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Patrimônio do trabalhador: solidariedade e sindicalismo

História de: Bartolomeu Romcy Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/05/2020

Sinopse

Bartolomeu, fala um pouco da sua trajetória de vida até chegar no DIEESE. O depoimento lembra de momentos difíceis que levaram a soluções inteligentes e solidárias, garantindo a manutenção e expansão da instituição. Também é possível perceber as mudanças tecnológicas através do tempo. Aqui ele mostra sua visão da importância  do trabalho dos sindicatos com o DIEESE para os trabalhadores.

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História completa

P/1 – Sr Bartolomeu, eu gostaria que o senhor começasse dizendo o seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Meu nome é Bartolomeu Romcy Costa. Minha data de nascimento é 23 de dezembro de 1951.

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

R – Jaime Costa e Ruth Romcy Costa.

P/1 – Qual a origem do nome dos seus pais?

R – A origem do meu pai é origem portuguesa, o sobrenome Costa. E da minha mãe, Síria.

P/1 – O senhor poderia descrever a rua e o bairro que o senhor morava quando era criança?

R – Bom, o meu pai era viajante de laboratório. Então, eu fiquei por várias cidades do interior de São Paulo e Zona da Mata em Minas e foi assim que aconteceu, porque meu pai como era escalado para ficar em certas regiões. Passamos por várias cidades.

P/1 – E como que era o dia-a-dia na sua casa?

R – No dia-a-dia a minha mãe não trabalhava, ela ficava em casa, o meu pai viajava. Então, eu tive uma infância boa no interior, era gostoso, brincando, estudando...foi uma infância muito, muito boa. Tenho boas recordações.

P/1 – E quais eram as brincadeiras favoritas?

R – Nós tínhamos muitas brincadeiras da época. A gente brincava, caçava, pescava, brincava de bolinha de gude, era uma brincadeira... Soltar pipa, chamava pipa, então... Muito bom, ótimo! Foi uma infância muito feliz.

P/1 – E quanto aos estudos, onde que o senhor estudou?

R – Bom, eu estudei em um Grupo Escolar, era como se falava antigamente. E estudei em várias cidades, fazia a transferência. E fiz o curso técnico em ciências contábeis aqui em São Paulo.

P/1 – Quando que o senhor estudou, a época mais ou menos, o senhor se lembra?

R – Lembro que foi quando eu cheguei aqui em São Paulo. Foi  em 1970 a parte que eu fiz o técnico em ciências contábeis.

P/1 – E qual foi o seu primeiro trabalho?

R – O meu primeiro trabalho, eu trabalhei numa loja de peças de fogão na Celso Garcia.

P/1 – E o que o senhor fazia lá?

R – Eu atendia o balcão. Eram várias atividades porque era uma loja, então atendia o balcão, fazia a parte de suprimento dos materiais...

P/1 – E aí como é que o senhor conheceu o DIEESE?

R – Eu fui indicado por um professor muito amigo nosso. Ele me indicou para o Walter Barelli que na época estava precisando de um técnico de contabilidade. Aí ele me avisou, e eu fui lá fazer o teste,  passei e entrei no DIEESE.

P/1 – E antes desse primeiro contato o senhor já tinha ouvido falar do DIEESE? 

R – Sim, já tinha ouvido falar do DIEESE porque tinha as pesquisas. O DIEESE sempre foi falado na imprensa, então eu ouvi falar no DIEESE.

P/1 – E como era o seu local de trabalho quando você começou a trabalhar?

R – Quando eu entrei estava no prédio dos Marceneiros, Rua das Carmelitas, no terceiro andar. Então, começamos a trabalhar ali. Era pequeno, um andar, mas o DIEESE também era pequeno. Então, fazíamos todos os trabalhos ali.

P/1 – Como que era o funcionamento ali da seção?

R – Você diz, assim, do meu trabalho?

P/1 – Isso. Que horas que o senhor chegava para o trabalho?

R – Olha, então, eu chegava às oito da manhã e saía às 17 horas, modo de dizer “às 17 horas” porque a gente ficava muito mais, porque se empenhava. Nós tínhamos muitas coisas para fazer, era um grupo pequeno e a gente tinha múltiplas funções.

P/1 – O senhor lembra as funções?

R – Sim, lembro. Na época eu fazia análise de balanço, setor de pessoal, a contabilidade e até corria para os bancos para fazer a parte bancária.

P/1 – Como que foram as mudanças? Quando o senhor entrou deve ter ocorrido algum tipo de mudança na cobrança das contribuições dos filiados do DIEESE.

R – Certo.

P/1 – Como foram essas mudanças desde a época que o senhor entrou até os dias de hoje? O senhor poderia descrever?

R – Das contribuições na época: a gente fazia a cobrança e a conta - me lembro até a conta - era 716-1 na Vila Maria, me lembro bem. Fazíamos a cobrança por ali, mandavamos os boletos via correio e fazíamos os pagamentos necessários com essa cobrança do sócio, da contribuição social. E aí com o tempo foi mudando, apesar de que o nome contribuição, contribuição para o DIEESE,  continuar até hoje. Só que aí entraram as subseções. Então, é uma mesma cobrança mas de um outro estilo, a subseção é um técnico alocado no sindicato, tem um outro perfil.

P/1 – Como é hoje a cobrança?

R – Hoje a cobrança continua no Banco do Brasil. Mas acrescentou essas subseções e hoje nós temos também as pesquisas, os projetos. Temos várias contas, antes tínhamos uma conta, hoje temos várias contas que são dos projetos.

P/1 – Como o senhor sempre acompanhou a contabilidade, que momentos que o senhor descreveria como os mais problemáticos vividos  pelo DIEESE?

R – Vivemos períodos de instabilidade no DIEESE... nós recebemos a contribuição dos sindicatos e muitas vezes os sindicatos com problemas financeiros não podiam nos pagar. Então a gente passava por aquele apuro. Na época dividimos até salários para serem pagos várias vezes. Procurávamos aquele que ganhava menos para pagar antes e os outros a gente deixava um pouco depois. Quer dizer, foram períodos duros da vida do DIEESE, mas graças a Deus passamos essas tempestades e chegamos até aqui.

P/1 – O senhor lembra algum ano especificamente que foi difícil?

R – Foram vários anos... vários anos, não foi um só. O DIEESE, devido a essa característica da contribuição social, tem vários problemas durante a história de recebimento, mas tivemos também a solidariedade de sindicatos grandes que nos ajudaram antecipando mensalidades trimestrais, semestrais, nos ajudando a passar aqueles momentos difíceis.

P/1 – O senhor lembraria que sindicados, por exemplo, tanto aqueles que passaram por dificuldades – não sei se houve algum sindicato que fechou, aconteceu isso ou chegou nessa situação –  e quais sindicatos que fizeram essa contribuição?

R – Os sindicatos que passaram por problemas, como a nossa cobrança… eram vários. Vários sindicatos não podiam nos pagar no vencimento. Não dá para precisar porque a cobrança vinha através de boletos. Vários sindicatos que tinham problemas de caixa deixaram para nos pagar depois. E como a gente precisava no momento o sindicato que muito nos ajudou - inclusive cito o nome do tesoureiro que muito nos ajudou: Bernardino Testa - antecipando a mensalidade do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Nos ajudou muito antecipando as mensalidades. Às vezes antecipava três, quatro, cinco mensalidades. Sempre nos socorreu.

P/2 – A que o senhor atribuiria essa solidariedade?

R – Essa solidariedade vem do próprio contexto do DIEESE. O DIEESE é uma entidade que é criada e mantida por sindicato de trabalhadores. E os nossos dirigentes, os dirigentes sindicais conscientes, sabem da importância da instituição não só para o sindicato como para os trabalhadores.

P/2 – O senhor falou da solidariedade dos sindicatos para com o DIEESE. Mas o senhor falou também da solidariedade interna com os critérios para fazer os pagamentos nos momentos de crise. O senhor poderia falar mais um pouco sobre esses critérios que o senhor mencionou aqui?

R – Na realidade o que existia é que tinham salários mais altos, salários dos diretores, do pessoal técnico e todos solidariamente abriam mão de receberem os seus salários em prol daqueles que recebiam menos, por exemplo; office boy, o pessoal que ajudava na limpeza etc. Então isso é uma solidariedade interna que nos ajudou muito. Quer dizer, a gente formava um grupo, forma um grupo muito forte no qual o objetivo é de ajudar a todos ainda mais em questão de sobrevivência, pois o órgão precisaria sobreviver. E o [Walter] Barelli, me lembro muito bem, foi sempre assim. Ele mesmo deixava de receber, deixava para receber para frente para poder ajudar os outros que recebiam menos.

P/1 – O senhor lembra de alguma atividade, que o DIEESE chegou a fazer, tipo, uma campanha para poder se manter? Chegou a ter alguma coisa?

R – O que nós fazíamos era através do Barelli também, que era ligar para os sindicatos: “olha, não atrase a contribuição, nos ajude, nós precisamos manter a entidade....”. E alguns sindicatos, como o dos Metalúrgicos, nos socorriam no momento certo, então, essa campanha era importante para gente passar por esses momentos.

P/1 – Como o senhor vê a importância do DIEESE na sociedade?

R – Eu vejo o DIEESE como um patrimônio muito forte do trabalhador porque... O que acontece? É um órgão sem similar no mundo todo que nós conhecemos. Uma entidade que nasceu para poder fazer frente aos trabalhos técnicos, quer dizer, as empresas tinham os seus técnicos formados até no exterior e os sindicatos não tinham. Então, foi criado o DIEESE justamente para poder sentar numa mesa, porque o trabalhador geralmente oriundo da sua base não sabia mexer com matemática financeira, com cálculos tão complicados, e era preciso ter um técnico de confiança do movimento sindical que sentasse à mesa e pudesse discutir na mesma altura.

P/1 – O que o DIEESE significou na sua vida?

R – Olha... Eu até me emociono em dizer o que significa (CHORO), eu fico emocionado porque significa tudo. Eu amo essa instituição, entrei com a missão de trabalhar com o dinheiro, de ficar na beira do cofre, vamos dizer assim. E eu faço tudo por ela porque sinto a importância. Quando eu entro para trabalhar eu sinto que eu tô trabalhando não só pelo o DIEESE mas também para os trabalhadores, ainda, mais por aqueles mais humildes que lutam tanto para poder ter um salário justo.

P/1 – O que o senhor achou de contar um pouquinho da sua história no DIEESE para um projeto memória da instituição?

R – Eu achei uma oportunidade sem igual. É importante resgatar a memória do DIEESE para que ela possa servir para o futuro, para os jovens. Eu já estou com uma certa idade, com 55 anos, me formei aqui dentro do DIEESE. Sempre procurei dar o meu melhor. Eu acho que nós precisamos cada vez mais dessa nova geração para cuidar do DIEESE, fazer com que ele cresça, mas que nunca perca a sua identidade que são os dados honestos. Os dados feitos de uma maneira que sempre foi consagrada, não só pelo movimento sindical, como pela sociedade.

P/1 – Alguma questão?

P/2 – Senhor Bartolomeu, como o senhor poderia descrever, assim, os momentos mais felizes que o senhor teve no DIEESE?

R – De momentos mais felizes. Foi quando a gente conseguiu o equilíbrio do que poderia pagar na folha. Passados aqueles problemas tão grandes, a gente conseguia pagar em dia, conseguia fazer com que técnicos do DIEESE continuassem na instituição. Então ver todo aquele trabalho crescendo, todo o DIEESE fazendo todos os trabalhos técnicos, crescendo junto com o movimento sindical foi muito importante. É muito prazeroso saber que nós chegamos até aqui  sempre de cabeça erguida. O DIEESE nunca foi contestado, tudo que aconteceu o DIEESE sempre esteve, vamos dizer, de mãos limpas, inclusive servindo de modelo de honestidade e dignidade para o movimento sindical. Nunca houveram problemas aqui no DIEESE de desvio de recursos. E isso é uma questão que mexe muito com a gente porque precisamos dar exemplo. Com tantos problemas acontecendo na sociedade que a gente vê aí, infelizmente. Com tantos problemas e o DIEESE conseguiu se manter num rumo certo, honesto e digno.

P/1 – Senhor Bartolomeu quais são os seus sonhos quando pensa em DIEESE?

R – Meus sonhos, o primeiro deles que vem à minha mente, forte, é o DIEESE ter o seu patrimônio, ter onde ficar. Eu sinto em dados momentos como o povo hebreu na diáspora. Nós não temos ainda um prédio nosso, o meu grande sonho é o DIEESE ainda ter um prédio onde possa ficar, onde possa não ser retirado a qualquer momento. Então, nós não temos esse prédio, precisávamos ter para que nunca mais alguém tire a nossa sede. E que o DIEESE sobreviva durante anos e anos sem problemas da gente sair da instituição, sem ser pedido para sair.. É um sonho. E eu até comentava ali: “puxa vida, gostaria até antes de eu me aposentar, de ir para o andar de cima da casa 1, que o DIEESE tivesse um lugar para ficar seguro, um lugar seu, um lugar próprio, ou seja, um lugar do trabalhador.

P/1 – Muito obrigado.

R – Eu que agradeço.

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