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História

Pedro André Júnior

História de: Pedro André Júnior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/05/2004

História completa



Identificação
Museu da Pessoa - Sr. Pedro eu gostaria de começar perguntando seu nome, data e o local de seu nascimento? Pedro - Pedro André Júnior. Nascido em 29 de Abril de 1936 e na cidade de Dores do Indaiá, em Minas Gerais.

Pais e avós
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P - Sr. Pedro vamos começar pela família, pelas suas origens. Da parte do seu pai, o que o Sr. lembra da história dos seus avós? Pedro - Meu pai faleceu, ele tinha 49 anos e eu estava com seis anos. Lembro pouca coisa do meu pai. Mas é de origem francesa, foi gerado na França, nasceu na cidade de Macaé, quando eles vieram da França, isso acho que em 1893. E lembro deles poucas passagens porque meus avós foram padeiros e meu pai continuou a tradição, depois um tio e meu pai abandonou a profissão e foi ser fazendeiro e na época que eu nasci morava em fazenda no interior na minha cidade natal. M

P - E dos seus avós o que o Sr. lembra? Pedro - Muito pouca coisa, o meu avô era como eu já disse, padeiro e lembro pouca passagem, porque quando ele morreu, eu não tinha nem seis anos, era pequeno, se não me engano tinha quatro anos quando meu avô morreu e minha avó já era falecida, eu já tinha nascido mas foi antes dos quatro anos que ela morreu, morreu primeiro. M

P - E da parte da sua mãe? Pedro - Da minha mãe eu conheci a minha avó a mãe de minha mãe, que era da cidade de Dores do Indaiá. Agora o meu avo materno eu não conheci, porque minha avó morreu bem velhinha com 94 anos, essa eu ainda conheci, eu devia Ter uns 20 anos quando ela morreu, então essa eu conheci bem. M

P - Da família do seu pai, o Senhor disse que eles vieram da França? Pedro - Mas não sei a região. M

P - O Sr. sabe que história é essa, como é que eles vieram parar aqui? Pedro - Imigração. Naquela época havia imigração para colonizar o interior do Brasil, normalmente todos os estrangeiros que chegavam, normalmente eram enviados para o interior de Minas e interior de outros Estados. Meus avós foram para o interior de Minas, foi se não me engano para a cidade de Paracatu, que é um pouco além da minha cidade natal, inclusive a Dona Beija a vida dela era da cidade de Paracatu. Depois eles vieram para essa cidade de Dores do Indaiá, onde se estabeleceram, tanto meu avô, meu pai, com padarias, porque hoje o pão francês é fabricado por português, mas a origem mesmo é francesa - carregar o pãozinho embaixo do braço, sem papel, sem nada, acho que para dar o toque especial no pão. M

P - E a avó do Sr. veio grávida pra cá? Pedro - Veio grávida e meu pai nasceu na cidade de Macaé, que lá ficou uns meses ainda para poder viajar para o interior de Minas. M

P - E essa viagem deles para o interior o Sr. sabe alguma coisa? Pedro - Não, eu não conheci porque eu era muito novo, meu pai morreu eu era muito novo. Lembro algumas palavras que meu pai falava, porque meu pai falava português normal, mas falava algumas frases por causa dos avós, eu ainda lembro que falava alguns nomes em francês, embora no ginásio também, quando era garoto estudei um pouco em seminário, estudei latim, francês, na escola ensinava francês, mas pouco aprendi nisso, hoje o que eu mais conheço de palavra inglesa e francesa é tudo de conhecimento geral. M

P - O Sr. disse que esse avô além de padeiro também era? Pedro - Era violinista. Segunda a irmã, ele tinha um Stradivárius coisa que eu não creio. Não sei se é garganta dela. Falou que conheceu uma pessoa que tem o violino que foi do nosso avô e que era Stradivárius, mas eu não creio. M

P - E o Sr. lembra de ter visto o seu avô tocar violino? Pedro - Não, é como eu disse, tinha quatro anos. Mesmo se eu tivesse ouvido, o que uma criança ia lembrar? Mas no tempo da fazenda que meu pai era vivo, eu tinha seis anos quando ele faleceu, mas andei algumas vezes à cavalo para ir na cidade com ele, porque eu era companheiro, era pequenininho, tinha o mesmo nome dele, era o filho querido. Inclusive quando ele estava no leito de morte, ele ainda pediu para minha mãe cuidar bem da minha pessoa, devia ser por causa do nome. E ele era um pai muito carinhoso, minha mãe sempre foi brava, geralmente os casais são assim, um é bravo o outro é camarada, e meu pai foi camarada com todos os filhos dele. Nunca judiou, nunca bateu porque naquele tempo se educava filho com tapa, meu pai nunca bateu. Minha mãe sempre foi a brava. M

P - E antes da época da fazenda tinha o tempo da padaria, como era? Pedro - Não no meu tempo de criança ele já não tava. Nós somos em 11 irmãos, quando ele vendeu a padaria e comprou a fazenda, já devia estar nos cinco, seis filhos, quer dizer, eu nasci se não me engano já era o oitavo, então não conheci, mas via meu tio na padaria, via fazer pão daquele tempo, era em 1940. M

P - E como era? Pedro - Era o negócio a manivela ainda, colocava lá um saco de farinha ou meio saco, não me lembro, colocava dentro e era de madeira, não como esses hoje automático para misturar as massas. Naquele tempo era manual. Ainda lembro muito bem da casa, do local, da padaria, da Mãe Grande, depois que meu pai faleceu, minha mãe não quis ficar mais na fazenda, vendemos a fazenda, inclusive ela ficou também com a família porque a minha irmã e o marido compraram a nossa fazenda e uniram as fazendas, e nós fomos trabalhar no comércio na minha cidade natal, depois mudamos para Belo Horizonte e depois vim para São Paulo. A gente já tava crescendo, muitos irmãos pequenos, minha mãe ficou sozinha e pegou os "pintinhos" pequenos e trouxe pra São Paulo, por isso que nós somos uma família muito espalhada pelo Brasil, porque como não tinha um mastro central da residência a casa quase que ruiu, mas minha mãe pegou os pequenininhos, porque já tinha alguns casados e veio pra São Paulo por causa do emprego, porque eu vim pra São Paulo em 51, era a época da efervescência de São Paulo, cresceu M

P - O Sr. tinha quantos anos? Pedro - Eu tinha 14, eu cheguei em São Paulo no dia 1º de janeiro de 51 e na empresa que eu trabalho até hoje, eu entrei no dia 29 de janeiro de 51, quer dizer menos de um mês depois eu tava trabalhando no emprego que trabalho até hoje.

Infância na Fazenda em Minas Gerais
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P - Antes do sr. falar de São Paulo gostaria que falasse um pouquinho mais dessa época de Minas. A sua mãe ali da região? Como o seu pai conheceu a sua mãe, o sr. sabe? Pedro - Depois de Paracatu eles vieram pra Dores do Indaiá e lá que ele conheceu minha mãe. Ela era em três irmãos, Georgio, o meu tio mais velho, Georgina e Georgelina, os três nomes vem de George. Eu também não conheci muitos pormenores do caso de amor dos dois, mas eu sei que eles se gostavam muito, tiveram muitos filhos. M

P - E da Fazenda o que o Sr. lembra? Pedro - Outro dia eu vi um pedaço da casa da fazenda. A última vez que eu fui à minha cidade natal, fui na fazenda da minha irmã, depois eles compraram diversas Fazendas, porque essa minha irmã mais velha teve mais filhos que minha mãe, 15, criou e educou todos, inclusive em São Paulo. Alguns foram educados aqui no Arquidiocesano. E eu fui visitar a fazenda da minha irmã e ela me levou lá onde nós tínhamos e não existia mais a casa, mas a madeira que era tão boa, meu sobrinho que mora na fazenda ele pegou e disse "Você conhece essa madeira aqui?", eu falei "Não." na casa dele. "Tá vendo essa porta aqui, é madeira da sua casa." Que é a famosa Aroeira, chamada madeira aço, já ouviram falar em Aroeira? M

P - É bem resistente? Pedro - Como se fosse aço, devia Ter mais que cem anos aquela casa. M

P - Como era a sua casa do Sr? Pedro - Casa simples, casa de fazenda. Parte da fazenda ainda era reboque, porque não tinha luxo naquele tempo. Na cidade tinha um tio, que era criador de gado de raça, mas na época do Getúlio, na época da queima do café, também ele acabou com o valor do Zebu, levou o Zebu a zero e levou meu tio a miséria. Meu tio era um dos homens mais ricos da cidade, o George e foi um dos mais pobres da cidade, levou o Zebu a zero, baixou o preço do gado, que se comercializava muito aqueles gados de raça que era o Zebu e levou meu tio à miséria. Perdeu tudo. Que ele tinha muito gado, que tinha pago caro, bois caríssimos, perdeu todo o valor da noite para o dia. M

P - E na sua fazenda também era gado? Pedro - A minha também era gado, essa região até hoje ainda é. Essa cidade é chamada cidade dos fazendeiros. Os rapazes gostam muito de ir para lá porque eles casam sempre com filha de fazendeiro e mulher bonita da cidade é tudo filha de fazendeiro, a fama lá, o pessoal de Dores do Indaiá é cidade e mulher bonita e filha de Fazendeiro, então tem sempre alguém aportando lá para conhecer uma moça bonita. M

P - E o senhor lembra sua época de infância, as brincadeiras na fazenda, quando criança o que fazia lá? Pedro - Eu lembro porque era fazenda, muitos irmãos e a gente sempre fazia umas artes. Lembro uma, que quase podia ter me custado a vida. Uma vez, minha mãe não queria que a gente fosse debaixo do coqueiro. A gente chupava o côco e depois podia quebrar, seco ou não, quebrar e comer a castanha. E uma hora lá eu e uma irmã menor fomos, porque o espinho do coqueiro é grande e preto, se espetasse no pé de uma criança, imagina uma criança pequena um espinho daqueles chegava a atravessar o pé e nós fomos escondidos debaixo do coqueiro pegar côco. Você podia pegar o côco que tivesse lá, seco, verde ou derrubando o cacho e minha irmã trouxe no vestidinho, nós pegamos e era o único jeito para trazer ali. A gente ia colocar o cacho debaixo de umas tábuas para fazer curral, então tinha uma empilhada de tábuas e minha irmã foi jogar debaixo e tinha uma bela cobra gigante debaixo da madeira, quando vimos aquilo foi um corre - corre, gritamos, minha mãe veio ver o que era, e falamos que era cobra. Ela mandou chamar meu irmão mais velho que tava no campo cuidando de gado, veio matou essa cobra com espingarda, era grande, um colosso. M

P - E os coquinhos? Pedro - Os coquinhos não quisemos saber mais de pegar coquinho, uma que tava desobedecendo, ela não queria que a gente fosse debaixo do pé de côco por causa dos espinhos, que eram muito grandes e também caíam debaixo da árvore. Teve uma outra de jacaré, a gente também não atravessava um riachozinho que passava no fundo da fazenda. Tinha ponte e a gente normalmente não podia passar, porque molecada sempre faz arte, pode cair dentro do rio, como uma vez eu também caí, uma irmã mais velha me tirou, era como se diz, um córrego. E um dia nós atravessamos essa ponte, e a água fazia aqueles regos grandes, que vai solapando. Em Minas chama de rego mesmo, que desce os montes e vai fazendo uns canais e a gente atravessou a ponte e fomos atravessar um canal, que tinha que atravessar por dentro do canal porque a erosão era grande e vai fazendo aquilo parecer até um riacho, mas só que é seco, quando chovia que aparentava isso. E nós atravessamos a ponte e fomos atravessar isso, quando fomos atravessar eu e essa irmã que regulava a idade, os mais arteiros e pequenos, seis, sete anos e fomos atravessar dentro dessa erosão tinha um jacaré assim de olho na gente. Foi um tal de voltar correndo também para casa, mas são coisas infantis, mas que estão gravadas na memória até hoje M

P - E dentro de casa como era Sr. Pedro? Pedro - Dentro de casa, eu entrei no grupo, entrei no segundo ano porque o meu pai pagava professora para dar aula na fazenda porque eram muitos, então eu aprendi a ler e escrever o primeiro ano, na fazenda, agora quando eu entrei no segundo ano entrei com sete anos porque já tinha feito e meu pai tinha falecido. Naquela época também, ele morreu eu tava com seis anos, foi em seguida depois da morte dele, que eu entrei no segundo ano com sete anos.

Infância de trabalhador
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P - Já era na cidade? Pedro - Já era na cidade, aí nós tínhamos mudado, tínhamos comércio, armazém chamado Armazém de Secos e Molhados. M

P - E onde ficava esse Armazém? Pedro - Ficava numa praça de Dores do Indaiá, era um armazém de esquina, grande, era grande mesmo, fazia esquina com duas ruas. Depois esse meu irmão que cuidou da família depois que meu pai morreu, ele começou cuidar da família com 18, 19 anos. Você vê que eram todos pequenos, minha mãe deixou 10 filhos, um que era casado, que era a fazendeira, não, tinha o outro mais velho que foi servir a força aérea em Fortaleza, chegou a ser graduado na força aérea, era piloto e ele ficou morando e casou em Fortaleza e eu vim a conhecê-lo com onze anos, mas quem ficou cuidando da família, da fazenda, foi esse irmão de 18, 19 anos. Eu lembro alguns pormenores dele. Alguma pergunta mais? M

P - E no Armazém o Sr. ajudava lá? Pedro - Eu comecei, eu tinha sete, oito anos e eu ajudava, ele não queria, mas a curiosidade faz parte, porque a pessoa que não é curiosa não é inteligente e sempre tive coisa de querer aprender tudo. Passou um, pouquinho, com oito, nove anos, tava fazendo de tudo dentro do armazém porque éramos muitos, todos ajudavam. Depois nós fomos para Belo Horizonte, nós tínhamos casa de comércio, armazém também, mas ele não ficou muito tempo, que queria ganhar dinheiro. Esse meu irmão sempre foi assim de grandes empreitadas, sempre caía tudo por água abaixo, foi trabalhador mas sem sorte. Fomos pra Belo Horizonte, abrimos casa de comércio também num bairro em BH, não ia para frente, ia lentamente, porque os negócios têm que caminhar devagar, e ele queria ir muito depressa. Passou que quando eu vim a conhecer esse irmão mais velho, esse irmão quis ajudar, então passou o armazém para ele mais velho e esse irmão com os irmãos passamos a cuidar, passamos a trabalhar nas feiras em BH, e diversas feiras por dia, porque cada irmão, as irmãs, um ou dois cuidávamos de uma feira num bairro e ele com o caminhão deixava, normalmente era de cereais também que a gente trabalhava. M

P - E o Sr. fazia o que exatamente? Pedro - Pesar, receber. Uma vez uma trave da barraca caiu na minha cabeça e eles ficaram me chamando de padre, que teve que fazer uma coroinha aqui por causa da pancada que cortou. M

P - E o Sr. gostava desse dia-a-dia da feira? Pedro - Era interessante, principalmente para menino, aquilo era uma delícia, porque normalmente se terminava uma feira três, quatro horas da tarde e até recolher de todas as feiras e a gente saía de madrugada, aquela porção de irmãos e irmãs. M

P - Saía um caminhão de madrugada? Pedro - Saía o caminhão e levava e armava nas feiras as barracas em diversas feiras, e até minha mãe às vezes ficava com um dos filhos numa feira, ou uma filha. M

P - E nessa época o Sr. tinha quantos anos? Pedro - Nessa época eu estava no grupo, devia ter 10, 11 anos. M

P - O Sr. continuava estudando? Pedro - Eu cheguei a estudar numa escola de comércio em Belo Horizonte. Depois ele queria ir para Goiânia, esse irmão e como era o homem da casa. Goiânia era uma capital nova de coisa, como meu tio tinha ido para lá montar a padaria, ele queria ir para lá, porque estava sempre querendo montar novos negócios, ficar rico depressa. Então minha mãe não quis ir com ele, porque batia muito a cabeça, tudo para ele ia para traz. O que ela fez? Deixou ele ir sozinho, pegou os meninos e veio embora para São Paulo e viemos trabalhar aqui, tudo pequeno mesmo, eu com 14 a outra irmã com 16 e tinha os que não trabalhavam. Meu irmão caçula na época devia ter sete anos, estava no primeiro ano de grupo. Tinha mais duas irmãs que não trabalhavam. Eu fui arrimo. Inclusive o exército não servi, porque era arrimo, eu era dos que sustentava a casa, eu e outra irmã.

Entregando jornal
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P - E mais para frente, sua adolescência, o Sr. lembra de amigos? Pedro - Como o dinheiro que eu ganhava era para sustento da casa, para ajudar, sempre tive vontade de ter uma bicicleta. Você imagina, era minha mãe, eu a minha irmã, depois veio uma um pouco mais velha, que veio de Minas para cá e tinha os menores. Abaixo de mim tinham três. Então a gente tinha aquela vontade de ter uma bicicleta e não podia, um dia minha mãe fez uma surpresa, comprou uma bicicleta a prestação para eu pagar, quer dizer tirava do pouco e já ajudava. M

P - E o Sr. lembra o dia que ganhou a bicicleta? Como foi? Pedro - Era ótimo, uma maravilha. Do pormenor eu não me lembro, porque a gente via os coleguinhas ter, porque naquele tempo como não tinham tantos carros, também não tinha tantas bicicletas. A vida era mais simples, era um ou outro que tinha. Agora imagina eu, trabalhando naquela luta, também quando já trabalhava na Drogasil e o salário era pequeno, era de menino de entrega. Aí quando já estava com um ano e pouco na Drogasil, eu arrumei uma entrega de jornal que era às seis horas da manhã, era um jornal que já não existe mais, "O Tempo" era concorrente do Estado de São Paulo e eu arrumei para entregar jornal em Santo Amaro, e como tinha ganho a bicicleta, fazia isso de bicicleta. Saía de Moema, que eu morava em Moema, às seis horas da manhã, pegava os jornais que o carro entregava de madrugada aquela quantidade de jornais e ia entregar, passava pelo Brooklin, que não era como é hoje, tinha algumas residências, era esparso. Tinha os bairros e depois ia entregar em Santo Amaro. Entregava tudo, voltava, me trocava pegava o bonde e ia trabalhar às oito horas da manhã na Vila Mariana. Ia de bonde. e em Santo Amaro eu ia de bicicleta M

P - E como era? Amarrava o jornal na garupa da bicicleta? Pedro - Não a gente tinha aquela prática, porque hoje o jornal vem num saquinho plástico, antigamente não era assim. Então você não podia jogar fora do Alpendre das casas, tinha que jogar lá dentro, porque às vezes estava chovendo e eu fazia isso tudo em uma hora, hora e pouquinho, ia em Santo Amaro entregava todos e voltava. M

P - E colocava onde, na roupa? Pedro - Não, atrás porque tinha bagageiro a bicicleta, você punha o jornal e tinha aquela mãozinha que fechava, só que devia ter 40 e poucos jornais, então você andando, pegava o jornal com a mão dobrava e enfiava uma parte no outro e passava em frente o alpendre e jogava lá dentro. M

P - Sem parar a bicicleta? Pedro - Sem parar, porque o tempo era muito curto, para seis horas pegar e às oito horas estar na Vila Mariana. Era puxado e depois eu ganhava mais na entrega do jornal por mês, do que eu ganhava na Drogasil e fazia uma hora e pouco. M

P - E errava a mira de vez em quando? Pedro - Normalmente eu da rua jogava lá dentro, se não tivesse chovendo podia cair lá na grama em qualquer lugar, mas quando estava chovendo a gente punha uma capa plástica e tinha que parar em frente o portão ou na calçada que desse para passar e tinha que jogar o jornal lá dentro do alpendre. E numa dessas que estava chovendo uma vez, na Santo Amaro, era uma avenida nova, eu estava ali na Cidade Monções, e quando chovia era mais difícil você se locomover de bicicleta. Então a gente tinha que parar na calçada encostar a bicicleta jogar lá dentro para não estragar o jornal. E numa dessas joguei o jornal, desci e quando peguei a avenida tinha que levantar para dar velocidade na bicicleta e numa dessas saiu a corrente da bicicleta, eu caí no cano da bicicleta e caí de cabeça, a única coisa que eu lembro é que eu levantei o resto... quando eu acordei a bicicleta tava toda torta, nariz esfolado, testa roxa, estava dentro de uma farmácia um médico me atendendo. Aí o jornal mandou na minha casa durante uma semana, todo dia, eu ia com eles de carro entregar o jornal. Depois minha mãe não quis. Ficou com medo que acontecesse algo pior e não quis que eu trabalhasse mais. Mas logo depois peguei uma promoção na Drogasil, naquele mesmo ano. Eu era menino de entrega passei a ser Balconista, com 15 para 16 anos e tinha o salário e ganhava também comissão, então Deus foi muito bom para mim.

Entrada na Drogasil
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P - E a entrada na Drogasil, como foi Sr. Pedro ? Pedro - Tem uma coisa interessante, eu era menino e tinha muitos meninos que trabalhavam, a gente fazia entrega, fazia pacote para os clientes, fazia limpeza na loja de manhã e a gente era dois, três, até quatro meninos e um dia quando eu cheguei - estava na porta, era antes da sete horas da manhã -, chegou um Sr. e me perguntou "Você vai trabalhar aqui?", eu falei "Vou.", ele falou "Você não vai durar aqui, um menino aqui não para nem uma semana." Eu falei "Mas por quê?" "Porque tem um subgerente que é ruim, é um casca, é ruim com os moleques mesmo." E eu estou na Drogasil há 51 anos e meio. M

P - E o sr. entrou para fazer o que exatamente? Pedro - Era isso, para fazer entrega, fazia pacotes, cheguei até a lavar vidros, era moleque com 14 anos. M

P - Que loja era essa? Pedro - Era na Vila Mariana, ficava na rua Domingos de Moraes 250. Hoje a Drogasil não está no mesmo número, mudou e construiu um prédio próprio no número 173.

História da Drogasil
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P - Naquela época a Drogasil tinha mais ou menos lojas o Sr. sabe? Pedro - Eu não me recordo bem, mas tenho a impressão que chegava perto de 30 lojas. Porque eu vi nascer muita loja, inclusive uma das lojas em Moema. Porque Moema era parada de bonde, não era o bairro. O bairro é Indianópolis, então hoje se conhece por Moema por causa da parada de bonde que todo mundo falava e transformou hoje o nome do bairro Moema e era apenas uma parada de bonde. E quando a Drogasil em 53, inaugurou a filial de Indianópolis, eu ajudei inclusive a montar loja, porque antigamente tudo era manual. Toda a Drogasil sempre com nota fiscal, um comprimido que se compre era nota fiscal e naquele tempo tirava-se uma nota fiscal de um envelope de Melhoral, Cafespirina. Tudo era com nota, e tudo o faturamento, tudo era com nota fiscal. M

P - E o Sr. conhece um pouco a história da Drogasil? Quando o Sr. entrou já tinha 30 lojas. Pedro - Não, não, não era isso tudo. Quando eu entrei, a Drogasil foi uma fusão de Drogarias no centro de São Paulo, algumas empresas. Foi quando estava começando a Segunda Guerra Mundial elas se fundiram, fizeram uma sociedade e formaram a Drogasil, só que tinha umas lojas no centro da cidade e algumas filiais no interior, no caso Catanduva, se não me engano tinha em Rio Preto, Ribeirão Preto, mas depois ela começou a expandir. Mas quando eu entrei em 51, tenho impressão que ela devia ter umas 30 lojas quando muito, não me recordo bem. M

P - Mas as primeiras lojas do centro o Sr. se lembra quais eram? Pedro - Tinha duas na rua José Bonifácio, tinha na esquina da Rua Direita com a José Bonifácio também, tinha na rua 15 de Novembro, na rua São Bento, e quando eu entrei já tinha na Barão de Itapetininga. Sei que a fusão ficava no centro, quando eu entrei em muitos bairros de São Paulo já tinha lojas.

Rotina da farmácia
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P - E nessa época quais eram os produtos mais procurados nas farmácias Sr. Pedro? Pedro - Naquele tempo as Drogarias vendiam muito perfumaria, além dos remédios que a maioria era importado, vendia perfumaria, leite em pó, vendia horrores de leite em pó, porque não tinha supermercados naquele tempo, então leite em pó a gente vendia muito e, o que mais a gente podia dizer que vendia? Remédio porque a Drogasil trazia remédio, além de importar matéria prima, porque trabalhava com matéria prima, formulava, toda filial formulava, além do farmacêutico tinha os manipuladores às vezes, conforme o tamanho da loja tinha diversos manipuladores, que era o oficial de Farmácia que fazia a fórmula. M

P - Remédio industrializado tinham poucos então? Pedro - É mas já vinha muito de fora. Laboratórios aqui no Brasil eram muito poucos, a maioria vinha de fora, eu trabalhei com muita coisa importada. M

P - o Sr. lembra que marcas vinham de fora? Pedro - Que vinha de fora Lilly, vou citar apenas alguns: Parke-Davis, Warner, que hoje são fundidos, a Empresa Pfizer, inclusive a Aché tem alguns produtos que são da Parke-Davis daquele tempo. M

P - Mas quando o Sr. disse que vinha de fora, quer dizer as empresas que não estavam no Brasil ainda? Pedro - Ela tinha filial aqui e fabricava, mas não tinha laboratório, depois é que começou, vir para o Brasil e fabricar aqui. como ainda acontece hoje, mas alguns também vão embora, nas épocas de crise, oh Não acontece isso?

Rotina de vendedor
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P - Depois da época de vendedor o Sr. passou a Balconista? Pedro - Não em menino eu passei para balconista que era vendedor. Como disse a gente era curioso e todo remédio, que hoje é lacrado, antigamente não era, então eu abria e lia a bula, então o conhecimento do remédio aprendi fácil. M

P - E daí qual foi o passo seguinte? Pedro - Como eu ganhava comissão eles tentaram me passar à subgerente, mas eu não aceitei durante muito tempo, porque eu tinha um bom salário e também tinha quantidade de horas pra trabalhar por dia, então fiquei muito tempo não aceitando o cargo de subgerente, mas quando eu estava para casar, aceitei o cargo de subgerente para ter um salário fixo. Mas eu antes de ser subgerente fiquei um ano e tanto substituindo, eles queriam que eu fosse subgerente, mas como não era interessante por causa do salário, o subgerente ganhava menos que um balconista. Como eu vendia bem ganhava um bom salário, teve época que eu ganhava mais que o gerente, trabalhando oito horas por dia e o gerente trabalhava de manhã até a noite, como isso aconteceu comigo anos depois, a gente começava sete horas da manhã pra abrir a loja e tinha semana que eu fechava 10 horas da noite. M

P - Quando o Sr. se casou? Pedro - Em 1963.

Casamento
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P - Conheceu a esposa na Farmácia? Pedro - Ela por coincidência trabalhou na filial de Moema. Conheci ela lá, mas era uma menina de 14 anos e eu subgerente. Uma vez eu fui substituir lá e a conheci, mas eu era noivo de outra. Mas por coincidência brincando com ela um dia eu falei "Vou esperar você crescer e casar com você." e o destino aconteceu, quando nós nos casamos ela tinha 17. M

P - E como foi o namoro? Pedro - Ah namoro de jovem maravilhoso Inclusive a família não queria, que ela foi criada pela irmã que morava em Moema, porque era órfã de mãe e a irmã a criou. Eles não queriam saber do namoro, porque eu sou quase dez anos mais velho que ela, nós temos nove anos e 350 dias de diferença e não queriam que a gente namorasse. Um irmão dela chegou a levá-la de volta para o Paraná. Aí a irmã achou que era um desaforo, porque ela me conhecia, conhecia o meu caráter, minha família, que nós somos vizinhos e ela um dia falou comigo: Pedro se eu buscar a Cle você casa com ela?" Eu falei: "Pode buscar que eu caso.", trouxe ela e em menos de seis meses a gente já estava casado e estamos juntos há 39 anos. M

P - E como foi o casamento, o Sr. lembra do dia do casamento? Pedro - Foi gostoso, bonito naquela época de 1963, foi um pouco antes da revolução, que foi 31 de março de 1964, não é isso? M

P - Sim. Pedro - Eu lembro que foi em 64, a gente ia casar de novo, ela estava esperando a minha primeira filha. M

P - Casou na Igreja? Que Igreja foi? Pedro - A Igreja Nossa Senhora da Aparecida de Moema e foi uma festinha simples, bonita e que ficou gravada na memória, e gravada inclusive com fotos, mas naquele tempo você vê como é interessante, quando a pessoa tem boas intenções e quer criar uma família. Quando casei não tinha nada, fui morar de aluguel num quarto e cozinha, comprei os móveis de quarto, um armário e um fogão, acho que foi isso que a gente comprou, depois mais para frente, devagarzinho é que fomos colocando uma geladeira, depois uma televisão e assim foi, quer dizer, eu nunca tive pressa. Vejo o mundo de hoje, já quer casar, outros já fazem sexo antes e uma porção de coisa e a gente vê que a vida ensina diferente, não é assim, eu vejo muito o que a natureza nos mostra e nos dá exemplo e o povo não vê. Eu vi os valores morais e éticos tudo cair por terra, muita gente fala: "Você está velho.", "Mas as coisas boas desapareceram?" Para onde vai caminhando a humanidade? A gente viu tudo se perder no tempo, como se pode falar com uma moça, naquele meu tempo uma moça virgem, que no meu tempo a maioria era virgem. Hoje não, a menina que é virgem é que é a boba, e os valores? Fala-se muito no fio de bigode, que já é exagero, o cara não precisa assinar documento, o fio de bigode tem mais valor que uma assinatura, a palavra, a pessoa ia para miséria mas não faltava com a palavra. Hoje não. Você é enganado, em tudo quanto é parte do mundo um cara querendo te passar para trás. M

P - E o Sr. casou jovem Sr. Pedro? Pedro - Não tão jovem, eu já estava começando amadurecer, 27. M

P - E ficou morando em Moema mesmo? Pedro - Eu morei, como a gente casou rápido, eu fiquei uns seis meses na casa da minha mãe. Depois eu aluguei uma casinha ali em Moema mesmo e depois aluguei na Capote Valente. Porque eu trabalhava na rua Augusta, era subgerente na filial da rua Augusta, então eu aluguei um quarto e cozinha lá perto da Teodoro Sampaio, na Capote Valente. Depois a Drogasil me ofereceu o cargo de gerente no interior, aí ela dava apartamento para gente morar. Quando eu cheguei em Catanduva no apartamento para gente morar, eu ocupei acho que quarto e cozinha (risos), porque tinha pouca coisa ainda, mas já tinha duas filhas.

Gerente em Catanduva
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P - Como se chamam? Pedro - Patrícia a mais velha e Andréia a segunda. Inclusive quando eles me ofereceram ir para gerência de Catanduva, eu aceitei só que eu impus uma coisa, só poderia ir depois porque minha esposa estava para ganhar nenê e eu só poderia seguir mais para frente, então eles mandaram um substituto lá. Eu fiquei esperando e ela nasceu pouco tempo depois. Quando ela nasceu, estava tudo bem, ficou com a minha cunhada e eu já fui para Catanduva e depois vim buscar a mudança com a esposa, isso em 67. M

P - Como gerente? Pedro - Como gerente em 1967. M

P - E como gerente quais eram as atribuições? Pedro - No interior era como o Manda-chuva, eles falavam na cidade do interior os mais importante eram: o gerente do Banco do Brasil; Gerente da Caixa Econômica; Promotor; Juiz e Gerente da Drogasil. O pessoal considerava muito e eu fui trabalhar com uma senhora que era uma das mais antigas da empresa. Era subgerente, a única mulher subgerente, era nessa loja, a Dona Leonor. Naquele tempo que eu fui trabalhar ela devia estar chegando aos 50 anos de empresa, ela entrou mocinha na Drogasil.

Produtos da Farmácia
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P - E nessa época o forte ainda era manipulação ou já tinha mudado? Pedro - Não manipulação não era o mais forte, o mais forte era a venda de remédio mesmo. Porque a Drogasil tinha muito nome, preço era ela que ditava, era o menor preço das farmácias que tinham, Drogasil é que ditava preço. Inclusive tinha até catálogo os quais eram vendidos também para as farmácias, aquelas que queriam seguir o preço da Drogasil. Algumas até aproveitavam e punham do lado de fora "Preços da Drogasil" , quer dizer, fazia propaganda da Drogasil. M

P - E nessa época eram produtos importados ainda? Pedro - Não já tinham nacionais, mas também eram importados, tinha muita coisa importada. Hoje a gente vê tudo gravado na caixinha, mas a maioria vem de fora ainda, com a globalização, a maioria é fabricado fora também e o Brasil, para alguns laboratórios, porque tem muitos laboratórios, o que fazem? Aqui no Brasil fabrica uma leva de produtos e manda para outros países, outros países fabricam uma leva de produtos e fica muito mais barato e mais desempregados né? M

P - E nessa época os produzidos no Brasil quais eram? Pedro - O Instituto de Medicamentos Fontoura eu sei que era dos nacionais, depois veio para o Brasil o Fontoura White, que era uma multinacional, se não me engano e naquele tempo tinha os laboratórios nacionais, tinha o Instituto Lorenzini, que hoje não existe mais. Medicamentos Fontoura não existe mais. Hoje os produtos tão com Dorsay, outros com outro laboratório, depois começou aquela leva de laboratórios multinacionais virem para o Brasil M

P - E isso mudou a rotina da farmácia? Pedro - Não, acho que não mudou nada.

Relacionamento com o Aché
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P - E nessa época o senhor começou a ter um relacionamento com o Aché? Pedro - Se você quiser saber um pouquinho do que eu lembro. Quando o Aché começou eu era subgerente na rua Augusta, depois é que fui para Gerente e ficava sabendo que eles eram, se não me engano, propagandistas do laboratório Squibb, que se uniram e compram o Aché. O Aché já existia em Campinas era um laboratório de fabricante de hormônios, oftálmico, gravídico, uma porção de tipos de hormônio. E eles compraram esse laboratório e se não me engano tem produtos remanescentes daquela época, Sorine, aquele nasal é daquele tempo. O Iodepol, que é um xarope de iodeto usado para criança, também é daquele tempo. Mas eu lembro daqueles produtos que eram fabricados pelo outro Aché que eles compraram. M

P - E naquele tempo a venda do laboratório era direto na farmácia? Como era a venda? Pedro - A Drogasil além de vender para farmácia ela vendia também para as farmácias que queriam comprar um produto. Ela vendia, depois mais para frente veio o atacado da Drogasil, que vendia numa região muito grande no Brasil. Mas naquele tempo, no começo do Aché vendia, se não me engano eles tinham uma distribuidora, se não me engano chamava Prodoctor, era uma empresa deles que distribuía para as farmácias, para as distribuidoras.

Relacionamento com o propagandista
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P - E naquela época o próprio propagandista ia lá vender e cobrar? Pedro - É naquele tempo ainda tinha, era muito comum, o vendedor vendia para farmácia e depois ia receber a duplicata. Quando vencia ele passava lá com aquele feixe de duplicata e alguns jogavam: "O patrão não está, vem no mês que vem." (risos) Naquele tempo não tinha tanta inflação. A inflação começou depois da construção de Brasília, aí que começou galopar a inflação. M

P - Então nessa época o contato com o laboratório era através do propagandista? Pedro - É o propagandista era junto aos médicos e às farmácias. O propagandista tinha, propagandista vendedor também, além dele propagar para os médicos eles vendiam nas farmácias, recebiam também, como no interior chamava, se não me engano, era caixeiro viajante, porque ele vendia e recebia também. M

P - E como era esse relacionamento do dia-a-dia? Pedro - Os viajantes do interior têm muito mais história, porque inclusive há pouco tempo atrás eu vi algumas fotos que era da Bayer, no tempo que eles tinham aqueles furgões, que entregava pão nos idos de 50. Eles faziam propaganda do lado de fora Cafespirina. Isso já faz 50 anos e eles me mostraram essas fotos. Mas naquele tempo era assim, os farmacêuticos do interior esperavam muito porque não tinha remessa rápida como é hoje. Hoje uma distribuidora entrega em menos de 24 horas aqui e interior e outros locais, mas antigamente levava semanas, até meses para pessoa passar outra vez. M

P - Na sua época de interior também? Pedro - Não, eu na filial em 1967, nós tínhamos atacado. Nós vendíamos. Tinha um caixeiro viajante e ele não tinha carro, ia de ônibus, saía de manhã. Cada manhã ele saía num roteiro, visitava as farmácias daquela cidade, ou duas e no próximo mês, na próxima visita às vezes ele ia receber a duplicata. Mas cada dia ele fazia um roteiro diferente. M

P - E já comprava remédio do Aché nessa época? Pedro - Isso era em 1967, devia ser o comecinho do Aché. A gente trabalhava com o Aché antigo, depois que eles vieram com produtos novos, mais recentes.

Organização da farmácia
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P - E como eram as embalagens desse começo, eram iguais as embalagens de hoje? Pedro - Não eles mudam, o laboratório muda muito. Existem produtos que não aceitam mudança, é o caso de Hipoglós, conhecido já há muitos anos. Já tentaram mudar a embalagem, o cliente não aceita, cai muito a venda, mas as embalagens periodicamente o laboratório muda o layout. E outra coisa que a própria lei exige, às vezes muda a embalagem. Mas às vezes todas as embalagens de um laboratório mudam até a cor. M

P - Na prateleira as cores? Pedro - A Drogasil antes usava tudo em ordem alfabética e era muito comum as farmácias colocarem por laboratório, separar produtos do Aché, do Abbot. Cada lugarzinho o produto de um laboratório, e a Drogasil era ordem alfabética, comprimido, os líquidos e gotas, pomadas eram separados, hoje está tudo unido, tudo em ordem alfabética. Isso facilita para o pessoal novo, que está começando no ramo. M

P - É a ordem alfabética do nome do produto? Pedro - Hoje está tudo assim, por ex. você pega um produto que tem cinco, seis apresentações, todas ficam juntas. Antigamente não. Ficavam xarope e gotas num lugar, ampolas no outro e pomadas, supositórios em outro lugar, comprimidos em outro, hoje está na ordem alfabética.

Vida no interior
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P - E o senhor ficou no interior muito tempo? Pedro - Não fiquei muito tempo. Em Catanduva fiquei dois anos e pouquinho, depois como a gente estava sozinho lá, sem parentes, e minha esposa, o pai dela é de uma cidadezinha junto de Maringá, chama Itambé, cinco seis quilômetros de Maringá. Aí consegui trocar com um gerente de Maringá, ele era filho de Catanduva e eu queria ir para Maringá, então conversamos com a Direção da Drogasil e arrumou uma permuta, ele veio pra Catanduva e eu fui para Maringá. Nós ficamos, só que ela não se adaptou, foi criada em São Paulo, lá em Maringá era muita poeira ainda, poeira vermelha que impregnava tudo e naquela época também foi o começo das rodovias no norte do Paraná, norte novo, que é Londrina, Maringá, para frente, Marambá, que é aquela parte para cima de Londrina é norte velho. E a gente conheceu todas aquelas cidades ali M

P - Mas não se adaptaram? Pedro - Fiquei dois anos e pouco lá. E ela reclamava muito, que a gente tinha vida social , mas era só o homem. Ela ficava só cuidando dos meninos, o terceiro filho nasceu lá. Então a gente acabou, para evitar desavença, eu pedi para voltar. Era muito sujo demais, a gente também morava no apartamento da Drogasil em cima da Loja. A gente passava fim de semana, às vezes ia para casa do meu sogro, ia sexta-feira à tarde e ficava até domingo. Agora uma outra coisa que eu acho interessante que aconteceu comigo, a gente abria a loja para atender algum cliente especial fora de hora, isso muitas vezes eu tive que fazer isso, abrir a loja de madrugada para atender casos especiais. Para mim sempre fiz isso com muito prazer. Em Maringá duas ou três vezes eu fiquei até com dó, às vezes eu ia passar final de semana na casa do meu sogro, voltava domingo à tarde, encontrar freguês de outra cidade, esperando a gente desde o sábado. Você vê, por causa de uma coisa de emergência, ninguém tinha na cidade, porque a Drogasil levava de São Paulo e as farmácias do interiorzão do Paraná falavam "Só acha isso na Drogasil, lá em Maringá." e a pessoa ficava esperando, às vezes ia pessoa da cidade mesmo pedir para gente abrir e a gente abria, não tinha esse negócio de medo de ladrão. M

P - E o Sr. ouvia muita história dentro da farmácia? Pedro - Muitas coisas, que acontecem, isso é. Uma vez em Catanduva eu abri a loja era meia noite para vender uma chupeta. O cara estava desesperado, a criança não parava de chorar, tinha sumido a chupeta o cara foi lá, tinha guarda que ficava na porta do prédio e eu morava no terceiro andar, o homem pediu encarecidamente para o guarda me chamar para vender uma chupeta. Eu desci e vendi, porque eu tinha filho pequeno, sabia o problema. E a gente fazia isso com prazer, esse negócio de produto de emergência, penicilina de alta dosagem e não achava em lugar nenhum, era a Drogasil que tinha, que vinha de São Paulo, e o cara ficava esperando mesmo, coitado, quando eu via aquele caso assim, dava dó "Pôxa, podia ter voltado antes.", mas é que as farmácias mandavam ir em Maringá buscar, o cara fazia viagem para buscar o remédio lá. M

P - E nessa época a Drogasil tinha muito mais lojas? Pedro - Tinha bastante. M

P - Quantas lojas mais ou menos você lembra? Pedro - Não tenho a mínima idéia. Eu sei hoje, mas em 86, na época do plano Cruzado a Drogasil chegou a ter 123 lojas, mas depois daquele plano Cruzado ela resolveu trazer as filiais mais para perto de São Paulo e vendeu muitos prédios em Goiás. Em Brasília tinha quatro filiais, em Taguatinga, tinha em Campo Grande no Mato Grosso, em Maringá no Paraná, essa que eu fui, Londrina tinha, eram as mais longínquas, interior de Minas. Só ficou, tirando as filiais do interior de São Paulo muitas lojas que a venda não era igual ela resolveu fechar e vendeu muito prédio.

Volta para São Paulo
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P - E quando o Sr. voltou pra São Paulo, depois de Maringá onde o Sr. foi trabalhar? Pedro - Eu fui na loja da Consolação, era nova, depois de lá eu morava na Vereador José Diniz, Av. Ibirapuera eu fui abrir a loja do Jumbo. Lembra do Jumbo que tinha ali no Aeroporto. Hoje voltou a ter, hoje é Pão de Açúcar, mas chamava Jumbo e a Drogasil abriu essa loja e eu fui, depois fui para Moema. A última filial que eu trabalhei foi de Moema M

P - Sempre como gerente? Pedro - É, a última filial que eu trabalhei foi de Moema. M

P - A rotina na farmácia foi mudando Sr. Pedro? Pedro - Devagarzinho foi mudando. M

P - Que tipo de mudança? Pedro - Uma, a gente via no tempo de garoto, de rapaz, o jeito do profissional trabalhar, eles entendiam muito mais o pessoal. Não sei se era necessidade do emprego ou amor ao trabalho. Hoje você vê a descida de muita gente, o desemprego, a pessoa passou a não valorizar o emprego, agora está voltando, como tem muito desemprego que a pessoa tem que segurar. Mas naquela época trocava tanto, que a pessoa saía hoje de um emprego, amanhã já estava trabalhando em outro lugar. E perdia emprego por causa de 50 cruzeiros, era cruzeiro ainda, por causa de 50 ele saía de um emprego para ganhar 50 cruzeiro a mais e não é assim. Você tem que progredir na vida. Eu tive funcionário que eu não deixei sair, como a Drogasil não me deixou sair diversas vezes que tive para sair. Eu não deixava funcionário bom sair: "Você vai subir na vida, não adianta você ir trabalhar na farmácia e ganhar 50 cruzeiro a mais, você não está pensando no seu futuro, você vai subir na firma." A última filial que eu trabalhei em Moema, sempre gostei de ensinar e menino de pacote, rapaz faturista, balconista, a maioria chegou a Gerente. Quando eu fui para a matriz em 1977; o ano passado foi um rapaz na Drogasil requerer a papelada para aposentar e depois ele me procurou lá, quase me deu vontade de chorar, ele me disse uma frase: "Sr. Pedro tudo que sou devo ao Sr, quando me deu um conselho e não me deixou sair." Ele tinha ficha com duas advertências em vermelho na carteira de trabalho e consegui chegar esse homem a subgerente, depois ele chegou a gerente, foi diversos anos gerente, depois ele comprou farmácia, tem duas farmácias. Você vê que ele foi me agradecer dizer que tudo que ele tinha foi porque eu não deixei ele sair e consegui mostrar para Drogasil que ele não era homem ruim, é porque ele não sabia, os outros não sabiam lidar com o ser humano. Isso é muito interessante, porque na minha vida não tive pai para me educar, meu irmão mais velho não era meu ídolo, porque normalmente para o filho o ídolo dele é o pai. Mas eu tive um gerente e fiz a mesma coisa com ele, o ano passado eu fiz uma coisa com ele, que está com 70 e poucos anos. Ele foi meu gerente, meu subgerente, depois gerente e eu abri o coração para ele também, falei: "Tudo que eu sou...", almejava ter uma família como ele teve e a conduta, porque ele não bronqueava, ele não xingava o funcionário, ele vinha aconselhava, mostrava as coisas. Quantas vezes eu deixava de sair com namorada e saía com ele para aprender. De ver aquilo o que era amor de um casal, isso eu achei maravilhoso e falei para ele. A gente sempre estava alegre um com o outro, os funcionários trabalhavam contentes, o que ele era eu passei a ser, tive um espelho, isso a gente quase não vê mais. M

P - Na volta do Sr. para São Paulo, com o crescimento da cidade, o crescimento de outras farmácias como foi a mudança da Drogasil? Pedro - Vou te falar uma. Quando eu voltei para São Paulo, conheci o Minhocão. Foi feito na minha ausência e teve outra coisa, eu saí de férias uma vez e vim a São Paulo, minha esposa ficou lá e eu vim visitar a minha família e a dela, e às vezes vinha também a negócio porque a matriz chamava. Quando o homem desceu na lua eu estava em São Paulo, foi em 69. Quando eu voltei a Maringá fui visitar o pai do avô da minha esposa e contando as coisas, o homem morreu sem acreditar que o homem tinha descido na lua. E eu conheci pessoas que não acreditavam que o homem tinha descido na lua, ele morreu com 90 e poucos anos também e não acreditava. Falava que a gente estava brincando, que era filme. E eu estava aqui em São Paulo quando o homem desceu na lua. M

P - O Sr. lembra dessa notícia? Pedro - Lembro do Yuri Gagarin o primeiro homem a subir nossa atmosfera. Lembro da cachorrinha russa, a Laika, que foi antes do Yuri. M

P - Quer dizer que o Sr. volta para São Paulo em 1969? Pedro - Não, eu voltei para São Paulo em 1971. M

P - Quando o Sr. vai para loja da Consolação, é isso? Pedro - Fui para Consolação e de lá fui para aquela loja do aeroporto, depois fui para Moema, a última loja que eu trabalhei e saí de lá em 1977.

Relacionamento com os laboratórios
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P - Nessa época como era o relacionamento com os laboratórios, tinha mudado alguma coisa? Pedro - Não. Como a Drogasil sempre comprou centralizado, a gente tinha visita de alguns propagandistas, que queriam saber se o produto estava vendendo, mas normalmente eles faziam propaganda médica. O laboratório que primava por isso: "Vai na Drogasil e vê se está vendendo aquele produto novo." M

P - A venda não era direta com o distribuidor? Pedro - Não a Drogasil compra centralizada. Comprava como até hoje para todas as lojas, a própria Drogasil que distribui. Compra centralizada. M

P - Sempre foi assim? Pedro - Sempre, só quando ela pegou fogo em 1969, também a sede da Drogasil que era no centro na rua Santo Amaro pegou fogo, aí ela autorizou, por que como ia abastecer? Queimaram todos os arquivos, a documentação, então ela autorizou as lojas a comprarem direto, mas o período não foi muito longo. Aí as lojas compravam e os laboratórios tiravam os pedidos nas lojas, só foi essa época. M

P - Sem ser essa época a compra era centralizada, direto com o laboratório? Pedro - Não a Drogasil matriz, como a gente faz hoje, compra dos laboratórios, eles entregam na nossa sede. Lá é o nosso depósito, dali é que a gente manda para as lojas. Hoje é por computação, antigamente era tudo escrito, mandava os pedidos por escrito. No meu tempo de garoto era tudo faturado, vamos supor uma nota com 20 itens, a filial pedia 100, 200 produtos, ia 200 itens, notas, depois ia a fatura no fim do mês para as lojas, era uma loucura. Tudo era manual, inclusive a Sra. mais antiga da Drogasil trabalhou comigo até outro dia, eu estou com 51 e meio, agora ela não pode trabalhar mais, deu quase um enfarte nela lá dentro da loja, era faturista. Aqueles talões grandes ela faturava para as lojas. Tinha uma letra bonita essa Sra., 56 anos e ela também entrou na Drogasil menininha, ela está com 70 e poucos anos, trabalhava, tudo dela era bem feito, caprichado, tudo conferido e se você falava que ela errou um negócio, ela levava um choque, ela não aceitava, gostava de primar pela... M

P - E nessa época dos anos 70 o sr. lembra quais eram as marcas dos produtos que mais tinham que pedir? Os que mais vendiam? Pedro - Eu posso citar produtos populares. Vendia muito, quer ver, Emulsão de Scotch, era um produto feito à base de óleo de fígado de bacalhau, era uma emulsão, um produto muito antigo, deve ter 100 anos, ainda existe. Hoje existe até com sabores. Biotônico Fontoura que vendia horrores, outro que vendia muito, inclusive as filiais recebiam caixas e caixas fechadas. Caixas, porque cada bairro onde tinha uma filial da Drogasil o movimento de todas elas eram boas, os fregueses saíam de um bairro para ir onde tinha Drogasil. Aquelas pessoas que tomavam remédio contínuo, normalmente iam atrás de filial da Drogasil que era muito mais barato. Vou contar um outro pormenor da minha vida aqui em São Paulo, a farmácia mais antiga de Moema era do meu tio, que abriu na época da Revolução Constitucionalista de 32, quando eu vim para São Paulo. Não tinha casa ainda, fui morar com ele, Farmácia Confiança em Moema. Era na antiga passagem do bonde, chamava parada Indianópolis. Ele abriu a farmácia em 32 e era farmacêutico formado em Minas Gerais e tinha a farmácia mais antiga. Depois ali quando abriu a Drogasil, como ali vivia muita gente às despesas da farmácia, os filhos não trabalhavam viviam só às custas da farmácia, quando a Drogasil abriu em 53 lá, não demorou muito ele faliu, foi para Peruíbe, foi a primeira farmácia de Peruíbe M

P - Virou concorrente do tio a Drogasil. Pedro - É a vida, eu nunca tive essa intenção, coincidência a gente entrar no mesmo ramo, nunca entendi nada de farmácia, apenas coincidência.

Dia a dia do Comprador
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P - Voltando para os anos 70, o Sr. falou do Biotônico Fontoura, da Emulsão Scotch. Tinham outros laboratórios? Pedro - Ah Tinham, laboratórios, sempre teve bastante, mas hoje uniu-se muito, mas eu quando comecei a trabalhar com compras em 81, tinha mais ou menos perto de 300 laboratórios. M

P - E como era o trabalho com as compras? Pedro - Quando fui para Compras, já fui como comprador M

P - O que faz um comprador? Pedro - Compra medicamentos. A gente dá o pedido para toda rede, compra pra toda rede, então naquele tempo a gente já tinha atacado, o volume de compra era muito grande. Hoje o computador faz as coisas muito mais rápido, você tem muito mais informação armazenada no computador. Quando eu comecei a trabalhar no departamento de Compra o computador não era como hoje, você ficava enfiando as coisas no computador. Tinha muita moça para assessorar, mas hoje você aperta o botão, está o pedido, sai na impressora. Antigamente você mandava uma pessoa buscar na hora tal, e no meu tempo, no começo a gente dava pedido por seção. Por ex. um laboratório ele tinha comprimido, ampola, xarope, supositório, produto controlado, cada um era um pedido, certo? Então vamos supor se ele tivesse oito apresentações de produto, levava oito pedidos. Hoje você faz tudo ali. Analisa um laboratório que tem grande linha, vamos supor Novartis, mais de 200 produtos, 300, você analisa com a maior facilidade os produtos no computador ali na frente, modifica alguma coisa? M

P - Mas vocês que compravam diretamente dos laboratórios, tinha uma concorrência entre os laboratórios? Eles faziam ofertas para vender? Pedro - Não a negociação que havia era muito a necessidade do laboratório, antigamente se dava muito prazo. Hoje o prazo está curtinho, mas antigamente um laboratório estava precisando cumprir uma meta e eu não estava precisando da mercadoria, ele estendia o prazo para seis meses para você pagar. Era diferente, ou dava um desconto a mais para você comprar um volume. Até hoje isso é feito, mas antigamente além de dar um desconto maior, ele esticava o prazo. M

P - E por exemplo esse pedido era feito todo mês ? Pedro - Não, conforme, hoje eu compro semanal, porque você não precisa manter estoque elevado. Compra conforme a necessidade. Toda semana você repõe o estoque, então antigamente você trabalhava com até 180 dias de estoque, seis meses. Hoje não precisa mais disso, a reposição é muito rápida, hoje você manda um pedido por fax, o cara liga para você, ou manda por e-mail. Tem as facilidades, tem laboratório que me entrega mercadoria do Rio de Janeiro em menos de 24 horas, um pedido às vezes duas, três horas da tarde, no outro dia oito horas está aí. Não deu nem 24 horas, e nós não vimos o fax nascer, tanta coisa que a gente viu nascer, isso aí foi a rapidez das coisas, as informações. Em 69 eu não vi o homem chegando na lua? M

P - Quando o Sr. começou nas compras, era por telefone o pedido, como era? Pedro - Não, normalmente era retirado o pedido em mãos, assinado. Nós temos assim diversos, que vão toda semana, no dia certo. Eu tenho uma leva de laboratórios por dia, tudo é dividido, como são muitos, cada dia eu tenho uma leva de laboratórios para comprar, então se eu faço um pedido maior, numa época que ele oferece alguma negociação, ou vai sair de férias, eu vou comprar mais. Não posso deixar faltar, às vezes não vou comprar na semana seguinte, mas eu analiso semanalmente todos laboratórios. M



P - Antes esse pedido ia escrito para o laboratório? Pedro - Escrito e assinado. O representante do laboratório assinava o pedido. E como os pedidos da Drogasil eram grandes, normalmente era a gerência que retirava os pedidos, porque não podia um vendedor receber uma comissão de uma empresa que vende para tantas, então algumas vezes alguns laboratórios rateavam a comissão entre os vendedores. M

P - No começo dos anos 80 quando o Sr. foi pra área de Compras, tinha diferença lidar com laboratório nacional como o Aché e com um multinacional? Pedro - Não, existe a necessidade de cada um, o tipo de trabalho porque por ex. a Drogasil não faz indicação, o chamado empurroterapia, é só por procura, receita. A Drogasil é uma empresa ética, não indica nada. Se você fala: "Eu preciso de um xarope, o que tem de bom?" Não indica nada, a não ser que o cara seja conhecido seu, ele possa dar, mas a Drogasil não empurra remédio para ganhar dinheiro, a chamada empurroterapia. Mas tudo é produto procurado, com receita, o cliente procura o produto, se é produto controlado só com a receita vai levar, senão não leva. A Drogasil não permite. Na farmácia o cara dá um jeitinho de vender sem receita. M

P - Mas na parte de negociação tinha alguma diferença entre a nacional e a multinacional? Pedro - A negociação sempre foi igual, agora tudo é da necessidade. Depende da necessidade, em venda, você está precisando. Você precisa dar uma condição para eu comprar algo a mais, um desconto maior, um prazo maior, negociação é assim, necessidade de cada um. Agora se o laboratório é ético, se ele trabalha direitinho, só o que o médico receitar, se é uma venda, é chamada de venda sadia. Agora se está faltando tantas mil unidades para ele cobrir e não sabe onde vai vender, o que vai fazer? Vai procurar uma firma grande que possa comprar, é onde entra a negociação. Se ele está com a venda sadia, tudo o que ele vende é de receita, não precisa fazer estoque, compra a necessidade, isso é venda sadia. Agora o outro que não cobriu a meta ou um grande cliente deixou de comprar, o que acontece, vai ficar furada a venda dele, vai faltar tantos mil reais ou tantas mil unidades, ele tem que cobrir, o mês está terminando, como ele vai apresentar para multinacional dele que não cobriu a venda? Então sai correndo atrás. M

P - E nesses anos 80 o Aché já era o laboratório de maior porte, o Sr. lembra do que fazia sucesso do Aché naquela época, qual era o pedido mais forte? Pedro - Ah não, porque eu comecei nas compras em 81 e as compras sempre foram semanais, e naquele tempo era tudo retirado lá e assinado. Teve uma época também, porque produtos a gente não lembra, eu vi nascer Aché, vi os produtos deles nascerem, agora não sei em que época. M

P - Como era a rotina, as filiais mandavam para a matriz o pedido? Pedro - Antigamente era assim, hoje vai tudo por computador. A filial vem de lá é registrada eletronicamente, eles já transferem aquela venda e em pedido para a matriz. Vamos supor um cliente chega lá, tem três vidros de um produto, cai uma receita três vidros, ficou zero, acabou de registrar o computador, passa tudo em forma de pedido, à noite, durante a madrugada é faturado e no dia seguinte já está recebendo as três unidades, outra vez, tudo automático. M

P - Mas antes disso, vinham os pedidos da filial para a matriz, o sr. juntava os pedidos das várias filiais e fazia pedido para o laboratório? Pedro - Não quando comecei ainda estava na época eletrônica, agora o pedido não é que a gente juntava. Quando comecei já estava no computador, vai somando, um manda um pedido de 132 do produto, a outra filial pede meia dúzia, outro só pede três, outro nenhum, aquilo soma tudo e o computador vai faturar para cada loja o que ela pediu, diversos produtos. M

P - E mandava para o laboratório esse pedido? Pedro - Não o meu estoque estava lá. Eu já tinha comprado do laboratório, a gente tem o estoque. Daquele estoque é que as filiais estão pedindo e aquele estoque as filiais vão somando pra depois faturar. M

P - E o sr. alimentava esse estoque toda semana? Pedro - Entrou mercadoria é dado carga no computador como é feita até hoje.

Relacionamento Farmácia e Distribuidores
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P - E é o Sr. que vai buscar mercadoria no laboratório ou ele que entrega? Pedro - Tudo ele entrega, paga o frete. M

P - Essa entrega do medicamento mudou nos últimos anos? Pedro - Hoje tem empresa que cuida de 10, 15, a Unidox, cuida dos estoques de 15 ou mais laboratórios de grande porte. O laboratório fabrica e manda para Unidox que pega a mercadoria e entrega. Estão cada vez mais facilitando as coisas, o estoque não está no laboratório mais, está naquela transportadora que faz isso. O estoque do laboratório fica na transportadora, o laboratório emite a nota a transportadora põe nos caminhões dela e vai entregar. M

P - Depois de entrar na área de Compras o Sr. ocupa o mesmo cargo ou teve alguma outra mudança? Pedro - O mesmo cargo, porque o Gerente de Compras subiu para Diretor, então o que ocupa o mesmo cargo passou a ser Gerente do Departamento e eu fiquei como Comprador. Porque a gente comprava quase todas áreas, remédios, alimentos. E quando o Sr. Luís Edmundo saiu, que é o nosso Superintendente Comercial, ele era responsável pelo laboratório da Drogasil. Como a Drogasil vendeu esse laboratório em 90 e pouco, ele foi para o nosso departamento. Porque ele era da família e ocupou o lugar de um outro que também tinha subido pra Diretor . M

P - Desse trabalho o que o Sr. mais gosta? Pedro - Eu se precisar carregar pedra, carrego. Nunca deixei de gostar de nada, tudo que você fizer procure fazer bem feito, seja o que for, mesmo que seja coletor de lixo faça com gosto, com prazer que fica gostoso o serviço.

Sonho
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P - E o Sr. tem algum sonho dentro da Drogasil? Pedro - Não o meu sonho é ser feliz e eu não posso me queixar de nada. M

P - Como o Sr. vê todos esses anos que passou na Drogasil? Pedro - Para mim parece que foi ontem que aquele Sr. está falando para mim: "Aqui não parou nenhum menino até hoje." Eu falei para aquela outra moça que não gosto de foto, gosto de espelho. Eu contei um caso que houve na Drogasil, estava a diretoria numa festa para o pessoal que vai completando o qüinqüênio. Eu trouxe uma placa que ganhei quando tinha 40, ganhei diversas, mas levei aquela. Ele estava dando uma festa, para uma turma que não era a minha, a cada cinco anos a gente é homenageado, então o diretor geral, convidou eu e aquela Sra. que trabalhava comigo, que era mais velha. Mas não era nosso ano de receber a homenagem, mas nós fomos chamados para a festa. Muito bem e o pessoal tudo tirando foto com ele, porque era novo na empresa, que veio do grupo, era banqueiro. O pessoal tirando foto e ele chegando e eu saía fora. No outro dia ele logo cedo, sempre cedo. Ele chegou e foi na minha sala - a gente sempre conversa bastante -, e comentou: Pedro ontem notei, por que você não quis tirar foto comigo?" "Porque eu não gosto de foto, gosto de espelho.", "Mas por quê?" "Porque o espelho nunca te mente e você nunca fica velho em frente o espelho e a foto você fica." Está certo. Não é que eu não gosto dele, que tenha esnobação, é que foto não gosto, eu tiro foto, já tirei tantas. Não tenho medo de máquina, só que eu tenho essa opinião, você em frente o espelho não fica velho nunca, você pega uma foto um ano depois você já está diferente: "Po essa roupa está feia, que modelo horrível, nossa como você envelheceu, como eu estava mais novo." M

P - O senhor tem algum sonho que. gostaria de realizar? Pedro - Não nunca fui infeliz, sempre fui feliz onde estou. Agora eu não posso dizer, quero isso ou aquilo, estou satisfeito com a vida. Sempre digo para todos os meus conhecidos, eu não me queixo, não mesmo. M

P - Atualmente o sr. mora com quem? Pedro - Eu, a minha esposa e mais os dois pequenos e o filho solteiro ainda, está com 30 e poucos, deve casar agora no começo do ano que vem. M

P - E o senhor já tem netos? Pedro - Tenho dois. M

P - Como chamam? Pedro - Fernando e Fábio. M

P - E o que o Sr. gosta de fazer quando não está trabalhando? Pedro - Mexer em plantas, gosto muito de mexer na terra, cuidar de plantas. Meu sonho depois que eu parar. Eu acho que quanto mais você trabalhar, você vive mais, pode ver isso, você tem menos preocupações. Eu sempre fui trabalhador, com essa idade que tenho a turma não acredita, jogo futebol de salão até hoje. Tenho um time de amigos no bairro, nós já jogamos há 16 anos e fumava, parei de fumar, mais de 50 anos que eu fumava. Parei não tem um mês ainda, parece que eu estou de pulmão novo, a diferença é gritante. Agora eu sempre tive boa disposição, nunca tive preguiça, até meus filhos não tem nem 20 anos, é uma preguiça. "Por que preguiça é tão fácil, deixa que eu faço." E tudo é assim, tem que ser sempre otimista, nunca reclamar de nada, a vida é boa, basta a gente saber viver. M

P - Para finalizar gostaria de perguntar o que o Sr. achou de ter contado um pouquinho da sua história? Pedro - Reminiscências assim é maravilhoso, é tão gostoso a gente falar algo que já estava encostado num arquivo na nossa mente, e a gente rememorar. M

P - Por que é bom? Pedro - É bom como se você tivesse vivendo novamente aquela experiência. Teve tanta coisa que eu conversei, falei, há muito tempo, nem lembrava. Devagarzinho você foi escafrunchando e algo foi saindo, não é isso? M

P - Muito obrigado gostamos muito do depoimento. Pedro - Para mim foi um prazer, uma satisfação e achei que foi muito bem feita, bem colocada e acabou tirando algo que às vezes a gente acha que não ia falar nem lembrar, mas devagarzinho vocês foram esmiuçando minha vida e descobriram muita coisa minha. M

P - Boas descobertas (risos). M

P - A gente é que agradece. M

P - Muito obrigado Sr. Pedro. Pedro - Não por isso.

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