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História

Pedagoga e educadora ambiental

História de: Lediane Seguetto Fiorini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/05/2020

Sinopse

Lediane ainda pequena, acompanhava a mãe na roça. Cedo sua avó profetizou que ela seria professora, dado o gosto pelos estudo. Apesar das dificuldades econômicas e geográficas formou-se em Pedagogia, e inseriu-se na rede de ensino. Encontrou uma escola com sinais de desgaste e lixo acumulado, até incluir-se num projeto com foco na coleta de lixo e meio ambiente. A mobilização foi além da escola, o que a levou pensar que a criança é como uma semente: o que aprende na escola ela vai passando e transformando a realidade.

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História completa

P/1 - Poderia confirmar o nome, local e data  de nascimento?

R – Lediane Seguetto Fiorini. Nasci em 13 de junho de 1979, na cidade de Putinga.

 

P/1 – Putinga finca onde? 

R – Putinga é um município. Como é que vou dizer? Faz divisa com Fontoura Xavier, mas desce. Como vou explicar?...

P/1 – É perto?
R – É perto! Faz divisa com Fontoura Xavier. É mais para baixo. Pegando...descendo a estrada que passa aqui no Colégio, sabe? Vai ter um rio. A calha que tinha ali é onde faz a divisa. O próximo município é Putinga.

P/1 – Onde passou a infância?
R – Numa comunidade pequena que fica logo abaixo daqui, a Santa Catarina.

P/1 – Como era esta comunidade?
R – Era um lugar pequeno. Uma comunidade pequena. Escola pequena. Na época, era um professor que atendia a todos os alunos. A comunidade era bem pequena e também bem unida. Eu gostava de morar ali. Gostei muito da minha infância.

P/1 – Lediane, sabe a origem da tua família?
R – Sim. O meu pai é de origem italiana. A minha mãe é brasileira.

P/1 – O teu pai nasceu na Itália?
R – Não, não. Acredito que...não sei bem em relação ao pai dele. Não sei se o pai dele veio de lá. Sei que o meu pai é de origem italiana.

P/1 – E você sabe alguma coisa dos teus avós?
R – Quase não tive convivência. A minha nonna (avó) faleceu antes de eu nascer e daí o meu nonno (avô) continuou morando lá depois que nos mudamos. Daí, não tive muita convivência.

P/1 – Você tem irmãos?
R – Tenho.

P/1 – O que eles fazem?
R – A minha irmã é professora e trabalhamos na mesma escola. O meu irmão é pedreiro.

P/1 – Você passou a infância na comunidade Santa Catarina?
R – Uhum.

P/1 – O que lembra desta fase, nesta comunidade?
R – Lembro que a gente morava perto dos meus avós - os pais da minha mãe. Gostava muito deles! Desde cedo, eu ajudava o meu pai e a minha mãe na roça. Antigamente, as coisas eram mais difíceis. Como eu era a filha mais velha, tinha que ajudar. Nos finais de semana, a gente se reunia com os amigos para brincar. Na verdade, como a comunidade era pequena, éramos todos parentes.

P/1 – Como você ajudava os seus pais
R – Na época, a gente plantava até trigo, né?. Trigo, milho, feijão. Estas coisas. Eu ajudava, quando… na verdade, eu ajudava depois de um pouquinho mais grande. Como a minha mãe não tinha com quem me deixar, eu ia para a roça. Ficava na sombra com eles pra não ficar sozinha em casa.

P/1 – Na sua casa existiam aqueles costumes fortes da cultura italiana?  
R – Quando reunia a família do meu pai, que tinha alguma festinha ou coisa do tipo, eles gostavam muito de cantar em italiano.

P/1 – Que cantoria faziam? 

R – Eu lembro da La verdinela, mas não sei cantar.

P/1 – Você recorda de entender a letra?
R –  Não entendia muito o que falavam. Daí, tinha os filhos que, depois de casados com as brasileiras, passaram a falar uma mistura de português com italiano. Falavam meio que misturado e eu não conseguia entender.

P/1 – Do que vocês brincavam aos finais de semana? 

R – Pular corda, roda cantada.


P/1 – Roda cantada? 

R – Aquela que tem uma musiquinha: Roda cotia, de noite, de dia. Sabe? Também tinha as brincadeiras do ovo choco e a de pular corda. Estas coisas.


P/1 – Tinha alguma coisa, assim, que imaginava ser?

R – Eu não tinha muita imaginação sobre o que gostaria de ser. Mas, a minha avó dizia, desde que eu era pequena, que eu seria professora. Devido as minhas mãos...eu tinha os dedos meio  grandes [risos]. Ela sempre falava que eu seria professora e eu nem pensava nisto.  

P/1 – Por que ela pensava assim? [risos]

R – Não sei. Eu acho que… assim, ela notou que entre todos os netos era eu quem levava os estudos mais a sério. Os outros pararam bem mais cedo e eu continuava. Eu continuei a estudar. 


P/1 – E você gostava?

R – Eu gostava de estudar. 


P/1 – Você lembra de ir à escola? Como foi?

R – Dalí... há um tempo...a gente se mudou pra uma comunidade mais perto: a Linha Silveira. Colégio maior. Eu vim estudar ali. Gostava muito de estudar ali. Vinha uma professora e eu continuei estudando. Quando terminei o primeiro grau, tinha que estudar em Fontoura (município vizinho). daí, eu lembro que na época a gente não tinha transporte. Eu parei numa casa de família pra continuar os estudos. Aí, quando normatizou tudo, eu voltei pra casa e continuei estudando. Sempre gostei de estudar. Os meus pais sempre me incentivaram muito.


P/1 – Como foi? Vieram pra Fontoura?

R – Não. Este lugar, onde eu morava, não é Fontoura Xavier. A gente só se mudou pra uma comunidade mais perto da cidade, que é a Linha Silveira e e que também é próxima da comunidade São Roque, que é onde a gente tá (local da entrevista). 


P/1 – A escola ficava longe?

R – Da minha casa? Quando eu me mudei? Não era perto.


P/1 – Como foi parar numa casa de família? 

R – Quando eu fui fazer o segundo grau em Fontoura, eu tive que morar numa casa de família em Fontoura daí, porque o transporte é longe. Daqui, se eu não me engano, dá 12 quilômetros.  


P/1 – Tem memórias da escola? Alguma professora marcante?

R – Com certeza! Eu gostava de estudar. O meu professor do primeiro ano ... acho que uma professora que a gente nunca esquece é a Fabi. Por quê? Como eu estava numa outra comunidade, era um professor. E eu não sei como era na época, mas eu nunca passava de ano [risos]. Continuava sempre na mesma série. Aí, eu vim ali e a professora Fabi falou:  ‘Ó’, tu passou pra tal série!. Então, foi uma coisa que me marcou bastante. 


P/1 – Você tinha amigos na escola?

R – Sim, tinha amigos.


P/1 – Teve alguma experiência marcante no período da escola?

R – Não, não que eu lembre assim.


P/1 – Como foi morar numa casa de família?

R – Na casa onde parei eu tinha que fazer de tudo, né? Limpar a casa, lavar a roupa, fazer o almoço. Deixar tudo pronto pra daí de tarde eu ir pra escola. Quando eu chegava aí de tarde, eu tinha que ajeitar todas as coisas pra não ficar com muita coisa pra fazer na manhã do outro dia - pra eu conseguir ir de novo pra escola. 


P/1 – E eles apoiavam o seu estudo?

R – É. Era um trato feito com meu pai. Eu trabalhava pra estudar na verdade. Era bem puxado na época. 


P/1 – Os seus pais incentivaram?

R – Sim, sempre me incentivaram.


P/1 – E os seus irmãos?

R – Os meus irmãos também estudaram. A minha irmã tá fazendo faculdade, o meu irmão tem o segundo grau.


P/1 – O que mudou da infância à juventude?

R – Ah, bastante coisa mudou [risos]! Bastante! Na infância, as coisas eram

mais difíceis e agora é bem mais fácil. Teve uma mudança grande, sabe?


P/1 – O que gostava de fazer quando era mocinha? 

R – Nos finais de semana, a gente vinha na igreja. Minha família é católica. Todos os finais de semana. A gente ficava no campo, que tinha ao lado da igreja, jogando bola e conversando. É isso que a gente fazia.


P/1 – Você é casada?

R – Sim.


P/1 – Como conheceu o esposo? 

R – Conheci ele numa festa junina [risos], lá na comunidade Linha Silveira.


P/1 - Faz tempo?

R - 11 anos vai fazer no dia 30 de junho.


P/1 - Você tem filhos?

R - Sim, uma menina de dez anos.


P/1 - Como foi o dia do casamento?

R - Foi...como vou dizer? Foi bom! Acordei feliz [risos]. É uma coisa que a gente não sabe explicar, porque a emoção é tão grande que você não sabe descrever. Foi a realização de um sonho na verdade.


P/1 - O que vocês fizeram? Teve alguma coisa?

R - Assim… a gente casou. A gente só fez uma janta para os padrinhos. Eu me vesti de noiva, ele com todos os trajes normais, né? Mas… a gente optou por fazer só uma janta com as testemunhas e com a família mesmo. Foi pequena a festa, mas tava muito bonita. 


P/1 - Qual foi o seu primeiro trabalho, sem contar a casa de família?

R -  Eu comecei a dar aula e no início com os contratos nas comunidades. O que o nosso município tem emergencial, daí, contratam a gente no início do ano e vai até terminar as aulas. Eu fui trabalhando assim, até sair o concurso. daí, eu já sou concursada. Sou nomeada.


P/1 - Você fez faculdade? Como foi?

R - Terminei a faculdade, iniciei uma pós-graduação mas parei agora.


P/1 - Que faculdade fez?

R - Fiz pedagogia e a pós era em gestão escolar.


P/1 - O que a motivou por Pedagogia?

R - Assim, eu já tinha o magistério e a pedagogia foi pra ter mais suporte no trabalho em sala de aula, pra eu saber mais como lidar com as crianças. Depois que comecei a fazer eu me identifiquei bastante. Eu gostei e acho que é uma das coisas que todo o mundo deveria fazer. Ela é fundamental. Clareia bastante a gente. 


P/1 - Na época da faculdade, teve algo que te marcou? 

R - Sim, o meu trabalho de conclusão. Ele deixa a gente muito nervosa [risos]. Muito! Porque ele é tudo ou nada na verdade. É onde a gente vai mostrar se realmente conseguiu aprender. Mas eu - graças a Deus! - consegui. Deu tudo certo! Mas...me marcou muito. Eu lembro que quando eu tava fazendo, assim o nervosismo era tão grande que eu não sabia se fazia ou se chorava. É complicado. 


P/1 - Ficou feliz como resultado?

R - Meu Deus! Fiquei muito feliz [risos]. 


P/1 - Voltando ao seu trabalho, como você começou a dar aula aqui?

R - Eu fiz o concurso do município.


P/1 - Como era a escola quando começou a trabalhar? 

R - Era bem diferente [risos]. 


P/1 - Descreva o diferente?

R - Tudo! A escola, o espaço físico. Ela era… na verdade... assim...era uma coisa que você chegava e não se sentia muito bem, porque ela tava deixada de lado. No início eu até conversei com a diretora, pra gente tentar fazer alguma coisa mas, segundo ela, elas já tinham tentado e não adiantava. Continuava daquele jeito. Era bem feia, na verdade. São as palavras: bem feia [risos]. 


P/1 - Quais eram os problemas?

R - Um dos maiores problemas que tinha era o lixo. Por exemplo, a gente tinha que guardar o lixo no banheiro porque não tinha coleta. Era entulhos de lixo.


P/1 - Qual era o sentimento ao chegar na escola?

R - Tanto fazia se era de manhã ou de tarde. O sentimento que a gente tinha era de desânimo, na verdade. Desde o primeiro dia que eu cheguei, eu já sentia as pessoas meio desanimadas, sabe?. 


P/1 - Você pensava que poderia…

R - Eu pensava que poderia mudar, mas daí como se passou uns anos e continuava daquele jeito...eu já tava acreditando que ia continuar assim. A diretora mesmo falava: Não adianta tentar fazer alguma coisa, a gente já tentou e é assim.


P/1 - O que você pensava em fazer?

R - Sei lá! Eu tinha sugerido na época de a gente fazer uma festa junina pra comprar alguma coisa pra escola, ou pra mudar a pintura. Essas coisas assim que uma escola pode fazer. 


P/1 - Nunca conseguiram fazer?

R - Dali um tempo, a gente fez uma festa assim, mas já tinha iniciado o projeto Minha escola, meu futuro. 

P/1 - Qual a primeira impressão que teve, com a vinda do Projeto?

R - A minha primeira impressão: eu fiquei muito apreensiva. A gente não sabia o que vinha. Tudo que é novo a gente fica preocupada. Tá aí a minha questão: a minha vontade de mudança. Mas...eu não sabia a que ponto ia ser. Um projeto novo; expectativa grande; ao mesmo tempo o pé atrás. Depois que foi apresentado, a gente viu que era maravilhoso. 


Assim, sempre que a gente vai fazer um projeto na escola, a gente pensa primeiro na realidade do nosso aluno, pra depois partir pra globalização. E esse projeto veio bem ao encontro da nossa realidade, porque uma das questões era o lixo. Aí, quando o projeto chegou e a gente começou a trabalhar, logo em seguida a gente ficou mais feliz.  


Ainda porque ele não ficou só na escola, ele estendeu pra comunidade. O caminhão do lixo que não passava, começou a passar de 15 em 15 dias. As famílias - se vocês derem uma voltinha aqui, vão perceber ao redor -, cada uma construiu a sua lixeira. Então, isso facilita a coleta de lixo. 


Um dos problemas que tínhamos na escola terminou.


P/1 - Teve participação direta?

R - Sim. daí, o pessoal veio e conversou conosco. Eles conversaram na sala, com os alunos e tal. Depois nós colocamos em prática.


P/1 - E como você participou?

R - Conversando com os alunos. Conscientização. Explicando pra eles como é que ia ser desenvolvido. Depois, a gente viu que deu certo porque daí o Projeto se espalhou na comunidade inteira. Então, acho que a participação da gente deu certo. 


P/1 - Como os alunos receberam essa ideia? Recorda?

R - Sim. Bem...uma das preocupações é:  Como é que eles ‘iam’ receber?. Mas, não teve problema nenhum. Foi bem recebido.


P/1 - Vocês já tinham trabalhado com a reciclagem? Conheciam?

R - Não.


P/ 1 - Não conheciam?

R - Não.


P/1 - Como tomaram conhecimento da coleta seletiva?

R - dai, na verdade, o projeto teve uma parceria do BRF (Multinacional brasileira do ramo alimentício) e da Prefeitura (Fontoura Xavier). A gente foi conversar com o pessoal da Prefeitura e eles, daí se comprometeram a mandar o caminhão para coletar o lixo. A BRF deu as lixeiras pra nós - aquela que é separada - e foi quando as crianças, com a separação do lixo, aprenderam. Agora, estão habituadas a colocar o lixo separado. 


P/1 - O que você sente quando uma criança separa o lixo? 

R - Muito feliz! Vejo que o projeto tá dando certo.


P/1 - O que mais de positivo o trabalho trouxe à comunidade? Mora aqui?

R - Muita coisa! Assim, vocês não chegaram a conhecer a escola antes. Como eu falei, não tinha como explicar. Agora, ela se transformou. Ela é um lugar onde tu chega e se sente bem. Ela é um lugar aconchegante. A gente vê os alunos andando com os olhinhos brilhando. Eles tem os brinquedos bons pra brincar. Então, a gente se sente motivado. A comunidade inteira ficou muito feliz.


P/1 - Parece que teve a ação coleta de entulho. Você participou? 

R - Isso. A gente passou nas casas. Como falei, a gente falou com os alunos e tudo o que aprenderam na escola passaram. A gente passou nas casas para ajudar na coleta, só que a maioria do pessoal - como já estavam por dentro do assunto - já tinham feito a separação. Já tava tudo ensacadinho e era só a gente trazer até o lugar destinado; onde tínhamos combinado. Todo mundo ajudou!


P/1 - No ponto de vista de uma pedagoga: o que pensa sobre a atitude da criança levar o que aprendeu na escola para a casa, ensinar a família?

R -  Ótimo! Acho ótimo! É sinal que ela vem na escola e que prestou atenção naquilo que aprendeu. Ela não segurou pra ela, passou pra família. E, com certeza, quando ela conversar com os amigos, ou com alguém, vai passando. Tanto que o projeto já não tá só na nossa comunidade. Tem mais gente perguntando, gente do município inteiro. Até teve uma reunião de núcleo com a comunidade vizinha e que a nossa coordenadora pediu pra gente passar o Projeto. A criança é assim: uma sementinha, que passa as coisas. Tudo o que eles aprenderam eles vão passando. Então, acho muito importante isso.   


P/1 - A sua filha estuda aqui?

R - Sim.


P/1 - Ela também participou? Como foi a aprendizagem?

R - Sim, ela participa na escola. Digamos, quando a gente tá indo pra casa - ou no transporte público, ou caminhando - e ela vai comendo alguma coisa, ela não joga o lixo no chão. Ela pega e me dá pra guardar, pra eu chegar em casa e jogar no lixo.  Ela não joga nada no chão. Ela ficou bem.


P/1 - O que o seu marido pensa de você estar envolvida neste projeto?

R - Ótimo! Acha ótimo! Na verdade, este projeto tem a questão dos 5S's (Senso de utilização; senso de organização; senso de limpeza; senso de padronização; senso de disciplina) e que lá em casa também tem, porque a gente tá integrando a BRF lá também [risos]. 


P/1 - O seu marido também?! [risos]

R - Sim! Ele também passa por avaliação lá. [risos]


P/1 - E o quê realmente te motivou a participar?

R - Achei o projeto maravilhoso! Vi que nele estava a chance de nós mudarmos a escola; ficar melhor. Fiquei bem motivada e...como vou explicar? Resolvi pegar junto. O que precisassem de mim, eu tava disponível pra fazer. 


P/1 - O que fez exatamente?

R - Ajudei no que foi necessário, né? No desenvolvimento do projeto, na conversa com os alunos, com a comunidade, enfim.


P/1 - A comunidade aceitou bem?

R - Sim. Um dia, nós passamos nas casas para comunicar a reunião de apresentação do projeto. Ela seria no salão da comunidade, né? E a gente pode perceber a aceitação deles. Assim, eles ficaram felizes. 


P/1 - Vocês ensinaram outras coisas? Escovação dentária? Como foi?

R - Foi bom porque eles já pegaram o hábito. Eles comem a merenda e vão direto pro recreio porque às vezes eles trazem outra merendinha. Depois, eles vão escovar os dentes. daí a escola tá tendo, também, acompanhamento do dentista que agora vem uma vez por mês. 


P/1 - E a horta? Você participou?

R - Sim.


P/1 - Conta um pouco.

R - Cada canteiro é uma turma que cuida. Eles que plantaram e eles que estão cuidando. 


P/1 - E como as crianças…

R - Fazem a limpeza. Eles adoram ir lá. Adoram cuidar.


P/1 - Cada um vai e cuida do que plantou?

R - É. Digamos, assim, o quarto ano foi - a turminha deles, né? - e plantou aquele canteiro de alface. Eles são responsáveis por cuidar, limpar e regar. Quando deu a seca, eles que molhavam tudo. Tá tudo com eles. Eles eram os responsáveis por aquele canteiro. 


P/1 - O que acontece com os produtos da horta?

R - A gente utiliza na merenda escolar.


P/1 - Eles sabem o que estão comendo?

R - ...o que eles ajudaram a plantar. 


P/1 - O que demonstram quando percebem que comeram o alface que plantaram? 

R - Eles gostam. Nem era muito aceito, essas coisas, na merenda escolar. Hoje, eles comem direitinho. Eles gostam. É bem aceito. É uma coisa que eles sabem que foram eles que plantaram e que tão ajudando a cuidar. 


P/1 - Você acha que o projeto chamou a atenção para outros lugares?

R - Com certeza! A secretária falou que a próxima reunião de diretores vai ser aqui na escola, pra eles verem o que aconteceu. A gente vai mostrar a mudança que teve aqui na escola, pra eles saberem um pouco a respeito do projeto e pra levarem a ideia pra escola deles. 


P/1 - Sente que estão servindo de exemplo?

R - Com certeza.


P/1 - As outras escolas da região procuram sempre informações?

R - Com certeza. Eu acredito que a reunião vai ser com os diretores, porque os diretores daí passam pros demais professores.


P/1 - Tem colegas professoras, de outras escolas, que perguntam?

R - Sim.


P/1 - O que elas querem saber? O que perguntam?

R - Elas querem saber: como é que foi a mudança?; de que forma aconteceu? e quem teve a iniciativa?.


P/1 - Elas querem trabalhar aqui? 

R - Com certeza [risos]. 


P/1 - O que você responde? [risos]

R - Aconteceu, agora esse ano (2012), que tinha uma colega minha que queria vir trabalhar aqui. Perguntou como poderia fazer e eu falei que isso depende da secretária e se tem vaga. No caso, nós aqui, no momento, não teria. Depende.


P/1 - Dentro de todo o processo de reformulação, teve alguma história ou experiência que te marcou? 

R - A experiência que me marcou foi o dia que veio o caminhão carregar o lixo e que na verdade, não tenho certeza, foram dois ou três caminhões de carga. Carga que levaram de lixo, do tanto que tinha [risos]. Uma coisa que pra mim foi bem marcante. 


P/1 - Como se sente ao olhar pro entorno da escola e para a comunidade?

R - Não dá nem pra acreditar no que aconteceu. Se você viesse aqui antes? Pra ter uma noção, esse mato que tem aqui atrás da escola o lixo todo era jogado. Ali dentro. Agora, ele tá todo limpinho, todo cuidadinho.


P/1 - O que você aprendeu com tudo isto?

R - Muita coisa! Muita coisa, bah!


P/1 - Por exemplo?

R - Por exemplo, trabalhar com os meus alunos e trabalhar por mim. A questão da ordenação, da organização, que às vezes falta. A gente sendo organizada, em qualquer lugarzinho, a gente consegue colocar um monte de coisa. Aprendi bastante coisa. 


P/1 - Já tinha experiência com trabalho voluntário?

R - Não.


P/1 - O que pode ser feito a mais? Tem algum projeto que queira continuar, ou aplicar aqui na escola? Em termos de melhoria?

R - Com certeza! A gente sempre pensa em melhoria. Uma coisa que a gente gostaria é que o projeto continue aqui na escola, porque é maravilhoso.


P/1 - Você acredita que já estão com o conhecimento suficiente para poder tocá-lo sozinhos? Até ensiná-lo às outras escolas?

R - Acredito que a gente tenha o conhecimento, mas a orientação nunca é demais. Principalmente, vindo de pessoas que tão acostumadas a lidar com situações assim. 


P/1 - Tem algo que não perguntei e que gostaria de comentar?

R - Eu gostaria de dizer, assim, que o projeto é maravilhoso. Eu adorei trabalhar junto. No início, a gente ouvia falar que vinha o pessoal da BRF e eu ficava um pouco nervosa mas, aos poucos, a gente foi se tornando grandes amigos. O projeto foi bom, é bom e está continuando. Tomara que continue, porque é maravilhoso!


P/1 - O que você sente que mudou na vida dos alunos?

R - A atitude deles, como falei. O jeitinho e o cuidado que eles tem. Um fica corrigindo o outro. Por exemplo, na questão da correção. Se um deles tá comendo uma bala, esquece e larga o papelzinho no chão. O outro diz:  ‘Ó’, faz favor! Vai juntar a ‘casca’ da tua bala!. Então, mudou bastante. 


P/1 - Puxando na memória: a escola de antes, a escola de agora.

R -  Uma transformação total [risos]. Não tem nem comparação.


P/1 - Muito obrigada pela entrevista.

R - Eu que agradeço [risos]. 


---FINAL DA ENTREVISTA---


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