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História

Pelo direito à moradia

História de: Pedro Adilson Souza Guedes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/05/2010

Sinopse

Baiano, do pequeno munício de Ipupiara, Pedro passou a infância rodeado pelo princípio de comunidade. Em busca de oportunidades mas a contragosto, mudou-se para São Paulo com a família quando jovem, passando por um difícil período de adaptação, bem como pelas dificuldades financeiras e locais do Jd. Brasil, onde morava. Atualmente Pedro trabalha como camelô junto a um de seus filhos, e luta pelo direito de residir em sua casa, que fica em ocupação próxima ao Brás.

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História completa

P/1 – Pedro, a gente começa pedindo para você nos contar o seu nome completo, o local em que você nasceu e a data do seu nascimento.

 

R – Eu sou o Pedro, nasci dia 29 de junho de 1960, na cidade de Ipupiara, na Bahia. Vim para cá [São Paulo] com 18 anos. De vez em quando eu volto à minha cidade, mas estou aqui há cerca de cinco anos, aqui nesse assentamento. É o seguinte: aqui era uma firma de filtros, a firma faliu, ficaram os funcionários e eles não receberam. Ficaram e venderam os terrenos, nós fomos uns dos que compraram e estamos aqui. Agora nós estamos na iminência de ordem de despejo, lutando para ver se a gente consegue ficar por aqui, porque a gente quer ficar, já que aqui tem escola, tem creche perto, tem mercado, é perto do serviço da maioria do pessoal que trabalha... Então nós estamos lutando para ver se a gente consegue alguma coisa aqui, ver se a gente consegue moradia.

 

P/1 – Certo. Vamos começar lá do começo. Como é que os seus pais se chamam? Eles são vivos ainda?

 

R – Não. Meu pai faleceu em 1977. Minha mãe ainda é viva, ela mora aqui no Jardim Brasil.

 

P/1 – E os nomes dos dois?

 

R – O nome do meu pai é Élcio de Sousa Guedes, a minha mãe é Adalgisa Sousa Guedes.

 

P/1 – E o que seu pai fazia?

 

R – Meu pai trabalhava de guarda noturno e minha mãe era costureira.

 

P/1 – Isso tudo lá na Bahia.

 

R – Tudo na Bahia.

 

P/1 – E como é que eles se conheceram, você sabe?

 

R – Ah, eles são todos da região, então se conheceram como todo mundo, através de parentes... Aquele negócio, se conheceram, ficaram juntos, casaram. Nós somos uma família de nove pessoas, sendo duas mulheres e sete homens.

 

P/1 – Nove contando o pai e a mãe?

 

R – Não...

 

P/1 – Nove irmãos...

 

R – Nove irmãos.

 

P/1 – E você está em qual degrau da escadinha?

 

R – Eu sou, da escadinha... É Gilson, Élio, Wilson, Glória, eu sou o quinto.

 

P/1 – E os nove nasceram lá na Bahia?

 

R – Os nove, todos da Bahia.

 

P/1 – E como é que era a infância lá na Bahia dessa turmona?

 

R – Ah, na época era boa. Até meus dez, 12, 15 anos ainda era boa, mas depois começou toda aquela dificuldade: “Vamos pra São Paulo que lá é melhor, tem mais serviço, tem mais isso, tem mais, aquilo...” Então, como todo migrante, nós viemos pra cá.

 

P/1 – Mas antes de vir pra cá, como é que era a sua casa? Você se lembra  de onde você morava quando era criança?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Conta pra gente como é que era?

 

R – Minha casa era uma casa normal, tinha três cômodos. Tinha a casa, atrás tinha uma área em que a gente brincava. A gente fazia as brincadeiras normal, salva, brincar com aqueles negócios que lá usava muito, aqueles carrinhos. Naquele tempo não tinha negócio de carrinhos, a gente mesmo fazia os nossos carrinhos.

 

P/1 – E a cidade lá era pequenininha?

 

R – É pequenininha. Hoje a cidade deve ter, se tiver, uns 12 a 15 mil habitantes.

 

P/1 – Na época era menor ainda.

 

R – Na época era... Não era nem cidade. Na época era chamado de Jordão. Depois que veio o nome de Ipupiara e emancipou, porque lá era município de Brotas, depois que emancipou veio o nome de Ipupiara. Mas naquele tempo era Jordão, chamava Jordão.

 

P/1 – Pedro, quais são as imagens que você traz guardadas na lembrança daquela cidade, naquela época, um lugar, uma rua, como é que era a cidade?

 

R – Ah, eu guardo muito a rua em que a gente morava, que chama Rua Sete. Por quê? Porque a gente ficava a maior parte do tempo lá, então a gente brincava... Lá tinha uma escola mais pra cima. A gente ficava a maior parte do tempo que eu passei em Ipupiara, eu recordo mais da Rua Sete e em frente à Igreja...

 

P/1 – Descreve pra gente essa Rua Sete, a Igreja, como é que era?

 

R – Essa Rua Sete não era muito larga, tinha uma calçada, mais ou menos de um metro, no meio era aquele areião, lá tem muita areia. Então tinha aquele areião e a gente ficava ali brincando, brincava de bola. Na escola... Tinha um campinho em frente à escola, tinha aquela escola grande, normal, ali tinha um campo, a gente brincava de bola, brincava de corrida, aquelas brincadeirinhas de carregar as coisas. E era a Rua Sete, a escola e a Igreja, os lugares que eu mais ficava eram esses.

 

P/1 – E a Igreja, o que é que você fazia lá na Igreja?

 

R – Ah, à Igreja eu ia muito, tipo assim, a gente ia, mas só para fazer visita. Era um ponto de encontro, os pais iam rezar e a gente ficava em frente à Igreja brincando. Por isso que lá a vida era boa, ficava o tempo mais envolvido com a brincadeira.

 

P/1 – E seu pai, como é que era o seu pai?

 

R – O meu pai era bem rigoroso, sabe? Se falasse uma coisa, você tinha que obedecer. Já a minha mãe não, era mais branda, mais amiga. Ela tinha jeito de conversar, tinha jeito de falar. Agora meu pai, a coisa tinha que ser do jeito dele, se não fosse, aí era muita briga... Briga não, muitas vezes discussão. Mas ele era muito rigoroso, se chegasse aqui e falasse assim: “Eu quero assim e assim”, tinha que ser do jeito dele.

 

P/1 – Quando você se lembra do seu pai na infância, lá na Bahia, qual é a lembrança que você mais gosta de ter? A lembrança mais gostosa que você tem dele?

 

R – Dele? Eu... Por incrível que pareça, eu gosto dele também nessa parte, sabe? Ele era muito sincero, o que ele tinha que falar com você ou com qualquer um, ele falava. Se ele falasse uma coisa com você, tinha que ser aquilo, e ele fazia por onde ser assim. Então, por ele ser rigoroso, a parte que eu gosto dele também é essa. Ee também era muito... Quando estava de boa ele era muito brincalhão, conversava.Falador, ele gostava muito de falar, gostava muito de ouvir também as pessoas, então a parte que eu gosto dele é essa aí.

 

P/1 – E a escola. Você frequentava a escola lá em...

 

R – Em Ipupiara? Frequentava. Eu tinha minha professora, dona Débora. Naquele tempo não tinha assim a discriminação, era do primeiro ano até o quarto. Então era uma sala para diversas turmas. Dona Débora era a professora oficial e tinha a Maria dos Anjos, a auxiliar de dona Débora. O que é que a Maria dos Anjos fazia? A dona Débora dava uma lição, a Maria dos Anjos ficava para gente não bagunçar, para a gente dar continuidade, pra gente ficar estudando.

 

P/1 – Você gostava de ir à aula?

 

R – Eu gostava, até que eu gostava. Só não gostava muito de um castigo. Se pegasse a gente bagunçando, colocava a gente lá fora da escola e aquilo lá era terrível, porque ficava uma ou duas semanas só o pessoal te gozando. Então aquilo era o fim, quando falavam assim: “Fulano de tal vai ficar lá fora”, era o terror.

 

P/1 – E você ficou lá até moço? Você veio com 18 anos?

 

R – É, eu fiquei lá, passei minha juventude toda lá.

 

P/1 – E como é que era ser jovem lá nessa cidadezinha?

 

R – Ah, é uma cidadezinha boa, mas era muito limitada. A diversão que tinha era uns bailezinhos de vez em quando, aquelas festas. Baile não, que lá tinha aquelas festas. Lá tinha o dia melhor pra gente, que era segunda-feira. Por que segunda-feira? Dia de domingo à tarde para segunda, que lá a segunda-feira era dia da feira, então eram aqueles lugarzinhos que reuniam o pessoal, era dia de domingo. A feira é segunda-feira, mas aí o pessoal vinha daquela redondeza toda, porque lá é uma cidadezinha... É Norte da Bahia, então é uma cidade pequenininha. E vinha mais, em volta daquilo lá tinham muitos arrabaldezinhos, vinha tudo para lá. O final de semana para a gente era maravilhoso, era bom justamente por causa disso, porque vinha a maioria do pessoal, aí tinha aquelas brincadeiras, as farrazinhas. Só que as farras eram mais o seguinte, era só a gente pegar e ir para as roças, brincar, conversar... Aquele pessoal que vinha tinha hora que voltava para o lugarzinho deles também, que era menorzinho ainda, tinha hora que tinha uma, duas, no máximo cinco casas. Mas pra gente era uma diversão, a nossa diversão era essa.

 

P/1 – Mas aí quando vinha essa turma toda da região, dos vilarejos, o que é que acontecia lá? Tinha música? Conta pra gente como é que era essa diversão.

 

R – A diversão nossa era mais música, o pessoal gostava muito. Lembro que era o sonho de todos nós – eu, por exemplo – aqueles toca-discos, ou então toca-fitas, aqueles grandões. Lá não tinha energia, a energia era de motor, a energia até oito e meia, nove e meia, às dez horas já não existia mais luz. Então é o seguinte: quem tinha um toca-fitas com música era o mais assediado, o mais queridinho de todo mundo, todo mundo queria fazer amizade, porque aquele ali, onde falasse bem assim ó: “Quando Fulano vai lá, ia todo mundo”. Porque ele atraía o pessoal por causa da música, então o pessoal saía de Ipupiara, ia, vamos supor, para a Barra, para outros lugares, e tinha que ter a música, o que atraía muito era a música. Música ou, muitas vezes, uma família grande ia fazer uma farra. Vamos supor, colher feijão, colher alguma coisa. Então juntava e fazia um mutirão. Depois fazia uma troca, eu ia lá esse final de semana, que ia ter uma grande cata de feijão, ficava lá dois, três dias ou uma semana, o pessoal dava o almoço, dava a janta, e você trabalhava para a pessoa. Quando você também ia colher alguma coisa, aí vinha aquele monte de gente também para sua roça para colher, lá eles usavam muito isso, a troca. Assim, eu vou te ajudar, aí amanhã ou depois você vem e me ajuda, eram umas coisas que a gente fazia também. Eu lembro que meu pai, como ele era um cara muito comunicativo, ia muito às roças pegar as coisas, dividir, a gente usava muito isso. Hoje já não, a gente de vez em quando vai lá. Hoje não tem mais, mas na minha época o pessoal fazia muito isso.

 

P/1 – Pedro, na sua adolescência lá na Bahia, você se lembra qual era o grande sonho que você tinha nessa época?

 

R – Eu queria ser caminhoneiro ou dar aula. Eu queria estudar e tudo, mas depois eu fiquei meio relaxado, aí eu não fiz nem uma coisa, nem outra. Mas era ou ser caminhoneiro ou professor.

 

P/1 – E por que é que você queria ser caminhoneiro ou professor. O que tinha de bom nisso?

 

R – Por quê? Caminhoneiro conhecia vários lugares, várias coisas, convivia com várias situações, eu queria ser justamente isso, então me atraía mais ser caminhoneiro. E professor também, né? Porque você conhece muita gente, você vive várias situações, então isso também me atraía...

 

P/1 – E seus irmãos, nesse meio tempo todo, estavam todos lá com você, participavam das mesmas brincadeiras?

 

R – Os meus irmãos é o seguinte: vieram os mais velhos para cá, ficaram aqui, depois foram trazendo o pessoal, você ia fazendo 18 anos: “Vamos para São Paulo que aí você vai conseguir ajudar o pessoal”. E nós fomos fazendo isso, viemos pra cá, depois trouxemos nossos pais...

 

P/1 – Ah, então, vocês vieram antes dos pais.

 

R – É.

 

P/1 – Conta pra mim como é que foi a sua vida. Como é que foi esse planejamento pra você vir pra São Paulo?

 

R – Ave Maria! Não, foi confuso. Porque lá, com todas as dificuldades... Eu, por exemplo, não queria vir, mas vim porque o pessoal começou: “Não, vamos que vai todo mundo...”. Aí o pessoal começou a vir, mas no meu íntimo mesmo, eu não queria vir pra cá. Mais novo você não pensa muito, você não tem muitos sonhos, então eu achava: “Pô, eu vou vir pra cá, o que vai acontecer comigo? Como é que vai ser, tudo diferente, tudo...”. Então nós viemos para cá, foi meio difícil, como qualquer mudança. Quando eu vim, já vieram os meus irmãos todos, eu fui a última remessa a vir, por isso que eu acho que os outros vieram, aí fiquei: “Será que eu vou? Não sei se eu vou, acho que eu vou ficar por aqui”. E comecei. Lá também me prendia muito, namorava, tinha namoradinha... Então aquilo me deixou meio frustrado. Quando eu vim para cá eu fiquei meio frustradão, falei: “Pô, o que é que eu vou fazer lá? Como é que eu vou fazer?”

 

P/1 – Pedro, você se lembra do dia da sua vinda? Do dia exato, assim...

 

R – Lembro.

 

P/1 – Conta pra gente.

 

R – A gente chegou aqui, antigamente a rodoviária era lá no Centro... O meu pai já tinha conhecido aqui, já tinha vindo aqui, então nós ficamos esperando um pessoal para vir buscar a gente e esse pessoal atrasou. Ficou aquele monte de gente – eu, meu irmão, minha irmã; eu, o Neto, a Gláucia, o Pelé – aquela confusão. Conclusão: o cara chegou acho que eram oito horas, nove horas da noite. Nós chegamos acho que eram quatro horas, três horas da tarde, ficamos até às oito horas. Aí: “Vamos arrumar um táxi”. E como é que arrumava um táxi? Que era o seguinte, só criança eram quatro, aí meu pai... Seis pessoas: “Vamos dividir o táxi”. Foi uma confusão brava, e vai uns na frente, vai outros, não vai. Aí chegou. Era um lugar estranho, um bairrozinho no Jardim Brasil, um bairro que também estava começando, era um bairro meio complicado. As ruas não tinham asfalto, não tinha esgoto, não tinha nada, praticamente nada. Quando eu cheguei, logo vi aquela rua toda estranha. Estava acostumado lá na nossa rua, a minha rua, a Rua Sete. Era uma rua, tinha uma calçada, calçada meio alta, tinha areia, então eu imaginava que ia ser diferente. Aí cheguei, muito diferente: muito esgoto, muita água, essa confusão toda, isso aí ficou marcado, falei: “Caramba! Pô, nós lá no bem bom...” Aí começava a chorar: “Você trouxe a gente pra cá? Lá estava tão bom e você veio buscar a gente. Nós estamos aqui, e agora? Onde nós vamos dormir? Como é que nós vamos fazer?” Então a minha chegada aqui foi meio tumultuada. Mas depois de tudo, chegamos, a minha mãe... O pessoal já tinha arrumado a casa pra gente ficar, só que a casa era pequenininha. Nós dividíamos os dois quartos. Minha mãe e meu pai no deles e outro para as meninas. Aqui já foi tudo complicado, que eram só três cômodos: cozinha, sala e quarto, então ficou meio complicado. Teve que dormir todo mundo junto, ficou meio difícil. No começo, pra gente, foi muito difícil, como é para qualquer pessoa. Você está num local estabilizado, lá a casinha era ruim, o bom é que era da gente, lá na Bahia, lá em Ipupiara. Veio para cá e aqui já começou com o problema da casa, de moradia, de espaço, porque era muita gente para um espaço pequeno. Lá era um espaço até maior, só que também começou o problema financeiro...

 

P/1 – E seus irmãos que já estavam aqui, onde é que eles estavam nessa história toda?

 

R – Nessa história toda eles estavam morando na Zona Leste, mas como nós viemos, então eles acharam por bem vir todo mundo e ficar todo mundo junto. Também, nós somos muito unidos, onde está um, estão todos, então veio todo mundo ficar no Jardim Brasil.

 

P/1 – Os 11?

 

R – Os 11. Eu, meu pai, minha mãe, minha irmã, minhas duas irmãs, meus irmãos todos, o Hélio, o Wilson, o Gilson.

 

P/1 – E todos na casa de três cômodos.

 

R – Todos na casa de três cômodos. E agora imagine então, foi meio tumultuado, era um espaço muito pequeno pra muita gente. Mesmo assim, com todas as dificuldades, começamos a ir se virando, trabalhando. Os meninos já estavam trabalhando, então quer dizer que foi melhorando. Fomos fazendo um negocinho para aumentar a casa, começamos a pagar o aluguel... Aí a minha mãe fez um acordo na firma, pegou um dinheiro emprestado e compramos a própria casa onde morávamos. Ela trabalhava numa firma no Brás, de costureira. Nós estávamos pagando aluguel há uns dois anos, aí ela foi, comprou a casa e começamos a melhorar. E como melhorar? A crescer a casa. Aí ficamos na casa que começou a crescer, ganhava um dinheiro, fazia um comodozinho, fazia dois cômodos. Aí eles ficaram igual, minha mãe ainda mora lá nesse local, só os outros que saíram. Tem um irmão meu que mora no Bom Retiro, outra mora em Itaquera, tem um irmão que mora no Jardim Brasil.

 

P/1 – Mas quando você chegou aqui, você já tinha os seus irmãos. Seus irmãos aqui estavam trabalhando em quê?

 

R – Um trabalhava na marcenaria, o Hélio trabalhava em transportadora; Gilson, Wilson e a Glória não trabalhavam, só estudavam. Aí os outros trabalhavam, só trabalhavam.

 

P/1 – E seu pai foi trabalhar aonde aqui?

 

R – O meu pai foi trabalhar aqui na Nadir Figueiredo.

 

P/1 – Fazia o que lá?

 

R – Meu pai era guarda noturno.

 

P/1 – Guarda noturno.

 

R – Aí meu pai trabalhava de guarda e a minha mãe trabalhava na fábrica aqui no Brás.

 

P/1 – E você?

 

R – Comecei a trabalhar numa fábrica de malas quando eu cheguei, na Rua Marcos Arruda. Fazer aquelas malas grandonas. Comecei a trabalhar, fiquei dois anos e pouco aí.

 

P/1 – E como é que era esse trabalho de fazer malas?

 

R – Lá eu pegava a matéria-prima e colocava para o cara dobrar, fazia essas dobradiças. Aí vinha com uma máquina quente, passava e dobrava. Quando foi um ano e pouco, eu passei a dobrador, que ganhava mais. Eu carregava os negócios e ganhava um salário, passei a dobrador: 600, 700 reais, se fosse preço de hoje. Fiquei nesse serviço três anos, saí e fui trabalhar em uma fábrica de eletrônicos na Rio Bonito. Fiquei trabalhando lá, depois saí. Fiquei um tempo em Minas, fui por um tempo para Minas, depois voltei para cá...

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho. Você se lembra o que fez com o primeiro salário?

 

R – Meu primeiro salário?

 

P/1 – Aqui em São Paulo quando você ganhou lá na fábrica de mala.

 

R – Na fábrica de mala, o meu primeiro salário foi bom demais! Eu nunca tinha pegado em tanto dinheiro... Para chegar ao primeiro salário que foi uma confusão. Quando eu fui trabalhar... Naquele tempo a condução era muito distante, meio ruim. Primeiro dia de serviço: fui chegar ao ponto de ônibus e me perdi, que lá era Jardim Brasil, você tinha que passar o Jardim Brasil e pegar um ônibus lá na Vila Sabrina. Eu me perdi, em vez de subir, eu tinha descido, fui lá para o Edu Chaves. Cheguei lá procurando onde pegava o ônibus para vir para Marcos Arruda, no Brás. O cara falou: “Não, aqui não tem não. Você tem que subir no Sabrina” “Olha, mas como é que eu faço?” Expliquei para o cara: “Olha, hoje é o meu primeiro dia de serviço e eu me perdi”. Conclusão: era pra eu ter entrado oito horas e cheguei no serviço às nove e pouco, perdido e suado, falei: “Nossa Senhora, que coisa difícil”. Aí comecei a trabalhar. Expliquei para o meu encarregado, ele falou: “Tudo bem, pode começar aí”. Ele me deu esse serviço, comecei a trabalhar, trabalhar, aí que eu dei valor ao dinheiro, né? Primeira vez que eu peguei em dinheiro, dinheiro meu mesmo, foi bom demais. Minha mãe pegou, tirou uma parte - que naquele tempo a gente pagava o aluguel - tirou uma parte para o aluguel, pra gente fazer compras, e o restante ela tinha me dado. Falou: “Vamos agora lá na cidade que nós vamos comprar um sapato”, isso ficou marcado. Ali na Praça Clóvis - antigamente não tinha Praça da Sé, não tinha nada - tinha uma loja bem grande. Naquele tempo usava muito aquele sapatão, uma maravilha! Comprei aquilo lá, aquilo e uma calça jeans, foi uma conquista, sabe? Quando eu ficava olhando, falei: “Caramba, eu consegui comprar um sapato, consegui comprar uma calça com o meu dinheiro”. Então foi muito bom.

 

P/1 – Como é que você foi descobrindo a cidade de São Paulo? Você veio pra cá com 18 anos. O que é que significava São Paulo para você, como é que era essa cidade? Como é que você via isso aqui?

 

R – Ah, pra mim era tudo diferente. Eu não tinha noção, só ouvia falar como é que era São Paulo. Então você imagina que é uma coisona, você fica imaginando São Paulo... Para mim, tudo o que acontecia em São Paulo era uma coisa grande: meu primeiro emprego, primeiro salário, primeiro convívio, eu saí a primeira vez... Porque quando eu contei pro meu pai, falei: “Pô pai, eu vim pra cá, ontem eu fui lá para Marcos Arruda e me perdi”. Ele falou: “Então vou te ensinar agora para você não se perder mais. Você começa a olhar as coisas, você entendeu? Quando você vê uma escola, um prédio, uma coisa grande, você olha para ela para você fixar, porque aí você não esquece nunca mais. Outra coisa: Você tem que sair com o endereço”, isso eu não esqueço nunca, “Você tem que sair com o endereço na mão...” Porque é o seguinte, primeira coisa, endereço, pra você não se perder mais. “Eu vou te ensinar”. Aí ele pegou na minha mão, saiu comigo e falou: “Olha, pra você não se perder nunca mais dentro de São Paulo, pega o endereço, primeiro você pega o seu endereço. Quando você for a qualquer lugar, você tem que prestar atenção, um prédio, escola, você está entendendo? Para você não se perder mais”. E foi assim. Aí eu fui ficando aqui, ficando aqui e estou aqui até hoje.

 

P/1 – E seu passeios pela cidade de São Paulo? Onde é que você ia quando saía de casa? Ia para outra região, ia para o Centro, onde você frequentava?

 

R – Aqui eu gostava muito de ir ao Horto. Eu gostava muito de ir ali também, à Praça Ramos. Eu gostava, o meu pessoal... Meu pai gostava muito de ir lá, então levava a gente. Nossos passeios eram esses.

 

P/1 – E o que é que vocês faziam lá?

 

R – Ah, a gente fazia um piquenique. Ele gostava muito de levar a gente, aí fazia umas coisas pra gente comer. A gente levava e ficava o dia inteiro, que ele também trabalhava direto, então gostava de ficar sempre reunido com a família, de levar todo mundo. Fazia tipo um piquenique, e era divertidíssimo. Na época, para a gente, era o máximo! Quando ele falava assim: “Esse final de semana...” – ou então, numa sexta-feira que ele não trabalhava –, “... nós vamos lá para a Praça Ramos”. Íamos todos, ou então para o Horto, ia todo mundo contente, era uma maravilha, para nós era um acontecimento.

 

P/1 – Você era bem jovem nessa época, assim, 19, 20 anos? Você começou a fazer novas amizades aqui?

 

R – Aqui era diferente. Por quê? Os amigos que a gente tinha lá, conviviam mais com a gente, 24 horas, e aqui não. Aqui é o seguinte: você tinha uma amizade só, da escola. Então eu comecei a ter umas dificuldades também de relacionamento. Por quê? Lá eu me relacionava muito bem e aqui... Como lá a gente conhecia todo mundo, sabia quem era o pai, chegava: “Ah, o Pedro, filho de seu Paizinho, filho da dona Ziza” Então para mim foi surpresa, porque eu sabia da pessoa ali, do João. O João é assim, assim... Eu tive um pouco de dificuldade com relacionamento. Também tive dificuldade na escola, porque quando eu cheguei o pessoal já começou a arrumar escola para mim, então tive uma dificuldade também na escola.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Segundo eles, a gente não acompanhava direito a escola, tive de voltar,  que naquele tempo eles faziam isso. Lá eu tinha o quarto ano, tive que voltar para o segundo, acho que foi isso. Tive que voltar para o segundo, aí eu me destacava, porque eu sempre fui grandão, perto daqueles molequinhos. Ficava achando meio estranho, uma dificuldade muito grande com isso. Como eu era muito grandão, como é que eu ia fazer com aquele pessoal, cara novo e pequenininho, uma grande dificuldade também. Acho que é por isso também que eu fiquei meio deslocado, porque a minha cabeça era uma, a daquele pessoal era outra. Nessa parte também eu fiquei meio deslocado. Foi aí que eu estudei um, ou foi dois anos, e naquele tempo você poderia passar no meio da molecada de nove, dez anos. Na minha classe eu era o mais velho e aquele pessoal todo era oito, nove, dez anos, os mais velhos eram de dez anos. Eu tive uma dificuldade nisso.

 

P/1 – E quais eram os programas de jovem que você fazia aqui nessa época? Saía para namorar, saía à noite, como é que era?

 

R – Então, naquele tempo também saía muito, tinha muito uns bailezinhos, lá tinha a sociedade que a gente... Isso aí eu não esqueço nunca, até hoje eu lembro. Falo: “Pô, naquele tempo os bailes eram mais...” A sociedade lá usava muito também aquele negócio, iam lançar uma casa ou um negócio, então eles faziam aqueles bailezinhos, e tinha muito baile de família. Sua família vai fazer alguma coisa, ai chamava aquele monte de gente, ia todo mundo para aquele local, então eu convivia mais com o pessoal, eu ia muito na Vila Maria, no próprio Jardim Brasil, porque lá tem muito pessoal da Bahia. A minha diversão era essa, era ir à sociedade, quando não ia à sociedade do Vila Sabrina, eu ia naqueles bailezinhos. Porque antigamente tinha muito, fazia aniversário, comemorava alguma coisa, casamento tinha bastante, noivado... Hoje em dia já não tem muito. O pessoal comemorava mais, então o meu relacionamento com aquele pessoal, aquele povo, ficou mais focado nisso aí, só em festinhas.

 

P/1 – E namorada, quando é que você conheceu a sua esposa? Foi nessa época ou não?

 

R – Não, não foi nessa época, não. Eu conheci uma mulher, nós tivemos um filho... Essa é a segunda esposa minha, que eu estou agora. Na adolescência, tivemos... Ela teve um filho. Aí eu arrumei essa outra esposa, estou com ela até hoje.

 

P/1 – Mas vamos continuar lá atrás, na primeira esposa. Nessa época você estava com uns 20 e poucos anos...

 

R – É, 20 e poucos anos...

 

P/1 – Você estava trabalhando onde? Você não estava mais na fábrica de mala, né?

 

R – Não, não estava não. Nós estávamos na Montreal, na fábrica de rádio, fabricava uns rádios grandões. Eu trabalhei quatro anos nessa fábrica.

 

P/1 – E como é que você foi parar lá?

 

R – Como? Foi o seguinte: tinha uma tiazinha, ela era meio “enchorozada” com o meu irmão. Ela estava trabalhando lá e falou: “Você está falando que não está contente...” - Porque eu não estava contente com a fábrica de mala, era muito calor, não estava me sentindo muito bem - ela falou: “Você não quer ir trabalhar lá com a gente na fábrica de rádio?” “Aonde é que é?” Ela me deu o endereço, eu fui lá, fiz o teste, passei, voltei a trabalhar nessa fábrica de rádio.

 

P/1 – E era bom lá?

 

R – Lá era bom, mas o que é que aconteceu? Foi em 80 e poucos, 90, eu tinha meus 25, 26 anos, saí de lá. Apareceu uma oportunidade no Correio, eu fui trabalhar no Correio. Trabalhei um tempo de carteiro. Trabalhava no Tremembé, foi um serviço que eu gostava demais, convivia com muita gente, conversava, batia papo, andava muito, ali Maria Amália, Rua Albertina, Mamud Madi.

 

P/1 – Vida de carteiro deve gerar muita história, não é? Como é que era o seu dia a dia?

 

R – Nós trabalhávamos aqui na Rua Miguel Mendes, era o nosso CDP. A gente pegava o serviço na Miguel Mendes, separava, que aquilo lá é tudo por setor, então você separava por setor, depois separava por rua, que ficava mais prático, depois por numeração. Quando a rua era muito grande, você dividia por rua e do um ao 100, nos blocos, eram 32 blocos, de um a 100, a 200, 200 a 300, e assim sucessivamente. Quando não, você deveria ir por rua. A gente chamava lá de “colecionar”: pegar e dividir tudo por rua. Tinha rua que você começava do alto para o baixo, tinha rua que era do baixo para o alto.

 

P/1 – E o dia a dia mesmo, de levar carta, tem alguma história nesse tempo? Engraçada, ou alguma história curiosa?

 

R – Ah, cada dia que era uma história diferente, uma hora você encontrava um pessoal que queria umas coisas meio absurdas, tinha hora que o pessoal ficava pegando você, gostava muito de parar o carteiro para ficar falando, muitas coisas que ele queria, ou então que ele está esperando. Essas histórias que eu achava mais interessantes. No tempo em que eu trabalhava no Correio, telefone era só para o pessoal de poder aquisitivo maior, então a carta, o pessoal esperava. Era uma coisa de contato muito maior. Hoje em dia telefone, e-mail, tanta coisa... Mas naquele tempo o pessoal esperava mais por carta. Como muitas vezes muita gente ficava esperando o carteiro, muitas pessoas ficavam esperando o carteiro o dia inteiro, ficava ali plantado, esperando pra ver se tinha alguma carta para trazer a notícia para a pessoa. E muitas vezes eu chegava, mas a carta não chegava. Aí ia contar a história pra gente, porque é que estava esperando. Muitas vezes era notícia de um parente, de uma mãe, do irmão, de uma tia... Ia falar da tia ou do irmão.

 

P/1 – E você se lembra de alguma história emocionante, de alguém que estava esperando muito uma carta que você levou, alguma coisa assim?

 

R – Não, o que mais me marcou foi isso. Quando a gente chegava, muitas vezes sabia: “Fulano de tal está esperando uma carta assim e assim”. Aí você fazia questão de chegar e entregar na mão dele. Ave Maria! Aquela pessoa recebia a carta e ficava tão contente que aquele negócio passava até pra gente, contaminava. “Olha, Fulano, é por uma coisa tão simples, entregar uma carta, ele ficava com tanta euforia”. Muitas vezes é uma notícia que ele estava esperando, alguma coisa de bom, muitas vezes um emprego, que naquele tempo usava muito isso.

 

P/1 – E nessa época, Pedro, você ainda estava morando lá no bairro de quando você chegou?

 

R – Nessa época eu morava lá no bairro.

 

P/1 – Na mesma casa ainda?

 

R – Na mesma casa. Minha casa lá tem história. Eu cheguei lá no bairro, não tinha luz, não tinha água encanada, era água de poço. Aí veio a encanação, começou a canalizar o esgoto, asfaltou a rua. Hoje está uma maravilha! Não tinha tantas casas como tem hoje. Antigamente, podia contar as casas que tinham na minha rua, na rua da minha mãe. Hoje é lotada de casas, porém o que é que acontece? Melhorou bastante. Lá, antigamente, a água era de poço, a gente tinha cisterna, tinha que puxar água, jogar um balde. Amarrava um peso ao lado do balde, jogava dentro, ele caía, enchia d’água, você ia com a manivela, ficava puxando. Enchia as vasilhas para lavar roupa, lavar louça, não tinha água. Depois que meu pai ganhou um dinheiro, comprou aquelas bombas. Colocou dentro da água, fez uma ligação no poço, colocou água. Juntava todo mundo, fizemos um banheirinho, colocou a caixa em cima, jogava a água do poço para cima, mas foi bem depois.

 

P/1 – Então você estava dizendo que foi melhorando aos pouquinhos a situação da sua casa, do bairro. E quando é que você se mudou de lá?

 

R – Mudei da casa da minha mãe tem uns 12, 15 anos. Aí eu fui morar com uma mulher, não deu certo, depois, com uns 14 anos, eu conheci essa mulher com quem eu estou agora.

 

P/1 – Há 14 anos?

 

R – É. Estou com ela há 14 anos. Nós começamos a morar no próprio Jardim Brasil, moramos lá cinco anos, fomos para o Brás, ficamos no Brás o restante do tempo e depois viemos pra cá.

 

P/1 – Como é que foi essa mudança para o Brás? Por que é que você foi parar lá?

 

R – Porque ela começou a trabalhar junto com a minha mãe e fazer negócio de costura. Como a gente fazia costura, o Brás tinha mais campo, aí nós fomos pra lá.

 

P/1 – Aí mudaram pra lá você e a esposa.

 

R – É, eu e a esposa, com os meninos todos.

 

P/1 – Você já tinha quantos filhos nessa época?

 

R – Três filhos.

 

P/1 – Quais os nomes deles?

 

R – Leonardo, Rafael e Paulo.

 

P/1 – E eles tinham que idade nessa época?

 

R – O Paulo tinha 19, o Rafael tinha 16 e o Leonardo tinha 14.

 

P/1 – Então eram todos novinhos na época.

 

R – É, eram todos novinhos.

 

P/1 – E aí, o que é que você fazia nessa época? Você já não estava no Correio mais.

 

R – Não, eu já tinha saído do Correio, aí eu comecei a trabalhar de camelô ali no Brás.

 

P/1 – Você vendia o quê?

 

R – Blusinha, calça, esses negócios.

 

P/1 – E era difícil essa vida de camelô?

 

R – Se eu falar para você que é fácil, não é, mas a gente se vira. A gente vai se virando, hoje ainda estou nesse ramo, a gente compra o tecido, corta, a mulher costura, os filhos ajudam, inclusive os filhos cortam, a gente leva para a feirinha e vende.

 

P/1 – Você chegava cedinho lá para trabalhar, ou não? Como é que era?

 

R – Tem que chegar cedinho, três e meia, quatro horas da manhã você já tem que estar lá.

 

P/1 – Pra reservar o lugar.

 

R – É. Conforme você vai trabalhando, vai pegando o lugar. Tem que chegar cedo e ter continuidade, tem que ter frequência, você não pode chegar, colocar uma banca aqui e abandoná-la, ficar uma semana, duas, três e depois ir, lá não pode isso. Você tem que colocar a banca e ir todos os dias quatro horas da manhã, você tem que estar lá.

 

P/1 – E onde era esse lugar?

 

R – Na Rua Oriente.

 

P/1 – E ali os camelôs são só de tecidos, essas coisas?

 

R – Não, lá tem de tudo, mas a maioria é de tecido: roupa, calça, blusa, camiseta, chapéu, bolsa.

 

P/1 – Sua mãe e sua esposa costuravam e você ia vender lá?

 

R – Isso.

 

P/1 – E tinha alguém que te ajudava lá?

 

R – Tinha. O Paulo, ele é o meu braço direito. Agora nós conseguimos um localzinho lá dentro da feirinha, é meu e dele, e nós estamos lá na feirinha ainda.

 

P/1 – Ah, porque eu perguntei para você, mais cedo, e você falou que estava desocupado agora.

 

R – Ele que está tomando conta, eu tive um problema na perna, aí coloquei uma prótese, então não estou 100 por cento. Estou mais desocupado justamente por causa disso.

 

P/1 – E qual foi o problema que você teve na perna?

 

R – O meu problema foi o seguinte: tive um acidente, estragou a bacia, tirei um pedaço da bacia, tirei a cabeça do fêmur e coloquei uma prótese.

 

P/1 – E você ficou quanto tempo morando lá no Brás?

 

R – Fiquei três, quatro anos no Brás.

 

P/1 – Agora eu queria saber o seguinte, Pedro, como é que você chegou aqui e qual é a história desse lugar?

 

R – É o seguinte: antes, há muito tempo atrás, aqui tinha uma Fábrica de Filtros Salus. Essa firma ficou muito tempo aqui, mas aí tiveram uns problemas financeiros, a firma quebrou. Deixou os funcionários, abandonou os funcionários aqui dentro. Os próprios funcionários começaram a vender as partes.

 

P/1 – Mas espera aí. Em que ano foi isso mais ou menos?

 

R – Isso foi há uns oito anos atrás, foi mais ou menos 2000, 2002.

 

P/1 – Ah, faz pouquinho tempo.

 

R – Faz. Agora, que os primeiros moradores têm mais... Eu estou falando isso aí que é comprovado, oito anos que o pessoal prova, então tem oito anos. Só que tem mais de dez anos que o pessoal está aqui.

 

P/1 – Mas já existia as casas dos trabalhadores da fábrica?

 

R – Não, não. O que acontecia? Tinha uma firma. Só tinha parte da frente, era um muro, então foi vindo um pessoal, eles foram fazendo barracos, fazendo barracos, ficando, ficando. Ficaram um ano, dois anos, três anos, aí os que foram melhorando fizeram de alvenaria. Depois desses dez anos o pessoal foi fazendo as casas.

 

P/1 – Então vamos continuar a história. A firma quebrou.

 

R – Aí a firma quebrou.

 

P/1 – E não fez nada com os funcionários, não deu os direitos trabalhistas...

 

R – Não deu os direitos trabalhistas para o pessoal. O pessoal entrou com uma ação. Quando eu vim para cá, há quatro, três anos atrás, eu comprei aqui. Então eu fui ver, eu procurei a Salus, fui à Junta Comercial, não tinha nada, fui à Prefeitura, não tinha nada como Salus, não existia. “Nada consta, nada consta”. Eu fui, fiz um investimento aqui, comprei a minha casinha, comprei um barraco, desmontei, fiz a minha casa. Quando foi no mês de setembro, apareceu essa reintegração, mas não com o nome da Salus, é com outro nome. Só que o que é que aconteceu? O pessoal, há oito anos, vendeu a Salus. Como ela tinha quebrado, eles pegaram e colocaram um nome fictício. Abriram um montão de contas, sabiam que iria quebrar, abriram conta, abriram uns negócios, fizeram investimentos financiados no banco e não deram o nome da Salus, deram como essa firma e deram aqui esse terreno como garantia. O que é que aconteceu? Vinham os negócios aqui em nome dessa firma, não da Salus. A Salus não tinha nada a ver com essa firma que eles colocaram... Até quando chegou a bomba aqui, o pessoal estava pedindo reintegração, porque essa firma estava devendo demais.

 

P/1 – Entendi. Mas as casas começaram a ser construídas aqui há uns dez anos atrás?

 

R – Dez anos atrás.

 

P/1 – E quem começou? Você conhece? Como é que foi?

 

R – Ah, eles começaram daquele jeito... É o seguinte, começou ali, os funcionários foram tomando conta, entendeu? Fazendo as casas, “Ah, vocês não vão me pagar, então eu vou ficar fazendo a minha casa aqui”. Fizeram a casa, foram fazendo. Então é o seguinte, tem um espaço vazio aqui, está aquele tanto de gente precisando, então vamos ocupar e nós vamos ver. O pessoal começou a ocupar, aí fizeram as suas casas, fizeram seus negócios.

 

P/1 – E como é que você descobriu aqui?

 

R – Meu irmão veio pra cá há mais tempo que eu, o Hélio. Ele veio e me chamou. Eu falei “Ah, não vou mexer com esse negócio não...” Por isso eu comecei a pesquisar. Fui à Prefeitura, fui à Junta Comercial. Procurar sobre a Salus e não tinha nada. Ele ficou um ano e pouco aqui e não teve nada, só depois que eu vim pra cá. Mas primeiro quem veio foi um irmão meu, meu irmão mais velho. Depois eu fiquei procurando saber quem era a Salus, como era a Salus. Fiquei sabendo que era uma firma de filtros que faliu, mas não tinha nenhum processo.

 

P/1 – Aí você descobriu que tinha um terreno, um lote aqui à venda.

 

R – É, isso. Depois eu descobri que tinha um lote à venda, eu fui e comprei o lotezinho.

 

P/1 – E foi você quem construiu a sua casa?

 

R – Aí eu construí a minha casa.

 

P/1 – Foi você mesmo quem construiu?

 

R – Não, não fui eu, não. Eu, os meus meninos, todo mundo. Juntou todo mundo, fizemos tipo um mutirão e construímos.

 

P/1 – Demorou quanto tempo para construir essa casa? É grande a sua casa, né?

 

R – A minha casa é grande. Mas aqui era todo mundo. Eu moro aqui, o Paulo mora aqui, a oficina é lá em cima...

 

P/1 – A oficina de costura.

 

R – É, a oficina de costura. Costuro, corto, tudo aí. Vou ao Brás, compro o tecido, os meninos cortam, minha mulher costura, levo para a feirinha para vender.

 

P/1 – E quando você construiu a sua casa, como era a vida aqui? Tranquila?

 

R – É, a vida estava tranquila, não tinha problema, não tinha nada. Pra gente foi uma maravilha, mas aí teve esse problemão que todo mundo ficou de cabeça quente, quando chegou essa carta. Todo mundo ficou louco.

 

P/1 – Como é que foi essa história? Como é que vocês ficaram sabendo do problema?

 

R – Foi o seguinte, tem um menino que mora do outro lado, o César, ele que trouxe a carta para cá. Chegou e falou: “Ó, Pedrão, tem uma carta aqui”. Eu olhei a carta, mas não veio em nome da Salus, veio como Cerâmica Verus: para desocupar o terreno, porque o pessoal estava precisando vender para pagar credor, pagar banco, pagar os próprios funcionários também, a massa falida. Entrou com uma ação para pegar o terreno, “mas aqui é Filtros Salus, não tem nada a ver.” Ficamos doidos, procura um, procura outro, procura outro, eu falei: “Não, gente, vamos ao Ministério Público para a gente ver o que faz”. Eu fui no Ministério, expliquei a minha situação, falei: “Ó, tem um ano e pouco que eu moro aqui. A gente comprou um terreninho lá. Lá era a firma Filtros Salus, mas a gente procura qualquer coisa na Salus, não tem. E veio essa Cerâmica Verus aqui com reintegração de posse”. Aí ele olhou e falou: “Ixi, é grave!”, porque já estava em reintegração. Falei: “E agora?” Aí veio a reintegração, o pessoal querendo a reintegração. “O que nós podemos fazer é o seguinte: como é que vocês estão lá?” “Olha, nós lá somos mais ou menos 450 famílias, mais ou menos 1.200 pessoas” “E as casas?” “Tem muitas casas de alvenaria...” “Você tem como provar isso?” “Tenho” “Então faz o seguinte: volta lá, reúne todo mundo, pega tudo o que vocês têm de prova: quando as primeiras pessoas chegaram lá, reúne documento de conta de água, luz, telefone, alguma carta, alguma cobrança, qualquer coisa, traz tudo aqui, traz os documentos das crianças que estudam, dos adolescentes, do pessoal que trabalha, junta tudo e traz aqui pra gente”. Aí nós fizemos isso. Depois lá eles indicaram o Gaspar Garcia...

 

P/1 – O que é Gaspar Garcia?

 

R – Gaspar Garcia é uma entidade sem fins lucrativos que trata só desses negócios. Eles só pegam coisas assim, de pessoas de baixa renda, que não têm condições de pagar um advogado. Então esse Gaspar Garcia que orientou a gente a juntar todos esses papéis para levar e mostrar par o juiz que nós estamos aqui, tem 450 famílias, tem 1.200 pessoas, essas pessoas têm mais de cinco anos comprovados aqui. Ver e levar pro juiz, aí fizemos isso. Na correria, todo mundo se uniu, começamos a juntar os documentos do pessoal mais antigo, fomos juntar o pessoal mais antigo, quem tem alguma conta de telefone, contas que possam provar que moram aqui. O pessoal que tem crianças nas escolas, como tem muita gente que estuda aqui, pessoas que fazem tratamento. Juntamos tudo e levamos para o Gaspar Garcia. O Gaspar Garcia entrou com uma ação falando que nós estamos aqui, porque essa ação que tinha, contra a Cerâmica Verus, só falava que eram de dez a 15 famílias que estavam morando aqui. Aí nós falamos para eles: “Não, não são dez ou 15 famílias, são 420 famílias. Dessas 400, são mil e tantas pessoas, e nós temos como provar”. Foi aí que nós reunimos todos os documentos, levamos para o Gaspar Garcia, o Gaspar Garcia entrou com uma ação e aí está lá no juiz para ele ver o que vai decidir pra gente.

 

P/1 – Está pendente ainda.

 

R – Está pendente. O que é que aconteceu? O juiz pediu vista no processo, porque estava aqui para despejar 15 famílias. Chegou lá 400 e tantas famílias, tio, a família do Pedro, a família do João, a família do Joaquim, da dona Maria, das crianças que estudam aqui, pessoas que fazem tratamento, pessoas que trabalham, então levamos tudo para mostrar para ele. Então está lá na mesa dele pra ele ver o que é que ele vai fazer com a gente.

 

P/1 – E vocês fundaram uma associação nesse meio tempo? Ou ela já existia? Como é que é essa história?

 

R – Não existia, não tinha nada. Nós começamos a mexer com a fundação da associação. “Vamos, vamos, vamos”. Fizemos a associação, fizemos tudo bonitinho. Só que, para trabalhar com esse negócio, é meio complicado, todo mundo quer, [mas] quando gela mais a coisa, um sai para um lado, outro sai para outro, fica... Aí eu falei: “Não, o que eu tinha eu investi aqui, meus negocinhos todos que eu tenho estão aqui, eu não posso desistir, eu não vou desistir. Só vou desistir quando não tiver mais jeito. Enquanto isso vou lutar, quem estiver junto comigo, vamos embora”. Aí nós estamos lutando.

 

P/1 – Você que tomou frente da comunidade?

 

R – Não só eu. Eu, dona Ana, Edivaldo, Douglas. Sabe, nós reunimos um pessoal e falamos: “Não gente, vamos nós mesmos”. Então reunimos eu, dona Ana, Edivaldo, Douglas, e nós estamos aí na frente.

 

P/1 – Você se sente injustiçado?

 

R – Não, eu acho que eu me sinto frustrado. Se eu tivesse seguido a minha intuição, hoje, acho que eu não estaria assim.

 

P/1 – O que é que você acha que vai ser o final dessa história?

 

R – Ah, eu estou torcendo que a gente ou fique aqui, ou que ele dê uma solução pra gente, o que é que faz com a gente. Arruma uma colocação, eu imagino assim. Tanto imagino que é o seguinte, estou correndo atrás disso. Já fui à CDHU [Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano] fazer entrevista com o pessoal. O que eu quero é só uma coisa, eu e todo mundo aqui: nós só queremos uma moradia, um lugarzinho pra morar. Precisa comprar, claro, tudo tem um preço, a gente tem que comprar, tem que pagar, mas a gente só quer isso, a gente só quer moradia. Um pessoal falou que todo mundo quer uma coisa só, a gente só quer moradia e, de preferência, se conseguisse, uma moradia por aqui... Mas aí o cara fala assim: “Mas por que por aqui?”, “Porque aqui a maioria do pessoal trabalha, trabalha tudo no Brás”. Aqui é bom de condução, tem sete conduções aqui para o Brás, rapidinho, se você quiser ir, pode até ir a pé; aqui tem escola, tem posto de saúde, tem condução, tem mercado próximo, então tudo aqui favorece a gente, mas favorece muito. Pessoa que quer ser livre, não quer trabalhar, se você quiser trabalhar, você pode sair daqui, ir ali no Brás, trabalhar, voltar. Então aqui é bom demais. E eu gosto de morar aqui, eu adoro morar aqui.

 

P/1 – Pedro, a gente está terminando a entrevista. Eu queria dizer que nós torcemos para que vocês consigam ter sucesso aí na luta. E nós vamos produzir um vídeo com a sua história, no que a gente puder fazer para divulgar essa causa, nós vamos fazer.

 

R – É, eu falei para a menina: “Se for pra ajudar a gente, que seja bem-vindo”. Nós estamos precisando muito de ajuda e de ser divulgado. O pessoal precisa morar aqui, quer morar aqui. Já está bem localizado, o pessoal já está com as suas crianças na escola, com seu serviço, então nós precisamos morar aqui. Como eu, acho que todo mundo aqui está precisando e está querendo. Nós estamos precisando morar aqui e nós estamos precisando divulgar, falar das nossas coisas. Quais são as nossas intenções... Nós conversamos com o pessoal do Gaspar Garcia, eles estão tentando entrar em contato com o pessoal que entrou com a ação aqui para ver o que é que pode ser feito com o poder judiciário, para ver o que eles estão querendo, como é que eles estão querendo, para ver se a gente faz um acordo. Que a gente compre... A Prefeitura, o Estado, entra com uma parte, a gente entra com outra, a gente entra com a associação, com povão, para ver se a gente resolve esse problema.

 

P/1 – Então vocês estão dispostos a, se precisar, pagar uma parte?

 

R – Pagar, lógico. Um lugar desses, lugar bom, perto de tudo, perto do centro, perto de escola, perto de creche, aqui é próximo de tudo. Onde é que vai achar um lugar desses? Não tem. A maioria do pessoal quer comprar. Por quê? Porque eles tão sabendo que não tem mais um lugar assim, não existe mais.

 

P/1 – Pedro, e quando as pessoas chegaram aqui, há uns dez anos, como é que fizeram com a eletricidade, com tudo o que tinha? Usaram os pontos que tinha da fábrica?

 

R – É, usava o que tinha, os pontos da fábrica. Aí o que foi acontecendo? O pessoal foi usando, usando, usando e estamos aí até hoje.

 

P/1 – Qual é o seu sonho agora? Quando você era criança o seu sonho era ser caminhoneiro ou professor.

 

R – É.

 

P/1 – E agora, qual é o seu sonho?

 

R – O meu sonho agora... O que eu fico imaginando é o seguinte, resolver essa situação, não só a minha.  A gente se empenha em um negócio, fica querendo resolver a própria situação e a situação do povo todo. Tem muita gente aqui que não liga muito para isso, mas tem muita gente que torce por nós também. Então a gente fica torcendo e lutando por eles, sabe? Porque aqui tem muita gente boa, muitas pessoas que têm o mesmo sonho que a gente, têm o mesmo ideal. É lutar, é conseguir uma casa, conseguir uma moradia. Aqui a maioria: “Qual o seu sonho?” “Eu quero ter uma moradia para mim, para minha família”. Porque uma moradia é um passo muito grande. Hoje em dia é uma base. Você com uma casinha para morar consegue as outras coisas, fica a um passo para conseguir as outras coisas. Com uma casa e perto do serviço, o resto das outras coisas a gente consegue. Agora tem que ter a moradia, você com a moradia começar a trabalhar, estudar, eu acho que consegue muita coisa, acho que a base é isso.

 

P/1 – É isso aí, nós vamos torcer então.

 

R – É difícil? Não é fácil, mas a gente está nesse negócio e é o seguinte, a gente vai lutar até o final.

 

P/1 – Pedro, o que você achou de ficar essa uma hora e meia batendo papo com a gente, lembrando da sua história, contando sua história?

 

R – Ah, para mim foi bom, eu nem imaginava conversar, para mim foi bom.

 

P/1 – Coisa boa, nós gostamos bastante também, queremos agradecer.

 

R – Quando você precisar pode vir aí que nós estamos e nós precisamos disso. Divulgar nossa causa... É uma coisa difícil, mas também não é impossível, porque nós aqui temos muitas pessoas do bem, querendo só uma coisa: moradia para ficar perto do seu trabalho, da sua escola, dar condições melhores para nossas famílias. Coisa que eu não tinha, muita gente não tinha, e agora pode conseguir, mas tem que ter uma moradia.

 

P/1 – É isso aí. Então vamos torcer.

 

R – É, vamos torcer. E uma moradia assim, que seja perto do seu serviço, que seja perto da escola...

 

P/1 – Que seja uma boa moradia, né?

 

R – Uma moradia boa.

 

P/1 – Então tá bom, a gente agradece muito a sua história, sua disposição, sua boa vontade com a gente, tá? Foi um prazer.

 

R – O prazer foi meu.

 

P/1 – Obrigado.

 

R – E divulga mais a nossa história aí.

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