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História

Pela selva em duas rodas

História de: Betty Leveau Sinti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/05/2007

Sinopse

Nascida em 1946 em Chincha Alta, Peru, Betty Leveau foi uma das fundadoras da Rede LAC no Peru. Tendo como mãe sua tia Nelly, viveu parte da infância em Lima e cursou faculdade na cidade de Trujillo, onde se torna professora e inicia sua atuação política no Sindicato do Magistério, já nos anos 1960. Nomeada dirigente política logo depois, atua no meio sindical até o início dos anos 1980, quando passa a se dedicar aos filhos. Cansada da rotina, volta à militância em 1985, formando a seção de mulheres do Partido Socialista dos Trabalhadores, onde inicia seu trabalho com mulheres. Já fora do PST e dentro da CEPCO, organização criada em conjunto com o marido, passa a atuar em comunidades da selva peruana, onde tem seu foco no desenvolvimento de atividades econômicas e sociais por mulheres. Daí surge sua entrada na Rede LAC no início dos anos 1990, onde intensifica ainda mais seu trabalho com as mulheres no meio rural.


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História completa

P - Gostaria que você dissesse seu nome completo, a data e o lugar do seu nascimento.


R - Betty Leveau Sinti, região de San Martín, Chincha Alta, Peru. Nasci no dia 28 de fevereiro de 1946.

P - Toda a sua família é do Peru? O que você pode me contar sobre a origem da sua família?

R - As minhas raízes pelo lado paterno datam de 1870. Meu bisavô chegou pelo Brasil de Paris, França, até minha região, pelo Rio Amazonas. E no Peru, todos  que temos o sobrenome Leveau somos da mesma raiz. A minha bisavó faleceu e ele teve outro relacionamento, foram essas duas famílias que deram origem a todos os Leveau que há no Peru.

P - E você sabe o nome desse bisavô?

R - Eduardo, mas não sabemos o sobrenome materno dele. Quer dizer, nunca conseguimos fazer contato com o país.

P - E ele veio da França para se aventurar?

R - Sim, para se aventurar. E pelo lado materno, minha mãe é produto de uma mestiçagem das comunidades que existiam na amazônia de San Martín. O sobrenome dela é Sinti Bardales.

P - E você conheceu seus avós?

R - Sim, conheci meus avós, sim. Eu perguntei à minha mãe biológica sobre meu nascimento... Tenho com ela um relacionamento próximo mas não tive a sorte de morar com ela, conheci só quando eu tinha onze anos. Ela comentou comigo que meu avô chegou, naquela época em que não havia estradas, por uma trilha, e chegou a cavalo. Ele, todo muito alto, com cabelos grisalhos, foi até a casa humilde da minha mãe, chegou perto da rede... Na minha terra a rede serve para nos ajudar a criar os filhos, é mais fácil do que levar eles carregados no colo ou nas costas, é mais fresco. Ele me olhou e viu que eu era da cor branca da família paterna e disse: “Esta aqui é a minha neta. E ela não pode ficar morando aqui.” E, de fato, pouco tempo depois fui levada para a casa dos meus avós e foi sua filha Nelly que me criou.

P - Quem levou você?

R - Meu avô decidiu me pedir para a minha mãe. Ela já estava na cidade e meu avô deixou a neta com a tia solteira. E a tia me criou o tempo todo.

P - Qual é o nome dela?

R - Nelly Leveau.

P - E desde quando?

R - Desde que eu tinha um ano.


P - Mas você é a irmã mais velha de uma família?

R - De todos, de todos os meus irmãos.

P - E quantos são?

R - Juntando o lado paterno e o materno, somos catorze. Mas de pai e mãe, somos só duas. E as duas fomos, de certo modo, adotadas pela tia. As duas filhas do irmão que ele deixou na vila. Ela nos criou e nos educou. Até hoje, nosso vínculo mais familiar é com ela.

P - Então você cresceu na casa da sua tia?

R - Sim, com ela, na casa dela.

P - E quem morava nessa casa?

R - Ui! Primeiro era com os meus avós, que eu quase não lembro. Mas desde que os meus três anos, ela me levou para morar em Lima, e isso mudou a minha vida. Se eu tivesse ficado no povoado pequenino onde nasci, teria sido outro o meu destino. Ir naquela época... Porque eu tenho sessenta anos... Ir naquela época para Lima, quando só tinha uma linha aérea, era muito difícil, eram aviões pequenos. E eu acho que foi muito importante. Estudei em Lima toda a primária, fiz a secundária em Tarapoto e a universidade em outra cidade da costa, Trujillo. E toda a minha vida profissional já foi em Tarapoto. Mas sinto que marcou minha vida.

P - Por que você foi para Lima e depois voltou?

R - Fui para Lima porque minha mãe resolveu se mudar e tentar a vida nessa cidade. Morei lá durante nove anos e depois voltei para fazer a secundária, mas estudar em Lima era outra coisa, é a capital do país.

P - Nesses três primeiros anos, você tem alguma lembrança, ou alguma coisa que tenham lhe contado que você goste?

R - Sim, eu lembro do meu avô. Muito lindo, muito boa pinta no cavalo. Porque, nessa época, os cavalos andavam pelas ruas, que ainda não tinha cimento. Era muito bonito. As praças cheias de mangas, as mangueiras, que vocês chamam no Brasil. E dessa vida de cidadezinha pequena eu sempre sinto falta, porque havia muitas hortas, muitas frutas, muita natureza. Hoje resta muito pouco disso… E também lembro das coisas que o vovô dizia de mim. Eu era muito loura, tinha o cabelo muito claro e era muito branca. Dava para me ver de longe com um vestidinho vermelho, como se fosse um pontinho vermelho. E na minha terra tem um bichinho que pousa na pele e que se chama isango, que é menor do que a ponta de um alfinete, e diziam: “Olha lá o isango.” Porque, de longe, só viam um ponto vermelho. E ele sempre estava fazendo um comentário bonito sobre mim. O meu avô era arriero. Vocês entendem o que é arriero?

P - Não...

R - Arriero é uma pessoa que ia com seus animais de carga em direção ao rio, ao lugar em que chegavam os barcos que traziam mercadorias da Europa, entrando pelo Brasil. Eles subiam pelos rios e chegavam até uns trinta quilômetros da minha comunidade. E o meu avô tinha uma quantidade de mulas e cavalos que ele carregava e que traziam as coisas do rio para Tarapoto. E sempre contam que meu avô, quando abria uma lata de conserva de peixe, que hoje é tão comum, o meu avô dizia: “Coisa fina.” Lindo... Porque era dedicado tanto esforço para trazer as coisas de tão longe e comer uma coisa que, realmente, era um luxo. E dizem que a bisavó fazia seus vestidos com os tecidos que chegavam da Europa, assim que chegavam, e que sempre estava elegante. O bisavô já tinha falecido.

P - E sua avó, não morava com vocês?

R - Ela viveu muito pouco tempo, morreu com trinta e oito anos. Eu não cheguei a conhecer, mas o que contam deles é muito agradável.

P - Você lembra alguma coisa da casa dos seus avós?

R - Uma casa grande, que estava a uma quadra da Praça de Armas, com teto de telhas e uma horta ampla. Hoje é onde está a Polícia Nacional de Tarapoto e o Registro Público. Fico com muitas saudades porque me lembro disso desde os três anos.

P - E dessa viagem para Lima, o que você lembra?

R - O mais impressionante era o avião, porque eu tinha três anos. E, do avião, eu não sei sequer como eram as poltronas, tenho a impressão de que viajamos em cima da carga. Fui com minha mãe e a tia Rosita, uma amiga de mamãe. Cada uma com uma sobrinha pela mão. Elas são duas mulheres solteiras que saíram para tentar a vida em Lima. A profissão da minha mãe Nelly era professora, mas ela teve que deixar sua terra porque queriam obrigar ela a fazer um discurso para um senador e ela não quis, então tiraram seu trabalho. Pode-se dizer que foi “deportada” para uma zona muito afastada e de difícil acesso, e ela não queria ir. Posso imaginar por quê: ia ser na selva mais inóspita e ela resolveu ir para Lima, a cidade das oportunidades.

P - E essa chegada em Lima?

R - Foi tudo bem, elas rapidamente estavam acomodadas. Como mulheres, começaram a costurar roupas para umas fábricas: levavam para casa, costuravam, procuravam trabalho, conseguiam, mudavam... Até que conseguiram ficar empregadas nas suas próprias ocupações.

P - Então você morou em Lima até quando?

R - Até os onze anos. Toda a educação primária.

P - Então sua primeira escola foi lá.

R - Sim, e minha mãe, mesmo com todas as limitações que tinha, me colocou em escola particular. Ela era uma mulher sozinha, mas não me matriculou na escola fiscal, como dizemos lá, mas na escola particular. Com todas as limitações, mas uma educação bem atendida. Eu não tinha muita roupa, mas sempre tinha um vestido lindo de inverno e um de verão, para estar elegante. E em casa sempre havia tudo o que era necessário.

P - Como era esse vestido?

R - Ah, lindo! O que era de inverno era de corduroy, não sei se conhecem esse tecido, que é como veludo. Um tecido muito suave, com mangas em broderi. O broderi é esse tecido todo furadinho que é muito elegante. Com chapéu, bolsa e sapatos de verniz. Muito elegante.

P - O vestido de passeio.

R - De passeio e com casaco, que ela comprava usado, mas bem conservado. E o de verão era de tafetá, que é como nós chamamos um tecido um pouco brilhante e fino, com meias brancas, sapatos brancos e luvas de crochê. Muito lindo.

P - E que passeios eram esses?

R - Passeios de visitas. Eram principalmente para visitar famílias amigas e parentes. Fazíamos passeios no Rio Rímac, aqui em Lima, ou íamos à praia no verão. Apesar das limitações com que a gente vivia, nós nos divertíamos. Ela trabalhava muito, trabalhava e estudava. Estudava de noite para ser educadora, mas queria ir para a universidade. Era professora rural, graduada sem ter acabado a secundária. Ela fez a secundária de noite e depois começou a fazer a universidade. Estudou dois anos de pedagogia e não terminou porque resolveu ser farmacêutica. Depois de dois anos, quando tinha que fazer a prática, como precisava trabalhar para sobreviver, teve que abandonar os estudos. Nessa época a educação tinha um nível muito alto, e os poucos anos que pôde frequentar da universidade deram a ela uma formação muito ampla e interessante.

P - Então ela trabalhava durante o dia e estudava à noite? E você, com quem ficava?

R - Ficava em casa, em casa estavam ela e a tia, que também era uma pensão. Essa era outra forma que elas tinham de se ajudar. Elas davam hospedagem e comida e sempre havia gente em casa, além de uma pessoa de serviço. E eu não sentia tanta falta da presença dela porque sempre estávamos acompanhadas e porque entendia que ela precisava trabalhar.

P - Em qual bairro de Lima era isso?

R - Era um bairro popular, La Victoria. Popular, mas mais para a zona segura. Hoje em dia já não há zonas seguras. Mas aquela era uma casa muito boa, grande, moderna para a época e não nos faltou nada. Nós vivíamos em um bom ambiente. Eu sinto que foi muito valioso. Apesar das suas limitações, ela me criou muito bem. Talvez também nos mimou um pouco. Eu não lavava a minha roupa, lavavam para mim. Mas ela me ensinou outras coisas. Me ensinou a costurar e acho que, mais que do tudo, os valores que ela me transmitiu, apesar de que não estava muito em casa.

P - E você também gostava de estudar?

R - Segundo ela, eu era estudiosa e ordeira. Provavelmente eu via que não tinha quem me fizesse as coisas e, sim, sempre fui estudiosa.

P - Você tem lembranças da escola?

R - Sim. A escola ficava muito perto da minha casa e eu ia caminhando. Tive uma boa educação, bons professores, muito antigos. Eu me sentia muito gratificada, porque sentia que estava aprendendo muito, não tinha queixas dos professores. Além disso, naquela época, a gente não se queixava. Ainda não sabiam nada sobre direitos, a gente simplesmente aceitava. Mas enfim...

P - Com uniforme?

R - Com uniforme, elegante.

P - Eram só meninas?

R - Não, era um colégio misto. Fiz amizades muito boas, mas só estive lá na primária. Minha diretora era muito boa, o pai dela tinha estado na guerra com o Chile e ele nos contava a história toda como se fosse um filme, fechando os olhos. Muito bonita, muito bonita... Muito linda a escola.

P - E depois?

R - Duas coisas que quero contar, porque eu gosto de contá-las, são desses desejos que a gente tem. Eu queria ter uma bicicleta. Todas as crianças tinham uma, e eu não. Outro desejo é que eu queria estudar balé. Nenhum dos dois eu pude tornar realidade. Mas eu mentia para as minhas colegas e dizia que assistia às aulas, que tinha os meus vestidos e contava que tinha propriedades na minha terra. O que acontece é que as limenhas, não sei como é hoje em dia, mentiam muito. Todo o mundo queria sentir um status diferenciado, porque a gente estava em um colégio particular, mas em um bairro popular. Então um queria se sentir melhor do que o outro. E eu não podia ficar para trás... E também contava e inventava coisas. Só pude tornar realidade a bicicleta quando estava no quinto ano da secundária. Incrível! Porque aprendi a andar em outras bicicletas, mas no quinto ano minha mãe me deu uma de presente.


P - Como foi o dia em que você ganhou a bicicleta?

R - Ela me presenteou a bicicleta como prêmio por ter terminado a secundária. Só nessa época ela teve meios para me dar a bicicleta. Só que fiquei com pena, porque eu já estava me preparando para ir para a universidade e não ia ser em Tarapoto, mas longe. Então tive que deixar a minha bicicleta novinha. E quando voltei... Ela tem uma virtude, grandes virtudes e grandes defeitos, claro que ela tem. E deu a minha bicicleta para outros primos que, segundo ela, precisavam mais do que eu. E quando eu voltei para as férias a minha bicicleta já estava estragada, ou seja, minha ilusão foi muito, muito pequena, não é? Durou um tempo muito curto.

P - E o balé, você dançava?

R - Eu gostava de dançar, gostava mesmo. Ficava alucinando, imaginava que tinha os vestidos, os sapatos... Mas nunca cheguei a ter.

P - Mas você dançava por sua conta?

R - Dançar eu gosto muito, mas não é mais o balé, é a música que dança todo o mundo: salsa, merengue, cumbia, etc.

P - Você não tinha nem a bicicleta nem o balé, mas o que você tinha? O que você fazia quando menina, do que você gostava?

R - Aí também há coisas que acho que, principalmente, podem ser úteis. Eu não sinto nenhum complexo nem nada, sinto orgulho e conto isso para as minhas filhas. A gente se esforça tanto por eles! Tudo o que a gente faz é por eles, compramos bonecas, brinquedos… Tudo o que a gente não teve. E depois vemos essas coisas jogadas pela casa. Então, eu digo. Sabem com o que eu brincava na casa de Lima? Além disso, as casas da cidade são feias, podem até ser de material, mas a gente se sente entre quatro paredes. Não tem graça. Você não encontra a vegetação, a natureza que alegra o espírito e nem o sol. Lima é cinzenta, é fria, é um frio úmido, e os pisos das casas, nessa época, eram de cerâmica fria, a gente não tinha dinheiro para tapetes. E quais eram os meus brinquedos? Eram garrafinhas vazias de um remédio para a tosse, que tinham um “pescoço” e eram gordinhas na parte de baixo, como se já fossem feitas para a gente colocar saia nelas. Essas eram as nossas bonecas.

P - As bonecas....

R - Essas eram as nossas primeiras bonecas. Como as tias trabalhavam tanto… Falo das tias porque também me criei com Martha Inês, a sobrinha da tia Rosita, com quem minha mãe foi morar em Lima. Elas costuravam para a fábrica e sobravam pedacinhos de tecido. Então era certo que elas iam comprar a bonequinha para o Natal. Nós ainda acreditávamos em Papai Noel e deixávamos nossos sapatinhos. E em um Natal, quando a gente tinha mais ou menos sete anos, encontramos a primeira boneca nos nossos sapatos. Eu tinha toda a ilusão, mas os vestidos eram feitos com o mesmo tecido que estavam costurando as mamães e a minha prima, que era quatro anos mais velha do que eu. Diz: “Fizeram este vestido com o mesmo tecido que estavam costurando ontem à noite...” E adeus sonho de Natal, porque percebi que não havia Papai Noel e que eram as tias que tinham feito isso tudo. Mas foi lindo. Era uma boneca pequena, mexia os olhinhos e os braços, era loura e com cabelos de fibra.

P - Mas era de pano ou fizeram só o vestido?

R - Só o vestido. Compraram a boneca. Foi a primeira boneca que tive. E se isso aconteceu comigo, imagine outras crianças, que nem as garrafinhas devem ter tido. Mas não nos faltava comida, vestido e educação. Isso é que era importante. E ela, vou contar um segredo, uma coisa de família, dava hospedagem e era muito jovem, tinha 25 anos, se apaixona por um hóspede e casa com ele.

P - Sua mãe?

R - Sim. Era um jovem que foi para Lima estudar Odontologia. Ele me ensinava a ler e, para mim, tem sido como um pai carinhoso, com um caráter muito lindo, muito brincalhão. E eu lembro dele muito mais que do meu pai. Meu pai é a figura paterna, eu só conheci, mas não morei com ele.

P - E o marido de Nelly?

R - Para mim foi muito, muito, muito significativo na minha infância. Porque era ter essa figura masculina do pai que eu não tive. Ele era estudante e ficou muito doente, e sua família morava longe, mais longe do que Tarapoto. Ele tinha tempo porque estava em recuperação e me ensinava a ler. Então ocupou um espaço bem importante na minha vida. Finalmente, depois de anos de amores, eles casaram e foi por isso que voltamos para Tarapoto. Ele terminou sua carreira e foi trabalhar lá. Foram sete anos de namoro e o casamento durou outros sete. Eles se divorciaram aos quinze anos de relacionamento porque ela não podia ter filhos.

P - Ela?

R - Fez uma operação nos ovários e ficou estéril. Então ele queria ter seus próprios filhos, que é como pensam muitos homens, e separou dela. Mas durante os quinze anos em que a gente conviveu, eles foram um casal muito lindo.

P - Como foi essa volta para Tarapoto?

R - A volta sempre era agradável. Eu voltava nas férias. A minha mãe nunca poupou dinheiro para voltar e ver a família, para que eu visitasse e conhecesse meus pais. Como posso dizer? Ela não foi egoísta em dizer: “É minha filha, quem cria sou eu e é só minha.” Teve a generosidade de deixar que eu conhecesse minha mãe, de que meu pai pudesse desfrutar da minha presença permanentemente. E sem pedir nada, porque nunca pediu nada para nenhum dos dois. Fez tudo sozinha. Então voltamos e já tínhamos uma situação muito melhor. Eu digo que essa foi a época das vacas gordas, porque o marido dela começou a exercer a odontologia e tinha melhor renda. A gente tinha uma linda casa alugada perto da Praça de Armas. Eu continuava sendo a filha metidinha, porque tudo me facilitavam, o que não foi bom. Depois pensei que não foi bom, mas eu tinha tudo. Tinha uma empregada que cozinhava, uma sobrinha do esposo dela, que era a governanta, e nós bem atendidas. Então foi uma época muito boa. Comíamos muito bem, tínhamos distrações, tínhamos coisas das quais a gente havia se privado muito em Lima. Ou seja, foi uma boa época.

P - Vocês já eram moças?

R - Eu já estava na secundária, dos doze aos dezesseis anos. Nesse tempo, eles construíram sua própria casa. Fomos morar nela e tive o meu próprio quarto. Era muito bem tratada, não posso me queixar. O ambiente era muito agradável, nunca houve brigas, nunca houve discussões. Eu diria que havia muitos bons exemplos de tudo. Depois tive que ir para a universidade e eles propiciaram que eu fosse estudar, mas não na minha localidade. E sair para estudar, nessa época, era caro. Contudo, eles fizeram, então, fui para a universidade.

P - Em qual cidade?

R - Em Trujillo. Trujillo é uma cidade da costa, que também tinha uma boa universidade nacional. Eles me pagavam todos os gastos, tive muito apoio para isso. Não lembro se foi quando eu estava no terceiro ano, vi ela descer do avião com um menino, filho do esposo, que ele também deixou por aí. Essa história se repete com muitos homens no meu país e no meu povoado, muito mais. E veio com ela para um casamento em Lima. Vi ela muito linda, muito magra, vinha vestida toda de preto, porque tinha morrido meu avô ou o meu tio, não lembro direito quem. Nessa época a gente viajava muito elegante. Ela estava muito arrumada e bonita. Tem a pele branca e os olhos verdes. Fui com ela para Lima e nunca perguntei por que o esposo dela não estava, sendo que a gente ia ao casamento da sobrinha Flor, tão querida, e que era nosso maior apoio em casa. Sobrinha dele, não da nossa parte, nunca perguntei. Nesse ano… Quando voltei de férias no ano seguinte, eu estava louca para perguntar: “E o Paco?” Porque o nome dele é Francisco. Eu nunca chamei ele de papai, chamava, carinhosamente, por um outro nome: Jorginho. Eu perguntava e respondiam: “Já está vindo, já está vindo.” Eu não percebia que eram evasivas, até que, depois do almoço, percebi que o Paco não estava mais aí e que eu não tinha ficado sabendo de nada. Então, fui para o meu quarto, minha mãe se aproximou e me disse: “Filha, o Paco foi embora”. “Já tinha imaginado isso.” Eu disse. E não perguntei mais. Dias depois, ela comentou comigo. Eu sabia quando ia de férias. Ele era muito jovem, bonitão, muito “gato”, como vocês dizem, era muito assediado pelas garotas. Uma delas estava permanentemente no seu consultório e eu dizia para ele: “Paco, por aí estão dizendo...” Como eu tinha muita autoridade sobre ele e ele muito carinho por mim, eu podia falar. E ele dizia: “Tudo isso é mentira, mentiras que contam para sua mãe.” Quando eu voltava para a universidade não sabia o que acontecia e, finalmente, ele quis se separar. Minha mãe terminou o que estava contando, dizendo: “Vi ele arrumar suas coisas, colocá-las na mala e disse para ele: ‘Paco, você está indo embora?’ ‘Sim, Nelly, estou indo.’” E foi. Sem uma briga, sem uma discussão. Separaram porque ele não tinha filhos com ela, que é um argumento não sei se válido ou não. O caso é que ele casou de novo com aquela senhora, teve cinco filhos e não foi feliz. Separou-se dela, muito mal. Anos depois, em um terceiro relacionamento, se uniu com uma mulher mais humilde, mais simples. As duas respeitam muito minha mãe e os filhos dele falam da minha mãe como uma pessoa de muito respeito. Eu passei muitos anos sem falar com o Paco. Fiz isso porque me doía o que tinha feito com minha mãe.

P - Você ia ficar com sua mãe nas férias enquanto estava estudando?

R - Sim, ia sempre. Nunca faltou dinheiro para a viagem.

P - Como eram suas férias? Como era ser uma mocinha em Tarapoto?

R - Ah! Era lindo. Comecei a dirigir motocicleta, só que era emprestada. Tinha amigas que já tinham se formado, elas tinham dinheiro e eu não.

P - E você andava de moto pela cidade?

R - Sim, sim, sim... usava a moto para tudo, até para ir na esquina.

P - Essa era sua diversão de jovem.

R - A diversão, sim, porque eram as primeiras motocicletas que chegaram em Tarapoto e a gente podia passear por todas partes.

P - Como era essa moto?

R - Motos de mulher, pequenas... Era o estouro da época. Todas nós queríamos ter uma moto. Eu andei de bicicleta desde os dez anos e de moto desde os dezessete anos, até hoje. E gosto muito.

P - E a vida universitária? Foi importante estar na universidade?

R - Sim, ir para uma cidade que não é a sua, estar em uma cidade senhorial como é Trujillo. Trujillo é uma cidade conservadora. Lima é muito grande, Trujillo é menor, mas muito conservadora, na qual, acho que ainda hoje em dia, se notam grandes diferenças sociais. Há os ricos, os da sociedade trujillana, e o resto. E nós, provincianas, sempre fomos muito menos. Nas cidades em que há universidades, existem muitas pensões. Eu morava em uma pensão junto com outras garotas. O que tem de bom na vida de estudante é o fato de viver em grupos, conhecer outras pessoas, aprender a viver com outras jovens. Sempre tive a sorte de ter boas amizades. E conto isto para vocês porque é, possivelmente, muito comum nos países em que temos tantas diferenças raciais, culturais, etc. Nós que somos da selva, da Amazônia, nessa época éramos consideradas, possivelmente, como o pior que havia. Quem era da costa se achava mais do que quem era da serra, quem era da serra se achava mais do que nós, e nós não gostávamos de ninguém. Era assim e, pior, foi assim que eu tive que viver. E não só eu, mas minha filha, posteriormente. O fato de sermos estigmatizadas como mulheres fáceis, quentes, só por sermos da Amazônia. Sempre nos disseram isso e, às vezes, voltam a dizer. Até já foi motivo de reuniões, de oficinas, como vocês dizem, para discutir e debater o que fazer diante do maltrato, da ofensa. Porque, também, isso fazia com que os jovens se aproximassem com outras intenções.

P - Como era essa relação com a selva? Está presente na sua infância e na sua juventude?

R - Eu não estive morando na selva durante uma época muito importante, que é a que vai dos três aos doze anos, quando a gente se apropria de tudo e, especialmente, do seu entorno. Contudo, para mim a Amazônia esteve muito marcada, com muita força. Possivelmente isso se deva ao fato de eu ter voltado para lá periodicamente... E aprendi a amar essa terra. Invejo e invejava outras crianças que nasceram e cresceram no campo, porque tinham esse contato próximo com o rio e com o bosque. Eu aprendi a nadar um pouco, me defendo, mas não muito. Aqui, as crianças desde que nascem, se há um rio, aprendem a nadar sozinhas. Trepam em árvores, pegam frutas, andam descalços. Eu só aprendi a subir nas árvores da minha horta. Mas, sim, aprendi a amar muitíssimo a natureza.

P - Mas o povoado está no meio da Amazônia. Como é isso?

R - Sim, é a Alta Amazônia. Há montanhas, há cachoeiras, há lagoas, há rios com pedras... É muito belo, muito belo. Hoje em dia está muito depredado, mas continua sendo belo. Eu adoro Tarapoto. Todo San Martín é muito bonito porque lá a planície amazônica é mais uniforme, é uma planície verde atravessada por rios. A Alta Amazônia é outra coisa, você tem montanhas azuis belas, azuis à distância, e isso é por causa da sua topografia.

P - Montanhas azuis?

R - Azuis.

P - Como?

R - À distância elas parecem azuis, quando você vai se aproximando, pode apreciar as diversas tonalidades do verde. E se chama Cordilheira Azul.

P - Mas é uma relação de trabalho com a Amazônia, ou é um lugar onde se vai para passear?

R - A gente mora no meio da Amazônia, na região urbana. Você sai para o seu jardim e encontra passarinhos, borboletas, etc. Ou seja, uma rica biodiversidade. E pode haver lugares nos quais a gente vai passear porque são mais inacessíveis e também mais protegidos.

P - No lugar onde você estudou era diferente?

R - É uma cidade da costa, com mar, e a cidade cheia de cimento. A gente vivia desejando voltar para a terra. Eu fui estudar em Trujillo e não em Lima por causa desse meu apego por Tarapoto. De Tarapoto para Trujillo as passagens de avião eram mais baratas, e quando a universidade parava pelas greves eu ia até Tarapoto de avião. Não ficava em Trujillo.

P - A única forma de ir era de avião?

R - Nessa época, só de avião.

P - Não havia estradas?

R - Não havia estradas. E eu também tinha a facilidade de um tio, que já faleceu, irmão da minha mãe, que era agente de uma companhia aérea. Ele me dava passagens, mandava dinheiro para meus gastos e tinha uma vida muito boa economicamente. Minha mãe mandava o dinheiro da pensão e mais um adicional para gastos, porque não podia enviar mais. Mas meu tio, que não tinha filhos, e eu era uma sobrinha querida dele, mandava bastante dinheiro para mim pela agência. Com isso, eu mandava encomendas para a minha mãe. Depois, trabalhei enquanto ainda estudava e daí eu gastava nos meus gostos pessoais. Eu gostava de sandálias, calças na moda, chocolates, sorvetes e cinema. E para esses gostos eu trabalhava.

P - Em quê?

R - Em um consultório médico, como secretária. E me saí muito bem, porque o médico me deu trabalho até o quinto ano da universidade.

P - Qual foi o curso que você estudou?

R - Língua e Literatura.

P - E essa época de estudos foi importante?

R - Claro que sim. O meu esposo também é professor e diz: “Eu teria gostado de estudar Antropologia ou Sociologia, porque isso me facilitaria entender o trabalho de promoção.” Mas ele acabou há pouco de fazer um mestrado em Gerência Social e já se sente completo. E eu digo a ele: “Às vezes, penso que não deveria ter estudado Língua e Literatura.” A gramática é tão abstrata, tão feia, mas eu a tornei linda para poder ensinar e tenho belas lembranças da minha carreira. Fui lendo, fazendo cursos para torná-la mais acessível para as crianças. Então ele me diz que a formação que nós tivemos é o mais importante, porque sobre essa formação, qualquer que seja, conseguimos nos desenvolver em outras coisas. E que não devemos renegar os cursos que tivemos, porque nunca se sabe o que vai acontecer no futuro.

P - E quando você terminou o curso, o que fez?

R - Imediatamente, eu já tinha trabalho. Nessa época os professores titulados eram muito procurados. Antes mesmo de terminar o curso, eu já era requerida pelas religiosas do meu colégio secundário, que pediram que fosse ensinar lá quando eu ainda estava no quinto ano da universidade. E fui ensinar lá.

P - Em Tarapoto?

R - Em Lamas, uma cidade próxima. Foi uma experiência muito boa. Me deram muitas turmas, não todas da minha especialidade, mas já estava em contato com as jovens estudantes de secundária.

P - Como eram as escolas em que você deu aulas?

R - Lamas é uma província próxima, a vinte minutos de Tarapoto. Nós a chamamos de “Capital Folclórica”, porque ali tem uma comunidade nativa que convive com os mestiços e que também é muito conservadora. Está a 25 ou trinta quilômetros, mas mesmo assim, nessa época, eu tinha que passar a semana toda na comunidade, porque não havia transporte. E para uma jovem de dezoito, vinte anos, é horrível morar a semana toda em um povoado extremamente tranquilo, com problemas de luz, usando lampiões de querosene, deitando às sete da noite.

P - Como era a sala de aulas?

R - A sala era simples, com paredes de barro e umas carteiras. As religiosas tinham as salas muito bem cuidadas, muito bem acondicionadas, mas tudo muito simples. E não eram do tamanho adequado: a casa não estava preparada para ser uma escola. Mas foi uma época boa, porque a minha formação continuava. As religiosas sempre são boas mestras em disciplina, ordem e valores. Então acho que foi bom. Quando, no ano seguinte, fui para outro colégio em Tarapoto, também com religiosas, comecei a ser um pouco mais crítica. Eu observava e pedia coisas para minha diretora, uma religiosa muito inteligente e muito hábil. Eu sentia que no primeiro colégio eram as religiosas que tomavam as decisões. Elas diziam para nós: “Você vai ensinar isto e isto.” Para a minha nova diretora eu dizia: “Eu não quero isso, eu não quero aquilo.” Mas ela era muito hábil e fazia com que a gente tomasse decisões já pensadas por ela, mas, pelo menos, fazia com que nos sentíssemos participantes. E aprendi muito com ela. Foi muito dura com muitas, mas não comigo, nem sei por quê. Acho que eu era uma mocinha muito disciplinada, muito respeitosa. Sempre fui assim. E era muito sensível, não gostava que me chamassem a atenção nem que me levantassem a mão. Lembro que minha mãe me bateu com a régua nas pernas por duas coisas, uma foi muito grave e da outra nem lembro. E foi muito grave, eu reconheço isso, por traquinagens, por descuido. No café-da-manhã, derrubei a tinta e a roupa branca dela manchou bem quando ela tinha que sair para trabalhar. E, você sabe, ela tinha poucos vestidos e era hora de correr para o trabalho. Então me bateu com a régua. Ah, foi horrível para mim. Eu nunca, nunca queria que me batessem. Ou seja, eu nunca dava motivos, então também não gostava que a religiosa fosse autoritária. Como eu já tinha um pouco mais de domínio da minha profissão, estava me sentindo mais segura e começava a botar condições. “Madre…” Nós chamávamos as religiosas de Madre. “Eu não vou aceitar que essas autoridades venham me dizer o que é que eu vou fazer na minha turma. Se eu encontro meninos e meninas que vêm na escola e não sabem ler, que não escrevem bem, eu vou ensinar leitura e escritura para eles. Preciso ter uma boa base para poder extrair resultados deles. Então não quero que a senhora permita que essa gente venha me fiscalizar se nem sequer são da minha especialidade.” E ela dizia: “Não se preocupe, faça o que achar certo que eu vou me encarregar disso.” E ela cumpria. E desse jeito fui ganhando respeito. Fui aluna dela na secundária e não era das mais santas, mas também não era insuportável. Quando voltei de Lima, no primeiro ano, era um anjo. Primeiro lugar em comportamento, primeiro lugar em aproveitamento. No segundo bimestre, continuava sendo a primeira aluna, mas não era mais a primeira em comportamento. Tinha mais amigas e muita coisa para conversar. Quando estava na aula de Religião. eu nunca estudava a catequese, ela entrava e nos tomava a lição de memória. A minha catequese estava embaixo da minha carteira, e quando ela perguntava, eu respondia muito bem. Mas eu não estudava e, às vezes,  não respondia bem e levava um zero em religião. Elas nos levavam para a confissão em fila, como ovelhinhas para a igreja e, em vez de entrar para me confessar, eu ficava na praça. Minhas amigas obedientes levavam bronca quando não se confessavam.

P - Isso foi quando você era criança.

R - Doze, treze anos, na secundária, quando ela foi a minha diretora.

P - Depois foi sua chefa.

R - Depois foi minha chefa, mas já me conhecia. Então acho que sua relação comigo era muito especial. Durante anos foi muito dura com as outras professoras e comigo era mais condescendente. Mas todas nós valorizávamos muito ela. Depois todas tivemos um bom relacionamento com ela.

P - E você continua dando aula por muitos anos?

R - Ensinei por dezesseis anos no serviço oficial.

P - Em Tarapoto?

R - Em Tarapoto. Mas há um parêntese. Antes que essa religiosa entrasse e fosse minha diretora, a diretora era outra. No primeiro ano, tinha acabado de chegar de Lima e fui ao Colégio Nacional de Mulheres, que tinha sido criado nesse ano, 1957. A diretora não era religiosa, mas era tão autoritária que obrigava o marido a caminhar três passos atrás dela. Conosco era terrível e temível, se ela abria a boca, todo mundo ficava em um silêncio sepulcral. Se você chegava tarde no colégio, tinha que voltar para casa e trazer seu pai para justificar o atraso, não importava se você morasse no outro lado da cidade. Abusava tanto que nós fizemos uma greve nessa época, quando eu tinha doze anos. Fiz greve porque tinha o Paco e a minha mãe, que eram pessoas que sabiam de direitos, e eles não podiam permitir que fôssemos pisoteados e que abusassem de nós. Não abusavam sobre mim, mas abusavam outros. Primeiro, ela obrigou a baixar a bainha das saias porque, segundo ela, estavam muito curtas. As saias ficaram de duas cores, porque a parte da bainha tinha uma cor e o resto, pelo uso, outra mais clara. Ficou a marca de outra cor, muito feia. Depois, ordenou a troca de uniforme em novembro, por um outro novo, sendo que as aulas terminam em dezembro e as pessoas não tinham dinheiro para isso. Pois trocaram o uniforme. Minha mãe e o Paco disseram: “Você não vai trocar de uniforme porque tem que ser solidária com todas essas pessoas que não podem comprar os uniformes.” Eu, obediente, ia para o colégio com meu uniforme antigo e, então, começaram a nos discriminar, nos mandavam para o fim da fila. Então chegou um momento que a diretora mandou de volta para casa os alunos e eles não voltaram mais. Eu contava em casa: “A diretora fez tal coisa, gritou com tal pessoa.” O guarda, o porteiro, o homem da limpeza... Ela maltratava, fazia que lavassem suas roupas interiores, era um horror. Então os pais se reuniram e concordaram que iam apoiar para que nós alunas fizéssemos greve. E nós, com doze anos, fizemos greve. Nunca na vida do meu povoado tinha tido uma greve. Foi incrível!

P - E a diretora saiu?

R - Neste momento, não saiu, e depois vieram as represálias. Eu continuava sem uniforme novo. Teve um concurso de ortografia e eu participei e ganhei. No dia da entrega dos prêmios, eu não fui, porque não tinha uniforme novo. Veio uma professora e me disse: “Como é que você não vai? Você tem que ir!” E minha mãe diz a ela: “Não pode ir porque não tem uniforme.” E ela: “E se alguém te emprestar o uniforme?” Minha mãe conta: “Eu vi sua cara de tanta esperança de querer receber o prêmio, que você disse ‘sim’ e eu disse: ‘Está bem, pode ir.’” Fui e me emprestaram o uniforme. Recebi o prêmio. No dia seguinte, a diretora manda me chamar. Me olha de lado, nunca olhava de frente, e diz: “Você não tem uniforme?” Ela sabia que não porque éramos pouquíssimas. “Não, senhora diretora.” “Ah.” Ela disse: “Se eu soubesse, você não ia receber o prêmio.” “Entendi, senhora.” Eu disse. Fui para casa e contei para minha mãe. Eu tinha doze anos e contava tudo, porque eu não tinha capacidade de responder. E o Paco disse: “Quer dizer que o prêmio é pelo uniforme? Pois muito bem.” E pegou um papel: “Senhora diretora, aqui está o prêmio. Se é pelo uniforme, entregue para todos aqueles que tenham uniforme.” Fui e entreguei para a diretora a carta, o diploma e o presente. E, bom, acho que são lições de vida.

P - E essa noção de direitos que os seus pais têm, de onde vem?

R - Já comentei com vocês que quando o senador destacou ela para tão longe, ela preferiu renunciar. Teve dignidade. Meu pai foi um homem honrado e trabalhador. Esse é o melhor legado. Nunca ninguém pôde falar mal dele, mesmo que não tenha me dado coisas materiais. Imagino que deve ter algo na família porque todos os irmãos da minha mãe também foram pessoas muito corretas. E do lado do Paco, ele era descendente de espanhol, seu sobrenome é Jorge e, talvez, esses sejam valores das famílias antigas. Ele sempre foi um homem correto, que foi líder político, secretário geral de um partido, o mesmo da minha mãe. Os dois eram belaundistas. Inclusive, minha mãe foi convidada para ser candidata e nunca quis, não aceitou. Mas ela recitava poemas para Belaúnde, dava os discursos e o ex-presidente Belaúnde também gostava muito dela.

P - Então eles tinham uma atividade política?

R - Eles tinham uma atividade política com Fernando Belaúnde quando ele recém estava surgindo, em 1967.

P - E você, quando começa sua atividade social e política?

R - No Sindicato do Magistério, quando eu me iniciei na docência. Eu não sabia nada de sindicatos. Tinha visto brigas na universidade, provocadas pelos apristas, e estava em Trujillo, no berço da APRA. E via como eles massacravam os companheiros de esquerda.

P - APRA?

R - APRA, Aliança Popular Revolucionária Americana, de Víctor Raúl Haya de la Torre e do atual presidente, Alan García Pérez. Eles tinham forças de choque, eram muito violentos para defender os membros do seu partido.

P - Belaúnde é de esquerda?

R - Não, Belaúnde é populista. Da esquerda, líderes nessa época, eram Hugo Blanco, Alfonso Barrantes e, até pouco tempo atrás, Javier de Diez Canseco. E, ultimamente, Susana Villarán, mas não tivemos líderes que chegassem à presidência.

P - E como você chegou ao sindicato?

R - Todos os professores estavam sindicalizados. Nessa época em que eu entrei na docência ocorre o início da unificação do magistério de todos os níveis e é formado o SUTEP, que é o Sindicato Único de Trabalhadores em Educação do Peru. Então eu estava bem na fase de início e fui aprendendo. Como já disse, eu ficava caladinha, porque não sabia nada. Mas estava escutando, escutando... pouco a pouco comecei a participar e rapidamente me transformei em uma dirigente sindical.

P - Mais ou menos em que época?

R - Eu comecei em 1968 e em 1970 já era dirigente. Era dirigente local, mas já participava nas convenções nacionais. E aí comecei a ver as outras coisas que ficaram na luta. Porque, no começo, surge como uma frente muito linda, com todos os grupos, APRA, Ação Popular, a esquerda, todo o mundo. Mas, depois, Patria Roja se encaixou na dirigência e continua até hoje, tendo dominadas quase todas as instâncias do magistério. E não é porque todos os professores estejam a favor deles. Nas eleições nacionais são poucos os que votam neles.

P - Você continua dando aulas e começa uma carreira sindical?

R - Exatamente, mas a carreira sindical continua. O governo do General Velasco obriga, com boas intenções ou não, a um desconto muito alto em folha, para construir uma Cooperativa do Magistério. Eu suponho que ele fez isso para nos dar acesso a diversos serviços, mas ao nos obrigar a descontar do nosso salário, restringia nossa renda, que não era alta, mas, ao mesmo tempo, permitia, confiadamente, que tivéssemos um sindicato melhor, uma organização melhor. Acho que apontava mais ao fortalecimento da organização sindical. Era uma época tão boa de democracia sindical que você escolhia os líderes do magistério para dirigir a Cooperativa. E tinha, como em todas as cooperativas, um Conselho de Administração e Vigilância. O sindicato escolhia seus representantes para a Cooperativa e o Estado garantia a licença sindical para exercer o outro cargo. São abertas eleições gerais, universais, obrigatórias e secretas, e todo o mundo, todos os professores, iam escolher seus representantes cooperativos. Na primeira eleição, sou eleita no Conselho de Vigilância como presidenta. E para a Administração, ganha um companheiro de outra província. Nós éramos líderes de um Departamento inteiro e mais uma província. Ao todo, onze províncias.

P - Você lembra dessa eleição?

R - Claro, foi emocionante ser eleita entre tantos postulantes. Fui eleita na primeira diretiva, para vigiar a marcha institucional. Representava o sindicato para velar pelo bom desempenho dos nossos dirigentes na administração da Cooperativa e achávamos bom. Mas...

P - O que você vigiava?

R - Vigiávamos a administração dos recursos. Havia muito dinheiro. Nessa época, quatrocentos sóis podiam significar uns cinquenta dólares por mês, era muito alto. Tivemos de um tudo: mercado cooperativo, que era um supermercado de serviços; diversos tipos de créditos, inclusive para casa própria; alojamento para professores; equipamentos modernos, como os de impressão eletrônica. A previsão era que nos transformássemos em um sindicato poderoso não apenas do Peru, mas da América Latina. No ano seguinte, pelo sistema de eleição, eu passo para outro cargo no próprio Conselho de Vigilância e, na parte administrativa, escolhemos um novo presidente. E daí começa outra história. O fato concreto é que, um ano depois, ele se transforma no meu marido. Nós ainda mantínhamos, como sindicato, o espírito de frente única. Para eleger o novo presidente o Sindicato de San Martín fez uma avaliação e viu que a dirigência estava começando a se corromper. Esse sindicato era o mais forte da região e ambos os conselhos dissemos: “Temos que eleger alguém que seja honesto.” E começamos a analisar a trajetória dos candidatos: “Este não vai se reeleger porque não foi bom.” E fizemos um acordo para pesquisar qual dos candidatos era o melhor. Perguntamos e o que tinha a melhor trajetória era um professor de Juanjuí. Perguntamos ao seu sindicato provincial como ele era e eles responderam que era jovem, honesto, etc. E o meu esposo acrescentou: “Bonitão e solteiro.” Então ele foi eleito presidente do Conselho de Administração. A partir do terceiro ano desse processo, a direção foi tomada por Patria Roja. E vocês sabem o que Patria Roja fez dois anos depois? Nos obrigou a renunciar às cooperativas, nem sei com quais argumentos e contra não sei quem. Nos obrigou a renunciar! Os professores íamos chorando para assinar a nossa renúncia, porque essa era, segundo eles, a retirada disciplinada da classe. Nós renunciamos e perdemos a oportunidade de ser o máximo em sindicato de professores na América.

P - E por quê?

R - Porque a direção lançou argumentos de que as dirigências tinham se corrompido e que estava estragando os dirigentes. De fato, havia começado uma degeneração tanto de dirigentes sindicais quanto cooperativos. Contudo, Lima não renunciou e hoje continua funcionando o SUTEP [Sindicato Único de Trabajadores de la Educación del Perú], no único local que restou dessa época. O pessoal das províncias acatou, mas na sede do Sindicato, não.

P - O que significou essa renúncia?

R - Os dirigentes cooperativos voltaram a dar aulas e as cooperativas desapareceram, e não sabemos o que aconteceu com seus bens. Os únicos beneficiados foram os do SUTEP de Lima.

P - Você nos contava que nessa época conheceu seu marido. Assim que você conheceu já pensou “este vai ser o meu marido”?

R - Não, não, porque nós dois éramos de posições políticas diferentes. Eu nunca militei, mas era amiga do pessoal do Patria Roja. Depois comecei a ver as brigas internas deles. Eram meus amigos, mas entre eles eram inimigos. Eu não podia ter inimizade nem com uns, nem com os outros, continuo sendo amiga deles. Vivi de perto, vi como a esquerda ia se desmembrando. Veio a divisão de Patria Roja em muitas tendências, entre elas o Sendero Luminoso, no magistério. O grupo do meu esposo era o que era mais malvisto pelo Patria Roja, eram inimigos. O comportamento deles era de ameaça aos que discrepavam e, inclusive, eram mais radicais com os do seu próprio grupo. Já ameaçaram de morte os meus amigos. Até hoje continuam brigando entre eles pela direção do Colégio de Professores. Essa foi a escola sindical que eu tive e, lógico, quando conheci e participei na Rede, dei valor a outras formas de dirigir organizações. Tive uma escola da qual não gostei, vi muitas formas de manipular as assembléias, as votações, vi como negociavam, etc.

P - O trabalho com as mulheres começa no sindicato?

R - Não, isso começa quando eu já ia deixar o magistério, em 1983.

P - Ah, foi depois.

R - Eu já tinha me casado, tive meus três filhos. Vivi uma etapa em que parei toda atividade extralaboral. Tive meus filhos muito próximos um do outro. Casei só por causa do companheiro que encontrei, não porque minha opção fosse casar. Para casar, tinha que ser com alguém que realmente preenchesse minha vida. Havia aprendido muitas coisas no sindicato e não ia casar só por casar. E não encontrava a pessoa que cobrisse minhas expectativas, encontrava um defeito ou outro. Mas no meu marido encontrei um companheiro com o qual compartilhava ideais. Era um dirigente como eu e a gente se compreendia muito bem, nos entendíamos, apesar de termos brigado muito, porque eu era muito polêmica, não só com ele. Ele é mais comedido, menos polêmico. Eu polemizava com os companheiros dele de igual para igual. Mulher líder, naquela época, não era muito comum. Então, era bastante respeitada.

P - E você já se apaixonou assim, de repente?

R - Sim. Eu achei que com ele, sim. Sempre me comentam e brincam comigo dizendo que foi uma decisão do partido dele, para me “moderar”. Se falam a sério ou brincando, eu não sei.

P - Qual é o nome dele?

R - Teócrito, Teo.

P - E do casamento, o que você pode me contar?

R - Ah, o casamento é outra história muito simpática. Minha mãe não gostava dele.

P - Não?

R - E como não gostava dele, fazia o impossível para me desanimar, como fazem as mães quando não gostam de alguém. Mas é que ele também teve um deslize quando estava namorando comigo. Então eu peguei minhas coisinhas e fui para Lima, e como tinha tantas amizades, me ofereceram trabalho. E eu deixei ele. Depois fizemos as pazes, voltamos ao namoro e planejamos o casamento. O casamento foi singular, eu não tinha dinheiro e ele também não, éramos dois professores e nunca um professor ganhou muito. Meu pai ajudou com um caminhãozinho para levar minhas coisas e me deu uns animaizinhos: galinhas, um peru e um porquinho para a festa. Minha sogra organizou os preparativos, porque ela estava na sua casa e tinha um sítio. Sabem como foi? Não teve convites, só teve uma lista de convocação: “Convidamos tais e tais pessoas para o casamento de Betty e Teo, que irão casar na Prefeitura de Juanjuí no dia seis de setembro.” “Alberto, para você assinar aqui... Ei, Bertha, assina aqui…” Uma lista, uma lista de amigos.

P - Iam assinando...

R - Assinavam como se estivessem indo para uma sessão. E foram para o casamento. Fizemos uma linda festa ao meio-dia. Casamos só no civil, porque nenhum dos dois queria casar no religioso, por decisão pessoal, e foi uma festa que deixou gratas lembranças. Não pelos arranjos ou luxos, mas porque todos estávamos realmente muito contentes e a alegria é contagiosa. Na prefeitura, quando leram o Código Civil, tinha vontade de sair correndo. Era desses códigos que dizem que você tem que pedir permissão ao marido se quer viajar, trabalhar, etc. E eu dizia para ele: “Que tal se a gente vai embora daqui sem assinar nada? Porque é horrível isso que temos que assinar.” Ele ria e o casamento foi com aplausos classistas do sindicato, a festa com hurras e tudo. Uma coisa linda, linda e diferente.

P - E depois, onde foi a festa?

R - A festa foi na casa de um tio do Teo, que era o prefeito da cidade e que, por outro lado, não gostava muito do sobrinho, porque era de esquerda e o tio era belaundista. Mas como a casa do Teo tinha caído com o terremoto, o tio, que devia muito à mãe do Teo, teve que ceder sua casa para a festa. Eu consegui imediatamente o translado para essa cidade, para trabalhar, e morei lá durante dois anos e meio. Tive, nesses dois anos e meio, dois filhos. A terceira já foi uma criação Tarapotense.

P - Como eles se chamam?

R - Marco Antonio, Katia y Leslie Irina. Para mim, o casamento foi uma mudança muito grande. Eu viajava muito, como faço até hoje. Ia em eventos de férias, sempre viajando. Sou professora por formação e pelo sindicato comecei a viver outro tipo de experiência de vida e isso, para mim, é importante. Durante seis anos, para criar meus filhos, que tinham muito pouco tempo de diferença entre eles, não pude me dedicar a outras atividades. Foi difícil. Meu esposo começava a se destacar. Eu era uma liderança na minha região, mas ele ainda não era. Ficou conhecido na cooperativa e começou a ganhar espaços. Eu ia ficando para trás e não gostei disso, especialmente pelo fato de ficar estagnada como profissional. Até que um dia eu disse a ele: “Olha, me convidaram para a diretiva da Cooperativa de Poupança, para apoiar a direção, e vou aceitar.” “Certo.” Ele me disse. “Quando houver sessão, você fica em casa olhando as crianças.” A gente combinou, e assim foi feito. Nessa época eu não tinha nem ideia de direitos da mulher, os direitos que eu conhecia eram os sindicais. Estou falando do ano 1976, 1977, 1978… Para me apoiar nesse recomeço das minhas atividades extralaborais, comprei minha própria motocicleta. Apesar de que o tempo todo, sempre tivemos o dinheiro juntos, nunca tivemos problemas no casamento por assuntos de dinheiro porque sempre tivemos um fundo comum, nunca é “o meu dinheiro, o seu dinheiro”. Mas, sim, a moto era minha, no sentido de que era moto de mulher, era pequena. Ele tinha uma moto grande que eu não conseguia dirigir. Eu ia para a Cooperativa, para as sessões, que às vezes terminavam à uma ou duas da manhã. Voltava na minha motinho, rápido, e ele abria a porta para mim. Começa, também, uma relação entre iguais, porque ele entendia que quando me encontrou eu não era dona de casa. Eu disse: “Não consigo mais ficar assim, porque não suporto.” Eu estava em casa, olhava os filhos, preparava aulas e fazia outras atividades para melhorar a renda familiar.

P - Seis anos?

R - Seis anos. Mas foi só até aí e outra vez comecei com outro tipo de atividades.

P - Sindical?

R - Sindical, enquanto estive no magistério, lutando pelos nossos direitos e, em alguns momentos, pelos interesses da comunidade nas frentes de defesa.

P - Um pouquinho dos seus filhos. Você gostaria de contar um pouco como foi o nascimento deles e essa nova fase de maternidade?

R - Sim, eu fiquei grávida depois de estar casada uns meses. Tive um problema de saúde mas queria, sim, engravidar. Eu não sabia se podia ser mãe ou não, mas sempre tive uma gravidez boa. No começo, quando engravidei do mais velho, Marco Antonio, não percebi que estava grávida. Fiquei mal, com febre e outros problemas. O diagnóstico foi de pleurisia. O médico mandou tomar antibióticos, mas eu tinha a ideia de que, quem sabe, podia ser gravidez, e disse: “Ainda não vou tomar antibióticos, vou para Tarapoto e faço com que outro médico me examine.” E fui. E não era nada disso, estava grávida. Poderia ter perdido o meu bebê. E, bom, fico admirada porque, apesar de que ser muito bem tratada, também passei por várias doenças pequenas. Contudo, fui muito forte cada vez que estive grávida. Passeava de moto com meu marido, viajando grandes distâncias, e nunca tive nem a menor ameaça de perda. E os incômodos, só os normais.

P - Nasceram na maternidade e...

R - Sim, no hospital, porque eu tinha seguro. Os dois primeiros partos foram difíceis, partos secos, mas naturais. E a última já nasceu mais depressa, muito rápido e em plena greve, uma das mais fortes do magistério, que durou quatro meses sem recebermos nossos salários. Minha filha nasceu quando estávamos na época de vaquinhas magras. Ela passou do leite em lata, porque não pude dar de mamar, para o leite de vaca. E ela é a mais alta, 1.73 metros. E o meu filho mais velho tem 1.75 metros, quase como o pai. Katia é como eu, em altura e cor. Mas acho que demos muitíssimos cuidados ao mais velho. Ele sofreu do estômago desde pequeno, era magrinho. Mas é um bom rapaz, tem me feito sofrer muito para que seja profissional. Colocou a prova minha paciência. Nossa aspiração foi que os filhos estudassem fora, não sei se foi tão bom ou tão ruim como foi para nós. Teo, meu esposo, foi para Lima. Por três anos estudou com bolsa na Cantuta, em Lima, e voltou. Aos dezenove anos era professor. E eu fui com dezessete anos e aos 21 era professora, sem problemas. Mando minhas filhas, Katia e Irina, e a mesma coisa: cinco anos e uma é comunicadora social, sete anos e a outra é advogada. E o filho homem, ao que demos tantas oportunidades, foi para Cochabamba estudar, que era o que ele queria e, em vez do título, nos deu de presente uma neta, a primeira, que tem seis anos e mora em Cochabamba.

P - E o nome dela?

R - Emily Gabriel. É uma linda menina de seis anos. Ela sabe que gostamos dela, que tem uma família no Peru. Meu esposo foi para o nascimento e eu a conheci quando ela tinha cinco meses. Nossa relação é à distância, pelo custo que significa ir até a Bolívia. O Marco continuou com altos e baixos. Não sei se fizemos muitas concessões, sem intenção, ou se mandamos ele muito jovem para fora de nós. Como somos diferentes, as mulheres dos homens! A mulher de dezessete anos é uma pessoa madura, o homem de dezessete anos, no meu caso e no de muitos que conheço, demora para saber o que quer.

P - Com quantos anos ele foi pai?

R - Aos 22 anos, ele. Ela com vinte. E na Bolívia, vinte ainda é menor de idade. Minha filha Katia exerceu sua carreira por pouco tempo e casou. Hoje é mãe de Flavia Alessandra e de Mateo Fabián. E a família continua crescendo. Irinita já se desempenha como advogada.

P - E você conciliando a vida de mãe com a de professora, com as cooperativas?

R - Sim, aí a vida ficou mais complicada, porque já eram os filhos, o trabalho da escola e as atividades extras. Já quase não estive ativa como dirigente mas, sim, na cooperativa, em outras atividades. E nas domésticas, das quais as mulheres dificilmente nos livramos, sempre tive apoio, porque o trabalho doméstico, para mim, era muito duro. Contudo, mesmo que de modo incipiente, a família dividiu as responsabilidades por necessidade. Às vezes não tínhamos pessoal de serviço e o marido precisava não cozinhar, mas pelo menos lavar algumas coisas. Na prática, fomos aprendendo a nos organizar de outra maneira.

P - Você disse antes que o trabalho com as mulheres surgiu bem depois, não é? Como foi isso?

R - Muito depois, em 1983. Decidi deixar o magistério com dezesseis anos de serviços oficiais. Isso me permitia ter uma pensão baixíssima, mas uma pensão certa. Então fiz as contas: tinha um cargo diretivo no colégio, ia receber uma pensão igual à dos aposentados. Então pensei: “Para que vou esperar cinco anos?” A minha casa não tinha teto, eu tinha uma casa que tem uma longa história e estava sem teto. Com a compensação pelos meus anos de serviço eu podia construir uma parte da minha casa e resolvi fazer isso. E me aposentei do magistério. Me afastei e não sabia o que ia fazer. Para gerar renda, fazia coisas que nunca tinha feito: manteiga de amendoim – que a Milena prepara –, que foi o que minha mãe ensinou; geléia de uva; costurava camisas para homens; e, Depois, abri um local para vender lanches. Mas não me sentia bem. Não me sentia bem comigo mesma fazendo essas coisas, mas elas geravam renda. Então participava de feiras para vender os produtos que depois começamos a ensinar a fazer. Isso foi depois. Eu também tinha vendido coisas como professora. Fui até a fronteira duas, três vezes, e trazia mercadoria para vender. Não gostava muito de vender, mas vendia para me ajudar. Meu esposo continuava militando no seu partido e eu também apoiava, tinha me constituído em liderança do partido e, aproveitando toda a minha experiência sindical, fui proposta como candidata à Prefeitura acho que em duas oportunidades. Como partido, tinha começado a fazer contato com mulheres organizadas, estou falando do ano 1985. Elas estavam em outra dinâmica, seu mundo era tão pequenino quanto suas comunidades e a decisão dos seus maridos era a que elas apoiavam. Até hoje decidem com a bebida, licores, com a comida que ganham. Tive tão poucos votos que fiquei desiludida. Me desiludi ao ver que as mulheres sujeitavam seu voto ao voto do marido. Comecei a fazer trabalho político partidário, não orientado a fazer proselitismo, mas orientado a capacitar, a estudar juntas a história das mulheres na política, coisas que iam me ocorrendo, só que não tinha muita informação. Mas, sim, tinha uma ideia das coisas que queria. Havíamos formado a seção de mulheres do PST, Partido Socialista dos Trabalhadores. A única coisa que fazíamos era criar um grupo de mulheres amigas. A gente ia até os povoados próximos e organizávamos conversas com as senhoras. Ensinávamos algumas coisas que nós sabíamos, por exemplo, a costura, o uso de alimentos da região, etc. Surgiu a ideia de fazer um trabalho com mulheres.

P - De onde surgiu essa ideia?

R - Quando eu estava no sindicato, tinha recebido várias publicações, li alguns livros muito bons que também pude comprar. Entre eles, tinha um da Vilma Espín, acho que é a esposa de Raúl Castro. Tenho ele muito gravado nas minhas lembranças porque foi a primeira fonte de informação sobre a situação da mulher no mundo. Depois chegou outro livrinho, mas esse não lembro de quem era, sobre os direitos da mulher. Foram dois livros que me abriram para outro mundo. Então abri minha seção de mulheres no grupo político. Ficamos em torno de um ano e encontrei algumas voluntárias, heroínas para essa época, ao começarem a questionar nossa situação. Nessa época, se a mulher militava politicamente só era bem visto se era na Ação Popular ou em qualquer partido, mas quem era de esquerda sempre foi mal visto no meu país. E ficou pior depois do que fizeram o Sendero Luminoso e o MRTA [Movimento Revolucionário Túpac Amaru]. Quando visitei Fortaleza, na primeira vez, admirei as mobilizações do PT [Partido dos Trabalhadores] andando em carros decentes, com chamativas bandeiras. Conheci o Sindicato de Trabalhadores da Telefonia com lindos locais sindicais e de recreação, na praia. E no meu país, para ser de esquerda, você precisa ser paupérrimo, tem que ser uma pessoa mal vista, que não come nem se veste bem, etc. Foi uma grande lição conhecer outras realidades. Então, com mais duas voluntárias, no partido éramos três. E nunca esqueço delas duas. São minhas amigas: uma foi minha aluna e depois virou minha companheira e a outra era uma amiga com quem hoje continuamos, desde diferentes organizações, atuando pela comunidade, pelas mulheres e pelos seus interesses.

P - Eram mulheres rurais?

R - Sim, da zona urbana e da rural. Na minha terra predomina o verde e tudo o que é rural está muito próximo.

P - Tudo é verde...

R - Eu sempre me senti rural porque Lima sempre esteve na distância. E nessa época não haviam estradas que nos unissem, tudo era por via aérea, tudo era caro. Então eu me sentia rural. Para mim, rural é estar em contato com a natureza. E minha casa é uma casa que mantém suas árvores, os pássaros, etc. Não quero me desfazer das árvores por causa da pressão urbana, porque eu iria me sentir prisioneira. Estas amigas me apoiaram e, com elas, saíamos com os nossos próprios recursos, não tínhamos dinheiro. Fui, então, candidata. E fiquei decepcionada com o resultado. Nós fazíamos lindos planos de governo! Sentávamos com os homens e extraíamos informação e, realmente, fazíamos boas propostas para a comunidade. Então eu disse: “Alguma coisa está acontecendo com essas mulheres.” Como chegavam os jornais, comecei a ler sobre a década da mulher, de 1975 a 1985, e nós, completamente alheias a esses fatos, não sabíamos nada do que acontecia no mundo. Como meus interesses na problemática da mulher já estavam presentes, essa leitura me permitiu ver os jornais com outro olhar. Fico sabendo que em Lima tinha acontecido um Encontro Feminista e a gente, nada. Em 1983 criamos a Seção da Mulher. Em 1984, Peru Mulher, uma ONG de Lima, vem até Tarapoto e organiza um ciclo de conferências sobre Direitos da Mulher. Convidaram de um jeito aberto e assistiu muita gente. Entre todos, participamos as que éramos do PST. No final do seminário, as que estavam dirigindo dizem: “Se alguma de vocês tem interesse em formar alguma organização de mulheres, convidamos para que fiquem depois da reunião.” Ah! Nós, na mesma hora, acolhemos o convite. Informamos quem éramos. Elas, respeitosas, disseram: “Mas vocês concordam em formar outra organização de mulheres?” “Não temos problema, porque a organização que temos é do partido, mas podemos formar outro grupo de mulheres, mais amplo.” Então ficamos dezesseis mulheres e formamos o primeiro grupo para trabalhar só com a mulher, e o nome que colocamos foi Promoção e Desenvolvimento da Mulher, PRODEMU. Fui nomeada como primeira presidenta. Nesse tempo, conseguimos bibliografia, fizemos contato com organizações feministas de Lima e conseguimos pequenos recursos para planejamento familiar. Quando viajava para Lima por razões pessoais, batia em muitas portas: “Vou fazer um encontro de mulheres, será que você pode apoiar com tinta de mimeógrafo? Podem me dar papel para a impressão? Podem doar revistas?” E pouco a pouco fomos nos tornando conhecidas e recebendo pequenos apoios. Chegamos a formar uma pequena biblioteca especializada e, depois, recebemos a proposta de fazer um trabalho de campo com planejamento familiar, com um estímulo para as promotoras. Então começaram os problemas, até que decidi me retirar para não continuar vendo como, daquilo que nos tinha custado criar, se apropriava quem só tinha sido uma convidada. Antes de ter personalidade jurídica, o local dessa organização era a minha casa, minha motocicleta, os recursos familiares, os contatos de amizade. Eram os que serviam para o trabalho de campo. Fomos dando forma a isso com os nossos poucos recursos e com o nosso tempo.

P - Qual era o trabalho que vocês faziam, Betty?

R - Primeiro que fazíamos era Planejamento Familiar. As mulheres demandavam muita informação sobre isso. Nós íamos com as nossas lâmpadas porque nas comunidades não havia energia elétrica. Fizemos, também, um belo trabalho de alfabetização com educação cívica.

P - Por que as lâmpadas?

R - As lâmpadas petromax a querosene, ativadas por pressão. Se nós não dominávamos os temas, convidávamos uma enfermeira, uma nutricionista, um médico. E era isso que as pessoas queriam. No início, o grupo começou a diminuir, porque quando viram que o trabalho era maior, o pessoal foi ficando no caminho. Restamos oito. A personalidade jurídica foi obtida depois da minha saída e eu não apareço em parte alguma. Ou seja, já nasceu grande. Das dezesseis que a fizemos nascer, restaram apenas duas ou três. Ficaram com o nosso modesto patrimônio conseguido com muito esforço pessoal para torná-la conhecida. Nos anos posteriores, só resta uma das fundadoras.

P - E quando você sai, vai fazer o quê?

R - Antes de sair, o meu esposo – que também tinha deixado o magistério pela mesma razão que eu – havia participado como pesquisador nos trabalhos de alfabetização que fizemos com a Peru Mulher. A especialidade dele é Ciências Sociais. Ele faz a pesquisa participativa e começa a encontrar muita riqueza nesse trabalho de promoção social. Ele funda o CEPCO, com outros três amigos e eu.

P - O que quer dizer CEPCO?

R - Centro de Estudos e Promoção Comunal do Oriente. Isso foi começar de novo, colocar as bases para outra instituição. Foi muito duro começar do zero, porque a outra instituição já tinha uma certa presença e o reconhecimento de instituições tanto locais quanto nacionais. Foi difícil começar a criar outra imagem. A instituição que eu deixei continuou sobre a mesma base social que nos custou forjar. Nós também continuamos trabalhando com essas organizações.

P - E qual é o trabalho que você começa a fazer com as mulheres?

R - Alfabetização, planejamento familiar, corte e costura, que eram as coisas que nos pediam. Mas começamos com alfabetização, com atividades produtivas e direitos da mulher. Ensinávamos a usar os recursos do sítio, como usar as frutas, a mandioca, etc. Para que as mulheres e suas famílias aprendessem a valorizar sua produção e também para melhorar a alimentação. Tudo isso com apoio de voluntários. Arranjávamos um amigo para nos levar no seu carro, tínhamos amizades no setor da saúde que emprestavam as lâmpadas para irmos aos povoados e ex-alunas, que também participavam.

P - Outra vez aquele trabalho de casa em casa, com reuniões...

R - Nas suas comunidades.

P - Alfabetização de adultos?

R - De adultos. Para mim, a maior diferença com minha vida anterior era que no magistério eu tinha muitas limitações quanto a recursos materiais. Se você queria fazer alguma coisa com seus alunos, tinha que sair do seu bolso, que era muito pobre. Já, agora, com os recursos do projeto, tínhamos papéis, canetas, ajudas visuais, livros para colorir, lápis de cor. Eu, que sou professora, me sentia realizada. A maior conquista que tive foi dispor de materiais para ensinar e essas foram carências que tive durante toda a minha época de docente.

P - E eram especialmente mulheres?

R - Mulheres e homens. A ONG pedia que trabalhássemos com mulheres e, quando a gente ia convocar as mulheres, os maridos não autorizavam. Então mudamos de estratégia. Nisso é que CEPCO muda, porque não tem mais o foco só nas mulheres, começa a trabalhar com homens e mulheres e a ver a problemática integral das comunidades. Modifica sua visão, mas a partir do trabalho com mulheres. Para trabalhar com as mulheres tivemos que trabalhar com os homens e fomos conquistando eles pouco a pouco, isso provocou com que acontecessem muitíssimas mudanças nas comunidades.

P - Por exemplo?

R - Passamos logo para as atividades produtivas. Ensinamos costura. Mas a gente não tinha dinheiro e elas também não, porque eram comunidades muito pobres. Isso não nos desencorajava: “Tragam as calças e saias velhas.” Fazíamos pelo avesso e saiam calças para os meninos. Das camisas velhas, das partes que estavam boas, faziam blusinhas para os bebês. Então as pessoas nos sentiam muito próximos. Outra coisa que aprendemos foi a não falhar com aquilo que a gente oferecia. Eles tinham muito ceticismo das ofertas que faziam as instituições estatais e políticas. Então nós ganhamos credibilidade. Se a gente dizia que ia fazer um curso de alfabetização, fazíamos nos prazos combinados. A mesma coisa no que se refere à pontualidade: “Vamos chegar às duas da tarde.” E elas tinham que estar às duas, porque a gente não falhava. Às vezes as senhoras não chegavam às duas da tarde, apareciam às três, muito limpinhas, de banho tomado. Nós dizíamos: “Nós estamos vindo de muito longe, quanto sacrifício. Vocês precisam nos respeitar.” E da próxima vez estava lá, na hora em ponto. E se chovia ou acontecia alguma coisa, a gente mandava alguém de moto para avisar que não íamos chegar, não tinha telefone nem outra forma de comunicação. Assim elas aprendiam o que é o respeito àquilo que foi combinado, aos tempos de ambas as partes. Começamos a escutar as demandas da comunidade, a sentir os efeitos das difíceis épocas do primeiro governo de Alan García. Faltava tudo, mas o mais sentido nas comunidades era a atenção à saúde. Nós fizemos postos de saúde autogestionados. Foi uma experiência linda do gerenciamento dos recursos econômicos pela comunidade organizada, de um modo transparente, de uma grande solidariedade com as pessoas que não tinham nada.

P - E quando foi que chegou a Rede LAC, Betty?

R - Depois disso eu esqueci da política e também fiquei muito crítica com o grupo político do meu esposo. Acredito que o sindicato também me ensinou a ser mais crítica. Quando fui dirigente, aprendi a olhar para várias direções, não só para uma, e acho que foi muito bom, me ajudou muito na vida. Permitiu que eu conhecesse as pessoas, os problemas, e a tentar entender como eu devia ser, também como promotora social. Aprendi muito com as pessoas. Vi suas grandes limitações e a forma com que eram maltratadas, não só o maltrato entre casais, mas o das autoridades dessa época. Eles iam fazer uma gestão qualquer e eram invisíveis, ninguém via eles. Não existiam porque eram pessoas humildes, cheias de medos, com dificuldades para se expressar, muitas vezes iletrados. Deixavam eles esperando durante horas para, finalmente, dizer que voltem amanhã, que o senhor que ia atendê-los tem outros compromissos. Nós ensinamos eles a negociar, a lidar com as autoridades, que soubessem que têm o direito de serem tratados como iguais. Nos respeitavam porque minha comunidade é pequena e tínhamos uma imagem muito boa como docentes, então isso ia se estendendo para o trabalho de promoção. As maiores lições, neste trabalho, nós aprendemos no campo.

P - E foi o CEPCO que levou você para o encontro feminista em San Bernardo, onde começou a Rede LAC?

R - Mais do que o CEPCO, era um interesse pessoal.

P - E como você foi?

R - Fui por minha conta. O CEPCO não pagou porque não tinha recursos para esses fins. Fiquei sabendo que as organizações feministas de Lima estavam organizando a viagem de ônibus. A minha acompanhante, minha amiga Rosita, estava saindo do país pela primeira vez, depois de terminar um tormentoso relacionamento amoroso. Nós duas estávamos interessadas em aprofundar o conhecimento do feminismo e do movimento de mulheres. Ela é médica. Viajamos junto com as Floras, Manuelas, Cesip, Cendoc, etc. (organizações feministas) Começamos a conhecer as feministas, as grandes lideranças de Lima. Conheci muitas delas no Foro Mujer, um encontro muito importante realizado em 1985, em Lima, ao qual fui convidada para expor sobre educação informal e trabalho voluntário em Tarapoto. Compartilhei a mesa com mulheres muito renomadas. Foi um marco importante na minha vida. Fui convidada por uma grande amiga, que atualmente trabalha com prevenção de drogas. Foi ela que me deu esta primeira grande oportunidade e, posteriormente, a da minha primeira viagem aos Estados Unidos, em 1988. Dessa data até 2007, não parei de viajar. Quando vou para San Bernardo, vou com essa fome de conhecer como são esses encontros, o que é o feminismo e o que acontece com as mulheres dos outros países. As feministas têm muitos valores para as mulheres peruanas. Elas nos falaram de autoestima quando ninguém mais fazia isso no país, muito menos em espaços como os nossos. Nutriram a gente com seu discurso e com as metodologias de educação popular, as oficinas vivenciais, temas e metodologias de incorporação recente no currículo educacional, e que nós conhecemos desde 1984. Aprendi muitíssimo. Algumas mulheres da minha época lembram que quando íamos para as reuniões das feministas, anotávamos tudo o que a gente fazia para poder repetir com as mulheres das nossas comunidades. E acho que é honesto dizer isto: eu não me declaro feminista porque sei que não domino as teorias feministas e porque o que é pragmático tem pesado no meu desempenho, mas estou convencida da grande contribuição delas nesta minha prática. Sinto que sou aceita e respeitada nesses espaços. Sou crítica, também, de algumas mas, para mim, merecem muitíssimo respeito.

P - E você foi de ônibus para San Bernardo, foi lá que conheceu a Vanete?

R - Vou de ônibus. Uma vez em San Bernardo, procuro quais oficinas, entre as tantas que havia lá, me interessavam. A da mulher rural me atraiu imediatamente, assim como a de microempresas. Eu já estava processando alimentos para vender.

P - A oficina chamou sua atenção.

R - Vou para a oficina de microempresas e lá conheço Iliana Pereira, que é grande amiga de Kika e as mulheres da Rede do Uruguai. O acaso deve ser isso, meio que entrelaça as coisas, porque imediatamente fiz sinergia com Iliana. Lembro pouco de Kika, lá do Encontro. Fui à oficina da Vanete e fiquei impressionada com suas palavras, com a forma em que levava a reunião, tão diferente daquelas que eu havia conhecido, apesar de que eram reuniões informais e com limitações.

P - Em que era diferente?

R - Diferente no respeito com a participante. Escutar, dar a palavra, valorar a contribuição. Muito diferente da minha vida sindical.

P - Você está falando da oficina da Vanete.

R - Dessa oficina “Nossas vidas, nossas organizações”. E eu participo. Vocês percebem? Seguindo a linha da minha vida, estou em um momento em que sou uma humilde mortal, não sou uma liderança de mulheres, estou começando um trabalho. Vou para essa oficina e me pedem que eu faça uma intervenção sobre as mulheres rurais do Peru. Eu tinha muito para dizer. Contei que nós estávamos passando por uma crise enorme do agro peruano. Greve na minha região por causa dos baixos preços do arroz e do milho, da imensa produção de coca, da violência política, da presença do Sendero e do MRTA. E da minha participação na frente de defesa, apoiando com medicinas e perguntando pelo papel das mulheres no bloqueio das estradas. Elas eram as cozinheiras e, muitas vezes, não se alternavam na sua função, enquanto que os homens participavam por turnos.

P - Poder falar de tudo isso na oficina foi...

R - Foi importante ter voz em um espaço internacional. Depois falaram Verônica de Kwant, uma colaboradora holandesa, e Blanquita Fernández, as duas do Peru, de Flora Tristán, responsáveis pelo Programa de Desenvolvimento Rural. O trabalho delas nessa área era muito amplo. Eu não lembro de mais detalhes mas, sim, lembro da força das mulheres brasileiras, que vinham de todas partes e com seus diferentes sotaques de português. De como a gente se sentava no chão para fazer as oficinas, de não termos problemas com nada, tudo era bem recebido. Também fiz boas amizades com outras mulheres peruanas, dividíamos os quartos, os bons momentos... Foi maravilhoso. Essas amizades se conservam até hoje. Voltamos a nos encontrar já confluindo em interesses nacionais. Esse é um dos maiores ganhos. Voltamos com muitos aprendizados, com muitas amizades, foi um belo encontro, apesar de que anunciavam: “Vocês verão coisas que nunca viram.” Não aconteceu.

P - Foi aí que surgiu a ideia da Rede? Você lembra da primeira conversa sobre isso?

R - A surpresa foi no ano seguinte, 1991, quando recebi o relatório dessa reunião. Com uma impressão modesta de mimeógrafo e um xerox muito bem grampeadinho, chegou de Recife até Tarapoto, por via aérea. E eu li textualmente tudo o que tinha dito. Para mim era quase inacreditável. Além disso, uma coisa dessas levanta sua autoestima. E eu disse: “Como, se você quase não existe no seu país, como é que mandam isto do Brasil?” E ainda teve mais. Pouco depois veio uma carta convidando Betty para uma primeira reunião em Fortaleza, para conversar sobre as mulheres rurais. E isso já foi o máximo! Eu lembro que chegou através de alguém de contato, para me localizar no Peru, porque também não pôde chegar diretamente.

P - E quem mandava essa carta?

R - Vanete, junto com Margarida Pinheiro. Por pouco a carta não chegou e por pouco eu não consigo chegar na reunião. Mas a carta chegou e convidaram a mim. Então, era assim... Uma coisa inédita. E dizia: “Deve vir acompanhada por uma mulher rural.” E eu dizia “E agora? Com quem eu vou?” O CEPCO era uma organização jovem e não tinha recursos para procurar outras mulheres do país. Então a oportunidade foi dada para quem estava à mão e a gente conhecia. Eu via Milena como tendo muito potencial porque era muito jovem, e foi escolhida pelas mulheres da sua organização porque não tinha filhos. Se fosse escolhida outra,  precisaria ter quem cuidasse dos filhos. Então fui com Milena para Fortaleza e lá começa sua história.

P - O que ficou marcado dessa primeira reunião de Fortaleza?

R - Entrar e encontrar uma mesa cheia de frutas, na qual vi belos cajus. E eu amo essa fruta. Tenho uma árvore na minha casa e nós chamamos de casho. Ou seja, são esses detalhes que antes eu não tinha visto em outras reuniões. Vi calor humano já na chegada. Também fiquei atraída por esses exercícios prévios às oficinas, que eram muito atraentes. Havia uma ânsia por conhecer mais das técnicas. Além disso, digo francamente e não porque vocês são brasileiras, senti vocês muito cálidas, cálidas no sentido de expressivas com os afetos, e isso não acontece no Peru nem em outros países. No meu país o pessoal da costa se acha mais do que o resto, e se forem de Lima é pior ainda. Falam muito rápido e acham que falam o melhor espanhol. O pessoal da serra é muito conservador, reservado e pouco expressivo, abre bem pouquinho a porta de casa. E o pessoal da selva é extrovertido, aberto, cálido, hospitaleiro. Por isso, eu imagino, essa identidade com vocês. Nós não somos tão especiais, mas sim somos hospitaleiros. Vocês é como se tivessem na pele, assim, calor humano. E isso me impressionou. Desde então eu sou uma admiradora do Brasil.

P - E como começa a articulação da Rede?

R - A reunião de Fortaleza é decisiva. Éramos oito países. Era a reunião preparatória do 1º ENLAC. Era a segunda oportunidade de estar com a Vanete. Eu dava valor a esses detalhes, o detalhe das frutas, as flores, que nos permitissem falar... Éramos dezesseis mulheres. A gente trabalhava em conjunto e, depois, saíamos para que as trabalhadoras tomassem as decisões. Quer dizer que não era discurso, era prática. Eu já tinha cinco anos como ONG e estava recente o financiamento do meu primeiro projeto. Tinha pouca experiência. Então tudo me servia e eu aprendia como uma esponja.

P - Não entendi, todas sentadas e...

R - Ou seja, todas nós discutíamos mas, no momento da tomada de decisões, nós, as assessoras nos retirávamos, e as trabalhadoras decidiam sem a nossa presença ou influência. Isso evitava interferências, evitava manipulações, etc. Era uma escola de vida, porque não estava escrito, eu vivia isso cada vez que vinha para cá. Fui gostando muito e a gente não economizava dedicação. Para nós não existia o tempo. Tínhamos um plano e em cinco ou seis dias tínhamos que sair montando tudo, porque não tínhamos dinheiro e porque para a Vanete também era difícil conseguir, para que a gente pudesse se reunir de novo.

P - E já existia a ideia, o sonho do 1º ENLAC?

R - Sim, desde 1990. Foi planejado nas conclusões de San Bernardo.

P - Para você, nessa reunião, ficou claro o que seria o 1º ENLAC?

R - Sim, nós preparamos todo o programa. Pensamos, inclusive, na temática, no nome, participantes, número, articulações nos países... Tudo, pensamos tudo. De um modo muito simples, porque a Vanete não é complicada para planejar, e isso também era bom, porque no planejamento sempre tem alguém encarregado de complicar tudo e isso produz, às vezes, muitas limitações e até frustrações. Mas com ela a gente planejava de modo muito simples.

P - E quando você retorna ao Peru depois dessa reunião de Fortaleza, como prossegue o trabalho de preparação do ENLAC?

R - O que eu fiz, e isso também é uma prática de vida, é que fui visitar as amigas de Flora Tristán e disse a elas: “Fui convidada para Fortaleza. Aqui está tudo o que a gente planejou. Não vou trabalhar sozinha porque eu sou uma ONG do interior do país e não tenho relações como vocês têm. Vocês são uma organização grande. Quer dizer que venho colocar a serviço de vocês isto que está acontecendo no Brasil. E nós precisamos encaminhar isso juntas.” Elas me aceitaram. A relação foi um pouco difícil, mas andou. Eu só coloquei mais condições no momento de fazer o Encontro Nacional, prévio ao 1º ENLAC. Uma condição fundamental foi a de que a presença nacional fosse uma autêntica representação da diversidade do nosso país e que desse oportunidade para lideranças novas.

P - Flora é uma ONG grande?

R - Sim, Flora Tristán. É uma das mais antigas, junto com Manuela Ramos.

P - Organizaram um encontro nacional?

R - A gente tinha muitas ideias de fazer processos participativos e democráticos para a preparação do ENLAC. Sem desmerecer as líderes mais reconhecidas, demos oportunidade para outras mulheres. Dividimos o país de norte a sul e de leste a oeste para que fosse um Peru com representação de mulheres da costa, da serra e da Amazônia, do norte e do centro e do sul. Flora potencializou a Rede Rural e, no nosso caso, potencializamos a Rede Rural San Martín. Acho que isso foi, também, o que era justo. O meu problema era a distância. Nessa época – e até hoje – a passagem aérea até Lima é cara, uns duzentos dólares entre ida e volta, além de alojamento e comida.

P - Como era sua comunicação com o Brasil?

R - Difícil porque nessa época não havia internet, a comunicação era por correio aéreo. A documentação das reuniões chegava depois de muito tempo. O telefone era caro. E era difícil, muito difícil. Acho que isso atentou contra a articulação, porque depois fomos restando menos países. Além disso, ocorreu todo tipo de problemas no interior das lideranças dos países. No caso peruano, a articulação com Flora Tristán funcionou e melhorou no encontro nacional.

P - E o encontro nacional era para escolher...?

R - Para escolher a delegação peruana, que já tinha que ter escolhido suas representantes previamente, nos encontros regionais, e, fundamentalmente, para consolidar uma agenda nacional elaborada com base na agenda do ENLAC. Para nós, essa é a parte mais valiosa. Não conseguimos construir uma rede nacional porque é muito difícil neste país. As mulheres rurais não possuem recursos para manter a comunicação e isso é o que mais limita. Oxfam nos negou apoio para o 2º ENLAC porque, segundo eles, os projetos deviam ser apresentados diretamente pelas mulheres rurais e a elaboração de projetos pelas mulheres rurais é incipiente. Nós conhecemos as dificuldades delas, entre as quais está o custo do deslocamento para Lima, para negociar. Uma organização que está em Lima conta com as facilidades para viabilizar apoios. Eles não entenderam e não deram os recursos para o 2º ENLAC, reduzindo, deste modo, o número da delegação peruana. Graças a outras agências e ao apoio da Rede LAC, tivemos seis mulheres presentes, das catorze que estavam designadas.

P - Apesar das dificuldades no 1º ENLAC, vocês conseguem.

R - Uma delegação representativa de organizações que, pela primeira vez, estavam analisando sua problemática, que nunca tiveram a oportunidade de fazer isso nem localmente e, muito menos, em um evento de envergadura nacional. Isso permitiu que analisassem sua problemática em cada zona e trazer uma problemática da região.

P - E esse processo demora quanto tempo? Um ano?

R - Muito mais. Mais porque conseguir o dinheiro para os encontros regionais também exigiu muitas gestões. Nossa! As dificuldades econômicas foram muito fortes, mas a gente fez direito. A preparação foi muito linda, porque, apesar dos recursos serem poucos, a criatividade das mulheres superou qualquer restrição.

P - E do 1º ENLAC, o que você lembra que tenha sido marcante?

R - O fato de terem chegado tantas mulheres da América Latina e do Caribe. Ver que toda a preocupação e o esforço tinham valido a pena. Acho que fomos 231 mulheres para Fortaleza. Além disso, era bom voltar a esta bela cidade. Pessoalmente, eu tinha amizades. A gratidão com aqueles que não pouparam apoios durante nossa estada na primeira reunião, entre eles Paulo e sua mulher, Irma. O tratamento cálido, amável, generoso com mulheres que eles recém estavam conhecendo. Valorizamos também que tenham sido programados espaços de recreação e para o conhecimento da realidade das mulheres que trabalham com o caju, os bairros da periferia, o folclore, etc. Para as integrantes da Coordenação Internacional, o trabalho prévio e durante o evento foi tremendamente desgastante. Era a primeira vez que a gente organizava um evento de envergadura internacional e você encontra todo tipo de dificuldades, já desde o credenciamento. Teve gente que ficou sabendo do apoio com as passagens para o Brasil e algumas se infiltraram sem serem trabalhadoras rurais. Tive como responsabilidade a verificação das credenciais. Muitas chegavam sem documentos que avaliassem sua representatividade. Surgiram alguns problemas com as assessoras convidadas. Pela primeira vez, imagino, para muitas mulheres do país e da América Latina e do Caribe, as assessoras não tiveram um papel central. Umas poucas apresentaram trabalhos, mas nas oficinas, nos trabalhos de grupo e em todas as plenárias, a condução dos eventos era realizada pelas mulheres rurais. Nós, da Coordenação Internacional, éramos os tijolos de suporte, de apoio.

P - Por que você é uma assessora?

R - Porque foi assim que nos chamaram. Eu era assessora porque não sou uma mulher que está no campo como as organizações de base, que trabalham como produtoras do campo, transformadoras ou processadoras de alimentos, artesãs, trabalhadoras da saúde. Contudo, suponho que nossa vinculação existe pois trabalhamos com esse setor da população. Não estou certa quanto ao porquê dessa separação. Às vezes sinto que isso estabelece uma espécie de brecha entre profissionais e não-profissionais. Ou será que é porque os nossos interesses não são os mesmos?

P - Porque você está no campo...

R - Estou no campo, trabalho no campo. Estou na zona em que estão as organizações de base, mas não sei se é isso. De repente é pensado por causa das pessoas da cidade, que têm um trabalho com a população rural.

P - Mas você se considera uma assessora ou uma trabalhadora rural?

R - Hoje eu me considero uma assessora, talvez por causa da experiência, porque tenho outro papel no trabalho. Mas também continuo sendo promotora, porque faço oficinas, adoro conhecer de perto o que acontece nas comunidades. Mas, hoje, meu papel é mais de monitoramento, acompanhamento. Mais do que de capacitar.

P - E das discussões e decisões do 1º ENLAC, o que foi mais importante?

R - A primeira, muito dura, que quase desestabilizou o encontro, foi a forma em que propusemos a metodologia para trabalhar a identidade da mulher rural. Foi um choque. As mulheres andinas – bolivianas e peruanas, principalmente – possuem características físicas que as tornam notadamente diferentes das mulheres do campo de outros países. E o primeiro confronto foi assim: “Você não é camponesa, eu sou camponesa, olha minha cor, porque eu sou queimada pelo sol.” A outra era uma camponesa uruguaia, branca, loura, de olhos azuis. As mãos mais maltratadas das camponesas andinas eram comparadas às de outras mulheres.

P - E como avança esse conflito?

R - Foi difícil. Não lembro como foi que se resolveu. A preparação para Fortaleza foi exaustiva, muito pesada. Começando na parte do corpo, as oficinas e seus conteúdos, as oferendas religiosas, ecumênicas, respeitando os credos que ali estavam, as comidas, a organização das delegações, a ambientação, a recreação, os espaços livres, a imprensa... Tudo estava organizado. Eu acho que foi uma organização muito boa. O conflito mencionado não tinha sido nem remotamente imaginado, mas surgiu e foi resolvido.

P - E como repercutiu esse encontro na vida das mulheres e nas organizações?

R - No evento nós descobrimos que, por exemplo, as colombianas diziam que elas tinham formado uma rede rural muitos anos atrás e que esta não era a verdadeira rede. Isso também foi resolvido pelas próprias mulheres rurais. Era alentador ver como mulheres tão diferentes tinham a capacidade de apresentar e abordar sua problemática. O concreto é que voltaram mais fortalecidas, animadas a continuar atuando pelos seus países. A delegação peruana foi uma das mais organizadas e, por essa razão, nos escolheram para que o Peru fosse a sede da elaboração do relatório do 1º ENLAC, em Tarapoto. E a apresentação pública da publicação das Memórias foi em Lima.

P - E quando você voltou ao seu país, depois do 1º ENLAC, seu trabalho é tocado pela experiência na Rede?

R - Sim.

P - De que maneira?

R - Desde o começo, desde antes do ENLAC, a Rede marca minha forma de trabalhar. Vou pondo em prática tudo o que vou aprendendo.

P - A metodologia...

R - A metodologia. Facilitar que a população tenha voz. No Peru só há poucos anos a comunidade organizada tem a oportunidade de se envolver na elaboração do orçamento participativo e nos planejamentos locais e regionais que são feitos. Você encontra nossa instituição com uma prática participativa, respeitosa das decisões das pessoas.

P - Além disso, mais alguma coisa muda no seu trabalho depois que você entra na Rede?

R - Eu estava no mundo do trabalho pela mulher e não era mais somente a Rede LAC. Começam a ser formadas diversas redes locais. O CEPCO continuou apoiando a criação e fortalecimento de diversas redes, entre elas a Red Nacional de Promoción de la Mujer, que existe até hoje e na qual fiz parte da Coordenação Nacional durante dois períodos. Foi como representante dela que participei em Beijing, como vice-presidenta. A Red de Educación Popular, que depois quase desapareceu. a Red de la Mujer Rural; o Grupo Impulsor Mujeres por la Igualdad Real, que fazia o monitoramento da plataforma de Beijing. No ano de 2000 presidi essa organização a nível nacional e sua sede vai para o interior do país. Ou seja, meus espaços de ação vão se ampliando com relação ao trabalho com as mulheres. Sinto que atingi o status maior com minha participação na Rede LAC. Surgir de uma organização pequena da Amazônia peruana, lado a lado com Flora Tristán, e fazer parte de uma Coordenação Internacional tem uma conotação muito grande como pessoa e para a minha instituição. Não só para a minha imagem, mas também para o meu trabalho com as mulheres de outras organizações.

P - Essas outras articulações ocorrem depois da Rede LAC?

R - São paralelas porque, exatamente na década de 1990, ocorrem todo esse tipo de redes. Aprendi uma grande lição que desejo que não vá acontecer com esta Rede. O Grupo Impulsor não tinha personalidade jurídica. A ONG sede da coordenação recebia os recursos. Quando ocorreu a descentralização e fomos eleitas do interior do país, a maioria aprovou que a renovação da diretiva fosse total a cada dois anos. Foi um grande erro porque a Rede de Promoção da Mulher, que conta dezesseis anos, se renova por terços e isso dá continuidade a ela. Sempre tem alguém que conhece a história e vai transmitindo. Não fazer isso atenta contra sua existência. No caso que estou mencionando, quando mudou a direção, a organização “faleceu”, não havia cultura organizacional e, o que é ainda pior, não tem uma história.

P - Na Rede LAC, se vamos avançando até hoje, desde o 1º ENLAC houve outros momentos de participação que foram importantes para você?

R - Sim, continuar participando da Coordenação Internacional. Ir dando forma à cultura organizacional da Rede LAC com a Vanete, porque ela já tem suas formas de liderança, nós temos as nossas e essa combinação é boa. Muitas vezes desempenhei o papel de moderadora. Há momentos em que nem todos têm as mesmas características nos grupos e já tivemos dificuldades com lideranças de algum país. Foi bom continuar na Coordenação Internacional porque, além disso, ocorreu um “vazio” de Floras e precisei dar sustentação, manter algum fogo aceso no país. Ocorreu um “vazio” de Floras grande, longo, e não havia jeito de encontrar novamente apoio com elas. Uns três ou, possivelmente, quatro anos atrás, voltamos a retomar o contato oficial com elas. Eu as mantinha informadas, mas não havia uma responsável. Avisava das reuniões e participavam em algumas. Finalmente deixaram como responsável Elena Villanueva, que há anos está no programa rural de Flora Tristán. Trabalhamos com ela toda a preparação nacional do 2º ENLAC, que foi difícil na obtenção de recursos, como já relatei anteriormente. O vínculo das Floras com o DED e com alguma outra organização internacional facilitou os encontros regionais e o nacional.

P - Para o 2º ENLAC?

R - Para o segundo. Não assisti devido a problemas surgidos para conseguir o visto, esperançosa que estava de que do México iria conseguir o visto para a delegação peruana. Na distância e pelo fator tempo, não consegui fazer isso pessoalmente. Participei de toda a organização do preparatório no México e enfrentei o que foram pequenos problemas que neste momento despontavam. Desempenhei um papel importante de moderação diante dos impasses que foram surgindo.

P - À distância?

R - Não, na reunião preparatória no México, em maio de 2006. Inclusive, visitamos as instalações do local sede do encontro, em Tlaxcala.

P - E as discussões e decisões do 2º ENLAC têm alguma diferença com as do primeiro?

R - Segundo comentaram comigo, porque recebi muito pouca informação, não chegou a quantidade esperada de mulheres, é possível que isso esteja vinculado com a questão econômica, porque se houvesse passagens para todas as convidadas, poderia ter havido uma representatividade maior. Pela leitura do rascunho das memórias, no meu critério, e comparando com o 1º ENLAC, o 2º ENLAC, expressa o avanço das mulheres rurais após dez anos. Mais maturidade política, maior preparo nacional, propostas consensuais dos países. Sei que chegaram a acordos concretos. Houve uma reunião de avaliação da Rede LAC em dezembro do ano passado que foi muito boa, eu diria que das mais importantes. O valor dessa reunião esteve em que fizemos um planejamento mais trabalhado, com compromissos mais concretos de ações a serem desenvolvidas nos anos seguintes.

P - Nos próximos anos...

R - Ela nos permitiu visualizar melhor o funcionamento da Rede. Mais organicidade, mais formalidade. A Vanete tendo planos consensuais com a Coordenação Internacional é mais fácil que transcorra o gerenciamento de recursos. A Vanete diz que é preciso ceder espaços. Esses espaços já precisam ser conduzidos por outras pessoas, ela começa a pensar que é preciso transferir. Revisamos os acordos do México. Tenho experiência de trabalho com redes e precisamos ter agendas concretas que possam nos unir a nível continental. Por exemplo, estabelecemos um norte, que é o tema da água, um tema articulador para todos os países. Que a gente tenha problemas particulares com a mulher rural, perfeito, é o seu trabalho com a sua região, mas o que deve nos unir internacionalmente é o tema da água. E é nisso que estamos mobilizando os países.

P - É por isso que essa reunião foi importante?

R - Por isso, porque esta ação é só um exemplo dos acordos a que chegamos. Houve um planejamento de outras ações tendentes a facilitar o trabalho da secretaria da Rede LAC e a manter os países ativos e motivados.

P - Já chegamos à história muito recente. E olhando o futuro, que sonhos você tem para a Rede, para a sua organização e para você mesma?

R - Vamos começar pelo meu país. Eu sei que é muito difícil fazer uma rede nacional, mas pelo menos acredito que, junto com Flora Tristán, estamos cientes de que precisamos trabalhar sobre aquilo que temos. E o que existe é a Rede de Promotoras Rurais em quatro regiões do país. Precisamos fortalecer essas redes e ampliar seus membros, integrando um maior número de organizações que trabalham na área rural. E estão as organizações de base, que devemos apoiar a partir dos nossos espaços. Temos que nos agrupar com quem tem interesses comuns. Inclusive, as organizações mistas não coincidem com a gente, porque temos diferentes maneiras de pensar e outras metodologias de trabalho. Eles têm suas próprias seções femininas e não vão se articular com outras. Para os encontros internacionais, sim, vamos convidá-las, porque é uma forma de trabalho que se deve respeitar e representa um setor do mundo rural. Minha aspiração é que o que foi trabalhado nestes anos não se perca e possa assentar as bases para uma Rede Nacional sustentada nas promotoras, porque se as promotoras facilitam a comunicação, como já conseguiu a delegação do México, a Red PAR é válido também para o nosso país. Ter comunicação e articulação com as mulheres que vivem nas zonas rurais é dificílimo. Tem muita história sobre como conseguimos montar a delegação peruana. Houve risco de que não chegassem por causa das dificuldades de comunicação e transporte. Os custos aumentaram e tiveram que ser cobertos afetando as economias das participantes. Vocês nem imaginam o que custou mandar um correio eletrônico para que, de tal povoadinho, viesse caminhando a mulher aguaruna, que tem que sair da sua comunidade nativa, viajar para Lima e pedir seu visto. Ela ia por terra, em 24 horas de viagem, mas não teria chegado a tempo. Foi preciso pagar uma passagem aérea, oitenta dólares que ninguém tinha previsto. A tecnologia ainda não é acessível para muitas mulheres rurais. E é para essas lideranças, quanto mais afastadas estão, que devemos dar mais oportunidades.

P - E para a Rede, o que você sonha?

R - Para a Rede LAC, eu disse há pouco: que a gente tenha muita clareza para ver como será a mudança da diretiva, da dirigência. É por isso que ainda não demos esse passo, porque sentimos que ainda não há maturidade. Se dermos um salto agora, de repente, a secretaria vai para um país em que não conhece o que já se caminhou e pode pôr em risco isto que tanto custou construir. O risco está em que sejam movidos por outros interesses e queiram, de repente, apropriar-se desta organização. Que a escola de liderança que foi construída tenha continuidade em algumas das suas integrantes, para que a continuem promovendo. Vamos supor que na direção ficam o Brasil, Argentina e Uruguai – das fundadoras –, o Equador – que acaba de se integrar –, e que entra uma nova, a Costa Rica, por exemplo.  Isso garante a continuidade porque pelo menos três países conhecem a trajetória da Rede e estou certa de que vão lutar para dar continuidade. O outro sonho é que ela precisa aprender a funcionar como rede latino-americana. A gente precisa olhar essa perspectiva latino-americana. Quando eu dizia que existem temas articuladores, precisa começar a ver tudo assim, porque ainda estamos só no que é doméstico. Não podemos nos reunir só para preparar um terceiro encontro, devemos estar alimentando as coordenações dos países com informação sobre as mulheres rurais, sobre o que vem fazendo a Rede LAC, sobre suas dificuldades, suas conquistas, sua participação em outros espaços. O que fazem os países. O que acontece com o mundo rural. É preciso mantê-la viva! Dirigi uma rede nacional e sei que isso é pequeno, mas conseguimos através da internet. Sem dinheiro, mas reenviando informação com frequüência. Agora tem o skype e nós podemos conversar de um jeito econômico e você pode me mandar esta publicação porque pode compactar, e eu já tenho um livro, tenho o resumo do evento... Essas coisas estão faltando. Sinto que estão faltando e que, sim, é possível fazer isto. As mulheres do meu país, as coordenadoras regionais me diziam: “Eu formei a minha biblioteca da mulher com tudo o que você nos mandava.” Que lindo! Em alguns lugares há carências e pela internet chegava na cidade delas.

P - Poderíamos continuar por muitas mais horas. Mas, finalmente, quero perguntar com foi esta entrevista, como foi reviver esta história?

R - Bonita. Já comecei a revivê-la desde que fui procurar as fotos, correndo para vir. Não lembrava onde tinha ido parar um álbum. Um álbum que não continuei mas que, pelo menos, chega até o 1º ENLAC e à presença da Vanete, Kika e Nazaré em Tarapoto. Poucas vezes as oficinas em que a gente participa transcendem o momento da sua execução. Esta Rede surgiu da oficina “Nossas vidas, nossas organizações” e hoje tem outra história. Faltaram minhas fotos pessoais porque confiei que tinha um álbum elaborado por uma companheira do CEPCO. Mas vou resumir: o pessoal que trabalha comigo é muito criativo, são ótimos. No meu último aniversário eu descobri a surpresa, então não foi mais surpresa, mas eu me prestei à ela. Me tranquei no meu quarto e me vesti para a festa. Quando fui para o salão encontrei, no começo, amigas e familiares muito queridas, convidadas na reunião, trabalhadores e trabalhadoras da instituição. E vejo um grande telão em que estavam projetando uma série de fotos, desde que eu era pequeninha, da minha primeira comunhão, com meu esposo, com meus filhos, com as organizações com as quais comecei a trabalhar, as viagens que fiz, etc. Tinha visto meu esposo procurando as fotos e nem imaginava para quê. Foi muitíssimo agradável. E foi isso que pensei trazer mas não encontrei. A propósito das buscas para trazer os materiais solicitados, encontrei um artigo interessante em La Chacarera, de Flora Tristán, sobre a reunião de San Bernardo, escrito por Verônica de Kwant. Ela fala da organização da oficina pelas brasileiras e menciona uma ONG peruana da Amazônia – não diz o nosso nome – e diz que não vê um futuro para a Rede. Vanete, pensei comigo, precisa fazer contato com ela, para que veja que o sonho se tornou realidade.

P - E a entrevista?

R - A entrevista me parece importante por ser diferente das clássicas entrevistas, nas quais há um tema central e parece que as pessoas somos somente isso, o tema central, a agenda central, mas que não temos uma vida pessoal, uma prática que explica, finalmente, por que somos convocadas.

P - Muitíssimo obrigada por suas histórias.

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