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Paulo e suas histórias

História de: Paulo Rodrigues de Almeida
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/11/2005

Sinopse

Entrada no Aché; região onde trabalhou e trabalha (pecuária); antes do Aché foi bancário e jogador de basquete; busca da perfeição nos primeiros dias de trabalho; campanha do Cefaliv; entrega de batata para médicos (constrangimento na primeira visita); gosto pela profissão: ausência de rotina; "jogo de cintura"; região do interior: afnidade com o médico; entrou na sala de um médico que estava suturando um paciente - tinha pavor de situações assim e quase desmaiou; apoio a um colega acidentado; o dia do propagandista; orgulho de estar no Aché.

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História completa

P - Paulo, gostaria de começar pedindo para você me dizer o seu nome completo, data e local de nascimento.

R - O meu nome completo é Paulo Rodrigues de Almeida, nasci em 15 do oito de 1966 na cidade de Apucarana, Paraná.

P - E quando você entra no Aché?

R - Eu entro no Aché no dia 2 de maio de 1995.

P - Na mesma cidade?

R - Não, eu entrei na cidade de Paranavaí. Eu estava em Apucarana, fui até a cidade de Umuarama, fiz o teste em Umuarama, graças a Deus passei nesse teste. E comecei meu trabalho em Paranavaí. Eu, morando em Paranavaí, fazia parte da região noroeste do Paraná.

P - Como é um pouquinho dessa região onde você começou a trabalhar?

R - É uma região onde a pecuária é muito forte. É bem diferente, digamos, da região em que eu nasci e me criei, que é a região norte do Paraná, onde a agricultura é muito forte, onde dizem que a terra é vermelha, a terra é roxa, onde você joga uma semente, plantando, jogou a semente, ela já está começando a produzir, vamos dizer assim. E lá na região noroeste é uma outra cultura, onde o gado, onde o pasto, onde a riqueza é mais centralizada. Então, a diferença das duas regiões que eu pude perceber é essa, digamos, a nível de comércio. Mas a nível da receptividade da classe médica, a região noroeste do Paraná, ela te recebe de braços abertos. São pessoas de um nível cultural muito alto, claro, é a classe média que me recebe, mas eles são muito receptivos. Isso eu pude perceber também. Não só os médicos, como a própria cidade onde eu fiquei morando, foi Paranavaí, como eu te disse, durante cinco anos e meio, seis anos.

P - E como foi a sua entrada no Aché? Você já tinha uma experiência anterior com a classe médica, na indústria farmacêutica?

R - Não, veja bem, por eu ter nascido em Apucarana, me criado em Apucarana, eu pratiquei esporte, inclusive joguei basquete durante 18 anos. Então o esporte me integrou muito à sociedade. Partindo desse princípio, alguns médicos jogavam basquete comigo, ou prestavam algum tipo de serviço ao time da cidade e acabou conhecendo minha família e me conhecendo. E depois eu fui trabalhar em bancos, eu trabalhei em três bancos na cidade de Apucarana e em um desses bancos eu conheci a pessoa que foi o meu supervisor na época da entrada, da minha entrada na empresa. E depois que eu casei, você começa a ver a vida por uma outra ótica. Na verdade você começa a verificar mais lá na frente, você pára de pensar no teu eu e começa a pensar no teu nós, que é uma coisa mais futura. Eu gostaria de melhorar a minha segurança, a minha tranquilidade no meu trabalho e fui conversar com essa pessoa. Ele falou: “Olha, Paulo, eu não posso te por dentro da empresa.” Eu falei: “Mas eu não vim te pedir para me por dentro da empresa. Eu vim te pedir uma chance quando tiver uma vaga dentro da empresa.” Isso eu me lembro muito bem, foi um dia à noite, chovendo, depois de ter conversado com a minha esposa. Aí ele pegou e falou: “Bom, então vai ter um teste tal dia, mas é lá em Umuarama. Então, você vai ter que dar um jeito de sair do banco e ir até Umuarama fazer esse teste.” E foi o que eu fiz. Fui até Umuarama e, como eu te disse, graças a Deus, deu certo, dois meses depois desse teste eu já estava em Curitiba fazendo o curso, já estava registrado no Aché.

P - Você lembra como foram os primeiros dias de trabalho?

R - Os primeiros dias de trabalho é mais ou menos... digamos, eu não me lembro muito bem como eu comecei a andar ou como eu comecei a falar, mas é uma ansiedade muito grande, porque você não quer errar, você procura uma perfeição do que você faz muito grande, e foi onde eu... Na minha primeira visita, um fato típico que me aconteceu muito, cômico, nós tínhamos um produto, o nome dele era Cefaliv, nós estávamos lançando esse produto. Cefaliv é direcionado para cefaléia, dor de cabeça, pela sua formulação. E nós estávamos com uma campanha promocional muito interessante, onde nós fazíamos uma alusão da batata, que os antigos usam, eles cortam a batata, não só os antigos, cortam a batata e colocam na testa para diminuir a dor de cabeça. E de repente eles fizeram uma alusão: você tinha que chegar no médico e fazer essa alusão dessa brincadeira, entregar uma batata dentro de um invólucro, um pacotinho plástico para o médico. Tudo bem, sempre nas primeiras visitas você vai acompanhado de um supervisor, de um superior seu, ou até de um colega de trabalho que já está há mais tempo na região. No meu caso eu fui com esse colega. E entrei no médico, o nome dele era doutor Wilson Quinta Reis Júnior. Ele era da cidade de Terra Boa, no noroeste do Paraná. Eu entrei, o médico... eu tinha algumas afinidades com ele, porque é era são paulino, eu também sou. E eu entrei, assim, achando que, poxa, o médico está ali me esperando, e você tem sempre aquela visão do médico, digamos, naquele patamar: “Eu sou um ser, digamos assim, mortal, e o médico é imortal.” Até eu entrar no ramo farmacêutico eu tinha esta visão, de repente é uma questão de cultura. E quando eu fui conversar com ele, ele, sisudo, sério, contrito na cadeira dele, eu comecei a fazer a propaganda, e no início do seu trabalho você decora, isso é uma coisa lógica. Eu decorei tudo que havia na minha estratégia, comecei a falar, falar, falar, falei do produto, vantagens, benefícios, custo, apresentação, tudo que nós aprendemos, aprendi nos 15 dias de curso que eu fiz. E no fim eu tinha que entregar o brinde. E o grupo Aché sempre foi marcado pelas entregas de brindes. Canecas, brindes diferenciados. Além da receptividade da classe médica, que é muito grande, isso é uma coisa que com certeza, vocês que estão andando pelo Brasil podem ter certeza, podem até ter percebido isso. Mas depois de eu ter feito a propaganda e entregue as amostras eu falei: “Doutor Wilson, eu tenho aqui uma pequena lembrança para te entregar. Me desculpe, não é uma pequena, é uma grande lembrança, algo que vai marcar muito, a chegada do produto Cefaliv.” No momento que eu tirei aquela batata dentro daquele invólucro, um pacotinho plástico grampeado aqui em cima: “Para dor de cabeça, utilize Cefaliv”, eu não me lembro nem de dizer, porque na hora eu fiquei tão nervoso Eu entreguei acreditando que ele ia participar da minha brincadeira, no que eu entreguei a batata na mão dele, ele se retraiu um pouco mais, encostou um pouco mais na cadeira, falou assim: “Rapaz, você sabe com quem você está falando?” Aí eu perdi todo o rebolado, não sabia mais para onde ir, e o colega do lado dando risada porque sabia que era uma brincadeira do médico. O único que não sabia era eu. Eu não sabia que ele estava brincando comigo. Eu falei: “Com certeza, doutor. O senhor é o doutor Wilson.” “Você não sabe que eu sou médico?” Eu falei: “Com certeza, isso eu tenho certeza.” “E onde você já viu dar uma batata para um médico? Você acha que tem cabimento você fazer isso comigo?” Aí eu fiquei todo retraído: “Doutor, o senhor me desculpe, mas eu tenho que falar a verdade para o senhor. Lá na empresa mandaram eu fazer, eu estou fazendo, está aqui e pronto.” (risos) Virei as costas e me retirei, aí ele ficou brincando com o meu colega. Mas passaram-se... todos os meses eu ia lhe visitar, e ele continuou, mas ele estava... todos os meses que eu ia lá ele brincava comigo, mas eu não tinha esse feeling, essa percepção que ele estava na verdade brincando comigo. Eu indo e indo, e vendo aquela batata que ele deixou no consultório. Ele se deu ao trabalho de pregar a batata, ele tirou o quadro e colocou a batata. E foi, aquilo foi me incomodando, eu falei: “Doutor Wilson, o senhor não gostou da batata, não é?” Ele olhou bem para mim e falou assim: “Paulo, eu gostei tanto que ela está me acompanhando, ela está aqui.” Eu falei: “Mas, doutor, batata não é para deixar aí Leva para casa” Ele falou: “Não, Paulo, isso aqui é para você ver que para médico você nunca vai dar uma batata. Você dá atenção, você dá um brinde, você dá uma caneca de chopp, mas batata não. Vou deixar aqui, a hora que ela estragar eu taco na sua cabeça.” Então esse fato marcou muito meu início dentro do Aché. E, realmente, a batata ficou ali até apodrecer. Quando apodreceu ele não jogou fora, ele aguardou minha chegada. “Paulo, estou te devolvendo o teu presente. Você deu uma batata para mim e depois de tanto tempo agora ela é sua.” Então isso marcou muito dentro da minha entrada no grupo Aché por ser a minha primeira visita, que você nunca esquece. Acho que a verdade, a primeira vez na vida de todo mundo, em qualquer situação você acaba nunca esquecendo. Isso marcou muito para mim.

P - E no decorrer dos anos há outras situações em que você vai aprendendo a desenvolver aí um jogo de cintura, não é?

R - Sim, é uma profissão gratificante, é uma profissão que você se apaixona. Isso é uma coisa que eu aprendi com o passar dos tempos. Eu tenho muito amor no que eu faço, na profissão que Deus me deu essa oportunidade de fazer, de exercer, é claro, e o Aché está me dando a oportunidade de utilizar. Porque o Aché é uma escola muito grande. Então o que acontece? Você se apaixona. Cada dia é um dia diferente, você não tem monotonia. Hoje eu estou conversando com vocês. Eu não conhecia vocês, vocês estão aqui conversando comigo, fazendo uma entrevista para falar do que eu mais gosto que é trabalhar no grupo Aché fazendo propaganda. A propaganda médica é uma coisa gratificante.

P - O que você gosta nesse dia-a-dia da propaganda?

R - Não existe monotonia, todo dia é um desafio. Todo dia é um desafio, você levanta, se barbeou, o teu carro já traz amostras dentro do porta-mala, tua pasta já está atrás do teu banco, você já tem a tua visitação programada. “Olha, hoje eu vou começar, vou visitar a doutora Imaculada. Quais as características da doutora Imaculada? Ah, a doutora Imaculada é mais contrita, é mais quietinha, ela não gosta de brincadeira. Ah, mas agora é a doutora Eliana. A doutora Eliana gosta de brincadeira, ela gosta de futebol, mas ela brigou ontem com o marido, com o namorado...” Então com as duas eu vou ter que ter um jogo de cintura diferente. Cada pessoa é uma pessoa. E isso a profissão te ensina, o propagandista aprende isso. Dizem que está na veia, depois de muito tempo você não larga.

P - E como é essas suas andanças? Hoje em dia você continua ainda trabalhando no interior?

R - Continuo.

P - A realidade são pequenos consultórios, são hospitais, como é?

R - A realidade do interior, aliás, eu só posso falar de onde eu trabalhei, que é o interior, é gratificante pelo seguinte: são pequenos consultórios, são hospitais municipais, são clínicas de médio porte, onde você visita o médico na clínica, no hospital, na casa, na fazenda, numa estrada de sinal. Ele está indo para o sítio dele: “Olha, cadê o doutor fulano de tal? O doutor João está indo para o sítio.” Aí eles ligam no celular: “Doutor João, olha, o Paulo...” Eles não ligam no celular, eles só perguntam onde ele está. “Ele está indo para o sítio.” Então eu calculo o tempo que eu tenho e vou atrás do doutor João. Porque ele é um médico importante, ele me dá essa liberdade, a verdade é essa. Já jantei em casa de médico, já almocei em casa de médico, já levei leite para a minha casa que o médico me deu. O bom do interior é isso, a recepção é como se você fosse parte da família. Aniversário de médico eles ligam. Brigou com a esposa, teu ombro é para ele chorar, isso já me aconteceu. “Paulo, eu estou numa crise...” “Mas, doutor?” “Mas vamos conversar, né, quem sou eu para te aconselhar?” Mas isso acontece no relacionamento, ou seja, você vai... creio eu que no interior o grande diferencial é a afinidade que você cria com o médico. É esse diferencial, onde a recepção, onde a amizade, sem sombra de dúvida, se tornam um diferencial muito grande em relação a essa distância que as grandes cidades acabam por proporcionar.

P - Tem alguma outra história com algum outro médico que você gostaria de registrar?

R - Que eu gostaria de registrar alguma outra história? Se você me der um minuto talvez eu possa até pensar, porque essa história me marcou tanto... Ah, sim, tem uma outra história que eu achei muito interessante. Eu estou chegando em uma cidade em Campo Mourão e o doutor Sadaioshi Shimizo... uma das minhas grandes qualidades, modéstia à parte, é guardar nomes, eu tenho um rol hoje de 380 médicos e sei o nome deles, o nome de todos eu sei. Porque na minha opinião a coisa de maior valor no ser humano é o nome. Então eu gosto de chamar as pessoas pelo nome para que me chamem pelo nome. Não estou exigindo nada de ninguém, é só uma particularidade minha. Então fui visitar o doutor Sadaioshi. E eu cheguei: “Onde o médico está?” “Ele está no pronto-socorro.” E o doutor Sadaioshi sempre muito sisudo, esse é sisudo por natureza mesmo. Mas uma pessoa muito gente fina, gosta de jogar bola, de brincar, depois do passar dos tempos nós pegamos muita amizade. E falaram para mim o seguinte: “Paulo, ele está lá no pronto-socorro.” E eu fui entrando, e ele na porta, eu não entro sem o médico me autorizar, por vários motivos, claro. Falei: “Doutor Sadaioshi...?” Aí ele perguntou para a enfermeira: “Quem é que está aí fora?” Falei: “Doutor, é o Paulo do Aché.” Ele falou assim: “É o Paulo?” “É.” “O Paulão, aquele alto?” “É.” “Então manda ele entrar.” Só que o doutor Sadaioshi estava suturando um paciente. Então ele estava ali costurando o paciente, o paciente acho que estava com uma queimadura no pé, não me lembro, alguma coisa assim. E eu morria de medo de ver essas coisas. E eu falei... eu acho que o grande obstáculo da profissão é quando eu tiver que ver um paciente aberto, né? Mas o médico é como se ele estivesse ali, como se tivesse numa propaganda, numa comparação. E ele ali costurando, suturando. E eu entrei. Eu entrei, o rapaz estava deitado e o solado do pé dele, assim, ele tinha só metade do solado, estava queimado, estava verde. Eu não esqueço essa cena, próximo do almoço, eu entrei e parei.(risos) Eu comecei a ficar branco, o sangue começou a querer sair, comecei a suar frio, e ele ali, suturando: “Pode falar, Paulo. Vamos fazer nosso trabalho aqui, porque eu já estou suturando aqui, eu já tenho duas cirurgias, eu sei que o trabalho é corrido, você tem muitos médicos aqui.” Mas ele falando para o paciente, e não me olhando. E a enfermeira, eu encostei na parede e fiquei ali, e fui me escorando, me escorando, e comecei a escorregar, segundo palavra da enfermeira, que eu já fui até perdendo a noção. A enfermeira falou assim: “Doutor, pelo amor de Deus, ajuda o rapaz que acho que ele vai cair.” Então ele largou o paciente para me atender. (risos) Aí ele me acompanhou, falou: “Calma, calma. Calma que a pressão baixou, vem aqui.” E foi uma outra situação cômica.

P - Quase desmaiou.

R - Quase desmaiei. Só que teve uma situação também que foi com esse médico, é uma outra história que eu vou te contar. Eu também estava trabalhando na mesma cidade, cheguei no hospital, fui visitar os médicos, você vai pegando horários, encontro de médicos, concentrações: a tal hora eles estão ali na salinha de café e você já vai começando a conversar com eles, como eu te disse, pegando essa amizade. E eu cheguei no hospital em torno de seis e meia e me falaram na recepção: “Paulo, chegou um acidentado, é um colega seu do ramo.” E no ramo farmacêutico você, como conterrâneo, você acaba tendo afinidades com as pessoas. E próximo ali de Campo Mourão, numa rodovia, um representante de uma outra empresa bateu em um caminhão carregado de dinamite. Ele, voltando para a casa dele, Campo Mourão, Maringá, e bateu nesse caminhão. E arrancou o rodado do caminhãozinho, a carga era ilegal. Graças a Deus ele não faleceu. Não houve explosão, nada, até hoje eles não sabem como, a polícia técnica falou: “Não sei como é que não explodiu isso aqui.” Mas quando eu cheguei, estava visitando o médico e o doutor Sadaioshi também. O doutor falou: “Paulo, é colega teu, é o Rogério, corre, vem cá, vamos ver como é que ele está.” Nem o médico sabia. Eu entrei ali, ele estava todo desacordado, cheio de escoriações, e tal. E ele meio que acordado, meio que dormindo, e o doutor Sadaioshi começou a abrir, ele começou a examinar, ele pegou na minha mão e falou: “Paulo, pelo amor de Deus, liga para a minha esposa, fala que eu estou vivo, mas se eu morrer você vai cuidar deles para mim.” Eu falei: “Rogério, pelo amor de Deus, você não vai morrer.” Aí o sangue... aí você fica meio... você fala mais por impulsão mesmo. “Calma, fica tranquilo, Deus está contigo, eu estou aqui para o que você precisar.” “Paulo, meu dinheiro, minhas amostras” Aí ele começa a delirar. “Minhas amostras Meu carro O que aconteceu?” Eu falei: “Rogério, deixa comigo que eu vou tentar me virar.” Liguei na empresa dele, o pessoal da empresa foi muito gente fina: “Olha, fala para o Rogério não se preocupar com nada.” Inclusive o GD dele também se chamava Paulo. “Não precisa se preocupar porque eu estou acertando aqui para ele.” Ele me pediu minha identificação. Eu falou: “Paulo, o que você puder fazer para mim você faça.” Mas a coisa mais difícil foi falar com a esposa. Eu precisava falar com ela. Ele me incumbiu disso. O médico falou: “Paulo, você se vira e avisa todo mundo para mim.” E eu liguei na casa dele, imagina, uma distância de 100 quilômetros, ou de dez quilômetros, e você ligar para a família e falar: “Seu marido sofreu um acidente.” Eu não me lembro o nome dela, porque eu também estava alterado. Eu falei: “Olha, minha senhora, boa tarde. É Paulo do grupo Aché. Eu estou ligando para informar para a senhora que o seu marido Rogério...” “O que aconteceu? Ele morreu?” A primeira reação dela do lado de lá foi essa: “Ele morreu? Se ele morreu me fala, porque eu tenho filho para criar.” Eu falei: “Não, minha senhora. Graças a Deus ele não morreu. Eu só estou falando para acalmar a senhora. Eu estou com ele, infelizmente bateram no carro dele, mas ele está ok, e eu estou precisando de algumas informações.” Aí o irmão dela pegou o telefone: “Como que você faz um negócio desse?” “Me desculpa Eu não tive intenção nenhuma de assustar vocês, mas eu tenho que ser franco, eu preciso avisar a família. E venham, corram até aqui.” Aí ele perguntou. Para ele eu falei: “Olha, ele bateu em um caminhão de dinamite. O médico está examinando agora.” Eu não ia falar para a esposa que ele estava sendo examinado. O irmão dela e eu sabíamos da situação. Quando ele chegou, ele me procurou, e no fim das contas ele se recuperou, mas foi uma situação para mim constrangedora, que eu fiquei nesse hospital até umas onze e meia, meia noite, se não me engano. Fui para o hotel, continuei, independente disso eu continuei com meus afazeres. Porque eu fui até lá, o médico me tranquilizou, examinou, falou: “Paulo, olha ... é observação. Se tiver que acontecer alguma coisa vai acontecer você estando aqui ou não. O que eu podia fazer eu já fiz. Então daqui para a frente é com Deus."

P - Tem um coleguismo grande, não é?

R - Tem, realmente, nós somos quase que cúmplices. Isso acontece a nível de interior. Tudo que eu estou falando para vocês é a nível de interior, é a minha experiência de interior. É claro, você tem essas afinidades como tem pessoas que você não tem afinidades, isso é lógico. Mas essa foi uma situação meio chata. Mas graças a Deus foi resolvida.

P - Para ir terminando eu queria te pedir para descrever hoje, saindo um pouquinho lá das origens, atualmente como é uma propaganda? Como é a gente tentar descrever, para quem não conhece o que é o serviço de propaganda, todos os passos? Você chega no médico, o médico já vai deixando você entrar, você tem que preencher uma ficha, você tem que dar amostras. Descreve para a gente o que é uma propaganda.

R - Uma propaganda hoje, pelo tempo que eu tenho de empresa, ela se torna mais uma aproximação, uma amizade até do que o lado profissional como eu já citei antes. Funciona assim, você chega a um médico já sabendo o horário em que ele está. Vou num consultório, digamos que eu visite um posto de saúde. Eu me dirijo, fico próximo da porta. Por que próximo da porta? Ele está atendendo um posto de saúde, ou até numa clínica particular, eu vou citar primeiro o posto de saúde depois a clínica. No posto de saúde ele está ali atendendo, ele está com a cabeça baixa na prescrição. Então, quando ele levanta, ele só está vendo o próximo paciente. Então, digamos, eu me aproveito um pouco da minha altura e, mesmo que o próximo paciente está ali, eu fico entre... após o próximo paciente e o que está atrás atrás de mim, digamos assim. Então, quando ele levanta a cabeça para chamar: “Ah, seu José.” Quando ele vai chamar o seu José, a minha reação é a seguinte: “Olha, doutor Antônio Carlos, bom dia” “Ô, Paulo, tudo bem? Olha, depois desse eu converso com você.” Então ele atende o paciente, o paciente sai, aí eu espero o médico me chamar. Eu nunca entro no consultório sem pedir licença ou sem o médico me autorizar. Isso é uma coisa óbvia, uma questão até de educação e de princípio. Aí o médico me chama, eu já estou com a minha pasta com todos os produtos, com todo o portfolio de produtos, minhas literaturas, e começo a apresentar meu trabalho para ele. “Doutor Antônio Carlos? Paulo, Grupo Aché...” Ele fala: “Paulo” Primeiro você não precisa se identificar que a gente já se conhece, mas é um hábito meu. "Paulo, Grupo Aché. Doutor, hoje eu estou aqui com um produto tal, eu estou aqui com Tandrilax, doutor, olha essa promoção..." Eu inicio meu trabalho, conforme o Marketing nos orienta eu inicio meu trabalho. É difícil da gente mostrar sem estar com a peça na mão, seria mais fácil, eu iria te mostrar. Aí, geralmente, na nossa capa tem uma cena cômica que faz sempre uma alusão com o produto. No caso da campanha do Tandrilax é uma cena de um jogador de bola chutando a canela de outro, onde tem um problema, que vai ter um trauma, vai ter uma contusão, uma luxação. E você vai ter... primeiro o problema na parte de cima, e na parte de baixo a solução, que é um tratamento, onde vai precisar do quê? De um produto que tem as ações terapêuticas que estão no interior da peça. Então vai precisar de um antinflamatório, um analgésico e um relaxante. Aí eu abro a minha peça promocional, e aí sim eu falo o nome do produto: Tandrilax. “Aqui o senhor tem a solução final para esse problema. Está aqui, Tandrilax.” Aí eu começo a vender o meu produto. Primeiro eu faço uma alusão, inicio meu trabalho, depois, no meio da peça, eu começo a vender o produto. Aí sim, eu começo a vender, falo os pontos de venda, falo das suas qualidades, da sua absorção, da sua excreção, aí são dados mais próximos do médico. Aí, no final dessa peça promocional, tem sempre a apresentação original, vem com 30 comprimidos, a posologia mínima é de 12 em 12 horas ou, como a maioria dos casos, preconizado de oito em oito horas. Aí vai muito do produto. E depois de eu ter feito isso, colocado a peça promocional ali, eu deixo a quantidade de amostras que esse médico recebe costumeiramente, e converso com ele. Nesse ínterim nós já conversamos, já fizemos aquela quebra de gelo, ele já me falou da família, eu já falei do fim de semana, ele já falou do futebol, ele já falou da pescaria, já perguntou do meu fim de ano, já perguntou do retorno das férias. Então, por essa proximidade e por esse tempo o meu trabalho continua sendo esse, ou seja, de aproximação.

P - E às vezes tem um brinde também.

R - Sim, às vezes tem um brinde. Então terminou, como no caso do Cefaliv, que eu entreguei, então de repente você deixa ali um bloco de receituário, uma caneta, uma coisa assim. Atualmente nós não estamos entregando brinde, na verdade, mas geralmente tinha sempre um brinde para deixar para ele como lembrança.

P - E depois você tem que preencher um relatório, fazer um registro?

R - É, hoje aí eu ando, como eu conversei contigo, são fichas, elas são por leituras óticas, eu só preencho essa ficha ticando uma por uma o mês, o dia da visita, o período da manhã e da tarde e o número da visita. Depois eu só encaminho para a minha empresa e passo, entro em contato com eles por alguns e-mails, para comunicar como foi o meu trabalho da semana. Para resumir o trabalho, seria mais ou menos isso.

P - Está certo. Para finalizar, eu queria te perguntar o que você acha dessa história do Aché ter decidido contar a sua história, de ter aberto esse espaço para lembrar as histórias passadas?

P - Digamos que esse era um sonho muito pessoal. Eu estive no Aché no ano de 1997, se não me engano, se não me falha a memória. Eu fui num curso lá em São Paulo, e quando perguntaram... os proprietários da empresa estavam lá, me perguntaram o que achavam do Aché, o que o Aché deveria fazer. Eu falei: “Olha, a primeira coisa que o Aché precisa fazer é vender o Aché para o Brasil. O Brasil precisa saber quem é o Aché.” Você precisa ter uma história, você precisa ter uma memória, porque quando Deus quiser que eu chegue nos meus 80 anos e perguntar o que eu fiz na minha vida. “Bom, eu trabalhei no Aché.” “Pô, pai, mas o Aché...?” “Ah, eu vi sobre o Aché em tal lugar, contaram a história do Aché, o Aché começou assim...” Quer dizer, para mim é motivo de orgulho da onde eu estou. Mas o orgulho se torna maior quando as pessoas que estão à minha volta, os brasileiros que estão à minha volta vão saber que eu fiz parte dessa história. Então é um sonho quase que realizado, é uma coisa muito gratificante saber que de certa forma o Aché me ouviu. Então eu já me senti importante a partir desse momento, de certa forma, de uma maneira ou de outra. Estão contando a história, partiu daquilo que eu falei há tempos atrás, tenho essa convicção dentro do meu coração. E para mim é muito gratificante ter isso, ter essa certeza de que faço parte da história do Aché e, se Deus quiser por muito tempo eu farei ainda.

P - Você falou do orgulho de participar do Aché. Eu queria que você dissesse o que te atrai mais nessa empresa?

R - O que me atrai mais nessa empresa é a maneira como a empresa me trata. A empresa me trata como ser único na face da terra, eu me sinto assim. “Paulo, você tem objetivos, você alcança esses objetivos e quando você chega neles você tem mais objetivos.” Ou seja, o objetivo dentro do Aché, na minha opinião, é sempre o infinito. Sempre, quando você chega... mas é uma coisa pessoal e não uma coisa impessoal, ou seja, ela não é imposta, ela é conquistada. É esse namoro, essa conquista que o Aché acaba passando para o funcionário no seu dia a dia. É isso que me conquista no Aché. É isso que me motiva a trabalhar na Aché. Você vem para uma reunião, você conhece pessoas diferentes, você conhece hábitos, diferentes, costumes diferentes, e você aprende. O Aché ensinou que a vida é uma grande história. A todo minuto você está aprendendo. E dentro do Aché é assim, é gratificante. É uma coisa que quem faz gosta. E eu gosto.

P - Muito obrigada.

R - Eu que agradeço.

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