mexeu comigo por quê? Porque você vê que é uma pessoa simples como você, que graças a deus ele alcançou a posição onde ele está. P/1 – Ele é irmão do seu Amador? R – Não. P/1 – Quem é? R – O seu Mário é hoje diretor da Fundação Bradesco. P/1 – Seu Mário? R. Hélio. Mário Hélio. P/1 – Mário Hélio. R – Também é uma pessoa fantástica. Muito bacana pelo tempo que eu tive de convivência. A gente conhece algumas características da pessoa na primeira conversa que você tem. Você já vê muita coisa. Isso é importante. A primeira impressão é sempre importante. P/1 – Fica. R – É. P/2 – Agora assim, aí você entrou pra trabalhar na Fundação, como foi isso? Com convite? Você lembra desses momentos? R – Então, foi isso, porque essa menina saiu. Na época era a Ellen, era o nome dela. Aí essa professora de turismo falou: “Olha, Adriana, eu preciso.” Porque ela que cuidava do museu. Era a Lizete, na época. E ela falou assim: “Olha, eu preciso de alguém pra ficar no lugar da Ellen temporariamente porque ela vai sair de férias.” Mas aí eu acho que ela arrumou o emprego que ela queria, saiu de lá e a vaga ficou livre. E como eu já tinha feito um estágio lá, fui admitida como funcionária efetiva. P/2 – O que você fazia? R – Cuidava do museu. P/2 – Já para... R – Já, de tudo. Só que lá era pequenininho. Era uma sala com a minha salinha e uma sala grande de exposições. Tinha um depósito que ficava longe de tudo, mas depois tudo foi centralizado e complicou a coisa. Aí o trabalho aumentou bastante, porque aí vieram bancos incorporados, veio um monte de coisas de todos os lados, porque o museu ganhou fama. Aí todo mundo mandava coisa pra lá, todos os departamentos. Então o acervo do museu triplicou. P/1 – Isso em que ano? R – 1998. P/1 – Você começou em? R – Eu comecei em 1989. Aí o museu mudou em 1998. P/1 – Já existia o museu em 1988? R – Já existia. O museu existe desde 1983. P/1 – Desde 1983? P/2 – Podia contar um pouco a história do museu? Como ele foi criado? R – O museu tem uma história interessante. Não se sabe ao certo quem foi que... “Ó, foi ele que pensou primeiro nisso.” Mas várias pessoas estão envolvidas nisso. Uma delas é o seu Amador Aguiar. A ideia dele era montar uma exposição dos 40 anos do banco. Tinha que ter uma exposição e aí começaram a desenvolver essa ideia. E nessa época tinha uma pessoa que gostava muito do museu, gostava muito da história do banco. Também é saudosista, porque japonês é sempre preocupado com isso, com a história, com tudo isso. Então era o seu Yokichi que se preocupava muito. Então ele sempre ajudou nessa empreitada. P/1 – Yokishi Oshino? R – Oshino. Então ele se preocupou também com isso. Então ele foi buscando informações, foi buscando os objetos. E o seu Amador também estava ciente de tudo isso. E foi quando idealizaram a exposição dos 40 anos do banco. Foi uma coisa que deu certo. Muita gente visitou a exposição. E acharam: “Poxa, por que... Já juntou tudo isso, então por que não fazer um museu? Vai devolver tudo isso? Vai fazer o quê com isso, com o material?” Aí a escola cedeu o espaço, que foi o primeiro museu. Em outubro de 1983, setembro e outubro de 1983, a escola já tinha cedido o espaço para ser o primeiro museu. P/1 – Museu Bradesco... R – Museu Bradesco já com espaço, já com o lugar definido. A partir daquele momento foi instalado o museu na escola. Aí, depois, em 1998, ganhamos o espaço que era o antigo hotel, a antiga lanchonete, que hoje é o museu. 1998 essa transferência, essa mudança. P/1 – Então o Museu Bradesco, onde está agora, já tem alguns anos? R – Já, desde 1983. P/1 – E esse material já triplicou, quadruplicou? Vem quadruplicando? R – Tem muito material ainda. E ainda tem muito material de outras instituições, o que aí aumenta. P/1 – Qual a sua primeira impressão quando você passou a ser funcionária da Fundação para cuidar do Museu Bradesco? Qual foi sua impressão? Você lembra do primeiro dia, como é que foi? R – É a responsabilidade. Acho que a primeira coisa que você pensa é: “Poxa, olha a responsabilidade que eu vou ter. Cuidar de objetos pessoais, cuidar de objetos do banco. Vão me cobrar isso a vida inteira. E se estiver sujo? Ai, meu Deus do céu! O que que vai acontecer? Ai eu tenho que cuidar o máximo que eu puder. Manter a integridade do objeto até o final da vida dele.” Então é uma responsabilidade muito grande. Você não está lidando com coisas pessoais. Se você estivesse lidando com coisas pessoais, você levava de uma outra forma. Não tão preocupada assim, quanto você está com alguma coisa que não é sua. P/1 – Qual o maior desafio pra você enfrentar essa vida profissional? R – O maior desafio? Foi a minha falta de experiência na época, porque foi meu primeiro emprego. Então essa inexperiência, tudo isso, eu queria aprender. E eu devo muito ao Yokichi mesmo, porque ele foi uma pessoa que me ensinou muito. Como ele estava em contato direto com o pessoal da diretoria, com o pessoal da Fundação, ele sabia do que a diretoria gostava, como eles gostavam. Então ele era uma pessoa que me orientava muito. Ele era um pai pra mim dentro da instituição. Ele é outra pessoa que eu gosto de lembrar. Ele já faleceu também, mas é uma pessoa que eu tenho muita saudade porque ele foi uma pessoa sempre presente também no museu. De dedicação, de tudo. P/1 – E você lembra de colegas de trabalho, alguém especial? Ou era um trabalho mais isolado? R – Eu sempre trabalhei sozinha. Hoje que eu estou trabalhando, tem uma pessoa que me auxiliando sempre, a estagiária. Mas antes eu trabalhava sozinha. Mas eu sempre tive... quando eu ficava lá na escola, o meu contato com as pessoas era bem maior, porque eu estava próxima. Agora que eu fico um pouco distante, o meu contato ficou um pouco distante também. Mas eu sempre tive muita afinidade com todo mundo. Eu nunca tive problemas com isso, graças a deus. Mesmo aqueles atritos que acontecem no dia a dia, você supera, por quê? Porque você tem o seu jeito de ser. Então eu supero bem isso. P/1 – O que mais mudou na Fundação Bradesco durante sua trajetória profissional? R – De tudo? A Fundação mudou em muita coisa. Muita coisa mesmo. Nós tínhamos... quando eu entrei pra trabalhar na Fundação, o que eu tinha? Nós tínhamos a cooperativa, nós tínhamos tudo, nós tínhamos a assistência médica, também a odontológica, tudo. Mas não mudou muita coisa. Depois colocaram o sistema de cartões, tudo, não perdemos nenhum dos benefícios. Ganhamos até novos benefícios, porque nós não tínhamos. Nós só tínhamos uma cooperativa aqui dentro, o que facilitava muito – onde eu comprava os meus tênis pra escola. Os meus uniformes a gente comprava tudo lá. Então eu vi a Fundação mudar em muita coisa. Creio que não tanto quanto as pessoas mais antigas da Fundação, mas eu vi muita coisa mudar ali dentro. Métodos de ensino. Tudo ali dentro mudou. Tudo. A Fundação sempre se preocupou em acompanhar aquilo que está acontecendo. Então a Fundação mudou muito. P/1 – Se adaptou a novos tempos? R – Se adaptou a novos tempos. P/1 – E você, no museu, tem informação e conhecimento das mudanças e trajetórias das outras escolas em outras unidades? R- Também porque é um padrão, segue um padrão. A fundação segue um padrão. Se isso acontece em uma escola, acontece em outras, em outras, em outras. Eles seguem um padrão. P/1 – Você conhece projetos da Fundação? R – Tem bastante projetos. A Fundação tem bastante projetos. P/1 – Algum que você ache, que você goste mais? R – Tem vários. Eu acho interessante essa participação na TV Futura. Eu acho importante a participação dos alunos em pesquisas igual fazem... projetos de pesquisas de alunos, que o aluno vê a dificuldade local e aquilo que ele pode estar fazendo alguma mudança naquele local. Então surgem projetos muito interessantes da Fundação em várias regiões do país. Fora as outras participações de alunos, que nem teve o projeto das tartarugas. Achei lindo o fato deles preservarem tudo aquilo. P/2 – E, uma coisa assim, você lá no museu vai recebendo essas informações... você entrou numa época em que as escolas já estavam consolidadas? Como que era essa coisa? “Vamos fazer mais uma escola?” Como que era essa coisa? O pessoal da Fundação está na expectativa de uma inauguração? Movimentava todo mundo? R – Movimenta, movimenta. Porque é assim: essa fundação que teve agora, Jardim Conceição, movimentou muita gente. Muita gente daqui da matriz foi trabalhar na escola. Foi chamado para auxiliar nesse processo porque é muita coisa. Movimenta uma escola inteira. Movimenta os funcionários. Movimenta tudo. Todo mundo acaba se envolvendo. Eu imagino isso numa outra região. A dificuldade é montar uma escola em uma outra região, porque Osasco você tem isso. Vamos supor, aqui vários funcionários foram lá para colaborar. E em outros lugares? Será que a mesma quantidade de funcionários foi para esses lugares pra fazer tudo isso? Então se movimenta. A Fundação daqui de Osasco teve essa sorte, por estar aqui próximo. Então muita gente foi lá pra ajudar. Agora quem trabalhou em outras escolas, acho que foi difícil de implantar. P/1 – Você acha que a Fundação altera a vida nas comunidades onde ela se insere? R – Com certeza. Se alterou aqui em Osasco... alterou aqui. Você pode ver, você tem... P/2 – Mas o material que você tem de pesquisa... você tem muito documento disso. R – Tudo. Fotos. Você vê por fotos. Fotos aéreas. Você vai lá e fotografa uma escola quando ela é implantada. Daqui a 10 anos você vai lá e fotografa de novo. Pra você ver o que mudou naquela região. Você já tem a idéia do que com que cresce com a implantação de alguma coisa assim, semelhante – uma escola, um centro educacional – alguma coisa que eles implantem naquele local. Cresce, cresce. P/1 – Adriana, o que a Fundação Bradesco representa para os funcionários no passado e atualmente também? R – Olha, não tem um funcionário que não queira que o filho esteja estudando aqui dentro. A briga para colocar um filho aqui dentro. Pode ser de onde for. Até lá da Bahia. Qualquer funcionário, funcionário de agências que querem colocar seus filhos na escola da Fundação, nos Estados, em qualquer lugar. Qualquer lugar. Por quê? Porque a Fundação tem já um perfil. Então as pessoas vão... “Poxa vida! Fundação Bradesco! Eu quero que o meu filho estude na Fundação Bradesco.” P/1 – É a expectativa de melhoria? R – De melhoria. De melhoria, com certeza. Se ela mudou o meu lado, qualquer um pensa da mesma forma. P/1 – Você está em contato com os funcionários da Fundação? São amigos teus pessoais? Fora tem esse contato? R – Tenho bastante. Tenho bastante. P/1 – Como é essa relação? R – É boa porque você fala a mesma língua. Quando eu me sento para conversar com a minha mãe, com o meu irmão... Os 2 trabalham na Perdigão. Aí chego lá e me sento para conversar com a minha mãe e com o meu irmão. Aí os 2 começam a falar de produtos: “Ah, porque o produto não sei o quê...” Eu digo: “Calma lá, calma lá, que daqui a pouco eu vou falar dos meus produtos.” E aí é interessante por quê? Porque quando você se relaciona com um grupo que fala a mesma língua, é diferente. Eu tenho a minha mãe e o meu irmão como exemplo. P/1 – Aí você tem o seu grupo de amigos aqui. R – Eu tenho meu grupo de amigos, porque a gente fala a mesma língua. Então, às vezes, quando nós nos encontramos, de repente: “Espera aí, nós estamos falando de trabalho.” Mas é uma coisa que acaba caindo no assunto. P/1 – É a vida. R – É. E graças a deus eu sempre tive um relacionamento muito bom. E os meus contatos da Fundação são sempre os da escola, onde eu trabalhei mais tempo, porque foi ali no pessoal do prédio mesmo. P/2 – E a turma de turismo de 1989? Onde andam eles? R – Saudades. Eu queria reunir. P/2 – Mas você tem notícia de algum? R – Se vocês proporcionarem isso, quem sabe eu reúno todos eles? Não todos, mas uma boa parte. Eu tenho contato. P/2 – E onde eles andam? O que fazem? R – Muita gente, como eu comentei com vocês – é muita gente – hoje são bem sucedidos. Hoje já são gente de destaque. Mas tem muita gente também que trabalha no banco ainda. Tem muita gente que eu ainda conheço. P/2 – Conta alguns deles. O que eles foram fazer? R – Tem uns 8 que ainda trabalham aqui no banco, que eu encontro, que eu vejo de vez em quando aí. Mas com eles eu tenho... a gente marca de se ver. P/2 – Mas, por exemplo, tal aluno... P/1 – Algum famoso? P/2 - ... tá trabalhando em tal lugar. R – Ah, sim. P/2 – Conta nomes. R – Nomes? Posso falar os nomes? P/1 – Pode, por favor. R – Tenho um amigo que, na época que nós fazíamos turismo, a gente sempre fazia alguma coisa, algum evento prático, alguma simulação, ou fazia alguma encenação. E ele fez uma encenação de um gaúcho. Porque nós estávamos falando sobre a cidade do Rio Grande do Sul e ele queria representar a cidade do Rio Grande do Sul, os pontos turísticos, tudo de lá. Então ele resolveu representar tudo isso em forma de peça teatral. Ele criou um cenário, ele fez tudo, tudo, tudo, e depois ele encenou aquilo. Não tinha um que não tivesse chorado, que não tinha visto que ele tinha potencial pra ser ator. Futuramente, realmente aconteceu isso. Ele se transformou num ator. E hoje ele trabalha.... Ele fez um curso na USP. Fez a ECA [Escola de Comunicação e Artes], estudou na ECA. E hoje ele trabalha como ator. P/1 – Quem é? R – E hoje ele é uma pessoa bem conhecida. É o Caio Pessutti. P/2 – Que é do CPT [Centro de Pesquisa Teatral] do Antunes Filho. R – Isso. Ele mesmo. P/2 – Tem outras pessoas assim? R – Tem o Rodrigo Bertolotto. Até o Rodrigo Bertolotto era uma pessoa fantástica. Ele era um chileno. Pra começar ele era chileno. Ele não era daqui mesmo. Ele nasceu no Chile mesmo. Estudou na Fundação. P/2 – Os pais vieram na época exilados? R – No mínimo vieram. Aí ele veio pro Brasil também e começou a estudar na Fundação. E sempre ele ia pros lados do Chile. Ele falava um pouco enrolado. E ele também, na época que a gente estudava juntos, ele fazia jornaizinhos em sala de aula – tirando sarro de aluno, tirando sarro de professor. Então, esses jornaizinhos, eu guardei tudo. Tá tudo guardadinho na minha casa. E ele colava as figuras. Aquela que parecia com tal pessoa, ele ia lá, colava, fazia e escrevia do lado uma coisa. Então, ele montava um jornal do dia. “Fulano de tal, cicrano...” Aí ele lia lá na frente enquanto o professor não entrava em sala de aula. E aí era uma comédia toda, porque isso tudo ficou registrado: os momentos da sala de aula, daquela bagunça, daquela bagunça consciente que nós fazíamos. Era uma bagunça sadia. E isso tudo ficou registrado em nossos jornais de sala de aula. E futuramente... P/2 – Era quase um diário. R – Era quase um diário. Muito engraçado. E futuramente ele acabou se transformando num redator mesmo, num jornalista. Ele trabalhou na Folha de São Paulo. Hoje está no UOL. Mas é um ótimo jornalista. Já participou... P/1 – Só estava ensaiando. R – É, só estava ensaiando lá na sala de aula. Mas eu pensei que ele fosse partir para turismo. Mas ele partiu pra redator. Por que não fez redator, que também existia na época no curso técnico da Fundação? Nos cursos técnicos tinha redator também. Por que ele não participou? P/1 – E você tratou logo de arquivar tudo? R – Eu guardei tudo. P/1 – Como boa museóloga... R – Eu registrei tudo isso. P/2 - ... era um ensaio de todos. P/1 – Um ensaio de todo mundo. Era um ensaio geral. R – E agora eu guardo registros, porque a Fundação foi tudo. Então eu guardo registros de várias épocas. P/1 – Desde pequena você tem esse hábito? R - De guardar as coisas? Sim. P/1 – De arquivar as coisas? R – Coisas assim que eu acho que vão trazer à memória alguns momentos importantes pra mim, eu guardo. Acho interessante. P/1 – São já algumas histórias de transformação de vida, mas você tem alguma história de transformação de vida que tenha marcado mais você nesse seu decorrer? R – Ah, sim, a minha própria vida. Minha própria vida. Eu falei pra vocês, meu pai e minha mãe não tiveram oportunidade de me dar tudo aquilo que eu queria, mas isso nunca foi motivo pra que eu deixasse de lado ou desistisse de alguma coisa. Então a Fundação, o meu trabalho, tudo, me fez ver de uma forma diferente e fez com que eu crescesse. Eu mesma, sem precisar que o meu pai me ajudasse, ou minha mãe, em transformar isso em orgulho pra eles. Isso é o mais importante. Então eles não puderam me ajudar, mas só o fato deles verem que eu cresci dentro duma escola... não só a Fundação, mas desde pequenininha ali, de eu me formar, de eu ser uma pessoa hoje bem-sucedida... Eu digo que eu sou bem-sucedida, eu não estou dizendo bem–sucedida financeiramente, eu estou dizendo bem-sucedida profissionalmente. Eu faço o que eu gosto. Trabalho naquilo que eu gosto, então eu estou realizada. Isso é a minha maior realização. P/1 – Bem-sucedida como pessoa? R – Como pessoa. P/2 – E a pessoa, pessoalmente, como foi? Você namorou muito? R – Eu não. Olha só. Deixa eu te contar. Eu era muito mirradinha, muito magrinha. Não tenho preconceito nenhum contra isso, mas eu era uma pessoa meio mirradinha. Então, pra chamar a atenção, eu era sempre a última. Sempre a mais... pra chamar atenção. Então eu nunca chamei a atenção de nada. E pela minha simplicidade de falar, de agir também. Então eu não chamava muito a atenção. Eu comecei mesmo a me interessar por molecada, essas coisas todas, foi com 18 anos de idade. Eu já estava na Fundação Bradesco. Foi só aí que eu comecei mesmo a... Meu primeiro namorado, por incrível que pareça, foi aos 18 anos. 18 anos que comecei a namorar. P/1 – Você já estava na Fundação? R – Namorar não era assim... Meu primeiro namorado firme mesmo foi o meu marido hoje. P/2 – O oficial? R – Esse foi firme. Durou 8 anos. Depois a gente se casou, mas... olha! P/2 – Quem é ele? R – Fabiano. P/1 – E como você o conheceu? R – Eu conheci o Fabiano por um acaso também. Eu conheci uma professora da Fundação Bradesco - até que eu tive contato, tive bastante contato com ela – e teve um dia que a sogra dela ia comemorar o aniversário num restaurante aqui em Osasco. E eu fui. P/1 – Quem era a professora? R – Maria Irene. Ela era professora de contabilidade da Fundação. Aí eu conheci a Irene e fui comemorar o aniversário da sogra dela. Foi nessa ocasião que eu conheci o Fabiano. Mas, até aí, passou um dia... P/2 – Ele era parente da Irene? R – Ele era primo do namorado da Irene. Eu chamava de namorado, mas... depois se tornou marido dela. Hoje ela não está mais com ele, mas era o marido, o namorado dela na época. Então foi no aniversário dela que eu conheci o Fabiano. Fiquei com ele. P/2 – Aí 8 anos de namoro. R – Não. É isso. 8 anos de namoro. Aí depois 1 ano de casamento. P/2 – É recente? R – Recente. Recentemente não. 8 anos é uma convivência. P/1 – Vocês não têm filhos por enquanto? R – Ainda não. Pretendo pro ano que vem. Não posso deixar mais... Mas pro ano que vem. P/2 – Daí, fazendo essa avaliação da sua vida, das perspectivas, faz uma avaliação: “Eu, Adriana, pessoa, cresci...” R – “Eu, Adriana, pessoa?” P/1 – Como você vê todo o seu desenvolvimento? P/2 - ... o que você se tornou? R – Olha, eu vejo assim do que eu era, pro que eu sou hoje, nossa! Eu não sou um tipo de pessoa que vou me vangloriar, nada disso, porque eu sou uma pessoa que sou alheia a esse tipo de comportamento, de ficar “Ah, eu sou uma pessoa importante. Eu sou isso, eu sou aquilo.” Mas eu acho assim, eu, como Adriana, sou uma pessoa realizada e sou uma pessoa feliz, por quê? Porque eu plantei a minha sementinha ali e eu mesma me vi crescendo ali e hoje eu me transformei naquilo que eu sou. Isso tudo envolve caráter, envolve formação, envolve disciplina dos pais, envolve tudo. Envolve escola, envolve tudo. Eu vi como eu cresci. Cresci por conta de tudo isso que aconteceu na minha vida, de bom que aconteceu na minha vida. Eu não tenho um fato que eu possa dizer: “Foi ruim o que aconteceu na minha vida.” Até o aprendizado que eu tive... porque o meu pai faleceu há 5 anos atrás. Até o fato dele ter falecido pra mim foi um aprendizado. Então eu não levo como um “Ah, meu pai morreu!” Não, eu levo: “Ah, meu pai morreu, mas ele foi uma pessoa importante pra mim.” Meu pai morreu, mas ele me viu crescer, ele me viu me formar, ele me viu, se alegrou comigo. Isso pra mim é o que importa. Só isso. P/2 – Você também fez a sua parte pra ele? R – Fiz a minha parte pra ele, então eu não tenho nada, nenhum motivo pra dizer: “Eu sou triste por causa disso.” Graças a deus. Eu não tenho um motivo pra dizer que eu tenha de momentos tristes na minha vida. Graças a deus. P/2 – Teria feito algo diferente? R – Não. A não ser que fosse ter partido para uma faculdade antes. Esse tipo de coisa que não afetou muita coisa pra mim, porque existe momento certo pra tudo, não é verdade? Não é pra acontecer agora, vai acontecer futuramente. Você vai fazer acontecer no momento certo. Então tem momento certo pra tudo. Eu não me arrependo de nada. Não voltaria atrás... só voltaria atrás no tempo pra lembrar tudo isso de novo. E isso eu estou fazendo agora. Tô voltando atrás de muita coisa. É lógico que eu não estou lembrando aqui de muito mais coisa que eu gostaria, mas muita coisa eu já voltei. Esse túnel do tempo pra mim foi muito bom. P/1- Adriana, na sua opinião, qual a importância da Fundação Bradesco pra história da educação da Adriana em primeiro lugar? R – Da Adriana? P/1 – Para sua educação, para sua formação, qual a importância da Fundação Bradesco? R – Tudo o que eu te falei, porque a Fundação foi importante em tudo pra mim. Tudo aquilo que eu não tinha, ela supriu. Então eu aprendi muita coisa. Muita coisa em termos de valores, em termos de tudo. De crescimento. P/1 – Ela supriu e fortaleceu? R – Fortaleceu. De crescimento. Eu falei assim: “Eu tinha professores ótimos, mas dependia de mim.” Então eu acho, o fato de eu de ter feito com que eu visse isso, que não dependia só do professor, não dependia só da escola, dependia de mim, o fato de eu me valorizar, de falar assim: “Eu tenho que crescer” foi importante da Fundação para mim. P/1 – E a importância da Fundação Bradesco na história da educação brasileira? R – Brasileira? Ah, nem tem como falar. É difícil. Eu ficaria aqui uma semana falando. Só ter como base tudo isso que está acontecendo com a Fundação, todas essas escolas, todos esses alunos assistidos pela Fundação Bradesco... É um orgulho tão grande que eu sinto, de ver isso. Pelo pouco tempo de experiência que eu tenho de Fundação, porque 19 anos, em vista de muitos, não é muito tempo ainda. Mas eu acho que cada um que entra, entrou há 5 anos aqui, já consegue ver isso. Poxa vida, a Fundação tem uma importância tão grande. Isso tudo, poxa vida, não é nem tão divulgado assim. Imagina se fosse divulgado. O que tinha de pessoas que estariam orgulhosas de alguma instituição como o Bradesco está fazendo isso pras crianças, pras pessoas. Porque hoje não são só crianças. Hoje são adolescentes, são jovens, são senhores. Poxa vida, o que não está fazendo pra muita gente? Aqueles que não tinham perspectiva de nada, aqueles senhores. Eu vi uma senhora mesmo: “Ah, eu não tenho mais ânimo pra nada.” “Vai fazer um curso de computação.” “Aonde?” “No Bradesco. O Bradesco dá um curso de computação para senhores. Por que não? É uma forma de você retomar tua vida e dar continuidade a ela. A senhora não morreu.” Então tem cursos, tem um monte de coisas que muda aquela idéia de “Ah, acabou minha vida. 60 anos já estou velha. Não quero mais nada.” Não, sua vida continua. A Fundação está aí pra atender esses... P/2 – Você acha então que onde a Fundação está atuando ela faz diferença? R – Faz diferença. Com certeza faz diferença. Nesses bairros mais carentes, nessas escolas mais carentes, você vê mais ainda. Porque eu vejo assim: existe uma diferença de uma escola que nem a Fundação, aqui da matriz, com as demais. Porque as demais atendem mais às regiões carentes. Aqui nós temos bastante filhos de funcionários, então tem uma outra forma de ver a vida. Então não tem as mesmas necessidades que essas pessoas têm nessas regiões. Então é diferente. P/1 – Como a escola do Jardim Conceição, por exemplo? R – É, por exemplo. Eu tenho como diferenciar os alunos que visitam aqui o museu. Jardim Conceição e da Fundação. Os do Jardim Conceição são super interessados, porque eles estão tendo acesso a isso agora. “Poxa, eu estou visitando um museu!” Como eles vieram recentemente aqui, alguns deles, "Poxa, eu tô visitando um museu do Bradesco.” A importância deles de visitar o museu do Bradesco... Agora os alunos da Fundação... é diferente. P/1 – Eles estão habituados. R – Eles estão acostumados a isso. Vivem fazendo trabalhos assim, saindo pra outros lugares, que eu acho muito importante também. Então eles estão habituados a isso. Agora a pessoa de fora, aquilo tudo é novidade. Aquilo tudo pra eles é importante. Eles dão muito mais valor pela necessidade mesmo. Essa é a importância da Fundação nessas regiões, eu acho. P/1 – E qual a importância pra você, Adriana, desse projeto Memória 50 anos da Fundação Bradesco? R – Olha, foi a melhor coisa que aconteceu pra Fundação. Eu acho que eles não deveriam ter tomado outra decisão em fazer isso. Porque a Fundação tem uma história. Pelo pouco que eu tenho acesso às informações históricas da Fundação, porque eu trabalho não só com a história da Fundação, mas do banco também. Então agora que eu estou pegando firme mesmo na história da Fundação. Eu vejo que tem muita coisa. Muita coisa pra ser resgatada. Muita história bonita. Muita história de vida que se formou ali dentro da Fundação. Eu acho que precisa ser resgatado tudo isso. Esse trabalho que está sendo feito é maravilhoso. Eu, na minha visão de quem trabalha no museu, não ia pensar dessa forma? Que trabalho com a história, que trabalho com o resgate da memória, eu acho isso importante. P/1 – Você acha que pode servir de modelo? R – Com certeza. Se todas as instituições resolvessem fazer um trabalho como esse, você ia descobrir coisas que você não vê no dia a dia. Você vai descobrir coisas que vão muito mais além do que aquilo que você vê no dia a dia. É trabalho, rotina, não. Você vai ver pessoa, ser humano. Você vai descobrir pessoas, você vai descobrir seres humanos. Vai descobrir pessoas que trabalharam e fizeram crescer uma instituição. Eu acho que é isso. Eu acho que tudo isso tem que ser resgatado. P/1 – E deve projetar esse trabalho da Fundação Bradesco não só como marketing, mas como um exemplo mesmo? R – Um exemplo, com certeza. Só o exemplo. Porque eu vejo assim, eu sempre falo pras pessoas: “por que o museu existe?” Eu, se eu fosse ter, se eu fosse sua amiga, eu queria saber de onde você é, filho de quem que você é, eu ia te conhecer primeiro pra depois ser sua amiga. Porque eu não ia chegar: “Ah, eu vou contar a minha vida pra você.” E você ser amiga assim, do nada. Não, eu ia te conhecer primeiro, senão nada feito. Eu ia buscar as suas origens, eu ia me familiarizar com você e aí sim. O banco é a mesma coisa. Então se eu quiser ser cliente, eu preciso conhecer o perfil do Bradesco, preciso conhecer a Fundação Bradesco. Eu vou ser cliente do Bradesco, eu vou depositar o meu dinheiro no Bradesco. Eu preciso conhecer o Bradesco. Ta aí a função do museu: mostrar o perfil, aquilo que ele realmente é, o Bradesco é. E esse resgate, toda essa, foi com o tempo que foi sendo descoberto. E hoje o Bradesco mostra o seu perfil através do museu. É uma forma de mostrar a sua existência. Eu acho muito importante esse resgate. Você está conhecendo uma instituição pelo que ela é de fato, não porque as pessoas falam simplesmente. Não. P/2 – Puro marketing? R – Puro marketing não. E eu acho interessante isso porque a Fundação nunca se preocupou com isso mesmo, de “Ah, vou fazer um marketing da Fundação.” Hoje a Fundação tem mais divulgação, mas mesmo assim a preocupação dela, o foco dela não é esse. “Eu vou expor o trabalho. O Bradesco vai mostrar que ele também trabalha na área social.” Não. A Fundação vai completar 50 anos... o que foi falado da Fundação que as pessoas sabem? Quase nada, porque o objetivo dela não é esse. O objetivo dela é fazer a assistência social acontecer. E não: “Ah, vou mostrar que o Bradesco faz alguma coisa.” Eu acho isso interessante, muito interessante. P/1 – E o que você achou, Adriana, de participar dessa entrevista para esse projeto de história oral e da produção de um livro especial da Fundação Bradesco? (fim do CD 2) CD 3 P/1 – Adriana, o que você achou de participar dessa entrevista para esse projeto de história oral e para publicação de um livro, edição especial, da Fundação Bradesco? Esse projeto Memória 50 anos? R - Então, é importante justamente por isso: esse resgate dessa memória toda da instituição. Precisa ser resgatada. Tem muita coisa boa, de muita gente que vai estar falando também coisas importantes daquilo que a gente não vê nos livros, nas publicações do banco. E vão estar falando com mais carinho e da pessoa mesmo vai ser descoberta. Isso que eu acho importante e o trabalho do Museu da Pessoa em relação a isso está sendo interessante por isso: o resgate disso tudo. Então tem diretores, têm alunos, tem todas essas pessoas que fizeram parte da história da Fundação e que precisam ser investigadas, igual está sendo feito com a gente. Então acho que isso é muito importante. P/1 – E a sua participação? Como você vê a sua participação nesse processo? R – Ótimo por isso mesmo. Porque muita coisa que eu não tive oportunidade de falar a respeito da Fundação, eu tive hoje. As pessoas me conhecem como Adriana, funcionária do museu, mas não me conhecem como Adriana, que trabalha no museu e que é uma pessoa que admira o trabalho da Fundação Bradesco por isso ou por aquilo, por tudo o que foi falado. Então eu achei muito importante participar disso. Foi uma alegria muito grande poder estar participando disso. Muito grande mesmo. Porque a minha época de Fundação voltou e eu estou relembrando muita coisa com esse trabalho. Acho que é isso: você voltar, trazer à memória aquilo que foi importante pra você. E isso aconteceu através desse trabalho. P/2 – Tem alguma coisa que a gente deixou de perguntar que você ache importante você estar falando? R – De falar? Olha, se eu for falar aqui... É que quando cutuca, quando vocês cutucam é mais fácil ainda porque a gente vai lembrando daquelas coisas, porque muita coisa aconteceu de bom. Nossa, muita coisa! Muita coisa mesmo! Se eu chegar eu vou falar até hoje, amanhã... São 19, 18 anos de Fundação. Então tem muita coisa pra se falar. Mas eu acho que vocês, naquela parte, foram fundo. P/1 – De que parte? R – Tudo. Acho que só o fato de vocês fazerem a gente se lembrar de muita coisa da nossa infância, desde a nossa infância foi importante. Isso é importante. P/2 – Hoje vai ligar pra mãe e pro irmão. R – “Mãe, você nem sabe. Lembrei daquilo que... Nossa!” Mas foi muito legal. P/1 – Então em nome da Fundação Bradesco e do Museu da Pessoa, Adriana, a gente agradece muito a sua entrevista. R – Obrigada, eu que agradeço. P/1 – Obrigada. R – Foi muito importante. --------------------- Fim da entrevista ---------------------
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